Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

QUEM DISSE QUE MAUSOLÉUS do CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES NÃO SÃO MONUMENTOS HISTÓRICOS?



Mausoléu de João Duarte d'Almeida, colono cintemporâneo da fundadação de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por um conterrâneo

Mausoléu de João Duarte d'Almeida, Colono contemporâneo da fundação de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por um conterrâneo.

Mausoléu de João Duarte d'Almeida. Colono contemporâneo da fundação de Moçâmedes. Foto gentilmente cedida por um conterrâneo (1)

 

 

  Mausoléu do Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, o 1º médico-cirurgião contemporâneo da fundação de Moçâmedes. Embora não estivesse incluido no grupo dos de Pernambuco, Brasil, ali chegados em 1849 e 1850, toda a sua vida foi vivida em Moçâmedes, onde faleceu. (2)


QUEM DISSE QUE MAUSOLÉUS do CEMITÉRIO DE MOÇÂMEDES NÃO SÂO MONUMENTOS HISTÓRICOS?


Ninguém, certamente!






Na história da humanidade, a morte sempre foi a única certeza. Junto com ela veio o desejo de encontrar o caminho para a imortalidade. Os faraós do antigo Egito buscaram em suas pirâmides a vida eterna. Deixar seus feitos registados para a posteridade, foi a forma encontrada por heróis e reis da Grécia Antiga. A cidade dos mortos obedece em quase tudo à organização das cidades dos vivos.

Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida.

Mausoléus aristocráticos como aqueles que ainda hoje podemos ver no Cemitério de Moçâmedes, em Angola, são verdadeiros monumentos históricos, que como tal devem ser considerados, porque eles ultrapassam as suas funções ritualísticas e religiosas, são lugares que guardam Historia, que suscitam memórias, que oferecem ao visitante um manancial de informações que desvelam os primórdios da formação de Moçâmedes.Um lugar digno de ser visitado pelo residente e pelo forasteiro..

Sob esses Mausoléus repousam os restos mortais de colonos fundadores que chegados a Moçâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, ali se estabeleceram, ali viveram, ali trabalharam, ali tiveram filhos, netos e bisnetos, e ali acabaram por perecer.

Sob esses Mausoléus, a maioria dos quais mandado erguer pela Câmara da cidade, através de subscrições, repousam os restos mortais de colonos fundadores que chegados a Moçâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, ali se estabeleceram, ali viveram, ali trabalharam e ali pereceram.

E assim sendo, andar por um Cemitério pode proporcionar muito mais do que um sentimento de tristeza e de dor pela perda irreparável de um ente querido. A arte tumular oferece-nos uma viagem no tempo. Cemitérios são espaços que contam histórias sobre a História das gentes que habitaram as cidades que os incluem, são testemunhos do ambiente político, económico, social, artístico da sucessão das épocas desde que foram construídos. A cidade dos mortos obedece, em quase tudo, à organização das cidades dos vivos. Cemitérios possuem ruas e sepulturas numeradas, possuem capelas, sepulturas nobres e caras, simples campas de terra batida, zonas mais e menos valorizadas onde costumam estar sepultadas as personalidades mais influentes e menos influentes, criando-se uma hierarquização social que se estende além da vida. hierarquização social que é reflexo de como se vivia em cada época. Mas a arte tumular, como arte que é, pode também despertar os sentidos, trazer prazer ao observador...

Com a avançar do século XX, entrada no século XXI, e a opção dos crematórios, os Cemitérios perderam o esplendor dos velhos tempos enquanto depósitos de corpos sem vida, para se tornarem verdadeiros museus ao ar livre, lugares de Arte, de Arquitectura, e de Escultura, lugares de História, de Arquiologia e de Genealogia. Por tudo isso, em grande número de países, os cemitérios tornaram-se espaços de visitação turística disputadíssimos, uma mais valia a conhecer e a explorar.

A Rota Europeia dos Cemitérios é hoje uma realidade entre os povos que melhor os preservaram e continuam a preservar porque mais cedo tomaram consciência do valor artístico, cultural e histórico da velha casa dos mortos. A prática de se visitar cemitérios pelo simples prazer de conhecê-lo tem até um nome: Necroturismo. Em Lisboa, há visitas guiadas duas vezes por mês, aos sábados, ao Cemitério dos Prazeres, a procura é cada vez maior, e as receitas são crescentes, com o aumento do turismo cemiterial. Nesse Cemitério, o terceiro maior da Europa, as visitas de turistas ao jazigo dos duques de Palmela, batem records. Como defende Francisco Queiroz, “a arte fúnebre foi criada para homenagear os mortos, mas também para os vivos desfrutarem dela”. As Câmaras em Portugal começam a investir na preservação dos Cemitérios seguindo o exemplo de outros países. Em Paris, a cidade das "Luzes", a prática da visitação turística aos Cemitérios instalou-se no início do século XIX.

