Fábrica da Praia Amélia Oleo de
Cetáceo para exportação, na Praia Amélia.
Praia Amélia, assim chamada porque em l842 porque ali
encalhou a escuna "Amélia", da Marinha de Guerra Portuguesa .
A
escuna de guerra "Amélia" era o aviso "Princesa D. Amélia", da esquadra
miguelista, comprado em Inglaterra e apresado pelos liberais em 1833.
Apesar do seu pequeno porte, o navio era valente, ligeiro e óptimo para
qualquer golpe de mão. Em 1842, levantou ferro
para Angola como correio marítimo, e em 13 de Dezembro desse ano,
quando se achava próximo da Ponta Sul da baía de Moçâmedes, encalhou em
pedra de 1.5 braças, saltando fora. O navio afundou-se.(In Arquivo da Marinha).
O baixo da Amélia, nome que lhe foi posto ao local devido a esse afundamento, trata-se de um local muito
perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de atingir uns 3
metros de água, em alguns pontos, constituído de rocha e areão, tem na fralda
ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional. Segundo um texto do
Blog Tropicália pode-se explicar assim o porquê deste afundamento:
"...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma
enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da
Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15°
16' Sul. A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica
o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por
ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito
perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3
metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda
ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto
dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do
continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano
de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra
ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica
fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali
o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu
rolo de mar. Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul,
vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens,
enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca
larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de
milha para Norte dele."
No livro, intitulado "Demonstração
geográfica e politica do território portuguez na Guiné inferior que abrange o
Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .." escrito em Lisboa em 1846 e publicado no Rio
de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de
Moçâmedes.
o seu autor, Joaquim Antonio Menez escreveu este livro no
desejo de chamar a atenção dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a
Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que
Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo
tenha destruido as benéficas disposições que podiam tornar florecentes as
Provincias d'além mar, que se estavam
mal, pior ficaram, agravando a
sua decadência. O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezesseis anos após
a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência.
Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que
deu o nome à Praia Amélia. Percorreu
pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas
de uma vida quasi extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente
perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de
prestar algum serviço à Nação.
A caça à baleia e a fábrica dos noruegueses na Praia Amélia
Quem
viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir histórias dos
seus antepassados sobre a estadia dos noruegueses, tripulantes dos
barcos da pesca às baleias, pertencentes a uma empresa norueguesa que
se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilometros a sul da cidade,
com uma fábrica de grandes proporções para a época, a Knut
Knut & Sons OAS, onde durante vários anos, desde 1918 até 1929, se
industrializou a carne e a gordura dos cetáceos que a sua frota abatia.
E decerto também não se cansou de ouvir, que a actividade dedicada à
industrialização de óleos e guanos dos cetáceos decorreu a tal ponto que
ainda recentemente apareciam grandes ossadas de baleia, ao fundo da
Praia das
Miragem e na Praia das Conchas.
Esta era uma época em que as instalações para o fabrico de óleos e guanos de
baleia eram construidas em terra porque a caça se fazia numa zona
marítima muito limitada. Porém, com a necessidade de caçar mais longe uma
vez que os cetácios afugentados da costa com a perseguição que lhes era
feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica
onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos,
desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi
então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar
a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a
produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham
pago os direitos aduaneiros atribuidos a esses produtos, foi posto em
almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.
Anos
mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores
dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu
das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o
navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção.
Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola,
seriam, segundo relatório do Veterinário Dr. Carlos Carneiro : “a baleia
preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina
(Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou
perma- cete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp).Mas, na
data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já
em crise ou mesmo perto do fim.
Inclusivamente os armadores da pesca da
baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses
que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por
uma sobre-pesca ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as
instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou
impostos ao governo português.
Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre
Porto
Alexandre -tubarão-baleia
Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre
Porto Alexandre
-tubarão-baleia
Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre
Porto Alexandre -tubarão-baleia (Rhincodon typus).
Os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia
Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles
eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em
especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que
beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de
experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica.
Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites
dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e
truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro,
canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e
silencioso.
Partiram e não voltaram... As gentes
pacíficas da terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve
regresso. Mas em vão! Ficaram as saudades que uma abrupta partida
originou. Também permaneceram as memórias desses tempo romântico, nas já citadas
ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na
«Praia das Conchas».
Navio baleeiro

Recolha da baleia através de estrado
Fábrica Norueguesa da Praia Amélia. Esquartejamento
Da Fábrica Norueguesa da Praia Amélia seguem imagens relacionadas com o corte e escala de grandes cetáceos.


