Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O interesse da Alemanha por Angola e o projecto de Mittelafrika



 


O "SALVADOR CORREIA" a desembarcar material de guerra na ponte de Moçâmedes




A Baia dos Tigres, Porto Alexandre e mesmo Moçâmedes, chegaram a ser o foco de um plano alemão ambicioso, que destacava a necessidade de meter a região do Sul de Angola na região do Sul do rio Cunene (Sudoeste Africano). Chegou a Alemanha a preparar uma missão destinada à obtenção de terrenos para colonos alemães em Moçâmedes, mas acabou por desistir.  Esses planos incluíam desde os anos oitenta do século XIX, a construção de um transafricano a partir da Baía dos Tigres, que, passando pelo Sudoeste Africano se prolongaria até ao Transval, dando apoio à República Sul-Africana, proporcionando-lhes uma saída pelo Atlântico, e daí até Lourenço Marques e ao Oceano Índico, a fim de facilitar o comércio alemão que teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos.  

Ainda sobre o interesse expansionista da Alemanha em Angola:  

Do blog Angola Brasil transcrevo:

 "Em 1895, no ano da nomeação de Artur Morais para Administrador do concelho de Porto Alexandre, a grande bacia que era um ponto estratégico, chegavam ali diversos navios de guerra alemães, e também alguns alemães idos de Moçâmedes, pelo deserto, a pé, recomendados pelo Governo do Distrito para que lhes fosse facilitado um transporte para a Baía dos Tigres e rio Cunene. Para espanto do Administrador, um deles era uma ilustre personagem, nada menos que o Príncipe de ESSE, que alugara uma canoa na qual pretendia, sem resultado, içar a bandeira alemã. Esse incidente fez deslocar-se a Porto Alexandre o Alto-Comissário Régio, Guilherme Capelo, na canhoneira "Vouga". E ainda nesse dia chegou ali a canhoneira "Salvador Correia", transportando o Governador do Distrito, Mascaranhas Gaivão. Este segue depois com o alferes França, a pé, a caminho do rio Cunene.

1895 - Outubro/Novembro- Chegam a Porto Alexandre diversos navios : - o couraçado "Vasco da Gama", sob comando do capitão de Mar e Guerra, Augusto Castilho; - a canhoneira "Zambeze" com o capitão-tenente, Martinho Montenegro; - a "Vouga" comandada por Gomes Coelho e a "Salvador Correia" com o primeiro tenente Gaspar. Era uma forte formação pronta a defender as costas angolanas já ameaçadas por forças estrangeiras (especialmente alemãs), com conivências inglesas, preparando-se para "um banquete" ! Fim de transcrição.

Com relação ao mesmo assunto, segue um texto  da doutoranda Marisa Alexandra Santos Fernandes:  GEOPOLÍTICA DA ALEMANHA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: O CASO DO SUDOESTE AFRICANO:


"O Projecto de Mittelafrika e o interesse da Alemanha por Angola "
                                  
