Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 6 de setembro de 2019

LENDO E APRENDENDO SOBRE A HISTÓRIA DE ANGOLA, COM FLAUSINO TORRES








"...Depois de 1885, em que se realizou a Conferência de Berlim para a partilha da Africa, o governo da Monarquia lançou-se na ocupação militar dos territórios a que se chamava Portugal, pois essa ocupação era, segundo as decisões da Conferência, obrigatória para que nenhuma potência ambiciosa pudesse afirmar que apenas as costas estavam dominadas.

E foi esta a politica que o Governador de Moçambique, António Enes, com o título de Comissário Régio, desenvolveu na colónia que estava a seu cargo. Foi por essa altura que se levou a cabo uma campanha de destruição de certos régulos indígenas, entre os quais há que salientar o muito conhecido Gungunhana. E foi dentro desta política do governo e do Comissário Régio que se tiveram determinados combates em que se salientou a figura de Mouzinho de Albuquerque.

A mesma politica que alcançou exito em Moçambique em 1895, foi desenvolvida na Guiné, em Timor e em certas regiões de Angola, continuando ainda, também a praticar-se em Moçambique.

Esta orientação de ocupação militar foi seguida de várias tentativas de ocupação populacional branca. Mas sem aquele sucesso que esperavam alguns dum país que tinha então uma forte emigração, sobretudo para o Brasil.

Entretanto a politica de expansão colonial (com as respectivas disputas, resultado da concorrência, principalmente entre a França, a Inglaterra e a Alemanha) reflectia-se nas colónias portuguesas, pois que tanto a Angola como Moçambique tinham como vizinhos a Alemanha e a Inglaterra. À Alemanha tinha cabido o território ao Norte de Moçambique, conhecido então por Tanganica, ao sul de Angola, o Sudoeste Africano Alemão. Se a fronteira ao norte de Moçambique estava claramente limitada pelo rio Rovuma, já assim não acontecia à fronteira do sul de Angola, pois o Deserto do Calaari, estentendo-se para o Norte e para o Sul do Cunene, abafava este rio com as suas areias. Daí disputas e questiúnculas constantes que obrigavam à construção de uma verdadeira rede de fortins que defendessem a colónia pelo lado sul.

Para isso era igualmente necessário evitar a subordinação dos indígenas que os alemães ajudavam em tudo aquilo que pudesse provocar perturbações. Com este objectivo foi enviada para o sul de Angola, nos últimos anos na Monarquia, uma série de destacamentos militares,

A guerra de 1914-18 já no período republicano (a Republica tinha sido proclamada em Outubro de 1910) favoreceu extraordinariamente a politica expansionista alemã. e logo em 1915, antes portanto da entrada de Portugal na guerra, que somente se verificou em 1917, forças militares alemães atravessaram a fronteira, que já então se encontrava mais bem definida, e ocuparam territórios, indiscutivelmente para além das suas fronteiras, depois de terem expulsado as forças militares portuguesas. isto deu lugar a que o governo republicano fosse obrigado a mandar uma razoável expedição militar, não só com o objectivo de recuperar os territórios perdidos mas de pacificar os indígenas que, aproveitando a fraqueza portuguesa se tinham insubordinado: foi a chamada Campanha do Cuamato.

Vencida a Alemanha em 1918, e entregues as suas duas grandes colónias citadas à administração inglesa, entrou-se em Angola e Moçambique, numa politica de pacificação e exploração económica colonial. O grande orientador desta política foi em Angola Norton de Matos; e em Moçambique, o escritor e político Brito Camacho ( que aproveitou motivos africanos para alguns dos seus contos) , e Álvaro de Castro. 

A exploração colonial tinha sido iniciada ainda no tempo da Monarquia com a criação de algumas Companhias Majestáticas e que tinha sido entregue quase que por inteiro, a própria administração da região. Data de então a fundação da Companhia de Diamantes de Angola, a que foi entregue com direitos exclusivos de exploração, o distrito da Lunda quase completo. Esta empresa é hoje uma das maiores de toda a África. Rasgaram-se linhas de Caminho de Ferro na direcção do interior, partindo de portos como Lobito, Benguela e Lourenço Marques, Para que a ocupação fosse rentável, era preciso dar um desenvolvimento aos portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldade de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos que permitisse que as mercadorias trazidas do interior pudessem ser embarcadas sem dificuldades de maior. Foi assim que nasceram e se desenvolveram portos como o de São Paulo de Luanda, Lobito e sobretudo Lourenço Marques na Africa Oriental, pois que era a saída das minas do Rand.

Entretanto surgia a Grande Guerra de 49-45; e depois dela inicia-se o movimento conhecido por libertação dos povos coloniais. Depois de uma grande parte da África se ter constituído em Estados independentes, ou pelo menos com grande autonomia, dentro dos antigos impérios coloniais da França e de Inglaterra, chegou a vez às colónias portuguesas.
de Angola, Moçambique e Guiné sentirem as consequências deste movimento de autonomia. E em 1961 inicia-se a luta com este objectivo, em Angola, norte de Angola, seguindo-se-lhe a do Norte de Moçambique, e um pouco mais tarde o da Guiné. Já então estas três colónias eram exploradas e praticamente orientadas por algumas grandes empresas com sede em Lisboa, mas com prolongamentos coloniais como por exemplo o Banco Nacional Ultramarino, a Companhia União Fabril e o Banco de Angola. 

Logo que a luta assumiu maiores proporções, com o envio de alguns exércitos metropolitanos, o Alto Capitalismo Internacional, na pessoa de empresas do género da Krupp e da Gulf Oil Company..., começaram-se interessando a fundo pelos problemas de Angola e Moçambique, desenvolvendo-se então a exploração, sobretudo do subsolo, E assim nasceu a exploração do ferro e do petróleo, do urânio, do cobre, em escala desconhecida até então. 

Assim terminou com carácter internacional a ocupação e colonização que se tinha iniciado com o objectivo de fazer frente, exactamente, à penetração de grandes potências. Se a Alemanha foi infeliz na tentativa (durante a Primeira Guerra Mundial) de domínio do Norte de Moçambique e Sul de Angola; se a Inglaterra também não foi feliz com as suas tentativas de partilha, por ela e pela Alemanha, destas duas colónias ---mais felizes foram seus imensos capitais. que conseguiram entrar sem armas na mão! O Alto Capitalismo internacional está bem patente da grande empresa que acaba de ser construída para o domínio das águas do Zambeze.

Ele criou duas ordens de dificuldades, ao autóctone que pretende a independência ou a autonomia; e a alguns centos de milhares de colonos, pequenos colonos, portugueses que na agricultura, na pastorícia, na pequena indústria e no comércio vivem há anos de um trabalho honrado que se ia transformando em movimento de civilização."


In FLAUSINO TORRES: PORTUGAL, uma PERSPECTIVA da sua HISTÓRIA . Afrontamento/Porto. 1974.


Nota: Título Original: HISTÓRIA DE PORTUGAL . Editado em Praga pela Universidade pela Universidade Carlos, em 1970.