Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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domingo, 12 de agosto de 2007

Pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia.

João Duarte de Almeida

João Duarte d'Almeida







João Duarte de Almeida: Genealogia




João Duarte de Almeida,  natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), onde nasceu em 26 de Março de 1822, era com mais 4 irmãos, filho de João Duarte de Almeida, bacharel em medicina, natural de Castelo Branco, Beira Baixa,  e de D. Ana Emília Duarte de Almeida.  Ou seja, filho de D. Ana Emília Brandão, * Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça, conforme vem descrito em GeneallNet.

João Duarte de Almeida casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de um seu companheiro de colonização, José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes em 1850, e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida.

João Duarte de Almeida era órfão de pai, quando muito cedo, em 1838, com mais 4 (?) irmãos menores, dos quais 3 varões, resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, onde viveu até 1849,  e de onde, por força da onda de antilusitanismo que grassava em Pernambuco, viajou para Angola na barca "Tentativa Feliz", integrado na 1. colónia de emigrantes chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que vinha dar inicio a povoamento de Moçâmedes.

Daí passou, em meados do século XIX, para Angola, onde se encontrava, quando  Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, chegou a Moçâmedes na Barca "Tentativa Feliz", chefiando a primeira colónia de luso-brasileiros vinda de Pernambuco, Brasil, para dar início ao povoamento branco da região. Esta informação está contida no livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), ou seja, quando Bernardino chegou a Moçâmedes já se encontrava alí (no distrito), João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela". Os irmãos de João Duarte de Almeida eram  Miguel Duarte de Almeida, e Luís Castelino Duarte de Almeida, que como acima referido, também foram para Moçâmedes.

Sabe-se que João Duarte de Almeida, numa primeira fase, tinha-se fixado em Benguela, e só depois seguiu para Moçâmedes onde se estabeleceu com duas fazendas agrícolas e onde se tornou um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul», no Coroca, em Porto Alexandre. Há referências que em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau (1) e a terceira no Coroca. E já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e a da colheita da urzela. Também há referências que na margem esquerda do rio Bero (Varzea dos Casados?),  o 1º colono que aí se instalou foi  João Duarte de Almeida,  tendo mandado construir uma vala para aproveitamento da água do rio, ao longo do qual instalou comportas que forneciam a água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas.

Aliás, no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos, o distrito de Moçâmedes possuía 11 fazendas onde se cultivava algodão,   empregando entre trabalhadores  escravos e libertos o total de 350, a maior das quais pertencia a João Duarte de Almeida. A produção anual, nessa época, calculava-se em 1780 arrobas de algodão. Em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Os seus esforços tiveram notável eficiência, cabendo-lhe, por isso, a justa reputação de maior cultivador de algodão, cultivador de cana de açúcar para aguardente, e de activo descobridor da "almeidina", um produto com uma boa percentagem de  borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale (in Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). (1)  Duarte de Almeida descobriu-o em 1883, desenvolveu-o e comercializou-o com êxito. Foi introduzido no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool  (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola. 


O distrito de Moçâmedes possuía uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraúl: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especiamente na margem esquerda, que se cultivaram as melhores árvores de fruto de todo o sul do distrito.  Na margem esquerda cultivavam-se mamoeiros, diospiros, bananeiras, nespera-cereja-dendém,  palmeira de óleo palma, etc, etc. A razão é que na margem esquerda, dada a inclinação do terreno e a presença de uma lage a cerca 5 km, há curso de água permanente, enquanto à direita, apenas por infiltração. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da "Companhia de Mossâmedes", proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia, tendo que a aguardar de novo, que, por infiltração, as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem direita necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esquerdas os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes, e os da margem direita possuiam uma plumagem negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto, cor e tamanho diferentes. Estes pormenores vêm descritos no livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão.




Iremos abordar em seguida, uma outra faceta da vida de João Duarte de Almeida, esta ligado a aspectos de ordem cultural, que importa reter. O cemitério de São Nicolau, de existência intimamente ligada à fazenda de S. João do Norte de que João  Duarte  de Almeida era proprietário, é, depois do cemitério indígena de Moçâmedes, um dos locais mais interessantes para o estudo da arte Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", sobretudo da obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba, escravo mandado especializar-se em Lisboa em estelas funerárias.

A arte Mbali ou Mbari, invulgar em África,   arte funerária do povo africano aportuguesado do distrito de Moçâmedes, o povo "quimbar", é referida por Gilberto Freyre como um caso de cultura afro-cristã, gerada em consequência do contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do Distrito, em 1849 e em 1850, entre os  colonos luso-brasileiros e a mão-de-obra negra. Era já, pois, uma cultura de fusão. Trata-se de uma arte que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, ou pedra sabão, mas também em  madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a óbito, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual  era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração.  Os canteiros inseriam nas cruzetas, trabalhados em relevo que descreviam o que as pessoas foram em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus maiores interesses, acontecimentos marcantes, através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores,  como a "mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); "o leão"  (para os caçadores); "a bola"  (para o futebolista), e outros símbolos como "o chicote", "a palmatória", "o cajado do capitão", "a cobra do que foi mordido", o oficio, etc...  Infelizmente as historias que aí se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. O que ficou a caracterizar a maior parte das esculturas de S. Nicolau  foi o facto de apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajos, o que se deve ao facto de Victor Jamba, o canteiro da região, ter-se deslocado a Lisboa, a mando de seu patrão, João Duarte de Almeida, para se especializar, tendo  a sua arte adquirido características europeizadas.  Da sua autoria, são as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc.. Sendo o canteiro mais célebre e mais perfeito,  Victor Jamba também foi o mais convencional,  se comparado com outros canteiros que imprimiram nos seus trabalhos um alto cunho de originalidade. A arte Mbali ou Mbari,  de rara expressão em África, tem no cemitério de S. Nicolau um dos seus melhores documentos que importa a todo o custo preservar.



Duarte de Almeida concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos.
Foi testemunha presencial, na sua qualidade de negociante e de proprietário, juntamente com o Dr. João Cabral Pereira Lapa, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (chefe da  1ª colónia ida de Pernambuco na Barca Tentativa Feliz, em 1849) e José Joaquim da Costa (chefe da 2ª colónia ida de Pernambudo na Barca Bracarense e chegada a Moçâmedes em 1850), da cerimonia da Escritura de Promessa e Voto , o acto solene do reconhecimento, manifestado pelos antigos colonos, na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859, para que em todos os anos e no dia quatro de Agosto, se celebrasse, na Igreja Matriz de Moçâmedes, uma missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus" .  Era agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa". Nos cargos de juiz substituto e de presidente da Câmara Municipal, Duarte de Almeida muito ajudou os  colonos. 

Faleceu a 9 de Julho de 1898. Repousa como outros portugueses que se transferiram na primeira metade do século XIX, de Pernambuco para Moçâmedes,sob artístico mausoléu «aristocrático» de estilo luso-católico,  que ainda hoje se pode ver no Cemitério da cidade, apesar do estado de abandono a que aquele Cemitério, que faz parte integrante do património cultural e histórico do Namibe, tem sido votado. 





                          
 

    Mausoléu da esposa de  João  Duarte  de Almeida, Amélia Josefina da Costa Duarte de Almeida, filha do chefe da 2ª colónia




Pesquisa e texto de MariaNJardim

(1) Seguem algumas informações sobre esses dois produtos comerciáveis e naturais que aliviaram bastante a  vida dos angolanos, e que em Moçâmedes foram explorados por Duarte d'Almeida: urzela e goma copal. A urzela é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtem uma tinta azul arroxeada  de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à beira mar. Cabo Verde foi um grande produtor de urzela. A goma copal é uma resina especial mas as savanas oferecem outras resinas, de várias densidades e consistências.. Os produtos sintetizados vibraram-lhes um duro golpe.
                                                                     
                                                                                    Urzela

.
Eis o que escreveu Carlos Pacheco  no livro “Angola um gigante com pés de barro” a propósito da urzela:
« O governador Xavier Bressane Leite  por ter permitido a exportação deste género para portos estrangeiros recebeu uma advertência do ministro da Marinha e Ultramar que lhe comunicou a sua desaprovação por tal concessão, ordenando que proibisse a exportação e remetesse para Lisboa o produto dos direitos cobrados.» No mínimo, hilariante! Bressane Leite governou de 1842 e 1843, morreu em Luanda.