".... 2.2. A Baía dos Tigres e o Projeto de um Transafricano Alemão

- Desde os anos oitenta do século XIX que a Baía dos Tigres, a maior ilha de Angola, era considerada como o ponto de partida para a construção de um Transafricano sob direção do II Reich que, passando pela Deutsch-Südwestafrika, prolongar-se-ia até ao Transvaal (dando assim apoio à República Sul-Africana ao  proporcionar-lhe uma saída pelo Atlântico) e deste até Lourenço Marques (hoje Maputo) e ao Oceano Índico. O objectivo deste seria estabelecer uma via de comunicação férrea que facilitasse o comércio alemão do Atlântico ao Índico, onde se teria acesso, por sua vez, aos portos marítimos. De facto, cedo a Alemanha compreendeu que para se tornar na “campeã mundial de exportações” (como se auto-intitula), teria de recorrer ao transporte marítimo, o que a torna economicamente competitiva visto os custos serem comparativamente menores ao utilizar o mar como via de comunicação preferencial. Daí a importância que a Alemanha confere à criação de condições para o transporte de mercadorias e matérias-primas, através do desenvolvimento da indústria marítima e  portuária (em coordenação com a rede ferroviária) (Fernandes, 2013b, p. 440). Com efeito, isto é corroborado por Guevara  ao afirmar que os relatórios navais alemães de 1882 já refletiam o interesse alemão nos portos e nas baías das colónias portuguesas em África.Neste contexto, surgiram até, inclusivamente, notícias na imprensa alemã dando conta que a colónia da Deutsch-Südwestafrika conseguiria reunir todo o território de Ovambo, que se encontrava dividido desde 1886, o que motivou o envio do navio português “Dom Luís” para esta baía (Guevara, 2006, p. 273). Em 1896, três exploradores alemães Esser, Hoesch e Zintgraff realizaram uma expedição à Baía dos Tigres, tendo solicitado no seu regresso uma concessão de 700.000 hectares, à Companhia de Mossamedes, nas margens do rio Cunene que possibilitasse ao II Reich estabelecer um porto e um caminho-de-ferro a partir da Baía dos Tigres (Guevara, 2006, p. 274).  Wilhelm II apoiava estas atividades e em Berlim havia mesmo quem defendessem que a baía devia ser ocupada por forças militares alemãs que apoiassem o avanço para Norte da fronteira Sul de Angola, beneficiando a
Deutsch-Südwestafrika. Georg Hartmann, engenheiro alemão especialista na exploração de minas que entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros Alemão em 1900, propôs o estabelecimento de uma coligação de interesses entre alemães, portugueses e belgas contra ingleses, de forma a conseguir concretizar o projeto do Transafricano antes que Cecil Rhodes pudesse colocar em prática o projeto de ligação do Cabo ao Cairo (Guevara, 2006, pp. 284-285). No entanto, em fevereiro de 1899, um representante do governo da África do Sul veio a Lisboa solicitar uma concessão de direitos para a construção de um porto e caminho-de-ferro na Baía dos Tigres e para a exploração de minério (cobre), tendo igualmente a pretensão de ir a Berlim negociar este projeto. Por sua vez, Wilhelm II acreditava que se devia anexar a Baía dos Tigres e, por isso  mesmo, preparava-se em cooperação com a Marinha alemã uma ocupação militar desta mediante o envio de mais navios. Havia igualmente uma discussão entre a Secção Colonial e os financeiros Bleichröder e Warschauer acerca da rentabilidade do caminho-de-ferro da Baía dos Tigres. Para além das firmas  R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank e a Discontogesellschaft também eram partes interessadas. Esta última, por exemplo, enviou um requerimento ao governo português pedindo a concessão da construção do caminho-de-ferro da Baía dos Tigres ao Cunene, a 11 de setembro de 1899 (Guevara, 2006, pp. 292-293). Com o apoio dos financeiros Bleichröder e Warschauer, criou-se uma nova companhia denominada de Otavi Minenund Eisenbahn Gesellschaf, cujo objetivo assentava na construção do referido caminho-de-ferro Transafricano. Neste sentido, seria enviada ao Sul de Angola uma expedição alemã para estudar qual o melhor trajeto para a efetivação deste projeto. Em finais de 1899, a R.Warschauer & Co e S. Bleichröder, o Deutsche Bank e a Discontogesellschaft  já tinham colocado à disposição desta expedição um montante para pagamento das despesas (Guevara, 2006, pp. 293-294). Porém, a 16 de outubro de 1899, foi cancelado o plano de ocupação militar alemã da  Baía dos Tigres, perante o afastamento  da possibilidade de ocupação britânica da Baía de Lourenço Marques, verificando-se a retirada dos navios alemães para a colónia dos Kamerun. A posse do Sul de Angola pelo II Reich permitir-lhe-ia ter o controlo de importantes portos que serviriam de bases de apoio à Marinha alemã, permitindo-lhe contrabalançar o poder da Grã-Bretanha como rainha dos mares, ao mesmo tempo que responderia aos princípios da  Weltpolitik.
                                
Ainda assim, chegou a Mossamedes um navio a vapor alemão com um grupo de representantes da Discontogesellschaft destinado a realizar estudos sobre o projeto do  caminho-de-ferro Transafricano que seguiu, posteriormente, para a Baía dos Tigres e para o Cunene. Também na segunda metade  do mês de outubro, um oficial alemão apresentou-se no forte do Humbe (Cunene) na companhia de uma força militar, referindo que estava para proceder ao reconhecimento de terreno com vista à construção de um caminho-de-ferro desde as minas de Otavi ao Cunene (Guevara, 2006, p. 301).

O texto integral pode ser visto AQUI: http://www.iesm.pt/cisdi/revista/Artigos/R3-3.pdf

No livro O Marquês de Soveral - Seu Tempo e Seu Modo By PAULO L. MARQUES vem uma alusão as tensoes entre Portugal e a Alemanha, nesse tempo de plena ambição expansionista, do empenhamento dos alemães na construção de uma força naval, e consequente preocupação da Inglaterra, a rainha dos mares, que via o projecto como uma ameaça. Epoca dos navios movidos a carvão, do Acordo anglo-alemão de 1898 que visava Timor como sua parte do espolio das colonias portuguesas. Ja em 1890 o Visconde Pindela, ministro portugues em Berlim, em oficio enviado a Lisboa, dizia: “...a dificuldade das nossas relações com a Alemanha esta em termos de interesses comuns e possuirmos pontos na Africa, como a Baia dos Tigres de que a Alemanha carece. Daqui surge o curioso caso dos Sanatorios da Madeira...“

