Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, português, é
considerado pelos historiadores portugueses como o fundador da cidade do
Namibe, no sul da República de Angola, a antiga cidade de Moçâmedes da
época colonial portuguesa, fundada em meados do sec. XIX por colonos
portugueses, quando o areal imenso do deserto do Namibe bordejava por
inteiro a baía do soba Mossungo.
Exilado em Pernambuco, do então Império do Brasil, Bernardino foi o
mentor da primeira colónia agrícola de povoadores portugueses, que,
também eles, radicados em Pernambuco, de lá saíram no dia 23 de Maio de
1849 (166 entre homens, mulheres e crianças) com rota ao novo porto de
Moçâmedes e com chegada àquele porto no dia 4 de Agosto desse ano. As
políticas de povoamento das possessões portuguesas de África estavam a
ser implementadas pelo então governo português cujo reconhecimento da
costa fora mandada pelo Barão de Moçâmedes, governador geral da
"Província de Angola" do Reino de Portugal, em finais do sec XVIII.
A chegada desta colónia ao estabelecimento de Moçâmedes, hoje Namibe,
revestiu-se de importância crucial para o desenvolvimento rápido da
agricultura, especialmente das culturas da cana do açúcar e do algodão,
fazendo também desenvolver no plano agrícola a região planáltica da
Huíla, com a introdução de novos colonos.
Uma biografia de Bernardino conta a história duma vida dedicada à
política, à pesquisa histórica, ao ensino e mais tarde, em Moçâmedes, à
agricultura. História que merece ser recontada para conhecermos melhor a
personalidade dum líder carismático, os seus ideais, a fidelidade às
suas convicções políticas, pessoa que se ouvia proferir o seu nome como o
fundador de Moçâmedes sem todavia conhecermos a sua vida e as suas
lutas.
AS LUTAS DE UM GRANDE LIDER E O PATRIOTA
Nasceu em Nogueira do Cravo região beirã perto de Coimbra e foi baptizado em 1809, ano do seu nascimento, ao que se supõe.
Estivera matriculado na Universidade de Coimbra no "1º. ano de Leis" em
1829 e no 2º. ano em 1830. Não aparece matriculado no 3º. ano. "Teria
sido levado pelos sentimentos e princípios de sua família e se alistara
no exército de D. Miguel," voluntários realistas, como tenente de
caçadores. Fizera a guerra civil seguindo os ideais absolutistas de D.
Miguel contra o exército liberal de D. Pedro IV.
A guerra civil (1826-1834) fora dura e sangrenta e originara muitas
baixas de ambos os lados. Bernardino sobreviveu e em 26 de Maio de
1834-tinha 25 anos de idade-assinava-se a convenção de Évora Monte, de
que D. Miguel e seu partido saíam derrotados. Os seus regimentos seriam
dissolvidos e partiria para o exílio no dia 1 de Junho, desse ano.
Bernardino que jurara fidelidade a D. Miguel, continuou fiel à causa que
defendia e passou à clandestinidade em Lisboa, faz-se jornalista e
colabora no jornal clandestino "Portugal Velho", defendendo, ainda, os
princípios do absolutismo. Enquanto isto, outros companheiros continuam
em armas contra o governo, organizam guerrilhas. Torna-se célebre o
chefe de guerrilha Remexido que actuava no Baixo Alentejo e Algarve,
chegando mesmo a tomar pelas armas Albufeira. Curiosamente conheci duas
tetranetas do guerrilheiro, que me disseram que, se D. Miguel tivesse
ganho a guerra civil, o seu tetravô, hoje, faria parte da galeria dos
grandes heróis nacionais.
Remexido tinha o seu quartel general na Serra de Monchique e foi mais
tarde aprisionado, condenado e fuzilado no Largo da Trindade em Faro, em
48 horas, por ter sido capturado de arma na mão, segundo a lei. A
tomada de Albufeira tomou contornos duma verdadeira chacina e Remexido
fora responsabilizado. Uma das vítimas dessa chacina foi Jacintho
d´Ayet, que deu nome a um largo de Albufeira e curiosamente, a sua viúva
e seu filho, com o mesmo nome, seriam os padrinhos duma minha
tia-bisavó, nascida em Olhão em 1840.
Mas, o que poderia ter acontecido a Bernardino, se D. Miguel tivesse
ganho a guerra civil? Fiel que sempre fora aos seus princípios e ao
juramento que fizera, certamente não se teria exilado. A 1ª. colónia,
organizada por ele, em Pernambuco, não teria existido. A fundação de
Moçâmedes não seria a 4 de Agosto de 1849, (data da chegada da colónia).
