Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Mossamedes. Hidrografia: Rios Bero, Giraúl; Curoca, S Nicolau, Carunjamba,Piambo, Cangando, Cunene, Tchiambala.

 Hídrographia. 

A hidrographia de uma determinada região está inteiramente ligada á orographia, ao regimen pluvial, á natureza do terreno e sua constituição geológica. Vimos já que podemos considerar o Sul d'Angola dividido em quatro zonas orographicas, a cada uma das quaes corresponde um systema hidrographico. Indiquemos a traços largos, embora, o que se encontra mais saliente e característico em cada uma delias. 

Zona do litoral 

Na vertente do Atlântico, ou zona baixa do litoral, a rede fluvial é constituída por um certo numero de linhas d'agua que, originarias nas faldas ou contrafortes da serra da Chella, seguem para oeste e a curta distancia da costa inflectem o seu curso 
sensivelmente para noroeste, devido talvez á constituição e movimentos do terreno, dunas d'areia movediças em geral, açoitados pelo vento sudoeste. 

Todos elles são de corrente periódica ou curso intermitente, correndo permanentemente a agua apenas até alguns kilometros das suas origens, na quadra secca, até onde a evaporação ou a inliltração de terrenos permitte conserval-a, emquanto no restante 
curso até ao mar estão seccos, pelo menos á superfície, se bem que alguns conservem 
grossa toalha liquida sob as areias ou terrenos permiaveis. 

Na quadra pluviosa, ou seja devido ás chuvas do planalto ou á natureza do terreno e formações da base da serra, os numerosos afluentes, ravinas e depressões enchem a trasbordar e, lançando-se nos rios. produzem enchentes rápidas e perigosas, alagam os terrenos marginaes, levando a enchurrada até ao mar. Terminadas as chuvas ou passada a trovoada, as aguas baixam e ficam reduzidas a pequenas correntes superficiaes, para em breve, prolongando-se a estiagem, seccarem de todo. E os arroios ou regatos formados do excedente das aguas da infiltração do planalto, delle descem em cascatas, sómem-se a alguns kilometros depois de entrarem na zona arenosa, ou depois de lhe faltar o terreno rochoso e impermiavel.


Praia e forte de S. Fernando — Mossamedes 
Devemos notar que o regimen das chuvas tem aqui grande influencia na conservação das aguas destes rios. Emquanto na vertente oriental da Chella começa a chover em meados de setembro, alimentando logo as linhas de agua e as nascentes dalgumas que descem para occidente, na zona baixa só depois, de janeiro a maio, é que as nuvens formadas por fortes condensações na parte alta são impellidas pelo vento sueste para a zona litoral, provocando as chuvas que produzem algumas enchentes. 
O que parece, porem, não sofrer duvida é que o excedente das aguas do planalto se escoa por uma camada inferior para o litoral, atravez dos leitos desses rios e que, chegados á zona litoral, formam extenso lençol sub-arenoso. E é por isso que escavando alguns metros no litoral, ou até decimetros, nos rios, se encontra sempre agua

De todas essas linhas dagua as mais imj3orlaiiles e de curso independente, a começar pelo norte, são: o Carunjamba, Monaia-Cangando, S. Nicolau, Cuto ou Piambo, Giraul, Bero, Guroca e Tchiambala. 

Carunjamba. — O Carunjamba e o Monaia descem do nó montanhoso da Cavira na Chella e em rápido curso, declivoso e atravez de terrenos pedregosos, lança-se no mar, tendo agua apenas na epocha das chuvas. 

S. Nicoi.au. — O S. Nicolau recebe todas as aguas da vertente occidental da  Chella desde o nó montanhoso da Cavira á portelia da Quillemba pelos numerosos alluentes — Beníiaba, Cabia, Nongihue, Caniço, Mongonde e Maluco. Todos estes se conservam correntes duranle a maior parte do anno, seccando nalguns troços em setembro, conservando, porem, agua todo o anno em represas naturaes ou escavações fundas das rochas. Depois da juncção destes afluentes o S. Nicolau conserva agua permanente em numerosos pegos e fundões, quando não corre, o que nalgumas secções raras vezes deixa de acontecer. O curso deste rio e dosseus afluentes é declivoso e rápido, cheio de cascalho ou grandes pedras, enfra- 
gado e encaixado quasi sempre entre altas serranias. São hoje muito habitadas as margendos seus afluentes no curso superior. 