Em 1903 um grupo privado alemão ostensivamente chefiado pelo principe Hohenloe Oeringen (1855/1910),  recebeu das autoridades portuguesas a concessão para a construção de um sanatorio para tuberculosos junto ao porto do Funchal, incluso a concessao por decreto de isençoes  aduaneiras na importacao de materiais  de conetruao por 30 anos, facto que nao agradou a Inglaterra que via nisso um primeiro passo da Alemanha para assegurar o abastecimento da sua frota naval. 

sábado, 21 de novembro de 2015

Moçâmedes, Namibe e a sua História: o Palácio do Governador


 

O Palácio de Moçâmedes em obras de reconstrução, devido a um incêndio ocorrido em 1899, dez anos após a sua conclusão. Iniciadas no tempo do Governador Fernando da Costa Leal, em 1858, as obras de construção deste Palácio tiveram várias interrupções e recomeçaram em 1886, tendo ficado concluidas em 1889. Assim refere Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo".




Quem entrasse na baía de Moçâmedes, fazendo-se transportar por um qualquer navio, traineira ou embarcação, de imediato se apercebia da presença deste Palácio, situado a  oeste da cidade, implantado sobre um terreno elevado (a uns 20 metros acima do nível do mar),  dominando toda a baía, na continuidade do morro da Fortaleza de S. Fernando (morro de São Fernando, antiga Ponta Negra), que se prolonga até à Torre do Tombo. 

Até aos anos 1950, perfilava-se, um pouco mais a sul, a Igreja Paroquial de Santo Adrião, e mais adiante, completando a Avenida Felner, um conjunto de pequenas vivendas em madeira destinadas a funcionários públicos,  e o Hospital D. Amélia, com seu corpo central  e os seus pavilhões laterais em madeira, demolido a partir na década de 1950, para dar lugar a edifícios públicos de moderna construção.

A Fernando da Costa Leal (1854-1959),  o quinto Governador de Moçâmedes, a cidade ficou a dever a construção deste Palácio, cujos trabalhos começaram em 1858, por sua ordem, e que foi considerado, à época da sua conclusão, em 1889, o melhor palácio regional de todo o Ultramar português, do mesmo modo que se ficou a dever ao jovem e dinâmico Governador,  a construção dos primeiros edifícios públicos de Moçâmedes, bem como o primeiro plano de urbanização.

Sóbrio e imponente, de arquitectura clássica tipicamente oitocentista, o Palácio ostenta fachada dividida em três corpos, sendo o corpo central encimado por um frontão triangular, no meio do qual se encontravam  as quinas portuguesas vãos de arco redondo nas fachadas, e platibanda dominando toda a frontaria.  De mencionar, na parte central da obra deste Palácio, o corpo rematado pelo frontão, a varanda nobre, saliente e de contorno curvilíneo. No seu conjunto, segue o tipo corrente  de arquitectura representativa praticada pelas Obras Públicas na segunda metade do século XIX.

 Assim refere Cunha Moraes, no seu "Album Photografico Descriptivo",  publicado por volta de 1888, um ano antes da conclusão das obras:

 "... o corpo central tem três janelas de sacada, com varanda em curva. A porta principal tem 1,50 m por 3 m de alto. As bandeiras das portas e janelas são semi-circulares. Em cada um dos corpos laterais há quatro janelas de varanda primeiro andar, e três de peitoril  e uma porta em cada extremo do rés do chão. Os quatro lados do edificio têm ao todo 4o janelas, sendo 11 de sacada e 29 de peito, das quais 7 deitam para projectado jardim." 

"...O telhado é dividido ao meio, no sentido da fachada, por um terraço de 2 metros de largura, feito de beton aglomerado, para o qual convergem as duas abas interiores do telhado; ao meio do terraço, interrompendo-o,  eleva-se um  mirante de 5 metros de altura, com uma superficie de 55 metros quadrados, e que há de ser gradeado em volta e ter no centro uma clara-bois envideaçada de 3.m30 de alto em forma de prisma octogonal terminando por uma pirâmide. Entrando no vestíbulo ficavam em frente três arcos com colunas, da ordem dórica, tenso o arco central 2 metros de largura por 4 de alto, e os laterais 2,m20 por 2,m40. Estes dois, que são envidraçados, e o do centro dá acesso à escada, que tem um lanço central e dois laterais,  formam na projecção uma elipse. A escada é de madeira de S. Tomé, polida e de três cores.  

"... O rés do chão e o 1º andar estão divididos em 10 compartimentos, cada um destinados a servirem para repartições públicas. 

