Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Assassinado do explorador francez Alexandre Laurient, enquanto estudava o curso do rio Cunene, em 1874








José Pereira Nascimento, médico da Armada, in "Explorações Geográficas e Mineralógicas no Distrito de Mossamedes, 1894-1895, relata in Portugal em Africa, revista scientifica, Volume 5. 1898,  a pg 36, a morte do malogrado explorador francès, enquanto estudava o curso do rio Cunene

"... Pela presença de algumas latas de sardinha de Nantes, reconheci ser ali que foi assassinado o explorador francês Alexandre Laurient  que em 1874 estudava o curso do Rio Kunene . Segundo o tesmunho de alguns pescadores da Bahia dos Tigres , a morte do malogrado explorador, passou-se da seguinte forma: Laurient partiu de Mossamedes a pé e só, recommendado a um pescador dos Tigres, a quem pediu dois servicaes para o servirem durante a exploração do rio. O portuguez cedeu-lhe os pretos, mas avisou-o de que era perigoso viajar com pouca gente, principalmente sendo serviçaes contractados, que fogem logo que se encontram longe dos patrões, sendo pouca a confiança que n'elles depositava; aconselhavao a voltar a Mossamedes ou a Porto Alexandre, onde facilmente arranjaria negros livres do Koroka, já. habituados a prestar serviços aos brancos, e recommendou-lhe que levasse rancho para elle e para os pretos, sendo certo que elles o abandonariam, logo que lhes faltasse o sustento. A isto respondeu Laurient que tinha confiança na sua arma para matar caça e para conservar os pretos em respeito e obediencia. Partiu o explorador com cega confiança na arma e pequena quantidade de provisões, quanto podiam conduzir dois carregadores. Quando acabava o rancho, mandava um dos servicaes ä. casa do pescador para lhe conduzir novo fornecimento, quasi exclusivamente composto de sardinhas de Nantes. De uma vez os pretos descontentes por falta de comer, e por serem obrigados a fazer constantes viagens á. bahia dos Tigres, além do variado serviço a que os obrigava o explorador resolveram fugir na occasião em que não havia rancho, nem apparecia caça. Laurient, desconfiado do plano de fuga, ameaçou-os de morte e de arma apontada para um d`elles obrigou-o a marchar para a bahia dos Tigres em busca de novas provisões. O preto partiu, mas deixou-se ficar escondido no canniço e pela calada da noite, quando o explorador dormia, voltou, tirou-lhe a arma e varou-lhe o tronco com um tiro pelas costas. Sabido o caso pelo outro preto, partiu para o Kunene um grupo de pescadores, entre elles o que tinha emprestado os serviçaes; enterraram o cadaver, recolheram os seus papeis e prenderam o assassino, que foi julgado e condemnado a degredo. Os papeis, a arma e os seus instrumentos foram entregues ao Governador de Mossamedes, ignorandose o fim que levaram. Como homenagem aos trabalhos d'este corajoso explorador, sacrificado aos interesses da sciencia e da humanidade e assassinado em territorio portuguez, entrei em diligencias afim de saber o paradeiro das suas notas e cartas para as fazer chegar ao conhecimento do mundo scientifico. Deixando aqui consignado o testemunho de respeito de um modesto peoneiro portuguez ä. memoria do infeliz Alexandre Laurient prosigo na minha narrativa."

Fim de transcrição.


https://books.google.pt/books?id=y-czAQAAMAAJ&printsec=frontcover&dq=Portugal+em+Africa:+revista+scientifica,+Volume+5&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjS1oG3g4bdAhUFfxoKHdRFBbMQ6AEIKDAA#v=onepage&q=baia%20dos%20tigres%20revista%20scientifica%2C%20Volume%205&f=false

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O Governador Fernando da Costa Leal e a planta da cidade de Moçâmedes


 A mais antiga gravura da "vila de Mossâmedes"




Já o autor (anónimo) do livro "45 Dias em Angola", publicado em 1862, assim referia: "Villa moderna  (…) uma das mais belas das possessões africanas..."

Moçâmedes não nasceu como uma povoação caótica, ela foi tão cedo quanto possível concebida e delineada no papel, pelo jovem e dinâmico Fernando da Costa Leal (1854-59), o seu 5º Governador, que desde que tomou posse do cargo, em 26 de Fevereiro de 1854, foi seu primeiro cuidado apresentar uma planta topográfica para a povoação, com ruas largas traçadas em linhas rectas, com travessas alinhadas, em paralelismos geométricos, à boa maneira pombalina, que desde logo imprimiram à futura cidade uma fisionomia característica. E Costa Leal foi mesmo levado a animar os colonos a construirem prédios de agradável aspecto, para evitar o desalinho de que era exemplo a caótica Luanda, onde logo de início não cuidaram de tratar de lançar um plano geral de obras.

Com Fernando da Costa Leal Moçâmedes ergueu-se rapidamente, e os colonos passaram a substituir as primitivas habitações por outras mais cómodas e de melhor aspecto.

O mesmo autor do livro "45 Dias em Angola", revela-nos que as primitivas habitações dos colonos de 1849 e 1850 eram, como no resto da Provincia, construídas por tungas e barro com ramos de palmeiras a servirem de cobertura, e ofereciam um aspecto humilde e depreciativo à nóvel povoação.

“Pobres choupanas” assim lhes chamou Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil), chegada a Moçâmedes em 1849. Davam a impressão de "acanhamento e miséria" uma vez que a disposição do conjunto seguida nesses anos que decorreram desde 1840 a 1849, não fora submetida a um plano conveniente,  e "causavam desagrado natural, dispersas ao acaso num censurável desalinho".  Inda assim, por decreto de 26 de Março de 1855, e por carta régia expedida a 7 de Maio do mesmo ano, Moçâmedes subiu à categoria de Vila.

De harmonia com a  planta topográfica da povoação delineada pelo Governador Fernando da Costa Leal,  surgiu  um amplo espaço paralelo ao mar, reservado à futura Avenida, que durante décadas esteve preenchido com barracões (a futura Avenida  D. Luis, e desde 1910, a Avenida da  República). Surgiram 3 ruas  largas, a Rua da Praia, mais tarde  Rua da Praia do Bonfim; a Rua dos Pescadores, em seguida Rua  Presidente Sidónio Pais, porém mais conhecida pela antiga designação;  e ainda a Rua do Alferes, depois Rua das Hortas, e a Rua Luz Soriano. Estas 3 ruas eram cruzadas por outras tantas travessas que segundo um documento da época tiveram a designação de Travessa do Mangericão,  Travessa das Pescarias e Travessa de Santo Antonio.

