Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ponta do Noronha em Moçâmedes

[Eu,+Betinha+e+Gracietinha+no+mirante.jpg]


«...Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossâmedes.»

«...Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.»
Ponta do Noronha, ou Pau do Sul 



Para a maioria "PONTA DO PAU DO SUL", para os entendidos "PONTA GROSSA OU DO NORONHA" 


 
Ponta do Giraúl


As pescarias, a baía e a cidade como pano de fundo. 1955


«...Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.

«...Estende-se a ponta do Girahúlo, que é rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.

«...Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.

«...Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a bahia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que pode montar 8 peças.



O morro da Torre do Tombo e pescarias primitivas em finais do século XIX


«...Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tombo, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.



Na base da falésia (Morro*) da Torre do Tombo, com as obras do cais e marginal e aterros em execução. 1956. Vê-se à esquerda uma das famosas grutas nas inscrições do Morro da Torre do Tombo.



«...Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira. 

«...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.

[Amilcar+Betinha+e+Gracietinha+Pau+do+Sul.jpg]

Sobre a ponta do Noronha (Pau do Sul), familiar e amigas vislumbrando o Canjeque e a Praia Amélia... 1956

«...Milha e seis décimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amélia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amélia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem afirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.


O Canjeque e pescarias, por ocasião das grandes calemas de 1955

«...Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.

«...Afoitamente se pode navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
A ponta do Canjeque, entre a Ponta do Noronha e a Praia Amélia

«...Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.

«...Indo do N. deve-se dar resguardo à ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
 
A ponta do Noronha (Pau do Sul), a baía, a ponte, navios de carga, palhabote, batelões, barcos de pesca. Início do século XX

«...Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.»

«...Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tombo, e.em 9 metros ou 6m,4.»

«...Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.»


As antigas pescarias em 1950

«...Há, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.»


De Brito Aranha in Archivo pittoresco, Volume 10, p. 11

* O morro da Torre do Tombo, famoso pelas grutas escavadas a punho na rocha branda, e pelas inscrições ali deixadas impressas em tempos remotos por mareantes que por ali passavam e ali vaziam aguada, ou seja, abasteciam-se de agua e descansavam, e que mais tarde serviram para abrigar alguns colonos fundadores da cidade, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e1850, bem como algarvios que a partir de 1861 deram início a umas corrente migratória que se estendeu por todo o século XX .