Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Mossamedes. Hidrografia: Rios Bero, Giraúl; Curoca, S Nicolau, Carunjamba,Piambo, Cangando, Cunene, Tchiambala.

 Hídrographia. 

A hidrographia de uma determinada região está inteiramente ligada á orographia, ao regimen pluvial, á natureza do terreno e sua constituição geológica. Vimos já que podemos considerar o Sul d'Angola dividido em quatro zonas orographicas, a cada uma das quaes corresponde um systema hidrographico. Indiquemos a traços largos, embora, o que se encontra mais saliente e característico em cada uma delias. 

Zona do litoral 

Na vertente do Atlântico, ou zona baixa do litoral, a rede fluvial é constituída por um certo numero de linhas d'agua que, originarias nas faldas ou contrafortes da serra da Chella, seguem para oeste e a curta distancia da costa inflectem o seu curso 
sensivelmente para noroeste, devido talvez á constituição e movimentos do terreno, dunas d'areia movediças em geral, açoitados pelo vento sudoeste. 

Todos elles são de corrente periódica ou curso intermitente, correndo permanentemente a agua apenas até alguns kilometros das suas origens, na quadra secca, até onde a evaporação ou a inliltração de terrenos permitte conserval-a, emquanto no restante 
curso até ao mar estão seccos, pelo menos á superfície, se bem que alguns conservem 
grossa toalha liquida sob as areias ou terrenos permiaveis. 

Na quadra pluviosa, ou seja devido ás chuvas do planalto ou á natureza do terreno e formações da base da serra, os numerosos afluentes, ravinas e depressões enchem a trasbordar e, lançando-se nos rios. produzem enchentes rápidas e perigosas, alagam os terrenos marginaes, levando a enchurrada até ao mar. Terminadas as chuvas ou passada a trovoada, as aguas baixam e ficam reduzidas a pequenas correntes superficiaes, para em breve, prolongando-se a estiagem, seccarem de todo. E os arroios ou regatos formados do excedente das aguas da infiltração do planalto, delle descem em cascatas, sómem-se a alguns kilometros depois de entrarem na zona arenosa, ou depois de lhe faltar o terreno rochoso e impermiavel.


Praia e forte de S. Fernando — Mossamedes 
Devemos notar que o regimen das chuvas tem aqui grande influencia na conservação das aguas destes rios. Emquanto na vertente oriental da Chella começa a chover em meados de setembro, alimentando logo as linhas de agua e as nascentes dalgumas que descem para occidente, na zona baixa só depois, de janeiro a maio, é que as nuvens formadas por fortes condensações na parte alta são impellidas pelo vento sueste para a zona litoral, provocando as chuvas que produzem algumas enchentes. 
O que parece, porem, não sofrer duvida é que o excedente das aguas do planalto se escoa por uma camada inferior para o litoral, atravez dos leitos desses rios e que, chegados á zona litoral, formam extenso lençol sub-arenoso. E é por isso que escavando alguns metros no litoral, ou até decimetros, nos rios, se encontra sempre agua

De todas essas linhas dagua as mais imj3orlaiiles e de curso independente, a começar pelo norte, são: o Carunjamba, Monaia-Cangando, S. Nicolau, Cuto ou Piambo, Giraul, Bero, Guroca e Tchiambala. 

Carunjamba. — O Carunjamba e o Monaia descem do nó montanhoso da Cavira na Chella e em rápido curso, declivoso e atravez de terrenos pedregosos, lança-se no mar, tendo agua apenas na epocha das chuvas. 

S. Nicoi.au. — O S. Nicolau recebe todas as aguas da vertente occidental da  Chella desde o nó montanhoso da Cavira á portelia da Quillemba pelos numerosos alluentes — Beníiaba, Cabia, Nongihue, Caniço, Mongonde e Maluco. Todos estes se conservam correntes duranle a maior parte do anno, seccando nalguns troços em setembro, conservando, porem, agua todo o anno em represas naturaes ou escavações fundas das rochas. Depois da juncção destes afluentes o S. Nicolau conserva agua permanente em numerosos pegos e fundões, quando não corre, o que nalgumas secções raras vezes deixa de acontecer. O curso deste rio e dosseus afluentes é declivoso e rápido, cheio de cascalho ou grandes pedras, enfra- 
gado e encaixado quasi sempre entre altas serranias. São hoje muito habitadas as margendos seus afluentes no curso superior. 

GiRAUL. — O Giraul recebe as aguas do ponto mais elevado da cordilheira da Chella, na sua vertente occidental, desde a Biballa ao Hokc, pelos S2US afluentes Munhino, Jimba, Sanla There:[a íLeba e Bruco), Bumbo (Banja) e Ovelundo. A excepção do ultimo, estes rios descem mesmo do vértice da Chella e correm constantemente até á base da mesma serra, e nalguns annos até se lançarem e confundirem no Giraul. Entretanto em todo o seu percurso se encontra agua permanente retida em grandes escavações em rocha atulhadas 
de pedras e areias, ou correndo mesmo por sob estas. Nalguns sitios encontra-se sempre a descoberto, noutros em pequenas nascentes e em todo o seu leito se encontra agua á superfície, bastando escavar alguns decimetros para se descobrir, como Rio Nene até fazem os próprios animaes que vivem nas suas margens, — as cabras, antílopes, etc. Todo o seu curso é bastante declivoso e, serpeiando atravez de altos morros e em terrenos pedregosos, atulha o leito com grossos pedregulhos e areias. O Giraul é habitado junto da foz e em toda a sua bacia superior até alturas da «Nascente» onde actualmente vive muita gente. 

Bero. — O Bero recebe as aguas duma grande extensão da vertente oeste da Chella e aindade uma grande parte do seu platcau. Estas derivam da Bata-Bata pelo Calombo, Bcmgolo e Cangalombe formando o Chacuto, do Jau e Onaheria pelo Quambambe e Munhere que formam o Tampa, e do Panguero pelo Tchipeio. Todos estes conservam corrente permanente até alcançarem o sopé da serra, depois de se terem despenhado pela vertente. Alem destes, outros afluentes de cursos periódicos, torrenciaes com as grandes trovoadas, formam o Bero, taes como o Hoke e Elephanlc que originam o Saiona e se lança nelle apenas no seu terço inferior. O Cambunga, Metaca, e outros que, seguindo para norte até se unirem ao Tampa, desviam depois para noroeste. O curso deste em tudo similhante ao Giraul e S. Nicolau, é de todos os da zona do litoral aquelle que conserva maior volume d'aguas correntes e estas se 
manifestam até mais próximo do mar. E isso é devido não só ao facto do seu curso ser também o mais directo entre a serra e o litoral e á grande quantidade de aguas que 
constantemente recebe do planalto, mas ainda á natureza dos terrenos em que abre o seu leito, o qual, sendo rochoso e duro, está atulhado de pedras e areias, não permittindo a infiltração nem facilitando a evaporação. No terço inferior, porem, alastra sob 
extensa camada arenosa, formando lençol, até ao litoral da vasta bahia de Mossamedes e a agua, a não ser nas enchentes, só pode descobrir-se cavando na areia. O Bero é 
habitado no seu curso inferior junto aos Cavalleiros, e em todas as margens dos seus 
afluentes no curso superior até á confluência do Saiona, sendo nalguns pontos muito 
densa a população como em Bata-Bata, Ongheria e Tchipeio. 