"... Os trabalhos começaram em 1858, por ordem do Governador Fernando da Costa Leal , continuando mais tarde, segundo um risco de Lapa e Faro (1), risco que tem sofrido várias modificações, e depois de uma interrupção de muitos anos, recomeçaram em 1886, devendo estar concluidos em 1889. A despesa feita até hoje é calculada em 80.000$00 de reis. "

Iniciado em 1858, e concluído trinta e um anos depois, já no tempo do governo de Luís Leitão Xavier, em 1889, aponta-se como causa deste atraso a falta de mão de obra que tinha que ser recrutada da Metrópole, bem como a falta de materiais apropriados para os acabamentos, uma vez que os existentes não satisfaziam as exigências de uma construção deste tipo. Tudo vinha de fora nesses tempos de locomoção complicada, em que a região de Moçâmedes era carente de mão de obra especializada, e os autóctones resistiam à integração, levando uma vida nómada e semi-nómada, não aceitavam outra ocupação que não fosse a ancestral deambulação pelo deserto em busca de água e de pastos para o seu gado.  

Foi após a formação do grupo social "quimbar", os africanos aportuguesados de Moçâmedes, constituido por africanos provenientes dos mais diversas pontos do território, e pertencentes às mais diferentes etnias, de início escravos libertados de navios negreiros apresados, enviados para Moçâmedes para acudirem às necessidades de mão de obra, que o panorama de grande carência de mão de obra não qualificada, mas extremamente necessária começou paulatinamente a mudar, mas sempre deficiente até agravada em finais do século xix, sobretudo na fase que medeou entre a abolição definitiva do tráfico de escravos e o regime de contratados. Quanto a técnicos munidos de saberes estes continuaram a ser recrutados da Metrópole.


E como se não bastasse, por causas que se desconhecem, este Palácio foi quase totalmente destruído por um incêndio, ocorrido no dia 26 de Maio de 1899, 10 anos após a sua conclusão, conforme consta de um apontamento existente na Administração Civil de Moçâmedes. Ficaram de pé as paredes,  e assim permaneceram expostas ao tempo por mais 20 anos, até que finalmente, já no tempo de Norton de Matos, no exercício de Alto Comissário da República para a colónia de Angola (1921 a 1924), a obra de recuperação foi concluída.

Concluido de facto, o Palácio de Moçâmedes que tivera de inicio, conforme adianta Cunha Moraes, as suas escadarias interiores, feitas em cantaria da região,  estas foram substituídas por ricas madeiras de S. Tomé, o que prova a preocupação em acabamentos que estivessem em concordância com a grandeza da obra projetada por Fernando Leal.


 J. Pereira do Nascimento no seu livro "O Distrito de Mossâmedes", editado em Lisboa, em 1892,  três anos após a conclusão da obra, faz alusão a este Palácio como sendo a melhor das  obras das possessões portuguesas ultramarinas, dada a bela arquitectura montada com luxo e grandeza, onde ficavam implantadas as principais repartições públicas. Portanto presume-se que a obra tenha sido concluida em 1889.

Até à conclusão da construção do Palácio da Justiça (Tribunal), no topo da Avenida da República, em inicios da década de 50,  o Palácio-Residência do Governador manteve a situação privilegiada com que nasceu, e que possibilitava, a partir das sua janelas frontais, dominar toda a baía, e das suas janelas laterais dominar a paisagem para da cidade, num amplo horizonte que abrangia todo o conjunto de casas térreas do "centro histórico", de cunho tipicamente algarvio, e ultrapassava as  tão badaladas "Hortas" de Moçâmedes. Com a construção do Palácio da Justiça perdeu toda a vista que tinha sobre a zona norte da cidade e arredores.
 


 
O Palácio do Governador, a Igreja matriz, as casas térreas de madeira,
dos funcionários públicos e o Hospital, na Avenida Felner em Moçâmedes (Namibe). Repare-se que por esta altura o Palácio ainda não exibia o telhado elevado que passou a ostentar décadas mais tarde, como outras fotos mostram



Na parte traseira do Palácio existia nesta época (anos 1930/40?) um outro edifício ao qual se podia aceder através de um corredor exterior. Por esta altura o Tribunal funcionava na parte lateral do Palácio, que fica a olhar a Avenida, onde existia uma porta de entrada, à qual se acedia através de um pequeno lance de degraus.


O Palácio do Governador, a Igreja, as vivendas de madeiras destinadas aos funcionários e o Hospital D. Amélia. Edição de postais do Centenário, em 1949

Esta foto posterior a 1950, mostra-nos já os modernos edifícios públicos de Moçâmedes, como se pode ver à dt da Igreja.  Já não se encontrava nesta altura o Hospital, que fora demolido, nem as moradias térreas construidas em madeira para os funcionários públicos.  Verifica-se a presença da asfaltagem na Avenida Felner, e a presença de uma escadaria exterior, bem como a elevação do muro sobre o qual assenta o edifício. Também o Palácio apresenta-se agora com telhado elevado, o que não existia em fotos anteriores.










