Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Dr. Luíz Wittnich Carrisso e o Deserto do Namibe, Moçâmedes, Angola

Foto de Marian Jardim. 
 Recepção em Moçâmedes à chegada ali, no ano de 1937, do  Dr. Luíz Wittnich Carrisso. Podemos ver, à esquerda, duas caras conhecidas da terra, Armando Guedes da Silva e António Guedes da Silva, tendo à sua direita, de chapéu de abas largas, fato cinza, camisa branca e laçinho, o ilustre Dr Carriço



Esta foto mostra-nos a recepção efectuada em Moçâmedes, à chegada ali, do Dr. Luíz Wittnich Carrisso (1886-1937), o ilustre botânico.que foi professor catedrático da Universidade de Coimbra, e que no Deserto do Namibe, ao qual fez várias incursões, estudou a flora tropical, tendo contribuido em muito para a larga colecção de plantas africanas do Herbário de Coimbra, quer pelas expedições que organizou a Angola durante as quais foi colhido grande quantidade de material, quer pelo legado de entusiasmo pela investigação das plantas dessas paragens. Foi autor de "Flores de África", "Agrostologia de Angola" e "O Problema Colonial perante a Nação".

Na terceira das suas expedições científicas, o Dr Carrisso faleceu repentinamente de síncope cardíaca aos 51 anos, a 14 de Junho de 1937 , em pleno deserto do Namibe. A expedição subia o morro e colhia plantas. Carrisso sentiu-se mal e regressou aos veículos, pelo seu pé, sem ajuda, já se sentindo melhor. À beira da tenda, um cajado numa mão, um molhe de plantas na outra, enquanto lhe preparavam a cama de campanha acabou por concordar que fosse chamado um médico a Moçâmedes Deitou-se, ajeitou-se na cama, faleceu!

Passarei a transcrever um texto interessante relacionado com a morte do Dr. Carriço, encontrado no blogue de Namibiano Ferreira:

"KANE-WIA, o mítico morro do Namibe
«No interior da província do Namibe, em Angola existe, próximo do Virei, um morro conhecido pelo nome de Kane-Wia, termo que, em idioma Tchierero (língua dos Mucubais) significa “quem o subir não volta” ou "quem sobe não volta". Contava-me o meu avô (João Craveiro de Tombwa) que nunca ninguém ousou subir este morro porque as histórias contadas pelos Mucubais referiam que quem subisse este acidente geográfico não mais regressaria. Portanto, O Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. »

 Foto de Marian Jardim.
 Monumento alusivo ao botânico Dr Luiz Wittnich Carrisso, falecido no Deserto do Namibe



Algum tempo atrás, na estrada-picada, a cerca de meio caminho entre o Pico do Azevedo e o Virei, quem fosse com atenção encontrava junto à berma da estrada uma abandonada lage alusiva ao ali falecido botânico Dr Luiz Wittnich Carrisso, o professor catedrático que sucumbiu no seu posto, naquele sítio ermo, onde a curiosa Welwitschia não medra e as Suricatas vegetam a par de uma ou outra Tua pernalta e os arbustos, certamente por ele estudados, mais densos à volta daquela modesta laje , parecendo querer protegê-lo do sol ardente que ali se faz sentir. Qualquer pessoa de formação cristã que ali se apeie, sente a tristeza daquele quadro abandonado e, ao ler o epitáfio naquela laje gravado, nostalgicamente não deixará de ali fazer uma oração em homenagem a tão ilustre botânico.

MariaNJardim

Sem comentários:

Enviar um comentário