Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 25 de junho de 2018





Estátua de Maria da Cruz Rolão, (1) colocada à entrada de Porto Alexandre (actual Tombwa), nos inícios da década de 70, poucos anos antes da independência de Angola. Acabaria por ser demolida nesses tempos de nacionalismo exacerbado que se seguiram ao processo agitado de descolonização e  independência do território.

Subscrevo totalmente este texto assinado por Manuel Gaspar:

"...Os africanos,  por motivos que plenamente compreendemos, e dada a  incapacidade  de distinguir entre bons e maus colonos, entre  o colono trabalhador do ambicioso colonialista, nunca perdoaram a colonização. E o radicalismo das posições não tem ajudado a compreender a verdade histórica de um povo que,  ao arrepio da desconfiança desenvolvida face a teses de fácil aproveitamento, mas não menos reais, como a do "lusotropcalismo" de Gilberto Freyre,  não possuia nem possui características racistas de outros povos, já  que facilmente se miscigenou, fosse com índios, no Brasil, fosse com negros em África, formando uma população tri-híbrida.

Os portugueses quando partiram para a diáspora já carregavam consigo séculos de integração genética e cultural de povos europeus, como os celtas e os lusitanos, para além dos 7 séculos de convivência com mouros do norte de África e com judeus, relacionamento que deixou um importante legado a este povo. Lá virá um dia em que haverá a capacidade de interpretar a História, com o necessário distanciamento, e se há de  ultrapassar preconceitos de má memória e de maus resultados, que apenas servem e continuam a servir àqueles que pretendem dividir para reinar! E tanto mais  que não existe margem para dúvidas de que chefes tribais estiveram envolvidos no tráfico de escravos de má memória, e que hoje em dia chefes africanos encontram-se profundamente mergulhados na exploração dos seus próprios povos, numa época em que a ambição dos grandes está no auge, e que já ninguém duvida que ela não têm côr nem tem pátria!"


Dia da inauguração da Estátua, na presença do Governador e Presidente da Câmara de Porto Alexandre, Lourdino Tendinha. Entrevistador, José Manuel Frota do RCM


Esta mulher, Maria da Cruz Rolão, era afinal uma mulher do povo que, pela sua energia e por saber ler e escrever numa época em que a maioria do povo português era analfabeto, foi por consenso tácito do reduzido núcleo populacional de Porto Alexandre, eleita a sua Regedora. Um facto ninguém jamais poderá negar, é que os destemidos algarvios deram, também eles, com a sua presença nas terras áridas e desérticas do sul de Angola, o seu contributo para que o território angolano se mantivesse íntegro, nos momentos cruciais que se seguiram à Conferência de Berlim, (1885-6), quando a imposição das potências estrangeiras era a ocupação, evitando assim que o mesmo território fosse cindido em proveito de outras potências interesseiras e interessadas, como a Alemanha que pretendia a anexação  pelo Sudoeste Africano (Namibia), da faixa territorial de Angola, a sul de Benguela.




Foto: outra perspectiva da estátua erguida em Porto Alexandre em homenagem a Maria da Cruz Rolão, obra do escultor, já falecido, Fernando Marques, sobre a qual se desconhece o destino. Foi executada em cimento na cidade de Sá-da-Bandeira, pelo escultor Fernando Marques, era composta por duas ou três peças, e foi em seguida pintada na cor bronze. Foto cedida por Paula Marques, sua filha, a quem agradecemos. Ao mesmo escultor Moçâmedes ficou a dever  os baixos relevos das galerias  do "Cine-Estúdio SATÉLITE", o Cinema inacabado, de arquitectura futurista que faz lembrar um ovni e que se encontra por acabar, desde 1975, porém deixado quase concluido, quando a cidade foi abandonada pela população branca e não só, devido aos confrontos bélicos entre movimentos independentistas que precederam e se seguiram à independencia. Também Fernando Marques tinha em mãos, em 1975, o projecto para um outro monumento a erguer na Marginal, em Moçâmedees, uma evocação aos fundadores da cidade.










Maria da Cruz Rolão, a heróica Regedora de Porto Alexandre, nasceu em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21 de Setembro de 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro. Era filha de Domingos Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (conf. Câmara Municipal de Moçâmedes, Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883 a 1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito de seu filho, José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes, em 1 de Dezembro de 1905, motivado por tuberculose pulmonar, no estado de casado com 53 anos de idade - nascido em Olhão em 1852, registou-se a filiação: filho de Maria da Cruz Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 do Registo de Obitos 1898-1911) . Outro Registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os Sacramentos. Indica a sua profissão: Maritimo. O seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão. Confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó, maritimo, e de Maria da Cruz Rolão, natural e Olhão e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz, não dez testamento, deixou seis filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião, de Moçâmedes, Registo de Obitos de 1905). Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão, verificado em Moçâmedes, a 06 de Julho de 1902 com a indicação da idade: 70 anos, e do estado civil: casado, apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (Câmara Municipal de Moçâmedes Livro 52? Registo óbito 1898-1911. Há outros registos que referem dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz.