CurocA. — O Curoca, rio torrencial, intermitente e impetuoso nas cheias, tem as suas origens também no alto da Chella e é de todos o que offerece maior percurso. 

Recebendo as aguas dos terrenos dentre as duas cumeadas da Chella, que se separam a sul de Vana-Velombe, por vários afluentes de curso quasi constante, dirije-se abertamente para oeste e depois de entroncar com a Damba dos Carneiros, a uns 5 o kilometros do mar,inflecte para no-nor oeste até 

Passagem do Cunene na Hinga que, recebendo OUtras 

dambas nas alturas de S. Bento, corta directamente para o Atlântico, formando a bahia de Pinda. No seu curso inferior apresenta o leito uma largura média de 5o a 6o metros por 3 de profundidade. 

Os afluentes principaes que canalisam as aguas do plateau, são: o Taca proveniente do Panguero, o Mahipanjôo que vem do Pocólo, o Evero e Tiipembe, que seguindo todos para sul se vão lançando no Otchinjau que vem de leste, e, depois de se 
precipitarem na Ompupa, formam o Curoca. Este recebe ainda um outro afluente de 
importância na quadra das chuvas e originário da Chella, o Luaia, e algumas dambas 
e córregos que canalizam as aguas torrenciaes nas epochas das grandes trovoadas. O 
Curoca é habitado no curso inferior e em todos os seus afluentes da bacia superior até 
á Ompupa e com grande densidade, especialmente no Panguero e Pocolo. 

Vertente interior da Ciíeiia 

Cunene. — A região interior e a leste da Chella e contigua á mesma constitue, 
como já vimos, a bacia hidrographica do Cunene, cujas aguas recolhe por numerosos 
afluentes convergindo nas duas margens. 

O rio Cunene, o maior de toda a região oriental de Angola do Sul, nasce no 
montanhoso nó do Cahululo (Jamba) no Huambo, districto de Benguella, e segue para 
sul com varias inflexões ora a sueste ora a sudoeste, entrando com esse rumo no dis- 
tricto de Huilla; depois de receber o Caculovar, inflete um pouco para su-sudoeste até 
formar as primeiras cataratas ao attingir os primeiros braços da serra da Chella. 
Correndo depois para oeste, despenha-se atravez de cachoeiras, rápidos e outras cas- 
catas, curvando para noroeste, e, depois de ter transposto por completo a Chella, segue 
para oeste até se lançar no Atlântico. 



https://archive.org/stream/suldangolarelatr00alme/suldangolarelatr00alme_djvu.txt

domingo, 2 de dezembro de 2018







No cais, lá estavam os escaleres dos poveiros, com um pouco de água a estremecer no fundo e encharcadinhos de sol.” - in CASTRO, Ferreira de. A Selva, Livraria Editora Guimarães & Cª , Lisboa, 1957 (18ª edição), p. 75
Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921.
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Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921...
Tudo começou quando em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a actuar nas águas do Brasil desde que: se naturalizassem brasileiros até 12 de Outubro do referido ano, nacionalizassem as suas embarcações, e organizassem “companhas” de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira. Os pescadores da Póvoa de Varzim obedeceram às duas últimas condições, arvoraram nos seus barcos a bandeira do Brasil e pediram, através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros, mas na sua quase totalidade recusaram a naturalização. Em consequência, tiveram que regressar à Póvoa. Eram cerca de mil. Em 30 de Outubro de 1920 desembarcou em Lisboa o primeiro contingente de 250 pescadores, ao qual se seguiu outro composto por 302, desembarcados em Leixões, em 5 de Novembro. Juntamente com os poveiros regressaram do Brasil pelos mesmos motivos, pescadores de outras proveniências, sendo embora em menor número, daí a Póvoa de Varzim ter sentido de forma mais dramática os problemas sociais e económicos deflagrados em resultado do retorno em massa de indivíduos, para os quais não estava preparada. Calados os rumores da calorosa e patriótica recepção, logo uma crua miséria se abateu sobre os regressados, tornando urgente a tomada de medidas a fim de debelar tamanha desgraça. Coincidiu esta situação com o projecto a levar a cabo pelo Norton de Matos, que procurava assentar no litoral sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro. Lançada a ideia da instalação de uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, estava finalmente encontrada a solução para a realização da sua proposta. E assim... “Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete “África”, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa". Entretanto o General mandara construir em Porto Alexandre um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, procurando deste modo atrai-las à fixação no solo de Angola. No jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, datado de 11/10/1921, vinha a seguinte referência:
“Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado, dizia em carta dos finais de 1921: “Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. –
Por A. M. Mendes, segue o apontamento histórico – Pescas em Portugal: Ultramar – Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias:
«Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu pri­meiro relatório de serviço (Carneiro, Carlos (1931) – A indústria da Pesca no Distrito de Moçâmedes. Anais Serv. de Veter., pág. 19-20). Nesse tra­balho começa por evocar o ano de 1921, quando no Brasil uma lei idêntica à que dera origem à primeira colonização de Moçâmedes voltou a ser publicada exigindo que os pescadores portugueses, que exerciam a sua actividade nas águas do Brasil adoptassem a nacionalidade brasileira. Carlos Carneiro escreve que: “Em massa repudiam tal violência e regressam ao seu país”. Essa lei acabou por ser revogada e o Brasil vol­tou a permitir a entrada de todos os pescadores poveiros que em águas brasileiras quisessem pescar. Era então Alto-Comissário em Angola o General Norton de Ma­tos que logo determinou que todos os repatriados que quisessem poderiam organizar-se em colónia piscató­ria na baía de “Porto Alexandre”. Imediatamente co­meçaram as construções de habitações e de instalações modelares para a preparação do peixe. Os poveiros en­contraram bom acolhimento mas a demissão de Norton levou ao abandono da colónia, ainda em implantação e acolhimento. Alguns desses poveiros voltaram para as suas terras de origem ou deslocaram-se para outros pontos de Angola e Carlos Carneiro conclui: “Não fracassou esta tentativa de colonização porque muitos desses poveiros estão trabalhando em Angola, por sua conta ou ao serviço das indústrias de pesca e são, sem receio de confronto, os melhores que no sul se encon­tram. Ficou também de pé o elegante bairro poveiro que embeleza a mansa baía de Porto Alexandre e que constitui um dos muitos padrões de glórias do governo, formidavelmente grandioso do Excelentíssimo Gene­ral Norton de Matos”.



