Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 23 de dezembro de 2017

A FOCA


 

Foto Salvador
Foto Salvador

Foto Salvador

MOÇÂMEDES. MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: A FOCA


No vasto jardim da Avenida da República, em Moçâmedes, Angola, avenida paralela à Rua da Praia do Bonfim, num local privilegiado da cidade, em frente ao belo e clássico edifício do Banco de Angola, onde ainda no início da década de 1950 existia um romântico Coreto, foi construido um tanque/fonte de água luminosa, onde a determinada altura, entre finais da década de 1950 e início da década de 1960, foi colocada uma FOCA, uma grande FOCA que, vinda do polo sul, influenciada pela corrente fria de Benguela (1), havia chegado à nossa praia...Capturada e levada para o tanque do jardim, a FOCA ali viveu o tempo suficiente para se tonar um atractivo para quem passava, e sobretudo para as crianças, dado que já familiarizada, vinha até elas para receber o alimento que lhe traziam para comer. Mais tarde, e não se sabe porque razão, a foca acabou por ser libertada e levada para o mar, e como persistisse em voltar para terra, foi ali mesmo, junto à praia, entre o edifício da Capitania e a Fortaleza, na presença de toda a gente, incluso de mães com as suas crianças, fria e barbaramente abatida pela autoridade máxima da Capitania do Porto de então, cujo nome todos os moçamedenses conhecem, e não vou aqui citar... Acto vil que indignou muita gente e que se a outros poderia ter passado despercebido, não foi indiferente ao poeta, ser por natureza dotado de fina sensibilidade.

Este acto inspirou o poema que a seguir transcrevemos que ficará para sempre ligado a este acto e à pessoa que o praticou.



A FOCA
Foi morta, a tiros vis, a foca, a grande foca
Que, um dia, a nós viera,
Que deixara, no polo, a neve e a sua toca,
Seguindo uma quimera.

 E que, depois, aqui, no centro do jardim,
Num tanque aprisionada,
Foi o enlevo, o riso, o mágico arlequim
De toda a pequenada!

Nostálgica do mar, sofreu a sua dor
Em paz e humildade,
Até que, um dia, um pobre sonhador
Lhe deu a liberdade!

Antes não fora assim, antes não fora, a morte
Rondava à beira-mar,
Toda incarnada em ti, homem de negra sorte
E de sinistro olhar!

A frio, sem tremer, sem uma hesitação,
O ente iluminado
Atira e atravessa, a rir, um coração
Ao seu sincronizado!

Guiou-lhe a mão letal o instinto assassino
Do homem das cavernas
Que a cabeça esconde em face do destino
E pensa com as pernas!

Nero era mau e vil, um ente sanguinário,
Um monstro matricida,
Que alimentava, em si, o sonho visionário
De destruir a vida!

Mas era simplesmente um bárbaro inculto,
Um cérebro doente
E a História, ao pesar o seu viver estulto,
Se queda indiferente!

Mas tu, filho da... luz,  da civilização,
Que podes alegar
Se, um dia, a tua vil e criminosa acção
Alguém quiser julgar?!

Que foste previdente e a praia libertaste
De um animal feroz?
Ou que outra razão estúpida inventaste
Para o teu crime atroz?!

Para a sociedade és sempre o ilustre capitão,
Mas, para as crianças, tu... não passas de um papão
Que fere e que destrói a frio, sem piedade,
Sem alma, sem respeito e sem humanidade|!
 Olha em redor, a vida é sonho e é grandeza
E tu vives também e és bicho com certeza!

(Angelino da Silva Jardim)

domingo, 19 de novembro de 2017

Moçâmedes do antigamente: era Natal...



Já cheirava a Natal!... O Natal estava a chegar e os gourmets da Rua das Hortas sempre a aviar: o Gingubinha; o Brasileiro; o Jaime Cariongo e ainda outros mais que a concorrência era grande e havia que aproveitar.

As lojas de brinquedos, essas então, punham os miúdos a delirar e a sonhar: e era um martírio para os pais arrancá-los das montras dos Armazéns do Minho, do Venâncio Guimarães e do Pires Correia. Mas a mais espectacular de todas era, sem dúvida nenhuma, a montra do Pires Correia.
Era tão apelativa, tão encantatória que alguns miúdos se passavam de todo, sabendo de antemão que nenhum daqueles brinquedos viria a ser seu. Por isso, o Tolentino extravasava as suas raivas metendo pelo buraco das portadas das montras do Pires Correia um fino caniço e com ele jogava o bilhar com os brinquedos, pondo num caos a bonita montra feita com tanto desvelo.

E, então, numa das noites antes do Natal, o velho Pires Correia apanhou o Tolentino em flagrante delito e, furibundo, levantou-o do chão pelos fundilhos dos calções, mas…, milagre de Natal!, fez-se luz... e veio a compaixão. Em vez de dar duas galhetas ao Tolentino, o bom velho Pires Correia fez um trato com o miúdo:

- Eu conheço-te, tu és filho da D. Máxima. Vamos fazer o seguinte: eu dou-te um brinquedo de Natal à tua escolha e tu prometes nunca mais desfazeres a minha montra. Combinado?

E o Tolentino escolheu, então, o maior brinquedo que por lá havia: um carrão dos bombeiros, todo ele feito de madeira, vermelho, vermelhão e com uma dezena de bonitos bonequinhos armados de capacetes também vermelhos...

Depois havia os mucubais que, vindos do Giraul de Cima com os últimos cabritos vivinhos da costa, batiam à porta das casas humildes para vendê-los a preços da uva mijona.

E a avó Catarina perguntava:
- Quanto custa cada cabrito?
- Cinco angolares, Senhora, respondia o mucubal.
- Então, o ano passado era quatro angolares cada um, agora é mais caro 25%? Como é isso?
- E o mucubal volvia, então, com manifesta convicção: “É a inflação, Senhora, é a inflação que não pára”
- Vá lá, contemporizava, contrariada, a avó Catarina, não convencida de todo, instruindo o mucubal: - Dá a volta e leva o cabrito para o quintal.