De Delgado, Ralph seguem algumas passagens que mais pormenorizadamente nos podem esclarecer sobre o perfil da Regedora, Maria da Cruz Rolão:


...A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.


”...Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.


“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.


“...Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”

Delgado, Ralph (2) vol. II pp. 60/61


Cecilio Moreira no seu

“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.


“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.


“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”


Moreira (1) pp. 20/21

Vendo bem, através de uma perspectiva transcendental, europeus e africanos fomos vitimas  (as maiorias) e fomos beneficiários (uma minoria) desse processo histórico que hoje chamamos "globalizaçâo" e que teve o seu arranque com as caravelas portuguesas no séc XV, impulsionado mais tarde pela Revolução Industrial (1ª e 2ª) na busca de matérias primas , mão de obra barata e mercados consumidores.  Estamos presentemente no limiar de uma  nova era.  Outras revoluções estão em curso, para o bem e para o mal. O capitalismo, a mola que tudo faz movimentar tem a sua dinâmica. Presume-se que novas e radicais mudanças que não divisamos venham a acontecer na vida das pessoas num futuro próximo, consequência de uma enorme revolução tecnológica, da computorização, da robótica que, significam um salto histórico e civilizatório comparável à descoberta da técnica, enquanto ferramenta e arma, pelo homo sapiens.  De agora em diante, precisamos de inteligência artificial, pois o volume de dados é imenso, estão armazenados na nuvem e chegamos ao tempo em que robôs já estão nos ajudando a decifrar o mundo em que vivemos. Não é ficção científica, já é realidade.  Nada será como antes: negócios, relacionamentos, produção de conhecimento, percepção do mundo, da sociedade, da natureza, do espaço, das galáxias, enfim, tudo. Estas são algumas conclusões a que se pode chegar...Não estaremos por cá para ver.

MariaNJardim

domingo, 24 de junho de 2018

Moçâmedes. Namibe, por João Catarino



 Serra da Leba

Os cerca de 200 km que separam o Namibe do Lubango são feitos pela nacional 280, uma estrada agora de bom asfalto que inicialmente atravessa superfícies arenosas quase desérticas à cota do mar, até se aproximar da Serra da Leba onde pela sua influencia tudo se vai tornando mais verdejante e fresco. Aí iniciamos um dos percursos mais curtos, mas mais contrastantes e vertiginosos de todos os que fizemos em Angola. A Serra da Leba constitui um enorme degrau geográfico que divide aquela zona de África da influencia atlântica e da influencia continental. Em pouco mais de 20 Km passamos quase do nível do mar até mais de 2000 metros de altitude. Nas curvas que serpenteiam a subida vamos sentindo as mudanças climáticas, passamos pelas nuvens, pelas sombras frias, por cascatas cobertas de musgo, assim como pelas escarpas expostas ao calor tórrido, também por trovoadas e aguaceiros que na curva seguinte se dissipam na evaporação do asfalto ainda quente. Todo o cenário é já um filme, mas não havia espaço para parar e filmar. Saí do carro e subi alguma parte a pé entalado entre o esmagamento do rodado dos camiões que desciam a chiar dos travões e a vertigem das escarpas separadas pelos rails de protecção que pareciam não ter espaço na beira onde se agarrar. Numa curva uns quilómetros mais acima havia de estar o Câmera-men que com a lente me ia seguindo à distancia.








 Rio Muninho


Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos.
Entre Namibe e Lubango procuramos nas margens do Rio Muninho a correspondência possível às descrições dos relatos que Cabelo e Ivens tinham feito do mesmo lugar ou de um lugar próximo há 127 anos atrás. O carro ficou parado na beira da estrada e não muito longe dali corria este rio de água limpa e fresca, onde fiz o desenho que ia sendo interrompido entre as repetições dos takes e os ajustes do plano. O sol estava a pique o calor era abrasador, mas banhos só mesmo o dos salpicos, nestes lugares por mais bela que seja a paisagem os banhos nunca são tranquilos. 



 

 No Namíbe

No Namíbe tudo se estende na horizontal, a construção é de baixa densidade e de baixa altura, há muito espaço para tudo se espraiar junto do litoral pelo solo árido e desértico. O caminho de ferro de Moçâmedes começa ali num emaranhado de carris até à data ferrugentos. Esta é segunda linha férrea mais importante de Angola começada a construir logo no início do século XX pouco depois da linha de Benguela. Em Agosto passado foi reactivada, pouco a pouco as artérias de Angola sejam em ferro ou asfalto vão recomeçando a funcionar.
No Namíbe tudo se estende na horizontal, a construção é de baixa densidade e de baixa altura, há muito espaço para tudo se espraiar junto do litoral pelo solo árido e desértico. O caminho de ferro de Moçâmedes começa ali num emaranhado de carris até à data ferrugentos. Esta é segunda linha férrea mais importante de Angola começada a construir logo no início do século XX pouco depois da linha de Benguela. Em Agosto passado foi reactivada, pouco a pouco as artérias de Angola sejam em ferro ou asfalto vão recomeçando a funcionar. 