O interior do palácio de Moçâmedes

Conforme relata Cecílio Moreira no seu pequeno livro "O Palácio do Governo de Moçâmedes", 1974, durante o governo José Luis Sales Henriques de Brito (1960/68) o Palácio foi submetido a uma fase de restauro e remodelação de que resultaram melhoramentos interiores. Entre esses melhoramentos  foram efectuadas divisórias que aumentaram em número dos compartimentos, bem como beneficiações gerais nos dois pisos, mantendo no entanto a habitual grandiosidade em edificios do género.  No átrio os 3 arcos  que encimavam as colunas referidas por Cunha Moraes desapareceram para dar lugar a linhas rectas e mais desafogadas, mantendo-se no entanto os antigos oratórios metidos na parede, à direita e à esquerda do  1º lanço de escadas de acesso ao andar superior. Mantiveram-se em boas madeiras as escadas e os corrimãos, e ainda no átrio, na parede onde encosta o 1º patamar, foi feita uma enorme abertura, em seguida fechada com uma grelhagem exagonal com envidraçado interior, para dar claridade e beleza àquele espaço.  O pavimento da rua fronteira ao Palácio foi asfaltado e teve um abaixamento de correcção superior a 1 metro , dando origem a uma escada de 7 degraus em mármore de acesso à porta principal, escada que termina num patamar com piso também de mármore que se prolonga ao longo da parede, para a direita e para a esquerda, de forma a proteger as fundações da fachada principal enfraquecidas pelo abaixamento da rua.  Foram  também colocados no fim do do lanço das escadas 2 candeeiros de ferro, um de cada lado, com quatro lanternas cada, em estilo a condizer. E as portas do rés-do-chão, que estavam nos extremos do edifício, foram fechadas ao nível do peitoril, para darem lugar a janelas iguais às existentes neste piso, ficando apenas com a porta principal. Na parte posterior do Palácio foram feitas fundações até ao pavimento da cave,  que possibilitaram a construção de anexos cobertos com uma laje de cimento destinados a garagem, oficina para pequenos arranjos, arrecadações, lavandaria e dormitórios do pessoal serventuário. Foram ainda construidas na parte posterior, a meio de toda a altura do edifício, uma passagem saliente,tapada com uma escada de serviço, e 3 janelas rasgadas do rés-do-chão ao 1º andar para darem mais claridades a esta escada e à escada interior.

No projecto inicial este Palácio incluía terrenos para indispensáveis ajardinamentos, como consta da descrição de J.A. da Cunha Moraes, no entanto esses ajardinamentos só vieram a acontecer  um século mais tarde, no tempo do Governador Sales de Brito, que fez arrotear terrenos livres que ficavam a Nordeste e a Sudoeste do edifício, levantar muros que os delimitam, arborizar e ajardinar  passando a constituir os actuais jardins do Palácio. Na ala ajardinada de Nordeste já foi serviço um "pôr do sol" quando da recepção  ao Presidente da República Américo Tomás, na sua visita a Moçâmedes, em 1963.
 

O Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, em 1938,  foi uma das altas individualidade portuguesas que ficaram alojadas neste palácio no decurso das suas visitas oficiais efectuadas ao longo do tempo.   Ver AQUI

 

No Palácio de Moçâmedes, um grupo de senhoras, esposas de entidades representativas da cidade,  aguardam a recepção, em 1961, do Ministro do Ultramar, Professor Doutor Adriano Moreira. Foto de álbum pessoal, gentilmente cedida por Lucinda Marques exclusivamente para esta publicação. 


Resta os nomes dos sucessivos governadores grande parte dos quais não habitaram este Palácio, simplesmente porque ainda não existia:


De 1849 até 1851 António Sérgio de Sousa
De 1851 até 1852 José Herculano Ferreira da Horta
De 1852 até 1854 Carlos Botelho de Vasconcelos
Em 1854 António do Canto e Castro
De 1854 até 1859 Fernando da Costa Leal; (1858, data do inicio da construção do Palácio de Moçâmedes)
De 1859 até 1861 António Joaquim de Castro
De 1861 até 1863 João Jacinto Tavares
De 1863 até 1866 Fernando da Costa Leal ( Projectou o Palácio)
Em 1866 Alexandre de Sousa Alvim Pereira
De 1866 até 1870 Joaquim José da Graça
De 1870 até 1871 Estanislau de Assunção e Almeida
De 1871 até 1876 Lúcio Albino Pereira Crespo
Em 1876 Francisco Teixeira da Silva
De 1876 até 1877 José Joaquim Teixeira Beltrão
De 1877 até 1878 Francisco Augusto da Costa Cabral
Em 1878 Sebastião Nunes da Mata
De 1878 até 1879 Francisco Ferreira do Amaral
De 1879 até 1880 Sebastião Nunes da Mata
Em 1880 José Bento Ferreira de Almeida e Sr. João António das Neves Ferreira
De 1880 até 1886 Sebastião Nunes da Mata
De 1886 até 1889 Álvaro António da Costa Ferreira  (1889, data da conclusão do palácio de Moçâmedes)
Em 1889 Ventura Duarte Barros da Fonseca
De 1889 até 1892 Luís Bernardino Leitão Xavier
De 1892 até 1893 Martinho de Queirós Montenegro
De 1893 até 1895 Júlio José Marques da Costa
De 1895 até 1896 João de Canto e Castro Antunes
De 1896 até 1897 João Manuel Mendonça e Gaivão
Em 1897 Sr. João Manuel Pereira da Silva
De 1897 até 1899 Francisco Diogo de Sá
De 1899 até 1902 José Maria d'Aguiar
(1899,  data do Incêndio do Palácio de Moçâmedes) 
Em 1902 Sebastião Corrêa de Oliveira
De 1902 até 1903 João Augusto Vieira da Fonseca
De 1903 até 1904 Viriato Zeferino Passaláqua
De 1904 até 1905 José Alfredo Ferreira Margarido
De 1905 até 1907 José Rafael da Cunha
De 1907 até 1908 António Maria da Silva
De 1908 até 1910 Alberto Carolino Ferreira da Costa
Em 1910 António Brandão de Mello Mimoso
De 1910 até 1912 Caetano Carvalhal Corrêa Henriques
De 1912 até 1914 Henrique Monteiro Corrêa da Silva
Em 1914 Jose Monteiro de Macedo
De 1914 até 1916 Alfredo de Albuquerque Felner
De 1916 até 1918 José Inácio da Silva
De 1918 até 1919 António Dias
De 1919 até 1922 José Manuel da Costa
De 1922 até 1924 Alberto Nunes Freire Quaresma
De 1924 até 1926 Eng.º Artur Silva
De 1926 até 1928 António Augusto de Sequeira Braga
De 1928 até 1929 Francisco Martins de Oliveira Santos;
Em 1929 Alcino José Pereira de Vasconcelos
De 1929 até 1930 António Augusto de Sequeira Braga
Em 1930 José Maria de Seita Machado; Sr. Carlos Ludgero Antunes Cabrita; Dom António de Almeida Capitão; Sr. Alberto Nunes Freire Quaresma
De 1930 até 1935 José Pereira Sabrosa
Depois de 1935 houve uma interrupção provocada por razões de divisão administrativa tendo a governação sido retomada em 1956.
De 1956 até 1960 Vasco Falcão Nunes da Ponte
De 1960 até 1969 José Luís Henriques de Brito
De 1969 até 1970 Rogério de Abreu Amoreira Martins
De 1970 até 1971 Agostinho Gomes Pereira
De 1971 até ... Amândio José Rogado
O  Palácio de Moçâmedes sempre esteve ligado à história da cidade, até porque foi ali que viveram os sucessivos Governadores que durante a maior parte do tempo em que decorreu a colonização  exerceram as suas funções. E  assim sendo, vale a pena deixar este subsídio para a História deste secular imóvel que poderá um dia vir a constituir a base de um trabalho mais aprofundado.



 Pesquisa e texto de
MariaNJardim


(1) Lapa e Faro foi o 1º médico de Moçâmedes que ali se radicou no inicio da colonização, tendo acompanhado o major Rudski quando iniciou o primeiro estabelecimento no Porto de Pinda, em 08.12.1854. Além de médico e articulista foi um elemento activo e preponderante na vida de Moçâmedes, a quem são devidas várias realizações.

Nota: No Diário da Câmara dos Deputados de 18 de Janeiro de 1878 conta ter sido levado a debate o assunto da Construcção da casa para o tribunal de justiça, a construção do palácio do governo, estudos para uma ponte de embarque o desembarque, e da estrada de Moçâmedes para Huila, estudos para a construcção da casa para repartição de obras publicas, deposito e observatorio meteorologico, casa para cadeia, casa para escola, hospital, quartel, e para a conclusão da terraplanagem no interior da fortaleza.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A petição de 13 de Julho de 1848 de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
















A petição de 13 de Julho de 1848
llmo e Exm.º Snr.:

As divisões politicas da nossa Pátria me obrigaram a sahir d’ellla, e a vir em terra estranha procurar subsistência por meio do trabalho. Não me posso absolutamente queixar da sorte por ter vindo de Pernambuco, onde resido há nove anos, e tenho vivido, e tenho vivido, senão bem, ao menos soffrivelmente;  mas já há tempos desejava sahir em razão de observar que se promovia guerra acintosa aos Portugueses, oferecendo-os, como cavallos de batalha, os partidos, em que se acha dividida esta Província, para chegarem aos seus fins. Bem via eu o perigo que corriam todos os Portugueses, os quais  pela maior parte faziam chamar sobre sí as vistas ambiciosas d’aquelles que nada possuem, porque não empregam o trabalho e a indústria, fontes seguras da riqueza, mas os horrorosos acontecimentos do dia 26 e 28 do mez passado me fizeram tomar a resolução de sahir sem demora d’uma terra, em que na presença das auctoridades e da tropa se arrombam a machados as portas das habitações, se arrancam homens inermes e sem crimes do seio das suas famílias, e se assassinam a pancadas, chuçadas, golpes, facadas e baionetadas, arrastando seus cadáveres ensanguentados pelas ruas, roubando-se-lhes os seus haveres, sem que se dê uma outra razão sino o de terem o crime de merecerem em Portugal, o nome que por despreso denominaram marinheiros. Os gritos que retumbaram do meio das turbas que pelas nove horas da manhã do dia 28 começaram a inundar um dos bairros d’esta cidade, eram de –mata marinheiros—não escape um só--.      A perseguição se predispunha pelas folhas, planos infernaes se urdiam em nocturnos clubes, contra os Portugueses, e si não acontecesse uma rixa entre um estudante do lyceo e um caixeiro Portuguêz, o qual depois de dar uma bengalada atirou aquelle com um peso de 4 libras, não abortaria a perseguição, que se foi medonha, e mais que muito demonstrou quam bem dispostos estavam os ânimos contra nós, seria ainda mais temível, si aparecesse com a canalha regularmente armada: devo porem dizer, em abono da verdade, que, com poucas excepções, o grande numero de turbulentos e perpetradores dos horrendos crimes era gentalha e escravatura.

Tinha pois resolvido sahir com brevidade, mas deteve-me a consideração de que podia fazer um serviço aos meus Patrícios e à minha Pátria, procurando um meio de fazer sahir d’aqui um grande numero de Portugueses para as nossas possessões da Azia ou da Africa. D’accordo com o Consul, o Snr. Joaquim Baptista Moreira, que não fez mais em favor dos seus, porque desgraçadamente as nossas divisões, nos tem reduzido alem de pequenos a zero: a não termos o menor respeito; e andarmos pelo mundo, como judeos, que sofrem toda a quallidade de injurias, sem ninguém tomar d’ella satisfação, lembrei-me de fazer publicar, que representava ao Governo Portuguez, a nossa situação, e que se pediam providencias, entre as quaes o enviar transportes para serem conduzidos a um ponto das nossas possessões da Azia ou da Africa, como colonias, aquelles que ahi quisessem estabelecer-se. Todos ao principio repelliam esta idea, opondo a insalubridade do clima, argumentando com o facto de que já d’este império havia sahido para Africa no tempo da Administração do Exm.º Sá da Bandeira,  um grande número a convite dos Consules por ordem do Governo, e que todos haviam sido victimas de moléstias, que alli grassa. . Com geito se há rebatido a tal oposição, e hoje vejo os ânimos inclinados tendo muitos dado já o seu nome como prontos a seguir para qualquer ponto que o Governo determine, uma vez que envie com urgência transporte,  e empregue medidas de interesse e comodidade que chamem e atraião os colonizadores: e julgo de grande utilidade aproveitar a ocasiam, pois que sendo estes bem sucedidos, para o que deverám tomar medidas, não só irám outros d’aqui e de todo o imperio e com fundos, mas se mudara a mania de só virem os Portugueses procurar fortuna no Brasil.

Dar-se-ha direcção a essa grande emigração anual para as nossas possessões, e virám ellas em poucos anos a tornar-se proveitosas a metrópole, e a entreter um commercio nacional que tornara a elevar a nossa dechaida marinha.

O Snr. Consul remettera por copia a redacção dos que já deram o seu nome, os quaes sam o dos residentes na cidade, a quem particularmente se comunicou a medida que hia adoptar-se por quanto se julgou politico não dar porosa publicidade pellas folhas.

Eu que livre de orgulho afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, e a ir compartilhar dos trabalhos e revezes que acompanham o estabelecimento de uma colonia, só porque vejo que comigo acarreto algum numero, mormente dos mais uteis, porque sam os que entendem do fabrico dos assucares, e plantações das canas, e mesmo do tabaco e café, pois que vivo em relação com muitos engenhos, tengo neles arranjado vários e me hei dedicado a conhecer como fundamento o modo mais profícuo de fazer o assucar, e de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno, e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente em as distilações, que bem dirigidas sam de sumo interesse.