Este assunto é trazido aqui porque talvez um dia Moçâmedes venha a ter o lugar que merece no Turismo nacional e internacional, e talvez este Cemitério possa vir a enfileirar o roteiro dos lugares a visitar. Ou até num tempo mais próximo se este Cemitério vier a ser visitado por estudantes tendo em vista trabalhos escolares, quando a História de Moçâmedes, no decurso de pesquisas, como por escritores, historiadores, curiosos, etc .

Posto isto, passamos a debruçar-nos sobre o perfil de pelo menos dois homens da fundação de Moçâmedes, que embora não tivessem feito parte dos grupos de pioneiros fundadores da cidade, ali chegados nos anos 1849 e 1850, vindos de Pernambuco, Brasil, são consagrados na obra “O Distrito de Moçâmedes na Fase da sua Origem e Primeira Organização: 1485-1859”, de Manuel Júlio de Mendonça Torres, como ombreando ao lado desses  mesmos fundadores.

Sobre  João Duarte d' Almeida (n.1822), sabemos que era natural de Midões, Beira Baixa - Portugal, filho de João Duarte d' Almeida (Bacharel em medicina) e de D. Ana Emília Duarte de Almeida ( Ana Emília Brandão, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça). Casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes, em 1850. Tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. 

Orfão de pai, muito cedo João Duarte d' Almeida resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, onde se encontrou com Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, em Moçâmedes, após estadia em Benguela. No livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), podemos ler a notícia de que quando Bernardino chegou a Moçâmedes, em 04 de Agosto de 1849,  chefiando a 1ª colónia vinda de Pernambuco, já ali encontrava João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela".

A "urzela" é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtém uma tinta azul arroxeada de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à beira mar. Cabo Verde foi um grande produtor de urzela.

Outro produto que também se lhe atribui a exploração levada a cabo em Moçâmedes, é a "goma copal", uma resina especial à qual os produtos sintetizados vibraram um duro golpe.

Sabe-se que João Duarte d' Almeida  tornou-se um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas "S. João do Norte" e "S. João do Sul", no Coroca, em Porto Alexandre. Há referências que logo em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau, e a terceira no Coroca. E que já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como a indústria de "charqueação" .

Outras notícias referem que no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, João Duarte de Almeida possuía já 11 fazendas no distrito de Moçâmedes, onde cultivava algodão, empregando entre trabalhadores escravos e libertos o total de 350, sendo sua a maior das fazendas da região. A produção anual nessa época calculava-se em 1780 arrobas de algodão. E que em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si.

Duarte de Almeida, foi o maior possuidor de algodoais nas suas fazendas de S. João do Norte, de S. João do Sul e de S. Nicolau, e principal exportador de algodão do Distrito, Agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo.

Os seus esforços levaram a que Mendonça Torres no seu livro sobre Moçâmedes daquele tempo lhe conferisse a reputação de maior cultivador de algodão e de cana de açúcar para aguardente, e ainda de activo descobridor da "almeidina", em 1883, um produto com uma boa percentagem de borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale que comercializou com êxito (vidé Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). A "almeidina" foi introduzida no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola, ambos de Moçâmedes.