Quase todas as habitações da Praia (assim chamavam Moçâmedes) são descritas como tendo pátios, onde se plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quais se abriam cacimbas (pequeno poço), cujo revestimento interno é formado com barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, de onde tiravam a água para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Fernando Leal tentou erguer a povoação mais a poente, na Torre do Tombo,  onde as areias são menos abundantes. Mas a comodidade do desembarque e ainda o receio que a água ali faltasse determinou a preferência pela parte baixa.

Foi também o Governador Fernando da Costa Leal quem mandou abrir a primeira estrada da região, e quem ordenou as obras da continuação e conclusão da Igreja, cujos trabalhos de haviam começado em 1849, mas foram suspensos pouco depois, e continuados em 1854, sob seu plano e direcção, e que foram rapidamente concluídas.  Este dinâmico Governador também mandou erguer a Fortaleza de S. Fernando no local do antigo Forte, sobre o rochedo que domina a baía, e foi quem melhorou e levou a cabo a construção do primitivo Hospital, e determinou a edificação do Palácio do Governo, (um dos mais bonitos do Ultramar português), além de várias casas para serviço público. Também mandou construir o edifício da Alfândega.

Porém, e apesar dos seus méritos, o Governador Fernando da Costa Leal vinha sendo acusado de  uma pessoa excessivamente autoritária, que ao pároco da terra fez embarcar à força para Luanda, suspendeu o exercício ao sub-delegado da comarca, procedimento confinado ao próprio Governador Geral.  A prepotência de que lhe acusavam os colonos de Moçâmedes levou à formação de um grande partido contra a sua governação De entre as acusações contam-se obstáculos de ordem económica, peias no giro normal das actividades, empecilhos por supostas violações de direitos. 

O descontentamento levou a petições dirigidas a Luanda e à Metrópole, até que em 27.02.1866 o povo amotinou-se, dirigiu-se à Câmara, obrigou a maioria dos vereadores a uma reunião que se manteve permanente até que Fernando da Costa Leal decidisse entregar o Governo a um Conselho da escolha dos populares. Na petição à Câmara o Governador é acusado de ignorar as leis, e de tudo subordinar ao seu livre arbítrio, e perante a exigência da turba, a Câmara Municipal (vereação) dirigiu-se ao Palácio onde Leal ter-lhes-ia dito nomeassem quem o substituísse, mas acabou por negar a entrega do Governo aos populares. Voltou a vereação a confrontar-se com o Governador, que finalmente cede e  abandona o Palácio, prometendo embarcar no brigue "Maria" que os populares fretaram, no prazo de 48 horas.

Eis algumas passagens desse documento existente no Arquivo Municipal, datado de 27 de Fevereiro de 1860, e assinado por 33 signatários :

«Estamos cansados» de «representar tantas e repetidas vezes, já ao Governo da Província, já ao Governo do Reino, já às Cortes de conformidade com as leis que nos rege, acerca das muitas arbitrariedades e injustiças, constantemente praticadas pelo Governador Fernando da Costa Leal, durante o tempo que tem administrado o Distrito; de não termos sido atendidos em nossos justos pedidos; de não nos ter sido reconhecida a utilidade do direito consignado e garantiso pelo disposto no parag 17 do artº 145 º da Carta Constitucional, visto não ter dito dada até agora a devida e urgente atenção às nossas queixas» . 

(...)
«Pretendemos» por tais motivos, «pedir a intervenção da Câmara para fazer constar ao senhor governador Fernando da Costa Leal que, lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto: «se não nos governar bem, escolheremos outro melhor», não o queremos mais um momento governador do Distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para o que estamos todos dispostos». E a representação termina textualmente: «É isto que respeitosamente vos pedimos, Senhores Vereadores deste Municipio, é esta a expressão de todo este Povo». Fim de citação.


Como resultados imediatos foi nomeado um governo provisório para a deposição do Governador. É o próprio Governador que em resposta, sugerira à Câmara que nomeasse quem o substituísse ou que de novo representasse ao Governo-Geral ou ao de Sua Majestade, tendo a Câmara deliberado unânimemente que o Governador entregasse o Governo, desde logo, a um Conselho composto dois seguintes vogais:


-O Juiz de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário;
-O Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Subdelegado do Julgado;
-O Secretário actual do Governo;
-O Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda Pública;
-O Oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores Nº 3;
O Pároco da Freguesia;
Manuel Fortunato de Couto Aguiar;


Mas iria dar-se um "volte face" na situação que veio perturbar a  administrativa distrital. 
O novo Governador, Francisco António Cardoso Gonçalves, conhecendo a ocorrência, seguiu para Moçâmedes no vapor "Infante D. João", acompanhado por Fernando da Costa Leal, restabeleceu a disciplina e a autoridade, dissolveu a Câmara, substituiu a comissão administrativa presidida por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

O Governador Leal depois de ter deixado Moçâmedes, na sequência dos acontecimentos descritos, voltou em 1866 a ocupar o lugar de Governador.  

 Na realidade, e não obstante estivessem presentes durante o seu «reinado» desinteligências entre a primeira Câmara de Moçâmedes e o Governador, como refere Manuel Júlio de Mendonça Torres, no seu livro "Moçâmedes", Fernando Leal era autoritário e violento, mas, ninguém pode negar que era também um espírito inteligente e activamente empreendedor. A sua acção administrativa foi de indiscutível utilidade para o Distrito. «As contendas entre os antigos colonos e o Governador Fernando da Costa Leal nasceram das medidas arbitrárias da Primeira Autoridade do Distrito, constantes da representação dirigida ao Rei pela Câmara pelo Povo, a que se refere a acta de sessões municipais de 27 de Novembro de 1857, a páginas 74v.º:- «prisões sem culpa formada, deportações, espancamentos, intervenções nos actos legais da Câmara», etc. Tudo isto constituía para a Câmara e para o povo o jugo de ferro com que o Governador do Distrito os oprimia há mais de quatro anos e que eles (Câmara e Povo) não podiam mais suportar».

Com a saída do Governador Fernando da Costa Leal de Moçâmedes, em consequência da tomada de posição da população, acabaram as desavenças, e passados anos, com a dissipação de ódios e ressentimentos, a Câmara e o Povo reconheceram os serviços do Governador, dando o nome de Praça Leal a uma das mais concorridas da cidade, e mandando a Vereação de 1903, da presidência de Serafim Simões Freire de Figueiredo, executar e colocar no salão nobre dos Paços do Conselho, o busto em tamanho natural, pintado a óleo.



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Com o título "Um Motim em Mossâmedes no ano 1966" podemos ler um texto assinado  por José Manuel da Costa que foi adminstrador da Circunscrição de 1º classe, antigo Governador dos Distritos de Mossâmedes e do Bié;  antigo Chefe de Serviços de Colonização de Angola..