No quintal, já estava a Maria Torresmo à espera, de facão em riste, para a matança do pobre animal. E mal começava a esquartejar o cabrito, dava logo início a um monólogo bem audível que abria o apetite a quem a ouvia, mesmo aos próprios acamados, que eram muitos nessa altura de transição. E ia fazendo o relato para si, alto e em bom som, do destino a dar ao desgraçado do bicho: -

“estas pernas assadas no forno, com umas batatinhas douradas e arroz de legumes salteados, acompanhados de um fresquinho vinho branco do alentejo; estas mãos, este peito, estas costeletas para a caldeirada, sem poupanças na cebola e no tomate, alho e louro q.b. e com muito gindungo para puxar pelo tintol, que maravilha!...”, dizia a Maria Torresmo, salivando e babando-se já a olhos vistos. E continuava a esquartejar sem dó nem piedade o pobre animal, membro a membro até às partes mais miúdas.

Mas a caldeirada de cabrito destinava-se apenas para o almoço do Natal, pois que para a Consoada era o tradicional bacalhau cozido, com a habitual couve portuguesa cobrindo as batatas e os ovos.
E para o próprio dia de Natal havia sempre uma ou outra família do Bairro da Facada que podia dar-se ao luxo de um almoço com mais requinte, como era, por exemplo, a casa do Tó Lindas.
É que, quanto a isso, o Tó Lindas tinha o seu segredo de Polichinelo bem guardado, supostamente só do seu conhecimento e de alguns poucos amigos.
Na realidade não devia ser bem assim, mas era assim que o Tó Lindas o concebia. Um pouco mais além da velha ponte-cais da Praia das Miragens, a Mãe Natureza tinha caprichosamente plantado no seu fundo arenoso uma vintena de lages, formando autênticos gavetões onde as lagostas tinham fixado residência.

Ninguém sabia ao certo quem tinha sido o seu descobridor, mas a verdade é que os capitães de areia do Bairro da Facada estavam de posse das suas coordenadas.

E era assim que o Tó Lindas nas vésperas de Natal, pelas seis da matina, pegava num saco de rede e nos óculos de caça submarina, vestia uma camisola velha de lã, que as águas em Dezembro ainda eram frias, e, assim munido, lá ia ele para a Praia das Miragens.

E ali chegado, mergulhava na parte norte da velhinha ponte-cais, nadava uns trinta metros para lá do cabeço da ponte e flectia, então, para a Praia do Cano, mas parando logo defronte à Capitania.
Não devia ser difícil configurar as coordenadas do lugar, porque qualquer pescador da Torre do Tombo o fazia diariamente com as suas sacadas ou na pesca à linha, quer fossem algarvios, madeirenses ou quimbares. Mas para os miúdos era obra.

Mas para o Tó Lindas, em particular, era canja; olhava para o Casino e para a grande árvore do quintal do dr Soares Pinto, e já estava; a sul, bastava olhar para o último canhão da Fortaleza de S. Fernando e para a pedreira da Torre do Tombo e… voilà!

Era só mergulhar, ir directo à capoeira das lagostas e escolher três das maiores. Apenas três, que o Tó Lindas não era nada ganancioso.
Quando chegava a casa, era recebido em festa. E havia almoço de Natal com requintes de gente fina; lagosta cozida com maionese. Maravilha!... E a avó Catarina não conseguia reter umas lágrimas que teimosamente lhe corriam pela face roída pelo tempo e pelas agruras da vida.
- Então, e o Capitão do Porto? – perguntava por fim a avó Catarina.

- O quê que tem, avó, o mar é dele?

À tarde, era o cinema do Eurico que passava o filme do Tarzan e, como habitualmente, os miúdos pobres tinham o seu presente com entrada livre no dia de Natal. E lá estavam todos eles na fila de entrada, os capitães de areia do Bairro da Facada, com o Tó Lindas à cabeça.
Começava o filme e quando o Tarzan, numa luta feroz, matava o leão ou nadava mais rápido do que o jacaré, a sala do cinema vinha quase abaixo com tanta claque e algazarra dos miúdos do Bairro da Facada.

Depois do filme terminado, iam todos a correr de alma cheia e coração ao alto, com alguns tostões nas algibeiras, directos para o Quiosque do Fautino para o lanche do Natal:

- Sr. Faustino, dois molhados para cada um.
- O que é isso de molhados, perguntava o Sr. Faustino.
- São panguengues – respondiam os miúdos.
- Falem português, seus palermas.
- Então, o Sr. Faustino não sabe? Molhados ou panguengues são papo-secos só com o molho das bifanas - explicitava o Tó Lindas.
- Não, não temos cá disso, só temos sandes de carne assada na panela – respondia o Sr. Faustino.
- Então o Bar do Sporting tem panguengues e o Sr. Faustino não tem! Como é isso, então?

E lá iam eles, os capitães de areia do Bairro da Facada, cantando e rindo, felizes e contentes, a caminho do Bar do Sporting em demanda dos molhados ou panguengues, que Deus Nosso Senhor assim mesmo os fez como são, por alguma boa razão que não conseguimos enxergar: pobretes… mas alegretes!...

Porque era Natal… e foi em Belém!...


(ass) Arménio Jardim

Moçâmedes do antigamente era ali....






Aquela velhinha ponte-cais da Praia das Miragens era o pão nosso de cada dia para as gentes de Moçâmedes do antigamente.

Tinha ela o guindaste na extremidade direita, que indiscriminadamente tudo carregava e descarregava, com o velho Veli e o Rogério Camusseques como maquinistas omnipresentes. Do outro lado da ponte, ficava o pequeno farol cuja principal função era sinalizar a localização da ponte em sintonia com o farol da Ponta do Pau de Sul e o farol do Saco de Giraul.

Era ali… e por ali que tudo se passava. A exportação da farinha de peixe em sacos de serapilheira, o óleo de sardinha, taínha e chicharro, acondicionados em velhos tambores de gasolina e até bois vivos seguiam para os cargueiros fundeados ao largo, através daqueles conhecidos batelões que ficavam um pouco para lá da jangada dos nossos mergulhos, dos nossos namoricos e dos nossos contentamentos.
Depois, havia o dia de S. Vapor, o dia em que os navios de passageiros chegavam com novidades do Puto e traziam os mais variados produtos, desde os nacionais até aos dos Armazéns Printemps, importados directamente de Paris.

Era uma festa para a cidade e os gasolinas do Mário de Almeida e do Raul de Sousa andavam todo o dia numa roda viva de cá para lá e de lá para cá, transportando sem parar cavalheiros e senhoras, mais senhoras do que cavalheiros, que nos barbeiros do navio compravam de contrabando sedas, lingeries, perfumes da marca Tabu e outras coisas mais.