Seria necessário  termos uma noção mais abrangente daquilo que era a Angola desse tempo, um tempo em que na Metrópole, os ventos da Revolução Francesa que sopraram além Pirinéus, e a penetração da maçonaria levou ao fim a velha ordem absolutista, a sociedade dos 3 Estados (Clero, Nobreza e Povo) em que os dois primeiros usufruíam de todos os privilégios, enquanto sobre o povo e a burguesia emergente, o 3º Estado, suportava a carga dos trabalhos e dos impostos, num país sem escolas, onde ao povo miserável restava a emigração, e onde o analfabetismo rondava os 95%. Este o panorama em que tiveram lugar as invasões francesas, a fuga do Rei e da Corte para o Brasil, a revolução de  1820. a independência do Brasil (1822), as lutas entre liberais e absolutistas, o triunfo do liberalismo (1834),  e as lutas entre facções do liberalismo que percorreram todo o resto da 1ª metade do século XIX português. Insere-se aqui  colonização de Moçâmedes em 1849, que aconteceu numa altura em que no Parlamento português, enquanto uns passaram a olhar a África, e sobretudo Angola, a colónia mais rica, como um novo Brasil em África, outros contrapunham a necessidade de povoar o Alentejo abandonado à sua sorte, num pais carente de gente para si mesmo, necessitado de uma total Regeneração. Por essa altura havia chegado ao Parlamento uma Petição subscrita por portugueses de Pernambuco que haviam sido maltratados na voragem da "Revolta Praieira", e solicitavam ao Governo português passagens e ajudas nos primeiros tempos, para todos os cidadãos lusos que quisessem transferir-se dali para qualquer ponto do globo onde tremulasse a bandeira portuguesa.  E assim nasceu Moçâmedes, com esse grupo de pioneiros chefiados pelo professor de História no Colégio Pernambucano, Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, com quem  João Duarte de Almeida se foi encontrar, quando resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, tendo em meados do século XIX (1838?) viajado para Angola, e se fixado primeiro em Benguela, mais tarde em Moçâmedes. Infelizmente os seus restos mortais de Bernardino, considerado o fundador de Moçâmedes, não repousam neste Cemitério nem em qualquer outro do Distrito, o que é de estranhar. Sabe-se que Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 18 71, e  que tinha então  62 anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ido em serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla. Memoriais: somente o grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto muito simples no jardim da cidade, implantado cerca de 90 anos depois da sua morte. As autoridades portuguesas não lhe prestaram a homenagem devida.


Cabe aqui também uma referência para outra grande figura da colonização de Moçâmedes,  o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro,  1º médico-cirurgião da terra,  cujos restos mortais repousam neste Cemitério sob Mausoléu artístico mandado erguer por subscrição da população de Moçâmedes. Também Lapa e Faro embora não tendo pertencido aos grupos que chegaram à velha Angra do Negro, oriundos do Brasil, em 1849 e 1850, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro e por José Joaquim da Costa, segundo Manuel Júlio de Mendonça Torres no seu livro sobre Moçâmedes publicado em 1854,  activa e dedicadamente prestou inolvidáveis serviços ao Distrito e às suas gentes na fase da sua formação, pelo que a sua veneranda memória se tornara credora da singela, mas expressiva homenagem, que aqui deixamos reproduzida.  

Pessoa de índole bastante popular, o Dr Lapa e Faro  não se limitou a exercer clínica, a entrar para salvar as gentes da terra, tanto no Palácio como na mais humilde palhota dos arredores. Além de médico e articulista foi um elemento activo na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações.

Quase dois anos depois de ter chegado a Luanda, fez parte, com o segundo-tenente Carlos Frederico de Almeida Afonso. do grupo do major Marcelino Antonío Norberto Rudzki, encarregado de fundar um estabelecimento militar no Pinda que ficava na margem esquerda do rio Curoca, junto à foz . Este estabelecimento antecedeu a fundação de Porto Alexandre, que somente vai ter lugar em 1860. O grupo de Rudzki chegou à baía do Pinda no já mencionado brigue de guerra Serra do Pilar, acompanhado do brigue-escuna Trindade, em 6 de Dezembro zembrode 1854(3). 

Os trabalhos para a escolha do local e construção das novas instalações militares duraram oito meses, tendo sido dadas como concluídas em Agosto de 1855, data em que os mesmos três oficiais regressaram a Luanda. Rudzki e a sua equipa deixavam assim, para os lados da fronteira sul de Angola, um quartel militar com boas acomodações, bem como uma granja cheia de vegetais, frutas, hortaliças, e o mais importante boas relações com a gente da região, os curocas. Uma vez regressado do Pinda a Luanda, e no quadro de saúde daquela ex-provincia portuguesa Lapa e Faro não descansou enquanto não foi prestar serviços, tendo, depois, sido colocado na recém-criada vila de Moçâmedes, para onde foi em principias de 1857. Em 1858, Lapa e Faro fez publicar um trabalho a que chamou «Breve Noticia Sobre Moçâmedesl».


No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta-se ter sido levado a debate o assunto da construção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e de uma estrada de Moçâmedes para Huila, e ainda estudos para a construção da casa para repartição de obras publicas, deposito e Observatório Meteorológico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza. Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo", publicado por volta de 1888, sobre as obras do Palácio-residência do Governador de Moçâmedes, iniciados em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal, e concluído trinta e um anos depois, continuado mais tarde, conta que estas decorreram segundo um risco de Lapa e Faro que veio sofrendo várias modificações.

