Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 25 de novembro de 2016

As viagens gloriosas do famoso navegador Diogo Cão à Costa Ocidental da África








Tais palavras tirou do experto peito:

"-Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cúa aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

Dura inquietação d' alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios !
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana.

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente ?

Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

Mas, ó tu, gèração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,

Mas inda doutro estado, mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade de ouro , tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:

Já que nesta gostosa vaïdade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome "esforço e valentia",

Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá :

Não tens junto contigo o Ismaelita ,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a Lei maldita ,
Se tu pola de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita
Se terras e riquezas mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

Deixas criar às portas o inimigo,
por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!

Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor, com larga cópia ,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!

Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pôs em seco lenho !
Dino da eterna pena do Profundo ,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!

Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória
Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).

Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!

Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector co filho , dando,
Um, nome ao mar , e o outro, fama ao rio .

Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana gèração.
Mísera sorte! Estranha condição!"

Os Lusíadas (IV, 94-104)

* * *


(Mensagem)

 





 


PADRÃO

O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada , é minha a parte feita
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas , que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar. 

(Fernando Pessoa)

Roque Gameiro, Diogo Cão (aguarela)

DIOGO CÃO E AS "DESCOBERTAS"

Foi assim que tudo começou...


Cavaleiro de D. João II,  Diogo Cão foi por este mandado continuar a tarefa iniciada por Fernão Gomes, com a exploração da costa sul da região da Mina, ou seja, avançar ao longo da costa ocidental africana para sul. Em África, por esta altura, já a bandeira portuguesa tremulava, orgulhosa, nas fortalezas de Ceuta, Alcácer, Arzila e Tânger; Azamor rendia-se; e Diogo de Azambuja, acabava de fundar o Castelo de S. Jorge da Mina. As descobertas dos Portugueses, porém, só tinham chegado até ao Cabo de Santa Catarina, a 1º 52’ de latitude austral, visitada, em 1471, pelo navegador Rui de Sequeira.


Assim,  Diogo Cão vai comandar duas expedições entre 1482 e 1486, e dar início ao descobrimento humano e a uma vasta comunidade de cultura, sobre que iam assentar os fundamentos da província portuguesa de Angola.


A primeira viagem, em 1482, partiu de Lisboa com duas caravelas, acompanhando-o o notável cosmógrafo Martim Beheim, introdutor do uso do astrolábio na navegação e autor do afamado Globo de Nuremberg.  
 

Depois de ter chegado à foz do rio Zaire, avançou 150 km para o interior, chegando até às cataratas de Ielála, onde deixou marcada a sua presença através de uma inscrição na célebre pedra. Utilizou também os padrões de pedra (com inscrições em latim, português e árabe), que colocou nalguns pontos da costa. Foram feitos os primeiros contactos com o reino do Congo. 

Pensando ter chegado ao extremo sul de África, Diogo Cão comunicou a D. João II, que satisfeito lhe retribuiu com o direito a brasão, honras e privilégios de nobre e fidalgo a si e a todos os seus descendentes legítimos, bem como uma tença anual. 

D. João II desejoso de apertar relações com o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu, de fazer regressar os indígenas de lá trazidos, de recolher os emissários e de prosseguir na descoberta do caminho marítimo para a Índia, enviou  Diogo Cão no segundo semestre de 1485, numa segunda viagem, com duas caravelas.

Para o rei do Congo, Nzinga-a-Kuvu, enviou ricas prendas ofertas de amizade, e recomendou renegar aos ídolos, feitiçarias e abraçar a religião cristã. Continuava a prática, iniciada em tempo do Infante D. Henrique, da formação dos intérpretes, que permitiam um contacto mais íntimo entre descobridores e os aborígenes.
 

Segundo informações (Barros), Diogo Cão no regresso foi visitar o rei do Congo à sua corte, tanto este historiador, como os cronistas Rui de Pina e Garcia de Resende contam o facto, dando-lhe grande e merecido relevo: informa o último que o rei do Congo recebeu com o maior alvoroço a embaixada portuguesa e os quatro congoleses que regressavam de Portugal, e em troca mandou a el-rei por embaixador Caçuta [...], homem muito principal e a ele mui aceite, que depois de ser cristão, houve nome D. João da Silva [...], o qual trouxe a el-rei [D. João II] um presente de muitos dentes de elefantes e coisas de marfim lavradas, muitos panos de palma bem tecidos e com finas cores. Fiado no cumprimento da primeira promessa do capitão português, que devolvera à terra natal os quatro congoleses, agora bem vestidos e contando maravilhas sobre o tratamento recebido e o novo mundo de cultura entrevisto em Portugal, o rei do Congo (conta Resende), mandou pedir a D. João II que lhe mandasse logo frades e clérigos e todas as coisas necessárias para ele e os de seus reinos receberem a água do baptismo; [...] pedreiros e carpinteiros [...] e também lavradores para lhe amansarem bois e lhe ensinarem a aproveitar a terra e assim algumas mulheres para ensinarem as de seu reino a amassar o pão, porque levaria muito contentamento por amor dele que as coisas de seu reino se parecessem com as de Portugal . O rei indígena enviou também alguns moços do seu reino para que em Portugal aprendessem a língua, os costumes e a religião dos portugueses.» In Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses - III, [Lisboa], I.N.C.M., imp. 1990, pp. 590-5