Eis o texto: 

"Um Motim em Mossâmedes no ano 1966"

Fernando da Costa leal, Major do Estado Maior de Engenharia, foi um frande Governador no Sul de Angola, e uma figura principal da nossa acção colonizadora,, a quem a perecária gratidão dos povos apenas consagrou a melhor praça de Mossãmedes, e um retrato a óleo na sala nobre dos Paços do Concelho. 
No seu primeiro governo, Fernando da Costa leal impulsionara fortemente  a recente fundação da vila de Mossâmedes, que foi traçada em rectas à boa maneira pombalina. A ele se deve a construção da Alfândega, da fortaleza de S. Fernando, da Igreja, do Palácio Velho, um dos mais bonitos do Ultramar Português, e de várias casas para os serviços publicos.; a ele se deve o reconhecimento da foz do rio Cunene, que muitos supunham um afluente do Zambeze;  a ele se deve a ocupação da Huila e dos Gambos, tendo conseguido arrastar, pelos caminhos ásperos da Serra da Chela a primeira peça de artilharia. Finalmente a agricultura e a industria da incipiente Colónia de Mossâmedes deveram-lhe um paternal e decisivo impulso.  

Parece porém que este homem de vasto saber,  de rasgada iniciativa e de rara tenacidade, era de fortes paixões no bem-querer e no mal-querer,  e assim conseguiu que o rancôr de alguns funcionários por ele rudemente castigados, contaminasse a população, formando-se contra o governador um grande partido.

Não esqueçamos que Leal era duro no castigar. Ao pároco de Mossãmedes fez embarcar à força para Loanda; ao sub-delegado da comarca suspendeu-o do exercício , nomeando outro para o cargo,  procedimento arbitrário esse que foi conformado pelo Governo Geral, mas com pública censura a quem exorbitava.

Muitos eram, portanto, os atingidos pela mão pesada do Governador, e de tantos descontentamentos resultaram várias representações para Luanda e para a Metrópole, representações nunca atendidas e que cada vez exasperava mais os seus adversários. 

Até que a medida transbordou... Puderam mais as paixões que a razão, e no dia 27 de Fevereiro de 1866, o povo amotinado dirigiu-se à Câmara Municipal, obrigando a maioria dos vereadores a reunir-se, pela uma hora da tarde, e a manter-se em sessão permanente  até que Fernando Leal fizesse a entrega do governo a um conselho escolhido pelos populares.

Na representação entregue à Câmara acusava-se o governador de ser ignorante das leis, subordinando tudo ao seu puro arbítrio:-  «Tem negado justiça que se tem pedido; têm negado terrenos que indivíduos tem ido descobrir, e lhe têm pedido, pondo assim dificuldades à propriedade agrícola, quando devia promovê-las;  têm negado licenças para se medirem terrenos,  fazendo com que de futuro se compliquem questões agrícolas, por causa das extremas."

Vêm depois alguns casos isolados que não vale a pena relatar, e a exposição termina assim:  "Aqui vimos hoje pedir-vos a vossa intervenção,  que é para fazerdes constar ao senhor Governador Fernando da Costa Leal, que lembrados como os nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto "se nos não governar bem, escolheremos outro melhor", que não o queremos mais uma hora nem mais um momento governador deste distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos, e para o que estamos todos dispostos. É isto que respeitosos vos pedimos, srs vereadores deste município; é esta a expressão de todos este povo. »

Perante a atitude daquela turba, que invadiu a Câmara Municipal, a maioria da vereação dirigiu-se ao palácio onde Fernando Leal ter-lhes-ia dito que representassem a quem de direito ou que nomeassem quem o substituísse.  Foi esta, pelo menos, a resposta transmitida aos populares, que logo se agarraram a ela e passaram a eleger o Conselho do Governo que ficou assim constituido: o Juiz de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário; Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Subdelegado; o Secretário do Governo; o Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda; o oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores 3; o Pároco da Freguesia e Manuel Fortunato de Couto Aguiar.

Seguiram os vereadores  a dar conta da resolução do povo soberano ao governador que encontraram em conferência dom os Chefes de serviço, como hoje dir-se-ia, e com os substitutos dos magistrados judiciais  em exercício, e ali na presença de todos, intimaram-no a entregar o governo ao Conselho, embora não pudessse constituir-se com todos os seus membros. 

Fernando Leal negou que disse que entregaria o governo a quem os populares indicassem,  "porquanto sendo nomeado Governador por Sua Majestade, não poderia entregar o governo se não a quem legalmente o viesse substituir.

Voltou, pois, a Câmara a falar ao povo ; a comédia representada pela Câmara ainda não terminara e só acabaria com a saída  de Fernando Leal do Governo.  É em vão que ela protesta a sua mágua pelos sucessos, e a sua estranheza a eles. Em vão ela mostra empregar todo o seu prestígio sobre os amotinados, procurando chamá-los à razão.  Através dos documentos do tempo, vê-se que a atitudee da maioria da vereação era de refalsada hipocrisia, como foi a dos membros do Conselho do Governo, ao tomarem posse dos seus cargos. 

Faltou à vereação coragem para novamente confrontar-se com o homem, que aliás deveria sentir-se abandonado de todos,  sabendo que a própria força pública não obedeceria às suas ordens. 

Foi então uma comissão de cinco populares intimar novamente o Governador a comparecer na Câmara e a fazer a entrega do Governo, enquanto a vereação, no dizer da acta, "permanecia como testemunha passiva e obrigada  dos actos que o povo pretendia consumar, e que ela, muito solenemente declarava reprovar, afastando de si, como corporação legalmente constituída, toda e qualquer responsabilidade que só  sobre os perpretadores de tal acto  pudesse recair."»

Por fim Fernando Leal cede.

O que se passaria no ânimo forte desse homem quando abandonou a residência  e foi defrontar-se com a multidão dos seus inimigos?  O certo é que as cousas decorreram com serenidade, e aquele que o despeito e a traição entregavam à sanha dos populares, foi respeitado. 

É ele ainda, o vencido do momento, quem dita a sua vontade exigindo que se escreva ser falso ele ter dito à vereação que entregaria o Governo a quem o povo indicasse, que só ali estava coacto, e que só coacto abandonava o seu lugar, prometendo embarcar no brigue mercante Maria, que a população fretara para esse fim, no prazo de 48 horas. 

