Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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sábado, 29 de março de 2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mossâmedes, Moçâmedes, e a caça da BALEIA



 
Fábrica da Praia Amélia Oleo de Cetáceo para exportação, na Praia Amélia.


Praia Amélia,  assim chamada porque em l842  porque ali encalhou a escuna "Amélia", da Marinha de Guerra Portuguesa . A escuna de guerra "Amélia" era o aviso "Princesa D. Amélia", da esquadra miguelista, comprado em Inglaterra e apresado pelos liberais em 1833. Apesar do seu pequeno porte, o navio era valente, ligeiro e óptimo para qualquer golpe de mão. Em 1842, levantou ferro para Angola como correio marítimo, e em 13 de Dezembro desse ano, quando se achava próximo da Ponta Sul da baía de Moçâmedes, encalhou em pedra de 1.5 braças, saltando fora. O navio afundou-se.(In Arquivo da Marinha).

O  baixo da Amélia, nome que lhe foi posto ao local devido a esse afundamento, trata-se de um local muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de atingir uns 3 metros de água, em alguns pontos, constituído de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional.  Segundo  um texto do Blog Tropicália pode-se explicar assim o porquê deste afundamento:

 "...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul. A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar. Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."

 

No livro, intitulado "Demonstração geográfica e politica do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846 e publicado no Rio de Janeiro em 1848, portanto, às vésperas do início da colonização de Moçâmedes.
o seu autor, Joaquim Antonio Menez escreveu este livro no desejo de chamar a atenção dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruido as benéficas disposições que podiam tornar florecentes as Provincias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência.  O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezesseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quasi extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.


A caça à baleia e a fábrica dos noruegueses na Praia Amélia


Quem viveu em Moçâmedes, decerto não se cansou de ouvir histórias dos seus antepassados sobre a estadia dos noruegueses, tripulantes dos barcos da pesca às baleias, pertencentes a uma empresa norueguesa que se instalou na «Praia Amélia» (1), a seis quilometros a sul da cidade, com uma fábrica de grandes proporções para a época, a Knut Knut & Sons OAS, onde durante vários anos, desde 1918 até 1929, se industrializou a carne e a gordura dos cetáceos que a sua frota abatia. E decerto também não se cansou de ouvir, que a actividade dedicada à industrialização de óleos e guanos dos cetáceos decorreu a tal ponto que ainda recentemente apareciam grandes ossadas de baleia, ao fundo da Praia das Miragem e na Praia das Conchas.

Esta era uma época em que as instalações para o fabrico de óleos e guanos de baleia eram construidas em terra porque a caça se fazia numa zona marítima muito limitada. Porém, com a necessidade de caçar mais longe uma vez que os cetácios afugentados da costa com a perseguição que lhes era feita se desviavam para outras zonas, houve que adoptar navios-fábrica onde se realizava todo o trabalho de transformação dos despojos, desde os óleos aos torteaux alimentares. Foi então que os noruegueses instalados na Praia Amélia resolveram abandonar a fábrica, e servindo-se dos navios da flotilha levaram consigo toda a produção da caça aos cetáceos feita em águas angolanas. E como não tinham pago os direitos aduaneiros atribuidos a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio daquelas instalações fabris.

Anos mais tarde, em 1936, utilizando os navios da flotilha, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul, desde o Ilhéu das Rolas a Porto Alexandre, abatendo baleias e levando-as para o navio-fábrica, onde faziam a industrialização de toda a sua produção. 

Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola, seriam, segundo relatório do Veterinário Dr. Carlos Carneiro : “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou perma- cete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp).Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim.
 Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre Porto Alexandre -tubarão-baleia Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre Porto Alexandre -tubarão-baleia Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre Porto Alexandre -tubarão-baleia (Rhincodon typus)

Os noruegueses que trabalhavam nessa fábrica da Praia Amélia marcaram uma época. Eles praticavam desporto e muitos deles eram exímios jogadores de futebol. Reforçaram os times da terra (em especial o do Ginásio Clube da Torre do Tombo, findado em 1919), que beneficiaram da boa técnica desses atletas nórdicos, dotados de experiência e dos mais avançados métodos de preparação física e táctica. Por outro lado, entregavam-se ao folguedo, com exuberância nas noites dos sábados, distribuindo-se pelas tabernas citadinas, ébrios e truculentos. Tocadores excepcionais de concertina, cantavam em côro, canções do seu país, e punham em alvoroço a pacata gente do pequeno e silencioso.

