As últimas décadas do século XIX foram marcadas pela “corrida a África” por parte das principais potências europeias. As expedições científicas ao interior do sertão africano rapidamente deram lugar à reivindicação e disputa pela posse de vastos territórios africanos. Com a eclosão da Grande Guerra, as pressões sobre os territórios portugueses naquele continente aumentam e Portugal decide reforçar a sua presença militar em África. O primeiro confronto direto entre portugueses e alemães dá-se no norte de Moçambique, muito antes da declaração formal de guerra que só viria a ter lugar em março de 1916. Em 24 de agosto de 1914, cerca de três semanas após o início da guerra na Europa, o pequeno posto português de Maziúa, na fronteira norte, foi atacado e destruído na madrugada daquele dia por forças alemãs. O chefe do posto, o Sargento Enfermeiro de Marinha Eduardo Costa foi morto durante o ataque, sendo a primeira baixa militar portuguesa durante o período da Grande Guerra. Em Angola, na fronteira sul com a Damaralândia (território alemão na atual Namíbia), cresciam as tensões fronteiriças, com frequentes provocações e desafios à soberania portuguesa.
A 10 e 11 de setembro de 1914 partem duas expedições militares para África: o Coronel Massano de Amorim lidera o corpo expedicionário a Moçambique, cabendo ao Tenente-coronel Alves Roçadas o comando da expedição militar ao Sul de Angola. Estava em causa a defesa dos territórios e da soberania portuguesa em África.
A CONSTITUIÇÃO DO BATALHÃO DE MARINHA E A PARTIDA PARA O SUL DE ANGOLA
Em outubro de 1914, a Marinha é solicitada pelo Ministério das Colónias a cons-tituir um Batalhão Expedicionário, na tradição que vinha dos finais do século XIX em participar nas campanhas de pacificação nos territórios africanos. Pelo Decreto n.º 991 de 29 de outubro de 1914 é formalmente criado o Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola. O número de voluntários que responderam ao convite para integrar o Batalhão de Marinha foi bastante superior às vagas disponíveis, pelo que foi necessário proce-der-se a uma difícil seleção. Concluídos os preparativos para a partida para Angola, os possíveis em tão pouco tempo, no dia 5 de novembro o Batalhão de Marinha formou pela primeira vez no Quartel de Marinheiros, em Alcântara. Composto por 18 oficiais, 32 sargentos e 509 praças, estava organizado em três companhias a dois pelotões, duas secções de metralhadoras, serviço de saúde e serviço de quartéis, sendo comandado pelo Capitão-tenente Alberto Coriolano da Costa, veterano de campanhas em África e antigo Governador de Moçâmedes, profundo conhecedor da região em que iriam operar. Nesse mesmo dia 5 de novembro de 1914, o Batalhão de Marinha Expedicionário desfilou pelas ruas de Lisboa, acompanhado por uma multidão de populares que se foi despedir na hora do seu embarque, a bordo do paquete Beira com destino ao Sul de Angola, para aquela que seria uma das mais difíceis missões atribuídas à Marinha Portuguesa. O desembarque em Moçâmedes deu-se em 30 de novembro, vinte e cinco dias após a partida de Lisboa. Dali partiram a 11 de dezembro, em direção ao teatro de operações no extremo sul do território angolano. A chegada aos Gambos, onde se encontrava o comandante das Forças Expedicionárias, Tenente-coronel Alves Roçadas, deu-se em 3 de janeiro de 1915, após uma penosa e demorada marcha, marcada pela carência de água potável e de víveres. O Batalhão de Marinha foi enviado para um posto avançado, denominado de Forno da Cal, onde permaneceu durante largos meses, num período marcado pelo impasse nas operações, mas também pelo deteriorar do estado de saúde do efetivo do Batalhão de Marinha, assolado pelo paludismo, febre tifoide e pela escassez de água potável.