Bibliografia consultada:
Manuel Júlio de Mendonça Torres  «Moçâmedes», 1º volume datado 1954
Exploração Geográfica e mineralógica do Distrito de Mossâmedes, 1894-1895" por J. Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real.
Ver também: Os primeiros produtores na Exposição do Porto:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2010_03_24_archive.html


VER AQUI 
OU AQUI



Em GeneallNet encontrei as seguintes referencias que passo a transcrever: 

"Em relação aos Duartes de Almeida, de Moçâmedes, penso não errar em supô-los descendentes de
I – Bento Duarte de Almeida, de Mangualde, e de D. Antónia Rita, da Várzea de Candosa, onde residiram e onde nasceu o filho:
II – Dr. João Duarte de Almeida (Borges Belmiro Castelo Branco), médico em Mangualde, fidalgo de antiga linhagem (cfr. António Duarte de Almeida Veiga (seu neto), «Midões e o seu Velho Município», e J. M. Dias Ferrão, «João Brandão») cc (Midões 5 6 1821) D. Ana Emília Brandão, * Midões (prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça). 

Refere também uma escritora,  irmã mais nova de Duarte de Almeida

O Dr. João Duarte de Almeida faleceu cedo, deixando 5 filhos menores, dos quais os 3 varões que foram para Moçâmedes:
 
(III)  – João Duarte de Almeida * Midões 26 3 1822 + em Moçâmedes. Órfão de pai, partiu para o Brasil em 1838 em busca de fortuna. Daí passou, pouco depois, a Angola, acompanhando Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador da cidade de Moçâmedes. Foi grande produtor de algodão e cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul». Foi também armador, e descobriu uma borracha, por si denominada «Almedina», que desenvolveu e comercializou com êxito.

"...Presumo que os Duartes de Almeida, de Moçâmedes, sejam todos descendentes dos 3 irmãos de Midões (ou Mangualde). Cumprimentos, José Caldeira (in Genea)

"...Existe em Genea alguns elementos sobre outros Duartes de Almeida "... Edgard Duarte de Almeida, nascido em Moçâmedes, em 28.10.1903. Faria mais tarde em Lisboa o Curso de Arquitectura na Antiga Escola de Belas Artes e, segundo a GEPB, também teve uma carreira com algum relevo na época como artísta lírico, baixo, actuando no Teatro Nacional de São Carlos e noutros locais.

"..Eu já sabia entretanto da existência de uns nossos familiares de Moçâmedes, os Duarte de Almeida, mulatos. Dois deles constam da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o pintor e ilustrador Álvaro de Figueiredo Duarte de Almeida (vol.v 9. págs. 322 e 323, vol.39 ( apêndice) pág. 494 e vol. 4 1ª actualização, pág. 260. Nasceu em M. a 20.01.1909, foi professor dos Cursos de Desenho da Sociedade Nacinal de Belas Artes. Foi o ilustrador da História da Tauromaquia, uma edição de luxo em dois grossos volumes, dirigida por Jaime Duarte de Almeida, que existe na casa do meu já falelecido avô, de quem além de primo era amigo.Tinha duas irmãs, que eu cheguei a conhecer , que tinham uma casa em Ranholas , Sintra , uma das quais também consta da dita Enciclopédia, cantora lírica, Maria Amélia Duarte de Almeida n. Moçamedes 26.08.1900 e + Lisboa, a 15.03.1979.

"... Olívia Simões Freire de Figueiredo, casada com um Eugénio Duarte de Almeida que tiveram uma filha Maria Adelaide Duarte de Almeida, n. em Moçâmedes a 19.11.1919 , casada e com geração, de quem nunca tinha ouvido falar. Terá alguma ligação com os Freires de Figueiredo? ass Luís Piçarra in GeneallNet

Esses Duartes de Almeida eram primos do meu avô, embora como disse, ignore como se establece a relação, mas julgo ser anterior à sua ida para Angola.
Os que eu refiro , tal como Maria Amélia, Álvaro , Edgard, já pertencem a uma geração nascida em Moçâmedes.

"...Pessoalmente só conheci essa prima Maria Amélia D.A. e a irmã ambas filhas de um casamento misto.
Quanto ao Álvaro Duarte de Almeida, também lá nascido, que iustrou a História da Tauromaquia , pintor e colaborador como ilustrador de revistas tauromáquicas nos anos 50 , era primo do meu avô, mas não estou certo se era irmão ou primo ou primos de Maria Amélia... ass. Luís Piçarra in GeneaNet.




Algumas fotos antigas de familiares do ramo Duarte de Almeida 










 




 




Miguel Duarte d'Almeida e Amélia Figueiredo Duarte d'Almeida

100º aniversário de Amélia Adelaide. Com as filhas em 1969.

(emendo 1899-1973)
 

 
 
Armando Duarte d' Almeida, esposa e filhos


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Nota: recebi esta mensagem que deixo aqui, uma vez que me é impossível atender à rectificação solicitada por não poder fazer alterações no quadro acima,  que não foi feito por mim, mas que foi em tempos colocado na Net por um familiar de João Duarte d'Almeida:

"....Olá, boa tarde! O meu nome é Manuela Duarte d'Almeida Guerreiro e sou trisneta de , filho de João e de Anna Emilia Duarte d'Almeida. Gostaria que corrigissem alguns dados, uma vez que o meu trisavô estava casado ( naturalmente com a minha trisavó) MARIA AMÁLIA de OLIVEIRA LOUREIRO e não como escrito com Ana Máxima da Costa. Nunca ouvi falar dum filho José!!!! A irmã mais nova do meu trisavô chamava-se EMILIA e não Maria Cecilia, como escrito. A minha bisavó Constança Bensabat Lapa Valente- Duarte d'Almeida ( do1. casamento) nasceu, segundo certidão de baptismo, a 06.09.1874. Melhores Cumprimentos, Manuela em Pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Vigário da Vara e pároco da freguesia de Santo Adrião da Vila de Mossãmedes no século xix







No Caderno da Cidade de Mossâmedes (4 de Agosto 1849/1991), podemos ler:

Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa
, mais conhecido, simplesmente, por Padre Rodolfo. Vigário da Vara e pároco da freguesia de Santo Adrião da Vila de Mossãmedes. Esclareceu, numa interessante conferência, proferida em 1877, perante a Sociedade de Geografia, a qualificação de «Sintra de África» dada à Vila.


Ainda neste caderno transcrevem-se as seguintes palavras do cónego Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, nessa notável conferência proferida em 1877 perante a Sociedade de Geografia, sobre a qualificação de Sintra de África, outorgada à vila de Mossãmedes:


«Hoje (1877), que são decorridos trinta e oito anos depois da chegada dos primeiros colonos... admira-se a sua descendência que vai em pleno desabrochar da segunda geração, pela robustez e beleza que apresenta , graças á sua aclimatação se haver operado em favoráveis condições evolutivas» (Vol l, pag. 211).


Em 1876, declarava a folha oficial da província haver sido professor primário em Mossãmedes o padre Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, nomeado por Portaria nº. 494 de 4 de Novembro de 1876 para ocupar a vaga em razão da transferência de Eduardo Campos e Andrada para idêntico lugar em Benguela.

Existem referências sobre o Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, de ter exercido funções de professorado tendo no ano de 1881, efectuando a propositura de vários alunos tendo sido "geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa". 

Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se: 

"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor (...)

«No dia 1 de Outubro de 1883, realizaram-se exames de instrução primária em Mossâmedes. O respectivo júri era constituído por António Acácio de Oliveira Carvalho, que deveria ser o presidente por o seu nome vir indicado em primeiro lugar, sendo vogais Menandro José Maria Guerra e o professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. (...)
 

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o Governador do Distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.


Ainda sobre Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, vamos encontrar, da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres referências a um relatório sobre a instrução pública apresentado alguns anos depois, e assinado pelo Governador Ferreira do Amaral, à época governador do Distrito, que informava estar a instrução em Moçâmedes cometida ao pároco (Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa) e a uma senhora (Isabel Maria Cardoso), bastante desqualificada. Por essa altura, os «métodos de ensino eram classificados como verdadeiramente primitivos e a frequência dos alunos pouco garantida, de forma que, onde havia tantas crianças, (em Mossâmedes), a educação estava descuradíssima». Também o mesmo relatório anunciava que o pároco era índio, e que «por isso, não tinha o prestígio que poderia ter se fosse europeu, aqui (em Mossâmedes), onde a população era quase toda branca. No mesmo relatório acrescentava o Governador que «a índole, porém particularmente tímida da raça a que pertencia, lhe tirava a iniciativa que o único representante da classe eclesiástica deveria possuir» . 
 
