Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O Governador Fernando da Costa Leal e a planta da cidade de Moçâmedes


 A mais antiga gravura da "vila de Mossâmedes"




Já o autor (anónimo) do livro "45 Dias em Angola", publicado em 1862, assim referia: "Villa moderna  (…) uma das mais belas das possessões africanas..."

Moçâmedes não nasceu como uma povoação caótica, ela foi tão cedo quanto possível concebida e delineada no papel, pelo jovem e dinâmico Fernando da Costa Leal (1854-59), o seu 5º Governador, que desde que tomou posse do cargo, em 26 de Fevereiro de 1854, foi seu primeiro cuidado apresentar uma planta topográfica para a povoação, com ruas largas traçadas em linhas rectas, com travessas alinhadas, em paralelismos geométricos, à boa maneira pombalina, que desde logo imprimiram à futura cidade uma fisionomia característica. E Costa Leal foi mesmo levado a animar os colonos a construirem prédios de agradável aspecto, para evitar o desalinho de que era exemplo a caótica Luanda, onde logo de início não cuidaram de tratar de lançar um plano geral de obras.

Com Fernando da Costa Leal Moçâmedes ergueu-se rapidamente, e os colonos passaram a substituir as primitivas habitações por outras mais cómodas e de melhor aspecto.

O mesmo autor do livro "45 Dias em Angola", revela-nos que as primitivas habitações dos colonos de 1849 e 1850 eram, como no resto da Provincia, construídas por tungas e barro com ramos de palmeiras a servirem de cobertura, e ofereciam um aspecto humilde e depreciativo à nóvel povoação.

“Pobres choupanas” assim lhes chamou Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil), chegada a Moçâmedes em 1849. Davam a impressão de "acanhamento e miséria" uma vez que a disposição do conjunto seguida nesses anos que decorreram desde 1840 a 1849, não fora submetida a um plano conveniente,  e "causavam desagrado natural, dispersas ao acaso num censurável desalinho".  Inda assim, por decreto de 26 de Março de 1855, e por carta régia expedida a 7 de Maio do mesmo ano, Moçâmedes subiu à categoria de Vila.

De harmonia com a  planta topográfica da povoação delineada pelo Governador Fernando da Costa Leal,  surgiu  um amplo espaço paralelo ao mar, reservado à futura Avenida, que durante décadas esteve preenchido com barracões (a futura Avenida  D. Luis, e desde 1910, a Avenida da  República). Surgiram 3 ruas  largas, a Rua da Praia, mais tarde  Rua da Praia do Bonfim; a Rua dos Pescadores, em seguida Rua  Presidente Sidónio Pais, porém mais conhecida pela antiga designação;  e ainda a Rua do Alferes, depois Rua das Hortas, e a Rua Luz Soriano. Estas 3 ruas eram cruzadas por outras tantas travessas que segundo um documento da época tiveram a designação de Travessa do Mangericão,  Travessa das Pescarias e Travessa de Santo Antonio.

Quase todas as habitações da Praia (assim chamavam Moçâmedes) são descritas como tendo pátios, onde se plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quais se abriam cacimbas (pequeno poço), cujo revestimento interno é formado com barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, de onde tiravam a água para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Fernando Leal tentou erguer a povoação mais a poente, na Torre do Tombo,  onde as areias são menos abundantes. Mas a comodidade do desembarque e ainda o receio que a água ali faltasse determinou a preferência pela parte baixa.

Foi também o Governador Fernando da Costa Leal quem mandou abrir a primeira estrada da região, e quem ordenou as obras da continuação e conclusão da Igreja, cujos trabalhos de haviam começado em 1849, mas foram suspensos pouco depois, e continuados em 1854, sob seu plano e direcção, e que foram rapidamente concluídas.  Este dinâmico Governador também mandou erguer a Fortaleza de S. Fernando no local do antigo Forte, sobre o rochedo que domina a baía, e foi quem melhorou e levou a cabo a construção do primitivo Hospital, e determinou a edificação do Palácio do Governo, (um dos mais bonitos do Ultramar português), além de várias casas para serviço público. Também mandou construir o edifício da Alfândega.

