Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O interesse da Alemanha por Angola e o projecto de Mittelafrika



 


O "SALVADOR CORREIA" a desembarcar material de guerra na ponte de Moçâmedes




A Baia dos Tigres, Porto Alexandre e mesmo Moçâmedes, chegaram a ser o foco de um plano alemão ambicioso, que destacava a necessidade de meter a região do Sul de Angola na região do Sul do rio Cunene (Sudoeste Africano). Chegou a Alemanha a preparar uma missão destinada à obtenção de terrenos para colonos alemães em Moçâmedes, mas acabou por desistir.  Esses planos incluíam desde os anos oitenta do século XIX, a construção de um transafricano a partir da Baía dos Tigres, que, passando pelo Sudoeste Africano se prolongaria até ao Transval, dando apoio à República Sul-Africana, proporcionando-lhes uma saída pelo Atlântico, e daí até Lourenço Marques e ao Oceano Índico, a fim de facilitar o comércio alemão que teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos.  

Ainda sobre o interesse expansionista da Alemanha em Angola:  

Do blog Angola Brasil transcrevo:

 "Em 1895, no ano da nomeação de Artur Morais para Administrador do concelho de Porto Alexandre, a grande bacia que era um ponto estratégico, chegavam ali diversos navios de guerra alemães, e também alguns alemães idos de Moçâmedes, pelo deserto, a pé, recomendados pelo Governo do Distrito para que lhes fosse facilitado um transporte para a Baía dos Tigres e rio Cunene. Para espanto do Administrador, um deles era uma ilustre personagem, nada menos que o Príncipe de ESSE, que alugara uma canoa na qual pretendia, sem resultado, içar a bandeira alemã. Esse incidente fez deslocar-se a Porto Alexandre o Alto-Comissário Régio, Guilherme Capelo, na canhoneira "Vouga". E ainda nesse dia chegou ali a canhoneira "Salvador Correia", transportando o Governador do Distrito, Mascaranhas Gaivão. Este segue depois com o alferes França, a pé, a caminho do rio Cunene.

1895 - Outubro/Novembro- Chegam a Porto Alexandre diversos navios : - o couraçado "Vasco da Gama", sob comando do capitão de Mar e Guerra, Augusto Castilho; - a canhoneira "Zambeze" com o capitão-tenente, Martinho Montenegro; - a "Vouga" comandada por Gomes Coelho e a "Salvador Correia" com o primeiro tenente Gaspar. Era uma forte formação pronta a defender as costas angolanas já ameaçadas por forças estrangeiras (especialmente alemãs), com conivências inglesas, preparando-se para "um banquete" ! Fim de transcrição.

Com relação ao mesmo assunto, segue um texto  da doutoranda Marisa Alexandra Santos Fernandes:  GEOPOLÍTICA DA ALEMANHA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: O CASO DO SUDOESTE AFRICANO:


"O Projecto de Mittelafrika e o interesse da Alemanha por Angola "
                                  