 

 A Baía de Namibe


A Baía de Namibe é desolada suja e encantadora. Felini podia bem ter rodado ali um filme, mesmo no seu tempo e nos anos que a cidade conheceu alguma prosperidade o cenário não terá sido muito diferente. Agora com a patine impressa pelo tempo, a ferrugem dos aparelhos de pesca que restam, as brincadeiras das crianças descalças que chutam qualquer coisa que sirva de bola, as carcaças das embarcações, a vadiagem de canitos pele e osso, o ar desocupado das pessoas numa cidade com tanta terra ainda por ocupar, torna tudo verdadeiramente encantador, com tanto tempo que parece ter para gastar apetece ficar a fazer um filme sem mais nada, montar o tripé e deixar a câmera ligada. Esse seria o verdadeiro registo da Baía de Namibe, mas a história que tinha-mos de contar era outra. Foram estas as primeiras casas algumas edificadas outras escavadas na falésia que os Portugueses vindos do Algarve construíram. Quando Capelo e Ivens aqui chegaram em 1884 a cidade de Moçâmedes (actual Namibe) ainda mal figurava no mapa, aqui formaram a caravana de guias, carregadores e toda a logística necessária, deixaram o atlântico e partiram por terra a caminho do Índico na contra costa de África.  




No sul de Angola tudo continuava a parecer muito familiar, já tarde depois de procurarmos alojamento numa pequena pensão numa casa de traça algarvia com um pátio interior empedrado, onde se seca e lava a roupa num tanque de cimento como nas casas que se alugavam nas férias no Algarve antes da oferta de camas ser o que é hoje. No clube Naval do Namibe ainda nos serviram jantar, na ementa não havia um só ingrediente que não fosse completamente familiar. A corrente fria de Benguela faz com que ali seja um dos lugares de pesca mais importantes de Angola, terra de bom peixe mas a fome ditou que em pleno Namibe o que veio à mesa fosse depois de uma sopa de legumes com rodelas de chouriço a flutuar uma bela carne de porco à Alentejana. 


Contra todas as advertências e expectativas sobre a resistência e a capacidade que o pequeno Chevrolet teria em conseguir transpor os obstáculos que encontrou pela frente, lá chegámos ao Namibe graças sobretudo à perícia de condução dos nossos produtores. Esse sempre foi aliás o meu maior receio antes e depois de partir para África, o facto de não conhecer devidamente a equipa com quem me ia enfiar dentro de um carro durante cerca de um mês para atravessar África de Angola à Contra Costa. A noite caía rápido algumas dezenas de quilómetros antes de chegar ao Namibe, quando alguém nos avisou que teríamos de voltar para trás porque uma ponte tinha caído recentemente durante a estação das chuvas. Já bem cansados e com a expectativa da meta à vista tornava-se bem mais difícil de segurar o moral. Tínhamos mesmo de voltar para trás e conforme as indicações, seguir já de noite durante largos quilómetros por um desvio sobre pistas de pedras e areia sobre o deserto do Namibe, passámos por vários jeeps parados com pneus furados, uma família com o carro atolado montava um abrigo à luz dos faróis, para ali pernoitar junto dos trilhos de areia que se iam abrindo com a passagem dos jeeps. Com sorte escolhemos o trilho certo. Chegamos à antiga cidade de Moçâmedes onde Capelo e Ivens teriam organizado a sua comitiva de guias e carregadores que os acompanharam atravessar África a pé até do Atlântico até ao Índico. 

Depois de Benguela o caminho mais curto pelo mapa até ao Namibe, seria pela estrada do litoral, cujo asfalto termina pouco depois de Benguela e daí segue por atalhos e desvios, por montes e vales desérticos atravessando pequenas povoações de pescadores por uma costa de praias e falésias arenosas infindáveis e quem sabe até com baías de água cristalina e ondas perfeitas ainda por descobrir. Essa era a via que eu gostava de ter feito mas impensável para o nosso pequeno chevrolet citadino. A estrada transitável para sul é só uma, a que segue por Chongoroi, pelo interior até ao Lubango e depois ruma a oeste desce as curvas da Serra da Leba e daí até ao Namibe segue por uma planície na mesma cota do mar. Depois de Chongoroi afinal a dita via transitável pelo interior, a seguir à estação das chuvas deixara de o ser. Há muito que o asfalto tinha sumido, havia vestígios de antigos marcos de estrada, de bermas empedradas e protecções em cimento como as que vemos na estrada marginal entre Cascais e Lisboa a mais de um metro de altura do nível onde hoje os camiões escavam na lama um novo rodado. Vários foram os que paravam para nos avisar de que a estrada não estava transitável para o pequeno Chevrolet sem tracção total, mas se os Kupapata ou mesmo alguns candongueiros passavam nós também havia-mos de passar. 
 http://cargocollective.com/conversas/Joao-Catarino