Partiram e não voltaram... As gentes pacíficas da terra não perderam, entretanto, as esperanças de um breve regresso. Mas em vão! Ficaram as saudades que uma abrupta partida originou. Também permaneceram as memórias desses tempo romântico, nas já citadas ossadas desses grandes animais por todo o litoral, especialmente na «Praia das Conchas».


 Navio baleeiro
 Recolha da baleia através de estrado
 Fábrica Norueguesa da Praia Amélia. Esquartejamento


Da Fábrica Norueguesa da Praia Amélia seguem imagens relacionadas com o corte e escala de grandes cetáceos.




 











 

 
 

 

Ainda sobre a presença de baleias na costa sul angolana, convém referir que já Fernando da Costa Leal  o 5º Governador do Distrito afirmava no seu relatório de 6 de Junho de 1857 , ser a costa de Moçâmedes abundante em cetáceos, sobretudo baleias, cachalotes e toninhas, isto numa época em que pesca era apenas realizada nas águas distritais pelos norte-americanos, julgando que os Estados Unidos desfrutavam então, universalmente, a primazia em tão rendosa indústria, pois nela empregavam avultado número de navios, conforme havia lido no jornal americano Walemen´s Shipping List, concluindo que deveriam sair, todos os anos, da Norte América, nada menos de oitocentos, «a percorrer os diferentes partes do globo». Também Manuel Júlio de Mendonça Torres, no seu livro «O Distrito de Moçâmedes nas fases da Origem e da Primeira Organização, 1485-1859 (...) G-Ceráceos», refere o seguinte sobre Navios baleeiros norte-americanos nas águas do Distrito, notícia que remete para o Relatório do Governador Fernando da Costa Leal «... que os baleeiros norte-americanos não perdiam ensejo algum que se lhes oferecesse de perseguir a baleia, quando ancorados no porto de Mossâmedes».e que «havia dias» (o relatório tem a data de 14 de Abril de 1857) «tinham aparecido na baía dois baleotes, e um dos navios que nelas estavam a refrescar deu-lhe caça com quatro escaleres, conseguindo arpoá-los e conduzi-los para bordo». E que nessa época «...viam-se com muita frequência cruzar o Atlântico, entre a costa do Distrito e a ilha de Santa Helena, quarenta a conquenta navios norte-americanos, apetrechados convenientemente e servidos por tripulantes hábeis e expeditos.» E que a abundância de cetáceos nas águas distritais justificava a permanência nelas de navios destinados à sua pesca. «...Os navios baleeiros norte-americanos que percorriam a costa do distrito tinham apenas duzentas a trezentas toneladas de arqueação, e, circunstância digna de nota, dos vinte a trinta marinheiros que os tripulavam, grande parte eram portugueses, naturais dos Açores e de Cabo Verde, considerados pelos capitães norte-americanos como os mais destros arpoadores. Na perseguição das baleias, os navios da grande nação norte-americana, navegavam, quase sempre, pouco afastados da costa, ora dirigindo-se para o Sul até ao Porto de Pinda e a Baía dos Tigres, ora encaminhando-se pelo norte até à baía de Moçâmedes, onde por vezes ancoravam para se abastecerem de refrescos. Ao aparecimento de uma baleia, aproximavam-se dela, e, feita a pontaria, depois de calculada a distância, um marinheiro, quando não arremessava à mão o ferro frio, disparava a whaling-gun, carabina de grandes dimensões, da qual partia um projéctil alongado: a bomblance. Atingida e morta, a baleia era logo içada para o navio, em cujo costado se conservava suspensa, até ser ali cortada em pedaços, que iam sendo atirados para o convés. Uma máquina especial movida à manivela, dividia depois esses pedaços, com extraordinária rapidez, noutros mais pequenos. Estes últimos eram,  em seguida, metidos em duas grandes caldeiras de ferro, assentes em fornalhas de tijolo, que se viam a dois terços do navio, para o lado da proa. Derretidos os pedaços contidos nas caldeiras, os baleeiros tiravam delas o azeite, tendo gasto na sua fabricação muito pouca lenha, porque aproveitavam sempre, como combustível, os ossos e os torresmos.» (1)






