Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Alguma genealogia de pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), Angola: José Joaquim Pinho


                                                                                          



JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, Terra da Feira, c. de 1820, foi  componente da Primeira Colónia de portugueses que, saídos de Pernambuco, em Maio de 1849, na barca brasileira "Tentativa Feliz", acompanhada do brigue de guerra português "Douro",  chegou a Moçâmedes a 4 de Agosto do mesmo ano, para dar inicio ao povoamento branco do distrito. 

JOSÉ JOAQUIM DE PINHO foi, pois, um dos pioneiros da fundação da cidade de Moçâmedes,  onde foi proprietário de terras na região, de entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança.  Viria a  falecer em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.




 "Aqui jazem os restos mortaes de JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, e sua esposa D. Maria dos Anjos Pinho, natural da ilha de S. Miguel, falecidos, aquelle em 27 de Novembro de 1875, e esta a 1 de Maio de 1873. Seus filhos lhe mandaram erigir este mausoléu com prova de muita estima. Eterna recordação."

                                                                                                             
ALGUMA GENEALOGIA DE JOSÉ JOAQUIM DE PINHO
recolhida de Genea


Era filho de José Joaquim de Pinho e de Maria de Jesus Rodrigues  (in Genea=  filho de José Joaquim de Pinho e de Augusta Gomes). Casou com Maria dos Anjos Rodrigues,  natural da Ilha de São Miguel  (filha de António Rodrigues e Maria de Jesus Rodrigues, naturais dos Açores, São Miguel), falecida em Moçâmedes a 01.05.1873. 

DESCENDENTES:


José Joaquim de Pinho teve uma primeira união da qual nasceu Clara Pinho:
                                                   
1. Clara de Pinho
                                                                                     (nascida em Moçâmedes)

Clara de Pinho casou com Trindade e dessa união nasceram os seguintes filhos:
                               
1. Rita Pinho Trindade de Soares

2.  Alexandrina P. Trindade Faria
3. José de Pinho Trindade (pai de José Moreira de Pinho Trindade,  proprietário do «Jornal o Namibe», pai de Georgina Zulmira Alves Trindade, Clara Bela Alves Trindade, Roberto Alexandre Alves Trindade e Carlos Alberto Alves Trindade

4. Manuel de Pinho Trindade
5. Clara de Pinho Trindade



Do casamento de José Joaquim de Pinho e Maria dos Anjos Rodrigues nasceram :

2. Joaquim José de Pinho, nascido em Moçâmedes a 20.06.1869;

3. Perpétua de Pinho, nascida em Moçâmedes em 21.07.1871;

4. Maria da Conceição de Pinho (foto abaixo), nascida em Moçâmedes a 30.5.1872, casou com Emídio Augusto Pimentel de Figueiredo, que também se assinou Emídio Augusto  Pimentel Teixeira Simões de Sousa, ( da Casa dos Pimentel Teixeira de Maçãs de D. Maria e primo do chefe da 1ª colónia de Pernambuco,  Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro), que vindo de Portugal, era então proprietário de fazendas em Moçâmedes; 

5. Amélia de Pinho n. em Moçâmedes, Santo Adrião, a 20.6.1869 ( irmã gémea de Manuel Joaquim), que casou com Alfredo de Oliveira Luso, ambos falecidos em Lisboa, (onde possuíam uma casa na Rotunda do Marquês de Pombal) e proprietários da Qtª. d`Além, em Torres Vedras. 
Nota: 

A folhas 4 v. e 5 do livro de Casamentos da freguesia de Santo Adrião, conselho de Moçâmedes, relativo ao ano de 1889, com o Nº 6 :

" Aos vinte e tres dias do mês de Junho de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila e freguesia de Santo Adrião de Moçâmedes, diocese de Angola e Congo, e casas do falecido General Honorato José de Nendonça, compareceram perante mim os nubentes que sei serem os próprios, Alfredo de Oliveira Luso e D. Amélia Pinho, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, ele, de idade de vinte e um anos incompletos, natural da freguesia de Santo António do Recife, Província de Pernambuco, Império do Brasil, filho de Joaquim Antero de Oliveira Luso e de D. Filonila da Costa Luso e ela de idade de dezanove anos, solteira, natural desta freguesia de Moçâmedes, filha legítima de Joaquim José de Pinho e de D. Maria dos Anjos de Pinho, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e eu os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto segundo o Rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios:- o comendador Manuel José Alves Bastos, sua esposa D. Amélia do Carmo Torres Bastos, António Florentino Torres , negociante, a sua esposa D.Maria Júlia de Mendonça Torres, todos residentes nesta freguesia de Santo Adrião de Moçamedes. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido, conferido e achado conforme, assino com os nubentes e tetemunhas presentes. Era ut supra. (...) Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, arcipreste".In Geneallnet

6. Manuel Joaquim de Pinho* 20.06.1869

7. Jacinto de Pinho
                            
                                                      
Do ramo Maria da Conceição de Pinho e Emídio Augusto Pimentel de Figueiredo (conf.Genea): 


 Maria da Conceição de Pinho 30.05.1872, 
Moçâmedes. Casou com Emídio Augusto Pimentel
de Figueiredo 
Emídio Augusto Pimentel
de Figueiredo casado com Maria da Conceição de Pinho 


Descendência :  

Silvina de Pinho Pimentel de Figueiredo

                1. Silvina de Pinho Pimentel de Figueiredo
                 (casou com Joaquim Augusto da Costa Simões Canova* 1891)
2. Joaquim José Simões Pinho de Figueiredo
Moçâmedes, Santo Adrião, 23.19.1893+ Cascais, Parede 1976
Casou em Cascais 1918 com Ida de Almeida Ramil

3. Maria da Conceição Simões Pinho Freire de Figueiredo 
* Moçâmedes, Santo Adrião 06.07.1903. Casou com José Braz Simões c.1900

Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes», do autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa. Nesse livrinho, encontra-se um recorte do «Diário de Notícias» com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Mossâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo. Presume-se seja  a mesma Maria da Conceição Simões Pinho Freire de Figueiredo


 
             4. Maria Maximina de Pinho Pimentel Figueiredo
  * 1889 + 1972
       Casou com Joaquim Salgueiro Rêgo

Maria Rosa de Pinho Pimentel de Figueiredo
5. Maria Rosa de Pinho Pimentel Teixeira
1896-1973
Casou com Tomás de Aquino Vaz Pereira Simeão

*

(1) Cfr pp. 480 da obra «Moçâmedes», da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres, que inclui também fotografia José Joaquim de Pinho, vem publicado, em extra-texto, entre pp. 358 e 359, os seguintes dizeres: "José Joaquim de Pinho, natural de Aveiro, componente da Primeira Colónia, foi proprietário duma fazenda situada na várzea da Boa Esperança. Faleceu em 27 de Novembro de 1875. Repousa, sob gracioso mausoléu, no cemitério da cidade" (sic).

Também em extra-texto, entre pp. 326 e 327, vem publicada a fotografia de seu primo Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da Primeira Colónia, referindo-se que se trata da reprodução de uma fotografia, no verso da qual se lêem algumas notas biográficas, de entre as quais cito as seguintes palavras: "Homem (...) pugnador incansável dos benefícios dos pobres e dos órfãos... e mais útil aos estranhos que a si próprio" (sic).


Encontrei em GeneallNet a seguinte informação que passo a transcrever:

 "...A mãe da minha avó Maria da Conceição de Pinho, chama-se Maria dos Anjos e morreu muito cedo, de parto. O pai, José Joaquim de Pinho, era natural de Ovar , ou Ilhavo ( Nota minha:- segundo a certidão de nascimento de Maria da Conceição, n. em Moçamedes em 1872, da qual possuo uma cópia, o pai nasceu nas Terras da Feira), e também morreu novo, mas morto por um criado negro, bêbado, que lhe espetou uma faca durante um banquete (...) Tinha vindo para Moçamedes , com cerca de 20 anos, acompanhado por um seu conterrâneo, Manuel Torres. Quando morreu, os filhos e filhas ( minha avó , Maria Amélia , Perpétua e Jacinto ), ficaram a viver em casa de Manuel Torres e sua mulher , Maria Torres. Este tinha um filho António Torres (...) fim de citação. (ass. Luis Piçarra)
"...Para já, chamou-me a atenção a certidão de casamento entre os nossos tios já remotos, Alfredo de Oliveira Luso e Maria Amélia de Pinho, pois julgo que as informações que possuis, apontam para ele ter nascido em Moçâmedes. No entanto não é o que consta do assento de casamanto de que tenho uma fotcópia que passo a transcrever. A folhas 4 v. e 5 do livro de Casamentos da freguesia de Santo Adrião, conselho de Moçâmedes, relativo ao ano de 1889, com o Nº 6 :

" Aos vinte e tres dias do mês de Junho de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila e freguesia de Santo Adrião de Moçâmedes, diocese de Angola e Congo, e casas do falecido General Honorato José de Nendonça, compareceram perante mim os nubentes que sei serem os próprios, Alfredo de Oliveira Luso e D. Amélia Pinho, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, ele, de idade de vinte e um anos incompletos, natural da freguesia de Santo António do Recife, Província de Pernambuco, Império do Brasil, filho de Joaquim Antero de Oliveira Luso e de D. Filonila da Costa Luso e ela de idade de dezanove anos, solteira, natural desta freguesia de Moçâmedes, filha legítima de Joaquim José de Pinho e de D. Maria dos Anjos de Pinho, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e eu os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto segundo o Rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios:- o comendador Manuel José Alves Bastos, sua esposa D. Amélia do Carmo Torres Bastos, António Florentino Torres , negociante, a sua esposa D.Maria Júlia de Mendonça Torres, todos residentes nesta freguesia de Santo Adrião de Moçamedes. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido, conferido e achado conforme, assino com os nubentes e tetemunhas presentes. Era ut supra. (...) Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, arcipreste" (ass Luis)

Ainda sobre esta familia e colaterais muitos elementos poderão ser colhidos  AQUI   Aqui  AQUI



Moçâmedes/Genealogias
Pesquisa e composição do texto de MariaNJardim

terça-feira, 29 de março de 2011

Componentes das 1ª e 2ª Colónias oriundas de Pernambudo (Brasil), e desembarcadas em Moçâmedes nos anos de 1849 e 1850 : Manuel José Alves Bastos e Amélia Torres Bastos ; Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres



                                                                Manuel José Alves Bastos

O casal constituido por Amélia Torres Bastos e Manuel José Alves Bastos, foram componentes das Primeira e  da Segunda Colónias chegadas a Moçâmedes em 1849 e em 1850, idas de Pernambuco, Brasil, em consequência da perseguições aos portugueses que se negavam em abdicar da sua nacionalidade (revolução praeira/mata-marinheiros/independência do Brasil). 

Manuel José Alves Bastos era natural de Fermil, distrito de Vila Real (Trás-os-Montes). Comerciante e proprietário, chegado a Moçâmedes em 4 de Agosto de 1849, juntamente com Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, estabeleceu-se na povoação onde se dedicou ao comércio de marfim e gado, e onde se dedicou à actividades agricola, à pesca ( recebia o peixe dos pescadores algarvios e colocava-o por sua conta, segundo Alfredo Felner) e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos da colónia, na época.


 

 Amélia Torres Bastos

Sobre Amélia Torres Bastos sabemos que faleceu a 12 de Abril de 1896, e seus restos mortais repousam em mausoléu no Cemitério de Moçâmedes, mais tarde Moçâmedes, hoje Namibe. Era filha de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, (componentes da Segunda Colónia, cujas fotos podem ser vistas um pouco a seguir). 