No portaló do navio havia sempre um guarda-fiscal de plantão, mais para marcar presença do que para fiscalizar o contrabando, que era tudo gente boa e conhecida, pelo que, no regresso, as senhoras desciam as escadas do navio numa alegre e descontraída cavaqueira, não obstante o excesso de fragrâncias do perfume Tabu que carregavam atrás de si.

E já em terra, no Posto da Guarda-Fiscal, ali existente mesmo à saída da ponte, estava a palpadeira de serviço, a D. Fernanda, funcionária da Alfândega, velha solteirona que sofria de uns pequenos handicaps e que por isso ou por via disso andava sempre com um pintainho dentro do soutien para lhe aquecer o peito e cuja onomatopeia que de lá vinha ninguém conseguia discernir se era do piar do pintainho, se era da pieira ou farfalheira da bronquite crónica, que com o cacimbo só lhe piorava a vida.

Mas a verdade é que a D. Fernanda era uma santa mulher sem qualquer vocação para palpadeira. De modo que, quando as senhoras lhe chegavam à sala privada com as suas saias largas e redondas carregadas subrepticiamente com as lingeries e os perfumes Tabus, a D. Fernanda recebi-as com um sorriso de menina inocente e dizia simplesmente: - “Minhas queridas, que rica fragrância têm esses perfumes Tabus que carregam. Poupem, que o próximo vapor só por cá passa daqui a dois meses”.
E era ali, naquela ponte-cais, antes do sol raiar e do galo cantar, já depois dos pescadores da Torre do Tombo terem dobrado a Ponta do Pau do Sul com as suas baleeiras à vela, à bolina ou de vento em pôpa, a caminho do mar da Alemanha ou dos Três Irmãos, que se acomodavam os capitães de areia do Bairro da Facada.

Vinham todos eles, felizes e contentes, o Patona e o Monacaia, o Armando Galã e o Tó Lindas, mais o Mário Cantor e o Peniquinho, para a pesca dos chocos, dos cabolobolos e dos camoxilos.
À noite, depois do jantar, eram os mais velhos, viciados na pesca desportiva, que apareciam: o Cristiano Faustino, o velho Pinho Gomes, o Craveiro do café torrado, o Rufino sapateiro e outros mais que o tempo dissipou.

O pisca-pisca do farol da ponte atraía toda a espécie de bicharada. No ar, eram os gafanhotos, libelinhas e formigas de asas brancas; no mar, peixe espada para os pescadores à cana; moriangas, roncadores e corvinas prateadas para os amantes da pesca à linha.
No outro dia, ao final da tarde, quando o pôr do sol na Ponta do Pau do Sul matizava o horizonte de vermelhos, amarelos e laranjas, reuniam-se, então, os mais velhos na esplanada do Quiosque do Faustino debitando as suas piedosas mentiras, próprias dos pescadores amadores, que para os profissionais as suas histórias eram bem diferentes.

E era ali…, e era ainda ali, na velha ponte-cais, que apareciam aqueles rufias matulões, o Tó Coribeca, o Helder Cabordé, o Mário Bagarrão, o Romualdo Parreira e outros que tais, que eram como uma quase lenda viva para os miúdos do Bairro da Facada.

A sua manifestação de habilidade e coragem deslumbrava toda a gente, em particular os capitães de areia. Os seus mergulhos do alto do guindaste, em estilo livre ou em asa de anjo, os seus triplo-saltos mortais da ponte, em corrida ou de parada, ou mergulhos em parafuso do alto do tejadilho do guindaste eram tão espectaculares que levavam os miúdos a imitá-los junto à rebentação.

Mas a apoteose, o que mais tocava os nossos corações de criança, acontecia quando apareciam mesmo junto à praia, entre a jangada e a rebentação, pequenos cardumes de toninhas e golfinhos que vinham brincar como cachorrinhos com aqueles rufias matulões. Que os miúdos ainda eram miúdos de mais e tinham medo daqueles bicharocos, que afinal só queriam brincadeira.

E, no final, alheio ao pôr do sol, ao tempo ameno, às discussões bizantinas da esplanada do Oásis e do Hotel Turismo, ali estava o Dominguinhos ceguinho, sentado no passeio da loja do Henriques Pessoa, tocando quissange e improvisando as suas cantigas de maldizer para os cazicutas do carnaval, acerca do estupro da menina, criada da D. Rosa:

“Canta no ramo o pardal,
Canta no mar a baleia!
Fernandinha no hospital,
Gingubinha na cadeia!”


(ass) Arménio Jardim

sábado, 18 de novembro de 2017

O Padrão do Cabo Negro




 Trata-se do padrão original do Cabo Negro assente em 1486,
  que se encontra-se desde 1892, no átrio da Sociedade de Geografia, em Lisboa.



 A 16 de Janeiro de 1486, Diogo Cão e os nautas dão com um cabo a que chamaram de Cabo Negro, 15º 42´ lat. sul, onde ergueram o Padrão do Cabo Negro, em cerimónia seguida de celebração de missa. A seguir entraram numa Angra à qual deram o nome de "Angra das duas Aldeias" ( nome primitivo dado a Porto Alexandre, actual Tombwa, que perdurou ao século XIX, 1834, por nela os nautas terem achado duas grandes aldeias de negros, gente pobre que se mantinha de pescarias, única riqueza da terra, “ nesta terra nam há proveyto “ ). O Cabo Negro foi sempre um ponto de referência, assinalando uma etapa na navegação para o Oriente. Desde a sua descoberta pela guarnição de Diogo Cão em Janeiro de 1486, nunca mais a navegação deixou de o procurar. É ele que referencia, sem erro o local onde ora se situa Porto Alexandre , a actual Tombwa), a que a guarnição do navegador Diogo Cão deu o nome de “Angra das Aldeias” e que Bartolomeu Dias visitou na sua viagem na descoberta do Cabo da Boa Esperança.

 
 Esta é réplica do primitivo Padrão do Cabo Negro, colocada em 1892 em  substituição do original que foi destruída no pós independência de Angola, em 1975.



