Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Assassinado do explorador francez Alexandre Laurient, enquanto estudava o curso do rio Cunene, em 1874








José Pereira Nascimento, médico da Armada, in "Explorações Geográficas e Mineralógicas no Distrito de Mossamedes, 1894-1895, relata in Portugal em Africa, revista scientifica, Volume 5. 1898,  a pg 36, a morte do malogrado explorador francès, enquanto estudava o curso do rio Cunene

"... Pela presença de algumas latas de sardinha de Nantes, reconheci ser ali que foi assassinado o explorador francês Alexandre Laurient  que em 1874 estudava o curso do Rio Kunene . Segundo o tesmunho de alguns pescadores da Bahia dos Tigres , a morte do malogrado explorador, passou-se da seguinte forma: Laurient partiu de Mossamedes a pé e só, recommendado a um pescador dos Tigres, a quem pediu dois servicaes para o servirem durante a exploração do rio. O portuguez cedeu-lhe os pretos, mas avisou-o de que era perigoso viajar com pouca gente, principalmente sendo serviçaes contractados, que fogem logo que se encontram longe dos patrões, sendo pouca a confiança que n'elles depositava; aconselhavao a voltar a Mossamedes ou a Porto Alexandre, onde facilmente arranjaria negros livres do Koroka, já. habituados a prestar serviços aos brancos, e recommendou-lhe que levasse rancho para elle e para os pretos, sendo certo que elles o abandonariam, logo que lhes faltasse o sustento. A isto respondeu Laurient que tinha confiança na sua arma para matar caça e para conservar os pretos em respeito e obediencia. Partiu o explorador com cega confiança na arma e pequena quantidade de provisões, quanto podiam conduzir dois carregadores. Quando acabava o rancho, mandava um dos servicaes ä. casa do pescador para lhe conduzir novo fornecimento, quasi exclusivamente composto de sardinhas de Nantes. De uma vez os pretos descontentes por falta de comer, e por serem obrigados a fazer constantes viagens á. bahia dos Tigres, além do variado serviço a que os obrigava o explorador resolveram fugir na occasião em que não havia rancho, nem apparecia caça. Laurient, desconfiado do plano de fuga, ameaçou-os de morte e de arma apontada para um d`elles obrigou-o a marchar para a bahia dos Tigres em busca de novas provisões. O preto partiu, mas deixou-se ficar escondido no canniço e pela calada da noite, quando o explorador dormia, voltou, tirou-lhe a arma e varou-lhe o tronco com um tiro pelas costas. Sabido o caso pelo outro preto, partiu para o Kunene um grupo de pescadores, entre elles o que tinha emprestado os serviçaes; enterraram o cadaver, recolheram os seus papeis e prenderam o assassino, que foi julgado e condemnado a degredo. Os papeis, a arma e os seus instrumentos foram entregues ao Governador de Mossamedes, ignorandose o fim que levaram. Como homenagem aos trabalhos d'este corajoso explorador, sacrificado aos interesses da sciencia e da humanidade e assassinado em territorio portuguez, entrei em diligencias afim de saber o paradeiro das suas notas e cartas para as fazer chegar ao conhecimento do mundo scientifico. Deixando aqui consignado o testemunho de respeito de um modesto peoneiro portuguez ä. memoria do infeliz Alexandre Laurient prosigo na minha narrativa."

Fim de transcrição.


https://books.google.pt/books?id=y-czAQAAMAAJ&printsec=frontcover&dq=Portugal+em+Africa:+revista+scientifica,+Volume+5&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjS1oG3g4bdAhUFfxoKHdRFBbMQ6AEIKDAA#v=onepage&q=baia%20dos%20tigres%20revista%20scientifica%2C%20Volume%205&f=false

sábado, 18 de agosto de 2018

Uma atribulada «ida na mahanja»

Aquando do êxodo dos retornados vindos de Angola, a confusão no aeroporto da Portela, era aquela que as pessoas com mais de 50 anos estão lembradas.

O aeroporto de Lisboa regorgitava de gente.  A ponte aérea entre as colónias do Ultramar e a Metrópole, funcionava em pleno com aviões de muitas nacionalidades despejando homens, mulheres e crianças de todas as idades, brancos e pretos, novos e velhos, numa amálgama de pessoas de que não havia memória na história contemporânea em tempo de paz (se é que o mundo, desde que é mundo, alguma vez conheceu a paz), gente apreensiva com relação ao futuro que os esperava, e traumatizados pelo desfazer do sonho angolano que os embalou durante toda uma vida.