Pesquisa e texto da autoria de MariaNJardim


(1) Fernando Leal, foi o 5º Governador de Moçâmedes: ver AQUI



Bibliografia consultada:  texto do  Dr. Carlos Carneiro  publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 174 do ano de 1948

VIDEO:  http://www.aplop.org/admin/artigos/uploads/baleeiro-lobito-filme-g.jpg

Ver também: http://www.infoescola.com/ecologia/caça-de-baleias/ 




Créditos de imagem: umas retiradas de http//:antigamente1900.blogspot.com e outras gentilmente cedidas por Hernâni Nunes Atlantico Sul, santuário de baleias UM VÍDEO EM DESTAQUE Pesca da baleia no navio «Lobito», 1929 Documentário de 1929, sobre a pesca da baleia. Filmagens a bordo do baleeiro “Lobito”, ao largo de Moçâmedes  (actual Namibe, Angola). Filme com 18’ 50’’, disponibilizado online pela Cinemateca Portuguesa.PARA VER AQUI

 Ver também AQUI 



(1) A respeito o encalhe na escuna "Amélia", em 1842,  transcrevo parte de um texto do Blog Tropicália:

 "...Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, forma uma enseada, que termina da banda do Sul na ponta da Anunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e só a custo se percebe do mar. Fica em 15° 16' Sul.A uma milha e seis décimos para ONO. da ponta do Noronha, fica o extremo setentrional do baixo da Amélia, nome que lhe foi posto por ter naufragado ali, em 1842, a escuna de guerra portuguesa Amélia, muito perigoso por quebrar só de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns 3 metros de água, em alguns sítios.É todo de rocha e areão, tem na fralda ocidental 2,2m, 3,5m, 4,5m de água, e 7,9 e 11m na setentrional; perto dele e da banda do Oeste se encontram 22 m e mais, separa-o do continente um canal por onde só devem navegar lanchas.

 Por alturas do ano de 1840, a quem afirme ter visto na Praia da Amélia, navios de guerra ingleses passar por entre o baixo e a praia da Amélia, que lhe fica fronteira; julgamo-lo porém muito arriscado, assim por poder acalmar ali o vento e encostarem as águas para cima do baixio, por haver sempre seu rolo de mar. Dilata-se o baixo da Amélia por entre 15°14' e 15º18' Sul, vai até a umas 3 milhas da costa. Pode-se navegar por aquelas paragens, enquanto estiver a ponta Negra descoberta da ponta do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito décimos de milha para Norte dele."
 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

BALEIAS : A carne e a gordura desses cetáceaos na alimentação humana", por Carlos Carneiro


 

                                                                          Dr Carlos Baptista Carneiro


Do Veterinário Dr. Carlos Carneiro, passarei a transcrever partes de um texto publicado no Boletim Geral das Colónias Nº 174 do ano de 1948:

 
BALEIAS


«...No decurso da guerra ( 1814-1918) a Noruega, perante as espantosas necessidade de matéria gorda em todo o mundo, organizou frotas para a caça aos cetáceos no mar Ártico. Instalou fábricas para óleos e guanos em seu territorio, e em seguida em Angola para onde fez desviar uma flotilha de caça e contruiu instalações fabris na Praia Amélia, a seis quilómetros a sul de Moçâmedes.

O Antártico, entretanto, começou seduzindo este povo de navegadores e caçadores de baleias que iriam caçar em campo virgem e reconhecidamente muito abundante em cetáceos. E para a região da Antártica seguiu a primeira expedição norueguesa. Organizaram, então, empresas com capitais franceses, ingleses e noruegueses, que vieram trabalhar na costa ocidental de África, junto ao Equador, e outras que tinham o seu campo de acção naquela região glacial.

Até certo momento as instalações para o fabrico de óleos e guanos de baleia eram construidas em terra porque a caça se fazia numa zona marítima muito limitada, mas quando se reconheceu a necessidade de procurar longe os cetáceos, afugentados da costa pela perseguição sem tréguas que lhes era feita, houve que adoptar navios-fábricas dentro dos quais se realizavam todas as transformações dos despojos da baleia, desde os óleos aos torteaux alimentares.