Alguma bibliografia consultada:
in GONÇALVES, Flávio. Os pescadores poveiros em Angola e Moçambique , Póvoa de Varzim Boletim Cultural, volume VI nº 2, C.M. da Póvoa de Varzim, 1967. pp. 286/288
Imagem: 1. Grupo de poveiros em Porto Alexandre. 2. Uma das primeiras "catraias" poveiras que chegaram a Angola a partir de 1921. 3. Uma familia podeira sobrevivente.

sábado, 8 de setembro de 2018

A WELWITSCHIA, FRIEDRICH WELWITSCH, WITTNICH CARRISSO, E O KANE-WIA






Dr. Luís Wittnich Carrisso e seu companheiro Mendonça,  junto a uma Welwitschia Mirabilis no Deserto do Namibe


Welwitschia Mirabilis







Welwitschia Mirabilis


"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto

(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)




Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas, descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), criador degénero novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.

A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Trata-se de um prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.

Durante a sua viagem, Welwitsch sofreu de febres,disenteria, escorbuto e úlceras nas pernas, o que acabou por o forçar a terminar a sua exploração em 1860. Quando regressou de Angola, decidiu fixar residência em Londres para ficar próximo ao Museu de História Natural e dos Royal Botanic Gardens.

Para além de Welwitsch, outro naturalista que se interessou pelo estudo da Welwitschia foi o português Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor de Botânica na Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor dessa universidade), que, igualmente enfeitiçado por África, levou a cabo três expedições ao Deserto do Namibe solo a fim de estudar a respectiva flora. Na última delas, em pleno deserto, perto de uma Welwitschiae, faleceu vítima de ataque cardíaco. O local da sua morte, o morro do Kane-Wia que os povos indígenas mucubais dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.

O Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (Mukubais) nada tem a ver com o Tchitundo-Hulu, um outro morro do Namibe. Sobre ele Namibiano Ferreira escreveu um interessante testo que transcrevo a seguir:

«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. Fim de transcrição.



MariaNJardim




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

RIO BERO, o "Nilo de Moçâmedes"; RIO BERO, o "Rio das Mortes" , o rio que tornou Moçâmedes possível...


 
Quando o rio Bero, em tempo de cheias, extravasava das margens, corria na direcção das "Furnas de Santo António", a depressão no terreno mais tarde aproveitada para o Estádio Municipal. O espectáculo era de uma verdadeira cascata como se pode ver por este postal bastante antigo. Porém, por vezes, daqui, escorria na direcção da baixa da cidade, o centro histórico, como se pode ver na foto que segue.

A Rua da Praia do Bonfim, a principal da cidade de Moçâmedes, completamente alagada

A ponte sobre o rio Bero, em tempo de cheias
O Bero em tempo de cheias...





 



Fotos do Bero e do sítio da Macala. A exuberância da vegetação que então medrava.



Rio Bero, o "Nilo de Moçâmedes" foi o rio que tornou Moçâmedes possível!

Conta-se que Bernardino Freire de Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia oriunda de Pernambuco, Brasil, desembarcada em Moçâmedes em 1849 , ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, ter-se-ia sentido decepcionado, porém, mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as água das enxurradas ao invadirem as margens, levam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que fazia das "Hortas" verdadeiros oásis,

Mas ligada ao Rio Bero, visto como o "Rio das Mortes" conta-se uma história triste. "Rio das Mortes", assim lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter ali encontrado a morte, em 1785, o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda e mais dois marinheiros.Eis o que a este respeito escreveu Pinheiro Furtado ao governador de Angola, José de Almeida e Vasconcelos, barão de Moçâmedes:

"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus, que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado pelo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados que andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. " Fim de transcrição.

MariaNJardim

Nota: O Bero ,como vem referido nos Annaes do Município de Moçâmedes de 1858, era pelos autóctones conhecido por "Belo". Porém Bero e não Belo surge rectificado pelo tenente Garcia nas suas "Memórias das Explorações de 1839".

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Assassinado do explorador francez Alexandre Laurient, enquanto estudava o curso do rio Cunene, em 1874








José Pereira Nascimento, médico da Armada, in "Explorações Geográficas e Mineralógicas no Distrito de Mossamedes, 1894-1895, relata in Portugal em Africa, revista scientifica, Volume 5. 1898,  a pg 36, a morte do malogrado explorador francès, enquanto estudava o curso do rio Cunene

"... Pela presença de algumas latas de sardinha de Nantes, reconheci ser ali que foi assassinado o explorador francês Alexandre Laurient  que em 1874 estudava o curso do Rio Kunene . Segundo o tesmunho de alguns pescadores da Bahia dos Tigres , a morte do malogrado explorador, passou-se da seguinte forma: Laurient partiu de Mossamedes a pé e só, recommendado a um pescador dos Tigres, a quem pediu dois servicaes para o servirem durante a exploração do rio. O portuguez cedeu-lhe os pretos, mas avisou-o de que era perigoso viajar com pouca gente, principalmente sendo serviçaes contractados, que fogem logo que se encontram longe dos patrões, sendo pouca a confiança que n'elles depositava; aconselhavao a voltar a Mossamedes ou a Porto Alexandre, onde facilmente arranjaria negros livres do Koroka, já. habituados a prestar serviços aos brancos, e recommendou-lhe que levasse rancho para elle e para os pretos, sendo certo que elles o abandonariam, logo que lhes faltasse o sustento. A isto respondeu Laurient que tinha confiança na sua arma para matar caça e para conservar os pretos em respeito e obediencia. Partiu o explorador com cega confiança na arma e pequena quantidade de provisões, quanto podiam conduzir dois carregadores. Quando acabava o rancho, mandava um dos servicaes ä. casa do pescador para lhe conduzir novo fornecimento, quasi exclusivamente composto de sardinhas de Nantes. De uma vez os pretos descontentes por falta de comer, e por serem obrigados a fazer constantes viagens á. bahia dos Tigres, além do variado serviço a que os obrigava o explorador resolveram fugir na occasião em que não havia rancho, nem apparecia caça. Laurient, desconfiado do plano de fuga, ameaçou-os de morte e de arma apontada para um d`elles obrigou-o a marchar para a bahia dos Tigres em busca de novas provisões. O preto partiu, mas deixou-se ficar escondido no canniço e pela calada da noite, quando o explorador dormia, voltou, tirou-lhe a arma e varou-lhe o tronco com um tiro pelas costas. Sabido o caso pelo outro preto, partiu para o Kunene um grupo de pescadores, entre elles o que tinha emprestado os serviçaes; enterraram o cadaver, recolheram os seus papeis e prenderam o assassino, que foi julgado e condemnado a degredo. Os papeis, a arma e os seus instrumentos foram entregues ao Governador de Mossamedes, ignorandose o fim que levaram. Como homenagem aos trabalhos d'este corajoso explorador, sacrificado aos interesses da sciencia e da humanidade e assassinado em territorio portuguez, entrei em diligencias afim de saber o paradeiro das suas notas e cartas para as fazer chegar ao conhecimento do mundo scientifico. Deixando aqui consignado o testemunho de respeito de um modesto peoneiro portuguez ä. memoria do infeliz Alexandre Laurient prosigo na minha narrativa."