Manuel Joaquim Torres (1815-1882)
                                            Maria José da Costa Torres (1827-1912)
 
 


ela Repousa em jazigo de Família, no cemitério de Mossãmedes


Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres (naturais da Ilha de S. Miguel- Açores), componentes da Segunda Colónia de emigrantes idos de Pernambuco (Brasil), chefiada por José Joaquim da Costa , chegaram a Moçâmedes no ano de 1850,  e já eram pessoas endinheiradas quando partiram das terras de Santa Cruz. Em Moçâmedes foram proprietários, entre outros, de uma fazenda na Várzea dos Casados. Seus restos mortais repousam em mausoléu «aristocrático» no Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no qual se encontram gravados os seguintes dizeres referenciando Manbuel Joaquim Torres: «Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias nas lutas fratícidas de 1822».


A filha que os acompanhou integrando a 2ª colónia, Amélia Torres era casada com Manuel José Alves Bastos, componente da 1ª colónia, comerciante e proprietário que se dedicou ao comércio de marfim e gado, às actividades agrícola com plantações, e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos na época. Repousam em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.

Para além de Amélia Torres, a filha que os acompanhou na viagem para Moçâmedes,  do casamento de Manuel Joaquim Torres e Maria José Costa, nasceu em Moçâmedes António Florentino Torres, que por sua vez casou com Maria Júlia Mendonça. * 21.06.1866. Estes tiveram a seguinte descendência:

Da união de  Eduardo de Mendonça Torres Maria Salles Lane, iria derivar um dos ramos desta família pioneira da colonização de Moçâmedes  que ali se manteve até às independência de Angola, em 1975.


 Eram netos de António Florentino Torres e de Maria Júlia de Mendonça, bisnetos de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) e de Maria José da Costa Torres (1827-1912), um dos casais que,  acompanhados de sua filha Amélia Torres (na foto acima), integraram a 2ª colónia de emigrantes idos de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa , e que ali chegou no ano de 1850, para se juntar à 1ª colónia chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que havia chegado na Barca «Tentativa Feliz», no dia 04 de Agosto de 1849. Iam dar inicio à colonização do Distrito. Portanto,  faziam parte de uma 3ª geração já nascida em terras de Angola.


A família Mendonça Torres foi durante muito tempo uma das famílias melhor situadas socialmente e materialmente em Moçâmedes. A moradia da familia Mendonça Torres, um primeiro andar de traça classizante portuguesa, dos primeiros a serem ali construídos em Moçâmedes  (1885?), Ficava  num gaveto que convergia com a Rua dos Pescadores e com a Rua 04 de Agosto, próximo do antigo «Jardim da Colónia» (jardim, para o qual esteve projectado um monumento à memória dos fundadores, e que na década de 1940 foi demolido para dar lugar ao Cine Teatro de Moçâmedes).  A referida moradia a partir de determinada altura foi alugada à família Gouveia, passando a funcionar como o Hotel Central. Hoje serve de Museu, onde repousam aquilo que ficou na cidade do Namibe dos «restos do Império»...

Diz quem conheceu que Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil, integrados na 2ª colónia, em 1850. E que o interior desta bela moradia, onde viveram, mantinha as características dos lares das burguesias metropolitanas «aristocratizadas» da época, quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes. Ali não faltavam quadros a óleo, pratas e cristais cintilantes, o tradicional piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, e aos serões familiares as senhoras reunidas à volta de uma grande mesa, coziam  à máquina e bordavam ao bastidor, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc. 



Trata-se do interior de uma das casas mais antigas de Moçâmedes, a casa da familia Torres. 

Deste grupo de sete senhoras, que a foto acima representa, naturalmente já descendentes, em 1991, três ainda viviam: a primeira, a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano. (vidé foto e descrição, clicando AQUI). Ano provável: 1885.

Não seria por acaso que um viajante estrangeiro manifestou a sua surpresa,  quando em finais do século XIX,  na sua passagem por Mossâmedes, ao passar pelo casario da baixa, pôde ver e ouvir, em casas de familia jovens ao piano a tocar, a cantar e a bordar a bastidor, uma prática muito comum nos serões familiares femininos da época nas burguesias ocidentais.

Aliás, como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Mossâmedes uma determinada burguesia "aristocratizada" que já tinha ao seu dispôr para a educação das filhas, um Colégio e  sabe-se que  até se recorria a preceptoras estrangeiras para a  sua educação:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)

Ainda sobre a meama Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... » 

Foram estes usos e costumes burgueses "aristocratizados" *, que foram passados para a geração seguinte já nascida em Mossâmedes, e que vemos referidos na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221 :

«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Mpçâmedes.» Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Moçâmedes até à década de 50 foi professora particular de Música, Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra, etc, etc..
Isso talvez explique que Moçâmedes, terra de pescadores, primasse pelas suas mulheres, sempre prontas a aprender as boas regras de etiqueta, a bem receber, vestir, etc. De facto ainda em meados da década de 50, era facilmente detectável nas jovens raparigas da terra a preocupação das mães na sua educação. Eram mães que se dedicavam inteiramente ao lar e à família, e  muitas delas já não eram descendentes dos colonos idos do Brasil, mas daqueles que vieram a seguir, idos, na sua maioria do Algarve e mais propriamente de Olhão que, por mecanismos de imitação social, aprenderam a cultivar algumas dessas qualidades que transmitiam às suas filhas. A partir de finais da década de 50, as raparigas já não tinham tempo para o cultivo dessas «prendas domésticas» que faziam as delícias dos seus admiradores... Com a entrada decisiva da mulher no mundo do trabalho, abriam-se outras perspectivas para as suas vidas...