Porém, e apesar dos seus méritos, o Governador Fernando da Costa Leal vinha sendo acusado de  uma pessoa excessivamente autoritária, que ao pároco da terra fez embarcar à força para Luanda, suspendeu o exercício ao sub-delegado da comarca, procedimento confinado ao próprio Governador Geral.  A prepotência de que lhe acusavam os colonos de Moçâmedes levou à formação de um grande partido contra a sua governação De entre as acusações contam-se obstáculos de ordem económica, peias no giro normal das actividades, empecilhos por supostas violações de direitos. 

O descontentamento levou a petições dirigidas a Luanda e à Metrópole, até que em 27.02.1866 o povo amotinou-se, dirigiu-se à Câmara, obrigou a maioria dos vereadores a uma reunião que se manteve permanente até que Fernando da Costa Leal decidisse entregar o Governo a um Conselho da escolha dos populares. Na petição à Câmara o Governador é acusado de ignorar as leis, e de tudo subordinar ao seu livre arbítrio, e perante a exigência da turba, a Câmara Municipal (vereação) dirigiu-se ao Palácio onde Leal ter-lhes-ia dito nomeassem quem o substituísse, mas acabou por negar a entrega do Governo aos populares. Voltou a vereação a confrontar-se com o Governador, que finalmente cede e  abandona o Palácio, prometendo embarcar no brigue "Maria" que os populares fretaram, no prazo de 48 horas.

Eis algumas passagens desse documento existente no Arquivo Municipal, datado de 27 de Fevereiro de 1860, e assinado por 33 signatários :

«Estamos cansados» de «representar tantas e repetidas vezes, já ao Governo da Província, já ao Governo do Reino, já às Cortes de conformidade com as leis que nos rege, acerca das muitas arbitrariedades e injustiças, constantemente praticadas pelo Governador Fernando da Costa Leal, durante o tempo que tem administrado o Distrito; de não termos sido atendidos em nossos justos pedidos; de não nos ter sido reconhecida a utilidade do direito consignado e garantiso pelo disposto no parag 17 do artº 145 º da Carta Constitucional, visto não ter dito dada até agora a devida e urgente atenção às nossas queixas» . 

(...)
«Pretendemos» por tais motivos, «pedir a intervenção da Câmara para fazer constar ao senhor governador Fernando da Costa Leal que, lembrados de como nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto: «se não nos governar bem, escolheremos outro melhor», não o queremos mais um momento governador do Distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos e para o que estamos todos dispostos». E a representação termina textualmente: «É isto que respeitosamente vos pedimos, Senhores Vereadores deste Municipio, é esta a expressão de todo este Povo». Fim de citação.


Como resultados imediatos foi nomeado um governo provisório para a deposição do Governador. É o próprio Governador que em resposta, sugerira à Câmara que nomeasse quem o substituísse ou que de novo representasse ao Governo-Geral ou ao de Sua Majestade, tendo a Câmara deliberado unânimemente que o Governador entregasse o Governo, desde logo, a um Conselho composto dois seguintes vogais:


-O Juiz de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário;
-O Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Subdelegado do Julgado;
-O Secretário actual do Governo;
-O Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda Pública;
-O Oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores Nº 3;
O Pároco da Freguesia;
Manuel Fortunato de Couto Aguiar;


Mas iria dar-se um "volte face" na situação que veio perturbar a  administrativa distrital. 
O novo Governador, Francisco António Cardoso Gonçalves, conhecendo a ocorrência, seguiu para Moçâmedes no vapor "Infante D. João", acompanhado por Fernando da Costa Leal, restabeleceu a disciplina e a autoridade, dissolveu a Câmara, substituiu a comissão administrativa presidida por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

O Governador Leal depois de ter deixado Moçâmedes, na sequência dos acontecimentos descritos, voltou em 1866 a ocupar o lugar de Governador.  