".... 2.2. A Baía dos Tigres e o Projeto de um Transafricano Alemão

- Desde os anos oitenta do século XIX que a Baía dos Tigres, a maior ilha de Angola, era considerada como o ponto de partida para a construção de um Transafricano sob direção do II Reich que, passando pela Deutsch-Südwestafrika, prolongar-se-ia até ao Transvaal (dando assim apoio à República Sul-Africana ao  proporcionar-lhe uma saída pelo Atlântico) e deste até Lourenço Marques (hoje Maputo) e ao Oceano Índico. O objectivo deste seria estabelecer uma via de comunicação férrea que facilitasse o comércio alemão do Atlântico ao Índico, onde se teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos. De facto, cedo a Alemanha compreendeu que para se tornar na “campeã mundial de exportações” (como se auto-intitula), teria de recorrer ao transporte marítimo, o que a torna economicamente competitiva visto os custos serem comparativamente menores ao utilizar o mar como via de comunicação preferencial. Daí a importância que a Alemanha confere à criação de condições para o transporte de mercadorias e matérias-primas, através do desenvolvimento da indústria marítima e  portuária (em coordenação com a rede ferroviária) (Fernandes, 2013b, p. 440). Com efeito, isto é corroborado por Guevara  ao afirmar que os relatórios navais alemães de 1882 já refletiam o interesse alemão nos portos e nas baías das colónias portuguesas em África.Neste contexto, surgiram até, inclusivamente, notícias na imprensa alemã dando conta que a colónia da Deutsch-Südwestafrika conseguiria reunir todo o território de Ovambo, que se encontrava dividido desde 1886, o que motivou o envio do navio português “Dom Luís” para esta baía (Guevara, 2006, p. 273). Em 1896, três exploradores alemães Esser, Hoesch e Zintgraff realizaram uma expedição à Baía dos Tigres, tendo solicitado no seu regresso uma concessão de 700.000 hectares, à Companhia de Mossamedes, nas margens do rio Cunene que possibilitasse ao II Reich estabelecer um porto e um caminho-de-ferro a partir da Baía dos Tigres (Guevara, 2006, p. 274).  Wilhelm II apoiava estas atividades e em Berlim havia mesmo quem defendessem que a baía devia ser ocupada por forças militares alemãs que apoiassem o avanço para Norte da fronteira Sul de Angola, beneficiando a
Deutsch-Südwestafrika. Georg Hartmann, engenheiro alemão especialista na exploração de minas que entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão em 1900, propôs o estabelecimento de uma coligação de interesses entre alemães, portugueses e belgas contra ingleses, de forma a conseguir concretizar o projeto do Transafricano antes que Cecil Rhodes pudesse colocar em prática o projeto de ligação do Cabo ao Cairo (Guevara, 2006, pp. 284-285). No entanto, em fevereiro de 1899, um representante do governo da África do Sul veio a Lisboa solicitar uma concessão de direitos para a construção de um porto e caminho-de-ferro na Baía dos Tigres e para a exploração de minério (cobre), tendo igualmente a pretensão de ir a Berlim negociar este projeto. Por sua vez, Wilhelm II acreditava que se devia anexar a Baía dos Tigres e, por isso  mesmo, preparava-se em cooperação com a Marinha alemã uma ocupação militar desta mediante o envio de mais navios. Havia igualmente uma discussão entre a Secção Colonial e os financeiros Bleichröder e Warschauer acerca da rentabilidade do caminho-de-ferro da Baía dos Tigres. Para além das firmas  R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank e a Discontogesellschaft também eram partes interessadas. Esta última, por exemplo, enviou um requerimento ao governo português pedindo a concessão da construção do caminho-de-ferro da Baía dos Tigres ao Cunene, a 11 de setembro de 1899 (Guevara, 2006, pp. 292-293). Com o apoio dos financeiros Bleichröder e Warschauer, criou-se uma nova companhia denominada de Otavi Minenund Eisenbahn Gesellschaf, cujo objetivo assentava na construção do referido caminho-de-ferro Transafricano. Neste sentido, seria enviada ao Sul de Angola uma expedição alemã para estudar qual o melhor trajeto para a efetivação deste projeto. Em finais de 1899, a R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank e a Discontogesellschaft  já tinham colocado à disposição desta expedição um montante para pagamento das despesas (Guevara, 2006, pp. 293-294). Porém, a 16 de outubro de 1899, foi cancelado o plano de ocupação militar alemã da  Baía dos Tigres, perante o afastamento  da possibilidade de ocupação britânica da Baía de Lourenço Marques, verificando-se a retirada dos navios alemães para a colónia dos Kamerun. A posse do Sul de Angola pelo II Reich permitir-lhe-ia ter o controlo de importantes portos que serviriam de bases de apoio à Marinha alemã, permitindo-lhe contrabalançar o poder da Grã-Bretanha como rainha dos mares, ao mesmo tempo que responderia aos princípios da  Weltpolitik.
                                