Acrescenta-se ainda que o culto da arte de bem receber da família Torres foi sendo transmitido de geração em geração, e esteve presente em 1932, quando por ocasião da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 

«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. 
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .

Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossãmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim)
Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.


Rui Duarte de Mendonça Torres foi o último gestor dos negócios e bens desta família, nas áreas da indústria pesca e agropecuária.

As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos. A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde, recordo, a família possuíam uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

MariaNJardim

Alguma bibliografia:
-«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»

-“O Mossamedense”,  nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro
- Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
-GeneallNet

Clicar AQUI para ver: Lista dos 1ºs. colonos chegados a Moçâmedes, provenientes de Pernambuco (Brasil).

Trechos e fotogravuras extraidas do livro «O distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Julio de Mandonça Torres.
                                                       


Ainda sobre Manuel José Alves Bastos

Em VIAGENS NA CIMBEBÁSIA / O RIO CUNENE / NOTA DO TRIPLOV PADRE CHARLES DUPARQUET (1879-1880), encontra-se uma referência a dois negociantes de Mossãmedes, um deles de nome Bastos:


Sexta-feira, 30 de Julho. São precisos oito dias para ir do Humbe à Huíla e quinze dias da Huíla a Moçâmedes, mas os carregadores levam ordinariamente quinze dias a fazer esse trajecto. Gastam quatro dias da Huíla e Ongambué, quatro dias de Ongambué ao Hai e dois dias do Hai à Huíla. Seguem sempre o rio Caculovar. Os Portugueses do Huambe não têm vagões; todos os transportes daqui para Moçâmedes se fazem com o auxílio dos carregadores. Estes levam 2.500 reis fortes (cerca de 12 frs. 77 c.) para transportar 2 arrobas (60 libras) de Moçâmedes ao Cunene.

De Moçâmedes a Capangombe há uma boa estrada para carros. Nesta localidade cultiva-se agora muito algodão, café e cana de açúcar. Com este último produto fabrica-se aguardente, muito procurada pelos indígenas. O único comércio do Humbe com Moçâmedes consiste em gado e algum marfim. A importação dos escravos está realmente proibida na Colónia Portuguesa; nenhum escravo pode actualmente ser vendido em Moçâmedes. Os Portugueses do Humbe compram ainda alguns nas tribos vizinhas, mas cedem-nos aos indígenas do Humbe a troco de gado. Compram cada escravo por um barril de aguardente (cerca de 60 frs.) e revendem-nos por três cabeças de gado aos indígenas do Humbe.

 
Estes portugueses são, na sua maioria, pobres e trabalham por conta de dois negociantes de Moçâmedes, os snrs. Narciso e Bastos, aos quais mandam o gado em troca de mercadorias e provisões enviadas por eles.



Mais sobre esta familia,  clicar AQUI

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Famílias antigas de Mossâmedes (Moçâmedes-Namibe): Familias Abreu e Jesus. Manuel de Abreu, «O mata-Porcos»


O casal Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu,  
com os filhos  Manuel de Abreu (à dt.) e Raul de Abreu (à esq.)

Os modos de se vestir e de se apresentar para o mundo revelam o modo de ser de cada época da história da humanidade. Nesta época (1ª foto), as senhoras ainda usavam vestido comprido, e era chic vestirem as crianças com fato de marujo, como era normal verem-se crianças pequenas do sexo masculino vestidas como meninas, com vestidos de folhos, laços no cabelo, cabelos compridos, caracóis, etc., E também era tido como normal, meninos brincarem com bonecas. Talvez porque deste modo as mães, ainda que por breves anos, matassem o desejo de terem a seu lado a menina que tanto ansiavam, e que o «destino» lhes havia negado... É o caso do pequeno Raúl de Abreu que vemos aqui ao lado de sua mãe, à esq. na foto. Quanto à indumentária masculina, os homens usavam correntes que seguravam relógios de bolso, o que também constituía na época um distinto em termos socias. Mudam os tempos, mudam as mentalidades e as modas também, mas ficam registos interessantes como este, que para além de trazerem à recordação familiares antigos, ficam para sempre inscritos na história dos costumes e da moda de determinada época, dos povos e das regiões...



O casal Raúl Abreu e Zenóbia Trindade Abreu,  junto dos filhos,
Fernanda (Babá), Nito e Leta, todos nascidos em Moçâmedes. Raúl de Abreu, irmão de Manuel de Abreu, era uma dos filhos de Manuel de Abreu e Anastácia Jesus de Abreu ((1ª foto, à dt) 


A família ABREU foi uma das famílias pioneiras da colonização do Lubango, que no último quartel  do século XIX chegaram a Moçâmedes, integradas na 2ª colónia de madeirenses, que partiu do Funchal, Ilha da Madeira, a 08 de Junho de l885, no vapor "ÁFRICA", tendo ali chegado em 19 de Agosto do mesmo ano, para em seguida escalarem a Serra da Chela, a pé ou em carroças boeres,  rumo às Terras Altas da Huíla. Iam juntar-se aos  primeiros colonos madeirenses que haviam chegado a Moçâmedes no vapor "India", em 1884, com o mesmo destino, iam promover o  povoamento das Terras Altas da Huila, de acordo com o projecto de Câmara Leme.

Contexto Histórico

Por essa altura, sob impulso da Sociedade de Geografia de Lisboa,  havia chegado ao fim a célebre Conferência de Berlim, realizada entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885, com o objectivo de organizar, por meio de regras, a ocupação da África pelas potencias coloniais. África acabou retalhada, tendo como resultando uma divisão territorial que misturou etnias, e não respeitou os  diferentes povos que desde há muito viviam naquele continente. 

Participaram nessa Conferência, a Alemanha, a Grã-Bretanha, a França, a Espanha, Portugal, a Itália, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Suécia, a Austria-Hungria e Império Otomano e os Estados Unidos.

