Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 20 de outubro de 2019

ESCRAVIDÃO EM ÁFRICA ANTES E DEPOIS DAS ROTAS ATLÂNTICAS


Todos os povos cometerem actos deploráveis no decurso da sua História, e a História dos povos africanos, no antes e no depois dos colonialismos, não está isenta de tal. Todos os povos devem  assumir a sua quota de responsabilidade.


Como se sabe houve escravidão africana feita pelos africanos, nada disso é tabú, quando se fala a sério de escravidão. Está bem documentado. O comércio de escravos existiu em África desde a Antiguidade, porém o número de escravos acentuou-se na Idade Moderna, com o tráfico negreiro europeu.

Por vezes aqueles africanos que assumem a escravidão africana, feita pelos africanos, tendem a avançar com a ideia de que foi uma escravidão diferente, doméstica e não mercantil, deixando subentendido que seria familiar, moderada, quase acolhedora. O escravo não era uma mercadoria, mas um braço a mais na colheita, na pecuária, na mineração e na caça; um guerreiro a mais.
E se um escravo fosse fiel ao seu senhor poderia ocupar um cargo de prestigio local, inclusive possuir escravos seus. Ser escravo de africanos não era uma condição de humilhação e desrespeito, e que mesmo representando uma submissão, defendem tratar-se de uma situação próxima de pessoas livres, que eram tratados como iguais, quando sabemos que a escravidão na África se desenvolveu de várias formas, e que em paralelo à escravidão doméstica existia o comércio de escravos. Algumas sociedades africanas viviam da guerra para a captura de africanos para serem vendidas a outros povos que necessitavam de escravos, primeiro aos árabes do norte de África, depois aos portugueses. Como na África subsaariana existiam várias etnias, vários grupos políticos diferentes (os africanos não eram um único povo), as guerras entre eles eram frequentes, e a escravização dos vencidos uma consequência, e estes podiam ser vendidos segundo a necessidade do vencedor. Esses africanos que praticavam escravatura preferiam as mulheres como escravas, já que elas eram as responsáveis pela agricultura e poderiam gerar novos membros para a comunidade.   No entanto, na sua visão preconceituosa, ganância e crueldade são práticas desumanas do exclusivo dos brancos, quando sabemos que infelizmente não foi assim, nem é assim, e encontramo-las ainda em profusão em todos os continentes, nos dias de hoje.
Quanto ao comércio árabe de escravos este intensificou-se no século VII, quando conquistaram o Magreb e o leste africano. Eram grandes mercadores de escravos, e conseguiam suas mercadorias humanas em diversas regiões: Espanha, Rússia, Oriente Médio, Índia e África. Os escravos comprados nessas regiões eram vendidos principalmente na península Arábica, mas também podiam ser vendidos em regiões mais distantes, como na China. 
Tidiane N'Diaye, antropólogo e economista franco-senegalês, publicou "O Genocídio Ocultado" em 2008, onde considera que o tráfico de escravos árabo-muçulmano e a escravatura realizados durante quase mil anos, ainda não foi reconhecido em toda a dimensão. Como refere , eles foram os únicos a praticar este comércio miserável, deportando quase 10 milhões de africanos, antes da entrada na cena dos europeus. Ou seja, do sétimo ao décimo sexto século, durante quase mil anos. Refere ainda que a penetração árabe no continente negro iniciou a era das devastações permanentes de aldeias e as terríveis guerras santas realizadas pelos convertidos a fim de obter escravos de vizinhos que eram considerados pagãos. Quando isso não era suficiente, invadiram outros alegados "irmãos muçulmanos" e confiscaram os seu bens. Sob este acordo árabe-muçulmano, os povos africanos foram raptados e mantidos reféns permanentemente. Sem ignorar o tráfico transatlântico que se segue durante quatro séculos, Tidiane N'Diaye considera que "os árabes arrasaram a África Subsariana durante treze séculos ininterruptos" e que a "maioria dos milhões de homens por eles deportados desapareceu devido ao tratamento desumano e à castração generalizada".



Quanto tráfico e à escravatura levada a cano pelos portugueses, estes quando chegaram a Ceuta, no início do século XV, iniciaram a captura e escravização dos africanos das redondezas, com a justificativa de que eram prisioneiros de guerra e muçulmanos, considerados inimigos da fé católica europeia. A partir de então, em pleno processo de expansão marítima, avançaram em direcção ao sul, na costa atlântica da África, em busca de riquezas para serem comercializadas e foram descobrindo o comércio de escravos. Num primeiro momento, o comércio de gente não interessou aos portugueses, já que a Europa à época não tinha necessidade de mão de obra escrava, mas quanto mais avançavam na costa africana, mais sentiam a necessidade de se estabelecer em alguns pontos de comércio, para consolidar sua exclusividade na região.
Em 1455 construíram a primeira feitoria no norte de Arguim (actualmente a Mauritânia), e para a manter passaram  capturar escravos africanos e a utilizá-los,  mas rapidamente perceberam que era mais lucrativo entrar nas redes de comércio de escravos já existentes, e começaram a buscar essa mercadoria junto aos povos mais próximos do litoral. Um dos primeiros povos aliados dos portugueses no tráfico de escravos foram os jalofos, na Senegâmbia....Em troca os jalofos conseguiam cavalos dos portugueses (um cavalo era trocado por 15 ou 20 escravos) e armas de fogo, o que aumentava o seu poder de guerra e de conquista de mais escravos.
Com o início da colonização das ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (na segunda metade do século XV), a necessidade de mão de obra aumentou, e a compra de escravos foi a solução encontrada pela Coroa portuguesa.  Na mesma época, os portugueses chegaram à Costa da Guiné (actualmente desde a Guiné até a Nigéria), onde encontraram povos ricos que já negociavam com os árabes e puderam com eles comercializar ouro, especiarias e escravos. Tamanha era a riqueza da região que os portugueses passaram a chamá-la de Costa do Ouro, Costa da Mina e Costa dos Escravos.