Ainda assim, chegou a Mossamedes um navio a vapor alemão com um grupo de representantes da Discontogesellschaft destinado a realizar estudos sobre o projeto do  caminho-de-ferro Transafricano que seguiu, posteriormente, para a Baía dos Tigres e para o Cunene. Também na segunda metade  do mês de outubro, um oficial alemão apresentou-se no forte do Humbe (Cunene) na companhia de uma força militar, referindo que estava para proceder ao reconhecimento de terreno com vista à construção de um caminho-de-ferro desde as minas de Otavi ao Cunene (Guevara, 2006, p. 301).

O texto integral pode ser visto AQUI: http://www.iesm.pt/cisdi/revista/Artigos/R3-3.pdf

No livro O Marquês de Soveral - Seu Tempo e Seu Modo By PAULO L. MARQUES vem uma alusão as tensoes entre Portugal e a Alemanha, nesse tempo de plena ambição expansionista, do empenhamento dos alemães na construção de uma força naval, e consequente preocupação da Inglaterra, a rainha dos mares, que via o projecto como uma ameaça. Epoca dos navios movidos a carvão, do Acordo anglo-alemão de 1898 que visava Timor como sua parte do espolio das colonias portuguesas. Ja em 1890 o Visconde Pindela, ministro portugues em Berlim, em oficio enviado a Lisboa, dizia: “...a dificuldade das nossas relações com a Alemanha esta em termos de interesses comuns e possuirmos pontos na Africa, como a Baia dos Tigres de que a Alemanha carece. Daqui surge o curioso caso dos Sanatorios da Madeira...“

Em 1903 um grupo privado alemão ostensivamente chefiado pelo principe Hohenloe Oeringen (1855/1910),  recebeu das autoridades portuguesas a concessão para a construção de um sanatorio para tuberculosos junto ao porto do Funchal, incluso a concessao por decreto de isençoes  aduaneiras na importacao de materiais  de conetruao por 30 anos, facto que nao agradou a Inglaterra que via nisso um primeiro passo da Alemanha para assegurar o abastecimento da sua frota naval. 

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Voz de Angola em Tempo de Ultimato" de Aida Freudenthal:




Como ninguém minimamente informado da História de Angola ignora, foi significativo o grupo de pressão constituído por colonos agricultores, comerciantes e pequenos empresários industriais de Luanda, Benguela e Moçâmedes, no último quartel do século XIX, ao exprimirem a sua opinião sobre as questões económicas e políticas que os afetavam, nessa fase crítica do crescimento económico da colónia. Em relação a este assunto, passarei a transcrever parte de um texto  intitulado " Voz de Angola em Tempo de Ultimato" de  Aida Freudenthal:

(...)
 
2.4. A fronteira sul

Desde a década de 50 as autoridades coloniais portuguesas vigiavam atentamente as terras do sul, alertadas pelas incursões freqüentes de caçadores e comerciantes europeus no Cunene. No contexto da corrida imperialista ao Continente africano, o receio, mais ou menos fundamentado, do avanço de estrangeiros em regiões limítrofes do território já ocupado, ainda que precariamente, pelos portugueses, manifestava-se com muita freqüência nos relatórios coloniais, referindo particularmente à fronteira sul.
Serpa Pinto afirmava, em 1878, que
[...] os ingleses protegidos pelo Governo do Cabo, estão já estabelecidos a sete dias de viagem [de Caconda], além do Cunene, no Cuanhama, e têm morto o comércio deste ponto porque apresentam ali as fazendas por metade do preço por que se obtêm em Benguela, monopolizando o comércio do marfim e das penas de avestruz e deixando apenas aos negociantes daqui o da cera e gados cuja permutação se faz só com escravos e é isso o que dá lugar a que Caconda seja uma verdadeira feira de escravatura. (Relatório de 18/1/1878, AHU Angola. CG:48)
Além destas inestimáveis informações sobre as bases da permuta entre africanos e europeus, a par da persistência do tráfico interno de escravos, o explorador registrava a presença de ingleses estabelecidos entre o Cunene e o Cubango, área que era visitada há muito por sertanejos portugueses.