Convém  também referir que até bem dentro do século XIX, a ocupação portuguesa no Sudoeste de Angola não passava de pouco mais que algumas feitorias ao logo da costa, sem penetração interior.  As primeiras famílias portuguesas que começaram a chegar a Angola foram na direcção de Moçâmedes, ali chegadss nos anos 1849 e 1850, vindos de Pernambuco, Brasil, e por esta altura os poucos portugueses que tinham avançado rumo ao interior, haviam-no feito por sua conta, risco e proveito,  para além de algumas incursões científicas ao interior recentes, na senda de Stanley, como as de Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que haviam efectuado a travessia de África, do Atlântico ao Índico (Capelo; Ivens, 1881, 1886), apoiados pela recém-fundada Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), criada para promover o ideário colonial,  apoiar iniciativas e divulgar os seus resultados.

Acontece também que o Sul de Angola, muito próximo de territórios alemães e dos interesses expansionistas britânicos era  um dos lugares de vulnerabilidade de fronteira e de tensões intraeuropeias, e encontrava-se já ali, nos anos 1880 uma coluna de boeres que, fugindo ao controle britânico, tentava nas "terras altas de Mossâmedes", a Huila, preservar o seu modo independente e altivo de vida,  que subvertia a lógica da governação imperial, mas que as autoridades portuguesas viam como colonos brancos a aproveitar, mas que tanto podiam ser tomados como potencias elementos essenciais de colonização, como ameaça.

Portugal, de acordo com os ditâmes saídos da Conferência de Berlim,  foi forçado à ocupação efectiva e à redefinição dos territórios que reclamava por direito histórico como seus. Tinha que os controlar, que os penetrar, conhecer, e demonstrá-lo. Tinha que estabelecer limites e desenhar fronteiras, mesmo que na prática aglutinasse numa mesma colónia estados africanos inimigos tradicionais.  Caso contrário teria que ceder os territórios africanos a outra potência em condições para tal.  O direito histórico perdera todo o valor. Impunha-se a ocupação efectiva e o desenvolvimento dos territórios. , uma vez que este perdera todo o valor. 

Era uma nova lógica de dominação imperial, fruto do avanço da Revolução Industrial e do desenvolvimento do capitalismo europeu, que levou à busca de novos mercados para escoamento da produção industrial,  para investimentos, e acesso a matérias-primas.  A mão-de-obra barata das colónias interessava aos investidores, numa altura em que na Europa a classe trabalhadora organizada em poderosos sindicatos e partidos políticos, tinha conseguido melhores salários e melhores condições de trabalho.  

Portugal era então um país desfasado das tendências europeias, apesar dos seus marinheiros, comerciantes e traficantes terem chegado ao território antes dos seus congéneres europeus. Um país traumatizado por meio século de conflitos que ali tiveram lugar, desde as invasões francesas que levaram à fuga do rei e da corte para o Brasil, até aos confrontos entre liberais e absolutistas que levaram ao triunfo do liberalismo em 1834, passando pela independência do Brasil em 1822, de onde vinham os proventos que permitiram durante séculos a manutenção de uma  corte perdulária, e de uma nobreza agarrada ao brilho do ouro e das pedrarias, enquanto o povo humilde emigrava e o país real definhava. A questão colonial estava longe de atrair os interesses públicos, havendo muitos intelectuais como Oliveira Martins que condenavam a exploração das colónias, com base em critérios económicos.   Para além do mais  o fluxo de migração de continentais e ilhéus encontrava-se dirigido para as economias de plantação estrangeiras, incluindo as do Hawai e a Guiana. Havia que contrariá-lo, e dirigi-lo para o sudoeste de Angola, para as Terras Altas de Moçâmedes, a Huila, apontadas como um paraíso para europeus, de clima ameno e livre dos principais males dos trópicos. Um dos argumentos políticos usados pelo governo português para promover a emigração/colonização do Sul de Angola passava precisamente pelo combate à sangria de gente feita pelos angariadores de migrantes, que os levavam para trabalhos forçados sob o domínio de outras nações.



A fundação de Sá da Bandeira por madeirensea

Foi pois no quadro de uma Angola cobiçada por potências estrangeiras, que  a Câmara Leme, o simples condutor de Obras Públicas ao serviço do Distrito, nasceu o sonho do povoamento dirigido para as terras do planalto do Lubango, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala região maravilhosa para a agricultura, com abundância de água, terrenos férteis, clima de uma amenidade incomparável, cuja serranias faziam-lhe lembrar a remota Madeira.

A ideia vinha ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huila, mas ultrapassava os limites da administração do Governo-Geral. O assunto era da competência do Ministro do Ultramar, e só em Lisboa se podia gizar tal projecto de recrutamento de povoadores para o Lubango.

Alegando a necessidade de uma licença graciosa para retemperar a saúde, Câmara Leme partiu para a Metrópole, onde bateu às portas do Ministério da Marinha e Ultramar, cuja pasta era ocupada por Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, que dedicava ao Ultramar todo o seu carinho e inteligência. e foi assim que teve inicio o povoamento do planalto interior de Moçâmedes, onde em 1880 diversos colonos, sem apoios, haviam avançado para a Chibia, onde se fixaram.

Foi então que  na Metrópole editais começaram a surgir nos adros das Igrejas, e se passou a oferecer as somas  consideradas necessárias para o transporte de colonos para as possessões portuguesas em África, incluindo o Planalto da Huila, proporcionando-lhes meios para o primeiro estabelecimento agrícola, contando que se obrigassem a residir ali pelo menos por espaço de cinco anos. (como se poderá verificar consultando o Diário de Governo de 1881).O Governador de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, conforme as ordens emanadas do Governo-Geral, deu instruções a Câmara Leme, e as orientações indispensáveis para a realização do seu projecto. 

