Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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sábado, 5 de março de 2011

Annaes do Conselho Ultramarino: baía e Porto de Pinda, Mossâmedes, por Marcelino Antonio Norberto Kudzki, 1855








ANGOLA.

Notícia resumida da bahia e Porto de Pinda, ao sul de Mossâmedes,
por  Marcelino Antonio Norberto Kudzki.


Eram duas horas da tarde, do dia 6 de Dezembro de 1854, quando o brigue de guerra Serra do Pilar, que me conduziu a seu bordo, deu fundo na bahia do porto de Pinda: o brigue-escuna Trindade, que nos seguiu como transporte, ancorou na mesma occasião. A bahia occupa o espaço de nove léguas, sendo fechada do lado do norte, pela ponta do Cabo Negro, e do lado do sul, pelas areias que cercam a pequena enseada, denominada Porto Alexandre. Do mar, o aspecto do território é árido; nem uma árvore, nem um signal de vegetação se offerece á vista, á excepção da cordilheira dos rochedos que do Cabo Negro se estendem para sueste; só as dunas de areia se divisam, e algumas lagoas na foz do rio Coroca, formadas pelas enchentes do mesmo e pelo mar. No centro da bahia um rochedo a prumo eleva-se 100 pés sobre o nivel do mar, e é necessário rodea-lo uma milha pelo lado do sul, para achar desembarque e accesso. Foi na ponta d'este rochedo que se arvorou a bandeira nacional, e assentou o alicerce da nova colónia. O rochedo forma no cimo um taboleiro plano, de uma milha de circumferencia; cobre-lhe a superfície apenas uma camada de areia misturada com seixo, de um palmo de alto, de tão variadas cores, que com o brilho do sol, apresenta o mais bcllo mosaico. Encontram-sc aqui muitas e variadas petrilicações, e pelas duas horas da tarde, nos dias em que a atmosphera está limpa, gosa-se da vista mais agradável, isto é, da perfeita íllusão do phenomeno da miragem; as noites, porém, são insupportaveis, por causa do excessivo frio. Levava comigo um destacamento de 15 praças de pret, 6 libertos, 4 cabindas para serviço da lancha, mantimentos para seis mezes, e algumas pipas com agua; e para construcções 300 tuogas, 3:000 bordões, 36 tábuas, 6:000 pregos, algumas dobradiças c fechaduras, 8 moios de cal, 1 carpinteiro e 1 pedreiro.

Com estes meios comecei por desembarcar tudo para terra, e como as pipas com agua tivessem esvasiado no caminho, foi necessário antes de tudo pesquisar se era possivel encontra-la n'essa paragem. Depois da excursão de algumas milhas, reconheci o leito do rio Coroca, um dos que se infiltram na areia, e só em occasiões de grandes cheias despejam aguas no mar. Foi no leito d'este rio, que encontrei a dois palmos de fundo, agua potável muito boa. Construiram-se provisoriamente abrigos para a gente e para guardar os mantimentos, e logo que esta primeira providencia ficou effectuada, dediquei-me a reconhecer o território em que me achava, e aproveitar os recursos que elle offerecia. Diligenciarei dar alguma idéia desta parte da costa da Africa portugueza.

