O "SALVADOR CORREIA" a desembarcar material de guerra na ponte de Moçâmedes
A Baia dos Tigres, Porto Alexandre e mesmo Moçâmedes, chegaram a ser o foco de um plano alemão ambicioso, que destacava a necessidade de meter a região do Sul de Angola na região do Sul do rio Cunene (Sudoeste Africano). Chegou a Alemanha a preparar uma missão destinada à obtenção de terrenos para colonos alemães em Moçâmedes, mas acabou por desistir. Esses planos incluíam desde os anos oitenta do século XIX, a construção de um transafricano a partir da Baía dos Tigres, que, passando pelo Sudoeste Africano se prolongaria até ao Transval, dando apoio à República Sul-Africana, proporcionando-lhes uma saída pelo Atlântico, e daí até Lourenço Marques e ao Oceano Índico, a fim de facilitar o comércio alemão que teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos.
Ainda sobre o interesse expansionista da Alemanha em Angola:
Do blog Angola Brasil transcrevo:
"Em 1895, no ano da nomeação de Artur Morais para Administrador do concelho de Porto Alexandre, a grande bacia que era um ponto estratégico, chegavam ali diversos navios de guerra alemães, e também alguns alemães idos de Moçâmedes, pelo deserto, a pé, recomendados pelo Governo do Distrito para que lhes fosse facilitado um transporte para a Baía dos Tigres e rio Cunene. Para espanto do Administrador, um deles era uma ilustre personagem, nada menos que o Príncipe de ESSE, que alugara uma canoa na qual pretendia, sem resultado, içar a bandeira alemã. Esse incidente fez deslocar-se a Porto Alexandre o Alto-Comissário Régio, Guilherme Capelo, na canhoneira "Vouga". E ainda nesse dia chegou ali a canhoneira "Salvador Correia", transportando o Governador do Distrito, Mascaranhas Gaivão. Este segue depois com o alferes França, a pé, a caminho do rio Cunene.
1895 - Outubro/Novembro- Chegam a Porto Alexandre diversos navios : - o couraçado "Vasco da Gama", sob comando do capitão de Mar e Guerra, Augusto Castilho; - a canhoneira "Zambeze" com o capitão-tenente, Martinho Montenegro; - a "Vouga" comandada por Gomes Coelho e a "Salvador Correia" com o primeiro tenente Gaspar. Era uma forte formação pronta a defender as costas angolanas já ameaçadas por forças estrangeiras (especialmente alemãs), com conivências inglesas, preparando-se para "um banquete" ! Fim de transcrição.
Com relação ao mesmo assunto, segue um texto da doutoranda Marisa Alexandra Santos Fernandes: GEOPOLÍTICA DA ALEMANHA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: O CASO DO SUDOESTE AFRICANO:
".... 2.2. A Baía
dos Tigres e o Projeto de um Transafricano Alemão
- Desde os anos oitenta do
século XIX que a Baía dos Tigres, a maior ilha
de Angola, era considerada como o ponto de partida para a construção de um
Transafricano sob direção do II Reich que, passando
pela Deutsch-Südwestafrika, prolongar-se-ia até ao Transvaal (dando assim apoio
à República Sul-Africana ao proporcionar-lhe uma saída pelo Atlântico) e
deste até Lourenço Marques (hoje Maputo) e ao Oceano Índico. O objectivo deste seria
estabelecer uma via de comunicação férrea que facilitasse o comércio alemão do
Atlântico ao Índico, onde se teria acesso, por sua vez,
aos portos marítimos. De facto, cedo a Alemanha compreendeu que para se tornar
na “campeã mundial de exportações” (como se auto-intitula), teria de recorrer ao
transporte marítimo, o que a torna economicamente competitiva visto os custos
serem comparativamente
menores ao utilizar o mar como via de comunicação preferencial. Daí a
importância que a Alemanha confere à criação de condições
para o transporte de mercadorias e matérias-primas, através do desenvolvimento
da indústria marítima e portuária
(em coordenação com a rede ferroviária) (Fernandes, 2013b, p. 440). Com efeito,
isto é corroborado por Guevara ao afirmar que os relatórios navais
alemães de 1882 já refletiam o interesse alemão nos portos e nas baías das
colónias portuguesas
em África.Neste contexto, surgiram até, inclusivamente, notícias na imprensa
alemã dando conta que a colónia da Deutsch-Südwestafrika
conseguiria reunir todo o território de Ovambo, que se encontrava dividido
desde 1886, o que motivou o envio do navio
português “Dom Luís” para esta baía (Guevara, 2006, p. 273). Em 1896, três
exploradores alemães Esser, Hoesch e Zintgraff realizaram uma expedição
à Baía dos Tigres, tendo solicitado no seu regresso uma concessão de 700.000 hectares,
à Companhia de Mossamedes, nas
margens do rio Cunene que possibilitasse ao II Reich estabelecer um porto e um
caminho-de-ferro a partir da Baía dos Tigres (Guevara, 2006, p. 274). Wilhelm II apoiava estas atividades e em
Berlim havia mesmo quem defendessem que a baía devia ser ocupada por forças militares alemãs
que apoiassem o avanço para Norte da fronteira Sul de Angola, beneficiando a
Deutsch-Südwestafrika.