Porém, nem só os ingleses preocupavam Luanda. Na década de 1880, quando despertam os interesses coloniais germânicos, a vigilância das autoridades incidia também sobre possíveis pretensões da Alemanha em ampliar a sua esfera de influência ao norte do Cunene, nos territórios situados ao norte da catarata de Ruacaná. Segundo Wheeler e Pélissier (1978: 71,74), tinha fundamento esta preocupação, uma vez que as atividades alemãs envolviam, sem dúvida, um vasto plano conspiratório para o oportuno controle da colônia, que implicava exploradores, agentes e homens de negócio, soldados e caçadores, assim como missionários protestantes. Assinado, em 1886, o acordo luso-alemão, ficou delimitada a fronteira com o sudoeste alemão, sem que, todavia, fossem eliminadas de vez as tensões que renasceriam no início do século XX.
Em parte para intensificar a vigilância na região, o poder colonial procurou reforçar a fixação de colonos, tendo-se registrado, na segunda metade do século XIX, vários fluxos migratórios no litoral de Moçâmedes, bem como no planalto da Huíla. Na maior parte dos casos, porém, o saldo foi o insucesso econômico dos empreendimentos agrícolas e o abandono das tarefas produtivas, em busca de outras ocupações. Para esse insucesso contribuíra a conjugação de fatores como a falta de qualificação específica e a falta de capital, entre outros.

Na ausência de uma política de colonização coerente, limitara-se o governo de Luanda a receber colonos portugueses, alemães e bôers (AHU, Angola, 2ªS. 1ªR., p. 15, Ofício de 21/8/1891.), manifestando a Lisboa as dificuldades existentes em custear a deslocação, o alojamento e a subsistência nos primeiros meses (ibidem). Entendia o governo que o sucesso da colonização dependia mais do número e menos da qualidade dos colonos europeus, incluindo, por isto, grandes contingentes de degredados. Apesar dos planos retomados pela administração, o peso da população portuguesa manteve-se diminuto durante as três primeiras décadas do século XX.11

Quanto à imigração estrangeira, principalmente bôer, a administração colonial decidira acolher, no início da década de 1880, uma primeira colônia proveniente do Transvaal. Uma vez obtida a autorização, fixou-se, em 1881, em Humpata, a colônia de São Januário, que em 1890 foi ampliada por novo contingente de recém-chegados, atingindo o total de cerca de 350 homens, mulheres e crianças. Em breve se revelaram novas fontes de conflitos, provenientes da ocupação de terras pertencentes às populações pastoris locais, e ainda devido à colaboração dos bôers enquanto auxiliares das campanhas punitivas e de ocupação contra o "gentio rebelde", como ocorreu no Humbe (Bender, 1980:117-18; 148-49).

Quando a colônia bôer requereu, em 1890 (O Mercantil, 686, 28/9/1882 apud AHU Angola, 2ªS.1ªR. p.10, Ofício de 19/9/1890), subsídios e um código especial para regular autonomamente a vida interna da comunidade, a reação oficial foi claramente desfavorável, a par de manifestas atitudes de xenofobia (AHU Angola, 2a.S. 2a.R. p.14, Ofício de 24/8/1890), pela ameaça eventual que daí pudesse resultar para o domínio português. Estavam criadas as condições para a retirada próxima dos bôers do Sul de Angola.