Nesta segunda viagem, entre 1485 e 1486, Diogo Cão avançou cerca de 1500km para sul, tendo chegado ao Cabo Negro. De acordo com a posição tradicional, Diogo Cão, depois desta segunda viagem, teria caído em desgraça junto de D. João II, explicando-se assim a ausência de mais notícias sobre ele. No entanto, um autor, A. Fontoura da Costa, aponta que o silêncio que se seguiu ao seu regresso ao reino se deveu à morte física. 

Quanto ao número de viagens efectuadas por Diogo Cão, tem sido polémico o estabelecimento definitivo do seu número verdadeiro, pois enquanto uns defendem ter ele realizado apenas uma só viagem, outros  defendem terem sido duas as viagens. A investigadora Carmen Radulet, por ex., defende ter Diogo Cão realizado, em vez de duas viagens, três viagens.
  
Segundo A. Mata: “Diogo Cão colocou ao longo do litoral angolano 3 (três) padrões e 1 (um) no actual Cape Cross - Namíbia (antigo Sudoeste Africano)”. ( I )“O padrão conhecido de S. Jorge foi erigido junto à foz da margem esquerda do Rio Zaire ou Congo, num local conhecido por Moita Seca, latitude 6º 2' 60" Sul”. ( II ) “O Padrão de Stº Agostinho foi erigido no Cabo do Lobo, depois chamado de Cabo de Stª Maria a sul de Benguela, à Lat. 13º 25' sul”. ( III ) “O Padrão do Cabo Negro, erigido a norte da Baía de Porto Alexandre, actual Tombua à latitude de 15º 42' Sul”. ( IV) “E por último o Padrão do Cabo da ( Serra ) erigido no actual Cape Cross - Namíbia, à latitude de 21º 47' sul”. “Deste modo, os dois primeiros erigidos na 1ª viagem ( 1482-1484) Os dois últimos erigidos na 2ª viagem ( 1485-86-87)”.
 

Quanto ao modelo e ao material dos padrões, os antigos mareantes erguiam cruzes de madeira nos lugares que descobriram, e entalhavam nos troncos das árvores a divisa do Infante Talent de bien faire. Estes sinais, porém, além de frágeis, não simbolizavam  um direito nacional. Os padrões de Diogo Cão,  construídos em pedra e comportando inscrições, eram já um monumento duradouro e expressivo.



 O primitivo padrão do Cabo Negro tal como se encontrava quando em 1892 foi entregue à Sociedade de Geografia


Especificando, o Padrão do Cabo Negro foi colocado em 18 de Janeiro de 1486, por Diogo Cão e os nautas, após terem encontrado o referido cabo, a 15º 42´ lat. sul, sendo a cerimónia seguida de celebração de missa.  A seguir entraram na Angra das Duas Aldeias (Porto Alexandre, actual Tombua), a que foi posto este nome por nela os nautas terem achado duas grandes aldeias de negros, gente pobre que se mantinha de pescarias, única riqueza da terra, “ nesta terra nam há proueyto “ . Ou seja, nesta terra não há proveito.
 Segundo o Esmeraldo Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira:

" ....oito léguas adiante do monte negro se faz uma grande angra que entra uma légua e meia pela terra dentro que se chama angra das aldeias e este nome puseram no tempo que Dieguo Caão descobriu esta costa por mandado del Rei Dom João que Deus tem, achou dentro neste angra duas grandes aldeias e por isso lhe pôs o dito nome; os negros desta terra são gente pobre que se nom mantem nem uiuem senom de pescaria que aqui há muita, fazem cazas com costas de baleas cobertas com seba do mar, lançando-lhes por cima areia e ali passam sua triste uida, são idolatras e nesta terra não há proveito. Do monte negro até aqui se corre a costa nordeste e sudeste e tem as ditas oito léguas na Rota e toda esta terra ao longo do mar é baixa...."

