Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 10 de maio de 2018

A BAÍA DOS TIGRES E A SUA COLONIZAÇÃO PISCATÓRIA PELO DR CARLOS B. CARNEIRO



Mossâmedes-1935.

Quási no extrêmo sul do litoral de Angola abre-se, enorme e profunda, uma baia a que um listrado regular e geométrico que se desenha ao longo de uma imponente muralha de dunas que se eleva no lado continental, dizem uns, dar o nome de Baia dos Tigres e que, segundo outros, tal designação tem origem num ruido ennervante como uivo de féra molestada que o redemoinhar da areia provoca no cóne superior das dunas.
E' desoladora a paisagem. E' areal, de uma côr terrosa e mortificante, tudo o que nos cerca. A meio da restinga, língua de areia saliente à superfície azul das águas atlânticas, ergue-se um pequeno aglomerado de edifícios, sem simetria e sem estética., onde se alberga uma sacrificada colónia de pescadores.
São pequenas casas feitas com bordão e areia calcinada, rebocadas a cal e de tectos em bordão unido, e coberto por uma ligeira camada ele cimento ou vedado a feltro. Perto do mar, as suas rudimentaríssimas instalações de pesca. Não há locais pavimentados, para escalar· peixe, nem tanques feitos cm cimento para o salgar. Nem é possível havê-los.
A areia, num movimento constante que o vento provoca, sotérra em minutos um edifício, ou descobre despojos de edifícios outrora soterrados. Entre o homem e a areia há uma luta constante, sem tréguas. Para dela se defender, resgüarda a sua cabana. com sébes mortas, ante-dunas contra as quais a, areia vem bater imobilizando-se.
Mas se o sudoeste é rijo, se a garrôa é violenta, a duna forma-se enorme, tremenda, e faz desaparecer dentro de si o que o homem, com tanto sacrifício e com tão árduo trabalho, edificou.
O mar, que também tem os seus caprichos, ora cede terreno, alargando a. estreita facha de areia onde poisa, tristonha, aquela pobre povoação de pesca.dores, ora avança em fúria, pela terra dentro e chama a si as míseras instalações de pesca, daquela, gente mártir.
O lado continental é dominado por grandes dunas caprichosamente feitas pelo vento do sudoeste que sopra sempre, descolando massas colossais de areia que tomam disposições geométricas regulares e majestosas.
A vida parece ter desaparecido daquêle pedaço assustador do Kalaári.
Desenham se, a medo, os leitos dos rios sempre secos, porque não há água que sacie a sêde destas areias calcinadas. A vegetação desapareceu totalmente debaixo de arenosas muralhas intransponíveis nem se atrevo a aparecer nos recantos mais sossegados e menos batidos pelo vento porque a areia, sempre em movimento, não permite tais desejos de vida.
Só está de pé, pescando sempre, sempre trabalhando, o homem que foi fadado para. mostrar aos fracos, aos pusilânimes da espécie, até onde chega uma vontade firme, do que é capaz um temperamento rijo de lutador que desafia, altivo, a intempérie e que não receia o mar, quando embravecido.
E' ouvir-lhe a sua história; não há no curso da sua vida uma recordação feliz, uma saüdade pungente por um amor distante, uma infância desassossegada, tranqüila, cujos incidentes sempre cheios de ingenuidade e de maravilha, a nossa memória retem com avareza.
Há só tristezas, desalentos, perigos. Foi a sua casinha que desapareceu outrora, vitima da fúria dos elementos: recorda, cheio de amargura, essa pequena cabana que foi o seu berço; a luta titânica para se salvar da derrocada, para não ser absorvido, como a casa querida, por aquela areia assassina.
Depois, já moço, nas lides do mar, vem o naufrágio. A garrôa imprevista apanhou-o sôbre as ondas, dentro de um pequeno barco que desmantelou, que desfez, e êle, já homem do mar, lutou com as vagas alterosas que o despejam, exausto, quasi morto, na praia salvadora.
E' o escorbuto que, de quando em vez, o atira, febricitante, para cima dum catre, dilacerando-lhe as gengivas anémicas, abafando-lhe os dentes, roídos pelo tártaro, convulsionando-lhe os intestinos.
E a água, com que matar a sêde que o domina, falta-lhe, como bàrbammente lhe falta o citro que lhe caustique as gengivas doridas e os vegetais que normalizem a sua função gástrica e intestinal.
E' uma vida cheia de heroísmos, prenhe de sacrifícios a do colono pescador a quem o destino lançou, sem piedade, para as areias mordentes da Baía dos Tigres.
Há quási meio século reuniam-se representantes de todos os países coloniais para se estabelecer o "modus faciendi" que haveria de fixar os limites do algumas colónias do Continetnte Africano.
Nos arquivos ministeriais e nas Chancelarias da Europa. falhavam os documentos que afirmassem onde terminava, ao sul, o território de Angola.
Até então nunca interessou a ninguém a ocupação e a posse da zona desértica que se estende, arenosa, sêca, improdutiva, desde o litoral ao lago Etocha, no Ovampo e que constitúe o deserto kalaariano.
Havia, no entanto, informações seguras que numa língua de areia que formava, a cem milhas a sul de Mossâmedes, a grande Bafa dos Tigres, existia um aglomerado
de gente branca que, através de todos os perigos e de tôdas as inclemências, ali vivia da pesca.
A nacionalidade dêsse povo garantiria a posse de território ao país a que pertencesse.
Eram portugueses, vindos de algarvias terras, aquêles que, heróis e mártires, se agarraram estoicamente às areias calcinadas da Bala dos Tigres e ao mar que a contorna e que tão rico é em peixe.
Mais tarde, fixava-se como limite sul do território de Angola, o rio Cunéne que desagúa no Atlântico a quarenta milhas a sul daquela baía.