Nas considerações que a esta acompanham, não só explico a razão porque digo que os que entendem dos trabalhos agrícolas sam os mais uteis, mas exponho alguns alvitres que me ocurreram. V. Ex.ª me desculpara na certeza de que o não faço, porque não seja persuadido do seu profundo saber; mas porque muitas veses uma lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas.

Approveito esta ocasião para offerecer a V. Ex.ª o meu diminuto prestimo.

Deos Guarde a V. Ex-ª por muitos anos – Recife de Pernambuco, 13 de Julho de 1848.

Lllmo e Exm.º Snr. Ministro e Secretario d´Estado dos Negocios  da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, cidadão portuguez.

À margem:  N.º  582 – A 848 /  5 8.º s
(1.ª suplica que veio dos Portugueses em Pernambuco).
(A lapis está a seguinte notação): Approvado este plano no seu ponto essencial em Concelho de Ministros no dia 30 d’Abril de 1848 redigir-se-há uma série de Instruções que serão cometidas conjuntamente ao Consul, e ao proponente no sentido que abaixo vai notado.

Convem principiar por lhes declarar que se ordenou ao Governador Geral de Angola ( e eu direi verbalmente os motivos desta preferência que é condicional) que pozesse à disposição da Colonia com as formalidades da Lei um ou mais treactos de terreno bem situado e salibre, e a mais próprias a produzir os géneros a cuja cultura vai acostumado segundo esta exposição.

N.B.—Seguem as notas no papel das considerações.

CONSIDERAÇÕES

Portuguezes mais habilitados pela sciencia do que eu, teem de há muito clamado contra o desleixo e a indiferença, com qua a nossa Administração hãm olhado para as nossas possessões. Temos na Azia e na Africa uma superfície de quatro cenras e settenta e tres mil milhas, donde podíamos tirar innumeras vantagês, e que so nos acarretam despezas, e fornecem provas da nossa incúria e ignorância

Ninguem há ahi que não saiba que a falta de braços inteligentes é a causa primaria de nenhuma vitalidade




sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o  interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.
foto livro de P. Salvador (1).


Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectiva do interior da Fábrica com portão de ferro a dar para o exterior, por entre entram e saiem as "vagonetas" que transportavam o peixe a partir da ponte


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras africanas

O encaixotamento
Como referi atrás a Fábrica também se dedicava ao peixe seco

Perpectivas: Uma vagoneta transportando o peixe seco já ensacado



Perspectivas : a rotina dos trabalhadores




 




Conforme o livro "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes, esta fábrica, a primeira de todo o Distrito, foi mandada edificar em 1914 pela firma Figueiredo & Almeida. Conforme Artur Moraes no seu Memórias de Angola, pg 73, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, 2001, a iniciativa da criação da fábrica de conservas "Africana" deve-se a Miguel Duarte de Almeida, casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida, e tomou corpo com o apoio do grande colono Serafim Freire de Figueiredo, sogro do primeiro.

Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. Através da leitura do mesmo Boletim, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura denominava-se "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e de conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, na sua qualidade de administrador da Companhia de Mossâmedes.

Conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), e de uma referência feita à obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, a "Fábrica Africana" destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Como se pode ver pela duas fotos acima, no topo das janelas da "Fábrica Africana" encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam, ou se pensava viessem a ser ali produzidos na íntegra: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também o símbolo da Fábrica, uma águia.

A Fábrica, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim, encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com o exterior, ou seja, com uma ponte pertença da mesma empresa, onde o pescado era descarregado e em seguida transportado para o interior da Fábrica, directamente, através de vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportavam da "Fábrica Africana" produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Em 1932, o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, e visitou também, conforme o mesmo Boleim, uma outra empresa fabril de conservas de peixe pertencente a Manuel da Costa Santos. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana (?).

Esta fábrica, mais adiante no tempo, foi propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 era designada por "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). Há referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez Angola " a um indivíduo de nome Santana como proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta, para após descarregado ser escalado e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Em 1953. já a industria de pesca de Moçâmedes tinha em actividade 14 fábricas de conservas, 155 instalações de pesca e peixe seco, 40 de farinha e óleos de peixe, tudo avaliado em 225 355 contos. Estavam empregados 5904 indígenas contratados. ("Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes)

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.

Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer. Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial, na região de Moçâmedes.


Pesquisa e texto de MariaNJardim


* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana.

Poderemos encontrar também referencias à Figueiredo & Almeida limitada que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados, uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI


** E ainda em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.



Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898
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Transcrevemos a seguir passagens de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:


«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...

«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
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