Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 18 de agosto de 2018

Uma atribulada «ida na mahanja»

Aquando do êxodo dos retornados vindos de Angola, a confusão no aeroporto da Portela, era aquela que as pessoas com mais de 50 anos estão lembradas.

O aeroporto de Lisboa regorgitava de gente.  A ponte aérea entre as colónias do Ultramar e a Metrópole, funcionava em pleno com aviões de muitas nacionalidades despejando homens, mulheres e crianças de todas as idades, brancos e pretos, novos e velhos, numa amálgama de pessoas de que não havia memória na história contemporânea em tempo de paz (se é que o mundo, desde que é mundo, alguma vez conheceu a paz), gente apreensiva com relação ao futuro que os esperava, e traumatizados pelo desfazer do sonho angolano que os embalou durante toda uma vida.

Numa das muitas viagens dos aviões que descarregavam gente, apreensão e décadas de muitos sonhos desfeitos,  num total de mais de quinhentas mil pessoas, veio o RC com a família formada, por mulher, criançada e avó negra,  por afinidade.

 Naquela confusão de gente que chegava e de gente que vinha ver quem chegava, enormes filas para identificação, para trocas de cinco contos de cá por cinco contos de lá, por pessoa, para inscrição no IARN,  (Instituto de Apoio ao Regresso de Naturais), para a burocracia, etc. tudo com muita espera de muitas horas, à anciã, depois de muitos apertos, deu-lhe vontade de urinar, e, não suportando mais aguentar a necessidade fisiológica,  disse para as netas:

Meninas, vão perguntar aí, onde a gente faz chi-chi.

A criança foi, demorou-se algum tempo, e trouxe o recado:
" É ali, avó, ao fundo do corredor, vira à direita, anda um bocadinho e encontra uma porta com um boneco a imitar uma mulher. É aí."

A velha desconfiada resmungou:
"Um boneco? Mas eu quero é mijá! Olha eu vou mazé na mahanja. Ucês me acompanha na minha trás, o resto fica a tomar conta das nossas bicuatas enquanto o Gerinho não aparece. Mas fica de olho bem aberto para ninguém não roubar, porque aqui tem muito granco e também muito ladrão."

Netos e avó de mãos dadas serpentearam por entre as pessoas e bagagens, sairam do aeroporto, andaram sem tino e, quando a claridade das luzes ia sendo vencida pela escuridão da noite, as  crianças iam ficando para trás, e com medo regressaram para a confusão.

A velha com aquele ar cansado que lhe dava o carregar com setenta e alguns anos e muita ralação, mais o zonzear da viagem do avião, lá foi à procura do capim alto que era onde ficava a mahanja.

Fez o que tinha a fazer, ficou aliviada, mas não deu com o caminho do regresso, perdeu-se, e depois de muito tentar regressar, foi encontrada pelos seguranças do aeroporto, que a entregaram ao posto da polícia mais próximo, ali para os lados do bairro das Galinheiras.

Começou o interrogatório:

- Você veio donde:
-De Moçâmedes.

-Veio na ponte aérea?
-Não veio, não siô, veio não avião.

-A dona é retornada?
-Não siô.

-Veio do Ultramar?
-Não siô.

-Então veio das colónias?
-Também não.

-Então veio de onde?
-Aka, eu já disse, eu veio de Moçâmedes.

-Onde fica isso?
-Perto da Praia Amélia.

-E a Praia Amélia?
.-Antes ou depois de Moçâmedes, conforme. Ucê conhece?

-Os guardas eram pacientes, entreolharam-se e continuaram.
-Sabe onde mora?
-Na Torre do Tombo.

-Se a levar para lá a Dona sabe dizer onde é a sua casa?
-Pois claro que sei.

Era um caso simples de resolver. Os agentes policiais meteram-na no jeep, seguiram pela Alameda das Linhas de Torres, passaram pelo estádio de Alvalade e pararam perto do edifício do arquivo da Torre do Tombo, em  Entrecampos.

