Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 2 de dezembro de 2018







No cais, lá estavam os escaleres dos poveiros, com um pouco de água a estremecer no fundo e encharcadinhos de sol.” - in CASTRO, Ferreira de. A Selva, Livraria Editora Guimarães & Cª , Lisboa, 1957 (18ª edição), p. 75
Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921.
................................................................................................
Estes poveiros, de Ferreira de Castro, arribariam a Porto Alexandre em 1921...
Tudo começou quando em 1920 as autoridades brasileiras determinaram que os pescadores estrangeiros só poderiam continuar a actuar nas águas do Brasil desde que: se naturalizassem brasileiros até 12 de Outubro do referido ano, nacionalizassem as suas embarcações, e organizassem “companhas” de modo que dois terços da tripulação de cada barco fosse brasileira. Os pescadores da Póvoa de Varzim obedeceram às duas últimas condições, arvoraram nos seus barcos a bandeira do Brasil e pediram, através de editais, a colaboração de tripulantes brasileiros, mas na sua quase totalidade recusaram a naturalização. Em consequência, tiveram que regressar à Póvoa. Eram cerca de mil. Em 30 de Outubro de 1920 desembarcou em Lisboa o primeiro contingente de 250 pescadores, ao qual se seguiu outro composto por 302, desembarcados em Leixões, em 5 de Novembro. Juntamente com os poveiros regressaram do Brasil pelos mesmos motivos, pescadores de outras proveniências, sendo embora em menor número, daí a Póvoa de Varzim ter sentido de forma mais dramática os problemas sociais e económicos deflagrados em resultado do retorno em massa de indivíduos, para os quais não estava preparada. Calados os rumores da calorosa e patriótica recepção, logo uma crua miséria se abateu sobre os regressados, tornando urgente a tomada de medidas a fim de debelar tamanha desgraça. Coincidiu esta situação com o projecto a levar a cabo pelo Norton de Matos, que procurava assentar no litoral sul de Angola as bases de uma indústria piscatória voltada para o futuro. Lançada a ideia da instalação de uma colónia de poveiros em Porto Alexandre, estava finalmente encontrada a solução para a realização da sua proposta. E assim... “Em 24 de Fevereiro de 1921, no paquete “África”, partiam de Lisboa para Porto Alexandre 62 dos pescadores poveiros regressados do Brasil, que chegaram ao seu destino em 14 de Março; à frente tinham sido enviados os seus barcos e aprestos, que às praias africanas levavam, pela primeira vez, elementos típicos do areal e da enseada da Póvoa". Entretanto o General mandara construir em Porto Alexandre um bairro destinado às famílias dos pescadores poveiros, procurando deste modo atrai-las à fixação no solo de Angola. No jornal “O Comércio da Póvoa de Varzim”, datado de 11/10/1921, vinha a seguinte referência:
“Um dos pescadores poveiros idos para Porto Alexandre, Manuel Francisco Trocado, dizia em carta dos finais de 1921: “Acrescentarei ainda que o sistema de pesca que adoptamos é muito fácil: fizemos uma sacada, como uma nassa, que nos importou em 2 contos. Lança-se ao mar, seguras as extremidades por 2 barcos, e em um, ou, no máximo em dous lanços, carregamos o barco de peixe”. –
Por A. M. Mendes, segue o apontamento histórico – Pescas em Portugal: Ultramar – Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias:
«Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu pri­meiro relatório de serviço (Carneiro, Carlos (1931) – A indústria da Pesca no Distrito de Moçâmedes. Anais Serv. de Veter., pág. 19-20). Nesse tra­balho começa por evocar o ano de 1921, quando no Brasil uma lei idêntica à que dera origem à primeira colonização de Moçâmedes voltou a ser publicada exigindo que os pescadores portugueses, que exerciam a sua actividade nas águas do Brasil adoptassem a nacionalidade brasileira. Carlos Carneiro escreve que: “Em massa repudiam tal violência e regressam ao seu país”. Essa lei acabou por ser revogada e o Brasil vol­tou a permitir a entrada de todos os pescadores poveiros que em águas brasileiras quisessem pescar. Era então Alto-Comissário em Angola o General Norton de Ma­tos que logo determinou que todos os repatriados que quisessem poderiam organizar-se em colónia piscató­ria na baía de “Porto Alexandre”. Imediatamente co­meçaram as construções de habitações e de instalações modelares para a preparação do peixe. Os poveiros en­contraram bom acolhimento mas a demissão de Norton levou ao abandono da colónia, ainda em implantação e acolhimento. Alguns desses poveiros voltaram para as suas terras de origem ou deslocaram-se para outros pontos de Angola e Carlos Carneiro conclui: “Não fracassou esta tentativa de colonização porque muitos desses poveiros estão trabalhando em Angola, por sua conta ou ao serviço das indústrias de pesca e são, sem receio de confronto, os melhores que no sul se encon­tram. Ficou também de pé o elegante bairro poveiro que embeleza a mansa baía de Porto Alexandre e que constitui um dos muitos padrões de glórias do governo, formidavelmente grandioso do Excelentíssimo Gene­ral Norton de Matos”.



Alguma bibliografia consultada:
in GONÇALVES, Flávio. Os pescadores poveiros em Angola e Moçambique , Póvoa de Varzim Boletim Cultural, volume VI nº 2, C.M. da Póvoa de Varzim, 1967. pp. 286/288
Imagem: 1. Grupo de poveiros em Porto Alexandre. 2. Uma das primeiras "catraias" poveiras que chegaram a Angola a partir de 1921. 3. Uma familia podeira sobrevivente.

Sem comentários:

Enviar um comentário