Fim de transcrição.


https://books.google.pt/books?id=y-czAQAAMAAJ&printsec=frontcover&dq=Portugal+em+Africa:+revista+scientifica,+Volume+5&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjS1oG3g4bdAhUFfxoKHdRFBbMQ6AEIKDAA#v=onepage&q=baia%20dos%20tigres%20revista%20scientifica%2C%20Volume%205&f=false

sábado, 18 de agosto de 2018

Uma atribulada «ida na mahanja»

Aquando do êxodo dos retornados vindos de Angola, a confusão no aeroporto da Portela, era aquela que as pessoas com mais de 50 anos estão lembradas.

O aeroporto de Lisboa regorgitava de gente.  A ponte aérea entre as colónias do Ultramar e a Metrópole, funcionava em pleno com aviões de muitas nacionalidades despejando homens, mulheres e crianças de todas as idades, brancos e pretos, novos e velhos, numa amálgama de pessoas de que não havia memória na história contemporânea em tempo de paz (se é que o mundo, desde que é mundo, alguma vez conheceu a paz), gente apreensiva com relação ao futuro que os esperava, e traumatizados pelo desfazer do sonho angolano que os embalou durante toda uma vida.

Numa das muitas viagens dos aviões que descarregavam gente, apreensão e décadas de muitos sonhos desfeitos,  num total de mais de quinhentas mil pessoas, veio o RC com a família formada, por mulher, criançada e avó negra,  por afinidade.

 Naquela confusão de gente que chegava e de gente que vinha ver quem chegava, enormes filas para identificação, para trocas de cinco contos de cá por cinco contos de lá, por pessoa, para inscrição no IARN,  (Instituto de Apoio ao Regresso de Naturais), para a burocracia, etc. tudo com muita espera de muitas horas, à anciã, depois de muitos apertos, deu-lhe vontade de urinar, e, não suportando mais aguentar a necessidade fisiológica,  disse para as netas:

Meninas, vão perguntar aí, onde a gente faz chi-chi.

A criança foi, demorou-se algum tempo, e trouxe o recado:
" É ali, avó, ao fundo do corredor, vira à direita, anda um bocadinho e encontra uma porta com um boneco a imitar uma mulher. É aí."

A velha desconfiada resmungou:
"Um boneco? Mas eu quero é mijá! Olha eu vou mazé na mahanja. Ucês me acompanha na minha trás, o resto fica a tomar conta das nossas bicuatas enquanto o Gerinho não aparece. Mas fica de olho bem aberto para ninguém não roubar, porque aqui tem muito granco e também muito ladrão."

Netos e avó de mãos dadas serpentearam por entre as pessoas e bagagens, sairam do aeroporto, andaram sem tino e, quando a claridade das luzes ia sendo vencida pela escuridão da noite, as  crianças iam ficando para trás, e com medo regressaram para a confusão.

A velha com aquele ar cansado que lhe dava o carregar com setenta e alguns anos e muita ralação, mais o zonzear da viagem do avião, lá foi à procura do capim alto que era onde ficava a mahanja.

Fez o que tinha a fazer, ficou aliviada, mas não deu com o caminho do regresso, perdeu-se, e depois de muito tentar regressar, foi encontrada pelos seguranças do aeroporto, que a entregaram ao posto da polícia mais próximo, ali para os lados do bairro das Galinheiras.

Começou o interrogatório:

- Você veio donde:
-De Moçâmedes.

-Veio na ponte aérea?
-Não veio, não siô, veio não avião.

-A dona é retornada?
-Não siô.

-Veio do Ultramar?
-Não siô.

-Então veio das colónias?
-Também não.

-Então veio de onde?
-Aka, eu já disse, eu veio de Moçâmedes.

-Onde fica isso?
-Perto da Praia Amélia.

-E a Praia Amélia?
.-Antes ou depois de Moçâmedes, conforme. Ucê conhece?

-Os guardas eram pacientes, entreolharam-se e continuaram.
-Sabe onde mora?
-Na Torre do Tombo.

-Se a levar para lá a Dona sabe dizer onde é a sua casa?
-Pois claro que sei.

Era um caso simples de resolver. Os agentes policiais meteram-na no jeep, seguiram pela Alameda das Linhas de Torres, passaram pelo estádio de Alvalade e pararam perto do edifício do arquivo da Torre do Tombo, em  Entrecampos.

-É por estes lados que você mora?
-Aka! Eu já disse que mora na Torre do Tombo e aqui não é Torre do Tombo que eu conheço muito bem. Ainda nem passou nem o Palácio, nem a Igreja, nem a loja do Carumbemba, como é que aqui é Torre do Tombo?

Os agentes conferenciaram e acharam melhor regressar. Contaram ao Cabo, comandante do Posto o acontecido e este por sua vez,  chamou a assistente social que estava mais vocacionada para estes casos, que ele diagnosticou de perda de memória ou demência degenerativa, própria da idade da anciã.

Tiraram a identificação, aboletaram a senhora na Pensão Luanda, da Almirante Reis que tinha contrato com o IARN, e garantiram gelidamente, como só os polícias sabem fazer.

- Olhe, não falei com o dono da Pensão,  a Senhora vai pernoitar aqui e amanhã continuamos a procurar. Está bem ?
- Não esperaram pelo assentimento da idosa e remataram:
-Então, até amanhã.

Dois dias depois apareceram os zeladores da ordem e da lei. Prosseguiu o interrogatório com outro interlocutor, uma moça jovem que depressa foi posta ao corrente da situação. Querendo ser simpática para cativar a idosa, começou o interrogatório no sitio onde os seus colegas tinham ficado:

-Então avó, se não sabe onde mora, sabe ao menos quem são o seu marido, filhos, netos?
-A velha mete o dedo indicador por dentro do lenço que cobre a cabeça, e coça a carapinha branca, dizendo com ar de enfado:
- Pra já ucê não é minha neta, o meu homem já morreu faz tempo, e o meu neto de leite se chama Gerinho. Ucê pergunta aí a qualquer pessoa que toda a gente o conhece.

