Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 8 de setembro de 2018

A WELWITSCHIA, FRIEDRICH WELWITSCH, WITTNICH CARRISSO, E O KANE-WIA






Dr. Luís Wittnich Carrisso e seu companheiro Mendonça,  junto a uma Welwitschia Mirabilis no Deserto do Namibe


Welwitschia Mirabilis







Welwitschia Mirabilis


"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto

(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)




Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas, descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), criador degénero novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.

A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Trata-se de um prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.

Durante a sua viagem, Welwitsch sofreu de febres,disenteria, escorbuto e úlceras nas pernas, o que acabou por o forçar a terminar a sua exploração em 1860. Quando regressou de Angola, decidiu fixar residência em Londres para ficar próximo ao Museu de História Natural e dos Royal Botanic Gardens.

Para além de Welwitsch, outro naturalista que se interessou pelo estudo da Welwitschia foi o português Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor de Botânica na Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor dessa universidade), que, igualmente enfeitiçado por África, levou a cabo três expedições ao Deserto do Namibe solo a fim de estudar a respectiva flora. Na última delas, em pleno deserto, perto de uma Welwitschiae, faleceu vítima de ataque cardíaco. O local da sua morte, o morro do Kane-Wia que os povos indígenas mucubais dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.

O Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (Mukubais) nada tem a ver com o Tchitundo-Hulu, um outro morro do Namibe. Sobre ele Namibiano Ferreira escreveu um interessante testo que transcrevo a seguir:

«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”. Fim de transcrição.



MariaNJardim




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

RIO BERO, o "Nilo de Moçâmedes"; RIO BERO, o "Rio das Mortes" , o rio que tornou Moçâmedes possível...


 
Quando o rio Bero, em tempo de cheias, extravasava das margens, corria na direcção das "Furnas de Santo António", a depressão no terreno mais tarde aproveitada para o Estádio Municipal. O espectáculo era de uma verdadeira cascata como se pode ver por este postal bastante antigo. Porém, por vezes, daqui, escorria na direcção da baixa da cidade, o centro histórico, como se pode ver na foto que segue.

A Rua da Praia do Bonfim, a principal da cidade de Moçâmedes, completamente alagada

A ponte sobre o rio Bero, em tempo de cheias
O Bero em tempo de cheias...





 



Fotos do Bero e do sítio da Macala. A exuberância da vegetação que então medrava.



Rio Bero, o "Nilo de Moçâmedes" foi o rio que tornou Moçâmedes possível!

Conta-se que Bernardino Freire de Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia oriunda de Pernambuco, Brasil, desembarcada em Moçâmedes em 1849 , ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, ter-se-ia sentido decepcionado, porém, mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as água das enxurradas ao invadirem as margens, levam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que fazia das "Hortas" verdadeiros oásis,

Mas ligada ao Rio Bero, visto como o "Rio das Mortes" conta-se uma história triste. "Rio das Mortes", assim lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter ali encontrado a morte, em 1785, o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda e mais dois marinheiros.Eis o que a este respeito escreveu Pinheiro Furtado ao governador de Angola, José de Almeida e Vasconcelos, barão de Moçâmedes:

"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus, que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado pelo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados que andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. " Fim de transcrição.

MariaNJardim

Nota: O Bero ,como vem referido nos Annaes do Município de Moçâmedes de 1858, era pelos autóctones conhecido por "Belo". Porém Bero e não Belo surge rectificado pelo tenente Garcia nas suas "Memórias das Explorações de 1839".