Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 7 de setembro de 2018

RIO BERO, o "Nilo de Moçâmedes"; RIO BERO, o "Rio das Mortes" , o rio que tornou Moçâmedes possível...


 
Quando o rio Bero, em tempo de cheias, extravasava das margens, corria na direcção das "Furnas de Santo António", a depressão no terreno mais tarde aproveitada para o Estádio Municipal. O espectáculo era de uma verdadeira cascata como se pode ver por este postal bastante antigo. Porém, por vezes, daqui, escorria na direcção da baixa da cidade, o centro histórico, como se pode ver na foto que segue.

A Rua da Praia do Bonfim, a principal da cidade de Moçâmedes, completamente alagada

A ponte sobre o rio Bero, em tempo de cheias
O Bero em tempo de cheias...





 



Fotos do Bero e do sítio da Macala. A exuberância da vegetação que então medrava.



Rio Bero, o "Nilo de Moçâmedes" foi o rio que tornou Moçâmedes possível!

Conta-se que Bernardino Freire de Abreu e Castro, o chefe da 1ª colónia oriunda de Pernambuco, Brasil, desembarcada em Moçâmedes em 1849 , ao confrontar-se com um vasto areal desértico, servido por um rio seco, ter-se-ia sentido decepcionado, porém, mais tarde viria a referir-se ao mesmo rio como o "Nilo de Moçâmedes", isto porque na época das chuvas as água das enxurradas ao invadirem as margens, levam consigo fertilizantes naturais para novas sementeiras, gerando uma espécie de microclima temperado que fazia das "Hortas" verdadeiros oásis,

Mas ligada ao Rio Bero, visto como o "Rio das Mortes" conta-se uma história triste. "Rio das Mortes", assim lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter ali encontrado a morte, em 1785, o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda e mais dois marinheiros.Eis o que a este respeito escreveu Pinheiro Furtado ao governador de Angola, José de Almeida e Vasconcelos, barão de Moçâmedes:

"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus, que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado pelo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados que andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. " Fim de transcrição.

MariaNJardim

Nota: O Bero ,como vem referido nos Annaes do Município de Moçâmedes de 1858, era pelos autóctones conhecido por "Belo". Porém Bero e não Belo surge rectificado pelo tenente Garcia nas suas "Memórias das Explorações de 1839".

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Bero. — O Bero recebe as aguas duma grande extensão da vertente oeste da Chella e aindade uma grande parte do seu platcau. Estas derivam da Bata-Bata pelo Calombo, Bcmgolo e Cangalombe formando o Chacuto, do Jau e Onaheria pelo Quambambe e Munhere que formam o Tampa, e do Panguero pelo Tchipeio. Todos estes conservam corrente permanente até alcançarem o sopé da serra, depois de se terem despenhado pela vertente. Alem destes, outros afluentes de cursos periódicos, torrenciaes com as grandes trovoadas, formam o Bero, taes como o Hoke e Elephanlc que originam o Saiona e se lança nelle apenas no seu terço inferior. O Cambunga, Metaca, e outros que, seguindo para norte até se unirem ao Tampa, desviam depois para noroeste. O curso deste em tudo similhante ao Giraul e S. Nicolau, é de todos os da zona do litoral aquelle que conserva maior volume d'aguas correntes e estas se manifestam até mais próximo do mar. E isso é devido não só ao facto do seu curso ser também o mais directo entre a serra e o litoral e á grande quantidade de aguas que constantemente recebe do planalto, mas ainda á natureza dos terrenos em que abre o seu leito, o qual, sendo rochoso e duro, está atulhado de pedras e areias, não permittindo a infiltração nem facilitando a evaporação. No terço inferior, porem, alastra sob extensa camada arenosa, formando lençol, até ao litoral da vasta bahia de Mossamedes e a agua, a não ser nas enchentes, só pode descobrir-se cavando na areia. O Bero é habitado no seu curso inferior junto aos Cavalleiros, e em todas as margens dos seus afluentes no curso superior até á confluência do Saiona, sendo nalguns pontos muito densa a população como em Bata-Bata, Ongheria e Tchipeio.

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