-Onde trabalha o teu neto Gero?
-No Caminho de Ferro.
-No Caminho se Ferro dos comboios?
-Esse mesmo,

Suspiraram de alívio. As coisas estavam-se a compôr. Meteram a velha de novo na parte de trás do Jeep , atravessaram Lisboa de lés a lés,  em hora de ponta, e quando a viatura afrouxou a marcha, em Santa Apolónia, ela subitamente despertou, levantou-se e gritou, de dedo em riste:

-Pára, pára, é aqui mesmo. Tá ali a casa do sô Radich!
-Quem é esse Radich ou lá o que é?
-Já morreu faz tempo. Bom homem esse. É marido da Dona Beatrizinha, irmã do Sô Caleres do Banco, que casou com a Dona Branca, irmã do Patalim, e as filhas se chamam...

-Chega, chega, poça! Como é que se faz para calar esta velha, oh nosso Cabo? explodiu o motorista, engrenando a primeira e arrancando de esticão.

Bem, andaram com a velha por toda a Lisboa, de Jeep, atrás de pistas falsas durante dezassete noites,  a rádio fez apelos e a televisão passou fotografias e abordou com desenvolvimento aquele estranho desaparecimento da idosa retornada no noticiário das oito.

Após tantas notícias e apelos cruzados da polícia e do RC, este apareceu no posto policial afogueado, e abraçando-se à avó,  quase chorando recriminou:

-Então avó, isto faz-se? Toda a gente ficou em cuidados e não sabíamos mais o que fazer.
-Não precisava. Olha lá, e tu só agora é que apareces, não é? Disse ela, calmamente, agarrando nas coisas que a assistente social lhe tinha dado. Agradece à menina que faz muita pergunta pra nada e também a esses tchinderes que não estão bons da cabeça e que me levaram a passear por tanta rua esquisita.

-Ah!, e explica a eles onde fica a Torre do Tombo!


-E, de repente, fixando o neto, perguntou:
-É verdade, olha lá, como é mesmo como se chama as filhas da D. Beatrizinha, mulher do Radich da Alfândega. irmã do Sô Caleres, que é do Banco, que casou com a D. Branca, irmã do Patalim?


Fim

(Do caderno de memórias Contos Breves de Escárnio e Maldizer, de Mário Lopes.)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A literatura e as guerras em Angola. No Princípio Era o Verbo



Texto integral

1Se não for por catarse, diga-se que a tão repetidamente evocada Guerra Colonial de 1961-74 foi simplesmente a última das muitas guerras que se seguiram à primeira, travada entre as hostes de Paulo Dias de Novais e Ngola Kiluanje, em 1575. De facto, com a segunda chegada de Diogo Cão, em 1484, e o seu relacionamento com o Mani-Soyo, ainda se poderá falar de “colonização missionária” (expressão eufemística de Adriano Moreira para caracterizar toda a colonização portuguesa…), de tal modo foram cordiais e de interesses recíprocos as relações entre portugueses e angolanos. Depois, foi o que é consabido: o tráfico de escravos e a busca de ouro e prata formataram as relações e os interesses ao ponto de nem os missionários escaparem à tentação da riqueza – lembrem-se os padres dos Lóios.

2Só do primeiro tempo em que o adjectivo colonial ainda remetia para o étimo latino colonus (o que cultiva a terra em lugar do seu dono) se poderia dizer, parafraseando a Bíblia, que No Princípio era o Verbo, porque a confiança na Palavra dita e os actos consequentes faziam jus ao pensamento de Santo Agostinho, um milénio antes, de que o tempo é o espaço onde decorrem as coisas. Mas já antes Cícero advertia: o tempora! O mores! E como se viu até aos nossos dias, os interesses, as práticas e os costumes, pese embora a primeira Palavra, mudaram o espaço e o tempo, até que…

3por fim, a Palavra transbordou como componente de um vulcão adormecido, que depois entra em erupção: primeiro magma, depois lava. Tal como na natureza humana: primeiro, conformação, resignação, esperança; depois, inconformidade, protesto, luta.

4No caso, todavia, em duas vertentes: uma, que se reportava aos interesses do colonizador; outra, do colonizado – gerando (até 1961…), no dizer de Mário António, a respeito de alguns textos questionáveis contidos na revista Mensagem, “um caldo de ambiguidades”.

5Esse “caldo”, enquanto palavra escrita, está já presente nos primeiros jornais que se fundaram em Angola, a partir de 1866 (o primeiro arremedo de informação começou em 1845, com a criação pelo Governo do Boletim Oficial). Até então a escrita, já literária, fazia-se num Almanach de Lembranças Luzo-Brasileiro e nos recortes que iam chegando do Brasil pela mão dos maçons estabelecidos ou degredados em Angola, como foram os implicados na Inconfidência Mineira, em 1789: José Álvares Maciel, o ideólogo da intentona, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Domingos de Abreu Vieira, Luís Vaz de Toledo e Francisco António de Oliveira Lopes, uns literatos, outros militares de carreira.
6Com a intentona que a independência do Brasil inspirou nas cidades de Benguela e Luanda, denominada Confederação Brasílica, em 1822-23, sob a égide de um dito “partido brasileiro”, constituído por brasileiros, portugueses e angolanos, saltava à vista que a narrativa da Portugalidade no futuro de Angola teria vários pronunciamentos.

7Um deles já tinha vindo de um português que integrara a colónia formada em Pernambuco, em consequência da Revolta Praieira, e que em 1849-50 demandara a região de Moçâmedes, na expectativa de substituir um Brasil em estado de revolta nativista por uma nova “Terra da Promissão”. Chamava-se António Francisco Nogueira (literariamente A. F. Nogueira), sem uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e bancário), revelando-se durante a sua permanência no Sul de Angola como um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da Metrópole e, por último, um importante livro de ensaios com o título genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:

[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?
[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!
8Este colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando, mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”. Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:
Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
9Macedo sabia bem do que falava: em 1901 tinha vindo a lume, impresso em Portugal, um libelo escrito por destacadas personalidades angolanas, civis e religiosas, que sob anonimato verberavam as críticas racistas de um deputado português de visita a Angola. Intitulava-se esse livro Voz de Angola Clamando no Deserto, cujo primeiro depoimento – “Solemnia Verba” –, por muito apaziguador que fosse, não iludia o que subjaz à expressão latinista: Solene Advertência.
10O Verbo, a Palavra final, continuou por dizer nos anos seguintes, até ao momento em que um poeta já revolucionário, Viriato da Cruz, em 1956 defendeu o imperativo de criar um Movimento Popular de Libertação de Angola, sendo verdade que, desde antes, escritores, poetas e jornalistas já tinham assumido, em revistas e jornais, o direito inalienável a uma identidade própria, política e cultural. O Poeta Maior, Agostinho Neto, expressá-la-ia posteriormente numa tríade paradigmática: Sagrada Esperança, A Renúncia Impossível, Nós Somos!