'O MAR DE ANGOLA', de Carlos Carneiro (Luanda 1949)








Angola - As riquezas do mares da antiga colónia portuguesa


'O MAR DE ANGOLA'
De Carlos Carneiro
Edição Empresa Gráfica de Angola
Luanda 1949


Livro com 246 páginas e em muito bom estado de conservação.
De muito difícil localização.
Muito raro.

O autor revela as formas de uso dos mares e as suas riquezas nas costas de Angola, nos meados os século passado.

Uma raridade pelo tema em abordagem e pela escassa tiragem.


Do ÍNDICE:
- Prefácio - F. Morais Sarmento;
- PORQUE ME SEDUZIU O MAR DE ANGOLA;
- A INTELIGÊNCIA DOS PEIXES;
- OS PEIXES OUVEM;
- AS MIGRAÇÕES DOS PEIXES;
- BALEIAS E CACHALOTES;
- O BÓTO, CETÁCEO EQUATORIAL;
- TONINHAS E ROAZES;
- OS ESQUILOS;
- O ATUM DE ANGOLA;
- A PESCADA DO REINO;
- SERPENTES DO MAR;
- OS CEFALOPODOS - O POLVO;
- OS CRUSTÁCEOS;
- OS ESPONJIÁRIOS;
- HÁ ENGUIAS NOS RIOS DE ANGOLA;
- A EDUCAÇÃO TÉCNICA DO PESCADOR;
- A PESCA, SOB O PONTO DE VISTA SOCIAL;
- INDUSTRIA DA PESCA;
- A INDUSTRIA PISCATÓRIA ANGOLANA PÓS-GUERRA;
- A INDUSTRIA DA PESCA NO CONGO BELGA (A pesca no Lago Alberto);
- A PESCA EM KATANGA;
- AS OVAS DOS PEIXES;
- COMERCIALIZAÇÃO DO PEIXE SECO (Peixes novos e peixes velhos);
- O PEIXE SECO E OS SEUS MERCADOS;
- ATENÇÃO, CONSERVEIROS !;
- AASIM NASCEU, EM ANGOLA, A INDUSTRIA DE FARINHA DE PEIXE;
- O VALOR DA FARINHA DE PEIXE NA INDUSTRIA AÇUCAREIRA;
- A HIDROGENIZAÇÃO DOS ÓLEOS DE PEIXE;
- O ABASTECIMENTO DE PEIXE A LUANDA;
- PORQUE NÃO SE FABRICAM  NO SECTOR PISCATÓRIO DE LUANDA A FARINHA E O ÓLEO DE PEIXE?;
- A CHÁVEGA E O PALANGRE;
- OS ARRASTÕES;
- A PESCA AO CANDEIO;
- A PESCA NO LOBITO;
- MUITA CHUVA, POUCA PESCA...;
- O QUE ANGOLA DEVE À SUA NAVEGAÇÃO MOTORIZADA;
- JÁ ESTÃO PESCANDO, EM ANGOLA, DUAS TRAINEIRAS MOTORIZADAS;
- ANGOLA NECESSITA DE DOCAS E ESTALEIROS;
- A "AVITAMINOSE" NOS HOMENS DO MAR;
- HÁ PÉROLAS EM ANGOLA;

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