Ficou o  Conselho do Governo Provisório constituído pelo juiz ordinário Francisco Ponces de Leão, pelo sub-delegado João Ferreira Duarte Leitão (que aliás fora proposto pouco tempo antes pelo Governador), Francisco José de Almeida, escrivão da Delegação da Junta de Fazenda, Jacinto António Cordeiro da Silva, capitão de Caçadores n. 3, e Manuel Fortunato do Couto Aguiar, advogado. 

Com que contavam estes governantes?

Presumo que com a complacência do Governo Geral, ao tempo confiado a um Conselho de Governo  que não tinha por Leal muita simpatia, como demonstra   a publicação no Boletim Oficial , poco tempo antes duma censura em forma acerca do caso atrás referido, da supensão do sub-delegado então em exercício de Delegado da Comarca.

Mas a face das coisas mudara.

Em 19 de Março chegara a Luanda o Governador Geral Francisco António Cardoso Gonçalves, homem cujas tradições de coragem e de energia vinham dum acidentado e torvo governo de Macau, donde saiu coberto de louros e de bençãos.

Mal teve conhecimento da ocorrência não se demora em Luanda. Na mesma corveta a vapor Infante Dom João vem a Mossâmedes, acompanhado do Governador deposto. Aqui restabelece a disciplina e o prestígio da autoridade; dissolve a Câmara, fazendo-a substituir por uma Comissão Administrativa presidida pelo venerando chefe da colónia, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (1); suspende o Secretário  do Governo, Pedro Vasques Martins da Silva, demite o capitão do porto e o tesoureiro da Alfândega, nomeando para esses cargos José Júlio Zuzarte de Mendonça (2); e finalmente, prende e conduz para a capital da provincia, na corveta em que regressou,  chegando no mesmo mês a 31 de Março, as cabeças do motim Jacinto António Cordeiro da Silva , capitão de Caçadores n. 3, e os tenentes do mesmo corpo Pinto da Guerra, o Capitão do porto Santos, os comerciantes Pinto da Rocha (1), Costa Roxo, João Maria de Moura, os advogados Manuel Fortunato do Couto Aguiar e Francisco de Torre Prado, o guarda-livros Guilherme Augusto Praice  e o agricultor Clemente de Andrade.

E assim terminou, graças à energia e prontidão  com que o Governador-Geral recém chegado  que acudiu à emergência, um motim em Mossâmedes, no ano de 1866, continuando Fernando da Costa Leal  a sua fecunda administração, à qual um dia espero fazer larga e merecida referencia. 

Mossâmedes, Maio de 1928

José Manuel da Costa

Retirado Boletim Geral das Colónias . IV - 040
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. IV - 40, 1928, 254 pags.


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 (1) Pinto da Rocha. A saber, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha era agricultor em Moçâmedes, e possuia armações de Pesca, vem relacionado com comissões e consignações, géneros coloniais e peixe, e ainda com uma padaria em igualmente em Moçâmedes, conf. Anuários de 1908/1909.
- FRANCISCO RODRIGUES PINTO da ROCHA - Professor(Régio) em Mossamedes(Angola),1908
- FRANCISCO PINTO da ROCHA - Armações de Pesca, Agricultor,Commissões e Consignações, Generos Coloneais e Peixe,Padaria em Mossamedes,1908

(2) José Júlio ZUZARTE DE MENDONÇA(*) era filho ilegítimo de Honorato José ZUZARTE DE MENDONÇA (1817-1885),  nasceu em 14.12.1847  e faleceu em  1911 em Moçâmedes, Angola. Mãe : Perpétua n. 1820.  Seu pai quando partiu em 1857 no brigue Veloz para Moçâmedes, levou-o consigo. Em Moçâmedes  José Júlio, licenciado em Direito, foi Juiz de Paz, e foi Administrador da Alfândega e Comandante do Porto. É referido na obra "Sangue velho, sangue novo" como José Júlio de Zuzarte de Mendonça.
 Conforme "Boletim Official do Governo Geral da Provincia de Angola", ano de 1875, vários números,  o último documento oficial  por José Júlio assinado como administrador da Alfândega de Moçâmedes data de 31 de Julho de 1875, e o primeiro como Capitão do mesmo Porto de 31 de Agosto de 1875.  Estranhamos esta última data porquanto José Júlio Zuzarte de Mendonça fora nomeado para o cargo na sequência do motim levantado em 1866 pela população de Moçâmedes contra o seu Governador, Fernando da Costa Leal, e este, com o apoio do Governador Geral resolve punir os revoltosos exonerando-os dos cargos que ocupavam, inluso levando-os presos para Luanda,  como foi o caso dos cabeças do motim Jacinto António Cordeiro da Silva , capitão de Caçadores n. 3, e os tenentes do mesmo corpo Pinto da Guerra, o Capitão do porto Santos, os comerciantes Pinto da Rocha, Costa Roxo, João Maria de Moura, os advogados Manuel Fortunato do Couto Aguiar e Francisco de Torre Prado, o guarda-livros Guilherme Augusto Praice  e o agricultor Clemente de Andrade.
 
Para saber mais, consultar:

http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-jose.htmlhttp://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-
jose.html






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Em tempo:
Falar de Pinto da Rocha, comerciante, como integrando o movimento contra Costa Leal não nos admira, porquanto sabemos que 
 Convém ter em conta que Moçâmedes, fundada em 1849, num século em que a maçonaria penetrou em força em Portugal, e teve em Angola a sua representatividade através das célebres "Kuribekas angolanas", não pode fugir a esta realidade. "Kuribeka" eram um importante grupo de poder como instituição organizada, cujas ideias  tomaram corpo após a independência do Brasil (1822),  pelo menos desde 1860, manifestando-se contra o Portugal metropolitano e castrador, com o objectivo de obterem, primeiro uma autonomia, depois a independência, como atestam os vários documentos históricos, embora a actual historiografia angolana tenda a ignorar, preferindo olhar os brancos em Angola como meros e passivos agentes do colonialismo.

A  militância nos ideais republicanos veiculados pela maçonaria floresceu em cidades  angolanas, primeiro em Luanda, mas com mais intensidade em Benguela, Catumbela, Huila e Moçâmedes. Nestas cidades despontou  uma burguesia branca que se via cerceada por condicionalismos de toda a ordem que a impediam de se expandir social, politica e economicamente. Essa mesma burguesia desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações o que só por si já representa um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal. Aliás Kuribeka significa “apresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado . Foi criadora de uma imprensa de brancos radicais.  Algo fugaz desde logo cerceado pela oligarquia colonial, residente em Lisboa.   A burguesia angolana era, fundamentalmente mestiça, incluindo uns muito poucos brancos e alguns negros. Também por esta altura as fronteiras de Angola ainda não estavam definidas.

