Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 28 de março de 2018

OS MONDOMBES ERAM O POVO MAIS PRÓXIMO, QUANDO DA CHEGADA DOS PORTUGUESES A MOÇÂMEDES



 Mondombes numa das ruas de Moçâmedes
Casal de Mondombes
Mondombes e filho

Mondomba e filho

Mondombes 
Mondombas
                                                                          Mondombes 


Dizem os entendidos que em Moçâmedes, por volta de 1860, existiam três tribus de negros, a Mini-Quipola, no vale dos Cavaleiros e proximidades da Boa Esperança; a Giraul, que vivia junto do rio do mesmo nome; e a Croque ou Coroca, que vivia igualmente junto ao rio do mesmo nome, sendo esta a mais afastada.  Estas tribus teriam novecentas pessoas de ambos os sexos nessa altura, e segundo João de Almeida in " Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), os MONDOMBES pertenciam às duas primeiras tribus citadas, contudo convém ter em conta que se chamavam MONDOMBES  indivíduos de algumas tribus do interior. Aliás, é comum adiantar-se que MONDOMBES  eram povos originários do Dombe (1), mas também não devemos esquecer que era comum as tribus adoptarem para si os nomes das terras onde iam habitar, quando das suas emigrações, ou o nome dos seus chefes, e ter em consideração que fusões entre povos de tribus diferentes foram acontecendo ao longo dos tempos. (2)
 
Segundo João de Almeida, in " Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), dificilmente se poderia determinar, porque os indígenas da região não pertenciam todos à mesma tribo, tendo a sua expansão para terras do sul sido gerada por invasões e emigrações violentas de várias tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidades da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção.

Importante seria estudar a marcha dessas diferentes emigrações, a proveniência dos povos que sucessivamente tem vindo a habitar esta região de Angola, estudo difícil e complexo, mesmo impossível dada a ausência dos elementos mais essenciais, uma vez que estes povos sem escrita, não pertenciam todos à mesma tribo, tendo a sua expansão para terras do sul sido gerada por invasões e emigrações violentas de várias tribos, pelo espírito de domínio e superioridade, ou por necessidades da vida que os levou a se deslocarem, a se fundirem com outras tribos, ou a sobreporem-se a elas, misturando qualidades e caracteres de todos os povos envolvidos na acção. João de Almeida considera mesmo impossível dada a ausência dos elementos mais essenciais, uma vez que estes povos sem escrita, não nos legaram nem documentos, nem edifícios nem monumentos, etc. Apenas os factos históricos que perduraram através da tradição oral.

Transcreve-se do livro de João de Almeida, algumas informações a este respeito colhidas na época, através de narrativa oral:  os povos gentios dos Cubaes, Dombe, Giraullo e Quipolla, pertencem todos à mesma raça, e os três últimos formaram por muito tempo um só povo, o qual por dissenções ocorridas com o soba do Dombe se refugiou para a Huila, indo ali mesmo uma guerra mandada pelo dito soba a persegui-lo, de novo emigrou, vindo parar em um lugar denominado pelo gentio Lutunda, entre o Bumbo e a Pedra Grande, donde se dividiu, indo uns habitar no país dos Mucubaes e os outros vindo aqui estabelecer as duas tribus do Giraullo (fim do caminho) e do Quipolla, hoje também já separadas, mas antes e desde a sua descida do centro do país reunidas no sitio Quissongo. Tendo-se retirado deste ponto alguns para o Coroque ali formaram a tribu d'esta denominação, alliando-se com os Muximbas. Esta ultima tribu dos Coroques é assaz notável pela sua linguagem gutural, talvez resultado da mistura do primitivo idioma com o dos Muximbas.

 
 “Mundombes” - Africa Occidental (Moraes 1882: s/p)




Como vivia este povo? 

No álbum Africa Occidental de  J. A da Cunha Moraes os MONDOMBES aparecem descritos como uma tribo nómada civilizacionalmente atrasada que habita o território entre Benguela e Moçâmedes. Apesar da sua cultura “do ultra-nú” e de “não saberem velar-se dos pés à cabeça com, pelo menos, folhas de parra”, são gente laboriosa, que se dedica à agricultura, à caça e ao serviço de transporte nos sertões (Moraes 1882: s/p).

OS MONDOMBES de Moçâmedes eram familias de pastores negros que viviam próximos da povoação, em cubatas feitas de ramos secos, por fora barradas com excremento do gado, do feitio dos fornos para onde entravam de agachados.

Conforme os escritos da época, os MONDOMBES eram polígamos, como todos os indígenas de África constituíam famílias onde um homem possuía três ou quatro mulheres e um grande numero de filhos. O seu governo pouco diferia do de todos os negros; tinham um soba, que é o chefe, mas que decide as questões ouvindo os seus macotas (conselheiros). Eles viviam em harmonia com os brancos, a quem prestavam alguns serviços já como carregadores, já como apanhadores de urzella (muito poucos).