11Em 1951, no primeiro número da revista Mensagem, da Associação dos Naturais de Angola, ainda a Cultura era um campo onde fecundavam as aspirações e germinavam os ideais:
[…] MENSAGEM será – nós o queremos! – o marco iniciador de uma Cultura Nova, de Angola e por Angola, fundamentalmente angolana, que os jovens da nossa Terra estão construindo. E porque assim é, porque é sincero o nosso desejo de auto-realização, não admitimos o preconceito, o compadrio; abominamos a hipocrisia e a injustiça; surpreende-nos a louvaminha, o elogio mútuo; desagradam-nos as meias tintas.
Batemo-nos pela Verdade, pela verdade forte, sem a verrina da agressividade mas com a justiça da nossa sinceridade; somos pelos grandes horizontes, sem nuvens, mas com a luminosidade forte do sol que nos aquece; pela generosidade dos nossos ideais, pela grandeza dos nossos Problemas. […]
12A revista durou apenas dois anos, com dois números publicados.
13Cinco anos depois, em Novembro de 1957, uma nova revista, CULTURA (II), editada pela Sociedade Cultural de Angola (já tinha existido uma primeira CULTURA, em 1942-47, de inspiração liceal irrelevante) propôs-se prosseguir e actualizar a linha editorial da Mensagem. Como se afirma no editorial do seu n.º 8, de Junho de 1959, não assinado mas sendo presidente da instituição o advogado e ensaísta Eugénio Ferreira:
Nós queremos que a Sociedade Cultural de Angola seja um organismo vivo, dinâmico na sua acção, objectivo perante os problemas da vida angolana. Um organismo despretenciosamente capaz de possibilitar aos homens de Angola, e sobretudo à sua juventude, um meio de abordar quantos problemas atormentam o seu espírito. O tempo e o homem de Angola são os elementos decisivos na gestação de uma cultura angolana, nacional pela forma e pelo conteúdo, universal pela intenção, capaz de ultrapassar a incipiência do exotismo tropical e do primitivismo turístico. Não podemos iludir nem ignorar os problemas. Não podemos abandonar as suas soluções às contingências do acaso. Nem subordiná-las a interesses pessoais e transitórios. Não podemos contentar-nos com exercícios de oratória mais ou menos oportuna, para não dizer oportunista. Necessitamos de pôr, com clareza e coragem, os nossos problemas em equação; discuti-los sem reservas, franca e honestamente, sem tolos melindres nem descabidas vaidades e encontrar as soluções justas, justas sob o ponto de vista nacional, justas sob o ponto de vista humano. Só assim lançaremos as bases de uma cultura[…]
14O ano de 1959 é particularmente trágico para os intelectuais de Angola, onde a PIDE/DGS já estava instalada desde 1957. Deu inequívoco sinal da sua presença com a formatação do famigerado “processo dos 50” e a consequente prisão e desterro de alguns dirigentes da Sociedade Cultural de Angola e colaboradores literários da CULTURA (já o tinham sido da Mensagem), também “marcados” pela sua participação na campanha presidencial de Arlindo Vicente/Humberto Delgado, pelas janelas que ela prometia abrir para os horizontes de uma Nova Angola.
15CULTURA é extinta em Novembro de 1960, com 12 números publicados. Pese embora uma declaração de interesses, é significativo que na última página do seu último número seja registado, com nota positiva, o surgimento, na cidade de Sá da Bandeira (hoje Lubango), da Colecção Imbondeiro, numa recensão assinada por A. A. (o conhecido causídico e poeta “mensageiro” Antero de Abreu):
No pobre panorama literário de Angola, a iniciativa da “Colecção Imbondeiro” reveste-se da maior importância, pelo que revela de esforço e seriedade, pelo que representa de amor a uma literatura consciente e de qualidade, pelos caminhos que abriu e abrirá. Até ao seu aparecimento, a actividade editorial em Angola, tirada a imprensa e os boletins desta ou daquela organização cultural, consistia na publicação de um ou dois livros anuais, a maior parte das vezes de versos, como é natural, e em edição dos autores. Hoje, com a “Colecção Imbondeiro”, já se pode falar em movimento editorial em Angola. Por isso, e porque é efectivamente uma realização cuidada e séria, a obra iniciada por Garibaldino de Andrade, Leonel Cosme, Maurício Soares e Carlos Sanches, presentemente mantida pelos dois primeiros apenas, tem já assegurado o seu lugar numa futura história da literatura (de Angola).
16A Imbondeiro foi criada em Janeiro de 1960, tendo como suporte legal a classificação de livraria-distribuidora, já que, no contexto político da época, como editora não seria obviamente autorizada. Por precaução e como subterfúgio, todos os cadernos da “Colecção Imbondeiro”, dedicados ao conto e à poesia, referiam, na última página, que eram propriedade e edição dos autores. Ao oitavo caderno, a PIDE local pediu para lhe ser mostrada a licença da actividade: um alvará comercial passado pela Repartição de Finanças do Lubango…

17Era o primeiro “aviso”. Não a distraíra o facto de o quinto caderno ser preenchido por um conto de Joaquim Paço d’Arcos, considerado autor situacionista, entre outros autores considerados separatistas. Nem lhe diminuíra a suspeição o Propósito aparentemente inócuo expresso no primeiro caderno:
Duas razões nos levaram a lançar esta colecção: a necessidade de dar a conhecer ao público português os valores ultramarinos que se espalham pelos cantos do mundo onde se fala a língua lusíada, desde a Guiné até Macau, e o direito, que se impõe, de os manifestar conjuntamente à luz duma consciência nacional que não pode deixar de reconhecer, nos caprichosos tons da grande aguarela lusitana, um curioso tema de interesses recíprocos, solicitados por anseios de espírito ou por afinidades de cultura tradicional.
Não se passará, imediatamente, duma tentativa em moldes simples (tão dependente de variados factores), traduzida em trabalho breve, mas responsável, como é o conto: explica-a, de resto, esta forma primária da Literatura, que, seja em Angola como em Moçambique, não possui, por ora, arcaboiço adulto com recursos igualáveis aos de uma terra de antiga existência literária.
Mas, dentro da estreiteza das possibilidades, será nosso intuito cumprir a tarefa com o melhor aproveitamento dos muitos valores esparsos, maiores ou menores, que ainda hibernam – na espreita duma aurora que cesse a já longa escuridão – à sombra dos braços clamorosos dum velhíssimo imbondeiro…

18A ambiguidade deste texto inaugural prestava-se a várias interpretações, em que a escolha da árvore imbondeiro (m’bondo no étimo angolano) para sigla da “editora” não era fruto do acaso, mas um símbolo, quiçá um ícone, a que as características da milenária “árvore sagrada”, para os nativos (que dela retiravam alimentos e remédios), davam o sentido desejado. O que se viu quando a par da “Colecção Imbondeiro” foram surgindo as colecções “Mákua” (poesia) e “Dendela” (contos infantis), isto é, o fruto e a flor da imbondeiro.