Em 1884, em 12 de Outubro partiu do Funchal o vapor "Índia", rumo ao sul de Angola, carregando no bojo uma colónia constituída por 222 madeirenses, destinados a Moçâmedes e ao Lubango.    A 18 de Novembro chegaram ao porto de Moçâmedes acompanhados de D. José da Câmara Leme.  Alguns deviam seguir ainda para a Humpata, onde já estavam instalados os boers, enquanto outros seguiriam para a Chibia. Durante essa viagem nasceram diversas crianças,sendo uma delas. em 19/11/1884?  do sexo feminino, a quem atribuíram o nome de Maria India (Maria India de Souza Garcia).

E foi assim que, com 222 colonos, com as alfaias agrícolas que puderam adquirir e com as sementes e espécies vegetais que lhes pareceram mais adequadas, partiu  no navio «Índia» o primeiro contingente de madeirenses, que chegou a Moçâmedes em Novembro de 1884. Forneceram-lhes as verbas indispensáveis para a compra de ferramentas e a aquisição das sementes e plantas que tencionavam aclimatar.

A travessia do Deserto e a subida da serra foi uma epopeia, em que o Director teve de evidenciar todas as qualidades de chefia e de autoridade, Em 25 de Dezembro, os "colonos" chegam ao Planalto da Huila, depois de terem permanecido alguns dias na " Pedra Branca", de onde avistavam o Morro Maluco e onde, segundo alguns relatos nasceram algumas crianças (?). Em 19 de Janeiro de 1885 instalam-se nas margens do rio Caculovar, onde ergueram dois "barracões". Foi a fundação da colónia.  

Em 18 de Junho, no navio "África" embarcaram mais colonos, totalizando 428 nesse ano. Em 19 de Agosto chegam ao Lubango os 349 colonos madeirenses destinados ao sul de Angola.

Naturalmente os nossos colonizadores madeirenses, a maioria analfabetos e pouco ou nada esclarecidos,  tal como o povo português em geral, gente pobre e iletrada desconheciam completamente toda esta movimentação que envolveu a "Partilha de África" pelas potências europeias de então. A saber, em finais do séc XIX, segundo estatísticas, o analfabetismo em Portugal era de 85%. Não admira se tivermos em conta que a escola pública em Portugal foi inaugurada no século XIX, após a queda do Absolutismo e o triunfo do Liberalismo em 1834, era reduzida ao ler , escrever e contar, que se no início do século o analfabetismo era de 95%,  no alvorecer do século XX não desceu dos desceu dos 80% 

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A família ABREU foi uma dessas famílias que integraram a 1ª colónia de madeirenses, que chegou a Moçâmedes no vapor "India", se instalou no Lubango, arreigou à terra com todas as tradições e riqueza humana do seu berço natal. Não foi vertiginoso, mas foi seguro o crescimento de Sá da Bandeira que em 1889 era elevada a sede do concelho do Lubango. 

Através da lista que se segue, podemos facilmente detectar a frequência com que os apelidos das famílias de Manuel Abreu e de Anastácia de Jesus, surgem integrados nas 1ª e 2ª colónias de emigrantes, nos anos de 1884 e 1885, tendo uns ficado em Moçâmedes, mas a maioria subido a Chela para se fixarem em Sá-da-Bandeira (Lubango), parecendo tratar-se de duas famílias interligadas entre si por vários casamentos. 


Os nomes que seguem foram retirados das listas do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume:

 

Integraram a 1ª colónia desembarcada em Mossâmedes
a 18(19) de Novembro de 1884, composta por 222 (213 ?) colonos madeirenses vindos a bordo do "ÍNDIA" , saído do FUNCHAL, em 12 de Outubro, de acordo com o projecto de D. JOSÉ DA CÂMARA LEME:

--- FRANCISCO MARQUES DE JESUS - natural de Santa Ana(48 anos), casado com JOANA ROSA DE JESUS; filhos : - Maria(17), Manuel(13), Francisco(5) e João (16 meses ?).
--- FELISBERTO GONÇALVES DELGADO - natural de Porto Monis(4o anos), casado com MARIA DE JESUS.
--- FRANCISCO GOMES FARIA - natural de Curral das Freiras(26 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel (1),João (nasceu a 1/6/1885).
---JOSÉ FERREIRA JÚNIOR - natural de S. Martinho(20 anos). Casou com MARIA DE JESUS em Janº/1886; filho : - Manuel(17/9/1886).
--- LUIS DE ABREU FARIA - natural de Ribeira Brava(30 anos), casado com CRISTINA DA SILVA DE JESUS; filho - Manuel(20 anos).
--- MANUEL PAULO DE FREITAS - natural de Boaventura(35 anos), casado com BASÍLIA DE JESUS; filhos :- Maria(3) e Manuel(nascido em Dezº 1886.
--- MANUEL VICENTE FERREIRA - natural de S.Jorge(42 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(8), Maria(6) e António(2).










Integraram a 2ª colónia de madeirenses, em 18 de Junho de l885, embarcados no vapor "ÁFRICA", no FUNCHAL, rumo a Mossãmedes/Angola, tendo ali chegado em 19 de Agosto:



~-- ANTÓNIO DE ABREU, natural de Boa Ventura(24 anos),casado com MARIA DE JESUS.
----ANTÓNIO GOMES JÚNIOR - natural de S. Roque(32 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Matilde (21), Gregório(9), Maria(3 meses).
--- ANTÓNIO MANUEL GOUVEIA - natural de S. Vicente(31 anos), casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Maria(4), Manuel(7 meses), Isabel(nascida a 28/9/1886), Maria(nascida 23/7/1887).
--- ANTÓNIO MARQUES LUIZ - natural de Santa Ana(46 anos), casado com JOAQUINA FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(14), José(12), Carolina(8), Ana(6), Luisa(3) e António (22 dias).
--- FRANCISCO DE GOUVEIA - natural de Ribeira Brava(25 anos),casado com ISABEL DE JESUS GOMES.
--- JOSÉ DE ABREU - natural de Tábua, casado com MARIA DO NASCIMENTO ; filhos : - Maria(23), Vitorina(20), Francisco(18), Antónia(16), Virgínia(12), João(10), Manuel(7), António(3).
--- JOÃO NUNES - natural de Ribeira das Galinhas(20 anos),solteiro. Casou com MARIA DE JESUS em 1/8/1887.
--- JOSÉ DE CASTRO - natural de Santo António(49 anos),casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Luis(15), Alexandre(13) e Augusto(1).
--- JOÃO DE FREITAS - natural do Machico(43 anos),casado com CRISTINA DE JESUS; filhos : - Romana(13), Maria(12), Augusta(10), Cristina(7), Manuel(5), Tereza(2) e Alexandrina(1 mês).
--- JOÃO DOS SANTOS - natural de S.Martinho(29 anos),casado com JUSTINA DE JESUS; filha - Maria(2) e cunhado JOSÉ DE PONTES(17 anos).
--- JOÃO MARQUES CALDEIRA - natural de S. Jorge(45 anos), casado com MARIA ROSA DE JESUS; filhos - Maria(16),FRancisco(12) e José(8).
--- JOÃO SOARES DE ABREU - natural de Porto da Cruz(40 anos), casado com MARTA ROSA; filhos : - Rosa(6), João(4), José(nascido a bordo em 20/5/1885).
--- JOÃO DE FREITAS GOMES - natural de Santa Ana(48 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(20),António(16), Joaquina(12) e António(primo - 19 anos).
--- JOÃO MARQUES LUIS - natural de Santa Ana(41 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Manuel(6),Maria(4), Gertrudes(2) e João (nascido a bordo em Outubro de 1885).
--- JOÃO DA COSTA - natural de Machico(32 anos), casado com FRANCISCA DE JESUS; filhos : - Maria(13),Francisca(10),José(8), Francisco(6) e João(4 anos).
--- JÓSÉ DE ABREU PEREIRA - natural de Tábua(42 anos), casado com VIRGINIA ROSA; filhos : - António(11), Jacinto(7), Maria(4) e Manuel Francisco(pupilo).
--- JOÃO FERNANDES DA SILVA - natural de Calheta(50 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(12), Cristina(7)e Maria(6 anos).

Em 5 de Abril de 1884 haviam já chegado a MOSSAMEDES 42 (44 ?) colonos, com o padre LECONTE, para a Colónia de "S. JANUÁRIO DA HUMPATA", aonde já se encontravam cerca de 280 boers chegados da ÁFRICA DO SUL, conforme autorização do governo português.

De 16 a l9 de Janeiro de 1885 concretizou-se a sua instalação e a fundação da "Colónia SÁ DA BANDEIRA. Fixaram-se nos "BARRACÕES" (Bairro da Machiqueira), ficando abrangidos pelas disposições da Portaria nº 132, de 8 de Abril de 1884 e "Instruções" do governo do distrito (de 22 de Dezembro de 1884),com direito a distribuição de sementes, alfaias agrícolas, objectos de uso pessoal e de defesa, gados (bovino e suíno) e o subsídio diário de 300 réis para os homens, de 200 réis para as mulheres e de 100 réis para menores de 18 anos durante um ano (ou mais).A "Colónia de SÁ DA BANDEIRA" ficava dependente do Concelho da HUMPATA. Era assim dado início ao novo Concelho do LUBANGO.

                                                                 
Virá o tempo em que a televisão e o cinema descobrirão o argumento perfeito para uma história real e apaixonante. Para já, fixemos os tópicos dessa aventura, recolhidos em publicações diversas.
                                                                           

MariaNJardim

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Manuel de Abreu exibindo o troféu de caça
no quintal da casa da Rua dos Pescadores, em Moçâmedes

 
 Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes na frente de uma carrinha «Brokway». 
Na esquina desta Rua ficava a Loja de Rogério Ilha, e os Armazéns de Antunes da Cunha



Manuel de Abreu, o «mata-porcos»

Manuel de Abreu pai (na 1ª foto) era um dos filhos de José de Abreu (natural de Tábua) e de Maria do Nascimento, tendo por irmãos Maria, Vitorina, Francisco, Antónia, Virginia, João, Manuel e António. 

José de Abreu, seu pai, enquanto na Ilha da Madeira de onde era natural já exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que continuou de certo modo a exercer, quando resolveu emigrar para Mossâmedes, onde era proprietário do «Bazar do Povo». Esta loja, vendia de tudo um pouco, e  ficava situada na Rua das Hortas, em frente à loja do Graça Mira e Jacinto, numa esquina, onde mais tarde passaram a ficar os «Armazéns da Beira», cujo principal sócio era Pedro Bento Rodrigues (Pedro Padeiro), e onde, ainda mais tarde passou a estar a «Casa Inglêsa», e ultimamente a firma «Santos & Cabeça.
Mas o que nos traz aqui é uma  faceta de Manuel de Abreu filho (o menino da 1ª foto à esq.), a de exímio caçador dos animais do Deserto do Namibe, em Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à actividade da sua família e também sua, ligada ao comércio de carnes, daí a alcunha de "Mata-Porcos").

Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu filho  ia para o deserto caçar os animais selvagens que ele próprio esquartejava e preparava para pôr à venda no seu «Bazar do Povo» apetrechado do respectivo talho.

Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabaria por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu filho, e de seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas, olongos, guilengues, e outros animais tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, por puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade fugindo às perseguições de que eram alvo, tornando mais difícil o transporte dos animais abatidos para a cidade.

Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. 


Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxera consigo uma moto com «side-car», veiculo que veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo. O Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe. 


Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Manuel de Abrei filho, o Mata-Porcos, e o irmão Raul de Abreu



 
  Manuel de Abreu, à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com 
carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. 
O 2º à dt.,  Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Anos 30.