 Naquele tempo de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravava o desenvolvimento das regiões, os MONDOMBES eram os povos "Carregadores" de Moçâmedes , dedicados por conta própria ao transporte de mercadorias, tais como eram os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela. Estes povos monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam o território angolano, em detrimento de quaisquer outras comitivas, eles impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas.

Apesar de grande número de MONDOMBES por essa altura já terem abandonado a vida nómade e semi-nómade, um terço levava ainda uma vida errante, com os gados em busca de pastos, e  aqueles que viviam perto dos europeus em nada modificavam os seus hábitos primitivos, não se deixando assimilar. E quanto à roupagem apenas trocaram os vestidos de couros pelos das fazendas ou panos que usavam. Os homens usavam um pano de algodão amarrado em volta do corpo, e outro lançado aos ombros como um manto, e traziam sempre um cajado na mão.  Eram de estatura elegante, robustos, bem constituídos, saudáveis, e as suas posições e movimentos distinguiam-se, pela desenvoltura, da dos negros de outras tribus, que levavam grande parte do dia sentados. Quanto à causa provável para a sua robustez e boa constituição, apontam-se os efeitos da selecção natural, ou seja, a sobrevivência do mais forte, daquele que melhor se adapta ao meio, e vai transmitindo a sua robustez de geração em geração, do mesmo modo como se transmitem moléstias hereditárias. Apesar de possuírem uma compleição física  bem constituída, os MONDOMBES eram sujeitos a constipações, por andarem quase nus, e terem o habito de se aquecerem demasiadamente ao fogo. As suas crianças andavam inteiramente nuas até aos oito ou dez anos, mas já antes dessa idade as raparigas usavam manilhas de vime.  Os MONDOMBES sustentavam-se de milho pisado com uma pedra, cozido em água e leite, tipo de alimento a que davam grande apreço. Antes da chegada dos colonos plantavam apenas milho, feijão e abóboras, mais tarde passaram a cultivar também a mandioca, o cará, as batatas, enriquecendo o produto das suas lavras. Os colonos idos de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes não só, levaram consigo sementes de espécies vegetais que ali espalharam, como nas duas deslocações a Luanda e ao interior, levavam dali novas sementes que iam enriquecendo quer os seus cultivos quer os dos nativos.

Os MONDOMBES tinham a idéa de um Ente Supremo, mas pouca adoração lhe prestava. O seu ídolo eram os gados, que cada um celebra com cantigas e libações. Não os vende, aproveita-se do leite que produzem. Acreditam numa outra vida depois da morte, e que as almas lhe vem causar este ou aquele dano.

No último quartel do século XIX, no distrito de Moçâmedes, com o estabelecimento da colónia boer que veio facilitar as transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons, as caravanas de "carregadores" MONDOMBES entram em recessão. Mas se exceptuarmos a linha férrea de Luanda a Cazengo, e a carreira fluvial do Quanza, de Luanda ao Dondo, feita com dois pequenos vapores, em quase toda a província de Angola o comércio e a agricultura estava ainda sob a dependência das caravanas de "carregadores", sujeitos as mais variadas contingências, de entre as quais, os capricho dos sobas, a rivalidade das casas comerciais monopolizadoras do negócio , as guerras gentílicas, os conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos, proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciais, etc.

A este texto acrescentarei ainda apenas uma pequena nota, pois não me passou despercebido o modo preconceituoso com que à época eram encarados estes povos, que por se encontrarem num estádio civilizacional  diferente, aqueles estádio pelo qual todos os povos passaram, ainda andavam nús e semi-nús, mas sem que entre eles próprios o seu corpo tivesse necessidade de “...velar-se dos pés à cabeça com, pelo menos, folhas de parra”, conforme J. A da Cunha Moraes no álbum Africa Occidental,  evocando o preconceito cristão o pecado original sobre povos no seu estado natural,  anumistas.

MariaNJardim

(1) Originários da região do Dombe, districto de Benguela, eles irradiaram para o sul, entre a Chela e o mar, e habitavam os vales da Bentiaba, da Montipa e as bacias do Giraul e do Béro, desde as suas cabeceiras nas faldas daquela serra.

(2) Também segundo João de Almeida, uma nova migração de dámaras se alastrou pelos vales do Curoca, Béro, Giraul, "..formando os bacubaes, bacurocas, bacuanhócas, giraues e quipolas, vindo também para ali os expulsos pelos nanos e banhanecas, os badombes e bacuissos, que se fixaram no Giraul e Muninho, imprimindo neles traços característicos que ainda hoje claramente se evidenciam. Pelo norte, ao longo da Chela, penetraram em seguida os banhanecas, mais ou menos impelidos pelos nanos e ganguelas.

Bibliografia consultada:
- "Exploração geográfica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895."
-"45 Dias em Angola", de autor desconhecido, 1862
-" Sul d'Angola, o Relatório de um Governo de distrito (1908 — 1910), de João de Almeida.