Foi o governador Guilherme Augusto de Brito Capelo, que em 1891 ordenou a substituição, porque o original não apenas estava sofrendo a erosão natural como também fora alvo de mutilação por vândalos, tal como vinha acontecendo com os vários padrões assentes pela guarnição de Diogo Cão, que ao todo eram 4.  A vandalização de símbolos da colonização foi uma constante ao longo dos séculos. Em 1975 tratou-se de um gesto anti-colonial em ambiente de euforia patriótica, com a conquista da independência, mas em outros tempos atrás a vandalização acontecia por outras motivações.  Só para se fazer uma ideia, o padrão de D. Jorge, o 1º padrão que foi colocado por Diogo Cão  a 26 de Abril de 1483, na foz do Zaire, num local conhecido por ponta do Padrão, perto da Moita Seca, foi objecto de 4 vandalizações, seguidas da colocação  no mesmo local de 4 réplicas. Era dos quatro padrões o  mais exposto à navegação estrangeira. Foi em 1642 destruído pelos holandeses e deu lugar a uma 1ª réplica que por sua vez, foi destruída em 1648, dando lugar a nova réplica. Em 1855, um navio de guerra inglês a vapor assinalou a sua passagem, despedaçando a tiros de artilharia essa nova réplica do Padrão de S. Jorge. Conta-se que por essa altura um escaler da marinha inglesa, tentou recuperar a parte superior do padrão, onde se encontravam as inscrições e a cruz original, mas ao dirigir-se para o navio maior, voltou-se e a parte superior padrão perdeu-se nas águas do rio”!. (Luciano Cordeiro, Diogo Cão, pág. 50).  Em 1859, o governador de Angola mandou colocar no mesmo local outro padrão, uma 2ª réplica, mas este cinco anos depois, em 1864 desapareceu, destruído por uma grande cheia ou maré.   Entretanto os pedaços do Padrão de S. Jorge que havia sido bombardeado a tiros de artilharia por um navio de guerra inglês, em 1855, haviam sido recolhidos por nativos do Soyo, que passaram a venerá-los como poderoso feitiço, um feitiço de branco, foram procurados e recuperados e os fragmentos em número de dois foram levados para o museu da Sociedade de Geografia em Lisboa. Em 1892, o governador de Angola mandou erigir novo padrão, uma 3ª réplica do padrão primitivo, que permaneceu até 1932 na Ponta do Padrão, num local mais afastado da margem das águas do rio. Mas esta 3ª réplica do padrão de S Jorge ainda iria ter lugar uma 4ª réplica. Por ocasião da primeira viagem do Presidente Carmona em 1938 a S. Tomé e a Angola foi erguido na foz do Rio Zaire um outro padrão, este uma cópia fiel do Padrão de S. Jorge de 1486 que ali havia sido colocado pela guarnição de Diogo Cão. O Presidente Carmona, no areal escaldante da foz do rio Zaire, na presença da marinha de guerra que prestava a guarda de honra, e na presença de muitas autoridades gentílicas, sobas das regiões nortenhas, e uma grande multidão compacta, ao som de tambores e clarins, depôs uma coroa de flores em bronze transportada pelos marinheiros vindos dos barcos de guerra, fundeados ao largo, e proferiu em seguida o seu patriótico discurso, por todos aplaudido.


MariaNJardim 



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De JV, Rudzki, Major Commandante, segue a parte de um texto relacionado com o Padrão do Cabo Negro:

Rudzki, Major Commandante, deixou escrito a respeito do mesmo assunto...

(...) Resta-me dizer que no Cabo Negro ainda existe o padrão que alli foi collocado por Diogo Cam; fui vè-lo e mandei a descripção d'elle ao Governador Geral da Província, que a mandou reproduzir no Boletim Official n.° 629 de 17 de Outubro de 1857.

Quando em Agosto de 1855 o Governador Geral da Província se dignou dar por acabada a minha commissão, deixei alli prompto o quartel militar com muitas e boas acommodações, horta plantada de batata, cará, mandioca, bananeiras, c muitas hortaliças, e os indígenas dos contornos, nas melhores disposições de se relacionarem comnosco. As expedições de maior importância tém desviado o Governo de ocupar-se d'este novo estabelecimento; mas talvez venha um dia, em que a salubridade do clima convide a irem para alli algumas pessoas, a quem bastará a pesca para não perderem o seu tempo, até que relações mais intimas com os povos do interior proporcionem mais avultadas vantagens.´

Sobre o padrão a que a precedente noticia se refere, lé-se no Boletim Official do Governo de Angola, de 17 de Outubro de 1857, o seguinte:

«Em 1485, reinando D. João II em Portugal, Diogo Cam, cavalleiro da Casa d'EI-Rei, descobriu o rio Zaire, e levantou na foz delle, do lado do sul um padrão, que denominou de S. Jorge. Foi d aqui que veio o nome de Ponta do Padrão áquella localidade, que ainda o conserva. A vandalica façanha da destruição do dito padrão foi praticada pelos hollandezes, durante a sua ephemera usurpação d'estas conquistas de 1641 a 1648.

«No seguinte anno de 1486, voltou de Portugal Diogo Cam, e proseguindo na sua navegação para o sul, descobriu toda a costa até Cabo Negro, plantando dois novos padrões, um n'aquelle cabo, e outro mais ao norte, fronteiro ao Ilheo de Pina, na bahia de Santa Maria, ao sul de Benguella.
«Eram estes monumentos, como os descreve João de Barros: «Padrões de pedra de altura de dois estados d'homem, com o escudo das Armas Reaes deste Reino, e nas costas delle um letreiro em Latim, e outro em Portuguez, os quaes diziam, que Rey mandara descubrir aquella terra, e em que tempo, e por que capitão fôra aquelle padrão alli posto, e em cima no topo uma cruz de pedra embutida com chumbo. «O padrão de Cabo Negro ainda lá existe. Pela seguinte descripção que d'elle deu o Tenente Coronel graduado d'esla Província, Marcellino Antonio Norberto Rudzki, quando esteve commandando o presidio próximo de Porto de Pinda, em 1855, se verá quanto concorda com a de João de Barros, acima citada, salvas as differenças que devem de ser attribuidas á acção do tempo, em perto de tres séculos.