Mas Lapa e Faro foi também com a sua personalidade artística aquele que mandou erguer na Moçâmedes daquele tempo, a célebre casa da ex-Rua Calheiros, de arquitectura de inspiração romântica, em "Arte nova", ou "Arte noveau", que remonta aos primórdios da fundação, quando Moçâmedes pouco mais era que um imenso deserto, a maioria das casas eram ainda precárias, e difícil e até mesmo impossível era a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe. 

E também foi obra sua o Palacete da Horta do sítio da Nação, Aguada. Em ambos os casos um riquíssimo património erguido num tempo  em que a maioria das casas eram ainda precárias, difícil e até mesmo impossível a obtenção do material necessário, uma vez que tudo vinha de longe.  

Infelizmente o belo edifício em Arte Noveau da ex-Rua Calheiros, carente de conservação e de restauro, encontra-se em risco de queda eminente  e de  perda total, se nada entretanto vier a ser feito, como aliás se prevê. 

A saber, o "Arte Noveau" surgiu em Paris e na Bélgica, na 2ª metade do século XIX, se espalhou pela Europa e pelo mundo, fruto das mudanças estéticas que acompanharam as inovações trazidas pela sociedade industrial essencialmente burguesa, cujos gostos, opondo-se ao classissismo aristocratizante, veio promover uma verdadeira revolução ao nível da arte e da arquitectura. 

Em Portugal houve um inevitável aportuguesamento com a conjugação de elementos manuelinos, além de outros pormenores e foi sem duvida  uma época em que o património nacional enriqueceu com obras geniais, verdadeiros tesouros artísticos repletos de belas cantarias, estatuária, vitrais, ferragens, gradeamentos, pinturas e frescos, estuque , motivos florais,  soalhos, mibiliário, etc. Irreversivelmente já se perderam alguns dos mais preciosos exemplares  deste riqíssino património, outros mais estão prestes a perder-se para sempre, abandonados ou à espera de melhores dias, demolidos para dar lugar a odiosos "mamarrachos", condenados pela ignorância e pela ganância... São o que resta de uma "Belle Époque".
Soubemos através da obra de Cecílio Mreira que  o próprio director do hospital local, o médico de primeira classe dr. Lapa e Faro, caíu gravemente enfermo, e que escreveu então ao seu querido amigo, o sábio naturalista José Alberto d'Oliveira Anchieta, naquela altura a fazer explorações em Caconda , a mais de trezentos quilometros a norte para o interior, a pedir para lhe tratar e tomar conta dos doentes como aconteceu. Anchieta quando chegou a Moçâmedes encontrou os medicamentos já esgotados (o clássico quinino usado nesta altura para a cura desses males à base de leite, que a experiencia de longos amos pelos matos de Angola , em contacto com os nativos lhe havia ensinado  com bons resultados. De cultura invulgar, Lapa e Faro era um homem assim, um jovem médico, que ficou preso à imponência do Deserto do Namibe, à paisagem dum mundo diferente que assusta mas atraí e convida à aventura, a desvendar o desconhecido. Por outro lado, colonos foragidos ao nativismo brasileiro em 1849 e 1850, tinham vindo da outra banda do Atlântico fundar a colónia de Moçâmedes. Este novo agregado populacional do Sul teve logo de inicio à sua frente homens de vulto, quer como colonos, quer como governantes, e até mesmo como deportados políticos que naquela altura por ali passaram. 

Nesse trabalho Cecilio Moreira dã.nos do autor dá-nos uma visão clara da forma como e onde estavam a funcionar os Serviços de Saude locais, Administrativos, sobre a Fortaleza de S, Fernando, a igreja e o começo do palácio do Govetvador. Fala-nos também sobre os europeus e nativos, sobre as habitações da vila, e ainda das propriedades agrícolas nos subúrbios . Da mesma forma, em 17 de Março de 1863, apareceram algumas considerações sobre o estado sanitátio da vila devidas a um estido do notável médico João pereira Lapa e Faro (...). Encontra-se esta referencia num atrigo publicado na Revista Portuguesa Colonial Maritima» de 1897/98, pág. 779. Quando Lapa e Faro ali chegou, levantaram-se as primeiras moradias e os primeiros sobrados que mais tarde vieram a formar a bela cidade do Namibe. 



MNJARDIM



Ver tb;
https://www.marinha.pt/Conteudos_Externos/Revista_Armada/1985/index.html#p=392