Os noruegueses instalados em Angola, abandonando então a fábrica que possuiam na Praia a fábrica da Praia Amélia, levaram para o seu país, utilizando os navios da flotilha , todo o produto da caça aos cetáceos feita em águas angolanas, por não terem pago os direitos que os serviços aduaneiros atribuiram a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio dessa instalação fabril. Anos depois, por 1936, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul , desde o ilhéu das Rolas, junto à ilha de S. Tomé, até Porto Alexandre, que, abatendo baleias, as faziam desviar para os navios-fábrica, onde se fazia a industrialização de todos os seus produtos.»


Quanto às espécies dos mamíferos, mais abundantes nos mares de Angola, seriam, segundo relatório do Veterinário Dr. Carlos Carneiro : “a baleia preta (Megaptera longimana), a azul (Balaenoptera sibaldi), a fina (Physalus antiquorum), a rithwal (Balaenoptera guai), o cachalote ou perma- cete (Catodon macrocephalus) e a toninha (Delphinus sp).Mas, na data em que escreve, a pesca da baleia nas costas de Angola estaria já em crise ou mesmo perto do fim. Inclusivamente os armadores da pesca da baleia (maioritariamente noruegueses ou representados por portugueses que eram os seus “testas de ponte”) viam os seus interesses abalados por uma sobre-pesca ou haviam já introduzido navios-fábrica que evitavam as instalações industriais em terra e o pagamento de licenças e/ou impostos ao governo português. 



                                                          Porto Alexandre -tubarão-baleia
Tubarão baleia (Rhincodon typus). Porto Alexandre
                                                        Porto Alexandre -tubarão-baleia

Porto Alexandre -tubarão-baleia

Voltaremos a este assunto, mas entretanto diremos que Vilela a ele também se referira rapidamente escrevendo que a intensidade da perseguição às baleias no mar de Angola obrigara-as a procurar outras paragens para só reapa recerem 20 anos depois. »
 

                                                                                        

"Baleias - A carne e a gordura desses cetáceaos na alimentação humana", por Carlos Carneiro, Veterinário Chefe do Quadro Comum do Império Colonial Português


 À França se deve a iniciação da caça à baleia.  Entre fins do século XIV e principios do século XV,  o Golfo da Gasconha era considerado a mancha atlântica mais rica em cetáceos. Pescadoresda Bretanha e de Vascongadas adestraram-se no abate desses gigantescos mamíferos que, perseguidos, se dispersaram pelas costas de Espanha e de Portugal, e daí para  os mares da América do Oeste.


A França, por 1870 tomou a prioridade na caça aos cetáceos, seguida da Noruega e América que não só procuravam esses mamíferos nos mares empobrecidos, como foram exterminá-los nos mares de toso o mundo, desde a Geórgia do Sul à África Equatorial.


Em 1910foram abatidas mais de dez mil baleias e baleinópteros. Por 1914, a França, perante a eminência do total extermínio das baleias que pescavam nos mares das suas colónias ultramarinas, procuraram controlar a sua caça através de acordo internacional e estabelecimento de regulamentos severos de protecção da espécie que tornasse interdito o abate de animais novos e que obrigava os industriais a uma completa utilização de todos os seus despojos, mas a guerra eclodiu por essa altura e o assunto nas Chancelarias perdeu o interesse.  No decurso da guerra de 1914-1918, a Noruega, perante as espantosas necessidades de matéria gorda em todo o mundo, organozou frotas para a caça de cetáceos no mar artico. Instalou fábricas para óleos e guanos em seu território, e  em seguida em Angola, para onde fez deslocar uma flotilha caça e  construiu instalações fabris na Praia Amélia, a 6 quilómetrosa dul de Moçâmedes.


O antartico, entretanto, começou a seduzir este povo de navegadores para a caça de baleias que iriam caçar em campo virgem muito abundante em cetáceos. E para a região antártica seguiu a primeira expedição norueguesa organizando então empresas com capitais franceses e ingleses enoruegueses que vieram trabalhar para a costa ocidental de África, junto ao Equador, e outras que tinham o seu campo de acção naquela região glacial.


Até certo momento as instalações para o fabrico de óleos e guanos de baleia eram construidas em terra, porque a caça se fazia numa zona marítima muito limitada, mas quando se reconheceu a necessidade de procurar londe os cetáceos afugentados da costa pela perseguição sem tréguas que lhes era feita, houve que que adaptar navios-fábricas, dentro dos quais se realizavam todas as transformações dos despojos das baleias, desde óleos aos torteaux alimentares. 


