Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Mossamedes. Hidrografia: Rios Bero, Giraúl; Curoca, S Nicolau, Carunjamba,Piambo, Cangando, Cunene, Tchiambala.

 Hídrographia. 

A hidrographia de uma determinada região está inteiramente ligada á orographia, ao regimen pluvial, á natureza do terreno e sua constituição geológica. Vimos já que podemos considerar o Sul d'Angola dividido em quatro zonas orographicas, a cada uma das quaes corresponde um systema hidrographico. Indiquemos a traços largos, embora, o que se encontra mais saliente e característico em cada uma delias. 

Zona do litoral 

Na vertente do Atlântico, ou zona baixa do litoral, a rede fluvial é constituída por um certo numero de linhas d'agua que, originarias nas faldas ou contrafortes da serra da Chella, seguem para oeste e a curta distancia da costa inflectem o seu curso 
sensivelmente para noroeste, devido talvez á constituição e movimentos do terreno, dunas d'areia movediças em geral, açoitados pelo vento sudoeste. 

Todos elles são de corrente periódica ou curso intermitente, correndo permanentemente a agua apenas até alguns kilometros das suas origens, na quadra secca, até onde a evaporação ou a inliltração de terrenos permitte conserval-a, emquanto no restante 
curso até ao mar estão seccos, pelo menos á superfície, se bem que alguns conservem 
grossa toalha liquida sob as areias ou terrenos permiaveis. 

Na quadra pluviosa, ou seja devido ás chuvas do planalto ou á natureza do terreno e formações da base da serra, os numerosos afluentes, ravinas e depressões enchem a trasbordar e, lançando-se nos rios. produzem enchentes rápidas e perigosas, alagam os terrenos marginaes, levando a enchurrada até ao mar. Terminadas as chuvas ou passada a trovoada, as aguas baixam e ficam reduzidas a pequenas correntes superficiaes, para em breve, prolongando-se a estiagem, seccarem de todo. E os arroios ou regatos formados do excedente das aguas da infiltração do planalto, delle descem em cascatas, sómem-se a alguns kilometros depois de entrarem na zona arenosa, ou depois de lhe faltar o terreno rochoso e impermiavel.


Praia e forte de S. Fernando — Mossamedes 
Devemos notar que o regimen das chuvas tem aqui grande influencia na conservação das aguas destes rios. Emquanto na vertente oriental da Chella começa a chover em meados de setembro, alimentando logo as linhas de agua e as nascentes dalgumas que descem para occidente, na zona baixa só depois, de janeiro a maio, é que as nuvens formadas por fortes condensações na parte alta são impellidas pelo vento sueste para a zona litoral, provocando as chuvas que produzem algumas enchentes. 
O que parece, porem, não sofrer duvida é que o excedente das aguas do planalto se escoa por uma camada inferior para o litoral, atravez dos leitos desses rios e que, chegados á zona litoral, formam extenso lençol sub-arenoso. E é por isso que escavando alguns metros no litoral, ou até decimetros, nos rios, se encontra sempre agua

De todas essas linhas dagua as mais imj3orlaiiles e de curso independente, a começar pelo norte, são: o Carunjamba, Monaia-Cangando, S. Nicolau, Cuto ou Piambo, Giraul, Bero, Guroca e Tchiambala. 

Carunjamba. — O Carunjamba e o Monaia descem do nó montanhoso da Cavira na Chella e em rápido curso, declivoso e atravez de terrenos pedregosos, lança-se no mar, tendo agua apenas na epocha das chuvas. 

S. Nicoi.au. — O S. Nicolau recebe todas as aguas da vertente occidental da  Chella desde o nó montanhoso da Cavira á portelia da Quillemba pelos numerosos alluentes — Beníiaba, Cabia, Nongihue, Caniço, Mongonde e Maluco. Todos estes se conservam correntes duranle a maior parte do anno, seccando nalguns troços em setembro, conservando, porem, agua todo o anno em represas naturaes ou escavações fundas das rochas. Depois da juncção destes afluentes o S. Nicolau conserva agua permanente em numerosos pegos e fundões, quando não corre, o que nalgumas secções raras vezes deixa de acontecer. O curso deste rio e dosseus afluentes é declivoso e rápido, cheio de cascalho ou grandes pedras, enfra- 
gado e encaixado quasi sempre entre altas serranias. São hoje muito habitadas as margendos seus afluentes no curso superior. 

GiRAUL. — O Giraul recebe as aguas do ponto mais elevado da cordilheira da Chella, na sua vertente occidental, desde a Biballa ao Hokc, pelos S2US afluentes Munhino, Jimba, Sanla There:[a íLeba e Bruco), Bumbo (Banja) e Ovelundo. A excepção do ultimo, estes rios descem mesmo do vértice da Chella e correm constantemente até á base da mesma serra, e nalguns annos até se lançarem e confundirem no Giraul. Entretanto em todo o seu percurso se encontra agua permanente retida em grandes escavações em rocha atulhadas 
de pedras e areias, ou correndo mesmo por sob estas. Nalguns sitios encontra-se sempre a descoberto, noutros em pequenas nascentes e em todo o seu leito se encontra agua á superfície, bastando escavar alguns decimetros para se descobrir, como Rio Nene até fazem os próprios animaes que vivem nas suas margens, — as cabras, antílopes, etc. Todo o seu curso é bastante declivoso e, serpeiando atravez de altos morros e em terrenos pedregosos, atulha o leito com grossos pedregulhos e areias. O Giraul é habitado junto da foz e em toda a sua bacia superior até alturas da «Nascente» onde actualmente vive muita gente. 