 Na realidade, e não obstante estivessem presentes durante o seu «reinado» desinteligências entre a primeira Câmara de Moçâmedes e o Governador, como refere Manuel Júlio de Mendonça Torres, no seu livro "Moçâmedes", Fernando Leal era autoritário e violento, mas, ninguém pode negar que era também um espírito inteligente e activamente empreendedor. A sua acção administrativa foi de indiscutível utilidade para o Distrito. «As contendas entre os antigos colonos e o Governador Fernando da Costa Leal nasceram das medidas arbitrárias da Primeira Autoridade do Distrito, constantes da representação dirigida ao Rei pela Câmara pelo Povo, a que se refere a acta de sessões municipais de 27 de Novembro de 1857, a páginas 74v.º:- «prisões sem culpa formada, deportações, espancamentos, intervenções nos actos legais da Câmara», etc. Tudo isto constituía para a Câmara e para o povo o jugo de ferro com que o Governador do Distrito os oprimia há mais de quatro anos e que eles (Câmara e Povo) não podiam mais suportar».

Com a saída do Governador Fernando da Costa Leal de Moçâmedes, em consequência da tomada de posição da população, acabaram as desavenças, e passados anos, com a dissipação de ódios e ressentimentos, a Câmara e o Povo reconheceram os serviços do Governador, dando o nome de Praça Leal a uma das mais concorridas da cidade, e mandando a Vereação de 1903, da presidência de Serafim Simões Freire de Figueiredo, executar e colocar no salão nobre dos Paços do Conselho, o busto em tamanho natural, pintado a óleo.



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Com o título "Um Motim em Mossâmedes no ano 1966" podemos ler um texto assinado  por José Manuel da Costa que foi adminstrador da Circunscrição de 1º classe, antigo Governador dos Distritos de Mossâmedes e do Bié;  antigo Chefe de Serviços de Colonização de Angola..


Eis o texto: 

"Um Motim em Mossâmedes no ano 1966"

Fernando da Costa leal, Major do Estado Maior de Engenharia, foi um frande Governador no Sul de Angola, e uma figura principal da nossa acção colonizadora,, a quem a perecária gratidão dos povos apenas consagrou a melhor praça de Mossãmedes, e um retrato a óleo na sala nobre dos Paços do Concelho. 
No seu primeiro governo, Fernando da Costa leal impulsionara fortemente  a recente fundação da vila de Mossâmedes, que foi traçada em rectas à boa maneira pombalina. A ele se deve a construção da Alfândega, da fortaleza de S. Fernando, da Igreja, do Palácio Velho, um dos mais bonitos do Ultramar Português, e de várias casas para os serviços publicos.; a ele se deve o reconhecimento da foz do rio Cunene, que muitos supunham um afluente do Zambeze;  a ele se deve a ocupação da Huila e dos Gambos, tendo conseguido arrastar, pelos caminhos ásperos da Serra da Chela a primeira peça de artilharia. Finalmente a agricultura e a industria da incipiente Colónia de Mossâmedes deveram-lhe um paternal e decisivo impulso.  

Parece porém que este homem de vasto saber,  de rasgada iniciativa e de rara tenacidade, era de fortes paixões no bem-querer e no mal-querer,  e assim conseguiu que o rancôr de alguns funcionários por ele rudemente castigados, contaminasse a população, formando-se contra o governador um grande partido.

Não esqueçamos que Leal era duro no castigar. Ao pároco de Mossãmedes fez embarcar à força para Loanda; ao sub-delegado da comarca suspendeu-o do exercício , nomeando outro para o cargo,  procedimento arbitrário esse que foi conformado pelo Governo Geral, mas com pública censura a quem exorbitava.

Muitos eram, portanto, os atingidos pela mão pesada do Governador, e de tantos descontentamentos resultaram várias representações para Luanda e para a Metrópole, representações nunca atendidas e que cada vez exasperava mais os seus adversários. 