 MariaNJardim 
 

sábado, 18 de agosto de 2018

Uma atribulada «ida na mahanja»

Aquando do êxodo dos retornados vindos de Angola, a confusão no aeroporto da Portela, era aquela que as pessoas com mais de 50 anos estão lembradas.

O aeroporto de Lisboa regorgitava de gente.  A ponte aérea entre as colónias do Ultramar e a Metrópole, funcionava em pleno com aviões de muitas nacionalidades despejando homens, mulheres e crianças de todas as idades, brancos e pretos, novos e velhos, numa amálgama de pessoas de que não havia memória na história contemporânea em tempo de paz (se é que o mundo, desde que é mundo, alguma vez conheceu a paz), gente apreensiva com relação ao futuro que os esperava, e traumatizados pelo desfazer do sonho angolano que os embalou durante toda uma vida.

Numa das muitas viagens dos aviões que descarregavam gente, apreensão e décadas de muitos sonhos desfeitos,  num total de mais de quinhentas mil pessoas, veio o RC com a família formada, por mulher, criançada e avó negra,  por afinidade.

 Naquela confusão de gente que chegava e de gente que vinha ver quem chegava, enormes filas para identificação, para trocas de cinco contos de cá por cinco contos de lá, por pessoa, para inscrição no IARN,  (Instituto de Apoio ao Regresso de Naturais), para a burocracia, etc. tudo com muita espera de muitas horas, à anciã, depois de muitos apertos, deu-lhe vontade de urinar, e, não suportando mais aguentar a necessidade fisiológica,  disse para as netas:

Meninas, vão perguntar aí, onde a gente faz chi-chi.

A criança foi, demorou-se algum tempo, e trouxe o recado:
" É ali, avó, ao fundo do corredor, vira à direita, anda um bocadinho e encontra uma porta com um boneco a imitar uma mulher. É aí."

A velha desconfiada resmungou:
"Um boneco? Mas eu quero é mijá! Olha eu vou mazé na mahanja. Ucês me acompanha na minha trás, o resto fica a tomar conta das nossas bicuatas enquanto o Gerinho não aparece. Mas fica de olho bem aberto para ninguém não roubar, porque aqui tem muito granco e também muito ladrão."

Netos e avó de mãos dadas serpentearam por entre as pessoas e bagagens, sairam do aeroporto, andaram sem tino e, quando a claridade das luzes ia sendo vencida pela escuridão da noite, as  crianças iam ficando para trás, e com medo regressaram para a confusão.

A velha com aquele ar cansado que lhe dava o carregar com setenta e alguns anos e muita ralação, mais o zonzear da viagem do avião, lá foi à procura do capim alto que era onde ficava a mahanja.

Fez o que tinha a fazer, ficou aliviada, mas não deu com o caminho do regresso, perdeu-se, e depois de muito tentar regressar, foi encontrada pelos seguranças do aeroporto, que a entregaram ao posto da polícia mais próximo, ali para os lados do bairro das Galinheiras.

Começou o interrogatório:

- Você veio donde:
-De Moçâmedes.

-Veio na ponte aérea?
-Não veio, não siô, veio não avião.

-A dona é retornada?
-Não siô.

-Veio do Ultramar?
-Não siô.

-Então veio das colónias?
-Também não.

-Então veio de onde?
-Aka, eu já disse, eu veio de Moçâmedes.

-Onde fica isso?
-Perto da Praia Amélia.

-E a Praia Amélia?
.-Antes ou depois de Moçâmedes, conforme. Ucê conhece?

-Os guardas eram pacientes, entreolharam-se e continuaram.
-Sabe onde mora?
-Na Torre do Tombo.

-Se a levar para lá a Dona sabe dizer onde é a sua casa?
-Pois claro que sei.

Era um caso simples de resolver. Os agentes policiais meteram-na no jeep, seguiram pela Alameda das Linhas de Torres, passaram pelo estádio de Alvalade e pararam perto do edifício do arquivo da Torre do Tombo, em  Entrecampos.

-É por estes lados que você mora?
-Aka! Eu já disse que mora na Torre do Tombo e aqui não é Torre do Tombo que eu conheço muito bem. Ainda nem passou nem o Palácio, nem a Igreja, nem a loja do Carumbemba, como é que aqui é Torre do Tombo?

Os agentes conferenciaram e acharam melhor regressar. Contaram ao Cabo, comandante do Posto o acontecido e este por sua vez,  chamou a assistente social que estava mais vocacionada para estes casos, que ele diagnosticou de perda de memória ou demência degenerativa, própria da idade da anciã.

Tiraram a identificação, aboletaram a senhora na Pensão Luanda, da Almirante Reis que tinha contrato com o IARN, e garantiram gelidamente, como só os polícias sabem fazer.

- Olhe, não falei com o dono da Pensão,  a Senhora vai pernoitar aqui e amanhã continuamos a procurar. Está bem ?
- Não esperaram pelo assentimento da idosa e remataram:
-Então, até amanhã.

Dois dias depois apareceram os zeladores da ordem e da lei. Prosseguiu o interrogatório com outro interlocutor, uma moça jovem que depressa foi posta ao corrente da situação. Querendo ser simpática para cativar a idosa, começou o interrogatório no sitio onde os seus colegas tinham ficado:

-Então avó, se não sabe onde mora, sabe ao menos quem são o seu marido, filhos, netos?
-A velha mete o dedo indicador por dentro do lenço que cobre a cabeça, e coça a carapinha branca, dizendo com ar de enfado:
- Pra já ucê não é minha neta, o meu homem já morreu faz tempo, e o meu neto de leite se chama Gerinho. Ucê pergunta aí a qualquer pessoa que toda a gente o conhece.

-Onde trabalha o teu neto Gero?
-No Caminho de Ferro.
-No Caminho se Ferro dos comboios?
-Esse mesmo,

Suspiraram de alívio. As coisas estavam-se a compôr. Meteram a velha de novo na parte de trás do Jeep , atravessaram Lisboa de lés a lés,  em hora de ponta, e quando a viatura afrouxou a marcha, em Santa Apolónia, ela subitamente despertou, levantou-se e gritou, de dedo em riste:

-Pára, pára, é aqui mesmo. Tá ali a casa do sô Radich!
-Quem é esse Radich ou lá o que é?
-Já morreu faz tempo. Bom homem esse. É marido da Dona Beatrizinha, irmã do Sô Caleres do Banco, que casou com a Dona Branca, irmã do Patalim, e as filhas se chamam...

-Chega, chega, poça! Como é que se faz para calar esta velha, oh nosso Cabo? explodiu o motorista, engrenando a primeira e arrancando de esticão.

