Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 15 de março de 2018

Casa de um colono. Lubango 1908.






Foto: Casa de um colono. Lubango. Uma família de colonos madeirenses e alguns elementos da etnia muhuíla.. Corrua o ano 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos...


Fotos dizem mais que palavras....

Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, "o sul de Angola foi a guerra”. "Por toda a parte havia conflitos, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. A guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados, e, sobretudo porque foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que os negros aguerridos não possuíam  a metralhadora."
 

Tentando uma leitura desta foto direi que, em meio a uma situação de conflitos que perpassavam à época o sul de Angola, e que se estenderam desde 1885 a 1915, esta, tal como outras famílias de madeirenses, que viviam isoladas e conviviam harmoniosamente com africanos muhuilas, marcaram bem a diferença de atitude perante a vida. Uma coisa eram as demandas do regime, outra coisa eram as pessoas. 

São estes aspectos da isso História dos povos que a História não devia ocultar, mas que oculta quando mete tudo e todos no mesmo saco. E é esse um dos grandes erros de quem escreve História.  A maldade existe, basta escutarmos os pacotes de notícias que jornais e TVs nos oferecem todos os dias. A maldade existe e não escolhe povos, nem fronteiras. As pessoas são boas ou  más por natureza e por educação, nada a ver com quantidade de melanina (pigmentação) presente na sua pele. A História não pode nem deve ser encarada a preto e branco. Só por ignorância ou má fé tal tem sido possível!

Entre os primeiros povoadores do sul de Angola estavam os madeirenses, simples emigrantes,  na maioria, à época, gente analfabeta ou muito pouco letrada,  gente humilde que desconhecia a História, e que para o sul de Angola partiu influenciada por campanhas de propaganda que os conseguiu persuadir. Iam em busca de uma vida melhor, e instalaram-se no planalto da Huíla, nos anos 1884 e 1885. Precisamente na altura em que na Europa decorria a Conferência de Berlim, a célebre Conferência que teve como principal resultado a "Partilha de África" entre as potências europeias industrializadas, e a definição das regras para a colonização, assunto a que eram alheios, ou que até mesmo desconheciam.O acordo final saído daquela Conferência impôs o “princípio da posse efectiva”, ou seja, uma potência só poderia reclamar o controle de uma determinada região se estivesse em condições de ocupar com gente da Metrópole, e de a desenvolver. Outros direitos, como os direitos históricos que Portugal reclamava sobre várias regiões de África, deixaram de ter validade. No caso particular de Angola, quando a Conferência de Berlim chegou ao fim, a 26 de Fevereiro de 1885, ainda havia grandes extensões do território angolano onde nenhum português tinha ainda posto os pés.  Desde logo começou a corrida para a ocupação de África. Esta levou ao envio maciço de tropas para as regiões a defender, e provocou o agravamento da escalada dos conflitos entre as concorrentes europeias, e principalmente com as tribos africanas. Na partilha, Portugal teve que se confrontar com as pretensões da Inglaterra e da Alemanha, as potências cobiçosas do território que por direito histórico reclamava, e teve que desenvolver acções de pacificação do gentio revoltado que estavam em marcha, e foram levadas a cabo sem grande consideração pelos pequenos núcleos de famílias de origem europeia, que recentemente ali se haviam estabelecido, e que pacificamente coexistiam com as populações negras de diferentes etnias, no sul de Angola.

No Distrito de Moçâmedes, mais propriamente no planalto da Huila,  em finais do século XIX, encontravam-se estabelecidos, e dedicados à agricultura, os boeres e os madeirenses. Em Moçâmedes, desde 1849 viviam dedicados à agricultura e à pesca, os luso-brasileros de Pernambuco, e uma comunidade de colonos algarvios que ali começaram a chegar a partir de 1861. Todos juntos, estes povoadores foram essenciais para que Portugal, através da ocupação efectiva e de meios pacíficos, os do trabalho, merecesse o respeito das nações competidoras.  Aliás, acabaram por ser o garante da ocupação daquela fatia de Angola. Sem eles, o mapa de Angola muito provavelmente teria sido diferente daquele que é hoje, dada a cobiça de potências estrangeiras. Talvez os alemães do Sudoeste africano (actual Namíbia) tivessem avançado pelo Distrito de Moçâmedes adentro, e tivesse  anexado o cobiçado território  a sul de Benguela. Respeitando as  regras então estabelecidas para a  ocupação, com a sua presença, teriam sido o travão para esse ambição.

 MariaNJardim



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Na foto: uma casa isolada no território da Huíla habitada por uma família madeirense, que ali podemos ver acompanhada por autóctones da região. 1908. Estava-se na fase crítica dos conflitos.

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