Até que a medida transbordou... Puderam mais as paixões que a razão, e no dia 27 de Fevereiro de 1866, o povo amotinado dirigiu-se à Câmara Municipal, obrigando a maioria dos vereadores a reunir-se, pela uma hora da tarde, e a manter-se em sessão permanente  até que Fernando Leal fizesse a entrega do governo a um conselho escolhido pelos populares.

Na representação entregue à Câmara acusava-se o governador de ser ignorante das leis, subordinando tudo ao seu puro arbítrio:-  «Tem negado justiça que se tem pedido; têm negado terrenos que indivíduos tem ido descobrir, e lhe têm pedido, pondo assim dificuldades à propriedade agrícola, quando devia promovê-las;  têm negado licenças para se medirem terrenos,  fazendo com que de futuro se compliquem questões agrícolas, por causa das extremas."

Vêm depois alguns casos isolados que não vale a pena relatar, e a exposição termina assim:  "Aqui vimos hoje pedir-vos a vossa intervenção,  que é para fazerdes constar ao senhor Governador Fernando da Costa Leal, que lembrados como os nossos avós falavam às autoridades, chegando a dizer a um rei absoluto "se nos não governar bem, escolheremos outro melhor", que não o queremos mais uma hora nem mais um momento governador deste distrito, que não nos obrigue a lançar mão dos últimos recursos para o conseguirmos, e para o que estamos todos dispostos. É isto que respeitosos vos pedimos, srs vereadores deste município; é esta a expressão de todos este povo. »

Perante a atitude daquela turba, que invadiu a Câmara Municipal, a maioria da vereação dirigiu-se ao palácio onde Fernando Leal ter-lhes-ia dito que representassem a quem de direito ou que nomeassem quem o substituísse.  Foi esta, pelo menos, a resposta transmitida aos populares, que logo se agarraram a ela e passaram a eleger o Conselho do Governo que ficou assim constituido: o Juiz de Direito da Comarca, e, no seu impedimento, Juiz Ordinário; Delegado Procurador da Coroa, e, na sua falta ou impedimento, o Subdelegado; o Secretário do Governo; o Escrivão da Delegação da Junta da Fazenda; o oficial mais graduado do Batalhão de Caçadores 3; o Pároco da Freguesia e Manuel Fortunato de Couto Aguiar.

Seguiram os vereadores  a dar conta da resolução do povo soberano ao governador que encontraram em conferência dom os Chefes de serviço, como hoje dir-se-ia, e com os substitutos dos magistrados judiciais  em exercício, e ali na presença de todos, intimaram-no a entregar o governo ao Conselho, embora não pudessse constituir-se com todos os seus membros. 

Fernando Leal negou que disse que entregaria o governo a quem os populares indicassem,  "porquanto sendo nomeado Governador por Sua Majestade, não poderia entregar o governo se não a quem legalmente o viesse substituir.

Voltou, pois, a Câmara a falar ao povo ; a comédia representada pela Câmara ainda não terminara e só acabaria com a saída  de Fernando Leal do Governo.  É em vão que ela protesta a sua mágua pelos sucessos, e a sua estranheza a eles. Em vão ela mostra empregar todo o seu prestígio sobre os amotinados, procurando chamá-los à razão.  Através dos documentos do tempo, vê-se que a atitudee da maioria da vereação era de refalsada hipocrisia, como foi a dos membros do Conselho do Governo, ao tomarem posse dos seus cargos. 

Faltou à vereação coragem para novamente confrontar-se com o homem, que aliás deveria sentir-se abandonado de todos,  sabendo que a própria força pública não obedeceria às suas ordens. 

Foi então uma comissão de cinco populares intimar novamente o Governador a comparecer na Câmara e a fazer a entrega do Governo, enquanto a vereação, no dizer da acta, "permanecia como testemunha passiva e obrigada  dos actos que o povo pretendia consumar, e que ela, muito solenemente declarava reprovar, afastando de si, como corporação legalmente constituída, toda e qualquer responsabilidade que só  sobre os perpretadores de tal acto  pudesse recair."»