Bem, andaram com a velha por toda a Lisboa, de Jeep, atrás de pistas falsas durante dezassete noites,  a rádio fez apelos e a televisão passou fotografias e abordou com desenvolvimento aquele estranho desaparecimento da idosa retornada no noticiário das oito.

Após tantas notícias e apelos cruzados da polícia e do RC, este apareceu no posto policial afogueado, e abraçando-se à avó,  quase chorando recriminou:

-Então avó, isto faz-se? Toda a gente ficou em cuidados e não sabíamos mais o que fazer.
-Não precisava. Olha lá, e tu só agora é que apareces, não é? Disse ela, calmamente, agarrando nas coisas que a assistente social lhe tinha dado. Agradece à menina que faz muita pergunta pra nada e também a esses tchinderes que não estão bons da cabeça e que me levaram a passear por tanta rua esquisita.

-Ah!, e explica a eles onde fica a Torre do Tombo!


-E, de repente, fixando o neto, perguntou:
-É verdade, olha lá, como é mesmo como se chama as filhas da D. Beatrizinha, mulher do Radich da Alfândega. irmã do Sô Caleres, que é do Banco, que casou com a D. Branca, irmã do Patalim?


Fim

(Do caderno de memórias Contos Breves de Escárnio e Maldizer, de Mário Lopes.)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A literatura e as guerras em Angola. No Princípio Era o Verbo



Texto integral

1Se não for por catarse, diga-se que a tão repetidamente evocada Guerra Colonial de 1961-74 foi simplesmente a última das muitas guerras que se seguiram à primeira, travada entre as hostes de Paulo Dias de Novais e Ngola Kiluanje, em 1575. De facto, com a segunda chegada de Diogo Cão, em 1484, e o seu relacionamento com o Mani-Soyo, ainda se poderá falar de “colonização missionária” (expressão eufemística de Adriano Moreira para caracterizar toda a colonização portuguesa…), de tal modo foram cordiais e de interesses recíprocos as relações entre portugueses e angolanos. Depois, foi o que é consabido: o tráfico de escravos e a busca de ouro e prata formataram as relações e os interesses ao ponto de nem os missionários escaparem à tentação da riqueza – lembrem-se os padres dos Lóios.

2Só do primeiro tempo em que o adjectivo colonial ainda remetia para o étimo latino colonus (o que cultiva a terra em lugar do seu dono) se poderia dizer, parafraseando a Bíblia, que No Princípio era o Verbo, porque a confiança na Palavra dita e os actos consequentes faziam jus ao pensamento de Santo Agostinho, um milénio antes, de que o tempo é o espaço onde decorrem as coisas. Mas já antes Cícero advertia: o tempora! O mores! E como se viu até aos nossos dias, os interesses, as práticas e os costumes, pese embora a primeira Palavra, mudaram o espaço e o tempo, até que…

3por fim, a Palavra transbordou como componente de um vulcão adormecido, que depois entra em erupção: primeiro magma, depois lava. Tal como na natureza humana: primeiro, conformação, resignação, esperança; depois, inconformidade, protesto, luta.

4No caso, todavia, em duas vertentes: uma, que se reportava aos interesses do colonizador; outra, do colonizado – gerando (até 1961…), no dizer de Mário António, a respeito de alguns textos questionáveis contidos na revista Mensagem, “um caldo de ambiguidades”.

5Esse “caldo”, enquanto palavra escrita, está já presente nos primeiros jornais que se fundaram em Angola, a partir de 1866 (o primeiro arremedo de informação começou em 1845, com a criação pelo Governo do Boletim Oficial). Até então a escrita, já literária, fazia-se num Almanach de Lembranças Luzo-Brasileiro e nos recortes que iam chegando do Brasil pela mão dos maçons estabelecidos ou degredados em Angola, como foram os implicados na Inconfidência Mineira, em 1789: José Álvares Maciel, o ideólogo da intentona, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Domingos de Abreu Vieira, Luís Vaz de Toledo e Francisco António de Oliveira Lopes, uns literatos, outros militares de carreira.
6Com a intentona que a independência do Brasil inspirou nas cidades de Benguela e Luanda, denominada Confederação Brasílica, em 1822-23, sob a égide de um dito “partido brasileiro”, constituído por brasileiros, portugueses e angolanos, saltava à vista que a narrativa da Portugalidade no futuro de Angola teria vários pronunciamentos.

7Um deles já tinha vindo de um português que integrara a colónia formada em Pernambuco, em consequência da Revolta Praieira, e que em 1849-50 demandara a região de Moçâmedes, na expectativa de substituir um Brasil em estado de revolta nativista por uma nova “Terra da Promissão”. Chamava-se António Francisco Nogueira (literariamente A. F. Nogueira), sem uma profissão definida (fora comerciante, agricultor e bancário), revelando-se durante a sua permanência no Sul de Angola como um etnógrafo autodidacta com artigos em jornais de Angola e da Metrópole e, por último, um importante livro de ensaios com o título genérico de A raça negra, publicado em 1880 em Lisboa, de que é obrigatório fixar esta passagem:

[…] E não nos impressiona a objecção de que civilizar os indígenas das nossas possessões de África é o mesmo que emancipar essas colónias. Se ao mesmo tempo que educando o Negro tratarmos de aclimar o Branco onde isso for possível este será ainda por muito tempo um apoio seguro para nós. Mas dado que afinal a colónia se venha a emancipar – e esse é o destino de todas as colónias – que devemos preferir: conservá-la estéril e improdutiva como até agora, ou convertê-la em uma nação amiga, e mesmo irmã ao menos sob o ponto de vista da civilização e dos costumes?
[…] Ora o Negro é o nosso auxiliar indispensável nessa empresa. Se civilizando-o o tivermos emancipado, nem por isso teremos deixado de conseguir o nosso fim, antes o teremos conseguido plenamente. Oxalá que a Europa, a civilização, a humanidade, nos tivessem a lançar em nosso rosto muitas dessas faltas!
8Este colono-sertanejo antecipava a visão realista de Afonso Costa quando, mudado o regime português, afirmava que “a República não vai continuar a Monarquia, no que diz respeito a processos de administração colonial”. Mas, no essencial, continuou. Três décadas depois, o jornalista José de Macedo, que durante alguns anos foi o redactor principal do jornal de Luanda Defeza de Angola, afecto à Maçonaria, de regresso a Portugal, escreveu em 1910 um livro de grande impacto, Autonomia de Angola, em que observa:
Porque é preciso que isto se saiba, que isto se diga, bem alto: em Angola há uma, embora pouco poderosa, mas em todo o caso latente, corrente separatista. Ninguém que lá tenha vivido desconhece que não só entre os indígenas civilizados (e há-os que honram o seu nome) como entre os colonos europeus, existe uma manifestação de hostilidade, que nem pelas armas, nem pela maior centralização se poderá já extinguir.
9Macedo sabia bem do que falava: em 1901 tinha vindo a lume, impresso em Portugal, um libelo escrito por destacadas personalidades angolanas, civis e religiosas, que sob anonimato verberavam as críticas racistas de um deputado português de visita a Angola. Intitulava-se esse livro Voz de Angola Clamando no Deserto, cujo primeiro depoimento – “Solemnia Verba” –, por muito apaziguador que fosse, não iludia o que subjaz à expressão latinista: Solene Advertência.
10O Verbo, a Palavra final, continuou por dizer nos anos seguintes, até ao momento em que um poeta já revolucionário, Viriato da Cruz, em 1956 defendeu o imperativo de criar um Movimento Popular de Libertação de Angola, sendo verdade que, desde antes, escritores, poetas e jornalistas já tinham assumido, em revistas e jornais, o direito inalienável a uma identidade própria, política e cultural. O Poeta Maior, Agostinho Neto, expressá-la-ia posteriormente numa tríade paradigmática: Sagrada Esperança, A Renúncia Impossível, Nós Somos!

