Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 22 de outubro de 2019

INSTRUÇÕES RELATIVAS A ARBORIZACÃO DA ZONA LITORAL DE MOÇÂMEDES







Por poder prestar eventual serviço Câmara Municipal de Moçâmedes e comissões municipais do sul, se publica a «Informaçáo» seguinte extraida das Instruções que nesta data se forneceram ao agricultor diplomado João da Costa Terenas Júnior, enviado em missão à mesma cidade de Moçâmedes :
Visto não poder contar-se com chuvas nem com as superficiais, as possibilidades de arborização e revestimento de areias na zona ocupada pela cidade e seus subúrbios, quando se considere o problema na sua largueza completa, acham-se por agora em íntima ligação com as possibilidades e condições das águas subjacentes. Procuram as raízes, por si, as humidades subterrâneas, e em Moçâmedes existe o lençol aquoso donde as cacimbas da cidade se alimentam. 
Portanto, se plantas próprias fossem preparadas em viveiros, acompanhando-as com regas ate ao necessário desenvolvimento. e em seguida se transplantassem para lugares onde o referido lençol subjacente se encontre em profundidade acessível as raízes, parece que haveria probabilidades de exito. Assim, dentro desse mesmo principio, trabalham os árabes do Saara, quando, antes de plantarem os seus palmares, escavam fundo as areias, a fim de que as raízes mais breve alcancem as camadas húmidas inferiores. E eles criam os oásis.


Vê-se pois que convém saber quais são os lugares cuja superfície natural menos afastada se encontra dos substratos aquosos. Não tem de facto esta Repartição elementos para esclarecer o regime das águas infiltradas que constituem esse lençol aquoso de Moçâmedes, qual seja o seu nível, quais as suas correntes, quais as suas variantes em função das cheias
periódicas do Bero, etc., e neste sentido só uma serie metódica de sondagens poderia informar devidamente.
Todavia essa deficiência talvez em parte, e para o caso de que se trata, a possam, até certo ponto, suprir as informações locais, baseadas nas cacimbas que se têm por ali aberto, e noutros eventuais indicadores. Averiguado que seja o possível, nesse ponto de vista, ficam porventura mais
ou menos indicadas as zonas onde as plantações devem encontrar mais facilidades relativas. Talvez suceda todavia que, mesmo nessas zonas melhor favorecidas, a camada seca apresente ainda espessura importante. Deveria recorrer-se então, ou a praticas semelhantes às dos árabes do Saara,
ou ao emprego de galerias captantes (Vide Hidráulica Agricola, Durand-Claye Tomo 1, pag. 305 e seguintes), ou de barragens subterrâneas (idem -Tomo 11, pg. 378 e seguintes), ou oportuna combinação de todos esses sistemas, e ainda de outros. Apesar de o empreendimento nesses termos representar despesas talvez atendíveis, convém todavia prevê-lo e estudá-lo. Acerca desta matéria transcrevem-se, pelo ensinarnento que possam conter, as informações seguintes, relativas a plantações no delta do Nilo. 


Os viveiros (trata-se de casuarinas) situam-se em lugar onde possa haver rega, e têm-se obtido por meio de sementes em pura areia. Depois são as casuarinas plantadas no local definitivo, a distância do canal, da maneira seguinte :
Enterra-se na areia um cilindro de ferro de 14 centirnetros de diâmetro por 60 de comprido, e substitui-se a areia que fica dentro por boa terra. Em seguida tira-se para fora o cilindro, e mete-se então a planta nessa terra, onde as raízes encontram alimento para os primeiros tempos até encontrarem a camada húmida, Nas plantações do Canal de Suez (terrenos siliciosos e em parte arenosos) têm sido aplicadas «casuarinas equisetifolia» «Acacia nilotica», «Cupressus macrocarpa», «Eucalyptus Globulus» e «E. robusta», com irrigaçóes enquanto as raizes náo atingem as camadas húmidas, e no talude e revestimentos, «Tamarix nilotica», «T. gallica», «T. articulata», Alfa e (Atriplex halimus". Na ilha de Chipre, que sofre de secas, e onde portanto se escolhem as plantas que melhor as suportem, têm feito uso do «Atriplex semibacatum» (originário da Austrália, nascendo bem em terreno salgado e fornecendo boa forragem), das gramineas vivazes «Pennisetum longistylum» e «P. rupelianum», da Alfa, do «Quercus oegilops» e das «Prosopis juliflora» e «P. pubescens», as quais (estas duas últimas) dispensam rega ali, em consequência do grande poder de penetraçáo das suas raiz

O sr. Júlio Henriques (Agricultura Colonial, pág. 175) diz do «Eucalyptus terminalis» que forma boas árvores, vegetando bem em terras arenosas, e vive no Norte e Centro da Austrália, onde a temperatura à sombra chega a 32 graus centigrados e a chuva é pouca. 


Welwitsch (no mapa fitogeographico) aconselha a introduçáo da Arvore de Marrocos *Argania sideroxylo«n" para arborizar os terrenos áridos do litoral. O agrónomo Costa Botelho aconselha com fins semelhantes os pinheiros (mansos, silvestres e de Alepo), o zimbro, o cedro de Espanha e a «juniperus phoenicia». Para fixação de dunas e de areias, podem ainda citar-se, entre outras, as seguintes gramineas e plantas forraglneas :« Psamma arenaria», «Emophyla arenaria, «Elymus arenarius», «Agrostide maritima e vulgar», «Festuca tenifolia», «Panicum amarum» e «P. obtusum»,
«Uniola paniculatau», «Oryzopsis cuspidata», «Calamagrostis longifolia», «Andropogon halepensis» e outras, e as Arvores seguintes : «Eucalyptus botryoides», «E. hoemastoma», «Quercus catesbaei» e outras. Um grande número destas sementes, senão todas, vendem-se na casa Vilmorin-Andrieux-Paris, 4, Quai de Ia Megisserie, de onde esta Repartiçáo tem encomendado algumas.


Repartíção do Gabinete do Governo Geral de Angola em Luanda, 3 de Junho de 1908. -Armando Tudella, ajudante de campo.

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO ANGOLA (DOIS ANOS DE GOVERNO JUNHO 1907- JUNHO 1909) EDIÇÃO COMEMORATIVA DO TERCEIRO CENTENÁRIO DA RESTAURAÇÃO DE ANGOLA, QUE SE PUBLICA PRECEDIDA DE UM ENSAIO SOBRE PAIVA COUCEIRO DO EX.Mo GENERAL NORTON DE MATTOS