Os noruegueses instalados em Angola, abandonaram então a fábrica que possuiam na Praia Amélia, levaram para o seu país, utilizando os navios da flotilha , todo o produto da caça aos cetáceos feita em águas angolanas, por não terem pago os direitos que os serviços aduaneiros atribuiam a esses produtos, foi posto em almoeda todo o recheio dessa instalação fabril. Anos depois, por 1936, navios caçadores dessa mesma empresa começaram sulcando o Atlântico Sul , desde o ilhéu das Rolas, junto à ilha de S. Tomé, até Porto Alexandre, que, abatendo baleias, as faziam desviar para os navios-fábrica, onde se fazia a industrialização de todos os seus produtos.


Entretanto a Alemanha, que até 19936 pouco se tinha interessado pela caça destes mamíferos, preparando-se para a guerra, organiza frotas modelares, com fábricas flutuantes, e faz caça intensiva a esses cetáceos, conseguinbdo reservas enormes de gorduras de de carnes com que abasteciam as suas tropas durante o decurso da guerra última. Finda esta, e perante a insuficiência em gorduras e em carne, do povo, que saiu dela exausto e faminto, a caça da baleia passou a ser problema dominante dos países vencedores que encontaram que encontraram na exploração desses mamíferos monstruosos a solução mais fácil para acudir à fome e ao depauperamento orgânico das populações esmagadas pela violência bélica. E hoje, propagandeia-se por toda a Europa, as maravilhas alimentares da carne de baleia e, com ela, dizem as gazetas,  fazem-se banquetes onde se aglomeram centenas de pessoas para experimentarem o excelente produto. Com a gordura desse cetáceo submetida a hidrogenização, preparam-se margarinas que irão resolver uma das maiores necessidades nutritivas do povo sub-alimentado.


A Inglaterrra acaba de lançar ao mar para a caça aos cetáceos no Antártico, o maiot navio de todo o mundo, o "Baleana", de quinze mil toneladas, tenso a borso a mais perfeita apetrechagem para a conservação da carne e indistrialização das gorduras e "torteaux" alimentares.  Esse navop é acompanhado de uma flotilha de caça que leva a borso um avião para pesquisa e  localização de baleias.


O "Baleana" que partiu para o Oceano glaciar Antártico em fins de Outubro passado,  conduz uma missão de cientistas do Departamento Científico e de Estudos Industriais da Grã Bretanha, encarregado de estudar o uso da carne de baleia na alimentação humana, a sua selecção e classificação, conservação dela a bordo, e prática distribuição desse produto pelas populações em fome.  Antes do "Baleana" a Inglaterra havia mandado para os mares antárticos o "Empire Victory" que, durante uma estação de alguns meses abateu 1600 baleias que produziram 15 000 toneladas de óleo que, a bordo foi convertido em margarina para alimentação das tropas inglesas em guerra. E para os mares antárticos, em apressada corrida,  seguem flotilhas norueguesas, americanas, inglesas e dinamarquezas em busca de cetáceos, cuja carne e gordura resolvem em grande parte, o problema alimentar das suas populações que a guerra esgotou.


CONTINUA... 

Créditos de imagem:
umas retiradas de
http//:antigamente1900.blogspot.com
e outras gentilmente cedidas por Hernâni Nunes
AtlanticoSul, santuario de baleias

UM VÍDEO EM DESTAQUE

Pesca da baleia no navio «Lobito», 1929


Documentário de 1929, sobre a pesca da baleia. Filmagens a bordo do baleeiro “Lobito”, ao largo de Moçâmedes (actual Namibe, Angola).
Filme com 18’ 50’’, disponibilizado online pela Cinemateca Portuguesa.