11Em 1951, no primeiro número da revista Mensagem, da Associação dos Naturais de Angola, ainda a Cultura era um campo onde fecundavam as aspirações e germinavam os ideais:
[…] MENSAGEM será – nós o queremos! – o marco iniciador de uma Cultura Nova, de Angola e por Angola, fundamentalmente angolana, que os jovens da nossa Terra estão construindo. E porque assim é, porque é sincero o nosso desejo de auto-realização, não admitimos o preconceito, o compadrio; abominamos a hipocrisia e a injustiça; surpreende-nos a louvaminha, o elogio mútuo; desagradam-nos as meias tintas.
Batemo-nos pela Verdade, pela verdade forte, sem a verrina da agressividade mas com a justiça da nossa sinceridade; somos pelos grandes horizontes, sem nuvens, mas com a luminosidade forte do sol que nos aquece; pela generosidade dos nossos ideais, pela grandeza dos nossos Problemas. […]
12A revista durou apenas dois anos, com dois números publicados.
13Cinco anos depois, em Novembro de 1957, uma nova revista, CULTURA (II), editada pela Sociedade Cultural de Angola (já tinha existido uma primeira CULTURA, em 1942-47, de inspiração liceal irrelevante) propôs-se prosseguir e actualizar a linha editorial da Mensagem. Como se afirma no editorial do seu n.º 8, de Junho de 1959, não assinado mas sendo presidente da instituição o advogado e ensaísta Eugénio Ferreira:
Nós queremos que a Sociedade Cultural de Angola seja um organismo vivo, dinâmico na sua acção, objectivo perante os problemas da vida angolana. Um organismo despretenciosamente capaz de possibilitar aos homens de Angola, e sobretudo à sua juventude, um meio de abordar quantos problemas atormentam o seu espírito. O tempo e o homem de Angola são os elementos decisivos na gestação de uma cultura angolana, nacional pela forma e pelo conteúdo, universal pela intenção, capaz de ultrapassar a incipiência do exotismo tropical e do primitivismo turístico. Não podemos iludir nem ignorar os problemas. Não podemos abandonar as suas soluções às contingências do acaso. Nem subordiná-las a interesses pessoais e transitórios. Não podemos contentar-nos com exercícios de oratória mais ou menos oportuna, para não dizer oportunista. Necessitamos de pôr, com clareza e coragem, os nossos problemas em equação; discuti-los sem reservas, franca e honestamente, sem tolos melindres nem descabidas vaidades e encontrar as soluções justas, justas sob o ponto de vista nacional, justas sob o ponto de vista humano. Só assim lançaremos as bases de uma cultura[…]
14O ano de 1959 é particularmente trágico para os intelectuais de Angola, onde a PIDE/DGS já estava instalada desde 1957. Deu inequívoco sinal da sua presença com a formatação do famigerado “processo dos 50” e a consequente prisão e desterro de alguns dirigentes da Sociedade Cultural de Angola e colaboradores literários da CULTURA (já o tinham sido da Mensagem), também “marcados” pela sua participação na campanha presidencial de Arlindo Vicente/Humberto Delgado, pelas janelas que ela prometia abrir para os horizontes de uma Nova Angola.
15CULTURA é extinta em Novembro de 1960, com 12 números publicados. Pese embora uma declaração de interesses, é significativo que na última página do seu último número seja registado, com nota positiva, o surgimento, na cidade de Sá da Bandeira (hoje Lubango), da Colecção Imbondeiro, numa recensão assinada por A. A. (o conhecido causídico e poeta “mensageiro” Antero de Abreu):
No pobre panorama literário de Angola, a iniciativa da “Colecção Imbondeiro” reveste-se da maior importância, pelo que revela de esforço e seriedade, pelo que representa de amor a uma literatura consciente e de qualidade, pelos caminhos que abriu e abrirá. Até ao seu aparecimento, a actividade editorial em Angola, tirada a imprensa e os boletins desta ou daquela organização cultural, consistia na publicação de um ou dois livros anuais, a maior parte das vezes de versos, como é natural, e em edição dos autores. Hoje, com a “Colecção Imbondeiro”, já se pode falar em movimento editorial em Angola. Por isso, e porque é efectivamente uma realização cuidada e séria, a obra iniciada por Garibaldino de Andrade, Leonel Cosme, Maurício Soares e Carlos Sanches, presentemente mantida pelos dois primeiros apenas, tem já assegurado o seu lugar numa futura história da literatura (de Angola).
16A Imbondeiro foi criada em Janeiro de 1960, tendo como suporte legal a classificação de livraria-distribuidora, já que, no contexto político da época, como editora não seria obviamente autorizada. Por precaução e como subterfúgio, todos os cadernos da “Colecção Imbondeiro”, dedicados ao conto e à poesia, referiam, na última página, que eram propriedade e edição dos autores. Ao oitavo caderno, a PIDE local pediu para lhe ser mostrada a licença da actividade: um alvará comercial passado pela Repartição de Finanças do Lubango…

