Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Cine Teatro Garrett em Moçâmedes


Vista aérea de Moçâmedes na década de 1930


Sem ter conseguido uma foto para aqui expôr, não deixarei contudo de fazer neste blogue uma referência à primitiva sala de espectáculos de Moçâmedes que foi o Cine Teatro Garrett, situado na Rua Calheiros, da qual era proprietário Raúl de Sousa, onde até meados dos anos 1940 os moçamedenses viram correr os seus primeiros filmes, grande parte dos quais ainda em cinema mudo, e assistiram às primeiras peças de teatro e de revista.


Sobre esta casa de espectáculos, dizem os que a frequentaram que o interior era todo forrado a madeira trabalhada, possuía frisas, camarotes, plateia e cortinados de veludo vermelho vermelho, um requinte interior que, salvo as devidas proporções, fazia lembrar o Teatro S. Luiz de Lisboa. Acabou demolido para dar lugar à sede do Atlético Clube de Moçâmedes, numa altura em grande parte da madeira trabalhada que forrava o seu interior, já se encontrava corroída e incapaz para ser aproveitada, tendo a cidade ficado temporariamente sem sala de espectáculos, até que surgisse o Cine Teatro de Moçâmedes. Foi no pequeno palco do edifício-sede do Ferrovia, clube recreativo e beneficiente, sito na Rua Serpa Pinto, que nesse interim, decorriam sem grandes condições de acomodamento sob a exploração do mesmo Raúl de Sousa, as sessões cinematográficas e peças de teatro,  sem nunca atingir o grande público que tinha entranhada a ideia que somente os sócios do Ferrovia poderiam frequentar aquele espaço.

Dizem os antigos que na bela sala de espectáculos do Cine Teatro Garret foram levadas à cena peças de Teatro e de Revista por Companhias metropolitanas que nas suas digressões por Angola e Moçambique se faziam acompanhar, inclusive, pelas respectivas orquestras. 


As imagens abaixo mostram-nos dois recortes de jornal e um folheto publicitando a peça de teatro «O Cão e o Gato», um acto de variedades com a "Orquestra Zíngara de Lisboa", e outro sob o título "Tirolilo", peça que deixou no ar uma cantiguinha que chegou aos meus tempos de criança, e cuja letra era mais ou menos assim:


"...Cá em cima está o tiro-liro
Lá embaixo está o tiro-liro-ló
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
E a dançar o sol e dó...

Comadre, minha comadre,
gosto muito da sua afilhada,
É bonita, apresenta-se bem e
parece que tem,
a face rosada...


etc..
A revista "Coração ao Largo" promovida pelo Atlético Clube de Moçâmedes, foi um êxito de bilheteira.
Programa da Revista "Coração ao Largo"



Mas ao palco do Cine Teatro Garrett também subiram artistas da nossa terra, crianças, jovens e adultos. Foi ali que Zélia Pimentel Teixeira, ensaiou e levou à cena, nos anos 1940, integrando a Revista "Coração ao Largo", o seu grupo de ballet constituído por dezenas de garotas e jovens de Moçâmedes, que incluía, entre outros bailados, o "Bailado das Horas". Era desempenhado por 24 bailarinas de diferentes idades, que dançaram magistralmente, e que eram distribuídas por 4 grupos, consoante as idades, representando as mais novinhas, as madrugadas, as da idade seguinte, as manhãs, as mais cresciditas, as tardes, e as mais velhas, as noites. O acompanhamento ao piano teve a cargo da gentil colaboração de Eduarda Torres. Faziam parte desta Revista os seguintes quadros: 1. Mossâmedes à vista 2. No Quisque do Faustino 3. Coisas e Losas 4. Beija-me muito 5. Cenas de Rua. Era uma Revista em 2 actos e 5 quadros, um original de A. Portela Junior. Eram "compéres", ou seja, aqueles que sem abandonarem o palco, permanentemente conduziam a apresentação das cenas, Zé topa tudo-Norberto Gouveia (Patalim) e Manuel Chibia - António Martins ( António Latinhas). O espectáculo foi promovido pelo Atlético de Mossâmedes. Foi levada á cena vezes sucessivas e sempre com bilheteira esgotadas. O preço da entrada eram variados conforme se tratava de camarotes, frisas, plateia e geral (desde 102,50 a 5,50).