                                                          
Manuel Abreu segurando a zebra acabada de capturar

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura.


Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é precido dizer que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos. Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.










As crianças da família, observando no quintal da casa de Manuel de Abreu, a leoa abatida



 

Caçada no deserto do Namibe, com toda a família envolvida.  Angelo Abreu (1º à esq.), seguido de  algumas 
jovens  da família  vestidas a preceito. Manuel Abreu  e esposa (à dt.), ao lado de João Abreu;  sentada e a 
segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)

                                                                            

A respeito de caçadas no Deserto do Namibe. Uma história e algumas curiosidades:


O acto corajoso de um componente da segunda colónia...

Na vida dos antigos colonos aconteceram factos isolados que se constituiram em momentos reveladores de enorme capacidade de decisão e coragem. Conta-se que um componente da segunda colónia se defrontou com um leão e o matou para salvar a própria vida e a dos seus companheiros.

Foi no Quipola, a 14 de Fevereiro de 1854. Havia várias noites que as fazendas dos colonos eram assiduamente visitadas por um leão, que, em cada visita, sofregamente, se vinha banqueteando com uma descuidada rêz. Pouco satisfeito com tão inoportunas visitas, o dito colono lembrou-se de, na tarde do dia 13, lhe pesquisar o rasto, e tendo-o encontrado, engendrou uma armadilha, colocando sobre ele, em sentido transversal, um pedaço de linha de barca, cuja estremidade prendeu ao gatilho duma espingarda carregada, avisando os vizinhos do ocorrido. Anoiteceu, O colono, já recolhido em casa, adormeceu. Por volta das oito horas ouviu uma estrondosa detonação que ecoou pelo vale do Bero. Convencido que o leão havia caído na armadilha ergueu-se, tomou rapidamente a refeição matinal e passando pelas moradas vizinhas a todos foi comunicando a boa nova, tendo ficado assente irem, pelas pegadas, procurar e matar o leão, caso estivesse apenas ferido. O leão, atingido no flanco, no auge do desepero estilhaçara a espingarda e arrremeçara-a, bramindo, para longe. Procuraram a fera José Francisco Azevedo, Manuel Marcelino, João Fernandes Moreira, João Francisco Ribeiro, José Franscisco Moreira e Manuel José Machado. Meterem-se por numerosos carreiros, sem método nem organização, e ao mínimo ruído imaginando tratar-se da fera, imprudentemente desfechavam à toa as armas de que se fizeram acompanhar. O leão, perseguido, deambulava furioso pelo espesso mato. Em determinada altura os moradores até então dispersos, juntaram-se numa clareira e dalí continuaram a disparar, quando, de chofre, lhes surgiu pela frente o leão furioso avançando rapidamente para o velho Marcelino, que, tendo a arma descarregada, voltou-se para fugir. Logo a fera o alcançou e cravou-lhe nas costas as garras das patas dianteiras, rasgando e pondo-lhe a nú as costelas. Perto, muito perto estava José Francisco de Azevedo, que, com a arma descarregada, num acto heróico destinado a salvar a própria vida, pediu a um dos companheiros a arma carregada e descarregando sobre o leão, salvou a vida, salvando simultaneamente a dos restantes colonos. A fera num ronco de dôr e cólera intensa, largou a presa e preparou-se para se lançar sobre o atirador, que empunhou a arma pelo cano e, brandindo-a com vigor, esmagou-lhe o crânea com a coronha. A fera atordoada, tombou, e, num breve estertor, morreu.

A notícia espalhou-se por Mossãmedes, e acorreram ao Quipola grande número de colonos para verem o leão morto. O velho Marcelino, feitas as disposições de última vontade, faleceu no dia seguinte.

Caçadores que se distinguiram à época da formação do distrito de Mossãmedes

Recuando atrás, muito atrás, aos tempos da formação do Distrito, nunca é demais salientar os nomes de três caçadores que ficaram ligados a este vastíssimo e atraente Deserto, atraidos que foram pela abundância e variedade de animais que nele têm o seu habitat. Um deles foi Nestor José da Costa, filho do chefe da 2ª colónia chegada a Mossãmedes em 1850 proveniente de Pernambuco (Brasil), José Joaquim da Costa. Outro, foi José Anchieta, naturalista, que colheu no deserto do Namibe e enviou para o Museu Nacional de Lisboa milhares de exemplares entre os quais cerca de cinquenta novas espécies. Outro nome, é o do popular Dr. Lapa e Faro, facultativo da província, possuidor de um veículo que havia mandado construir para transportar pelos areais de Mossãmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender. Tratava-se de um carro leve e comodo, que além de conduzir passageiros, servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.


Nota: Estas informações foram colhidas do Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, onde vem publicado um relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879





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Clicar AQUI para ler A excelente crónica de Newton da Silva sobre a caça no deserto de Moçâmedes, onde na época existiam, como se pode ler in B.G. Ultramar, 343, da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres, numerosas espécies tais como leões, leopardos, hienas, chacais, zebras, guelengues, gazelas, perdizes, tuas, cegonhas, flamingos, etc., para além de suricatas, elefantes, olongos, rinocerontes, palancas, impalas, gungas,onças, girafas rinocerontes, e outras tantas espécies mais, que o tempo e a guerra pos-independência fez o favor de espantar e dizimar.

(Silvestre Newton da Silva faz uma crítica cerrada e brilhante ao vandalismo dos caçadores furtivos que já nessa altura, em 1958 vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que para nada mais serviam senão para serem «exibidos a ingénuos pacóvios...». Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura da sua vida abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser transaccionados para toda a parte, dada a sua qualidade, como sedos célebres mármores de Carrara se tratasse.)
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Ver tb:

http://princesa-do-namibe.blogspot.com/2011/03/familias-antigas-de-mocamedes-os-abreu.html