O COMBATE DE TCHIPELONGO (29 DE MAIO DE 1915)
No início do mês de maio de 1915, já sob o comando do General Pereira d’Eça, são retomadas as operações militares no Sul de Angola com vista à reocupação da região do Humbe, ameaçada por alemães e grupos locais de revoltosos. Em 26 de maio, as forças do Batalhão de Marinha que haviam avançado para sul até Tchicusse, receberam um pedido de auxílio do Padre Bellet, responsável pela missão do Espírito Santo, no Tchipelongo, a qual estava a ser ameaçada por revoltosos locais. Naquela que seria a sua primeira missão de combate, em 29 de maio foi então enviada uma força constituída por elementos da 1ª Companhia do Batalhão de Marinha sob o comando do então Primeiro-tenente Afonso de Cerqueira que, no seu relatório, descreveu os acontecimentos da seguinte forma:“Foi este episódio bem movimentado pois que o gentio nos atacou com valentia e arrojo, procurando por várias vezes envolver a nossa pequena força, devido ao nosso pequeno efectivo, e a não termos artilharia nem metralhadoras e a estar bem armado e com muitas munições(...). Devido a ter-se desde o princípio mantido uma rigorosa disciplina de fogo e às praças obedecerem sem hesitações e com valentia e decisão à ordem de avançar por lances e com descargas, foi o inimigo completamente derrotado, posto em debandada e obrigado a retirar, com numerosas baixas(...) Teve a nossa força dois oficiais feridos [um deles o próprio Afonso de Cerqueira] e seis praças. Foi notável a marcha efectuada de 54 kiló-metros quási sem descanso.”
Relatório do Capitão-tenente Afonso de Cerqueira, Comandante do Batalhão de Marinha. Lisboa, 20 de outubro de 1915.
O COMBATE DA MONGUA (18, 19 E 20 DE AGOSTO DE 1915)
Em 9 de julho de 1915, as forças alemãs no sudoeste africano são finalmente der-rotadas pelo exército britânico da África do Sul, rendendo-se ao General Louis Botha. Contudo, para as forças portuguesas, havia ainda que derrotar os grupos indíge-nas revoltosos no Cuanhama e Cuamato, que, instigados e armados por agentes alemães, constituíam séria ameaça à pre-sença e soberania portuguesa no sul de Angola.Consolidada a reocupação do Humbe, no início de agosto de 1915 foi constituída uma coluna militar para marchar para sul, em direcção à região de Cuanhama, onde chegaram a 15 desse mês. A 18 de agosto, a coluna foi atacada na região da Mongua, onde adoptou posições defensivas, formando em quadrado. A face da frente (virada a leste) coube ao Batalhão de Marinha, agora sob o comando do Capi-tão-tenente Afonso de Cerqueira. Após dois dias de continuado assédio por parte do inimigo, na manhã de 20 de agosto o quadrado é fortemente atacado. Pelas 17 horas é ordenada uma ação decisiva com vista a romper o cerco. Caberia ao Batalhão de Marinha sair do quadrado e carregar sobre o inimigo, com o apoio de cavalaria, do Batalhão de Infantaria 17 e a 15ª Companhia de Indígenas. Avançando à frente dos seus homens, o Comandante Afonso de Cerqueira liderou a carga, con-seguindo romper o cerco e desbaratando o inimigo, que bateu em retirada. A vitória na Mongua foi decisiva para o restabelecimento da ordem e soberania portuguesa, sendo a última acção de com-bate nesta longa e difícil campanha militar ao Sul de Angola. No seu relatório sobre as operações rea-lizadas no Sul de Angola, o General Pereira d’Eça, comandante das forças portuguesas naquele território, refere-se ao Batalhão de Marinha nos seguintes termos: “Todas as unidades cumpriram o seu dever por forma a justificar o grande orgulho que sinto em tê-las comandado; porém, julgo merecedor de especial menção o Batalhão de Marinha. Esta unidade mostrou sempre a maior correcção, a nítida compreensão dos seus deveres cívicos e militares, tanto no período que antecedeu às operações como durante as operações.Foi sem o menor exagero uma unidade de elite, cuja têmpera fica definida dizendo que foi a mais resistente nas marchas, a mais esforçada nos combates, e durante os quatro dias que, na Mongua, estivemos reduzidos a um quarto de ração, as suas sentinelas chegaram a cair de fraqueza nos respectivos postos, sendo imediata-mente rendidas sem que disso o comando superior tivesse conhecimento, pois essa unidade sabia bem que esse comando nada podia fazer que modificasse de pronto a situação”.
