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Século XVII: como se constituiu o sistema de avassalamento em Angola
Em 1671, com a derrota da batalha de Pungo Andongo, o Ndongo perdeu sua autonomia para os portugueses, passando a ser chamado de Angola. Apesar da interferência portuguesa, o território do Ndongo continuou a ser governado pelo n'gola que transferia grande parte do poder político aos sobas que, por sua vez, administravam com grande autonomia suas possessões territoriais.
Esses chefes foram personagens fundamentais para a condução dos projetos políticos portugueses, já que exerciam as funções de intermediários e de grandes fornecedores de escravos destinados ao comércio atlântico. Cabia aos sobas a função de permitir ou proibir a presença de estrangeiros em determinados territórios e principalmente a passagem das caravanas, viabilizando, ou não, o desenho de rotas comerciais e de comunicação entre as regiões de captação do interior, até o litoral. "
"Os estudos pioneiros de Charles Ralph Boxer (1952), Jan Vansina (1990), e Joseph Miller (1995), embasam nosso argumento de que o Ndongo, ao contrário do que ocorria no Congo oferecia mais vantagens aos portugueses interessados na captação de escravos, em função de sua estrutura política ser mais descentralizada, fazendo com que os sobas gozassem de maior autonomia, ficando o Ngola como uma figura associada às funções sobrenaturais, como por exemplo, poderes vinculados ao controle da chuva e consequentemente da produção agrícola. Nossa hipótese deposita na figura dos sobas uma grande relevância no processo de interiorização dos portugueses nos sertões e considera que a prática do avassalamento, derivada da cerimônia do undamento, foi utilizada como instrumento de poder para legitimar o jugo dos chefes locais à Coroa portuguesa.
Outra hipótese trabalhada em nossa tese é que é possível traçar uma geografia do processo de penetração dos portugueses nos sertões do antigo Ndongo através da identificação dos sobados avassalados. Para isso recorremos aos autos de vassalagem e às fontes que citam esses embates militares entre os capitães mores e os exércitos africanos. Outra questão levantada é a utilização da prática do avassalamento como recurso dos próprios africanos, como estratégia de defesa e de alianças militares contra inimigos comuns aos portugueses. O que evidencia outro lado das alianças e conflitos travados entre diferentes sobados e os portugueses. Do ponto de vista dos sobas a prática do avassalamento foi produto de um encontro entre elementos da cultura portuguesa, marcada inclusive por insígnias religiosas como crucifixos e referências à conversão, e elementos da cultura mbundu que conferia ao undamento a função de transferir e legitimar o novo soberano e líder do grupo. Foi, portanto, uma recriação oportuna de cerimônias que tinham como meta a legitimação do poder político entre os mbundus que ganhou sentido internamente e também garantiu a aliança e o apoio militar português contra sobas adversários. O custo de tal aliança era, por outro lado, a submissão ao rei de Portugal, na prática ao governador em exercício e mais frequentemente ao capitão mor mais próximo. "
Tese de Doutorado
Os homens do rei em Angola: sobas, governadores e capitães mores, séculos XVII e XVIII
Doutoranda: Flávia Maria de Carvalho
Orientadora: Profª Drª Mariza de Carvalho Soares
Niterói, fevereiro de 2013
http://wizi-kongo.com/historia-do-reino-do-kongo/os-kongo-os-ultimos-reis-e-o-residente-faria-leal-iii-parte/http://wizi-kongo.com/historia-do-reino-do-kongo/os-kongo-os-ultimos-reis-e-o-residente-faria-leal-iii-parte/



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