Ferreira do Amaral lembrava ainda para a substituição do pároco a obtenção de um pároco europeu no colégio Sernache, que tivesse o ónus do ensino, pretextando como motivo a substituição o vaticínio do seu desprestígio. Acirrando ainda mais o polémico relatório, a increpação feita no  "Jornal de Mossâmedes" com ataques violentos e intrigas contra a pessoa do padre Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, que Manuel Júlio de Mendonça Torres considera de mesquinhos e sem fundamento, aos quais se opunham o testemunho dos contemporâneos e as altas distinções outorgadas por individualidades eminentes da hierarquia laica e religiosa.

Segundo referido no 2º volume, pg.246 do livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, no tempo deste pároco houvera em Moçâmedes melhorias substanciais no serviço escolar e apesar disso haviam surgido conjuras contra o pároco ainda que sem graves consequências.
                                    




Artigo de José O CÓNEGO RODOLFO
  porJosé Julio Zuzarte Mendonça

Um dos padres mais simpáticos do clero ultramarino. Nobreza de carácter, probidade inconcussa, educação esmeradíssima, lhano e afável para todos, nem fanático intransigente, nem profano que escandalize, O cónego Rodolfo, reunindo em sí todos estes predicados, tem justamente captado a consideração e o respeito dos seus paroquianos.

Conheço-o há seguramente doze anos, e nunca me constou que se lhe atribuísse uma única má acção. Recebido com o mesmo agrado e até com intimidade por muitas famílias desta Vila, nenhuma ainda se arrependeu de o considerar quase que uma pessoa da casa. Pelo contrário, o seu espírito ilustrado, a sua conversação agradável, fazem ambicionada a sua convivência. De notável aptidão na divina arte da música, tem-se prestado com o máximo interesse em ensiná-la, com muito proveito dos seus discípulos.

Duas das filhas e um dos filhos de quem escreve estas despretensiosas linhas receberam durante algum tempo as suas lições, e, se não chegaram a professores, conseguiram o bastante para honrarem a proficiência do mestre.

Tem-se-lhe radicado a tal ponto no ânino generoso o amor por esta terra, que estremece como se fora sua, quem, achando-se na Metrópole, apresentou-se, perante a Sociedade de Geografia, e, na presença de um auditório selecto, expôs, num bem elaborado discurso, justamente aplaudido, o modo de ser colónia, os defeitos a corrigir, os remédios a aplicar, indicando, com o máximo desassombro os erros que têm obstado ao seu mais rápido desenvolvimento.

Mossâmedes, pois, constituiria uma aberração repugnante, se deixasse de reconhecer no cónego Rodolfo um cidadão prestimoso digno de todo o elogio.

Releve-me a muita modéstia do digno sacerdote, se trago a público esta manifestação sincera do que dele pensa quem vive aqui há trinta e quatro anos, quem tem constituida aqui família, e quem provavelmente nunca mais daqui sairá.

ass) José Julio Zuzarte Mendonça
Bibliografia consultada:
«Moçâmedes» de Manuel Julio de Mendonça Torres


                                                                          ------------------

Ainda sobre o Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa

A Câmara Municipal de Moçâmedes, na sua sessão do dia 10 de Agosto de 1881, resolveu chamar a atenção dos responsáveis para o que o Boletim Oficial de Angola publicou no dia 5 de Fevereiro desse ano. Tratava-se da portaria régia de 4 de Novembro anterior, em que se recomendava ao governador-geral a fundação de estabelecimentos para a educação religiosa, literária e profissional dos serviçais da vila de Mossâmedes. A Câmara tomava a iniciativa de pedir que lhe fosse indicado o montante da contribuição com que poderia contar para tal fim, e se poderia encarregar vários mestres artistas, muito hábeis, da regência e organização de uma escola profissional, estabelecendo uma aula de instrução primária e escolhendo na vila pessoa idónea para a reger. Além disso, pensava-se em contratar no reino um eclesiástico a quem se entregasse a educação religiosa dos indígenas que residiam na povoação.

(...)

Realizaram-se em Moçâmedes, em 3 de Outubro de 1881, provas de exame de instrução primária, tendo sido propostos cinco alunos. Na falta de júri legalmente nomeado, os exames foram feitos perante a Câmara Municipal, assistindo ao acto o governador do distrito, Sebastião Nunes da Mata, diversos funcionários públicos e muitas outras pessoas. Foi geral o regozijo, ao ver o bom resultado obtido e o brilho das provas prestadas pelos examinandos, o que demonstrava, na opinião dos assistentes, a solicitude do professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Na acta da sessão extraordinária respectiva salientava-se: 


"Submetendo-se a exame alguns alunos mais adiantados, que frequentam a aula de instrução primária, a cargo do pároco, o Governo, a Câmara e principalmente os chefes de família poderiam avaliar a maneira como se desempenhavam naquela escola os difíceis deveres do magistério e, na hipótese de que os examinandos fornecessem a prova evidente, dos bons métodos e zelo empregados pelo professor" 

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o governador do distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.

Em Janeiro de 1882, era publicada a notícia de que tinha sido instalada, em Mossâmedes, a Escola Luz Africana. Assistiu à cerimónia da sua abertura e inauguração grande número de pessoas da cidade. Salientava-se que era a povoação de Angola que mais se tinha interessado, até então, pelo desenvolvimento da escolaridade, embora os resultados obtidos não satisfizessem inteiramente a boa vontade das pessoas que para tal se não poupavam a esforços. O professor do novo estabelecimento de ensino era Francisco Rodrigues Pinto da Rocha Júnior. A comissão constituída para levar a cabo esta iniciativa tinha como presidente Francisco José de Almeida; os restantes vogais eram Joaquim de Paiva Ferreira e o professor da escola. A iniciativa pertencera à Loja Luz Africana, e por isso pode admitir-se que tivesse origem maçónica. Matricularam-se vinte e oito alunos, mas em Junho estavam já a frequentá-la trinta e uma crianças. 

No dia 1 de Outubro de 1883, realizaram-se exames de instrução primária em Moçâmedes. O respectivo júri era constituído por António Acácio de Oliveira Carvalho, que deveria ser o presidente por o seu nome vir indicado em primeiro lugar, sendo vogais Menandro José Maria Guerra e o professor proponente, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa. Além da do Estado, continuava em actividade a que a Loja Luz Africana estabelecera e em que continuava a ensinar Francisco Pinto da Rocha. Este agente do ensino anunciava que recebera e tinha à venda o livro intitulado Mestre Popular ou seja o Francês sem Mestre. O ensino deste idioma interessava bastante à população de Moçâmedes, segundo diversos indícios que pudemos encontrar. 

Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes. Isso indica que a instrução, de facto, merecia grande interesse aos seus habitantes. O júri era constituído por Dr. João Ferreira Duarte Leitão, Dr. Manuel Mouzaco, e o professor e pároco, que continuava a ser o P. Diogo Damião; tinha sido expressamente nomeado pela portaria do governador do distrito, no dia 1 desse mês. Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata. No dia seguinte, efectuou-se uma sessão extraordinária na Câmara Municipal, com a finalidade de entregar aos alunos distintos os prémios pecuniários que o governador-geral de Angola, Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, concedera do seu bolso particular. Era isso o que se anunciava. O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.  


A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. 

Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Moçâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam...(1) in.  http://www.geocities.com/athens/troy/4285/ensino12.htlm


                                                                            :::::::::::::::::::::
Registámos notícias referentes à escolaridade, em Moçâmedes, que devem ser mencionadas. Existia nesta cidade, em 1876, uma escola de instrução primária para o ensino de crianças indígenas, estabelecida por iniciativa e a expensas de particulares. Foram seus professores Casimiro da Silva e Artur Gustavo de Portugal Prayce. A Câmara Municipal de Moçâmedes, na sua sessão do dia 10 de Agosto de 1881, resolveu chamar a atenção dos responsáveis para o que o Boletim Oficial de Angola publicou no dia 5 de Fevereiro desse ano. Tratava-se da portaria régia de 4 de Novembro anterior, em que se recomendava ao governador-geral a fundação de estabelecimentos para a educação religiosa, literária e profissional dos serviçais da vila de Moçâmedes.