Bero. — O Bero recebe as aguas duma grande extensão da vertente oeste da Chella e aindade uma grande parte do seu platcau. Estas derivam da Bata-Bata pelo Calombo, Bcmgolo e Cangalombe formando o Chacuto, do Jau e Onaheria pelo Quambambe e Munhere que formam o Tampa, e do Panguero pelo Tchipeio. Todos estes conservam corrente permanente até alcançarem o sopé da serra, depois de se terem despenhado pela vertente. Alem destes, outros afluentes de cursos periódicos, torrenciaes com as grandes trovoadas, formam o Bero, taes como o Hoke e Elephanlc que originam o Saiona e se lança nelle apenas no seu terço inferior. O Cambunga, Metaca, e outros que, seguindo para norte até se unirem ao Tampa, desviam depois para noroeste. O curso deste em tudo similhante ao Giraul e S. Nicolau, é de todos os da zona do litoral aquelle que conserva maior volume d'aguas correntes e estas se 
manifestam até mais próximo do mar. E isso é devido não só ao facto do seu curso ser também o mais directo entre a serra e o litoral e á grande quantidade de aguas que 
constantemente recebe do planalto, mas ainda á natureza dos terrenos em que abre o seu leito, o qual, sendo rochoso e duro, está atulhado de pedras e areias, não permittindo a infiltração nem facilitando a evaporação. No terço inferior, porem, alastra sob 
extensa camada arenosa, formando lençol, até ao litoral da vasta bahia de Mossamedes e a agua, a não ser nas enchentes, só pode descobrir-se cavando na areia. O Bero é 
habitado no seu curso inferior junto aos Cavalleiros, e em todas as margens dos seus 
afluentes no curso superior até á confluência do Saiona, sendo nalguns pontos muito 
densa a população como em Bata-Bata, Ongheria e Tchipeio. 

CurocA. — O Curoca, rio torrencial, intermitente e impetuoso nas cheias, tem as suas origens também no alto da Chella e é de todos o que offerece maior percurso. 

Recebendo as aguas dos terrenos dentre as duas cumeadas da Chella, que se separam a sul de Vana-Velombe, por vários afluentes de curso quasi constante, dirije-se abertamente para oeste e depois de entroncar com a Damba dos Carneiros, a uns 5 o kilometros do mar,inflecte para no-nor oeste até 

Passagem do Cunene na Hinga que, recebendo OUtras 

dambas nas alturas de S. Bento, corta directamente para o Atlântico, formando a bahia de Pinda. No seu curso inferior apresenta o leito uma largura média de 5o a 6o metros por 3 de profundidade. 

Os afluentes principaes que canalisam as aguas do plateau, são: o Taca proveniente do Panguero, o Mahipanjôo que vem do Pocólo, o Evero e Tiipembe, que seguindo todos para sul se vão lançando no Otchinjau que vem de leste, e, depois de se 
precipitarem na Ompupa, formam o Curoca. Este recebe ainda um outro afluente de 
importância na quadra das chuvas e originário da Chella, o Luaia, e algumas dambas 
e córregos que canalizam as aguas torrenciaes nas epochas das grandes trovoadas. O 
Curoca é habitado no curso inferior e em todos os seus afluentes da bacia superior até 
á Ompupa e com grande densidade, especialmente no Panguero e Pocolo. 

Vertente interior da Ciíeiia 

Cunene. — A região interior e a leste da Chella e contigua á mesma constitue, 
como já vimos, a bacia hidrographica do Cunene, cujas aguas recolhe por numerosos 
afluentes convergindo nas duas margens. 

O rio Cunene, o maior de toda a região oriental de Angola do Sul, nasce no 
montanhoso nó do Cahululo (Jamba) no Huambo, districto de Benguella, e segue para 
sul com varias inflexões ora a sueste ora a sudoeste, entrando com esse rumo no dis- 
tricto de Huilla; depois de receber o Caculovar, inflete um pouco para su-sudoeste até 
formar as primeiras cataratas ao attingir os primeiros braços da serra da Chella. 
Correndo depois para oeste, despenha-se atravez de cachoeiras, rápidos e outras cas- 
catas, curvando para noroeste, e, depois de ter transposto por completo a Chella, segue 
para oeste até se lançar no Atlântico. 



https://archive.org/stream/suldangolarelatr00alme/suldangolarelatr00alme_djvu.txt