«Quando cheguei a esta terra fiquei logo desejoso de ver o padrão de Cabo-Negro, collocado alli por Bartholomeu Dias, em tempos mais ditosos. Os muitos objectos a meu cargo não me permittiram faze-lo até agora, porém em 27 do mez próximo lindo alli fui. Saí do presidio ás seis horas da manhã, e apesar de ir montado em boi-cavallo de boa marcha, andando sempre a passo largo, cheguei ao cabo ás nove horas e meia, o que me faz crer que a distancia é de tres léguas para mais. «O Cabo-Ncgro é a ponta mais saida ao mar, da cordilheira de rochedos que corre do nordeste ao sudoeste, descrevendo um arco, junto do qual, pelo lado do sul, passa o rio Kroque. Estes rochedos foram, na sua origem, elevadas dunas de areia, as quaes, por ajuntamento de outras matérias, se petrificaram, organisando-se em diversas camadas de massa compacta e dura, e de seixos mui variados em cor, tamanho e configuração, e também em penedos de pedra esponjosa e frágil. Estes últimos, amontoados uns sobre os outros em caprichosa desordem, e cobertos com uma casca escura e áspera, saem ao mar em fórma de lingueta com tres a quatro braças apenas de largura, constituindo o Cabo-Negro. No cimo o chão é de areia, com pedras soltas, e na extremidade sobre o mar, aonde forma um pequeno taboleiro plano, é aonde está collocado o padrão da antiga gloria nacional dos portuguezes.

«Se bem me recordo da historia, os padrões1 Da aqui equivoco, o padrão de Cabo Negro, e os dois do Zaire e da bahia dc Sanla Maria, foram postos por Diogo Cam, como jà o dissemos; Bartholomeu Dias, que continuou as explorações de Diogo Cam, até descobrir o Cabo da Boa Esperança em 1487, collocou o padrão do Santiago na Angra dos llhéos, áquem do dito cabo, aondo parece que ainda existe que Barlholomeu Dias plantou eram de ferro ': n'este caso, o que aqui se acha não é já primitivo. Este é de mármore branco venoso, c levanta do chão, sem pedestal, entre algumas pedras soltas: tem a fórma cylindrica, com cinco pés de altura fóra da terra, e trinta c duas pollegadas de circumferencia. Este pilar termina reclangularmente no topo, tendo dezoito pollegadas em cada lado da face, e oito de espessura, no parallelipipedo de que se trata. Tudo é de uma só peça inteiriça. Conhece-se que teve inscripções gravadas, mas estão de tal modo deterioradas, que se não pódem distinguir as letras. Do centro da pedra superior ergue-se uma cruz de quarenta pollegadas dc alto, havendo vinte e oito pollegadas dope da cruz aos braços, e doze por cima. Cada braço leni tambem este ultimo comprimento. A cruz é de barra de ferro, obra bastante tosca, sendo unidas as suas duas partes por um prego rebatido. Uma placa redonda de cobre forma resplendor no cruzamento dos braços. A barra tem duas pollegadas de largura, e unia de grossura, achando-se já mui carcomida da ferrugem. No braço horisontal da cruz, olhando para o mar, está o seguinte letreiro, em letras recortadas em cobre e soldadas á harra de ferro,=MERCURE— 27 J.er 18í8=» a
«Tenho a honra de apresentar a V. Ex." o desenho d'este monumento, como elle agora se mostra aos olhos do viajante; do que teria acanhamento se não estivesse certo que V. Ex. o receberá com indulgência, considerando a minha inhabilidade n'esta sorte de trabalho.»
Porto-Pinda, 18 de Março de 1855.=.V. A. JV, Rudzki, Major Commandante.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2017



 O primitivo  Padrão do Cabo Negro


Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!



Texto de: Manuel João de Pimentel Teixeira

“Um facto inegável que tem ajudado a enriquecer este trabalho é a contribuição que se recebe da família, de amigos, de e - amigos e de pessoas anónimas. São os moçamedenses que mais têm colaborado. Reconhecidamente orgulhosos da sua terra, jamais perdem a oportunidade de dá-la a conhecer. E está correcto! É quase uma obrigação de quem provém de uma cidade que tem por seus eternos companheiros, de um lado o mais antigo deserto do mundo, o Deserto do Namibe, do outro o mar, o Atlântico Sul... 

 
 A réplica do Padrão do Cabo Negro



 



“Um canto da nossa terra tão desconhecido e com tanta História.”

“A frase faz parte do relato que me foi feito por Manuel João de Pimentel Teixeira sobre a sua ida ao Cabo Negro, no Sul de Angola, Província do Namibe, no passado mês de Julho desse ano (2003). O que me contou assim como as fotografias que me enviou do local sensibilizaram-me: foi-me dado conhecer, ainda que virtualmente, um local que é História.

Chocou-me ver a destruição a que o símbolo que o Homem lá instalou há mais de 5 séculos tinha mais uma vez sido objecto. O símbolo que não diz respeito somente a Angola e a Portugal. Porque faz parte de feitos que mudaram o mundo. É, portanto, um símbolo que ultrapassa fronteiras, atravessa o tempo.

Em Angola, a terra que nos viu nascer, passados que estão os tempos de ânimos exacerbados, de lutas fratricidas, deve também ter-se em conta que nem tudo o foi feito estava errado, nem tudo o que se faz é correcto.

Assim foi e será sempre porque o Homem não é perfeito. Mas Deus concedeu-lhe a capacidade de discernir, de se sensibilizar. Se quiser, saberá que, se aproveitar o que foi/é bom, deixando que a História faça o seu julgamento, o povo será o grande beneficiado, a nação será engrandecida. E porque assim sinto e vejo “as coisas”, querendo partilhar as imagens e a mensagem do Cabo Negro, pedi e obtive a anuência do autor para aqui reproduzir o que me descreveu. Importa, também, que recordemos o que a História nos relata sobre este local.

As páginas finais desta crónica disso darão conta. Basear-me-ei na obra “O Distrito de Moçâmedes”, da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, edição da Agência -Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950). São dois volumes e o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe.

Deve, todavia, ter-se em conta que esse escrito reflecte o pensamento da época, o sentimento de nação, de patriotismo, de posse de terra. Como já uma vez escrevi, as ideias e os ideais alteraram-se, a História reescreveu-se. Não pode, todavia, modificar-se o que foi escrito e que, independentemente dos ideais de cada um, transmite ensinamentos preciosos. Este símbolo possa um dia ser reconstruído.
Os dois relatos, infelizmente, não se completam, mas é preciso que se tome conhecimento de ambos. Na esperança de que se acordem consciências. Para que Porque o Padrão do Cabo Negro tem inegavelmente o seu lugar na História da Humanidade!

