Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 25 de maio de 2019

TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO















TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão.Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 
DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
Do LUSO ,meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
Dos CACILHEIROS sulcando o Tejo, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO

Amilcar Sousa Almeida