Em 1482, Diogo Cão e as caravelas chegaram ao Reino do Congo e foram feitas alianças com o manicongo ("senhor do Congo") Nzinga Kuvu, ma base de interesses mútuos: os portugueses  pretendiam um  maior acesso às redes de comércio em África, e o manicongo pretendia obter técnicas de guerra e de navegação, incluso converteu-se à religião católica, e passou a chamar-se Dom João. Por 4 séculos o Reino do Congo e do reino vizinho, Andongo, chamado  Angola pelos portugueses foram a maior fonte de escravos do tráfico atlântico português deu-se a partir daí.  Esta situação ocorreu principalmente quando os portugueses conseguiram o direito de negociar mão de obra escrava para a exploração espanhola da América e passaram a precisar da mesma mão de obra para desenvolver a sua colónia americana: o Brasil onde chegaram em 1500. 
O tráfico acabou abolido após séculos em estranho silêncio sobre a permanência da servidão e da escravidão, e foi abolido porque a intelectualidade ocidental, destacando-se os integrantes do Iluminismo anglo-francês, passaram no século XVIII, justamente aquele em que o tráfico negreiro foi mais intenso e lucrativo para os mercadores, a denunciar o horror e a desumanidade da instituição servil.  A consequência directa contra a utilização da mão de obra cativa na vida produtiva das sociedades, foi a crescente indignação moral que levou ao surgimento de sociedades filantrópicas e abolicionistas, tanto em Londres como em Paris, que fizeram intensa agitação em favor da abolição do tráfico e do fim dos grilhões que prendiam seres humanos, criando desde então um cenário favorável para que, especialmente após a Revolução francesa de 1789, a instituição servil se visse condenada para sempre. Filósofos do Iluminismo, como o Abade Gregório ou mesmo Montesquieu, defendiam os negros, enquanto no mundo árabo-muçulmano os intelectuais mais respeitados, como Ibn Khaldun, afirmavam que os negros eram animais. Nenhum intelectual do Magrebe levantou a voz para defender a causa dos negros. 






O século XIX levou ao auge a ebulição em torno da questão da escravidão, que iria culminar na abolição do tráfico, mas foi no século XVIII, quando o tráfico negreiro atingiu os máximos, que explodiu na Europa a indignação moral contra a situação, criando um cenário favorável para que e a  Revolução Francesa tivesse lugar, abrindo espaço para novas realidades, de entre a quais o viver em Democracia. A Inglaterra, uma das nações com maior actuação no comércio de escravos, passa a encabeçar a campanha abolicionista e foi esta potência europeia pioneira da industrialização quem primeiro requereu o fim do tráfico atlântico e em seguida a abolição da escravidão.   

A abolição está, pois, relacionada com o já citado movimento filantrópico e abolicionista, com a  Revolução francesa e com os ideais iluministas de Fraternidade, Igualdade e Liberdade, mas não podemos ignorar a Revolução Industrial que teve ao leme a Inglaterra,  potencia que  em 1884/5 teve um papel cimeiro na Conferência de Berlim (1884-5), a célebre Conferência  que teve como objectivo o estabelecimento de regras para a chamada "Partilha da África" entre as potências europeias industrializadas. A Inglaterra havia descoberto a máquina a vapor que libertava braços de trabalho, e a África potencialmente rica em matérias-primas, proporcionadora de mão de obra barata assalariada, e mercados consumidores, era essencial para o avanço da Revolução Industrial para a sua 2ª fase.
O interesse sempre ao leme das grandes calamidades, mas também das grandes decisões que foram levando ao avanço da humanidade. O que é incontestável, é que foi na Europa, também ela sofrida e a fazer sofrer, que o grande salto positivo para a humanidade aconteceu.  

Como disse o Papa Francisco, em 2014: “A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade,unicidade e irripetibilidade de cada pessoa humana. 

Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da História, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente», dando origem precisamente ao conceito de«pessoa». 

A ter presente a Revolução Industrial inglesa impulsionada pela descoberta da máquina a vapor, iniciada na segunda metade do século XVIII veio modificar completamente os parâmetros sociais e económicos, ao  deitar por terra os regimes absolutistas.
Olhando do alto, foi a dinâmica do Capitalismo e as necessidades da Industrialização que vieram modificar os parâmetros sociais e económicos.Tal como foi a necessidade de acumulação de capital que deu inicio à instituição servil, Tudo interligado.
A História dos povos não pode ser coisa séria quando divide as pessoas em boas e más de acordo a mera cor da sua pele. Em cada povo, há pessoas boas e há pessoas más, O crime do tráfico de escravos que vem da antiguidade, tocou a todos os povos. O interesse cega as pessoas, e toda as situações devem ser compreendidas no quadro ideológico, político, económico e institucional de cada época. Compreendidas não e o mesmo quer aceites.

Como refere Mônica Lima: "Não há como recuperar a africanidade, sem conhecer a própria história da África. Ao mesmo tempo, é necessário despir-nos dos preconceitos etnocêntricos (olhar um povo ou etnia com valores de outro) a África como lugar atrasado, inculto, selvagem – e deixar de supervalorizar o papel de vítima- do tráfico, do capitalismo, do neocolonialismo, atitude que alimenta sentimentos de impotência."
Gaspar Correia (sec. XVI), in “Lendas da Índia“ refere que “Nenhuma cousa desta vida é tão aproveitável aos viventes, que a lembrança e memória dos males passados para do mal nos guardarmos, regendo a vida para nele não cairmos segundo os bons fizeram.”
NJ