Numa das muitas viagens dos aviões que descarregavam gente, apreensão e décadas de muitos sonhos desfeitos,  num total de mais de quinhentas mil pessoas, veio o RC com a família formada, por mulher, criançada e avó negra,  por afinidade.

 Naquela confusão de gente que chegava e de gente que vinha ver quem chegava, enormes filas para identificação, para trocas de cinco contos de cá por cinco contos de lá, por pessoa, para inscrição no IARN,  (Instituto de Apoio ao Regresso de Naturais), para a burocracia, etc. tudo com muita espera de muitas horas, à anciã, depois de muitos apertos, deu-lhe vontade de urinar, e, não suportando mais aguentar a necessidade fisiológica,  disse para as netas:

Meninas, vão perguntar aí, onde a gente faz chi-chi.

A criança foi, demorou-se algum tempo, e trouxe o recado:
" É ali, avó, ao fundo do corredor, vira à direita, anda um bocadinho e encontra uma porta com um boneco a imitar uma mulher. É aí."

A velha desconfiada resmungou:
"Um boneco? Mas eu quero é mijá! Olha eu vou mazé na mahanja. Ucês me acompanha na minha trás, o resto fica a tomar conta das nossas bicuatas enquanto o Gerinho não aparece. Mas fica de olho bem aberto para ninguém não roubar, porque aqui tem muito granco e também muito ladrão."

Netos e avó de mãos dadas serpentearam por entre as pessoas e bagagens, sairam do aeroporto, andaram sem tino e, quando a claridade das luzes ia sendo vencida pela escuridão da noite, as  crianças iam ficando para trás, e com medo regressaram para a confusão.

A velha com aquele ar cansado que lhe dava o carregar com setenta e alguns anos e muita ralação, mais o zonzear da viagem do avião, lá foi à procura do capim alto que era onde ficava a mahanja.

Fez o que tinha a fazer, ficou aliviada, mas não deu com o caminho do regresso, perdeu-se, e depois de muito tentar regressar, foi encontrada pelos seguranças do aeroporto, que a entregaram ao posto da polícia mais próximo, ali para os lados do bairro das Galinheiras.

Começou o interrogatório:

- Você veio donde:
-De Moçâmedes.

-Veio na ponte aérea?
-Não veio, não siô, veio não avião.

-A dona é retornada?
-Não siô.

-Veio do Ultramar?
-Não siô.

-Então veio das colónias?
-Também não.

-Então veio de onde?
-Aka, eu já disse, eu veio de Moçâmedes.

-Onde fica isso?
-Perto da Praia Amélia.

-E a Praia Amélia?
.-Antes ou depois de Moçâmedes, conforme. Ucê conhece?

-Os guardas eram pacientes, entreolharam-se e continuaram.
-Sabe onde mora?
-Na Torre do Tombo.

-Se a levar para lá a Dona sabe dizer onde é a sua casa?
-Pois claro que sei.

Era um caso simples de resolver. Os agentes policiais meteram-na no jeep, seguiram pela Alameda das Linhas de Torres, passaram pelo estádio de Alvalade e pararam perto do edifício do arquivo da Torre do Tombo, em  Entrecampos.

-É por estes lados que você mora?
-Aka! Eu já disse que mora na Torre do Tombo e aqui não é Torre do Tombo que eu conheço muito bem. Ainda nem passou nem o Palácio, nem a Igreja, nem a loja do Carumbemba, como é que aqui é Torre do Tombo?

Os agentes conferenciaram e acharam melhor regressar. Contaram ao Cabo, comandante do Posto o acontecido e este por sua vez,  chamou a assistente social que estava mais vocacionada para estes casos, que ele diagnosticou de perda de memória ou demência degenerativa, própria da idade da anciã.

Tiraram a identificação, aboletaram a senhora na Pensão Luanda, da Almirante Reis que tinha contrato com o IARN, e garantiram gelidamente, como só os polícias sabem fazer.