Todo o territorio em geral e mais de tres léguas das praias do mar para o interior, são areias finas, soltas e movediças, formando dunas, montes, valles de differentes aspectos, e que os violentíssimos ventos do sudoeste continuamente removem, dando-lhes a apparencia de incessante ondulação. Do rochedo onde assentei o acampamento, a vista abrange toda a bahia desde Cabo Negro até Porto Alexandre, e mais de seis léguas para o interior. Caminhando do acampamento em direcção a Cabo Negro, a meia milha de distancia, o terreno declina rapidamente, começam dunas de areia, ora elevando-se em montes muito altos, ora baixando, e deixando ver nas suas faldas, planícies cobertas de capim, caniço e outros vegetaes silvestres. A terra é negra e susceptível de se cultivar, e em lodos os logares destes valles ha agua em pequena profundidade; esta agua, posto que não seja salobra, sem gosto e cheiro desagradável, não tendo meios para a analysar chimicamente não posso affirmar que é mineral, nem que propriedades contém; inclino-me contudo a crer que é sulphurea. É destes logares que temos aproveitado caniço  capim para construcções, servindo-nos a agua para as obras de pedreiro, por ficar mais perto do que a boa agua potável que íamos buscar ao rio. Já disse que do mar nem um arbusto se apresenta á vista; não é porém assim de mais perto; os montes de areia são cercados na base por uns arbustos rasteiros, cujas raizes chegam a ter a grossura da tunga, e enlaçam-se uns com outros, segurando-se apenas com as pontas no terreno, ardem bem e dão fogo forte. Utilisamos-nos d'elles para combustível, pois são em grande abundância. O leito do rio dista do acampamento tres milhas, pouco mais ou menos, tem uma milha de largo, do lado do norte encosta-se aos rochedos que se prolongam do Cabo Negro, ao sul suas margens são altas dunas, e uma lingua de terra vegetal de algumas braças de largo onde fizemos horta mandando vir de Mossamedes sementes de hortaliças, de batata nutriente, cará, bananeiras e mandioca, o que tudo cresceu e produziu em abundância. Na rocha onde acampámos ha muita pedra solta; também ha outra, que deitada na agua por vinte e quatro horas, amassa depois como barro, liga bem com pedras, e faz um muro bastante forte; foi pois d'este material que edifiquei o aquartelamenlo, servindo a cal somente para o reboque interior e exterior das paredes. O junco fino de que aIi ha abundância, prestou-se melhor que o capim, para cobrir os telhados.

Nenhum verme destruidor alli se encontra, e por isso as construcções de madeira são de muita dura. Chove unicamente n'uma epocha do anno (em Janeiro), e isto duas ou tres vezes, caindo agua a cântaros durante algumas horas não interrompidas de cada vez; no interior porém, segundo affirmam os indígenas, as chuvas são bastante abundantes. A bahia é abundantíssima de peixe; em doze ou quinze braças de agua pesca-se pargo, corvina, cherne, cação, e o peixe prego; este ultimo chega a ter seis arrobas de peso; não é bom para comer, mas o fígado de um só dá ordinariamente seis a oito camadas de azeite. A salga do peixe é fácil e sem dispêndio, porque sal encontra-se aqui em abundância.  


 

Os indígenas que habitam n'estas paragens chamam-se corocas; são selvagens, nos quaes ainda não apparece vestígio algum das relações com os Europeos, nem mesmo com os mais povos de Angola; falam um idioma propriamente seu, que os mais indígenas não entendem. Dividem-se em famílias pouco numerosas; os que habitam mais no interior formam tribus pequenas, cada uma das quaes constitue uma só povoação subordinada a um chefe, que é o mais velho da tribu, e a quem os mais chamam papai: este chefe exerce na tribu poderes patriarcaes, e não feudaes como os sobas de Angola. O nome de escravo é entre elles desconhecido, e por isso também não ha exemplo de se guerrearem uns aos outros. São pacíficos, humildes, fieis a toda a prova e tratáveis. Os do interior plantam alguma mandioca e feijão, mas em muito pequena quantidade, e sem melhodo, e fácil é conhecer que o fazem só ha pouco tempo e por imitação, depois que alguns d'elles foram a Mossamedes; pastam grandes manadas de gado vaccum, cujo leite lhes serve de alimento, e é difíicilimo decidi-los a vender alguma cabeça do dito gado, desculpando-se que não é seu, que elles somente são pastores de outro povo que habita no interior a quinze dias de viagem, e sobre as margens de um grande rio, de que este que tem o nome d'elles (o Kroque) é o braço. 1 As famílias d'este mesmo povo que habitam nas praias do mar, vivem em não interrompida ociosidade, nada plantam, não têem habitações de qualidade alguma, abrigam-se em covas abertas no declive de alguma duna de areia, e do lado opposlo ao vento sudoeste que é alli dominante, nutrem-se com raizes e sementes de capim, que pizam entre duas pedras, e aquecem ao fogo com agua era conchas; tambem comem casca de ramos de arbustos, aquecendo-os em brasas; não usam de sal na comida, ao passo que bebem sem repugnância agua salobra das praias. Alguns (poucos) pescam, para o que servem-se de bimba (tres páus unidos de uma qualidade de madeira muito leve); o pescador sentado na tal bimba com as pernas estendidas pelo comprimento dela, tem no collo a linha com o anzol já iscado, e nas mãos uma vara comprida que lhe serve já de maromba para se equilibrar, já de remos para navegar; chegando ao largo atira com a linha ao mar, tendo-a presa á perna, e logo que sente peixe, rema para terra, na praia puxa a linha, accende o lume aquece o peixe e come-o com escama e espinha sem deixar cousa alguma; feito isto vae passear o resto do dia.

