Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 17 de abril de 2020

A BAÍA DOS TIGRES E A ALEMANHA




O “Correio da Manhã” publicou uma curiosa correspondência de Angola, que pedimos licença para reproduzir em parte:

"...


Constou aqui que os alemães, não tendo na costa ao Sul do Cunene um porto em condições razoáveis, tencionavam aproveitar a Baía dos Tigres onde, com a nossa consumada inércia, nada tínhamos ainda que bem manifestasse a nossa posse por qualquer acto externo de ocupação efectiva. Coincidiu esta notícia com a estada em Luanda da canhoneira alemã “HAYENE”, cujo comandante estava tirando informações muito minuciosas sobre a força de que poderia dispor a estação naval e sobre a situação dos navios que compõem a mesma. Estava então a “Limpopo” no Congo, a “Bartolomeu Dias” e a “Zaire” em Luanda e a “Douro” nos portos do Sul. Como esta, porém, tivesse já ordem de retirar, recebeu a Zaire ordem de seguir com urgência para Mossâmedes, visto que a canhoneira alemã tinha já saído do porto dirigindo-se para o Sul.

Foi esta ordem recebida em 31 de Maio, às 11 horas da manhã, e às 7 da tarde seguíamos para o Sul, chegando no dia 2 de Junho de manhã a Mossâmedes, onde embarcámos uma força de caçadores 4, composta de um sargento e oito praças, saindo nessa mesma tarde, onde chegámos na manhã seguinte, encontrando ali “Douro”, que se aprontava a retirar para o Norte.

Em Mossâmedes, onde à nossa chegada estava fundeada a tal canhoneira alemã, corria também com insistência o boato das intenções a respeito da Baía dos Tigres.

Segundo o costume, mandaram seguir a força de Caçadores 4, sem se preocuparem do modo como seria alojada quando chegasse ao seu destino, tendo sido necessário, com os recursos de bordo, fazer-lhe uma barraca de lona, que só se concluiu no dia 7, tendo, até então, os soldados permanecido a bordo.

No dia 8, às oito horas da manhã, içou-se pela primeira vez a bandeira portuguesa em terra, dando a “Zaire” um tiro de peça quando a bandeira foi a tope, e fazenda a guarda um destacamento de vinte praças de marinhagem, sob o comando de um sargento, sendo então entregue a barraca e seus pertences ao sargento de caçadores que dela tomou posse.

A colónia da Baía dos Tigres compõe-se de umas duzentas pessoas, das quais umas sete famílias de brancos, pescadores do Algarve na maioria, sendo apenas um açoriano e um madeirense.

A baía, muito piscosa, permite-lhes exportar anualmente seis a oito mil arrobas de peixe seco, regulando o preço da arroba de réis 1$200 a 1$400.

A terra, absolutamente árida, é composta exclusivamente de areias, nada produz, sendo necessário aos colonos mandar vir tudo, inclusive a água de Mossâmedes, pois que esta mesmo, extraída das cacimbas na costa do continente, é de tal modo salobra que só serve para lavagem, bebendo-a apenas os serviçais indígenas contratados.

A baía é bastante vasta, aberta ao Norte, mas pouco abrigada, porque é formada a Oeste por uma extensa língua de areia (a península dos Tigres), que sendo de uma fraca elevação, não a protege contra o vento que quase todas as tardes ali levanta mareta.

As dimensões aproximadas da baía são de 20 milhas de comprimento, por 10 de largura, sendo funda bastante, excepto no extremo Sul, onde se encontram alguns baixios de areia, é bastante elevada e árida até duas léguas para o interior, segundo informação dos colonos estabelecidos na península, que afirmam também que, a 24 horas de marcha para o Sul, partindo do extremo da baía, se encontra a margem do Cunene, sendo o caminho abundante de caça, mas não falando nenhum dos colonos em tigres, apesar do nome da baía.

A indústria única daqui é a da pesca e seca do peixe para exportação. Encontram-se bastantes tartarugas e na costa Oeste da península encontram-se esponjas, das quais vi alguns exemplares, ignorando se a quantidade merece que isto constitua uma indústria.

Não há indício algum, nem oficial, nem extra-oficial, que possa fazer supor algum projecto do governo alemão para a ocupação da Baía dos Tigres. Entretanto, muito aconselhadamento andou o Conselheiro Governador Geral de Angola, mandando prontamente ocupar aquela localidade e arvorar a bandeira portuguesa para não deixar nutrir dúvidas. Se tivéssemos em muitas outras circunstâncias procedido com a mesma diligência, muitos prejuízos morais e materiais se teria evitado.

A Baía dos Tigres, se não nos enganamos, faz parte dos territórios concedidos à Companhia de Mossâmedes.

In “Revista Colonial” nº 35, 5.08.1895, p. 267

Ver tb: http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.com/2015/12/o-interesse-da-alemanha-por-angola-e-o.html

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