-É por estes lados que você mora?
-Aka! Eu já disse que mora na Torre do Tombo e aqui não é Torre do Tombo que eu conheço muito bem. Ainda nem passou nem o Palácio, nem a Igreja, nem a loja do Carumbemba, como é que aqui é Torre do Tombo?

Os agentes conferenciaram e acharam melhor regressar. Contaram ao Cabo, comandante do Posto o acontecido e este por sua vez,  chamou a assistente social que estava mais vocacionada para estes casos, que ele diagnosticou de perda de memória ou demência degenerativa, própria da idade da anciã.

Tiraram a identificação, aboletaram a senhora na Pensão Luanda, da Almirante Reis que tinha contrato com o IARN, e garantiram gelidamente, como só os polícias sabem fazer.

- Olhe, não falei com o dono da Pensão,  a Senhora vai pernoitar aqui e amanhã continuamos a procurar. Está bem ?
- Não esperaram pelo assentimento da idosa e remataram:
-Então, até amanhã.

Dois dias depois apareceram os zeladores da ordem e da lei. Prosseguiu o interrogatório com outro interlocutor, uma moça jovem que depressa foi posta ao corrente da situação. Querendo ser simpática para cativar a idosa, começou o interrogatório no sitio onde os seus colegas tinham ficado:

-Então avó, se não sabe onde mora, sabe ao menos quem são o seu marido, filhos, netos?
-A velha mete o dedo indicador por dentro do lenço que cobre a cabeça, e coça a carapinha branca, dizendo com ar de enfado:
- Pra já ucê não é minha neta, o meu homem já morreu faz tempo, e o meu neto de leite se chama Gerinho. Ucê pergunta aí a qualquer pessoa que toda a gente o conhece.

-Onde trabalha o teu neto Gero?
-No Caminho de Ferro.
-No Caminho se Ferro dos comboios?
-Esse mesmo,

Suspiraram de alívio. As coisas estavam-se a compôr. Meteram a velha de novo na parte de trás do Jeep , atravessaram Lisboa de lés a lés,  em hora de ponta, e quando a viatura afrouxou a marcha, em Santa Apolónia, ela subitamente despertou, levantou-se e gritou, de dedo em riste:

-Pára, pára, é aqui mesmo. Tá ali a casa do sô Radich!
-Quem é esse Radich ou lá o que é?
-Já morreu faz tempo. Bom homem esse. É marido da Dona Beatrizinha, irmã do Sô Caleres do Banco, que casou com a Dona Branca, irmã do Patalim, e as filhas se chamam...

-Chega, chega, poça! Como é que se faz para calar esta velha, oh nosso Cabo? explodiu o motorista, engrenando a primeira e arrancando de esticão.

Bem, andaram com a velha por toda a Lisboa, de Jeep, atrás de pistas falsas durante dezassete noites,  a rádio fez apelos e a televisão passou fotografias e abordou com desenvolvimento aquele estranho desaparecimento da idosa retornada no noticiário das oito.

Após tantas notícias e apelos cruzados da polícia e do RC, este apareceu no posto policial afogueado, e abraçando-se à avó,  quase chorando recriminou:

-Então avó, isto faz-se? Toda a gente ficou em cuidados e não sabíamos mais o que fazer.
-Não precisava. Olha lá, e tu só agora é que apareces, não é? Disse ela, calmamente, agarrando nas coisas que a assistente social lhe tinha dado. Agradece à menina que faz muita pergunta pra nada e também a esses tchinderes que não estão bons da cabeça e que me levaram a passear por tanta rua esquisita.

-Ah!, e explica a eles onde fica a Torre do Tombo!


-E, de repente, fixando o neto, perguntou:
-É verdade, olha lá, como é mesmo como se chama as filhas da D. Beatrizinha, mulher do Radich da Alfândega. irmã do Sô Caleres, que é do Banco, que casou com a D. Branca, irmã do Patalim?


Fim

(Do caderno de memórias Contos Breves de Escárnio e Maldizer, de Mário Lopes.)