- Olhe, não falei com o dono da Pensão,  a Senhora vai pernoitar aqui e amanhã continuamos a procurar. Está bem ?
- Não esperaram pelo assentimento da idosa e remataram:
-Então, até amanhã.

Dois dias depois apareceram os zeladores da ordem e da lei. Prosseguiu o interrogatório com outro interlocutor, uma moça jovem que depressa foi posta ao corrente da situação. Querendo ser simpática para cativar a idosa, começou o interrogatório no sitio onde os seus colegas tinham ficado:

-Então avó, se não sabe onde mora, sabe ao menos quem são o seu marido, filhos, netos?
-A velha mete o dedo indicador por dentro do lenço que cobre a cabeça, e coça a carapinha branca, dizendo com ar de enfado:
- Pra já ucê não é minha neta, o meu homem já morreu faz tempo, e o meu neto de leite se chama Gerinho. Ucê pergunta aí a qualquer pessoa que toda a gente o conhece.

-Onde trabalha o teu neto Gero?
-No Caminho de Ferro.
-No Caminho se Ferro dos comboios?
-Esse mesmo,

Suspiraram de alívio. As coisas estavam-se a compôr. Meteram a velha de novo na parte de trás do Jeep , atravessaram Lisboa de lés a lés,  em hora de ponta, e quando a viatura afrouxou a marcha, em Santa Apolónia, ela subitamente despertou, levantou-se e gritou, de dedo em riste:

-Pára, pára, é aqui mesmo. Tá ali a casa do sô Radich!
-Quem é esse Radich ou lá o que é?
-Já morreu faz tempo. Bom homem esse. É marido da Dona Beatrizinha, irmã do Sô Caleres do Banco, que casou com a Dona Branca, irmã do Patalim, e as filhas se chamam...

-Chega, chega, poça! Como é que se faz para calar esta velha, oh nosso Cabo? explodiu o motorista, engrenando a primeira e arrancando de esticão.

Bem, andaram com a velha por toda a Lisboa, de Jeep, atrás de pistas falsas durante dezassete noites,  a rádio fez apelos e a televisão passou fotografias e abordou com desenvolvimento aquele estranho desaparecimento da idosa retornada no noticiário das oito.

Após tantas notícias e apelos cruzados da polícia e do RC, este apareceu no posto policial afogueado, e abraçando-se à avó,  quase chorando recriminou:

-Então avó, isto faz-se? Toda a gente ficou em cuidados e não sabíamos mais o que fazer.
-Não precisava. Olha lá, e tu só agora é que apareces, não é? Disse ela, calmamente, agarrando nas coisas que a assistente social lhe tinha dado. Agradece à menina que faz muita pergunta pra nada e também a esses tchinderes que não estão bons da cabeça e que me levaram a passear por tanta rua esquisita.

-Ah!, e explica a eles onde fica a Torre do Tombo!


-E, de repente, fixando o neto, perguntou:
-É verdade, olha lá, como é mesmo como se chama as filhas da D. Beatrizinha, mulher do Radich da Alfândega. irmã do Sô Caleres, que é do Banco, que casou com a D. Branca, irmã do Patalim?


Fim

(Do caderno de memórias Contos Breves de Escárnio e Maldizer, de Mário Lopes.)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A literatura e as guerras em Angola. No Princípio Era o Verbo



Texto integral

1Se não for por catarse, diga-se que a tão repetidamente evocada Guerra Colonial de 1961-74 foi simplesmente a última das muitas guerras que se seguiram à primeira, travada entre as hostes de Paulo Dias de Novais e Ngola Kiluanje, em 1575. De facto, com a segunda chegada de Diogo Cão, em 1484, e o seu relacionamento com o Mani-Soyo, ainda se poderá falar de “colonização missionária” (expressão eufemística de Adriano Moreira para caracterizar toda a colonização portuguesa…), de tal modo foram cordiais e de interesses recíprocos as relações entre portugueses e angolanos. Depois, foi o que é consabido: o tráfico de escravos e a busca de ouro e prata formataram as relações e os interesses ao ponto de nem os missionários escaparem à tentação da riqueza – lembrem-se os padres dos Lóios.