PARA VER AQUI

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, sua evolução até aos anos 1930: o contributo do capitão Sr. José Maria de Mendonça e da Câmara da cidade. A Fortaleza e a Avenida.da Republica

                                                



 
  Rua Costa. Época em que  a elevação do morro corria até quase a meio da Avenida
A Fortaleza de S. Fernando e a acção do comandante, capitão  José Maria de Mendonça


"...Um dos monumentos que impressionam a vista a quem de bordo de um navio ancorado na baía, contempla Moçâmedes, é a Fortaleza de São Fernando. Edificada no extremo leste da planura da Torre do Tombo, no morro São Fernando, ela nasceu como a atalaia vigilante dos possíveis ataques que daquele lado viessem. Parece que dela já havia alguma construção quando à velha Angra do Negro, aproou a primeira Colónia de emigrantes vinda de Pernambuco, Brasil, em 04 de Agosto de 1849, trazida pela Barca brasileira "Tentativa Feliz" capitaneada pelo Brigue português "Douro". "





Mas falemos do assunto que nos trás aqui. 

 Miguel Coelho no “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934,  faz uma referência notável  à acção do seu actual comandante, o capitão José Maria de Mendonça, o homem que transformou (palavras textuais)  aquele pardieiro infecto, que causava repugnância a quem o visitava, transformando-o num edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãosAs obras da "continuação da Avenida da Répública", foram disso um exemplo. O morro sobre o qual assenta a Fortaleza, também conhecido por Ponta Negra, prolongava-se na época pela parte cimeira da Avenida da República, desde o Palácio indo a morrer até ao edifício da Capitania do Porto, e teve que ser desaterrado a pá e picareta, sendo a terra transportada, através de vagonetas, para preenchimento de uma depressão que existia ao fundo da mesma Avenida, lá para os lados da estação do Caminho de Ferro. 


No mesmo “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934, Miguel Coelho publicava o seguinte artigo:  


Não é nosso intento fazer a narrativa histórica deste edifício e sim apenas registar a sua actual aplicação.Serve de quartel a uma Companhia Disciplinar, para punição de delitos militares. Nada de notável isto ofereceria, se não tivéssemos que focar a notável acção do seu actual comandante, o capitão Sr. José Maria de Mendonça. São bem dignos de registo os efeitos da zelosa e acertada actividade deste ilustre militar. Ao entrar no comando da Companhia Disciplinar, que, ao tempo era também depósito de degradados, encontrou um pardieiro infecto, um aglomerado de construções cujo aspecto, causava tristeza a quem o via de fora, e repugnância a quem o visitava. Os correccionais nele agrupados passavam uma vida ociosa e os castigos registavam-se por muitas centenas. O seu actual comandante, com um bom senso invulgar, enfrentou a questão e concebeu o plano de, pelo trabalho, restaurar o edifício e, o que é mais, regenerar os reclusos. O seu intento foi coroado do melhor êxito, e presentemente, a Fortaleza de S. Fernando é, exteriormente, um edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãos.


A sua população tem hoje no trabalho bem orientado o meio de evitar os castigos, que as suas taras provocavam, e, esses castigos desceram em número a indicadores dignos de nota. Ainda seguindo um plano acertadamente estabelecido, a actividade dêsses correccionais tem sido aplicada na construção de obras de interesse geral. Para indicarmos a mais importante, citaremos a continuação da Avenida da República, obra que está concluída e que, se fôsse executada pelos meios usuais, teria custado milhares de contos.
 

Tudo isto se fez, tudo isto se conseguiu sem dispêndio para o Estado, com pequeno dispêndio para o Município, e com um grande título de glória para o sr Comandante da Fortaleza de S. Fernando.
Está nisto uma prova do muito que se pode conseguir, na causa publica, quando os homens, numa nítida compreensão dos seus deveres, procuram ser úteis à sociedade.
 
Que o exemplo frutifique e que haja sempre motivo para grato registo de factos desta natureza, são os votos do “ Mossâmedes”.

(ass) Miguel Coelho"

Seguem algumas fotos que ilustram bem esse trabalho levado a cabo  a pá e picareta por militares aquartelados na Fortaleza de Moçâmedes.




Esta foto mostra-nos parte da elevação que teve que ser terraplanada


Esta foto mostra-nos a elevação que teve que ser terraplanada
As obras de terraplanagem da elevação que nesta altura cobria a parte cimeira da Avenida da República, na continuação do morro da"Ponta Negra" ou morro de D. Fernando, onde assenta a Fortaleza.~Estas obras decorreram na década de 1930, conforme o “Semanário Mossâmedes” em  publicava em 1934, num artigo assinado por Miguel Coelho.