Ainda sobre a presença de baleias na costa sul angolana, convém referir que já Fernando
da Costa Leal o 5º Governador do Distrito afirmava no seu
relatório de 6 de Junho de 1857 , ser a costa de Moçâmedes abundante em
cetáceos, sobretudo baleias, cachalotes e toninhas, isto numa época em
que pesca era apenas realizada nas águas distritais pelos
norte-americanos, julgando que os Estados Unidos desfrutavam então,
universalmente, a primazia em tão rendosa indústria, pois nela
empregavam avultado número de navios, conforme havia lido no jornal
americano Walemen´s Shipping List, concluindo que deveriam sair, todos
os anos, da Norte América, nada menos de oitocentos, «a percorrer os
diferentes partes do globo». Também
Manuel Júlio de Mendonça Torres, no seu livro «O Distrito de Moçâmedes
nas fases da Origem e da Primeira Organização, 1485-1859 (...)
G-Ceráceos», refere o seguinte sobre Navios baleeiros norte-americanos nas águas do
Distrito, notícia que remete
para o Relatório do Governador Fernando da Costa Leal «... que os
baleeiros norte-americanos não perdiam ensejo algum que se lhes
oferecesse de perseguir a baleia, quando ancorados no porto de
Mossâmedes».e que «havia dias» (o relatório tem a data de 14 de Abril de
1857) «tinham aparecido na baía dois baleotes, e um dos navios que
nelas estavam a refrescar deu-lhe caça com quatro escaleres, conseguindo
arpoá-los e conduzi-los para bordo». E que nessa época «...viam-se com
muita frequência cruzar o Atlântico, entre a costa do Distrito e a ilha
de Santa Helena, quarenta a conquenta navios norte-americanos,
apetrechados convenientemente e servidos por tripulantes hábeis e
expeditos.» E que a abundância de cetáceos nas águas distritais
justificava a permanência nelas de navios destinados à sua pesca. «...Os
navios baleeiros norte-americanos que percorriam a costa do distrito
tinham apenas duzentas a trezentas toneladas de arqueação, e,
circunstância digna de nota, dos vinte a trinta marinheiros que os
tripulavam, grande parte eram portugueses, naturais dos Açores e de Cabo
Verde, considerados pelos capitães norte-americanos como os mais
destros arpoadores. Na perseguição das baleias, os navios da grande
nação norte-americana, navegavam, quase sempre, pouco afastados da
costa, ora dirigindo-se para o Sul até ao Porto de Pinda e a Baía dos
Tigres, ora encaminhando-se pelo norte até à baía de Moçâmedes, onde por
vezes ancoravam para se abastecerem de refrescos. Ao aparecimento de
uma baleia, aproximavam-se dela, e, feita a pontaria, depois de
calculada a distância, um marinheiro, quando não arremessava à mão o
ferro frio, disparava a whaling-gun, carabina de grandes dimensões, da
qual partia um projéctil alongado: a bomblance. Atingida e morta, a
baleia era logo içada para o navio, em cujo costado se conservava
suspensa, até ser ali cortada em pedaços, que iam sendo atirados para o
convés. Uma máquina especial movida à manivela, dividia depois esses
pedaços, com extraordinária rapidez, noutros mais pequenos. Estes
últimos eram, em
seguida, metidos em duas grandes caldeiras de ferro, assentes em
fornalhas de tijolo, que se viam a dois terços do navio, para o lado da
proa. Derretidos os pedaços contidos nas caldeiras, os baleeiros tiravam
delas o azeite, tendo gasto na sua fabricação muito pouca lenha, porque
aproveitavam sempre, como combustível, os ossos e os torresmos.» (1)

Pesquisa e texto da autoria de MariaNJardim
(1) Fernando Leal, foi o 5º Governador de Moçâmedes: ver AQUI
Bibliografia consultada: texto do Dr. Carlos Carneiro publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 174 do ano de 1948
VIDEO: http://www.aplop.org/admin/artigos/uploads/baleeiro-lobito-filme-g.jpg
Ver também: http://www.infoescola.com/ecologia/caça-de-baleias/
Créditos
de imagem: umas retiradas de http//:antigamente1900.blogspot.com e
outras gentilmente cedidas por Hernâni Nunes Atlantico Sul, santuário de
baleias UM VÍDEO EM DESTAQUE Pesca da baleia no navio «Lobito», 1929
Documentário de 1929, sobre a pesca da baleia. Filmagens a bordo do
baleeiro “Lobito”, ao largo de Moçâmedes (actual Namibe, Angola).
Filme com 18’ 50’’, disponibilizado online pela Cinemateca Portuguesa.
PARA VER AQUI
Ver também AQUI
(1) A respeito o encalhe na escuna "Amélia", em 1842, transcrevo parte de um texto do
Blog Tropicália:
"...Passada
a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que
termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é
rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul.A uma
milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo
setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter
naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito
perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3
metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda
ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto
dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do
continente um canal por onde só devem navegar lanchas.
Por alturas do
ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de
guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe
fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder
acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver
sempre seu rolo de mar. Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e
15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por
aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do
Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns
oito décimos de milha para Norte dele."