domingo, 2 de dezembro de 2018







No cais, lá estavam os escaleres dos poveiros, com um pouco de água a estremecer no fundo e encharcadinhos de sol.” - in CASTRO, Ferreira de. A Selva, Livraria Editora Guimarães & Cª , Lisboa, 1957 (18ª edição), p. 75
Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921.
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Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921...
Tudo começou quando em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a actuar nas águas do Brasil desde que: se naturalizassem brasileiros até 12 de Outubro do referido ano, nacionalizassem as suas embarcações, e organizassem “companhas” de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira. Os pescadores da Póvoa de Varzim obedeceram às duas últimas condições, arvoraram nos seus barcos a bandeira do Brasil e pediram, através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros, mas na sua quase totalidade recusaram a naturalização. Em consequência, tiveram que regressar à Póvoa. Eram cerca de mil. Em 30 de Outubro de 1920 desembarcou em Lisboa o primeiro contingente de 250 pescadores, ao qual se seguiu outro composto por 302, desembarcados em Leixões, em 5 de Novembro. Juntamente com os poveiros regressaram do Brasil pelos mesmos motivos, pescadores de outras proveniências, sendo embora em menor número, daí a Póvoa de Varzim ter sentido de forma mais dramática os problemas sociais e económicos deflagrados em resultado do retorno em massa de indivíduos, para os quais não estava preparada. Calados os rumores da calorosa e patriótica recepção, logo uma crua miséria se abateu sobre os regressados, tornando urgente a tomada de medidas a fim de debelar tamanha desgraça. Coincidiu esta situação com o projecto a levar a cabo pelo Norton de Matos, que procurava assentar no litoral sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro. Lançada a ideia da instalação de uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, estava finalmente encontrada a solução para a realização da sua proposta. E assim... “Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete “África”, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa". Entretanto o General mandara construir em Porto Alexandre um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, procurando deste modo atrai-las à fixação no solo de Angola. No jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, datado de 11/10/1921, vinha a seguinte referência:
“Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado, dizia em carta dos finais de 1921: “Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. –
Por A. M. Mendes, segue o apontamento histórico – Pescas em Portugal: Ultramar – Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias:
«Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu pri­meiro relatório de serviço (Carneiro, Carlos (1931) – A indústria da Pesca no Distrito de Moçâmedes. Anais Serv. de Veter., pág. 19-20). Nesse tra­balho começa por evocar o ano de 1921, quando no Brasil uma lei idêntica à que dera origem à primeira colonização de Moçâmedes voltou a ser publicada exigindo que os pescadores portugueses, que exerciam a sua actividade nas águas do Brasil adoptassem a nacionalidade brasileira. Carlos Carneiro escreve que: “Em massa repudiam tal violência e regressam ao seu país”. Essa lei acabou por ser revogada e o Brasil vol­tou a permitir a entrada de todos os pescadores poveiros que em águas brasileiras quisessem pescar. Era então Alto-Comissário em Angola o General Norton de Ma­tos que logo determinou que todos os repatriados que quisessem poderiam organizar-se em colónia piscató­ria na baía de “Porto Alexandre”. Imediatamente co­meçaram as construções de habitações e de instalações modelares para a preparação do peixe. Os poveiros en­contraram bom acolhimento mas a demissão de Norton levou ao abandono da colónia, ainda em implantação e acolhimento. Alguns desses poveiros voltaram para as suas terras de origem ou deslocaram-se para outros pontos de Angola e Carlos Carneiro conclui: “Não fracassou esta tentativa de colonização porque muitos desses poveiros estão trabalhando em Angola, por sua conta ou ao serviço das indústrias de pesca e são, sem receio de confronto, os melhores que no sul se encon­tram. Ficou também de pé o elegante bairro poveiro que embeleza a mansa baía de Porto Alexandre e que constitui um dos muitos padrões de glórias do governo, formidavelmente grandioso do Excelentíssimo Gene­ral Norton de Matos”.



Alguma bibliografia consultada:
in GONÇALVES, Flávio. Os pescadores poveiros em Angola e Moçambique , Póvoa de Varzim Boletim Cultural, volume VI nº 2, C.M. da Póvoa de Varzim, 1967. pp. 286/288
Imagem: 1. Grupo de poveiros em Porto Alexandre. 2. Uma das primeiras "catraias" poveiras que chegaram a Angola a partir de 1921. 3. Uma familia podeira sobrevivente.

sábado, 8 de setembro de 2018

A WELWITSCHIA, FRIEDRICH WELWITSCH, WITTNICH CARRISSO, E O KANE-WIA






Dr. Luís Wittnich Carrisso e seu companheiro Mendonça,  junto a uma Welwitschia Mirabilis no Deserto do Namibe


Welwitschia Mirabilis







Welwitschia Mirabilis


"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto

(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)




Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas, descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), criador degénero novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.

A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Trata-se de um prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.

Durante a sua viagem, Welwitsch sofreu de febres,disenteria, escorbuto e úlceras nas pernas, o que acabou por o forçar a terminar a sua exploração em 1860. Quando regressou de Angola, decidiu fixar residência em Londres para ficar próximo ao Museu de História Natural e dos Royal Botanic Gardens.

Para além de Welwitsch, outro naturalista que se interessou pelo estudo da Welwitschia foi o português Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor de Botânica na Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor dessa universidade), que, igualmente enfeitiçado por África, levou a cabo três expedições ao Deserto do Namibe solo a fim de estudar a respectiva flora. Na última delas, em pleno deserto, perto de uma Welwitschia, e faleceu vítima de ataque cardíaco. O local da sua morte, o morro do Kane-Wia que os povos indígenas mucubais dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.

Sobre o Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (mucubais) o poeta alexandrense Namibiano Ferreira escreveu um interessante txsto que transcrevo a seguir:

«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. Fim de transcrição.



MariaNJardim




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

RIO BERO, o "Nilo de Moçâmedes"; RIO BERO, o "Rio das Mortes" , o rio que tornou Moçâmedes possível...


 
Quando o rio Bero, em tempo de cheias, extravasava das margens, corria na direcção das "Furnas de Santo António", a depressão no terreno mais tarde aproveitada para o Estádio Municipal. O espectáculo era de uma verdadeira cascata como se pode ver por este postal bastante antigo. Porém, por vezes, daqui, escorria na direcção da baixa da cidade, o centro histórico, como se pode ver na foto que segue.

A Rua da Praia do Bonfim, a principal da cidade de Moçâmedes, completamente alagada

A ponte sobre o rio Bero, em tempo de cheias
O Bero em tempo de cheias...





 



Fotos do Bero e do sítio da Macala. A exuberância da vegetação que então medrava.



Rio Bero, o "Nilo de Moçâmedes" foi o rio que tornou Moçâmedes possível!

Conta-se que Bernardino Freire de Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia oriunda de Pernambuco, Brasil, desembarcada em Moçâmedes em 1849 , ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, ter-se-ia sentido decepcionado, porém, mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as água das enxurradas ao invadirem as margens, levam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que fazia das "Hortas" verdadeiros oásis,

Mas ligada ao Rio Bero, visto como o "Rio das Mortes" conta-se uma história triste. "Rio das Mortes", assim lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter ali encontrado a morte, em 1785, o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda e mais dois marinheiros.Eis o que a este respeito escreveu Pinheiro Furtado ao governador de Angola, José de Almeida e Vasconcelos, barão de Moçâmedes:

"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus, que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado pelo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados que andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. " Fim de transcrição.