1 Muitas informações dos ditos indígenas me confirmam na idea de que o rio grande, cujo braço dizem elles ser o Kroque, não é outro senão o rio Cunene, que o Governador de Mossamedes e mais pessoas com elle exploraram em 1851, e que tem a foz ao sul da grande Bahia dos peixes.
2 Alguns d'estes pretos costumam ir a Mossamedes para apanharem as cabeças de peixe que os pescadores deixam nas praias; ultimamente já se tinham prestado ao serviço dos moradores, a troco de farinha, algum bocado de fazenda e missanga; é alli que arranjam linhas e anzoes para pescarem.

3 Trazem sempre dois bocados de pau; esfregando um ao outro fazem fogo.

Cada homem tem uma mulher com quem vive; não lêem idéa de religião, e não seguem culto algum qualquer que seja; cobrem-se com couros de boi, de raposa ou de antílope, e só depois da minha ida para alli, começaram a usar de alguns pannos de fazenda, que lhes dava em troco dos serviços que com boa vontade prestavam, como carregar caniço, capim, barro e pedra. Ultimamente induzi-os a apanhar a urzella, e mandei a Loanda 12 arrobas como amostra, que foi alli reconhecida de superior qualidade. Esta gente não conhece o uso da pólvora nem armas de fogo; trazem flechas e zagaias para caçarem raposas, antílopes ou aves; só alguns d'elles que já têem estado em Mossamedes, conhecem a aguardente; os mais não lhe sabem o gosto nem o resultado, e quando provavam alguma, que eu lhes dava, mostravam visível repugnância a esta bebida, sendo que as mulheres nunca ousaram toca-la com os beiços. Respeitei n'elles esta inclinação á temperança, e guardei de lhes insinuar um vicio que por agora não tinham. A tres dias de marcha subindo o rio Coroca ha uma povoação numerosa destes indígenas, cujo chefe se chama Kuriquila. É n'um terreno plano nas faldas dos rochedos, próximo de uma lagoa que alli se forma pelas enchentes do rio, e depois cristallisa-se em sal; este sal é bellíssimo. lia pouco tempo o negociante de Mossamedes Paiva estabeleceu relações com este chefe, e por intervenção d'elle tem mandado fazendas para os IIinibas 1 que as trocam por marfim. Uma milha acima d'essa povoação já o rio Coroca corre, e tem uma braça de fundo, por seis de largo.

O clima d'este paiz é talvez o mais sadio da Africa Occidental. Durante onze mezes que alli estive, apesar de que nos primeiros seis soffremos muitos incommodos, como falta de habitações convenientes, e trabalhos com estas, que se estavam fazendo, e frio excessivo, nenhum de nós soffreu enfermidade alguma. O paiz abunda em aves aquáticas, patos de varias qualidades, garças, pelicanos, cegonhas, abutres, etc. Na enseada Porto Alexandre costumam entrar toninhas em tanta quantidade, que muitas vezes atiram consigo á areia onde ficam encalhadas e são devoradas pelas aves. Nunca ouvi dizer que alli próximo houvesse leão, tigre ou 1 Afirmam os Corocas que no território dos Himbas, ha minas de cobre... O Capitão Liger, da baleeira franceza Phoque, que fundeou alli em S de Maio de 1855 vindo do Cabo da Boa Esperança, mostrou-me um mineral de cobre vermelho, dizendo-me que os Missionários hollandezes da bahia Yelvitz-bay o iam buscar ás terras dos Himbas, povo que habita as margens de um grande rio, etc., etc. qualquer outro animal feroz; o que se encontra a algumas léguas de distancia são os elephantes; da povoação acima do Kuriquila veem-se em todas as partes pegadas e estrume d'elles, e mesmo muitas vezes se encontram os próprios animaes pastando ou procurando agua no rio. Á excepção do gado vaccum, em parte alguma se encontram vestígios de animaes ou aves domesticas; os Corocas nada d'isso conhecem, a não serem alguns que já tenham ido a Mossamedes.  Resta-me dizer que no Cabo Negro ainda existe o padrão que alli foi collocado por Diogo Cam; fui vè-lo e mandei a descripção d'elle ao Governador Geral da Província, que a mandou reproduzir no Boletim Official n.° 629 de 17 de Outubro de 1857.