A"Angra das Aldeias”, foi pois o nome primitivo de Porto Alexandre. Foi de lá que a guarnição levou indígenas para Lisboa, repatriados na expedição de Bartolomeu Dias na sua viagem de descoberta do Cabo da Boa Esperança. A velha denominação foi sendo esquecida, e João Pilarte da Silva, quando visitou o local em 1770, já lhe chamava apenas a “praia das Macorecas”. E António José da Costa, passando ali alguns anos mais tarde, nem sequer lhe faz referência. O Cabo Negro foi sempre um ponto de referência a assinalar uma etapa na navegação para o Oriente. Desde a sua descoberta por Diogo Cão e os nautas, em Janeiro de 1486, nunca mais a navegação deixou de o procurar. É esse o nome que figura, assinalando o local, nas cartas de Cantino 1502, Cesário 1502, Pedro Reinel 1520.  

No século XVIII e primeira metade do XIX, já se dá o nome vago de “ praias ao Sul do Cabo Negro”. Acresce que a importância que começa a ganhar o Pinda, faz transferir para este local as atenções que a Porto Alexandre seriam mais tarde devidas. Foi quando o capitão da marinha inglesa, James Edward Alexander, em 1864, visitou a costa ocidental de África, e assinalou a antiga “Angra das Aldeias” nas cartas do Almirantado, deu-lhe o seu próprio nome.
E "Porto Alexandre" foi a denominação que ficou na tradição oral e na toponímia oficial.


O Padrão original do Cabo Negro com o rodar do tempo e a erosão natural, encontra-se já em mau estado de conservação e foi retirado ficou a dever-se também à mutilação que sofreu da parte de vândalos. Foi o  governador geral Guilherme Augusto de Brito Capelo que ordenou, em 1891, a substituição  e recolha do padrão original ao Museu Colonial, criado vinte anos antes e mandado entregar em 1892 à Sociedade de Geografia, pelo ministro Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, em cujo átrio se encontra metido, com os dois fragmentos ajustados, numa forte tripeça de ferro bronzeado, que o mantém em posição vertical. Consta duma coluna cilíndrica de mármore sem pedestal, com cerca de  2 metros e meio de alto e 8 decímetros de circunferência, e de um paralelepípedo com 46 centímetros de altura, em que termina superiormente; as inscrições que se presupõe  idênticas ao padrão do cabo da Cruz, Cape Cross,  tornaram-se  indecifráveis. Os vestígios da inscrição encontram-se no fuste e no capitel. A feição geral e o corpo superior do padrão aproximam-se ao padrão do cabo da Serra/Cruz (Cape Cross). Numa das duas faces mais largas estava gravado o brasão nacional, do qual ainda se distingue um traço da coroa; a outra, em que devia ler-se a inscrição, apresenta uma pedra lascada em toda a altura, a ponto de deixar a descoberto o embutido da cruz, que não existe, mas que seria idêntica à existente do Padrão do Cabo da Serra/Cruz, "Cape Cross". As outras duas faces carecem de inscrições. A coluna encontra-se partida a pouca distância do paralelepípedo.
E assim se procedeu, em 29 de Janeiro de 1892, com as formalidades de uso em tais actos, à deslocação do padrão de Cabo Negro e à colocação no mesmo lugar, de uma  réplica  que ficou a substituir o primitivo. Assistiram à cerimónia o então governador do distrito, Luís Bernardino Leitão Xavier, autoridades locais e representantes das colónias piscatórias de Porto Alexandre e da Baia dos Tigres. Assistiram à cerimónia o então governador do distrito, Luís Bernardino Leitão Xavier, autoridades locais e representantes das colónias piscatórias de Porto Alexandre e da Baia dos Tigres.
 

O Padrão do Cabo Negro que foi substituir o primitivo
 
 O Padrão e o Cabo Negro
 
 
 Sem atribuir qualquer significado político à foto que segue, tirada em finais da década de 1940 (pois todos os jovens estudantes, na altura, eram obrigados a pertencer à Mocidade Portuguesa) , fica aqui mais uma imagem do passado, um passado não muito distante, pois ainda me lembro de ver jovens estudantes da Mocidade Portuguesa  desfilarem fardados pelas ruas da cidade por ocasião de alguma visita  de entidades oficiais, nas comemoracoes do 28 de Maio, 1 de Dezembro e a chegada da imagem de Nossa Senhora de Fatima a Mocamedes,  no decurso de uma peregrinacao por terras de Africa.  Quer queiramos ou não, são factos que fazem parte da  nossa História e da História da nossa cidade, e , como tal,  têm que ser vistas e apreciadas em contexto. Foto encontrada no espólio de minha sogra, após 30 anos passados sobre a data da independência de Angola .
 
 
Visita de estudo ao Padrão do Cano Negro pelos alunos e professores da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em finais da década de 1940
 
 
 
Com a independência de Angola de 1975, adoptou-se o nome de "Tombwa", nome pelo qual os nativos designam a "Welwitschia Mirabilis", e este Padrão  acabou danificado nos momentos que se seguiram, lamentavelmente porque os que o vandalizaram não tinham a noção do seu elevado valor em termos históricos.
 
 
 
MNJardim

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