MariaNJardim

Nota: O Bero ,como vem referido nos Annaes do Município de Moçâmedes de 1858, era pelos autóctones conhecido por "Belo". Porém Bero e não Belo surge rectificado pelo tenente Garcia nas suas "Memórias das Explorações de 1839".

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Bero. — O Bero recebe as aguas duma grande extensão da vertente oeste da Chella e aindade uma grande parte do seu platcau. Estas derivam da Bata-Bata pelo Calombo, Bcmgolo e Cangalombe formando o Chacuto, do Jau e Onaheria pelo Quambambe e Munhere que formam o Tampa, e do Panguero pelo Tchipeio. Todos estes conservam corrente permanente até alcançarem o sopé da serra, depois de se terem despenhado pela vertente. Alem destes, outros afluentes de cursos periódicos, torrenciaes com as grandes trovoadas, formam o Bero, taes como o Hoke e Elephanlc que originam o Saiona e se lança nelle apenas no seu terço inferior. O Cambunga, Metaca, e outros que, seguindo para norte até se unirem ao Tampa, desviam depois para noroeste. O curso deste em tudo similhante ao Giraul e S. Nicolau, é de todos os da zona do litoral aquelle que conserva maior volume d'aguas correntes e estas se manifestam até mais próximo do mar. E isso é devido não só ao facto do seu curso ser também o mais directo entre a serra e o litoral e á grande quantidade de aguas que constantemente recebe do planalto, mas ainda á natureza dos terrenos em que abre o seu leito, o qual, sendo rochoso e duro, está atulhado de pedras e areias, não permittindo a infiltração nem facilitando a evaporação. No terço inferior, porem, alastra sob extensa camada arenosa, formando lençol, até ao litoral da vasta bahia de Mossamedes e a agua, a não ser nas enchentes, só pode descobrir-se cavando na areia. O Bero é habitado no seu curso inferior junto aos Cavalleiros, e em todas as margens dos seus afluentes no curso superior até á confluência do Saiona, sendo nalguns pontos muito densa a população como em Bata-Bata, Ongheria e Tchipeio.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Assassinado do explorador francez Alexandre Laurient, enquanto estudava o curso do rio Cunene, em 1874








José Pereira Nascimento, médico da Armada, in "Explorações Geográficas e Mineralógicas no Distrito de Mossamedes, 1894-1895, relata in Portugal em Africa, revista scientifica, Volume 5. 1898,  a pg 36, a morte do malogrado explorador francès, enquanto estudava o curso do rio Cunene

"... Pela presença de algumas latas de sardinha de Nantes, reconheci ser ali que foi assassinado o explorador francês Alexandre Laurient  que em 1874 estudava o curso do Rio Kunene . Segundo o tesmunho de alguns pescadores da Bahia dos Tigres , a morte do malogrado explorador, passou-se da seguinte forma: Laurient partiu de Mossamedes a pé e só, recommendado a um pescador dos Tigres, a quem pediu dois servicaes para o servirem durante a exploração do rio. O portuguez cedeu-lhe os pretos, mas avisou-o de que era perigoso viajar com pouca gente, principalmente sendo serviçaes contractados, que fogem logo que se encontram longe dos patrões, sendo pouca a confiança que n'elles depositava; aconselhavao a voltar a Mossamedes ou a Porto Alexandre, onde facilmente arranjaria negros livres do Koroka, já. habituados a prestar serviços aos brancos, e recommendou-lhe que levasse rancho para elle e para os pretos, sendo certo que elles o abandonariam, logo que lhes faltasse o sustento. A isto respondeu Laurient que tinha confiança na sua arma para matar caça e para conservar os pretos em respeito e obediencia. Partiu o explorador com cega confiança na arma e pequena quantidade de provisões, quanto podiam conduzir dois carregadores. Quando acabava o rancho, mandava um dos servicaes ä. casa do pescador para lhe conduzir novo fornecimento, quasi exclusivamente composto de sardinhas de Nantes. De uma vez os pretos descontentes por falta de comer, e por serem obrigados a fazer constantes viagens á. bahia dos Tigres, além do variado serviço a que os obrigava o explorador resolveram fugir na occasião em que não havia rancho, nem apparecia caça. Laurient, desconfiado do plano de fuga, ameaçou-os de morte e de arma apontada para um d`elles obrigou-o a marchar para a bahia dos Tigres em busca de novas provisões. O preto partiu, mas deixou-se ficar escondido no canniço e pela calada da noite, quando o explorador dormia, voltou, tirou-lhe a arma e varou-lhe o tronco com um tiro pelas costas. Sabido o caso pelo outro preto, partiu para o Kunene um grupo de pescadores, entre elles o que tinha emprestado os serviçaes; enterraram o cadaver, recolheram os seus papeis e prenderam o assassino, que foi julgado e condemnado a degredo. Os papeis, a arma e os seus instrumentos foram entregues ao Governador de Mossamedes, ignorandose o fim que levaram. Como homenagem aos trabalhos d'este corajoso explorador, sacrificado aos interesses da sciencia e da humanidade e assassinado em territorio portuguez, entrei em diligencias afim de saber o paradeiro das suas notas e cartas para as fazer chegar ao conhecimento do mundo scientifico. Deixando aqui consignado o testemunho de respeito de um modesto peoneiro portuguez ä. memoria do infeliz Alexandre Laurient prosigo na minha narrativa."