2Só do primeiro tempo em que o adjectivo colonial ainda remetia para o étimo latino colonus (o que cultiva a terra em lugar do seu dono) se poderia dizer, parafraseando a Bíblia, que No Princípio era o Verbo, porque a confiança na Palavra dita e os actos consequentes faziam jus ao pensamento de Santo Agostinho, um milénio antes, de que o tempo é o espaço onde decorrem as coisas. Mas já antes Cícero advertia: o tempora! O mores! E como se viu até aos nossos dias, os interesses, as práticas e os costumes, pese embora a primeira Palavra, mudaram o espaço e o tempo, até que…

3por fim, a Palavra transbordou como componente de um vulcão adormecido, que depois entra em erupção: primeiro magma, depois lava. Tal como na natureza humana: primeiro, conformação, resignação, esperança; depois, inconformidade, protesto, luta.

4No caso, todavia, em duas vertentes: uma, que se reportava aos interesses do colonizador; outra, do colonizado – gerando (até 1961…), no dizer de Mário António, a respeito de alguns textos questionáveis contidos na revista Mensagem, “um caldo de ambiguidades”.

5Esse “caldo”, enquanto palavra escrita, está já presente nos primeiros jornais que se fundaram em Angola, a partir de 1866 (o primeiro arremedo de informação começou em 1845, com a criação pelo Governo do Boletim Oficial). Até então a escrita, já literária, fazia-se num Almanach de Lembranças Luzo-Brasileiro e nos recortes que iam chegando do Brasil pela mão dos maçons estabelecidos ou degredados em Angola, como foram os implicados na Inconfidência Mineira, em 1789: José Álvares Maciel, o ideólogo da intentona, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Domingos de Abreu Vieira, Luís Vaz de Toledo e Francisco António de Oliveira Lopes, uns literatos, outros militares de carreira.
6Com a intentona que a independência do Brasil inspirou nas cidades de Benguela e Luanda, denominada Confederação Brasílica, em 1822-23, sob a égide de um dito “partido brasileiro”, constituído por brasileiros, portugueses e angolanos, saltava à vista que a narrativa da Portugalidade no futuro de Angola teria vários pronunciamentos.

7Um deles já tinha vindo de um português que integrara a colónia formada em Pernambuco, em consequência da Revolta Praieira, e que em 1849-50 demandara a região de Moçâmedes, na expectativa de substituir um Brasil em estado de revolta nativista por uma nova “Terra da Promissão”. Chamava-se António Francisco Nogueira (literariamente A. F. Nogueira), sem uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e bancário), revelando-se durante a sua permanência no Sul de Angola como um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da Metrópole e, por último, um importante livro de ensaios com o título genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:

[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?
[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!
8Este colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando, mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”. Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:
Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
9Macedo sabia bem do que falava: em 1901 tinha vindo a lume, impresso em Portugal, um libelo escrito por destacadas personalidades angolanas, civis e religiosas, que sob anonimato verberavam as críticas racistas de um deputado português de visita a Angola. Intitulava-se esse livro Voz de Angola Clamando no Deserto, cujo primeiro depoimento – “Solemnia Verba” –, por muito apaziguador que fosse, não iludia o que subjaz à expressão latinista: Solene Advertência.
10O Verbo, a Palavra final, continuou por dizer nos anos seguintes, até ao momento em que um poeta já revolucionário, Viriato da Cruz, em 1956 defendeu o imperativo de criar um Movimento Popular de Libertação de Angola, sendo verdade que, desde antes, escritores, poetas e jornalistas já tinham assumido, em revistas e jornais, o direito inalienável a uma identidade própria, política e cultural. O Poeta Maior, Agostinho Neto, expressá-la-ia posteriormente numa tríade paradigmática: Sagrada Esperança, A Renúncia Impossível, Nós Somos!