GiRAUL. — O Giraul recebe as aguas do ponto mais elevado da cordilheira da Chella, na sua vertente occidental, desde a Biballa ao Hokc, pelos S2US afluentes Munhino, Jimba, Sanla There:[a íLeba e Bruco), Bumbo (Banja) e Ovelundo. A excepção do ultimo, estes rios descem mesmo do vértice da Chella e correm constantemente até á base da mesma serra, e nalguns annos até se lançarem e confundirem no Giraul. Entretanto em todo o seu percurso se encontra agua permanente retida em grandes escavações em rocha atulhadas 
de pedras e areias, ou correndo mesmo por sob estas. Nalguns sitios encontra-se sempre a descoberto, noutros em pequenas nascentes e em todo o seu leito se encontra agua á superfície, bastando escavar alguns decimetros para se descobrir, como Rio Nene até fazem os próprios animaes que vivem nas suas margens, — as cabras, antílopes, etc. Todo o seu curso é bastante declivoso e, serpeiando atravez de altos morros e em terrenos pedregosos, atulha o leito com grossos pedregulhos e areias. O Giraul é habitado junto da foz e em toda a sua bacia superior até alturas da «Nascente» onde actualmente vive muita gente. 

Bero. — O Bero recebe as aguas duma grande extensão da vertente oeste da Chella e aindade uma grande parte do seu platcau. Estas derivam da Bata-Bata pelo Calombo, Bcmgolo e Cangalombe formando o Chacuto, do Jau e Onaheria pelo Quambambe e Munhere que formam o Tampa, e do Panguero pelo Tchipeio. Todos estes conservam corrente permanente até alcançarem o sopé da serra, depois de se terem despenhado pela vertente. Alem destes, outros afluentes de cursos periódicos, torrenciaes com as grandes trovoadas, formam o Bero, taes como o Hoke e Elephanlc que originam o Saiona e se lança nelle apenas no seu terço inferior. O Cambunga, Metaca, e outros que, seguindo para norte até se unirem ao Tampa, desviam depois para noroeste. O curso deste em tudo similhante ao Giraul e S. Nicolau, é de todos os da zona do litoral aquelle que conserva maior volume d'aguas correntes e estas se 
manifestam até mais próximo do mar. E isso é devido não só ao facto do seu curso ser também o mais directo entre a serra e o litoral e á grande quantidade de aguas que 
constantemente recebe do planalto, mas ainda á natureza dos terrenos em que abre o seu leito, o qual, sendo rochoso e duro, está atulhado de pedras e areias, não permittindo a infiltração nem facilitando a evaporação. No terço inferior, porem, alastra sob 
extensa camada arenosa, formando lençol, até ao litoral da vasta bahia de Mossamedes e a agua, a não ser nas enchentes, só pode descobrir-se cavando na areia. O Bero é 
habitado no seu curso inferior junto aos Cavalleiros, e em todas as margens dos seus 
afluentes no curso superior até á confluência do Saiona, sendo nalguns pontos muito 
densa a população como em Bata-Bata, Ongheria e Tchipeio. 

CurocA. — O Curoca, rio torrencial, intermitente e impetuoso nas cheias, tem as suas origens também no alto da Chella e é de todos o que offerece maior percurso. 

Recebendo as aguas dos terrenos dentre as duas cumeadas da Chella, que se separam a sul de Vana-Velombe, por vários afluentes de curso quasi constante, dirije-se abertamente para oeste e depois de entroncar com a Damba dos Carneiros, a uns 5 o kilometros do mar,inflecte para no-nor oeste até 

Passagem do Cunene na Hinga que, recebendo OUtras 

dambas nas alturas de S. Bento, corta directamente para o Atlântico, formando a bahia de Pinda. No seu curso inferior apresenta o leito uma largura média de 5o a 6o metros por 3 de profundidade. 

Os afluentes principaes que canalisam as aguas do plateau, são: o Taca proveniente do Panguero, o Mahipanjôo que vem do Pocólo, o Evero e Tiipembe, que seguindo todos para sul se vão lançando no Otchinjau que vem de leste, e, depois de se 
precipitarem na Ompupa, formam o Curoca. Este recebe ainda um outro afluente de 
importância na quadra das chuvas e originário da Chella, o Luaia, e algumas dambas 
e córregos que canalizam as aguas torrenciaes nas epochas das grandes trovoadas. O 
Curoca é habitado no curso inferior e em todos os seus afluentes da bacia superior até 
á Ompupa e com grande densidade, especialmente no Panguero e Pocolo. 

Vertente interior da Ciíeiia 

Cunene. — A região interior e a leste da Chella e contigua á mesma constitue, 
como já vimos, a bacia hidrographica do Cunene, cujas aguas recolhe por numerosos 
afluentes convergindo nas duas margens. 

O rio Cunene, o maior de toda a região oriental de Angola do Sul, nasce no 
montanhoso nó do Cahululo (Jamba) no Huambo, districto de Benguella, e segue para 
sul com varias inflexões ora a sueste ora a sudoeste, entrando com esse rumo no dis- 
tricto de Huilla; depois de receber o Caculovar, inflete um pouco para su-sudoeste até 
formar as primeiras cataratas ao attingir os primeiros braços da serra da Chella. 
Correndo depois para oeste, despenha-se atravez de cachoeiras, rápidos e outras cas- 
catas, curvando para noroeste, e, depois de ter transposto por completo a Chella, segue 
para oeste até se lançar no Atlântico. 



https://archive.org/stream/suldangolarelatr00alme/suldangolarelatr00alme_djvu.txt