Visita ao Cabo Negro no dia 27 de Julho de 2003


Estava muito cacimbo, a estrada de asfalto molhada e escorregadia. Uma viagem agradável e serena. O ar limpo e húmido. Pouco vento. Nas praias que cercam o cabo e nas suas proximidades, tudo vazio, sem vivalma.
Subimos ao Cabo Negro. É uma marca inconfundível. Visto de longe, a Norte, percorrendo a estrada batida de terra, depois de deixar o asfalto, na direcção do mar, assemelha-se a um barco de pedra, enorme, pronto a entrar no oceano, a meio de praias rasas, solitário.
O carro avança com calma, até um ponto a quase 3/4 da altura das rochas, pela areia. Chegámos. Dirigimo-nos pelo topo, a pé, na direcção do local do Padrão, bem acima do mar, no pequeno "plateau", ponto mais elevado, mas sem grandes socalcos. Ao longe, mais a norte, a Rocha Magalhães, com as salinas que foram as mais produtivas de Angola.
A placa de mármore cravada na rocha de formas estranhas, que se vê nas fotos, tem cerca de 50 cm altura por 60 cm de largura, e um corte em forma de ranhura funda como moldura, a dois centímetros das margens e podia ler-se ainda, mas com dificuldade, mas sempre do lado direito no fim da primeira linha,
em cima .................. oyses Pinho
no meio, ......................... Sagres.
depois, mais afastada destas linhas, lia-se por baixo, ............ nove
As letras entalhadas, muito esbatidas já. A data mencionada talvez fosse de - ou por volta de - 1939, 1949 ou mesmo 1959. Será necessário confirmá-la, possivelmente em relatos escritos sobre alguma comemoração no local.
Qualquer coisa me diz ser possivelmente uma data dessas, não sei por que causa histórica, mas parece-me já ter lido algo sobre isso há muito tempo.....em criança talvez, até relativamente á Mocidade Portuguesa, á história de Gago Coutinho, ou de qualquer coisa assim.
Creio até que foi Setembro, o mês do meu aniversário.
Seria Dom Moisés Alves de Pinho?? Cardeal, Arcebispo, creio eu!!!!!! Para lá ir, pode chegar-se com o automóvel (4X4, obviamente), tirando-se algum ar das câmaras - de - ar dos pneus, de todos igualmente, para melhor se conduzir na areia, como se faz no deserto, e indo pelo Sul para a parte mais alta, em declive macio. Depois caminha-se bem a pé, sem qualquer problema, cerca de 50 metros. Vasculho com os olhos toda a área... Vou-me aproximando e, como num filme, em zoom, tristemente confirmo o que jamais imaginei: encontro-me perante o que restou do Padrão de Diogo Cão.
A sua história, todos a conhecemos, devidamente fundamentada e largamente difundida, para quem se interessa pela História da Humanidade. O toco, deixado por vândalos da inconsciência e das paixões políticas levadas ao extremo, nada mais é que a sua base com cerca de 40 cm de lado por cerca de 25 cm de altura até ao chão, aonde se eleva, quebrado de Poente para Nascente, num ângulo de 50 graus, com 60 cm no ponto mais alto do corte. O tronco do Cruzeiro tem cerca de 24 cm de diâmetro.
Possivelmente foi construído com algum tipo de calcário granulado, como aliás se vê no Cabo Negro, e está muito desgastado pela acção do tempo. Quando me propus visitar o Cabo Negro, que não conhecia, perguntei a muita gente, dali mesmo e de Porto Alexandre, se sabiam aonde era a cabeça do Diogo Cam, e ninguém soube informar-me. Foi a minha teimosia e a certeza de que o que o meu Avô escrevia era absolutamente EXACTO, que me fez e ao motorista Fernando, de Benguela, escalar pedras e a falésia, perigosa, e depois, por fim, decidir-me a ir por baixo, pela praia, até um ponto mais dentro do mar... mas não muito, quando há baixa-mar (não era baixa-mar na altura).
Teimosamente, dizia a mim próprio: “Se o meu Avô disse e fotografou como sendo aqui, TEM QUE SER AQUI!” (Há os que, dizendo-se conhecedores da região, se referem à “Ponta Negra” como se fosse um outro local, muitíssimo mais a Norte, e a Norte de Moçâmedes!).
Para se ver o "busto de Diogo Cam" ou a "cabeça de Diogo Cão", deve sair-se sempre duas horas antes da baixa-mar, a partir de Porto Alexandre - ou Tombua, como erradamente se lhe designa hoje aquela angra tão bela (o nome usado pelos habitantes do Deserto para designar a welwitschia mirabilis é tumbo) - pelo Sul e pela praia junto do Cabo, até aonde o carro puder ir, o que se faz sem problema, mas tomando-se sempre as devidas e acima mencionadas precauções, até uma distância de cerca de cem metros da ponta do cabo.
É claro que é necessário saber-se dirigir em areia, fugindo sempre das curvas muito apertadas - quanto mais largas melhor, pois numa curva fechada os pneus sem pressão poderão sair das jantes - e nunca forçando movimento algum, nem acelerando demais.
Instala-se o carro em ponto relativamente mais alto que as marcas da maré-alta anterior deixadas na praia, e desloca-se a pé, sem problemas, e como que em reflexão meditativa, até á base do Cabo Negro junto ao mar, pela praia molhada, na direcção Sul -Norte.
A chegada às rochas da base é feita sem o mínimo perigo, até para crianças, - com cuidado para não escorregar ao subir às rochas baixas - e tem-se a admirável visão que tantos outros antes de nós tiveram, maravilhados. O meu Avô, há 100 anos, inclusive, aquele apaixonado pelas terras que adoptou como suas, sem jamais haver regressado "à Metrópole" após ter vindo para Angola, concluído que teve o seu Curso em Coimbra e no Porto, e com toda a certeza, deleitado e sentindo-se sublimado também, como Diogo Cão ter-se-á sentido à 518 anos.
E alguns e poucos mais antes de mim, há menos tempo, mais recentemente, se é que tal viram. Era perigosa a descida, diziam. Mas há caminhos mais simples e menos abruptos. É preciso sabê-los. E saber ir em Paz. 