Fim de transcrição.


https://books.google.pt/books?id=y-czAQAAMAAJ&printsec=frontcover&dq=Portugal+em+Africa:+revista+scientifica,+Volume+5&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjS1oG3g4bdAhUFfxoKHdRFBbMQ6AEIKDAA#v=onepage&q=baia%20dos%20tigres%20revista%20scientifica%2C%20Volume%205&f=false

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O Governador Fernando da Costa Leal e a planta da cidade de Moçâmedes


 A mais antiga gravura da "vila de Mossâmedes"




Já o autor (anónimo) do livro "45 Dias em Angola", publicado em 1862, assim referia: "Villa moderna  (…) uma das mais belas das possessões africanas..."

Moçâmedes não nasceu como uma povoação caótica, ela foi tão cedo quanto possível concebida e delineada no papel, pelo jovem e dinâmico Fernando da Costa Leal (1854-59), o seu 5º Governador, que desde que tomou posse do cargo, em 26 de Fevereiro de 1854, foi seu primeiro cuidado apresentar uma planta topográfica para a povoação, com ruas largas traçadas em linhas rectas, com travessas alinhadas, em paralelismos geométricos, à boa maneira pombalina, que desde logo imprimiram à futura cidade uma fisionomia característica. E Costa Leal foi mesmo levado a animar os colonos a construirem prédios de agradável aspecto, para evitar o desalinho de que era exemplo a caótica Luanda, onde logo de início não cuidaram de tratar de lançar um plano geral de obras.

Com Fernando da Costa Leal Moçâmedes ergueu-se rapidamente, e os colonos passaram a substituir as primitivas habitações por outras mais cómodas e de melhor aspecto.

O mesmo autor do livro "45 Dias em Angola", revela-nos que as primitivas habitações dos colonos de 1849 e 1850 eram, como no resto da Provincia, construídas por tungas e barro com ramos de palmeiras a servirem de cobertura, e ofereciam um aspecto humilde e depreciativo à nóvel povoação.

“Pobres choupanas” assim lhes chamou Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil), chegada a Moçâmedes em 1849. Davam a impressão de "acanhamento e miséria" uma vez que a disposição do conjunto seguida nesses anos que decorreram desde 1840 a 1849, não fora submetida a um plano conveniente,  e "causavam desagrado natural, dispersas ao acaso num censurável desalinho".  Inda assim, por decreto de 26 de Março de 1855, e por carta régia expedida a 7 de Maio do mesmo ano, Moçâmedes subiu à categoria de Vila.

De harmonia com a  planta topográfica da povoação delineada pelo Governador Fernando da Costa Leal,  surgiu  um amplo espaço paralelo ao mar, reservado à futura Avenida, que durante décadas esteve preenchido com barracões (a futura Avenida  D. Luis, e desde 1910, a Avenida da  República). Surgiram 3 ruas  largas, a Rua da Praia, mais tarde  Rua da Praia do Bonfim; a Rua dos Pescadores, em seguida Rua  Presidente Sidónio Pais, porém mais conhecida pela antiga designação;  e ainda a Rua do Alferes, depois Rua das Hortas, e a Rua Luz Soriano. Estas 3 ruas eram cruzadas por outras tantas travessas que segundo um documento da época tiveram a designação de Travessa do Mangericão,  Travessa das Pescarias e Travessa de Santo Antonio.

Quase todas as habitações da Praia (assim chamavam Moçâmedes) são descritas como tendo pátios, onde se plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quais se abriam cacimbas (pequeno poço), cujo revestimento interno é formado com barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, de onde tiravam a água para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Fernando Leal tentou erguer a povoação mais a poente, na Torre do Tombo,  onde as areias são menos abundantes. Mas a comodidade do desembarque e ainda o receio que a água ali faltasse determinou a preferência pela parte baixa.

Foi também o Governador Fernando da Costa Leal quem mandou abrir a primeira estrada da região, e quem ordenou as obras da continuação e conclusão da Igreja, cujos trabalhos de haviam começado em 1849, mas foram suspensos pouco depois, e continuados em 1854, sob seu plano e direcção, e que foram rapidamente concluídas.  Este dinâmico Governador também mandou erguer a Fortaleza de S. Fernando no local do antigo Forte, sobre o rochedo que domina a baía, e foi quem melhorou e levou a cabo a construção do primitivo Hospital, e determinou a edificação do Palácio do Governo, (um dos mais bonitos do Ultramar português), além de várias casas para serviço público. Também mandou construir o edifício da Alfândega.

Porém, e apesar dos seus méritos, o Governador Fernando da Costa Leal vinha sendo acusado de  uma pessoa excessivamente autoritária, que ao pároco da terra fez embarcar à força para Luanda, suspendeu o exercício ao sub-delegado da comarca, procedimento confinado ao próprio Governador Geral.  A prepotência de que lhe acusavam os colonos de Moçâmedes levou à formação de um grande partido contra a sua governação De entre as acusações contam-se obstáculos de ordem económica, peias no giro normal das actividades, empecilhos por supostas violações de direitos. 

O descontentamento levou a petições dirigidas a Luanda e à Metrópole, até que em 27.02.1866 o povo amotinou-se, dirigiu-se à Câmara, obrigou a maioria dos vereadores a uma reunião que se manteve permanente até que Fernando da Costa Leal decidisse entregar o Governo a um Conselho da escolha dos populares. Na petição à Câmara o Governador é acusado de ignorar as leis, e de tudo subordinar ao seu livre arbítrio, e perante a exigência da turba, a Câmara Municipal (vereação) dirigiu-se ao Palácio onde Leal ter-lhes-ia dito nomeassem quem o substituísse, mas acabou por negar a entrega do Governo aos populares. Voltou a vereação a confrontar-se com o Governador, que finalmente cede e  abandona o Palácio, prometendo embarcar no brigue "Maria" que os populares fretaram, no prazo de 48 horas.

