Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 14 de agosto de 2018

Welwitschia Mirabilis






"...No meio do mais árido deserto
Há uma planta que consegue medrar,
E até se dá ao trabalho de florir,
Mesmo que não haja ninguém por perto,
Que a possa contemplar.
A mirabolante flora do deserto

(Jorge de Sousa Braga (n. 1957) no seu livro
Herbário, especialmente destinado a crianças)





Uma das plantas mais extraordinárias do mundo encontra-se precisamente no deserto do Namibe. Chama-se Welwitschia Mirabilis! É uma rica variedade de espécies biológicas,  descoberta a 3 de Setembro de 1859, pelo botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872), que se tinha deixado encantar pela natureza africana a ponto de só a ter abandonado quando foi vítima de maleitas tropicais.que se encontra precisamente no deserto do Namibe. O nome foi dado em homenagem  a Friedrich Welwitsch (1806-1872) seu descobridor e criador de um género novo para integrar a espécie, diferente de todas as outras identificadas até à data.

A planta milenar trata-se de uma planta única, singular, espécie que só vive no Deserto do Namibe, no sul de Angola e na Namíbia, numa faixa a algumas dezenas de quilômetros da costa, o seu habitat possível. Possui um caule duro, do qual saem duas folhas, que crescem lentamente, esfarrapando-se nas extremidades, a um nível rasteiro. Parece apenas um monte de fibras secas e velhas, mas apesar de desarrumada e descolorida, é um fenômeno da natureza. Trata-se do prodigioso mecanismos de adaptação a ambientes adversos de que os seres vivos são capazes. Algumas plantas alcançam 1.000 anos de idade! Existem pesquisadores que consideram que possa viver até dois milênios.

Para além de Welwitsch, outros naturalistas têm se interessado pelo estudo da  Welwitschia sendo um deles o português Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), professor de Botânica na Universidade de Coimbra (chegou a ser reitor dessa universidade), que, igualmente enfeitiçado por África, levou a cabo três expedições ao Deserto do Namibe solo  a fim de estudar a respectiva flora. Na última delas, em pleno deserto, perto de uma Welwitschiae, faleceu vítima de ataque cardíaco. O local da sua morte, o morro do Kane-Wia que os povos indígenas mucubais dizem amaldiçoado, é um dos sítios inescapáveis da história da ciência angolana.

 O Kane-Wia morro baptizado pelos Ovakuvale (Mukubais)  nada tem a ver com o Tchitundo-Hulu, um outro morro do Namibe. Sobre ele Namibiano Ferreira escreveu um interessante testo que transcrevo a seguir:

«... Este morro fica próximo do Virei, é um lugar que povoa o imaginário sobrenatural da minha infância... não conheço o lugar mas depois que vos traduzir o nome do morrro em português, mesmo os menos descrentes, vão pensar duas vezes se lá querem ir. Kane-Wia é o Morro “quem sobe não volta” ou “ quem o subir não volta” e a verdade é que o Kane-Wia é um acidente geográfico pouco conhecido e mesmo deixado á sua sorte. Se pedirem a um homem Ovakuvale para ele vos acompanhar como guia ele prontamente recusará nem que o pagamento sejam manadas de bois, já que ouro e dinheiro, são coisas sem valor para um homem Mukubal. O Kane-Wia é tabu para os Ovakuvale: é kane-wia (quem o sobe não volta a descer, desaparece, faz uafa, morre). Portanto, o Kane-Wia vivia sossegado e inexplorado, uma espécie de montanha sagrada onde Deus dorme e, por esse motivo, interdita ao comum dos mortais. Em 1937, um eminente biólogo da Universidade de Coimbra, Dr. Luís Wittnich Carrisso, veio até ao Namibe para estudar a flora local e como homem racional e de ciência que era resolveu contrariar a crença subindo o Kane-Wia. Seja por mera coincidência ou por outra estranha razão o grande cientista português, embora socorrido pelo seu companheiro, veio a sucumbir em pleno deserto, a cerca de 80 km da cidade de Moçâmedes (actual Namibe). Nesse mesmo local foi, posteriormente, erguida uma lápide com a seguinte inscrição: “Dr. L. W. Carrisso XIV-VI-MCMXXXVII”.  Fim de transcrição.

MariaNJardim