Quando em Agosto de 1855 o Governador Geral da Província se dignou dar por acabada a minha commissão, deixei alli prompto o quartel militar com muitas e boas acommodações, horta plantada de batata, cará, mandioca, bananeiras, c muitas hortaliças, e os indígenas dos contornos, nas melhores disposições de se relacionarem comnosco. As expedições de maior importância tém desviado o Governo de ocupar-se d'este novo estabelecimento; mas talvez venha um dia, em que a salubridade do clima convide a irem para alli algumas pessoas, a quem bastará a pesca para não perderem o seu tempo, até que relações mais intimas com os povos do interior proporcionem mais avultadas vantagens. Sobre o padrão a que a precedente noticia se refere, lé-se no Boletim Official do Governo de Angola, de 17 de Outubro de 1857, o seguinte:

«Em 1485, reinando D. João II em Portugal, Diogo Cam, cavalleiro da Casa d'EI-Rei, descobriu o rio Zaire, e levantou na foz delle, do lado do sul um padrão, que denominou de S. Jorge. Foi d aqui que veio o nome de Ponta do Padrão áquella localidade, que ainda o conserva. A vandalica façanha da destruição do dito padrão foi praticada pelos hollandezes, durante a sua ephemera usurpação d'estas conquistas de 1641 a 1648.

«No seguinte anno de 1486, voltou de Portugal Diogo Cam, e proseguindo na sua navegação para o sul, descobriu toda a costa até Cabo Negro, plantando dois novos padrões, um n'aquelle cabo, e outro mais ao norte, fronteiro ao Ilheo de Pina, na bahia de Santa Maria, ao sul de Benguella.
«Eram estes monumentos, como os descreve João de Barros: «Padrões de pedra de altura de dois estados d'homem, com o escudo das Armas Reaes deste Reino, e nas costas delle um letreiro em Latim, e outro em Portuguez, os quaes diziam, que Rey mandara descubrir aquella terra, e em que tempo, e por que capitão fôra aquelle padrão alli posto, e em cima no topo uma cruz de pedra embutida com chumbo. «O padrão de Cabo Negro ainda lá existe. Pela seguinte descripção que d'elle deu o Tenente Coronel graduado d'esla Província, Marcellino Antonio Norberto Rudzki, quando esteve commandando o presidio próximo de Porto de Pinda, em 1855, se verá quanto concorda com a de João de Barros, acima citada, salvas as differenças que devem de ser attribuidas á acção do tempo, em perto de tres séculos.

«Quando cheguei a esta terra fiquei logo desejoso de ver o padrão de Cabo-Negro, collocado alli por Bartholomeu Dias, em tempos mais ditosos. Os muitos objectos a meu cargo não me permittiram faze-lo até agora, porém em 27 do mez próximo lindo alli fui. Saí do presidio ás seis horas da manhã, e apesar de ir montado em boi-cavallo de boa marcha, andando sempre a passo largo, cheguei ao cabo ás nove horas e meia, o que me faz crer que a distancia é de tres léguas para mais. «O Cabo-Ncgro é a ponta mais saida ao mar, da cordilheira de rochedos que corre do nordeste ao sudoeste, descrevendo um arco, junto do qual, pelo lado do sul, passa o rio Kroque. Estes rochedos foram, na sua origem, elevadas dunas de areia, as quaes, por ajuntamento de outras matérias, se petrificaram, organisando-se em diversas camadas de massa compacta e dura, e de seixos mui variados em cor, tamanho e configuração, e também em penedos de pedra esponjosa e frágil. Estes últimos, amontoados uns sobre os outros em caprichosa desordem, e cobertos com uma casca escura e áspera, saem ao mar em fórma de lingueta com tres a quatro braças apenas de largura, constituindo o Cabo-Negro. No cimo o chão é de areia, com pedras soltas, e na extremidade sobre o mar, aonde forma um pequeno taboleiro plano, é aonde está collocado o padrão da antiga gloria nacional dos portuguezes.