 

 Uma rocha única, uma obra natural, desconhecida como "arte" por África e pelo Mundo. Um ornamento natural para a História de Angola. Um monumento eterno. É realmente um espectáculo, observar-se tanta simplicidade e tanta nobreza, trabalho imponente criado pela Mãe Natureza, esculpindo com o mar, com o vento e com as areias, nas marés calmas ou no mar irado, um símbolo tão belo, como que elevando o Homem acima do mar e do tempo.




Escrito aos 23 de Agosto de 2003, em Luanda. "

















domingo, 22 de outubro de 2017

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA: O INCRÍVEL BURACO !

 





Durante anos e anos, Moçâmedes mergulhou num estúpido marasmo. Nada se construía e não se passava do mesmo ! ...

Depois, aos poucos, foi acordando e lá foram surgindo alguns bairros novos e um pouco mais de entusiasmo. Moçâmedes alindava-se e preparava-se para o futuro. Dentre outros melhoramentos surgiu a nova estrada Moçâmedes - Porto Alexandre ! ...Nasceu uma faixa de asfalto ligando as duas cidades, encurtando o percurso e trazendo mais progresso.
A nova estrada fez esquecer as atribulações passadas.

Na antiga, que praticamente não existia, pois cada um escolhia por onde queria ir, no deserto, os velhos camiões que faziam a travessia, gemendo e chorando, todos eles se torciam ameaçando partir o “chassi” e desfazerem-se, principalmente no famoso local chamado “Buraco”, levando todo o género de bens essenciais à vida de Porto Alexandre e principalmente lenha para alimentar as caldeiras das fábricas de farinha e óleo de peixe.

Era dura a vida de camionista !

O incrível Buraco era sempre satirizado por todos os palhaços das companhias de circo que passavam pelas duas cidades : - “Você, minha senhora, tem um pé em Moçâmedes e o outro em Porto Alexandre, o que fica no meio ? - O Buraco ! ...” Piadas de palhaços que nos ficam gravadas na memória !

Ao longo dos primeiros quilómetros da nova estrada estavam plantando, a espaços, uma fileira de árvores que eram religiosamente regadas pelo pessoal da Câmara, na esperança que se adaptassem a viver no deserto ! ...

Pouco antes do sítio onde se situava o famoso Buraco, uma Associação de senhoras religiosas cercou um pequeno, raquítico e resistente arbusto (tal como todas as plantas do deserto), colocando a imagem de uma santa ou santo, que já me não lembro qual, tendo o cuidado de adicionar uma placa, que além de identificar a espécie, informando que se tratava de um exemplar raro, do qual não existia outro muitos quilómetros em redor, pedia que a regassem ! ...

Muitas vezes lá parei para esvasiar uma garrafinha de água ! ...

Roberto Trindade

INDÍGENAS DO LIMITE DE MOSSAMEDES



MUNDOMBES. USOS E COSTUMES  (Transcrito do Livro "45 dias em Angola", de autor anónimo 1862)


"....Eu não quiz regressar à Praia sem vêr uma das cousas talvez mais curiosas das nossas possessões: são diferentes familias de pretos gentios, que se deixaram ficar nas proximidades de Mossamedes quando os portuguezes alli se estabeleceram. Estas familias de pastores, a quem dão o nome de Mundombes, vivem em cubatas de ramos seccos do feitio dos fornos que ha na provincia do Minho, em certos soutos onde se costumam fazer arraiaes, e para as quaes elles entram de rasto.

Cada familia compõe-se de um homem com três ou quatro mulheres, e um avultado numero de filhos. Estas creaturas, apesar de viverem já ha annos perto dos europeus, e estarem todos os dias em contacto com elles, em nada tem modificado os seus hábitos primitivos.

Os homens usam de um traje que se compõe de um panno d'algodão amarrado em volta do corpo, e outro lançado aos hombros como um manto, e trazem sempre um cajado na mão. São d'elegante estatura, e as suas posições e movimentos muito diferentes das dos pretos das outras tribus, que andam com acanhamento, e não perdem uma occasião em que possam estar de cócoras, ou sentados.







As posições dos Mundombes são nobres e altivas. Nas mulheres é que existe toda a originalidade
d'esta raça. Trazem sobre a cabeça um bocado de pelle de boi por curtir, levantam-lhe as pontas de traz e de diante para cima da cabeça, de forma que aquelle adorno immundo e de cor escura, assemelha-se a um pequeno chapéo como o de Napoleão. Por vestuário apenas dous bocados de pelle, caiidos da cinta para baixo, um por diante, e outro por traz, e por cima d'elles, cobrindo- Ihes as nádegas e o ventre, uma quantidade enorme de missangas brancas, azues e encarnadas. N'isto consiste todo o seu luxo: — aquella que tem o maior pezo de missanga é a mais feliz. Nas pernas e nos braços trazem grande quantidade de manilhas de ferro, que é o distinctivo das casadas; em volta do corpo uma correia lhes aperta os peitos, os achata, e estende ás vezes do comprimento de palmo e meio, o que dá a estas fêmeas o aspecto mais repugnante, — mas passa entre ellas por uma das maiores bellezas. Não se lavam nunca, e augmentam a immundicia em que vivem, untando o corpo e o cabello com manteiga de vacca fabricada por ellas.

Ás casadas só é permittido divertirem-se, ou por outra, dançarem, porque n'isso se resumem todos os seus divertimentos. As suas danças podem comparar-se aos passos desenfreados, que os antigos nos descrevem quando faliam das famosas Saturnaes.















Assisti ás danças dos Mundombes executadas por diversos grupos: — eram copia fiel umas das outras. Reunem-se sete ou oito mulheres, e formam um circulo, entoando uma cantiga de uma monotonia capaz de fazer morrer de spleen lodos os collaboradores do «Charivari» acompanham este canto batendo as mãos, e levantando ora um pé, ora o outro. Ao cabo de cinco minutos pouco mais ou menos, e quando começam a electrisar-se, entra uma d'ellas para o centro, e desata a saltar como endemoninhada, fazendo passos e gestos incríveis, que vão crescendo conforme a approvaçao dos assistentes. As mais velhas são as que mais se saracoteiam ; não é difíicil acreditar, que são ellas também as que apresentam contracções de physionomia mais horrendas no delirio a que se entregam.