3. Angola, a Quem Pertence?

3.1. Colonização portuguesa – pró ou contra?


Alguns anos antes do episódio do Ultimato, processava-se na colônia um debate entre grupos sociais bem distintos, acerca das virtudes/malefícios da colonização portuguesa. Consoante aos interesses individuais, de grupo, de classe, de etnia, eles mesmos variáveis segundo o momento histórico, assim os habitantes africanos e europeus de Angola se posicionaram na década de 1880 perante o poder colonial. Opiniões mais ou menos generalizadas, que uma prática secular de convivência ora pacífica, ora conflituosa, ajudara a sedimentar, assumiram por vezes o caráter de bandeira à volta da qual se congregavam forças econômicas e grupos de pressão. Dentro do núcleo colonial, a profunda diferenciação social transparecia no confronto, ora entre grupos raciais, ora entre interesses regionais ou setoriais.

Em função da heterogeneidade social e racial, obtinha-se níveis de resposta diferenciados entre os habitantes, face à atuação das autoridades coloniais. Em um outro âmbito, as sociedades periféricas que tinham conseguido preservar, até então, uma relativa independência, ainda que não isenta de restrições e interferências exteriores, estabeleciam relações multiformes com o núcleo colonial, originando conflitos que importa assinalar. Vivia-se, então, no limiar de uma nova fase de expansão do domínio colonial, cujo processo iria obviamente colidir com uma realidade africana sujeita às próprias determinações internas, daí resultando formas extremadas de confronto e violência.
 
Analisemos, portanto, o posicionamento de vários grupos sociais face à colonização portuguesa na década de 1880.


3.2. Os colonos

Em primeiro lugar consideremos um significativo grupo de pressão constituído por colonos agricultores, comerciantes e pequenos empresários industriais de Luanda, Benguela e Moçâmedes, e o modo como exprimiam a sua opinião sobre as questões econômicas e políticas que mais os afetavam, em uma fase muito crítica do seu crescimento econômico.

Destinada a suprir as limitações da navegação a vapor no Cuanza, bem como a carência de carregadores freqüentemente denunciada por agricultores e comerciantes no percurso entre Luanda e Malange, os comerciantes reclamavam, há muito, a construção de uma via férrea entre Luanda e Ambaca. Procedia-se, em meados da década de 1880, à construção do primeiro trecho, esperando-se, deste modo, o aumento do volume de mercadorias permutadas na região, entre o litoral e o interior. É que, simultaneamente, uma leva de colonos vinha se instalando nas áreas produtivas de cana e de café, associando a exploração agro-industrial ao comércio.

No Sul os problemas econômicos eram mais graves e tinham, aparentemente, solução mais difícil. Utilizando a imprensa, especialmente no distrito de Moçâmedes, os colonos mobilizaram fortes campanhas no sentido de influenciar decisões governamentais favoráveis ao desenvolvimento econômico, em particular a instalação da ferrovia, o apoio à agricultura, aos colonos e ao escoamento da sua produção.12

Protestando contra a morosidade das decisões, os colonos de Moçâmedes reclamavam que "sem estradas e sem bois de carro para conduzir os produtos ao litoral, não há agricultura que vingue, nem indústria que prospere" (AHU Angola CG p.48, Ofício de 15/5/1878).13

Em uma argumentação mais global, era ainda requerida a urgente construção da ferrovia, em nome do próprio sucesso da colonização: transportar os colonos do litoral para o planalto; promover as explorações mineira e pecuária; escoar os produtos agrícolas e do comércio sertanejo; e efetuar a ocupação militar, constituíam ações das quais o transporte ferroviário parecia indissociável (AHU Angola, 2ªS.2ªR. p.14, Ofício de 4/9/1890; Jornal de Mossâmedes, nº 164, 4/8/1891).