As obras na Avenida: Terraplanagem do morro. Aqui vai nascer o topo da Avenida da República

 A terra foi retirada com a ajuda de vagonetas deslizando sobre carris...



Depois ficou assim... Década 1930


 

A arborização da Avenida a desenhar-se...










Nesta altura  encontrava-se na Avenida o Obelisco erguido em memória do General Sá da Bandeira, que decretou em 1836 a abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas. Este obelisco tinha vindo da Praça Sá da Bandeira, que ficava no quarteirão onde foi construída a Escola Portugal ( Escola N. 55). Mais tarde foi  levado para uma praça perto do Bairro da Facada, onde ainda hoje se encontra, e no lugar do Obelisco nasceu o Quiosque.







Colecção do Centenário: 1949



As obras prosseguiram no início de 1950. O troço sul da Avenida de Moçâmedes que sobe na direcção do Palácio-residência do Governador foi alvo de novos melhoramentos. Foi a altura em que o topo da Avenida veio a beneficiar de um um imponente edifício, o Palácio da Justiça. Seguem mais algumas fotos

 

 

O imponente Palácio da Justiça (Tribunal). No tempo da 2ª Grande Guerra (1939-45), as fábricas europeias estiveram ao serviço do material bélico e as importações de toda uma série de materiais de construção, e não só, ficaram suspensas







Segue um texto assinado por J.A.M.,  publicado no “Semanário Mossâmedes”  em Janeiro de 1934:


 Câmara Municipal

 
Sendo o nosso número de hoje dedicado a “esta nobre e querida cidade” não podíamos deixar de dizer alguma coisa sôbre a Câmara Municipal de Mossâmedes. Há 6 anos que meia dúzia de homens eleitos pelo povo para defenderem os interesses do Município. Há 6 anos que esses homens, com uma fôrça de vontade e persistência notáveis, teem desenvolvido uma actividade que a todos satisfaz. Não descansam. Ontem foi a construção de passeios e marcos fontenários, arborização dos bairros da Torre do Tombo e Aguada, os dois extremos da cidade; abertura de novas ruas e nivelamento de largos. Hoje temos a continuação da formosa Avenida da Rèpública que o carinho e inteligencia de Fernando Pestana tem transformado na mais bela avenida da Província. Outras pessôas ha que muito teem concorrido tambem para a efectiva realização de algumas das obras de maior vulto na cidade e que seria injusto não mencioná-las. São êsses bons Amigos de Mossâmedes S. Exª o sr. Governador do Distrito José Pereira Sabrosa, e os Ex.mºs srs. Capitão José Maria de Mendonça, Comandante da Companhia Disciplinar e Engenheiro Mello Vieira, Director dos Portos e Caminhos de Ferro do Sul, sem o auxílio de quem não seriam possíveis o desmoronamento do morro que cercava a Fortaleza de S. Fernando e o atêrro do largo destinado ao Stadium Municipal.
 
Fazem parte da Câmara os srs. António Monteiro Portela, Fernando Pestana, Bernardo de Figueiredo, Joaquim Afonso Salavisa, Oscar Duarte de Almeida, Herculano Morgado, José Augusto Vilela e J.A. Monteiro.

O programa da Câmara é grande: Nele está indicada a montagem da luz eléctrica para fornecimento a particulares, esgôtos e canalização de água, pelo que, muito se tem interessado o vereador do respectivo pelouro, sr. Bernardo Figueiredo. Estes melhoramentos sendo de fácil realização tornam-se, contudo, difíceis pela exiguidade do orçamento que não comporta tais despezas.
 

Tem a Câmara dirigido ao Govêrno muitas exposições pedindo um empréstimo de 3000 contos. Esse empréstimo, muito embora tivesse sido autorizado pelo conselho de ministros, ainda não foi efectivado.
Os 3000 contos seriam aplicados, como em cima dizemos, na montagem da luz eléctrica com todos os requisitos modernos, e na higiene da cidade. Quando será? Oxalá que seja breve para que possamos dizer: Mossâmedes! A “nobre e querida cidade” é também a mais bela e confortável cidade!Mossâmedes – A Cintra de Africa pela amenidade do seu clima – será em tudo digna dêsse nome!
 
Por J.A.M. in “Semanário Mossâmedes” Janeiro de 1934.


Pesquisa de MariaNJardim