Eis algumas passagens desse documento existente no Arquivo Municipal, datado de 27 de Fevereiro de 1860, e assinado por 33 signatários :

«Estamos cansados» de «representar tantas e repetidas vezes, já ao Governo da Província, já ao Governo do Reino, já às Cortes de conformidade com as leis que nos rege, acerca das muitas arbitrariedades e injustiças, constantemente praticadas pelo Governador Fernando da Costa Leal, durante o tempo que tem administrado o Distrito; de não termos sido atendidos em nossos justos pedidos; de não nos ter sido reconhecida a utilidade do direito consignado e garantiso pelo disposto no parag 17 do artº 145 º da Carta Constitucional, visto não ter dito dada até agora a devida e urgente atenção às nossas queixas» . 

(...)
«Pretendemos» por tais motivos, «pedir a intervenção da Câmara para fazer constar ao senhor governador Fernando da Costa Leal que, lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto: «se não nos governar bem, escolheremos outro melhor», não o queremos mais um momento governador do Distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para o que estamos todos dispostos». E a representação termina textualmente: «É isto que respeitosamente vos pedimos, Senhores Vereadores deste Municipio, é esta a expressão de todo este Povo». Fim de citação.


Como resultados imediatos foi nomeado um governo provisório para a deposição do Governador. É o próprio Governador que em resposta, sugerira à Câmara que nomeasse quem o substituísse ou que de novo representasse ao Governo-Geral ou ao de Sua Majestade, tendo a Câmara deliberado unânimemente que o Governador entregasse o Governo, desde logo, a um Conselho composto dois seguintes vogais:


-O Juiz de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário;
-O Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Subdelegado do Julgado;
-O Secretário actual do Governo;
-O Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda Pública;
-O Oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores Nº 3;
O Pároco da Freguesia;
Manuel Fortunato de Couto Aguiar;


Mas iria dar-se um "volte face" na situação que veio perturbar a  administrativa distrital. 
O novo Governador, Francisco António Cardoso Gonçalves, conhecendo a ocorrência, seguiu para Moçâmedes no vapor "Infante D. João", acompanhado por Fernando da Costa Leal, restabeleceu a disciplina e a autoridade, dissolveu a Câmara, substituiu a comissão administrativa presidida por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

O Governador Leal depois de ter deixado Moçâmedes, na sequência dos acontecimentos descritos, voltou em 1866 a ocupar o lugar de Governador.  

 Na realidade, e não obstante estivessem presentes durante o seu «reinado» desinteligências entre a primeira Câmara de Moçâmedes e o Governador, como refere Manuel Júlio de Mendonça Torres, no seu livro "Moçâmedes", Fernando Leal era autoritário e violento, mas, ninguém pode negar que era também um espírito inteligente e activamente empreendedor. A sua acção administrativa foi de indiscutível utilidade para o Distrito. «As contendas entre os antigos colonos e o Governador Fernando da Costa Leal nasceram das medidas arbitrárias da Primeira Autoridade do Distrito, constantes da representação dirigida ao Rei pela Câmara pelo Povo, a que se refere a acta de sessões municipais de 27 de Novembro de 1857, a páginas 74v.º:- «prisões sem culpa formada, deportações, espancamentos, intervenções nos actos legais da Câmara», etc. Tudo isto constituía para a Câmara e para o povo o jugo de ferro com que o Governador do Distrito os oprimia há mais de quatro anos e que eles (Câmara e Povo) não podiam mais suportar».

Com a saída do Governador Fernando da Costa Leal de Moçâmedes, em consequência da tomada de posição da população, acabaram as desavenças, e passados anos, com a dissipação de ódios e ressentimentos, a Câmara e o Povo reconheceram os serviços do Governador, dando o nome de Praça Leal a uma das mais concorridas da cidade, e mandando a Vereação de 1903, da presidência de Serafim Simões Freire de Figueiredo, executar e colocar no salão nobre dos Paços do Conselho, o busto em tamanho natural, pintado a óleo.



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Com o título "Um Motim em Mossâmedes no ano 1966" podemos ler um texto assinado  por José Manuel da Costa que foi adminstrador da Circunscrição de 1º classe, antigo Governador dos Distritos de Mossâmedes e do Bié;  antigo Chefe de Serviços de Colonização de Angola..


Eis o texto: 

"Um Motim em Mossâmedes no ano 1966"

Fernando da Costa leal, Major do Estado Maior de Engenharia, foi um frande Governador no Sul de Angola, e uma figura principal da nossa acção colonizadora,, a quem a perecária gratidão dos povos apenas consagrou a melhor praça de Mossãmedes, e um retrato a óleo na sala nobre dos Paços do Concelho. 
No seu primeiro governo, Fernando da Costa leal impulsionara fortemente  a recente fundação da vila de Mossâmedes, que foi traçada em rectas à boa maneira pombalina. A ele se deve a construção da Alfândega, da fortaleza de S. Fernando, da Igreja, do Palácio Velho, um dos mais bonitos do Ultramar Português, e de várias casas para os serviços publicos.; a ele se deve o reconhecimento da foz do rio Cunene, que muitos supunham um afluente do Zambeze;  a ele se deve a ocupação da Huila e dos Gambos, tendo conseguido arrastar, pelos caminhos ásperos da Serra da Chela a primeira peça de artilharia. Finalmente a agricultura e a industria da incipiente Colónia de Mossâmedes deveram-lhe um paternal e decisivo impulso.  

Parece porém que este homem de vasto saber,  de rasgada iniciativa e de rara tenacidade, era de fortes paixões no bem-querer e no mal-querer,  e assim conseguiu que o rancôr de alguns funcionários por ele rudemente castigados, contaminasse a população, formando-se contra o governador um grande partido.