A Câmara tomava a iniciativa de pedir que lhe fosse indicado o montante da contribuição com que poderia contar para tal fim, e se poderia encarregar vários mestres artistas, muito hábeis, da regência e organização de uma escola profissional, estabelecendo uma aula de instrução primária e escolhendo na vila pessoa idónea para a reger. Além disso, pensava-se em contratar no reino um eclesiástico a quem se entregasse a educação religiosa dos indígenas que residiam na povoação.

Há vários indícios de, no final do século passado e princípio do actual, se praticar em Moçâmedes, embora de forma pouco saliente, um pouco de segregação racial, o que se não verificava nas demais localidades do território. Ignoramos se esta mentalidade veio do Brasil, trazida pelos colonos que de lá partiram para fundar esta povoação. Recordemos que eles tiveram de deixar o litoral brasileiro por motivo de fortes manifestações xenófobas. Também poderia estar a sentir-se a influência da proximidade da Namíbia e da África do Sul, onde já se praticava a discriminação.

Esta acta dá-nos informações curiosas e preciosas quanto à forma como se processava o exame. Conclui-se que se adoptou um sistema muito racional e mesmo bastante moderno. No entanto, pode pensar-se se estaria bem enquadrado na legalidade. Esteve presente o governador do distrito, a quem competia nomear o júri! Em face dos resultados, a Câmara não se negou a elogiar abertamente o zelo e a dedicação do professor primário e pároco de Moçâmedes, P. Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa.



Luz Soriano, promotor da colonização de Mossãmedes

 


Simão José da Luz Soriano, num quadro que no tempo colonial se encontrava exposto
no Salão Nobre dos Paços do Concelho do Distrito de Moçâmedes, em Angola.


Qual a relação de Luz Soriano com Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe)?
 

Encontrava-se, pois, Luz Soriano a exercer as funções de chefe da Repartição de Angola no Ministério do Ultramar quando teve conhecimento que em 13 de Julho de 1848, o português fixado em Pernambuco, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, tinha dirigido um Memorial ao Governo de Portugal descrevendo a situação dos seus compatriotas perseguidos naquela ex-colónia pela revolução praeira, e informando que muitos deles estavam interessados em transferir-se para outro sítio, onde tremulasse a bandeira portuguesa e onde pudessem fundar uma colónia agrícola.

Anos antes, Luz Soriano havia encontrado no arquivo da Secretaria do Ministério do Ultramar, um ofício  assinado pelo Barão de Mossâmedes descrevendo a exploração da costa e sertões meridionais da Província de Angola, assunto que lhe tinha despertado interesse, bem como as informações posteriores que recebera, provenientes dos Governadores Gerais, Manuel Eleutério Malheiros e José Xavier Bressane Leite. A
pesar da simples condição de chefe de uma Repartição do Estado, foi compenetrado da alta importância das regiões exploradas, que resolveu elaborar uma Memória descritiva do porto  de Moçâmedes (Mossâmedes-Namibe), as suas vantagens para a navegação e comércio,  a salubridade do seu clima, e a fertilidade dos sertões limítrofes,  a fim de expôr ao Ministro Visconde de Castro a necessidade de, com aquele grupo interessado de colonos, se fundar em Mossâmedes, no Sul de Angola, uma colónia agrícola, e tão activamente se empenhou junto do Ministro que este colocou a seu cargo a colonização do Distrito. 

  Os transcendentes serviços, que tenho prestado ao estado, vão ainda além do impulso, que dei á citada occupacão do Ambriz. Se valiosos foram esses serviços sobre este objecto, não o foram menos quanto á fundação, e estabelecimento da actual colonia agricola de Mossãmedes.

...Desde 1842 empreguei quantas diligencias estavam ao meu alcance para chamar sobre a antiga Angra do Negro a consideração do governo, não sendo menos, energicas as que tambem fiz para lhe attrair a do publico, excitando os especulações dos particulares, que lá se quizessem ir estabelecer. Por causa de uma memoria minha, publicada nos Annaes Maritimos e Coloniaes, escolheram muitos dos portuguezes, residentes em Pernambuco, o porto de Mossãmedes para irem nelle fundar uma colonia agricola.

 (Essa Memória foi publicada no nr. 3, 6ª série da colecção de 1846 dos Anais Marítimos e Coloniais)
 
I
nclusivamente foi Luz Soriano quem indicou ao Ministro o nome do capitão-tenente António Sérgio de Sousa para primeiro Governador, tendo coordenado e redigido as instruções por que se havia de regular o governador na Comissão para que fora nomeado.  Foi então que de Portugal foram mandados, para garantir os portugueses do Recife, dois brigues de guerra, o Douro e o Vila Flor,  bem como instruções para facilitar a transferência e o estabelecimento dos emigrantes para Mossâmedes. 

O Diário de Pernambuco de 31 de Janeiro de 1849 publicou um edital, datado de 29, pelo qual o Cônsul de Portugal, Joaquim Batista Moreira, como presidente de uma comissão especial (criada no Recife em 26.XII.1848 composta por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Ângelo Francisco Carneiro, Bernardo de Oliveira Melo e Miguel José Alves, secretário) comunicava que o governo concedia as seguintes facilidades a todos os que se quisessem transferir-se para a África : passagem e sustento à custa do Estado, inclusive às famílias, transporte para móveis e objectos pessoais, instrumentos artísticos ou agrícolas e  sementes, terrenos na colónia a ser fundada, e uma mensalidade durante os 6 primeiros meses após a chegada ali. Mas havia o problema  da falta de mão de obra indígena para os trabalhos na agricultura... E para o suprir, mais uma vez é Luz Soriano quem avança com a sugestão, em «Revelações da Minha Vida» , bem assim como em relação à consequente segurança da baía:


D'uma grande somma des escravos , apresados a bordo do brigue brasileiro «Caçador», ordenou-se, a 04 de Agosto de de 1844 que cincoenta casaes marchassem como libertos para Mossãmedes a fim d'alli se empregarem em trabalhos de agricultura. Mais ordenou em 22 d'aquelle mez que em Mossãmedes se organisasse uma companhia de linha debaixo do mesmo plano, que a dos mais presidios da provincia, devendo entrar nella não somente brancos, mas tambem homens de côr.  Semelhante memoria fora elaborada por mim na idéa de fazer conhecido aquelle porto, a salubridade do seu clima, e as favoraveis disposições, para assumir em breve tempo a importancia agricola, e commercial, que já hoje tem, e que dentro em poucos annos muito maior será, como promette. É portanto claro que as vantagens, que tem resultado, feio ds resuttar a Portugal da colónia agricola de Mossãmedes são filhos de muito trabalho, e de muito estudo.


Desde 1836 o General Sá da Bandeira havia decretado a abolição do tráfico de escravos que durante mais de 3 séculos constituiu uma das molas fundamentais do capitalismo mercantil, fornecendo a mão-de-obra necessária às plantações do Novo Mundo.  Seriam agora os escravos libertados desses mesmos navios de trafico clandestino, por brigadas que patrulhavam a costa, sobretudo inglesas,  a serem distribuidos,  como mão de obra semi-escrava nos trabalhos de agricultura que iam ter início no sul de Angola.

Passarei a transcrever o ofício dirigido por Luz Soriano, em 28 de Setembro de 1860, à segunda Câmara de Moçâmedes (Mossâmedes/Namibe), à qual ofereceu um exemplar da primeira edição do livro «Revelações da Minha Vida»no qual relata alguns acontecimentos de que tomou parte ou de que teve conhecimento:

Ilustríssimos Senhores Presidentes e mais membros da Câmara Municipal de Mossãmedes:

Tendo ultimamente publicado uma obra em que se contêm os principais factos da minha vida, não podia deixar de mencionar entre eles a grande parte que tomei em fazer conhecido e povoado esse vasto esperançoso distrito, e com tanta mais razão, quanto é certo que tenho visto no Boletim do Conselho Ultramarino, alguns relatórios da Câmara dessa vila, relativos ao mesmo assunto, não achei neles uma só referência aos esforços que empreguei para aquele fim, como entendia de justiça dever acontecer. Todavia não me admirei disso, porque sempre na nossa terra quem mais faz menos merece. Julgando, não obstante, que à História desse Município podia ser útil o conhecimento de que a tal respeito publiquei, tomo a liberdade de lhe oferecer o incluso exemplar da obra a que acima me referi, tendo por título «Revelações da minha vida», esperando que me relevarão a ousadia da oferta.
Tenho, pois, a honra de me assinar
De Vossas Senhorias
mtº atento, venerador e obrigado
(a) Simão José da Luz Soriano



A Luz Soriano cabem, pois, como se vê, os "louros" de "promotor da colonização portuguesa no Sul de Angola".  Deixou vasta bibliografia histórica em que avultam as obras sobre o liberalismo português, as quais, mais pelo acervo de material que reúnem do que pelo seu valor científico, são fonte indispensável para o estudo da época.