O que deduzi de tudo quanto presenciei, foi que o estudo principal d'aquellas mulheres é tornarem-se feias e immundas, porque as raparigas são quasi todas limpas, e bastante engraçadas. Estas usam em volta do corpo um panno d'algodão, como as demais pretas da costa, com a diíferença que lhes não passa abaixo dos joelhos; nas pernas trazem manilhas de vime, que é o signal de virgindade. Fácil é de comprehender quanto anhelam trocar estas manilhas pelas de ferro, que além d'outros gosos, lhes facilita o da dança, que ellas tanto apetecem.

Na occasião das danças as raparigas conservam-se em grupos a certa distancia, vendo-as com inveja. Os rapazes chegam-se para os velhos, e sempre n'uma posição académica, contemplam com seriedade todas aquellas desenvolturas.

As creanças andam inteiramente nuas até aos oito ou dez annos, mas já antes d'essa idade as raparigas trazem as manilhas de vime.

O sustento de toda aquella gente compõe-se de milho pisado com uma pedra, cozido em agua e leite : — é uma comida insipida que qualquer desdenharia sem ser gastronomo, mas a que dão grande apreço.

Os Mundombes pagam os tributos em géneros, como nos mais districtos da Província : são eleitores, e não sei se elegiveis. Note-se que nenhum sabe lêr, e que raros são os que falam ou entendem o portuguez.

As mulheres não tendo nada mais em que se occupar do que em cozinhar a cachupa, sobrava-lhes tempo se prezassem a limpeza para destruir a immensa quantidade de bichos que trazem por entre as missangas; mas preferem dormir, fumar, e dançar. Este viver, que parece mais próprio d'animaes, do que de creaturas humanas, tem taes attractivos para quem foi creado n'aquelles hábitos, que ainda não ha muito, que uma rapariga que estava a servir uma familia da Praia, teve de a acompanhar á Europa, onde se demorou bastante tempo, parecendo ter adoptado os nossos costumes, e regressou a Mossamecles bem vestida e calçada, e de luva branca. Não tardou porém muito tempo que a mucamba não trocasse esses bellos atavios por manilhas de ferro, e por missangas !

Lá a vi entregue ao frenesi da dança, trazendo escarranchada na anca uma creança, a quem fazia soffrer de certo grande martyrio, por causa dos solavancos occasionados pelas posturas desordenadas. Era curioso vêr as caretas que o moleque fazia, agarrando-se á mãe com medo de cahir. Esta maneira de trazer as creanças, a quem chamam crias, é usada pelas negras em toda a Província, com a difíerença que as escravas e libertas trazem-as envolvidas n'uma segunda saia, que arregaçam e prendem em volta do corpo, de modo que só a cabeça da creança fica de fora.

Como ouvisse fallar muito nas sanzallas, quiz vér o que era: achei uma certa quantidade de cubatas em que vivem os negros, compostas só de ramos; fiquei desapontado, e voltei para a Praia.

Uma das cousas mais desagradáveis que encontrei em Mossamedes, e que sempre me causou repugnância, foi o gosto do fumo muito pronunciado em todas as comidas que vão ao lume; como não ha carvão vegetal, cozinham com lenha verde, e rara é a comida que não fique estragada.

"...Existem aqui três tribus de negros, e vem a ser: a denominada Mini-Quipóla, que habita no valle dos Cavalleiros, e nas proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vive no rio do mesmo nome; e a Croque, que pertence ao rio do mesmo nome, sendo a mais afastada d'esta villa. Estas tribus terão novecentas pessoas de ambos os sexos; tem o nome de Mondombes os que pertencem ás duas primeiras, e também assim se chamam os indivíduos de mais algumas tribus do interior.

Pouca alteração tem tido os seus costumes do contacto com os brancos; apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas que usam em pannos.1 Antes da chegada da colónia plantavam só milho, feijão e abóboras; hoje cultivam também alguma mandioca, cará e batatas, devendo notar-se que, não obstante o terem-lhe sido tirados os melhores terrenos, colhem hoje mais mantimentos, e lêem mais gado do que d'antes; a rasão d'este augmento é obvia em relação aos alimenlos; quanto aos gados, provém o augmento de não terem sido roubados pelas guerras gentílicas, as quaes receiam os brancos aqui estabelecidos.

Um terço dos ditos Mondombcs anda errante com os gados em busca de pastos. As suas habitações são miseráveis, tem toda a similhança com um forno, e são por fora barradas cora excremento do gado. Como todos os indígenas de África a polygamia é usada entre elles, porém o perverso costume de escravisarem seus filhos lhes é desconhecido. O seu governo pouco differe do de todos os negros; têem um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros).

É costume dar-se o nome de pannos a bocados de fazenda que os negros cingem ao corpo.

Esta gente tem idéa de um Ente Supremo, a que chama IIuco; mas pouca adoração lhe presta; o seu idolo são os gados, que cada celebra com cantigas e libações; não os vende, aproveita-se do leite que produzem; e muito os poupa por não matar. Acredita n'uma outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquelle damno.

Enfim esta mesma gente vive em harmonia com os brancos, c lhes presta alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella, ele.

(...)

Não é possível por ora avaliar n'este paiz a longevidade da raça branca, porque só ha poucos annos esta o povoa. Este conhecimento não se pôde colher senão entre indivíduos creados e expostos em todos os períodos da vida á influencia do clima cm que nasceram. Apenas ha para notar que os velhos aqui existentes vivem em geral bem dispostos e gosam de boa saúde. Entretanto vé-se que entre os negros indígenas se apresentam alguns velhos centenários.

Estes indígenas são todos robustos, bem constituídos e de poucas doenças padecem; são mais sujeitos a constipações, pela circumstancia de andarem quasi nus, e de terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo.


Convém aqui fazer uma reflexão sobre a causa provável, que concorre para a sua robustez e boa constituição. Os povos civilisados podendo dispor de um grande numero de meios em favor da sua saúde, amparam a vida a um grande numero de indivíduos de fraca constituição, a qual é transmittida de geração em geração, bem como as moléstias hereditárias tão frequentes entre estes mesmos. Como os ditos indígenas se acham desfavorecidos dos recursos necessários para modificarem a acção dos excitantes naturaes, segue-se que elles não podem crear e conservar os indivíduos, que não tenham a robustez bastante para reagir contra os agentes que lhes são damninhos.


Do livro "45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862