19Na mais pacífica interpretação, a iniciativa convidava ao reconhecimento de uma Lusofonia no vasto espaço luso-tropical… Esta terá sido a primeira leitura dos epígonos do regime colonial, a PIDE incluída, não desmentida quando outras colecções do tipo da Imbondeiro surgiram em Nova Lisboa (Bailundo), no Lobito (Capricórnio) e em Cabo Verde (Dragoeiro), estas de vida curta.
20E porque o propósito da Imbondeiro não distinguia, literariamente falando, os autores de diversas formações ideológicas, e por isso chegou a ser criticada no Boletim da Casa dos Estudantes do Império, também chamado Mensagem, foi necessário, ao segundo ano de existência, defender o seu “eclectismo cultural”, que não excluía (pois também os publicou) os autores “progressistas” que constituíam a Colecção Autores Ultramarinos da C.E.I., aliás de curta duração:
[…] ausência de opções, portas abertas a todo o pensamento dos nossos escritores, independentemente das suas tendências literárias e sociais – seguindo enfim uma linha de rumo que, agradando ou não a gregos e troianos, vem sendo cumprida desde o primeiro instante: isenção, franqueza e independência, na convicção firme de que só os caminhos da liberdade intelectual podem conduzir ao seio da Cultura e da Arte, pelo menos na acepção em que as temos. […]
21Depois (como antes) deste “incidente”, Imbondeiro continuou a publicar, em cadernos e antologias, contistas e poetas, incipientes e consagrados, presos ou em liberdade, de todos os territórios de língua portuguesa, incluindo os que sob a acusação genérica de serem contra a segurança do Estado e inimigos da unidade da Nação portuguesa se propunham libertar as colónias de armas na mão.

22Para os directores da Imbondeiro a razão da sua existência era uma só: dilatar o Verbo até ao ponto em que ele se exprimia em termos de Cultura nacional e universal. Pois que, repetindo Terêncio, homo sum: humani nihil a me alienum puto.

23Esta volição cosmopolítica deu pleno sentido à inclusão na “Colecção Mákua”, no n.º 5/6 (Grandes Poetas do Século XX), já em 1964, de poemas de Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiri Wolker, Langston Hughes, Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir Maiakovski.

24Não aparece o nome do grande poeta angolano, Agostinho Neto, pelo simples facto de naquela data ainda não estar publicado o primeiro livro que o internacionalizou: Sagrada Esperança. Mas já era o primeiro nome da selecção de poetas que constituíram o n.º 49/50 da “Colecção Imbondeiro” – Antologia Poética Angolana –, saído em Junho de 1963.

25Já se calculava que esta primeira antologia, reunindo nomes de poetas presos, desterrados e suspeitos, angolanos e portugueses, seria provavelmente encarada pela polícia política como uma “provocação”. A certeza concretizou-se, no ano seguinte, com a publicação da MÁKUA “internacionalista”: a PIDE invadiu a Livraria Imbondeiro para apreender os exemplares ainda ali existentes, pois o grosso da tiragem já tinha sido preventivamente enviado para os assinantes da Colecção, antes de seguir para as livrarias…

26Era o período nevrálgico em que a guerrilha dos movimentos independentistas progredia no interior e, na capital, o livro de contos Luuanda, de Luandino Vieira (prisioneiro no Tarrafal) fora distinguido com o Prémio Mota Veiga por um júri que integrava dirigentes da Sociedade Cultural de Angola. Este facto foi assim registado num extenso relatório da PIDE de 16 de Setembro de 1965:
Em 1964, serviu ainda a sede da SOCIEDADE CULTURAL DE ANGOLA para reunião do júri que, irregularmente, atribuiu o prémio “MOTA VEIGA” ao livro intitulado “LUUANDA”, da autoria de LUANDINO VIEIRA, obra que se integra na problemática desnacionalizante da literatura negro-africana (ou negritude) que a referida Sociedade fomentava desde 1957.
27A sul, no Lubango, a Gráfica da Huíla imprimia, em Dezembro de 1964, o caderno n.º 69 da “Colecção Imbondeiro”, com um trabalho de Luandino Vieira, que seria o primeiro de 1965, quando a PIDE invade a tipografia, apodera-se do papel já impresso e do próprio chumbo da composição, e, não bastando, estende a sua acção às instalações da “editora”, onde apreende toda a documentação, literária e comercial, existente no escritório, incluindo textos inéditos.
28A ‘aventura’ de Imbondeiro chegara ao fim. Mas o Verbo ainda estava na primeira conjugação…
29Junte-se, para a memória desse período, o facto de aquele livro de Luandino Vieira ter merecido, no ano seguinte, o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (a seguir extinta após a sua invasão por legionários), e de a Sociedade Cultural de Angola ser também extinta por Portaria de 5 de Março de 1966 do Governo de Angola. Era governador Silvino Silvério Marques e ministro do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha.


 Leonel Cosme


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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Welwitschia Mirabilis






"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto

(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)





Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se precisamente no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas,  descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), que se tinha deixado encantar pela natureza africana a ponto de só a ter abandonado quando foi vítima de maleitas tropicais.que se encontra precisamente no deserto do Namibe. O nome foi dado em homenagem  a Friedrich Welwitsch (1806-1872) seu descobridor e criador de um género novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.

A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Possui um caule duro, do qual saem duas folhas, que crescem lentamente, esfarrapando-se nas extremidades, a um nível rasteiro. Parece apenas um monte de fibras secas e velhas, mas apesar de desarrumada e descolorida, é um fenômeno da natureza. Trata-se do prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.

Para além de Welwitsch, outros naturalistas têm se interessado pelo estudo da  Welwitschia sendo um deles o português Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor de Botânica na Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor dessa universidade), que, igualmente enfeitiçado por África, levou a cabo três expedições ao Deserto do Namibe solo  a fim de estudar a respectiva flora. Na última delas, em pleno deserto, perto de uma Welwitschiae, faleceu vítima de ataque cardíaco. O local da sua morte, o morro do Kane-Wia que os povos indígenas mucubais dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.

 O Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (Mukubais)  nada tem a ver com o Tchitundo-Hulu, um outro morro do Namibe. Sobre ele Namibiano Ferreira escreveu um interessante testo que transcrevo a seguir:

«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”.  Fim de transcrição.