Bibliografia consultada: 
1. «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização 1845-1859» de Manuel Júlio de Mendonça Torres MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 15 abr., 1956. 
2.«Revelações da Minha Vida» de LUZ SORIANO (inclui referencias a Mossãmedes da pg 558 a 569)
O depoimento do sr. official maior Cravalho na commissão de inquerito ... 1856 Por Simão José da Luz Soriano, Antonio Pedro de Carvalho:




Mais sobre Luz Soreano AQUI 



Pede-se a quem eventualmente possa vir a reproduzir estes textos, o cuidado com a citação das fontes. 

 


quarta-feira, 30 de maio de 2007

José Lúcio Travassos Valdez deportado político para Mossâmedes, Moçâmedes (Namibe), Angola

Ficheiro:GP Conde de pd-bonfim.jpg
José Lúcio Travassos Valdez (1787-1862).


A deportação foi nos séculos XIX e XX uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos. Em todo o mundo foi evidente a utilização desta forma de migração forçada como meio para impedir a acção dos opositores políticos. A prática não é recente sendo uma constante do processo histórico desde a Grécia e a Roma antiga, e poderá ser assinalada a partir de 1797 com a ida dos opositores da Revolução Francesa para a Guiana, prática que os franceses mantiveram a partir de 1852 com as chamadas ilhas presídio, como foi o caso das ilhas do Diabo, Caiena, e de Saint-Laurent-du-Maroni. A deportação esteve pois ligado aos colonialismos.

Em Portugal a conjuntura politica oitocentista post-revolução liberal provocou migrações forçadas por força de perseguições políticas para as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e Angola, que serviram de espaços de deportação de alguns políticos e militares menos gratos aos diversos regimes políticos ou grupos com controlo do poder.

Após a independência do Brasil, em 1822, Angola tornou-se o principal destino para os condenados pelas leis lusitanas, tendo chegado a receber centenas deles anualmente. O periodo das mudanças por que passou todo o continente africano nos finais do século XIX foi marcado pelo aumento da presença europeia e a conversão económica a partir da abolição do tráfico de escravos. Em 1864, os degredados somavam praticamente um terço da população de Angola.

Os degredados não foram passivos, eles actuaram no território angolano, na politica imperial portuguesa e na História de Angola. Foram usados -grupo marginal- no contexto de transformação com o impulso crescente colonial. Foram importantes instrumentos como povoadores e tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural intensificado na segunda metade do século XIX.

Para milhares de degredados a segunda metade do século XIX, Angola foi um lugar de castigo. As sentensas que lhes orientavam para aquela região baseavam-se na tese de que não havia pena mais severa do que forçar a moradia nos espaços conflituosos e incertos da nova «joia da corôa» após a independência do Brasil.

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José Lúcio Travassos Valdez 

Em sua juventude, o futuro Conde do Bonfim estudou  Direito na Universidade de Coimbra e participou a partir de 1808 da revolta portuguesa contra a ocupação napoleónica da sua terra. Ele serviu como voluntário sob o comando de Gomes Freire de Andrade e participou das batalhas da Roliça (17 de Agosto de 1808) e de Vimeiro (21 de  Sgosto de 1808) contra os franceses.  Até ao fim da Guerra Peninsular entrou em muitas batalhas, dando sempre provas de grande energia e coragem. Mesmo depois da expulsão dos franceses, Bonfim permaneceu no Exército português. Em Junho de 1821 foi promovido a coronel  e em 1823, quando em Trás-os-Montes se deu o levante absolutista, promovida pelo conde de Amarante, foi nomeado comandante da divisão ligeira, perseguiu os revoltosos, e entrou na Espanha chegando até Astorga, León e Gradefes. Voltando para Portugal foi dirigir uma coluna de operações na Beira, sendo escolhido para marchar à frente das forças destinadas a opor-se à insurreição de Vilafrancada liderada pelo infante D. Miguel  nos últimos dias de Maio de 1823. Tendo D. João IV  aderido ao movimento iniciado por seu filho, foi dissolvida a coluna do coronel Valdez, e este intimado a residir em Mora, de onde conseguiu, com o auxílio de alguns dos seus amigos e antigos companheiros de armas, ser transferido para Setúbal. Só depois de promulgada a Carta Constitucional de 1826, sendo ministro da guerra o general Saldanha, é que ao coronel Valdez se deu novamente o comando de um regimento. Mandado com o seu regimento e outras forças combater o movimento absolutista que aparecera em Bragança, e tendo sido obrigado pelos revoltosos, depois de duro combate, a recolher-se ao castelo da vila, viu-se forçado a capitular no dia 26 de Novembro de 1826, e foi conduzido para Miranda e depois para Moncorvo.Sabendo que existia ali um depósito de armas, tratou com os seus companheiros de se apoderar delas e tentar cruzar o rio Douro a fim de juntar-se às tropas fieis à Carta, sendo porém acossado pelas numerosas guerrilhas que então infestavam a província deTrás-os-Montes teve de atravessar a fronteira, e as autoridades espanholas  o mandaram para Salamanca e depois para Valladolid. Passado alguns dias retornou ele a Portugal, chegando a Lisboa pediu um conselho de guerra para se justificar da capitulação de Bragança, e sendo-lhe a sentença não só favorável mas até honrosa, Valdez foi pouco depois nomeado, em 7 de Abril  de 1827, governador e capitão-general da Madeira e Porto Santo. Dedicou-se então aos melhoramentos materiais e agrícolas daquelas ilhas, e nestes trabalhos ficou sabendo dos motins ocorridos em Lisboa e dos projetos do infante D. Miguel, de se apoderar da regência do reino, declarando-se rei absoluto. Valdez havia fundado um jornal,   "A flôr do Oceano", e no dia 22 de Junho publicou um manifesto protestando contra aqueles projetos, cuidando imediatamente de se prevenir para a defesa da ilha, se acaso D. Miguel a mandasse atacar pela sua esquadra, e comunicou o ocorrido ao duque de Bragança, aos ministros de Portugal e Brasil, em Londres, bem como ao embaixador desta última potência em Viena de Austria.  Pouco depois destes acontecimentos chegou à Madeira o novo capitão-general nomeado por D. Miguel, mas não tendo podido desembarcar regressou a Lisboa. Ao mesmo tempo saíram deste porto uma corveta e dois navios  de guerra para bloquearem a ilha, e por fim o capitão-general Valdez recebeu no dia 16 de Agosto  de 1828 uma intimação para se render ao comandante de uma esquadra, composta de uma nau, duas fragatas, duas corvetas, dois brigues e duas charruas. Valdez não desanimou, apesar de ver a grande força dos inimigos, tendo estes, porém, conseguido apoderar-se do porto de Machico reconheceu a impossibilidade da resistência, e entrou em acordo com o vice-almirante por intermédio do cônsul inglês residente na ilha. Partiu então para Inglaterra com sua mulher e filhos, e ali esteve lutando com inúmeras dificuldades, chegando a passar privações, até 1832,  em que partiu para a ilha Terceira no arquipélado dos Açores, e apenas desembarcou em Angra do Heroismo, foi-lhe dado o comando da 1.ª companhia do batalhão sagrado, batalhão só composto de oficiais, e com ele fez a guarda avançada do exército libertador quando marchou do Mindelo para o Porto (Desembarque do Mindelo) ; mas depois, foi mandado pelo imperador para o quartel general do duque da Terceira, para que este o informasse dos movimentos do inimigo, sendo em 21 de Julho de 1832, escolhido para ajudante general. Em 6 de Agosto seguinte foi promovido a brigadeiro, continuando como ajudante do duque da Terceira, até que e D. Pedro IV assumiu o comando-em-chefe, passando nessa ocasião Travassos Valdez a servir de chefe do estado-maior. Quando o imperador saiu do Porto ficou ali o brigadeiro Valdez como chefe do estado-maior de Saldanha, e no combate de 18 de Agosto de 1833  comandou a ala esquerda, e a 20 de Agosto seguiu para a capital com o regimento de infantaria a bordo da fragata "D. Maria II". Tomou parte na defesa das linhas de Lisboa, ficando gravemente ferido no ataque de 5 de Setembro o que o obrigou a afastar-se do serviço por muito tempo; acompanhando porém já D. Pedro para Santarém nos princípios de 1834, e regressando depois com ele a Lisboa, quando em seguida a batalha de Asseiceira se formaram dois exércitos de operações sob o comando dos generais duque da Terceira e Saldanha.
Quando da morte de D. Pedro IV e a dissolução do  estado-maior imperial, o brigadeiro Valdez ficou desempregado até que eclodiu a revolução de 9 de Setembro de 1836,  em que se proclamou uma nova constituição. No dia 16 do referido mês foi nomeado membro do Supremo Conselho de Justiça Militar. Em outubro teve o comando do exétciro do sul , que se formou para evitar a invasão dos cartistas e em 14 de Dezembro  seguinte foi nomeado comandante da 7.ª divisão militar, continuando naquela comissão. Eleito deputado no congresso constituinte de 1837  pelo distrito de Leiria, quando surgiu a tentativa cartista da Ponte da Barca, foi Travassos Valdez, já, então agraciado com o título de Barão do Bonfim, encarregado do comando em chefe das forças do sul do reino, recebendo plenos poderes sobre todas as autoridades civis e militares. Apaziguado o Alentejo, o Barão do Bonfim juntou-se a Sá da Bandeira, e em 28 de Agosto de 1837  deu aos marechais a ação do Chão da Feira, seguindo depois para Almeida  e para o Douro para conversar com o conde de Antas  que voltava da Espanha e logo a seguir terminava a revolta cartista  ganhando a ação de Ruivães. Regressando à capital, foi nomeado ministro da marinha e interino da guerra em 9 de Novembro de 1837 , conservando-se no ministério até 9 de Março de 1838, voltando a encarregar-se da pasta da guerra desde 20 de Abril até 18 de Abril de 1839 . Foi deputado nas legislaturas de 1839 e de 1840, sendo eleito por vários círculos do continente do reino, e em 1839 pelo de Goa. Em 26 de Novembro de 1840  entrou novamente no ministério, com o encargo da presidência do gabinete e as pastas da guerra, e interino da marinha e estrangeiros. Apresentou então às câmaras importantes e notáveis relatórios, tomou medidas enérgicas quando em fins de 1840 estiveram para se romper as boas relações de Portugal com a Espanha, dirigiu as negociações para o reconhecimento do governo português pela Santa Sé e pelos Países Baixos, fundou o presídio que depois se transformou na vila de Moçâmedes, e finalmente em 9 de Julho de 1841, querendo sustentar a instituição dos batalhões nacionais e encontrando resistência, pediu a exoneração em 9 de Junho de 1841, sendo substituído pelo ministério presidido por Joaquim António de Aguiar.