Não seria invocado, nesse dia, ano após ano, nos jogos interselecções,
em aclamação e em uníssono pela claque, BER...NAR...DI...NO...
BER...NAR...DI...NO, empolgando jogadores e público, para que a sua alma
ajudasse a selecção de Moçâmedes a conquistar a vitória. O que é certo é
que ninguém se lembra duma derrota da selecção, nesses dias festivos de
comemoração do 4 de Agosto, o dia da cidade. Seria bem diferente a
Moçâmedes da minha recordação, naquele velho estádio ao fundo da
avenida, "memorial vivo" do desporto rei da terra, passado cheio de
glória, numa época em que o desporto associativo era seguido com
particular entusiasmo, avivando "bairrismos" nos jogos interselecções e
amor clubista nos campeonatos distritais, antes do advento dos
campeonatos provinciais. "Memorial" esse vergastado a golpes de
camartelos e picaretas nos anos 1960, apesar dos defensores de memórias
se terem oposto à sua demolição.
Após a sua estada por Lisboa na clandestinidade Bernardino exila-se no
Brasil, fixa-se em Pernambuco, renuncia a toda a actividade política e
dedica-se ao ensino de História, Geografia e Latim, no Colégio
Pernambucano. Escreve livros de carácter didático, como a História Geral
em 6 volumes. O 1º. sobre a História Sagrada do Antigo Testamento, o2º.
sobre a História da Vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos e História dos
Judeus desde a dispersão até aos nossos dias, o 3º. sobre a História
Antiga e Grega, o 4º. sobre a História Romana e da Idade Média, o 5º.
sobre a História Moderna e o 6º. sobre a História de Portugal e do
Brasil.
Escreve, ainda, o romance histórico, descritivo, moral e crítico " Nossa
Senhora de Guararapes", que tem por fundo os encontros sangrentos entre
portugueses e holandeses em 1648 e 1649, nos altos montes de
Guararapes, na região do Recife.
As saudades da Pátria e da sua terra são enormes, Bernardino escreve:
"Saudade, nome melodioso e suave, mas enternecedor! Vocábulo sem par!
Que inveja fazes a tantos povos, os quais, por que te não sentiram, não
te souberam exprimir. Ditosa língua que tal expressão possuis! Ditosa
terra que tal língua tens! Ah!. Pátria minha! Tu o foste! Aceita cá de
longe o suspiro da mais viva saudade que te envia o desterrado filho
teu."
Mas os portugueses não estavam seguros em Pernambuco. Certos partidos
brasileiros exigiam a expulsão dos portugueses do Império. As
perseguições são particularmente intensas nos dias 8, 9 e 10 de Dezembro
de 1847. Arruaceiros espancam pelas ruas da cidade quantos portugueses
encontram. As turbas amotinadas gritam «mata marinheiros» e «não escape
um só», entravam desenfreadas nos estabelecimentos comerciais, casas, a
ferir e a matar, arrastando os cadáveres pela via pública.
Bernardino decide-se embarcar para solo português. O objectivo agora é
sair de Pernambuco e estabelecer-se numa possessão portuguesa de África.
Organiza uma colónia agrícola de povoadores portugueses estabelecidos em Pernambuco e avança com o projecto.
Escreve para o Ministério da Marinha e Ultramar a solicitar relatórios
sobre Angola. Simultâneamente pedia auxílio material, a fornecer pelo
Estado, que permitisse o transporte de pessoas e bens desde o Recife até
local a escolher, em terras angolanas.
Era funcionário do Ministério Luz Soriano, que se interessou pelo caso e
enviou um relatório detalhado intitulado "Memória sobre a Angra do
Negro". A seu ver, o local mais indicado para fixação europeia.
O relatório, mapas e tudo o que é conhecido recebe Bernardino de Luz
Soriano. O governo propõe ao parlamento o projecto para fixação no
Presídio e Estabelecimento de Moçâmedes, dos portugueses fixados em
Pernambuco, no Brasil.
É dado apoio material aos colonos (18.000 reis, transporte e víveres)
para a viagem. Adquiriu-se três engenhos de açúcar, que custaram 8.000
reis e seriam entregues a três sociedades ou a três concessionários,
para exploração. O valor seria resgatado com o produto de 3 safras,
sendo o primeiro resgate na terceira safra de laboração dos engenhos.