«Se bem me recordo da historia, os padrões1 Da aqui equivoco, o padrão de Cabo Negro, e os dois do Zaire e da bahia dc Sanla Maria, foram postos por Diogo Cam, como jà o dissemos; Bartholomeu Dias, que continuou as explorações de Diogo Cam, até descobrir o Cabo da Boa Esperança em 1487, collocou o padrão do Santiago na Angra dos llhéos, áquem do dito cabo, aondo parece que ainda existe que Barlholomeu Dias plantou eram de ferro ': n'este caso, o que aqui se acha não é já primitivo. Este é de mármore branco venoso, c levanta do chão, sem pedestal, entre algumas pedras soltas: tem a fórma cylindrica, com cinco pés de altura fóra da terra, e trinta c duas pollegadas de circumferencia. Este pilar termina reclangularmente no topo, tendo dezoito pollegadas em cada lado da face, e oito de espessura, no parallelipipedo de que se trata. Tudo é de uma só peça inteiriça. Conhece-se que teve inscripções gravadas, mas estão de tal modo deterioradas, que se não pódem distinguir as letras. Do centro da pedra superior ergue-se uma cruz de quarenta pollegadas dc alto, havendo vinte e oito pollegadas dope da cruz aos braços, e doze por cima. Cada braço leni tambem este ultimo comprimento. A cruz é de barra de ferro, obra bastante tosca, sendo unidas as suas duas partes por um prego rebatido. Uma placa redonda de cobre forma resplendor no cruzamento dos braços. A barra tem duas pollegadas de largura, e unia de grossura, achando-se já mui carcomida da ferrugem. No braço horisontal da cruz, olhando para o mar, está o seguinte letreiro, em letras recortadas em cobre e soldadas á harra de ferro,=MERCURE— 27 J.er 18í8=» a
«Tenho a honra de apresentar a V. Ex." o desenho d'este monumento, como elle agora se mostra aos olhos do viajante; do que teria acanhamento se não estivesse certo que V. Ex. o receberá com indulgência, considerando a minha inhabilidade n'esta sorte de trabalho.»
Porto-Pinda, 18 de Março de 1855.=.V. A. JV, Rudzki, Major Commandante.



terça-feira, 14 de agosto de 2007

Colonos chegados a Mossãmedes (Moçâmedes - Namibe) na Barca «D. Ana» : 1860


Francisco Ferreira Nunes (vulgo Nunes Manjor)

Chegou a Moçâmedes vindo de Olhão em 1863 no Caíque «Flor de Maio» de que era societário.

António Fernandes Peixe

António Fernandes Peixe
Pioneiro da colonização de Porto Alexandre.

Francisco de Sousa Ganho (pai)

Francisco de Sousa Ganho (pai)
Pioneiro da colonização de Porto Alexandre. Partiu para Moçâmedes na Barca D. Ana, em 1860. Nasceu em Olhão em 1930.  Era filho de Francisco de Sousa Ganho e de Teresa de Jesus Ganho. Faleceu em Moçâmedes em 1895). Reprodução de uma fotografia amavelmente cedida pelo neto do fotografado, Dr. Tolentino de Sousa Ganho (in Boletim Geral do Ultramar . XXVII - Nº 322 - Vol. XXVII, 1952, pg.40)



Francisco de Sousa Ganho Júnior

Francisco de Sousa Ganho Júnior
Pioneiro da colonização de Porto Alexandre.  Conhecido por Francisco de Sousa Ganho filho, nasceu em Lisboa na Freguesia de Santa Isabel, a 11 de Novembro de 1850. Foi componente do primeiro grupo de colonos que, em 1860, partiu para Moçâmedes,vindo de Olhão ainda criança, a bordo da Barca «D. Ana». na companhia de seu pai , tinha então 9 anos de idade. Faleceu em Moçâmedes.
(Reprodução de uma fotografia amavelmente cedida pelo neto do fotografado, Dr. Tolentino de Sousa Ganho (in Boletim Geral do Ultramar . XXVII - Nº 322 - Vol. XXVII, 1952, pg.44)


A Barca "Dona Ana" fazia parte da Empresa Luzitana, era comandada por José Guerreiro de Mendonça e pilotada por José Guerreiro Nuno, ambos naturais de Olhão.

Para além de Francisco de Sousa Ganho e de Francisco de Sousa Ganho Junior, viajaram na mesma data na Barca "Dona Ana", António de Sousa Ganho, irmão do primeiro,  António Fernandes Peixe e esposa Maria Catharina Peixe, e ainda Lourenço Fernandes Peixe e José Carne Viva.