Não esqueçamos que Leal era duro no castigar. Ao pároco de Mossãmedes fez embarcar à força para Loanda; ao sub-delegado da comarca suspendeu-o do exercício , nomeando outro para o cargo,  procedimento arbitrário esse que foi conformado pelo Governo Geral, mas com pública censura a quem exorbitava.

Muitos eram, portanto, os atingidos pela mão pesada do Governador, e de tantos descontentamentos resultaram várias representações para Luanda e para a Metrópole, representações nunca atendidas e que cada vez exasperava mais os seus adversários. 

Até que a medida transbordou... Puderam mais as paixões que a razão, e no dia 27 de Fevereiro de 1866, o povo amotinado dirigiu-se à Câmara Municipal, obrigando a maioria dos vereadores a reunir-se, pela uma hora da tarde, e a manter-se em sessão permanente  até que Fernando Leal fizesse a entrega do governo a um conselho escolhido pelos populares.

Na representação entregue à Câmara acusava-se o governador de ser ignorante das leis, subordinando tudo ao seu puro arbítrio:-  «Tem negado justiça que se tem pedido; têm negado terrenos que indivíduos tem ido descobrir, e lhe têm pedido, pondo assim dificuldades à propriedade agrícola, quando devia promovê-las;  têm negado licenças para se medirem terrenos,  fazendo com que de futuro se compliquem questões agrícolas, por causa das extremas."

Vêm depois alguns casos isolados que não vale a pena relatar, e a exposição termina assim:  "Aqui vimos hoje pedir-vos a vossa intervenção,  que é para fazerdes constar ao senhor Governador Fernando da Costa Leal, que lembrados como os nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto "se nos não governar bem, escolheremos outro melhor", que não o queremos mais uma hora nem mais um momento governador deste distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos, e para o que estamos todos dispostos. É isto que respeitosos vos pedimos, srs vereadores deste município; é esta a expressão de todos este povo. »

Perante a atitude daquela turba, que invadiu a Câmara Municipal, a maioria da vereação dirigiu-se ao palácio onde Fernando Leal ter-lhes-ia dito que representassem a quem de direito ou que nomeassem quem o substituísse.  Foi esta, pelo menos, a resposta transmitida aos populares, que logo se agarraram a ela e passaram a eleger o Conselho do Governo que ficou assim constituido: o Juiz de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário; Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Subdelegado; o Secretário do Governo; o Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda; o oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores 3; o Pároco da Freguesia e Manuel Fortunato de Couto Aguiar.

Seguiram os vereadores  a dar conta da resolução do povo soberano ao governador que encontraram em conferência dom os Chefes de serviço, como hoje dir-se-ia, e com os substitutos dos magistrados judiciais  em exercício, e ali na presença de todos, intimaram-no a entregar o governo ao Conselho, embora não pudessse constituir-se com todos os seus membros. 

Fernando Leal negou que disse que entregaria o governo a quem os populares indicassem,  "porquanto sendo nomeado Governador por Sua Majestade, não poderia entregar o governo se não a quem legalmente o viesse substituir.

Voltou, pois, a Câmara a falar ao povo ; a comédia representada pela Câmara ainda não terminara e só acabaria com a saída  de Fernando Leal do Governo.  É em vão que ela protesta a sua mágua pelos sucessos, e a sua estranheza a eles. Em vão ela mostra empregar todo o seu prestígio sobre os amotinados, procurando chamá-los à razão.  Através dos documentos do tempo, vê-se que a atitudee da maioria da vereação era de refalsada hipocrisia, como foi a dos membros do Conselho do Governo, ao tomarem posse dos seus cargos. 

Faltou à vereação coragem para novamente confrontar-se com o homem, que aliás deveria sentir-se abandonado de todos,  sabendo que a própria força pública não obedeceria às suas ordens. 

Foi então uma comissão de cinco populares intimar novamente o Governador a comparecer na Câmara e a fazer a entrega do Governo, enquanto a vereação, no dizer da acta, "permanecia como testemunha passiva e obrigada  dos actos que o povo pretendia consumar, e que ela, muito solenemente declarava reprovar, afastando de si, como corporação legalmente constituída, toda e qualquer responsabilidade que só  sobre os perpretadores de tal acto  pudesse recair."»

Por fim Fernando Leal cede.

O que se passaria no ânimo forte desse homem quando abandonou a residência  e foi defrontar-se com a multidão dos seus inimigos?  O certo é que as cousas decorreram com serenidade, e aquele que o despeito e a traição entregavam à sanha dos populares, foi respeitado. 

É ele ainda, o vencido do momento, quem dita a sua vontade exigindo que se escreva ser falso ele ter dito à vereação que entregaria o Governo a quem o povo indicasse, que só ali estava coacto, e que só coacto abandonava o seu lugar, prometendo embarcar no brigue mercante Maria, que a população fretara para esse fim, no prazo de 48 horas. 

Ficou o  Conselho do Governo Provisório constituído pelo juiz ordinário Francisco Ponces de Leão, pelo sub-delegado João Ferreira Duarte Leitão (que aliás fora proposto pouco tempo antes pelo Governador), Francisco José de Almeida, escrivão da Delegação da Junta de Fazenda, Jacinto António Cordeiro da Silva, capitão de Caçadores n. 3, e Manuel Fortunato do Couto Aguiar, advogado. 

Com que contavam estes governantes?

Presumo que com a complacência do Governo Geral, ao tempo confiado a um Conselho de Governo  que não tinha por Leal muita simpatia, como demonstra   a publicação no Boletim Oficial , poco tempo antes duma censura em forma acerca do caso atrás referido, da supensão do sub-delegado então em exercício de Delegado da Comarca.

Mas a face das coisas mudara.

Em 19 de Março chegara a Luanda o Governador Geral Francisco António Cardoso Gonçalves, homem cujas tradições de coragem e de energia vinham dum acidentado e torvo governo de Macau, donde saiu coberto de louros e de bençãos.