O REGRESSO DO BATALHÃO DE MARINHA
Após a vitória decisiva na Mongua, o Soba do Cuanhama, Mandume, retirou-se do seu território e deu por finda a rebelião. Estavam concluídas as operações militares no Sul de Angola e começava a retirada das forças portuguesas expedicio-nárias àquele território.No final das operações, restavam ao Batalhão 12 oficiais e 267 sargentos e praças, sensivelmente metade do efetivo que havia partido de Lisboa. Dirigiram-se para o Lubango, donde partiram para Moçâme-des, onde finalmente chegaram no dia 22 de setembro. A chegada a Lisboa deu-se no dia 15 de outubro de 1915. O Batalhão de Marinha desembarcou no cais do Arsenal da Marinha, no mesmo local onde, cerca de um ano antes, havia embarcado para tão distante quanto exigente missão. A espe-rá-lo já não estava a multidão que se fora despedir mas apenas algumas entidades oficiais e, os mais desejados, os seus familiares. Na Ordem do Dia Nº. 207, de 23 de Outubro de 1915 era dissolvido o Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola, sendo louvados os “comandantes, oficiais, praças do estado-menor e praças de mari-nhagem, pelos valiosos serviços presta-dos nas operações no sul de Angola, onde demonstraram a maior valentia, coragem e disciplina, mantendo assim pelo seu acendrado patriotismo o valor, as gloriosas tradições da Marinha de Guerra, cujo prestígio e renome realçaram.” Gonçalves Neves1 TEN ST-EHIS
Bibliografia:Biblioteca Central de Marinha – Arquivo Histórico de Marinha, Documentação e Livros de Ordens do Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de An-gola, cxs. 4605, 4608, 4611 e 4614.Eça, Pereira de, Campanha do Sul de Angola 1914-1915, Lisboa, Tipografia Lusitânia, 1922.Gonçalves, Júlio, Sul d’Angola e o quadrado da Mongua na epopeia Nacional d’África, Lisboa, J. Rodrigues, 1926.Inso, Jaime Correia do, A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, Lisboa, Edições Culturais da Marinha, 2006.Pinto, Fernando de Oliveira, Batalhão de marinha expedicionário a Angola : ano de 1914-1915, Lis-boa, J. F. Pinheiro, 1918.Soares, António Maria de Freitas, As operações militares no sul de Angola em 1914-1915, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937. Telo, António José, História da Marinha Portugue-sa. Homens, Doutrinas e Organizações 1824-1974, Lisboa, Academia de Marinha, 1999
IN REVISTA DA ARMADA Nr 534 Nov de 2018
Bibliografia:Biblioteca Central de Marinha – Arquivo Histórico de Marinha, Documentação e Livros de Ordens do Batalhão de Marinha Expedicionário ao Sul de Angola, cxs. 4605, 4608, 4611 e 4614.Eça, Pereira de, Campanha do Sul de Angola 1914-1915, Lisboa, Tipografia Lusitânia, 1922.Gonçalves, Júlio, Sul d’Angola e o quadrado da Mongua na epopeia Nacional d’África, Lisboa, J. Rodrigues, 1926.Inso, Jaime Correia do, A Marinha Portuguesa na Grande Guerra, Lisboa, Edições Culturais da Ma-rinha, 2006.Pinto, Fernando de Oliveira, Batalhão de marinha expedicionário a Angola : ano de 1914-1915, Lis-boa, J. F. Pinheiro, 1918.Soares, António Maria de Freitas, As operações militares no sul de Angola em 1914-1915, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1937. Telo, António José, História da Marinha Portugue-sa. Homens, Doutrinas e Organizações 1824-1974, Lisboa, Academia de Marinha, 1999O BATALHÃO DE MARINHA EXPEDICIONÁRIO AO SUL DE ANGOLA (1914-1915)
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