Providenciou-se o apoio aos doentes para que não faltasse os alimentos
próprios a estes e aos convalescentes. Uma vez chegados, o território
destinado à colónia seria dividido de forma a que não faltasse o terreno
para construção de uma habitação e formar maior ou menor
estabelecimento agrícola. Era também fornecido, nos primeiros 6 meses,
farinha e legumes pelo governo para sustento da colónia, etc.etc..
(Gravura da Fazenda dos Cavaleiros, propriedade de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro)
O FUNDADOR DE MOÇÂMEDES
A 23 de Maio de 1849, finalmente a concretização do projecto. Partia de
Pernambuco, a barca "Tentativa Feliz" e o brigue da marinha portuguesa
"Douro" com 166 portugueses a bordo, rumo ao estabelecimento de
Moçâmedes, na Província de Angola, então província do reino de Portugal.
Na viagem, sucumbiram, com bexigas, 3 adultos e 5 crianças.
Após 73 dias de viagem chegam ao destino. Entram na baía de Moçâmedes e
avistam um vasto areal servido por um rio seco, o rio Bero, que mais
tarde Bernardino chamou de Nilo de Moçâmedes, porque na época das chuvas
a água das enxurradas invade toda a terra, trazendo os fertilizantes
naturais para novas sementeiras, num microclima temperado. Era ali que
os novos colonos íam reconstruir as suas vidas em tranquilidade, em paz e
em território pátrio. Era o dia 4 DE AGOSTO DE 1849, que ficou na
História como o dia da FUNDAÇÃO DE MOÇÂMEDES.
Houve recepção de boas vindas, discurso oficial pelo governador do
distrito na presença das autoridades tradicionais: sobas Mossungo e
Giraúl. Ficaram alojados em barracões construídos de pau a pique,
cobertos de palha e amarrados com mateba ou cordas de cascas de árvores.
No dia seguinte foram conduzidos às áreas agrícolas onde foram
distribuídas as terras. Bernardino seguiu para Luanda no dia 16 de
Agosto afim de apresentar cumprimentos ao governador geral.
No dia 21 de Outubro foi a instalação, no Vale dos Cavaleiros, dos
engenhos de açúcar: às 7 da manhã içou-se, no local, a bandeira
portuguesa, na presença do governador do distrito, com uma salva de 21
tiros. A maior parte dos colonos ali compareceu e houve arraial com
largada de foguetes. Almoçaram e jantaram em barracas improvisadas.
Bernardino ergueu a sua habitação no Sítio da Bandeira, (designação que ficou na tradição popular), no Vale dos Cavaleiros.
No dia 13 de Outubro foi investido num cargo no Conselho Colonial de
Moçâmedes. Faz viagens de estudo, contacta sobas, colabora com as
autoridades, sobe a Chela, entra na Huíla, visita a lagoa dos cavalos
marinhos, que fica a 4 léguas ao norte de Lopolo, onde os rios gelam em
Maio e Junho. Já lá existem alguns colonos. Outros irão fixar-se noutras
áreas do planalto da Huíla em consequência do estudo feito. Uma vida de
líder, de rija têmpera, apostado em tudo fazer pela "sua" colónia.
Mas a natureza não se compadeceu dos recém-chegados. Uma estiagem de 3
anos secou as terras, perdendo-se todas as sementeiras. A 1ª. colónia
luta com falta de tudo, desde alimentos a vestuário. A situação é
desesperada. Alguns opinam mudar a colónia e comentam: "Antes fôssemos
mortos em terras de Pernambuco, quando estávamos sentados junto às
panelas cheias de carne e comíamos pão com fartura, em vez de padecer
com fome neste deserto." Bernardino mantém-se firme e lança a máxima:
"Vence quem perseverar até ao fim".
O governador do distrito oficia a desesperada situação dos colonos. Há
um intenso movimento de solidariedade em Luanda e em Benguela, promovido
pelas respectivas câmaras municipais. Os víveres, vestuário, dinheiro e
outras ofertas chegam finalmente a Moçâmedes e tudo se vai
normalizando.
Entretanto, em Pernambuco, os portugueses organizam, a expensas suas,
uma segunda leva de colonos (125) para se dedicarem á agricultura em
Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa. Viajam na barca
Bracarense e no brigue Douro, da marinha portuguesa. Chegam a Moçâmedes
no dia 26 de Novembro de 1850. Dedicam-se também à pesca. Lançam mão a
pessoal conhecedor da técnica de escalagem e secagem do peixe que
trabalhou na feitoria montada no estabelecimento pelo olhanense Cardoso
Guimarães, 7 anos antes.