11Em 1951, no primeiro número da revista Mensagem, da Associação dos Naturais de Angola, ainda a Cultura era um campo onde fecundavam as aspirações e germinavam os ideais:
[…] MENSAGEM será – nós o queremos! – o marco iniciador de uma Cultura Nova, de Angola e por Angola, fundamentalmente angolana, que os jovens da nossa Terra estão construindo. E porque assim é, porque é sincero o nosso desejo de auto-realização, não admitimos o preconceito, o compadrio; abominamos a hipocrisia e a injustiça; surpreende-nos a louvaminha, o elogio mútuo; desagradam-nos as meias tintas.
Batemo-nos pela Verdade, pela verdade forte, sem a verrina da agressividade mas com a justiça da nossa sinceridade; somos pelos grandes horizontes, sem nuvens, mas com a luminosidade forte do sol que nos aquece; pela generosidade dos nossos ideais, pela grandeza dos nossos Problemas. […]
12A revista durou apenas dois anos, com dois números publicados.
13Cinco anos depois, em Novembro de 1957, uma nova revista, CULTURA (II), editada pela Sociedade Cultural de Angola (já tinha existido uma primeira CULTURA, em 1942-47, de inspiração liceal irrelevante) propôs-se prosseguir e actualizar a linha editorial da Mensagem. Como se afirma no editorial do seu n.º 8, de Junho de 1959, não assinado mas sendo presidente da instituição o advogado e ensaísta Eugénio Ferreira:
Nós queremos que a Sociedade Cultural de Angola seja um organismo vivo, dinâmico na sua acção, objectivo perante os problemas da vida angolana. Um organismo despretenciosamente capaz de possibilitar aos homens de Angola, e sobretudo à sua juventude, um meio de abordar quantos problemas atormentam o seu espírito. O tempo e o homem de Angola são os elementos decisivos na gestação de uma cultura angolana, nacional pela forma e pelo conteúdo, universal pela intenção, capaz de ultrapassar a incipiência do exotismo tropical e do primitivismo turístico. Não podemos iludir nem ignorar os problemas. Não podemos abandonar as suas soluções às contingências do acaso. Nem subordiná-las a interesses pessoais e transitórios. Não podemos contentar-nos com exercícios de oratória mais ou menos oportuna, para não dizer oportunista. Necessitamos de pôr, com clareza e coragem, os nossos problemas em equação; discuti-los sem reservas, franca e honestamente, sem tolos melindres nem descabidas vaidades e encontrar as soluções justas, justas sob o ponto de vista nacional, justas sob o ponto de vista humano. Só assim lançaremos as bases de uma cultura[…]
14O ano de 1959 é particularmente trágico para os intelectuais de Angola, onde a PIDE/DGS já estava instalada desde 1957. Deu inequívoco sinal da sua presença com a formatação do famigerado “processo dos 50” e a consequente prisão e desterro de alguns dirigentes da Sociedade Cultural de Angola e colaboradores literários da CULTURA (já o tinham sido da Mensagem), também “marcados” pela sua participação na campanha presidencial de Arlindo Vicente/Humberto Delgado, pelas janelas que ela prometia abrir para os horizontes de uma Nova Angola.
15CULTURA é extinta em Novembro de 1960, com 12 números publicados. Pese embora uma declaração de interesses, é significativo que na última página do seu último número seja registado, com nota positiva, o surgimento, na cidade de Sá da Bandeira (hoje Lubango), da Colecção Imbondeiro, numa recensão assinada por A. A. (o conhecido causídico e poeta “mensageiro” Antero de Abreu):
No pobre panorama literário de Angola, a iniciativa da “Colecção Imbondeiro” reveste-se da maior importância, pelo que revela de esforço e seriedade, pelo que representa de amor a uma literatura consciente e de qualidade, pelos caminhos que abriu e abrirá. Até ao seu aparecimento, a actividade editorial em Angola, tirada a imprensa e os boletins desta ou daquela organização cultural, consistia na publicação de um ou dois livros anuais, a maior parte das vezes de versos, como é natural, e em edição dos autores. Hoje, com a “Colecção Imbondeiro”, já se pode falar em movimento editorial em Angola. Por isso, e porque é efectivamente uma realização cuidada e séria, a obra iniciada por Garibaldino de Andrade, Leonel Cosme, Maurício Soares e Carlos Sanches, presentemente mantida pelos dois primeiros apenas, tem já assegurado o seu lugar numa futura história da literatura (de Angola).
16A Imbondeiro foi criada em Janeiro de 1960, tendo como suporte legal a classificação de livraria-distribuidora, já que, no contexto político da época, como editora não seria obviamente autorizada. Por precaução e como subterfúgio, todos os cadernos da “Colecção Imbondeiro”, dedicados ao conto e à poesia, referiam, na última página, que eram propriedade e edição dos autores. Ao oitavo caderno, a PIDE local pediu para lhe ser mostrada a licença da actividade: um alvará comercial passado pela Repartição de Finanças do Lubango…