Todas estas  informações constam do livro de Athaíde de Abreu. Monigrafia do Concelho de Olhão e no estudo de Alfredo Felner, apontamentos sobre a colonização dos planaltos do Sul de Angola-, além de outras informações prestadas pelo autor da obra , tais como a carta do Dr Tolentino de Sousa Ganho, neto de Francisco de Sousa Ganho,

Com  a vinda de Olhão de pescadores na Barca D. Ana, iniciou-se uma verdadeira revolução na actividade piscatória. Os algarvios substituem os indígenas que prestam serviço nas dezasseis pseudo-pescarias dos pernambucanos, e com o sucesso desta experiência, criaram-se as condições para o estabelecimento de uma relevante corrente migratória de algarvios para o sul de Angola, a qual revigorou a colónia e consolidou a industria piscatória.

É a experiência deste punhado de pioneiros que, a expensas suas, que tudo fizeram: aquisição de barcos, pagamento de passagens para a viagem, casas, utensílios para a pesca, etc etc. E, sem delegação de quem quer que fosse, eles acabaram instrumentalizados, ao constituíram-nos como garantes da soberania de Portugal nas áreas mais inóspitas do Pinda à Baía dos Tigres, numa altura em que não tardaria potencias europeias industrializadas encetassem a "Partilha de África". Mas também é preciso que se diga que a sua presença, e a de outros mais foi imprescindível para que a faixa do território a sul de Benguela. amplamente cobiçada pelos alemães, ficasse para sempre a integrar o território angolano.



Ver também:

http://www.myheritage.com.pt/photo-1000010_1_47578921/sousa-ganho








Ambos íam para Moçâmedes na sua canoa de pesca mas conseguiram entrar na barca D. Ana



    "Começaram por viver quase como os indígenas, em toscas cabanas de pau a pique com varas de mangue e cobertas de capim. Foi nessas primitivas cubatas onde a princípio viveram, numa incómoda promiscuidade de homens, mulheres e crianças." "A alimentação destes primeiros colonos era deficiente e cem por cento de peixe, temperado quase sempre pelo óleo de palma, e comendo o pão de mandioca do serviçal negro." "Por isso é que mais tarde, quando de Moçâmedes caciques começaram a levar para o Sul, diziam eles com certo orgulho e justificada vaidade aos que para lá foram estabelecer-se depois: Ai!... Vocês já vieram no tempo do pão fresco!" (47)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Maria da Cruz Rolão, regedora de Porto-Alexandre






Com o escultor Fernando Marques, que foi igualmente o autot dos dos altos relevos que circundam as galerias de Cine Inacabado de Moçâmedes




Estátua de Maria da Cruz Rolão, (1) colocada à entrada de Porto Alexandre (actual Tombwa), nos inícios da década de 70, poucos anos antes da independência de Angola. Acabaria por ser demolida nesses tempos de nacionalismo exacerbado que se seguiram ao processo agitado de descolonização e à independência do território.

Os africanos,  por motivos que plenamente compreendemos, e dada a  incapacidade  de distinguir entre bons e maus colonos, entre colonos e colonialistas, de separar o colono trabalhador do ambicioso colonialista, nunca perdoaram a colonização. E o radicalismo das posições em nada ajuda a compreender a verdade histórica de um povo que,  ao arrepio da desconfiança nutrida em relação a teses de fácil aproveitamento, mas não menos reais, como a do "lusotropcalismo" de Gilberto Freyre,  não possuía nem possui características racistas de outros povos, já  que facilmente se miscigenou, fosse com índios, no Brasil, fosse com negros em África, formando uma população trí-híbrida.  Outro facto é que os portugueses quando partiram para a diáspora já carregavam consigo séculos de integração genética e cultural de povos europeus, como os celtas e os lusitanos, para além dos 7 séculos de convivência com mouros do norte de África e com judeus, relacionamento que deixou um importante legado a este povo.  Lá virá um dia em que haverá a capacidade de interpretar a História, com o necessário distanciamento, e se há de  ultrapassar preconceitos de má memória e de maus resultados, que apenas servem e continuam a servir àqueles que pretendem dividir para reinar! E tanto mais numa época em que a ambição dos grandes está no auge, e que já ninguém duvida que a maldade e a ambição do homem não têm côr nem tem Pátria!

Esta mulher,
Maria da Cruz Rolão, era afinal uma mulher do povo que, pela sua energia, e por saber ler e escrever numa época em que a maioria do povo português era analfabeto, foi por consenso tácito do reduzido núcleo populacional de Porto Alexandre, eleita a sua Regedora.