Bernardino reconhece que os colonos conseguiram vencer as adversidades e
o deserto. São o maior exemplo de perseverança em toda a Província.
Moçâmedes engradece-se ràpidamente e é elevada a vila por decreto de 26
de Março de 1855. Em 1857 já existem 16 pescarias onde trabalham 280
escravos.
Ao festejarem o décimo aniversário da chegada da colónia, no dia 4 de
Agosto de 1859, verificaram a existência de 83 propriedades agrícolas
nas margens do rio Bero, três no Giraúl, dois no Bumbo, três em S.
Nicolau, um no Carujamba, três no Coroca, sete na Huíla.
Tinha-se materializado o sonho do Barão de Moçâmedes, Luz Soriano e Sá
da Bandeira, de fixar populações nas regiões a sul de Benguela. Foi
graças à liderança forte de Bernardino que esse desiderato foi possível.
Mas havia uma outra luta que todos eles estavam empenhados: a abolição
da escravatura.
Bernardino não permite na sua fazenda mão de obra escrava. Bate-se pela
abolição da escravatura. Escreve em 1857: "os poucos pretos com quem
trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis.
Eduquei-os com boas maneiras e não com castigos bárbaros e por isso não
me fogem e vivem satisfeitos. Não me agrada a distinção entre escravos e
libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores com
iguais direitos e obrigações". Em 1858 Portugal decretou que, passados
vinte anos não poderia haver escravos; mas, onze anos depois, em 1869,
aboliu o estado de escravidão.
Sabe-se que Bernardino foi generoso para com os companheiros mais
desafortunados. A sua casa fora uma espécie de hospedaria ao visitante.
Bernardino faleceu pobremente, no dia 14 de Novembro de 1871. Tinha 62
anos de idade. Faleceu quando regressava de Luanda, onde tinha ído em
serviço da comunidade. Causa da morte: uma pneumonia dupla.
Não
se sabe o local, no cemitério, onde foi sepultado. Memoriais: somente o
grande quadro a óleo no salão nobre da Câmara Municipal e um busto
muito simples no jardim, plantado cerca de 90 anos depois da sua morte.
As autoridades portuguesas não prestaram a homenagem devida. Os sobas
Mossungo, Giraúl, Moeni-Quipola e muitos outros deviam ter dado voltas
nas sepulturas pela falta de reconhecimento das autoridades locais ao
amigo que pugnou pela justiça e igualdade entre os povos e não admitia
escravos na sua fazenda, porém quase ostracizado pelas autoridades da
terra. O povo é que nunca o esqueceu e demonstrava-o nas competições
interselecções quando a claque o invocava em uníssono
BER...NAR...DI...NO, BER...NAR...DI...NO, para que a sua alma ajudasse a
alcançar a vitória.
A história da vida de Bernardino irá perder-se como papéis imprestáveis
nas prateleiras de algum arquivo. A guerra civil de Angola após 1974,
entre os movimentos de libertação, criou uma nova diáspora em Portugal: a
dos filhos de Moçâmedes. Nunca mais será invocado o seu nome na cidade
que fundou. A população que o invocava e o respeitava já lá não se
encontra a viver. Criou raízes em Portugal e só a visita para matar
saudades da infância ou rever todo um passado deixado para trás.
Acreditemos que em algum ponto do universo, exista plasmado, um registo
eterno de vidas justas e verdadeiras de heróis humanistas, como foi a
vida de Bernardino, para que a ciência um dia a possa trazer de volta e
ajudar na concepção de um Homem novo que esta Terra tanto necessita.
Um dia visitou Moçâmedes um amigo da família de Bernardino. Esteve na
Fazenda dos Cavaleiros. Um negro idoso apontou a ruína duma casa onde
muitos anos antes teria vivido um branco. Não se lembrava do nome. Num
alto, a ruína domina toda a extensão da terra, numa vigília constante de
mais de uma centena de anos. É também o Sítio da Bandeira onde os
colonos íam beber a Pátria Portuguesa, naquela terra adoptiva de Angola e
onde foi sonhada uma cidade: a cidade de Moçâmedes, hoje cidade do
Namibe no Sul da República de Angola.
Moçâmedes foi elevada a cidade em 1907, 36 anos após a morte de Bernardino.
Cláudio Frota