17Era o primeiro “aviso”. Não a distraíra o facto de o quinto caderno ser preenchido por um conto de Joaquim Paço d’Arcos, considerado autor situacionista, entre outros autores considerados separatistas. Nem lhe diminuíra a suspeição o Propósito aparentemente inócuo expresso no primeiro caderno:
Duas razões nos levaram a lançar esta colecção: a necessidade de dar a conhecer ao público português os valores ultramarinos que se espalham pelos cantos do mundo onde se fala a língua lusíada, desde a Guiné até Macau, e o direito, que se impõe, de os manifestar conjuntamente à luz duma consciência nacional que não pode deixar de reconhecer, nos caprichosos tons da grande aguarela lusitana, um curioso tema de interesses recíprocos, solicitados por anseios de espírito ou por afinidades de cultura tradicional.
Não se passará, imediatamente, duma tentativa em moldes simples (tão dependente de variados factores), traduzida em trabalho breve, mas responsável, como é o conto: explica-a, de resto, esta forma primária da Literatura, que, seja em Angola como em Moçambique, não possui, por ora, arcaboiço adulto com recursos igualáveis aos de uma terra de antiga existência literária.
Mas, dentro da estreiteza das possibilidades, será nosso intuito cumprir a tarefa com o melhor aproveitamento dos muitos valores esparsos, maiores ou menores, que ainda hibernam – na espreita duma aurora que cesse a já longa escuridão – à sombra dos braços clamorosos dum velhíssimo imbondeiro…

18A ambiguidade deste texto inaugural prestava-se a várias interpretações, em que a escolha da árvore imbondeiro (m’bondo no étimo angolano) para sigla da “editora” não era fruto do acaso, mas um símbolo, quiçá um ícone, a que as características da milenária “árvore sagrada”, para os nativos (que dela retiravam alimentos e remédios), davam o sentido desejado. O que se viu quando a par da “Colecção Imbondeiro” foram surgindo as colecções “Mákua” (poesia) e “Dendela” (contos infantis), isto é, o fruto e a flor da imbondeiro.

19Na mais pacífica interpretação, a iniciativa convidava ao reconhecimento de uma Lusofonia no vasto espaço luso-tropical… Esta terá sido a primeira leitura dos epígonos do regime colonial, a PIDE incluída, não desmentida quando outras colecções do tipo da Imbondeiro surgiram em Nova Lisboa (Bailundo), no Lobito (Capricórnio) e em Cabo Verde (Dragoeiro), estas de vida curta.
20E porque o propósito da Imbondeiro não distinguia, literariamente falando, os autores de diversas formações ideológicas, e por isso chegou a ser criticada no Boletim da Casa dos Estudantes do Império, também chamado Mensagem, foi necessário, ao segundo ano de existência, defender o seu “eclectismo cultural”, que não excluía (pois também os publicou) os autores “progressistas” que constituíam a Colecção Autores Ultramarinos da C.E.I., aliás de curta duração:
[…] ausência de opções, portas abertas a todo o pensamento dos nossos escritores, independentemente das suas tendências literárias e sociais – seguindo enfim uma linha de rumo que, agradando ou não a gregos e troianos, vem sendo cumprida desde o primeiro instante: isenção, franqueza e independência, na convicção firme de que só os caminhos da liberdade intelectual podem conduzir ao seio da Cultura e da Arte, pelo menos na acepção em que as temos. […]
21Depois (como antes) deste “incidente”, Imbondeiro continuou a publicar, em cadernos e antologias, contistas e poetas, incipientes e consagrados, presos ou em liberdade, de todos os territórios de língua portuguesa, incluindo os que sob a acusação genérica de serem contra a segurança do Estado e inimigos da unidade da Nação portuguesa se propunham libertar as colónias de armas na mão.

22Para os directores da Imbondeiro a razão da sua existência era uma só: dilatar o Verbo até ao ponto em que ele se exprimia em termos de Cultura nacional e universal. Pois que, repetindo Terêncio, homo sum: humani nihil a me alienum puto.

23Esta volição cosmopolítica deu pleno sentido à inclusão na “Colecção Mákua”, no n.º 5/6 (Grandes Poetas do Século XX), já em 1964, de poemas de Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiri Wolker, Langston Hughes, Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir Maiakovski.