Por fim Fernando Leal cede.

O que se passaria no ânimo forte desse homem quando abandonou a residência  e foi defrontar-se com a multidão dos seus inimigos?  O certo é que as cousas decorreram com serenidade, e aquele que o despeito e a traição entregavam à sanha dos populares, foi respeitado. 

É ele ainda, o vencido do momento, quem dita a sua vontade exigindo que se escreva ser falso ele ter dito à vereação que entregaria o Governo a quem o povo indicasse, que só ali estava coacto, e que só coacto abandonava o seu lugar, prometendo embarcar no brigue mercante Maria, que a população fretara para esse fim, no prazo de 48 horas. 

Ficou o  Conselho do Governo Provisório constituído pelo juiz ordinário Francisco Ponces de Leão, pelo sub-delegado João Ferreira Duarte Leitão (que aliás fora proposto pouco tempo antes pelo Governador), Francisco José de Almeida, escrivão da Delegação da Junta de Fazenda, Jacinto António Cordeiro da Silva, capitão de Caçadores n. 3, e Manuel Fortunato do Couto Aguiar, advogado. 

Com que contavam estes governantes?

Presumo que com a complacência do Governo Geral, ao tempo confiado a um Conselho de Governo  que não tinha por Leal muita simpatia, como demonstra   a publicação no Boletim Oficial , poco tempo antes duma censura em forma acerca do caso atrás referido, da supensão do sub-delegado então em exercício de Delegado da Comarca.

Mas a face das coisas mudara.

Em 19 de Março chegara a Luanda o Governador Geral Francisco António Cardoso Gonçalves, homem cujas tradições de coragem e de energia vinham dum acidentado e torvo governo de Macau, donde saiu coberto de louros e de bençãos.

Mal teve conhecimento da ocorrência não se demora em Luanda. Na mesma corveta a vapor Infante Dom João vem a Mossâmedes, acompanhado do Governador deposto. Aqui restabelece a disciplina e o prestígio da autoridade; dissolve a Câmara, fazendo-a substituir por uma Comissão Administrativa presidida pelo venerando chefe da colónia, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (1); suspende o Secretário  do Governo, Pedro Vasques Martins da Silva, demite o capitão do porto e o tesoureiro da Alfândega, nomeando para esses cargos José Júlio Zuzarte de Mendonça (2); e finalmente, prende e conduz para a capital da provincia, na corveta em que regressou,  chegando no mesmo mês a 31 de Março, as cabeças do motim Jacinto António Cordeiro da Silva , capitão de Caçadores n. 3, e os tenentes do mesmo corpo Pinto da Guerra, o Capitão do porto Santos, os comerciantes Pinto da Rocha (1), Costa Roxo, João Maria de Moura, os advogados Manuel Fortunato do Couto Aguiar e Francisco de Torre Prado, o guarda-livros Guilherme Augusto Praice  e o agricultor Clemente de Andrade.

E assim terminou, graças à energia e prontidão  com que o Governador-Geral recém chegado  que acudiu à emergência, um motim em Mossâmedes, no ano de 1866, continuando Fernando da Costa Leal  a sua fecunda administração, à qual um dia espero fazer larga e merecida referencia. 

Mossâmedes, Maio de 1928

José Manuel da Costa

Retirado Boletim Geral das Colónias . IV - 040
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias, Vol. IV - 40, 1928, 254 pags.