De entre os participantes da Revista "Coração ao Largo" que foi aplaudida de pé e esgotou sucessivas bilheteiras, deixamos os nomes das irmãs Rosa e Madalena Bento, Mercedes e Ivete Campos, Salette e Lurdes Leitão, Lurdes, Noelma e Zilda Sousa Velli, Lizete e Branca Gouveia, Edith e Odete Serra, Nide e Lurdes Ilha, e também de Aida de Jesus, Octávia de Matos, Maria Adelina, Alexandrina Ascenso, Odete Serra, Odília de Jeses, Aline Gomes, Ana Liberato, Armando de Campos, Augusto Costa, Carlos Ervedosa, Hugo Maia, Joaquim Lemis Loução, José Manuel R. Santos, José Pestana, Mário Rocha, Rui Meneses, Henrique Meneses, Wilson Pessoa, Norberto Gouveia (Patalim), Artur Caléres. A parte musical esteve a cargo de Maria de La Salette Leitão e de Ivete Campos (piano), e ainda de A. Portela Junior (violino), Anselmo de Sousa (trompete) e Firmo Bonvalot (jazz).

Muito ovacionada foi a canção "Besa-me, besa-me mucho", interpretada em dueto constituido por Rosa Bento e Armando Campos (Rosa Bento era então conhecida como a "voz de ouro do deserto"), e a exibição dos bailarinos Lizette Gouveia e Rui Menezes (valsa), à época namorados, ela de vestido comprido, ele de casaca preta, e a interpretação de Armando Campos que, representando a figura de Leão da Encarnação, um residente da cidade dedicado ao agiotismo, cantou uma canção que rezava mais ou menos assim: " Sou o Leão da Encarnação, o dono de uma Pensão... rataplão... rataplão..." No Cine Garrett cantaram também, entre outros, Augusto Gavino, e, em tempos mais recuados, subiram à cena peças como a "Gioconda".

Naquele tempo em que as ruas da cidade sequer eram asfaltadas e convenientemente iluminadas e as pessoas andavam a pé, sendo escassas as lojas de moda, conta-se que as nossas e os nossos elegantes quando assistiam a espectáculos no Cinema Garrett exibiam elegantes tailleurs bordados a fita e lantejoulas, casacos de peles, luvas, chapéu, etc, elas, e eles modernos fatos, com colete, gravata e chapéu de marca, indumentárias mandadas vir dos Armazéns "Printemps" de Paris, através de uma loja de Moçâmedes denominada "Armazéns Primavera", situada no rés-do-chão do edifício centenário que foi residência dos Mendonça Torres, no gaveto entre a Rua dos Pescadores e a Rua 4 de Agosto, mais tarde Hotel Gouveia.


De início eram os Cine-Teatros, porquê? 


O surgimento do Cinema acompanhou as mudanças ocorridas com a industrialização do final do século XIX, e foi a resposta da época no campo da manifestação artística. Enquanto forma de expressão, o Cinema vai buscar ao teatro as primeiras tentativas de uma estética própria, que o levaria a procurar, também, um lugar apropriado para a exibição dos filmes. Apresentado inicialmente como uma curiosidade para o público frequentador dos music-halls, dos cafés-concertos e dos pequenos teatros, aos poucos o Cinema vai criando salas próprias para um público próprio, numa trajetória evolutiva que passa pelo período efervescente da belle époque até o período áureo, marcado pela conquista arquitetónica definitiva, com a associação ao movimento arquitetónico e artístico do Art déco, surgido nos loucos anos 20, em Paris, reconhecido hoje em dia como um primeiro passo rumo à modernidade.

Ficam recordações de momentos momentos passados num outro tempo naquela que sendo então Moçâmedes, é hoje a cidade do Namibe.

(ass) MariaNJardim
20.06.2008



Nota: Este texto insere-se na série de textos aqui publicados, que visam fornecer um retrato, o mais vivo e real possível, daquilo que foram as vivências e as convivências em Mossâmedes/Moçâmedes, hoje cidade do Namibe, em Angola, no decurso da época colonial. São textos baseados em memórias de vivos, experiências vividas, que nos mostram como a cidade foi evoluindo ganhando terreno ao deserto, e permitem desvendar modos de ser e de estar, atitudes perante o quotidiano, aos quais se juntam também referências retiradas à História, na medida em que a luz do passado ilumina o presente ajudando-nos a interpretá-lo e a compreendê-lo. Encontra-se protegido por direitos de autor, pelo que só pode ser reproduzido por outrem desde que seja mencionada a fonte de onde provêm. As fotos aqui colocadas não poderão ser reproduzidas para fins comerciais.



 



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