24Não aparece o nome do grande poeta angolano, Agostinho Neto, pelo simples facto de naquela data ainda não estar publicado o primeiro livro que o internacionalizou: Sagrada Esperança. Mas já era o primeiro nome da selecção de poetas que constituíram o n.º 49/50 da “Colecção Imbondeiro” – Antologia Poética Angolana –, saído em Junho de 1963.

25Já se calculava que esta primeira antologia, reunindo nomes de poetas presos, desterrados e suspeitos, angolanos e portugueses, seria provavelmente encarada pela polícia política como uma “provocação”. A certeza concretizou-se, no ano seguinte, com a publicação da MÁKUA “internacionalista”: a PIDE invadiu a Livraria Imbondeiro para apreender os exemplares ainda ali existentes, pois o grosso da tiragem já tinha sido preventivamente enviado para os assinantes da Colecção, antes de seguir para as livrarias…

26Era o período nevrálgico em que a guerrilha dos movimentos independentistas progredia no interior e, na capital, o livro de contos Luuanda, de Luandino Vieira (prisioneiro no Tarrafal) fora distinguido com o Prémio Mota Veiga por um júri que integrava dirigentes da Sociedade Cultural de Angola. Este facto foi assim registado num extenso relatório da PIDE de 16 de Setembro de 1965:
Em 1964, serviu ainda a sede da SOCIEDADE CULTURAL DE ANGOLA para reunião do júri que, irregularmente, atribuiu o prémio “MOTA VEIGA” ao livro intitulado “LUUANDA”, da autoria de LUANDINO VIEIRA, obra que se integra na problemática desnacionalizante da literatura negro-africana (ou negritude) que a referida Sociedade fomentava desde 1957.
27A sul, no Lubango, a Gráfica da Huíla imprimia, em Dezembro de 1964, o caderno n.º 69 da “Colecção Imbondeiro”, com um trabalho de Luandino Vieira, que seria o primeiro de 1965, quando a PIDE invade a tipografia, apodera-se do papel já impresso e do próprio chumbo da composição, e, não bastando, estende a sua acção às instalações da “editora”, onde apreende toda a documentação, literária e comercial, existente no escritório, incluindo textos inéditos.
28A ‘aventura’ de Imbondeiro chegara ao fim. Mas o Verbo ainda estava na primeira conjugação…
29Junte-se, para a memória desse período, o facto de aquele livro de Luandino Vieira ter merecido, no ano seguinte, o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (a seguir extinta após a sua invasão por legionários), e de a Sociedade Cultural de Angola ser também extinta por Portaria de 5 de Março de 1966 do Governo de Angola. Era governador Silvino Silvério Marques e ministro do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha.


 Leonel Cosme


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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Welwitschia Mirabilis






"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto

(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)





Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se precisamente no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas,  descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), que se tinha deixado encantar pela natureza africana a ponto de só a ter abandonado quando foi vítima de maleitas tropicais.que se encontra precisamente no deserto do Namibe. O nome foi dado em homenagem  a Friedrich Welwitsch (1806-1872) seu descobridor e criador de um género novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.

A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Possui um caule duro, do qual saem duas folhas, que crescem lentamente, esfarrapando-se nas extremidades, a um nível rasteiro. Parece apenas um monte de fibras secas e velhas, mas apesar de desarrumada e descolorida, é um fenômeno da natureza. Trata-se do prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.

Para além de Welwitsch, outros naturalistas têm se interessado pelo estudo da  Welwitschia sendo um deles o português Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor de Botânica na Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor dessa universidade), que, igualmente enfeitiçado por África, levou a cabo três expedições ao Deserto do Namibe solo  a fim de estudar a respectiva flora. Na última delas, em pleno deserto, perto de uma Welwitschiae, faleceu vítima de ataque cardíaco. O local da sua morte, o morro do Kane-Wia que os povos indígenas mucubais dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.

 O Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (Mukubais)  nada tem a ver com o Tchitundo-Hulu, um outro morro do Namibe. Sobre ele Namibiano Ferreira escreveu um interessante testo que transcrevo a seguir:

«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”.  Fim de transcrição.

MariaNJardim