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 (1) Pinto da Rocha. A saber, Francisco Rodrigues Pinto da Rocha era agricultor em Moçâmedes, e possuia armações de Pesca, vem relacionado com comissões e consignações, géneros coloniais e peixe, e ainda com uma padaria em igualmente em Moçâmedes, conf. Anuários de 1908/1909.
- FRANCISCO RODRIGUES PINTO da ROCHA - Professor(Régio) em Mossamedes(Angola),1908
- FRANCISCO PINTO da ROCHA - Armações de Pesca, Agricultor,Commissões e Consignações, Generos Coloneais e Peixe,Padaria em Mossamedes,1908

(2) José Júlio ZUZARTE DE MENDONÇA(*) era filho ilegítimo de Honorato José ZUZARTE DE MENDONÇA (1817-1885),  nasceu em 14.12.1847  e faleceu em  1911 em Moçâmedes, Angola. Mãe : Perpétua n. 1820.  Seu pai quando partiu em 1857 no brigue Veloz para Moçâmedes, levou-o consigo. Em Moçâmedes  José Júlio, licenciado em Direito, foi Juiz de Paz, e foi Administrador da Alfândega e Comandante do Porto. É referido na obra "Sangue velho, sangue novo" como José Júlio de Zuzarte de Mendonça.
 Conforme "Boletim Official do Governo Geral da Provincia de Angola", ano de 1875, vários números,  o último documento oficial  por José Júlio assinado como administrador da Alfândega de Moçâmedes data de 31 de Julho de 1875, e o primeiro como Capitão do mesmo Porto de 31 de Agosto de 1875.  Estranhamos esta última data porquanto José Júlio Zuzarte de Mendonça fora nomeado para o cargo na sequência do motim levantado em 1866 pela população de Moçâmedes contra o seu Governador, Fernando da Costa Leal, e este, com o apoio do Governador Geral resolve punir os revoltosos exonerando-os dos cargos que ocupavam, inluso levando-os presos para Luanda,  como foi o caso dos cabeças do motim Jacinto António Cordeiro da Silva , capitão de Caçadores n. 3, e os tenentes do mesmo corpo Pinto da Guerra, o Capitão do porto Santos, os comerciantes Pinto da Rocha, Costa Roxo, João Maria de Moura, os advogados Manuel Fortunato do Couto Aguiar e Francisco de Torre Prado, o guarda-livros Guilherme Augusto Praice  e o agricultor Clemente de Andrade.
 
Para saber mais, consultar:

http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-jose.htmlhttp://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-
jose.html






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Em tempo:
Falar de Pinto da Rocha, comerciante, como integrando o movimento contra Costa Leal não nos admira, porquanto sabemos que 
 Convém ter em conta que Moçâmedes, fundada em 1849, num século em que a maçonaria penetrou em força em Portugal, e teve em Angola a sua representatividade através das célebres "Kuribekas angolanas", não pode fugir a esta realidade. "Kuribeka" eram um importante grupo de poder como instituição organizada, cujas ideias  tomaram corpo após a independência do Brasil (1822),  pelo menos desde 1860, manifestando-se contra o Portugal metropolitano e castrador, com o objectivo de obterem, primeiro uma autonomia, depois a independência, como atestam os vários documentos históricos, embora a actual historiografia angolana tenda a ignorar, preferindo olhar os brancos em Angola como meros e passivos agentes do colonialismo.

A  militância nos ideais republicanos veiculados pela maçonaria floresceu em cidades  angolanas, primeiro em Luanda, mas com mais intensidade em Benguela, Catumbela, Huila e Moçâmedes. Nestas cidades despontou  uma burguesia branca que se via cerceada por condicionalismos de toda a ordem que a impediam de se expandir social, politica e economicamente. Essa mesma burguesia desenvolveu um conjunto de protestos e reivindicações o que só por si já representa um elemento de diferenciação e de autonomia em relação a Portugal. Aliás Kuribeka significa “apresentar-se”; oferecer-se”; vir sem ser chamado . Foi criadora de uma imprensa de brancos radicais.  Algo fugaz desde logo cerceado pela oligarquia colonial, residente em Lisboa.   A burguesia angolana era, fundamentalmente mestiça, incluindo uns muito poucos brancos e alguns negros. Também por esta altura as fronteiras de Angola ainda não estavam definidas.

 MariaNJardim 
 

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