Em 1842 combateu sempre na câmara alta o governo de Costa Cabral, depois marquês de Tomar, até que decidida a revolta pela oposição, partiu para o Alentejo. O conde do Bonfim, título com que fora agraciado em 1838, pôs-se à frente do movimento iniciado pelo regimento de cavalaria em Torres Novas no dia 4 de Fevereiro de 1844, e com esse corpo, infantaria  e caçadores marchou sobre a Guarda. Malogradas ainda outras combinações, seguiu para Almeida e ali sustentou o cerco, emigrando depois para Espanha, França e Inglaterra. Voltou a Lisboa em 9 de Junho de 1846, vindo da Inglaterra a bordo do vapor "Mindelo", sendo em 29 de Junho  nomeado comandante da guarda nacional, e em 22 de Agosto, comandante da 1.ª divisão militar, lugar de que foi exonerado em consequência do golpe de Estado de 6 de Outubro. Partindo para Évora foi pela junta, formada nessa cidade, nomeado comandante em chefe das forças do sul e logo depois presidente da mesma junta. Na batalha de Torres Vedras em 22 de Dezembro de 1846  foi prisioneiro, sendo conduzido a Lisboa, de onde passou a bordo de diferentes navios do Estado, e por último para o brigue "Audaz", que saiu da barra em 2 de Fevereiro de 1847 com destino a Angola.
Chegando a Luanda em 25 de Março, os presos políticos foram levados para diversas prisões, mas o conde do Bonfim e dois filhos que o acompanhavam, Luís e José, ficaram a bordo da corveta "Relâmpago". Receando-se alguma revolta, a corveta levantou âncora e seguiu para Moçâmedes, onde chegou em 6 de Maio. No dia 20 deste mês começou em Moçamedes uma revolução a favor da Junta do Porto, o conde saiu no dia seguinte, com os dois filhos, para Santa Helena, a bordo de uma velha escuna, que foi abordada por um brigue de guerra inglês que nessa ocasião entrava no porto de Moçamedes, levando-a para Luanda, apresentando ao governador o conde do Bonfim e seus filhos. Desse modo, o conde foi novamente encarcerado na corveta "Relâmpago", seu filho Luís em outro navio, e José mandado para Benguela, ficando nesta situação até 23 de Agosto, data em que chegou a Luanda a fragata "Terrible", que em consequência da convenção que pusera termo à guerra civil, trouxe os deportados para Portugal, onde chegaram em 9 de Outubro. Depois de ter estado em comissão até Dezembro de 1852, foi nomeado membro do conselho de justiça militar, cargo que desempenhou até falecer.

In Wikipédia

Segue um texto retirado do Livro: "O Conde do Bomfim: noticia dos seus principaes feitos"


"...Conduzido sob prisão para Belem, com os seus officiaes, onde chegou na tarde de 25 de Dezembro, foram mandados embarcar a bordo da fragata Diana, de onde foram transferidos para a fragata Rainha, sob grande vigilancia e rigor não lhes sendo permitido falarem com as suas familias quando para isso obtinham licença só o faziam na presença de um empregado do governo civil. O Conde do Bomfim reconhecido como um homem generoso e igual para todos os partidos, propondo amnistias á Rainha, e dando empregos e honras aos seus proprios inimigos e vencidos!
Mas, como se isto ainda não fosse bastante, o conde do Bomfim e seus dons filhos mais velhos, bem como o general Celestino Soares, o conde de Villa Real, D. Fernando, o coronel Forman, o patriota Jaime (commandante do batalhão de Vizeii), o tenente coronel Alves (hoje marechal de campo reformado), e mais vinte e tantos  oficiaes, foram mandados durante a noite de 27 de janeiro de 1847 passar para bordo do brigue de guerra « Audaz, » sem se lhes dizer qual era o (im desta transferencia, e conservados assim no maior aperto, sem se lhes proporcionarem quaesquer comímodidades, e para não estarem sujeitos só á ração do porão apenas se lhes permittia que recebessem a comida que as suas familias e amigos lhes mandavam de terra.
Neste estado de incerteza do seu destino havendo-se espalhado que iam para Angola, o nobre marquez do Fayal (hoje duque de Palmella), filho do illustre e generoso duque do mesmo titulo, herdeiro das suas virtudes, foi elle mesmo a bordo certificar-se do que precisavam aquellas illustres victimas do patriotismo, e logo que obteve a indispensavel licença, mandou-lhes para bordo um rico e abundante rancho, appropriado a pessoas da classe da sociedade a que pertenciam, para que não fossem só sujeitos ás rações de bordo, embora houvesse toda a idéa (como depois se verificou), que o benefico e generoso capitão tenente Victorino Rodovalho, e depois o capitão tenente Antonio Sergio de Sousa (hoje ajudande de ordens do senhor infante D. Luiz), que commandaram o brigue Audaz, e os seus offlciaes fariam quanto estivesse ao seu alcance para mitigar a sorte e soffrimentos d'aquelles que contra todas as leis, sem sentença, e contra todos os uzos, eram assim degradados para tão mortifero clima, apesar de haverem capitulado com as honras da guerra, saindo o navio para Angola no dia 2 de fevereiro de 1847.

Chegaram a Loanda em 25 de março, e foram successivamente mandados para prisões em terra todos os companheiros do conde do Bomfim, excepto elle que foi mudado para a corveta Relampago, e seu filho segundo o capitão (hoje major) Luiz Travassos Valdez, tão conhecido pelos seus interessantes Almanachs, e outros importantes escriptos; sendo mandado o seu filho primogenito o major José Bento Travassos Valdez (hoje conde do Bomfim, José), com o major (hoje coronel e commandante militar da Ilha da Madeira), José Herculano Ferreira de Horta para a mortifera cidade de Benguella.