MariaNJardim



segunda-feira, 25 de junho de 2018





Estátua de Maria da Cruz Rolão, (1) colocada à entrada de Porto Alexandre (actual Tombwa), nos inícios da década de 70, poucos anos antes da independência de Angola. Acabaria por ser demolida nesses tempos de nacionalismo exacerbado que se seguiram ao processo agitado de descolonização e  independência do território.

Subscrevo totalmente este texto assinado por Manuel Gaspar:

"...Os africanos,  por motivos que plenamente compreendemos, e dada a  incapacidade  de distinguir entre bons e maus colonos, entre  o colono trabalhador do ambicioso colonialista, nunca perdoaram a colonização. E o radicalismo das posições não tem ajudado a compreender a verdade histórica de um povo que,  ao arrepio da desconfiança desenvolvida face a teses de fácil aproveitamento, mas não menos reais, como a do "lusotropcalismo" de Gilberto Freyre,  não possuia nem possui características racistas de outros povos, já  que facilmente se miscigenou, fosse com índios, no Brasil, fosse com negros em África, formando uma população tri-híbrida.

Os portugueses quando partiram para a diáspora já carregavam consigo séculos de integração genética e cultural de povos europeus, como os celtas e os lusitanos, para além dos 7 séculos de convivência com mouros do norte de África e com judeus, relacionamento que deixou um importante legado a este povo. Lá virá um dia em que haverá a capacidade de interpretar a História, com o necessário distanciamento, e se há de  ultrapassar preconceitos de má memória e de maus resultados, que apenas servem e continuam a servir àqueles que pretendem dividir para reinar! E tanto mais  que não existe margem para dúvidas de que chefes tribais estiveram envolvidos no tráfico de escravos de má memória, e que hoje em dia chefes africanos encontram-se profundamente mergulhados na exploração dos seus próprios povos, numa época em que a ambição dos grandes está no auge, e que já ninguém duvida que ela não têm côr nem tem pátria!"


Dia da inauguração da Estátua, na presença do Governador e Presidente da Câmara de Porto Alexandre, Lourdino Tendinha. Entrevistador, José Manuel Frota do RCM


Esta mulher, Maria da Cruz Rolão, era afinal uma mulher do povo que, pela sua energia e por saber ler e escrever numa época em que a maioria do povo português era analfabeto, foi por consenso tácito do reduzido núcleo populacional de Porto Alexandre, eleita a sua Regedora. Um facto ninguém jamais poderá negar, é que os destemidos algarvios deram, também eles, com a sua presença nas terras áridas e desérticas do sul de Angola, o seu contributo para que o território angolano se mantivesse íntegro, nos momentos cruciais que se seguiram à Conferência de Berlim, (1885-6), quando a imposição das potências estrangeiras era a ocupação, evitando assim que o mesmo território fosse cindido em proveito de outras potências interesseiras e interessadas, como a Alemanha que pretendia a anexação  pelo Sudoeste Africano (Namibia), da faixa territorial de Angola, a sul de Benguela.




Foto: outra perspectiva da estátua erguida em Porto Alexandre em homenagem a Maria da Cruz Rolão, obra do escultor, já falecido, Fernando Marques, sobre a qual se desconhece o destino. Foi executada em cimento na cidade de Sá-da-Bandeira, pelo escultor Fernando Marques, era composta por duas ou três peças, e foi em seguida pintada na cor bronze. Foto cedida por Paula Marques, sua filha, a quem agradecemos. Ao mesmo escultor Moçâmedes ficou a dever  os baixos relevos das galerias  do "Cine-Estúdio SATÉLITE", o Cinema inacabado, de arquitectura futurista que faz lembrar um ovni e que se encontra por acabar, desde 1975, porém deixado quase concluido, quando a cidade foi abandonada pela população branca e não só, devido aos confrontos bélicos entre movimentos independentistas que precederam e se seguiram à independencia. Também Fernando Marques tinha em mãos, em 1975, o projecto para um outro monumento a erguer na Marginal, em Moçâmedees, uma evocação aos fundadores da cidade.










Maria da Cruz Rolão, a heróica Regedora de Porto Alexandre, nasceu em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21 de Setembro de 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro. Era filha de Domingos Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (conf. Câmara Municipal de Moçâmedes, Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883 a 1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito de seu filho, José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes, em 1 de Dezembro de 1905, motivado por tuberculose pulmonar, no estado de casado com 53 anos de idade - nascido em Olhão em 1852, registou-se a filiação: filho de Maria da Cruz Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 do Registo de Obitos 1898-1911) . Outro Registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os Sacramentos. Indica a sua profissão: Maritimo. O seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão. Confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó, maritimo, e de Maria da Cruz Rolão, natural e Olhão e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz, não dez testamento, deixou seis filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião, de Moçâmedes, Registo de Obitos de 1905). Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão, verificado em Moçâmedes, a 06 de Julho de 1902 com a indicação da idade: 70 anos, e do estado civil: casado, apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (Câmara Municipal de Moçâmedes Livro 52? Registo óbito 1898-1911. Há outros registos que referem dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz.

De Delgado, Ralph seguem algumas passagens que mais pormenorizadamente nos podem esclarecer sobre o perfil da Regedora, Maria da Cruz Rolão:


...A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.


”...Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.


“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.


“...Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”

Delgado, Ralph (2) vol. II pp. 60/61


Cecilio Moreira no seu

“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.


“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.


“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”


Moreira (1) pp. 20/21

Vendo bem, através de uma perspectiva transcendental, europeus e africanos fomos vitimas  (as maiorias) e fomos beneficiários (uma minoria) desse processo histórico que hoje chamamos "globalizaçâo" e que teve o seu arranque com as caravelas portuguesas no séc XV, impulsionado mais tarde pela Revolução Industrial (1ª e 2ª) na busca de matérias primas , mão de obra barata e mercados consumidores.  Estamos presentemente no limiar de uma  nova era.  Outras revoluções estão em curso, para o bem e para o mal. O capitalismo, a mola que tudo faz movimentar tem a sua dinâmica. Presume-se que novas e radicais mudanças que não divisamos venham a acontecer na vida das pessoas num futuro próximo, consequência de uma enorme revolução tecnológica, da computorização, da robótica que, significam um salto histórico e civilizatório comparável à descoberta da técnica, enquanto ferramenta e arma, pelo homo sapiens.  De agora em diante, precisamos de inteligência artificial, pois o volume de dados é imenso, estão armazenados na nuvem e chegamos ao tempo em que robôs já estão nos ajudando a decifrar o mundo em que vivemos. Não é ficção científica, já é realidade.  Nada será como antes: negócios, relacionamentos, produção de conhecimento, percepção do mundo, da sociedade, da natureza, do espaço, das galáxias, enfim, tudo. Estas são algumas conclusões a que se pode chegar...Não estaremos por cá para ver.

MariaNJardim