Georg Hartmann, engenheiro alemão especialista na exploração de minas que
entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros
Alemão em 1900, propôs o estabelecimento de uma coligação de interesses entre
alemães, portugueses e belgas contra ingleses, de forma a conseguir concretizar o
projeto do Transafricano antes que Cecil Rhodes pudesse colocar em prática o
projeto de ligação do Cabo ao Cairo (Guevara, 2006, pp. 284-285).
No entanto, em fevereiro de 1899, um representante do governo da África do Sul
veio a Lisboa solicitar
uma concessão de direitos para a construção de um porto e caminho-de-ferro na
Baía dos Tigres e para a exploração de minério (cobre),
tendo igualmente a pretensão de ir a Berlim negociar este projeto. Por sua vez,
Wilhelm II acreditava que se devia anexar a Baía dos
Tigres e, por isso mesmo, preparava-se
em cooperação com a Marinha alemã uma ocupação militar desta mediante o envio
de mais navios. Havia igualmente uma discussão
entre a Secção Colonial e os financeiros Bleichröder e Warschauer acerca da
rentabilidade do
caminho-de-ferro da Baía dos Tigres. Para além das firmas R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o
Deutsche Bank e a Discontogesellschaft
também eram partes interessadas. Esta última, por exemplo, enviou um
requerimento ao governo português pedindo a concessão da construção do caminho-de-ferro
da Baía dos Tigres ao Cunene, a 11 de setembro de 1899 (Guevara, 2006, pp.
292-293). Com o apoio dos
financeiros Bleichröder e Warschauer, criou-se uma nova companhia denominada de
Otavi Minenund Eisenbahn Gesellschaf, cujo objetivo
assentava na construção do referido caminho-de-ferro Transafricano. Neste
sentido, seria enviada ao Sul de Angola uma expedição alemã
para estudar qual o melhor trajeto para a efetivação deste projeto. Em finais
de 1899, a R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank e a Discontogesellschaft
já tinham colocado à disposição desta
expedição um montante para pagamento das despesas (Guevara, 2006,
pp. 293-294). Porém, a 16 de outubro de 1899, foi cancelado o plano de ocupação
militar alemã da Baía dos Tigres,
perante o afastamento da possibilidade de ocupação
britânica da Baía de Lourenço Marques, verificando-se a retirada dos navios
alemães para a colónia dos Kamerun. A posse do Sul de Angola pelo II Reich permitir-lhe-ia
ter o controlo de importantes portos que serviriam de bases de apoio à Marinha
alemã, permitindo-lhe
contrabalançar o poder da Grã-Bretanha como rainha dos mares, ao mesmo tempo
que responderia aos princípios da Weltpolitik.
Ainda assim, chegou a Mossamedes um navio a vapor alemão com um grupo de representantes da Discontogesellschaft destinado a realizar estudos sobre o projeto do caminho-de-ferro Transafricano que seguiu, posteriormente, para a Baía dos Tigres e para o Cunene. Também na segunda metade do mês de outubro, um oficial alemão apresentou-se no forte do Humbe (Cunene) na companhia de uma força militar, referindo que estava para proceder ao reconhecimento de terreno com vista à construção de um caminho-de-ferro desde as minas de Otavi ao Cunene (Guevara, 2006, p. 301).
O texto integral pode ser visto AQUI: http://www.iesm.pt/cisdi/revista/Artigos/R3-3.pdf
No livro O Marquês de Soveral - Seu Tempo e Seu Modo By PAULO L. MARQUES vem uma alusão as tensoes entre Portugal e a Alemanha, nesse tempo de plena ambição expansionista, do empenhamento dos alemães na construção de uma força naval, e consequente preocupação da Inglaterra, a rainha dos mares, que via o projecto como uma ameaça. Epoca dos navios movidos a carvão, do Acordo anglo-alemão de 1898 que visava Timor como sua parte do espolio das colonias portuguesas. Ja em 1890 o Visconde Pindela, ministro portugues em Berlim, em oficio enviado a Lisboa, dizia: “...a dificuldade das nossas relações com a Alemanha esta em termos de interesses comuns e possuirmos pontos na Africa, como a Baia dos Tigres de que a Alemanha carece. Daqui surge o curioso caso dos Sanatorios da Madeira...“
Em 1903 um grupo privado alemão ostensivamente chefiado pelo principe Hohenloe Oeringen (1855/1910), recebeu das autoridades portuguesas a concessão para a construção de um sanatorio para tuberculosos junto ao porto do Funchal, incluso a concessao por decreto de isençoes aduaneiras na importacao de materiais de conetruao por 30 anos, facto que nao agradou a Inglaterra que via nisso um primeiro passo da Alemanha para assegurar o abastecimento da sua frota naval.