Depois disto havendo-se excitado extraordinariamente os animos na tropa e habitantes de Loanda a favor dos prezos politicos, a ponto de se recear que houvesse uma revolta para os libertar, tal era a opinião publica em toda a parte a faVor do conde do Bomfim e da causa que elle defendia, foi a corveta Relampago mandada sair repentinamente, e passando por Benguella tomou a seu bordo o filho primogenito do conde do Bomfim, desembarcando-os e ao filho segundo em Mossamedes no dia 6 de maio; — mas infelizmente para os que os opprimiam tão injustamente, esqueceram que a opinião publica, a que queriam fugir, era a mesma em toda a parte—ainda mesmo n'aquellas areias Africanas—e o que é mais, inconsideradamente não reflectiram ao menos, que nem todos são ingratos neste mundo l e cahiram em deportar o conde do Bomfim e seus dous filhos mais velhos justamente para Mossamedes, cuja povoação via nelle o seu fundador, como dissémos que o foi, quando ministro da marinha e ultramar em julho de 1840.

Em 20 de maio de 1847 teve logar uma revolução em Mossâmedes a favor do conde do Bomfim e da Junta do Porto, cujo governo foi immediatamente proclamado. 

mas, como a força que alli existia fosse mui diminuta para resistir à qualquer ataque dos navios do cruzeiro portuguez naquelles mares, e todos desejassem vir ajudar em Portugal a causa que defendiam, trataram desde logo de se aprovisionar, preparar e embarcar em uma velha escuna de guerra de que tinham tomado posse apenas haviam feito a revolução, na intenção de partirem no dia seguinte para a ilha de Santa Helena, apesar do mau estado da embarcação e do grande risco de serem encontrados pelos navios do cruzeiro portuguez. Mas, entrando nesse dia na bahia de Mossamedes o brigue de guerra inglez Flying Fisli, coramandado pelo capitão Dike, aconteceu, que, contra toda a expectativa este official apresou no dia 2i a escuna de guerra Conselho, em que o conde do Bomfim e seus companheiros estavam já a fazer-se de véla, o que era tanto mais inexperado que ainda na vespera o capitão Dike, perguntando-se-lhe se te-' ria duvida em receber a bordo alguns dos c'ompromettidos, ou emfim lhes dar alguem da sua guarnição para dirigir a navegação da escuna portugueza até á ilha de Santa Helena, visto que os officiaes da escuna não abraçaram a revolução a favor da Junta do Porto; mostrou-se disposto ao pedido que se lhe fez. Sendo certo que é do direito das gentes, ou uso e costume, não se negar os soccorros indispensaveis para a navegação e salvação das vidas quando quaesquer navios, que se encontram, os requerem, o que sabemos o conde do Bomfim fez ver ao capitão Dike, e que as esquadras britannicas não interferiam então na guerra civil de Portugal, tratando com a mesma egualdade os navios do governo e da Junta do Porto, que aliás todos uzavam da mesma bandeira da nação e reconheciam a rainha. Devemos notar, que além d'isso, o conde do Bomfim lembrou ao capitão Dike, que a generosa e hospitaleira nação britannica jamais deixou de se prestar, com grande gloria do seu pavilhão, a dar abrigo ao infortúnio em casos politicos, do que lhe apresentou exemplos bem publicos, taes foram: que o capitão Canning da corveta Aligator o recebeu a elle mesmo conde do Bomfim a seu bordo, e a sessenta e tantos refugiados para os salvar da furia de seus inimigos, e isto no meio de uma esquadra que fazia violentas reclamações nas aguas da ilha da Madeira em 1828, quando o conde do Bomfim se acolhera áquella bandeira por estarem acabados todos os meios de defeza da ilha em nome da Rainha e da Carta Constitucional, como o narramos. Que outro tanto aconteceu em Hespanha em 1842 quando uma nau ingleza salvou em Cadix a Espartero, duque da Victoria e o levou para Inglaterra quando aquelle illustre general foi derribado da regencia de Hespanha em consequencia de uma revolução geral naquelle reino. Que por occasião de uma revolução em Galiza em 1846 havendo-se o brigue de guerra hespanhol Nervion declarado por ella, e vendo depois, que havia sido suffocada, dirigiu-se para Gibraltar, e apesar das reclamações do governo de Madrid, o governador de Gibraltar entregou o brigue, mas conservou, como refugiados, o commandante e mais pessoas que nelle iam entregandolhes as suas bagagens. Que em summa, não ha exemplo de Inglaterra haver negado protecção ou entregado refugiado algum, que por motivos politicos estivesse ao abrigo da sua bandeira.

Apesar das energicas "reclamações e protestos do conde do Bomfim, ao capitão Dike em nome do paiz, no seu proprio, assim como no dos seus companheiros de infortunio, victimas da prepotencia daquelle commandante de um navio de guerra britannico, que não só manchou a gloriosa bandeira da sua nação, mas tambem indignou a briosa corporação a que pertencia, levando o conde do Bomfim e seus companheiros para Loanda a bordo do brigue do seu commando, havendo-os obrigado a passar para o seu navio só com o fato que tinham no corpo, sem lhes consentir que levassem cousa alguma das suas bagagens e do que tinham a bordo da escuna Conselho, que o capitão Dike fizera occupar pela guarnição que lhe approuve, ficando a bordo da dita escuna, como sabemos, alem das bagagens e de um rico e abundante rancho com que se haviam preparado para seguirem viagem para a ilha de Santa Helena, uma consideravel somma de dinheiro que o conde do Bomfim já antes da sua sabida de Portugal, á custa de muitos sacrifícios seus, de sua familia e amigos, bem como depois alguns negociantes em Angola haviam reunido de antemão .para se habilitarem assim a fazer face ás despezas que se tornassem indispensaveis para poderem salvar-se d'Afrioa: — donde com effeito se teriam salvo a não ter sido aquelle inqualificavel e atroz procedimento do capitão de um navio de guerra inglez, — procedimento em fim que, segundo somos informados, acabou de completar a ruina dá fortuna do conde do Bomfim, sua familia, e outras daquellas victimas do referido attentado, pois que, chegados a Loanda no dia ,30 de maio, só com o fato que tinham no corpo, foram de novo entregues ao governador geral de Angola, o qual mandou o conde do Bomfim outra vez para bordo da corveta Relampago, seu filho segundo para outro navio, e o filho primogenito novamente para a mortifera cidade de Benguella; e tendo acabado de ancorar no porto de Loanda a escuna Conselho, a bordo da qual dissemos tinha ficado tudo que lhes pertencia, o conde do Bomfim reclamou immediatamente a sua bagagem, mas unicamente lhe foi entregue a Cama e as suas mallas arrombadas com alguma roupa dentro, Perdendo-se Tudo o Mais. 

Depois de mil difficuldades, o conde do Bomfim, que ficou incommunicavel, pode fazer chegai' ao conhecimento do honrado almirante Sir Charles Hotham, commandante em chefe da marinha britannica naquejles mares, um detalhado relatório a respeito do atroz procedimento do para sempre famoso capitão Dike, pedindo-lhe que se interessasse com o seu governo a favor de victimas entregues á discrição dos seus inimigos politicos, depois de haverem estado (bem que muito contra sua vontade!) debaixo da bandeira britannica. O brioso almirante inglez, apenas recebeu aquella notír cia na ilha de Santa Helena, mandou a Loanda a fragata Acteon, do commando do distincto capitão Mansel, para communicar ao governador geral de Angola e ao conde do Bomlim, que tinha já mandado prezo para Inglaterra o capitão Dike para responder pelos seus procedimentos; e para outro-sim fazer constar ao governador geral de Angola e ao conde do Bomfim, que elle almirante intendia que o conde do Bomfim e seus companheiros tinham direito á protecção da bandeira britannica, e que embora não reolamasse desde logo a sua entrega, esperava ordens nesse sentido, e portanto contava tambem que o governador geral de Angola se absteria de tomar qualquer medida que pudesse ser contraria ao bem-estar ou á consideração devida ao conde do Bomfim e seus companheiros.