17Era o primeiro “aviso”. Não a distraíra o facto de o quinto caderno ser preenchido por um conto de Joaquim Paço d’Arcos, considerado autor situacionista, entre outros autores considerados separatistas. Nem lhe diminuíra a suspeição o Propósito aparentemente inócuo expresso no primeiro caderno:
Duas razões nos levaram a lançar esta colecção: a necessidade de dar a conhecer ao público português os valores ultramarinos que se espalham pelos cantos do mundo onde se fala a língua lusíada, desde a Guiné até Macau, e o direito, que se impõe, de os manifestar conjuntamente à luz duma consciência nacional que não pode deixar de reconhecer, nos caprichosos tons da grande aguarela lusitana, um curioso tema de interesses recíprocos, solicitados por anseios de espírito ou por afinidades de cultura tradicional.
Não se passará, imediatamente, duma tentativa em moldes simples (tão dependente de variados factores), traduzida em trabalho breve, mas responsável, como é o conto: explica-a, de resto, esta forma primária da Literatura, que, seja em Angola como em Moçambique, não possui, por ora, arcaboiço adulto com recursos igualáveis aos de uma terra de antiga existência literária.
Mas, dentro da estreiteza das possibilidades, será nosso intuito cumprir a tarefa com o melhor aproveitamento dos muitos valores esparsos, maiores ou menores, que ainda hibernam – na espreita duma aurora que cesse a já longa escuridão – à sombra dos braços clamorosos dum velhíssimo imbondeiro…

18A ambiguidade deste texto inaugural prestava-se a várias interpretações, em que a escolha da árvore imbondeiro (m’bondo no étimo angolano) para sigla da “editora” não era fruto do acaso, mas um símbolo, quiçá um ícone, a que as características da milenária “árvore sagrada”, para os nativos (que dela retiravam alimentos e remédios), davam o sentido desejado. O que se viu quando a par da “Colecção Imbondeiro” foram surgindo as colecções “Mákua” (poesia) e “Dendela” (contos infantis), isto é, o fruto e a flor da imbondeiro.

19Na mais pacífica interpretação, a iniciativa convidava ao reconhecimento de uma Lusofonia no vasto espaço luso-tropical… Esta terá sido a primeira leitura dos epígonos do regime colonial, a PIDE incluída, não desmentida quando outras colecções do tipo da Imbondeiro surgiram em Nova Lisboa (Bailundo), no Lobito (Capricórnio) e em Cabo Verde (Dragoeiro), estas de vida curta.
20E porque o propósito da Imbondeiro não distinguia, literariamente falando, os autores de diversas formações ideológicas, e por isso chegou a ser criticada no Boletim da Casa dos Estudantes do Império, também chamado Mensagem, foi necessário, ao segundo ano de existência, defender o seu “eclectismo cultural”, que não excluía (pois também os publicou) os autores “progressistas” que constituíam a Colecção Autores Ultramarinos da C.E.I., aliás de curta duração:
[…] ausência de opções, portas abertas a todo o pensamento dos nossos escritores, independentemente das suas tendências literárias e sociais – seguindo enfim uma linha de rumo que, agradando ou não a gregos e troianos, vem sendo cumprida desde o primeiro instante: isenção, franqueza e independência, na convicção firme de que só os caminhos da liberdade intelectual podem conduzir ao seio da Cultura e da Arte, pelo menos na acepção em que as temos. […]
21Depois (como antes) deste “incidente”, Imbondeiro continuou a publicar, em cadernos e antologias, contistas e poetas, incipientes e consagrados, presos ou em liberdade, de todos os territórios de língua portuguesa, incluindo os que sob a acusação genérica de serem contra a segurança do Estado e inimigos da unidade da Nação portuguesa se propunham libertar as colónias de armas na mão.

22Para os directores da Imbondeiro a razão da sua existência era uma só: dilatar o Verbo até ao ponto em que ele se exprimia em termos de Cultura nacional e universal. Pois que, repetindo Terêncio, homo sum: humani nihil a me alienum puto.

23Esta volição cosmopolítica deu pleno sentido à inclusão na “Colecção Mákua”, no n.º 5/6 (Grandes Poetas do Século XX), já em 1964, de poemas de Attila Jozsef, Bertolt Brecht, Elias Simopoulos, Eugen Jebeleanu, Fernando Pessoa, Gaston-Henry Aufrère, Giuseppe Ungaretti, Guillaume Apollinaire, Jiri Wolker, Langston Hughes, Pablo Neruda, Rafael Alberti, Thomas Stearns Eliot e Vladimir Maiakovski.

24Não aparece o nome do grande poeta angolano, Agostinho Neto, pelo simples facto de naquela data ainda não estar publicado o primeiro livro que o internacionalizou: Sagrada Esperança. Mas já era o primeiro nome da selecção de poetas que constituíram o n.º 49/50 da “Colecção Imbondeiro” – Antologia Poética Angolana –, saído em Junho de 1963.

25Já se calculava que esta primeira antologia, reunindo nomes de poetas presos, desterrados e suspeitos, angolanos e portugueses, seria provavelmente encarada pela polícia política como uma “provocação”. A certeza concretizou-se, no ano seguinte, com a publicação da MÁKUA “internacionalista”: a PIDE invadiu a Livraria Imbondeiro para apreender os exemplares ainda ali existentes, pois o grosso da tiragem já tinha sido preventivamente enviado para os assinantes da Colecção, antes de seguir para as livrarias…

26Era o período nevrálgico em que a guerrilha dos movimentos independentistas progredia no interior e, na capital, o livro de contos Luuanda, de Luandino Vieira (prisioneiro no Tarrafal) fora distinguido com o Prémio Mota Veiga por um júri que integrava dirigentes da Sociedade Cultural de Angola. Este facto foi assim registado num extenso relatório da PIDE de 16 de Setembro de 1965:
Em 1964, serviu ainda a sede da SOCIEDADE CULTURAL DE ANGOLA para reunião do júri que, irregularmente, atribuiu o prémio “MOTA VEIGA” ao livro intitulado “LUUANDA”, da autoria de LUANDINO VIEIRA, obra que se integra na problemática desnacionalizante da literatura negro-africana (ou negritude) que a referida Sociedade fomentava desde 1957.
27A sul, no Lubango, a Gráfica da Huíla imprimia, em Dezembro de 1964, o caderno n.º 69 da “Colecção Imbondeiro”, com um trabalho de Luandino Vieira, que seria o primeiro de 1965, quando a PIDE invade a tipografia, apodera-se do papel já impresso e do próprio chumbo da composição, e, não bastando, estende a sua acção às instalações da “editora”, onde apreende toda a documentação, literária e comercial, existente no escritório, incluindo textos inéditos.
28A ‘aventura’ de Imbondeiro chegara ao fim. Mas o Verbo ainda estava na primeira conjugação…
29Junte-se, para a memória desse período, o facto de aquele livro de Luandino Vieira ter merecido, no ano seguinte, o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (a seguir extinta após a sua invasão por legionários), e de a Sociedade Cultural de Angola ser também extinta por Portaria de 5 de Março de 1966 do Governo de Angola. Era governador Silvino Silvério Marques e ministro do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha.


 Leonel Cosme


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