Após o Ultimato, ao longo do ano de 1890, alguns destes argumentos foram reforçados, principalmente por razões de estratégia político-militar, invocando Luanda, por essa razão, a necessidade de proteger a fronteira meridional; defendiam, então, os colonos, a aceleração dos transportes para pacificar "eficaz, segura e menos dispendiosamente e assegurar a ordem e a tranqüilidade nesta região" (Almeida d'Eça apud Jornal de Mossâmedes, nº 164, 4/8/1891).14

Marcados pela dura experiência de uma colonização carente de apoios governamentais efetivos, e às voltas com os freqüentes levantes da população africana, que pretendiam sujeitar, espoliar e explorar abusivamente, como mão-de-obra, os colonos de Moçâmedes, interrogavam-se acerca da capacidade que os governos não revelavam no sentido de promover uma "boa colonização".15

Os seus protestos, dirigidos anteriormente contra as disposições emancipadoras da mão-de-obra escrava, voltaram-se, nos anos 1880, contra os processos de recrutamento instituídos, marcados, aliás, por acentuada ambigüidade, a fim de permitir a perpetuação de práticas escravagistas. Além disso, eram enormes as resistências contra a alteração nas formas de tratamento dessa mesma mão-de-obra, ecoando na imprensa a controvérsia sobre os castigos corporais (varadas) e o serviço forçado (cf., p. ex., Jornal de Loanda, nºs 85 e 87, 8 e 24/12/1880), assim como os protestos contra o agravamento dos custos da mão-de-obra.

Preocupava a eles, além do mais, a precariedade do poder colonial, incapaz de conter as freqüentes revoltas, responsáveis pela perturbação do cotidiano das empresas locais (Jornal de Mossâmedes, nºs 155, 17/5/1890; 158, 1/7/1890; 163, 20/9/1890). No seu entender, a incúria e a ignorância colonizadora dos governos só interessaria aos estrangeiros que, no momento oportuno, se apoderariam de Angola, dando "mandado de despejo" a Portugal na sua qualidade de potência colonizadora (idem, nº 154, 1/5/1890; nº 163, 20/9/1890).

No quadro concorrencial que a atividade dos estrangeiros representava junto às fronteiras, os colonos alertavam as autoridades para as pretensões dos alemães e ingleses, no sentido de responder a eles com o desenvolvimento interno da colônia, uma vez que os "direitos históricos" não bastavam, de modo algum, para assegurar o domínio português.

Com efeito, alguns colonos entendiam que a Alemanha constituía, a médio prazo, um concorrente temível, na medida em que podia criar "sérios embaraços à autonomia colonial" (idem, nº 154, 1/5/1890). Aliás, a aproximação que Portugal promoveu em relação à Alemanha para contrabalançar o predomínio da Inglaterra era vista, na colônia, com reservas e forte apreensão. "Parece à primeira vista que a Alemanha, com a sua expansão em África, indiretamente nos desafrontará do brutal proceder da Inglaterra [...]", observava um articulista, acrescentando com lucidez que "à Alemanha será fácil provar a incapacidade de Portugal como colonizador em face do estiolamento das suas possessões" (idem, nº 159, 15/7/1890), podendo vir a aproveitar-se da vizinhança para se imiscuir na economia de Angola.

Na perspectiva de alguns colonos mais críticos, importava corrigir a má administração, a letargia do governo, o esbanjamento de fundos, a ingerência abusiva do Estado em todos os setores da vida da colônia, ao mesmo tempo em que devia ser assegurada a exploração dos recursos naturais pelos elementos mais dinâmicos da população. "Parar agora seria morrer [...]" (idem, nº 156, 1/6/1890), pelo que preconizavam a maximização das potencialidades econômicas, em especial no Sul, intensificando a pesquisa de recursos, garantindo a manutenção da ordem, praticando uma administração descentralizada a par de uma colonização agrícola em bases sólidas, apoiada na afluência de capitais (idem, nº 155, 17/5/1890).

Como se vê, não eram, efetivamente, os fundamentos da colonização que eram questionados por este grupo, nem sequer a legitimidade dos processos utilizados. Afinal, estava em questão apenas a eficácia do sistema, do qual os colonos esperavam obter maior retribuição.
(...) 


TEXTO INTEGRAL AQUI