Emfim, estamos informados de que o cavalheirismo, generosidade e philantropia daquelle distincto almirante chegou a tal ponto, que mandou offerecer ao conde do Bomfim pelo capitão Mansel, o seu dinheiro e quaesquer objectos que precisasse, juntando o referido capitão honrada e briosamente analogos offerecimentos da sua parte até onde elle pudesse: ao que o conde do Bomfim agradecendo cheio de reconhecimento, sabemos que respondeu com a nobreza e independencia que lhe é natural, que acceitava a offerta da sua protecção em que muito confiava, mas que não podia acceitar as outras suas offertas, que aliás agradecia tanto como se acceitasse, porque seria offender a generosidade com que os principaes habitantes de Loanda — especialmente o seu generoso amigo Francisco Barbosa Rodrigues, presidente da camara municipal — lhe proporcionava tudo que necessitava, e a seus dois filhos mais velhos; alem de que, tanto o benemerito commandante da estação naval portugue/a, o capitão de mar e guerra Cardoso (actual inspector do Arsenal da Marinha de Lisboa), como o capitão de fragata João de Rodovalho, commandante da corveta Relampago, e bem assim o capitão tenente Escrivanis, que succedeu ao capitão de fragata João de Rodovalho no commando da corveta Relampago, e o capi'tão tenente Freire, commandante da charrua Príncipe Real, e em geral toda a officialidade da marinha portugueza que se achava naquella estação naval, faziam tudo que estava ao seu alcance para lhes suavisar a penosa situação em que se achavam, mostrando-lhes a sua sympathia.

Aproveitando pois o conde do Bomfim a promettida protecção, pediu que seus dois filhos mais velhos fossem mandados para ao pé de si, e que os seus outros companheiros, que estavam presos no porão da Charrua a bordo da qual o conde do Bomfim estava preso e incommunicavel, gosassem ao menos de tanta liberdade como a que elle tinha, pois que se elles eram criminosos por se terem querido libertar, elle conde do Bomfim era o principal. Reclamou outro-sim que a -respeito dos prisioneiros que se achavam em differentes pontos houvesse com elles ao menos analogas medidas, especialmente a respeito daquelles que o governador geral de Angola tinha mandado deportar para o sertão.

Com effeito o capitão Mansel foi immediatamente reclamar do governador geral de Angola no referido sentido, e effectivamente foram dadas as ordens exigidas em nome do almirante britannico.Que reclamações violentas e pesadas indemnisações não pagariamos nós á Inglaterra (sempre prompta a exigirnol-as), se mutatis mutandis, estes procedimentos tivessem sido feitos por um official da marinha Portugueza a quaesquer subditos inglezes por insignificante que fosse a sua posição na sociedade!
A fragata Acteon conservou-se fundeada no porto de Loanda (para observar se as ordens eram cumpridas) até que no dia 23 de agosto de 1847 alli chegou a fragata a vapor ingleza Terrible do commando do distincto e cavalheiro capitão Ramsey, que foi buscar o conde do Bomfim e seus companheiros, que tão atrozmente haviam sido deportados para Angola, sendo aquelle magnifico e grande navio, — então talvez o melhor de Inglaterra—, mandado expressamente a Loanda para aquelle fim em virtude de debate e do desejo do parlamento britannico, e das ordens do governo Inglez querendo que em consequencia do Protocolo de 21 de maio de 1847 pelo qual a França, Hespanha e Inglaterra, pela força d'armas puzeram termo á guerra civil em Portugal derribando a Junta do Porto; fossem reintegrados nos postos, honras e condecorações, de que haviam sido deraitticlos por um decreto por se terem declarado a favor da causa popular ou contra-revolução de 9 de outubro de 1846 no Porto, contra o golpe de estado e reacção em Lisboa na noite de 6 de outubro do mesmo anno.

Saiu de Loanda o conde do Bomfim no dia 8 de setembro de 1847, e chegou a Lisboa a 9 de outubro desse ano.
IX
Desde a Regeneração proclamando a Carta Reformada em abril de I SI» e até á presente época (Junho de l SOO.) Desde que o conde do Bomfim, depois da amnistia de 1847, chegou a Lisboa a 9 de outubro desse anno, voltando do degredo injusto que soffreu em Angola, nunca mais tornou a ser empregado, até que só em 21 de dezembro de 1852 depois da RegeneraÇÃo em abril de 1851 sendo ministro da guerra o nobre marechal duque de Saldanha, foi nomeado membro do Supremo Tribunal de Justiça Militar, logar que não devia ter sido privado de exercer desde que o Protocolo de maio de 1847 restituiu todos os funccionarios do estado aos seus cargos, como os foram exercer os juizes dos outros tribanaes depois que se publicou a amnistia de 1847; e tanto mais isto é assim relativamente ao caso do conde do Bomfim, quanto é certo que depois que voltou em junho de 1846 a Portugal da emigração pelos successos de Torres Novas e Almeida em 1844, foi logo occupar o seu logar no Supremo Tribunal de Justiça Militar havendo-se publicado uma amnistia em 1846 como a que se publicou em 1847, pois que era membro do referido Tribunal, e os seus membros segundo a Carta Constitucional não podem ser demittidos, porque são juizes, e os juizes são inamoviveis;'a lei é egual para todos, e os militares não podem portanto ser julgados por juizes de commissãol


O conde do Bomfim, desde que chegou de Angola, até agora tem-se occupado em pugnar com a maior energia constantemente na camara dos pares sobre muitos objectos de interesse publico, appresentando importantissimos projectos de lei para a organisação das tropas no ultramar, e da armada, exigindo a egualdade da applicação da lei a todos os Portuguezes de todos os partidos, pedindo a aprovação do contracto do caminho de ferro para a sua provincia (Alémtejo), exigindo o cumprimento da amnistia de 1847, e tratando com argumentos irrespondiveis e a maior mestria de obter na camara que se fizesse finalmente justiça aos direitos não só dos officiaes progressistas mas tambem dos officiaes da maioria do exercito que ficaram prejudicados e offendidos em consequencia de haverem sido promovidos os que entraram na revolução pela qual fora proclamada a RegeneraÇÃo de abril de 185Í; vindo este procedimento a tornar-se um castigo para àquelles que se conservaram lieis ao governo legitimo e que consequentemente não entraram na referida revolução; querendo o conde do Bomfim que se fizesse justiça para todos (segundo a mesma Carta Constitucional) e apresentando como poderoso argumento a lei que anteriormente restituiu as suas antiguidades e direitos os officiaes que se tinham compromettido na revolução cartista em que entraram e que fora aniquillada em 1837.

Chegou o zelo e firmeza do conde do Bomfim sobre esta questão, a ponto que na commissão de guerra da camara dos pares, composta de grandes notabilidades do exercito foi elle o ttnico que sustentou triumphantemente, e por modo irrespondivel, os direitos da officialidade, offendidos pôr quaesquer movimentos politicos, embora o projecto de lei, que na camara dos Deputados havia passado quasi com unanimidade, quando foi para a dos Pares fosse regeitado n'aquella occasíão.
Não obstante ser o tenente general mais antigo do exercito,  ter feito distinctos serviços, haver começado a sua carreira militar desde o principio da guerra Peninsular, servindo no estado maior do invicto duque de Wellington a cujas ordens esteve nas memoraveis batalbas da Roliça e Vimeiro, e depois durante o resto da campanha no quartel generel do marechal Beresford, assistindo como seu ajudante general na gloriosa batalha de Salamanca, entrando durante aquella guerra em 9 batalhas, 45 acções de primeira ordem, 6 sitios, 5 assaltos e muitos combates, escaramuças, etc. sendo o unico general portuguez que existe, além do illustre marechal duque de Saldanha, condecorado por S. M. F. com a cruz de ouro por 6 campanhas da guerra Peninsular, e condecorado por S. M. B. com medalha de distincção por commando na mesma guerra; e sobre tudo ter tido depois a honra de haver sido ajudante general e chefe do estado maior imperial do immortal Libertador durante as gloriosas campanhas do Porto e Lisboa, servindo ao lado de S. M. I. até á sua fatal perda; haver sido por differentes vezes ministro da rainha a senhora D. Maria n, presidente do conselho, e lhe ter feito importantes serviços e á nação no gabinete, no parlamento, c no campo, como deputado, como par do reino e como general: é para sentir termos de dizer que observámos, com magoa, que ainda depois de quanto acabamos de referir, foi esquecido o conde do Bomfim, já pobre e endividado, e tendo apenas a mais pequena e insignificante gratificação das que vencem os generaes do exercito quando servem como membros do Supremo Conselho de Justiça Militar; e se deu injustamente o commando em chefe do exercito com a sua pingue gratificação de quatrocentos mil réis mensaes ao tenente general conde da Ponte de Santa Maria, que era major quando o conde do Bomfim era general e chefe do estado maior do Imperador, sendo pois o conde da Ponte de Santa Maria mais moderno do que o conde do Bomflm, embora aquelle general seja muito honrado e digno de toda a consideração pela sua bravura e outras circumstancias, mas que ninguem deve dizer que tem serviços tão extraordinar. »


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