Mal teve conhecimento da ocorrência não se demora em Luanda. Na mesma corveta a vapor Infante Dom João vem a Mossâmedes, acompanhado do Governador deposto. Aqui restabelece a disciplina e o prestígio da autoridade; dissolve a Câmara, fazendo-a substituir por uma Comissão Administrativa presidida pelo venerando chefe da colónia, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (1); suspende o Secretário  do Governo, Pedro Vasques Martins da Silva, demite o capitão do porto e o tesoureiro da Alfândega, nomeando para esses cargos José Júlio Zuzarte de Mendonça (2); e finalmente, prende e conduz para a capital da provincia, na corveta em que regressou,  chegando no mesmo mês a 31 de Março, as cabeças do motim Jacinto António Cordeiro da Silva , capitão de Caçadores n. 3, e os tenentes do mesmo corpo Pinto da Guerra, o Capitão do porto Santos, os comerciantes Pinto da Rocha (1), Costa Roxo, João Maria de Moura, os advogados Manuel Fortunato do Couto Aguiar e Francisco de Torre Prado, o guarda-livros Guilherme Augusto Praice  e o agricultor Clemente de Andrade.

E assim terminou, graças à energia e prontidão  com que o Governador-Geral recém chegado  que acudiu à emergência, um motim em Mossâmedes, no ano de 1866, continuando Fernando da Costa Leal  a sua fecunda administração, à qual um dia espero fazer larga e merecida referencia. 

Mossâmedes, Maio de 1928

José Manuel da Costa

Retirado Boletim Geral das Colónias . IV - 040
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. IV - 40, 1928, 254 pags.


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 (1) Pinto da Rocha. A saber, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha era agricultor em Moçâmedes, e possuia armações de Pesca, vem relacionado com comissões e consignações, géneros coloniais e peixe, e ainda com uma padaria em igualmente em Moçâmedes, conf. Anuários de 1908/1909.
- FRANCISCO RODRIGUES PINTO da ROCHA - Professor(Régio) em Mossamedes(Angola),1908
- FRANCISCO PINTO da ROCHA - Armações de Pesca, Agricultor,Commissões e Consignações, Generos Coloneais e Peixe,Padaria em Mossamedes,1908

(2) José Júlio ZUZARTE DE MENDONÇA(*) era filho ilegítimo de Honorato José ZUZARTE DE MENDONÇA (1817-1885),  nasceu em 14.12.1847  e faleceu em  1911 em Moçâmedes, Angola. Mãe : Perpétua n. 1820.  Seu pai quando partiu em 1857 no brigue Veloz para Moçâmedes, levou-o consigo. Em Moçâmedes  José Júlio, licenciado em Direito, foi Juiz de Paz, e foi Administrador da Alfândega e Comandante do Porto. É referido na obra "Sangue velho, sangue novo" como José Júlio de Zuzarte de Mendonça.
 Conforme "Boletim Official do Governo Geral da Provincia de Angola", ano de 1875, vários números,  o último documento oficial  por José Júlio assinado como administrador da Alfândega de Moçâmedes data de 31 de Julho de 1875, e o primeiro como Capitão do mesmo Porto de 31 de Agosto de 1875.  Estranhamos esta última data porquanto José Júlio Zuzarte de Mendonça fora nomeado para o cargo na sequência do motim levantado em 1866 pela população de Moçâmedes contra o seu Governador, Fernando da Costa Leal, e este, com o apoio do Governador Geral resolve punir os revoltosos exonerando-os dos cargos que ocupavam, inluso levando-os presos para Luanda,  como foi o caso dos cabeças do motim Jacinto António Cordeiro da Silva , capitão de Caçadores n. 3, e os tenentes do mesmo corpo Pinto da Guerra, o Capitão do porto Santos, os comerciantes Pinto da Rocha, Costa Roxo, João Maria de Moura, os advogados Manuel Fortunato do Couto Aguiar e Francisco de Torre Prado, o guarda-livros Guilherme Augusto Praice  e o agricultor Clemente de Andrade.
 
Para saber mais, consultar:

http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-jose.htmlhttp://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-
jose.html






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Em tempo:
Falar de Pinto da Rocha, comerciante, como integrando o movimento contra Costa Leal não nos admira, porquanto sabemos que 
 Convém ter em conta que Moçâmedes, fundada em 1849, num século em que a maçonaria penetrou em força em Portugal, e teve em Angola a sua representatividade através das célebres "Kuribekas angolanas", não pode fugir a esta realidade. "Kuribeka" eram um importante grupo de poder como instituição organizada, cujas ideias  tomaram corpo após a independência do Brasil (1822),  pelo menos desde 1860, manifestando-se contra o Portugal metropolitano e castrador, com o objectivo de obterem, primeiro uma autonomia, depois a independência, como atestam os vários documentos históricos, embora a actual historiografia angolana tenda a ignorar, preferindo olhar os brancos em Angola como meros e passivos agentes do colonialismo.

A  militância nos ideais republicanos veiculados pela maçonaria floresceu em cidades  angolanas, primeiro em Luanda, mas com mais intensidade em Benguela, Catumbela, Huila e Moçâmedes. Nestas cidades despontou  uma burguesia branca que se via cerceada por condicionalismos de toda a ordem que a impediam de se expandir social, politica e economicamente. Essa mesma burguesia desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações o que só por si já representa um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal. Aliás Kuribeka significa “apresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado . Foi criadora de uma imprensa de brancos radicais.  Algo fugaz desde logo cerceado pela oligarquia colonial, residente em Lisboa.   A burguesia angolana era, fundamentalmente mestiça, incluindo uns muito poucos brancos e alguns negros. Também por esta altura as fronteiras de Angola ainda não estavam definidas.

 MariaNJardim