Um facto ninguém jamais poderá negar, é que os destemidos algarvios deram, também eles, com a sua presença nas terras áridas e desérticas do sul de Angola, o seu contributo para que o território angolano se mantivesse íntegro, nos momentos cruciais que se seguiram à Conferência de Berlim, (1885-6), quando a imposição das potências estrangeiras era a ocupação, antes que o mesmo fosse cindido em proveito de outras potências interesseiras e interessadas, com era o caso da Alemanha que pretendia a anexação  pelo Sudoeste Africano (Namibia), da faixa territorial a sul de Benguela.

Esta estátua, sobre a qual se desconhece o destino, foi executada em cimento na cidade de Sá-da-Bandeira, pelo escultor Fernando Marques. Era composta por duas ou três peças e foi em seguida pintada na cor bronze. 


Maria da Cruz Rolão, a heróica Regedora de Porto Alexandre, nasceu em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21 de Setembro de 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro. Era filha de Domingos Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (conf. Câmara Municipal de Moçâmedes, Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883 a 1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito de seu filho, José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes, em 1 de Dezembro de 1905, motivado por tuberculose pulmonar, no estado de casado com 53 anos de idade - nascido em Olhão em 1852, registou-se a filiação: filho de Maria da Cruz Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 do Registo de Obitos 1898-1911) . Outro Registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os Sacramentos. Indica a sua profissão: Maritimo. O seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão. Confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó, maritimo, e de Maria da Cruz Rolão, natural e Olhão e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz, não dez testamento, deixou seis filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião, de Moçâmedes, Registo de Obitos de 1905).  Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão, verificado em Moçâmedes, a 06 de Julho de 1902 com a indicação da idade: 70 anos, e do estado civil: casado, apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (Câmara Municipal de Moçâmedes Livro 52? Registo óbito 1898-1911. Há outros registos que referem dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz.

Seguem algumas passagens que melhor nos podem esclarecer o perfil da Regedora Maria da Cruz Rolão:

Maria da Cruz Rolão


...A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.


”...Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.


“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.


“...Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”

Delgado, Ralph (2) vol. II pp. 60/61



“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.


“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.


“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”


Moreira (1) pp. 20/21


Eis um texto bastante elucidativo sobre a diáspora algarvia em terras do sul de Angola:


O TESTEMUNHO DE MR. GRUVEL

As armações à valenciana foram surgindo no distrito de Moçâmedes em grande número: na Lucira, no Mocuio, em Porto Alexandre, na Baía das Pipas, no Baba, etc., e até mais do que uma em cada uma dessas praias, e com elas o aumento da produção do pescado e do peixe seco que era comercializado nos portos de Angola, Congo Francês, Gabão e S. Tomé, levados pelos caíques olhanenses. O desenvolvimento tornou-se imparável e suscitou a admiração de portugueses e estrangeiros pela obra que se estava a realizar naquela zona de África.
Mr. Gruvel era um oficial da marinha francesa, que encarregado pelo seu governo de fazer um inquérito às pescarias da costa Ocidental de África em 1909 referiu-se a Angola, nestes termos:
"Não podemos deixar Angola sem falarmos da impressão extraordinária que nos deixaram dois dos principais centros de pesca: Porto Alexandre e Baía dos dos Tigres.
O que poderá ser a vida sedentária dum europeu numa região formada de areia pura, sem um traço de vegetação, estendendo-se tão longe quanto a vista pode alcançar? Um vento violento que sopra muitas vezes em verdadeiras tempestades, levanta quase todo o dia nuvens duma areia fina que penetra por toda a parte; bebe-se, come-se e ...sufoca-se!
É neste país de desolação, ao pé do qual Port-Etienne parece um verdadeiro paraíso, que vivem isolados do resto do mundo, bebendo água que vai de Moçâmedes, cerca de trezentos brancos em Porto Alexandre e cem na Baía dos Tigres."
"Não temos maneira de felicitar todos os portugueses que habitam este deserto, pela admirável coragem de que dão prova, vivendo assim nessas regiões de desolação".
A terminar:" Quando se vêm os milagres de energia que os portugueses têm tido que dispender para criar esta magnífica indústria de pesca em semelhantes regiões, pensa-se que temos de desesperar do nome francês se não conseguirmos fazer tão bem ou melhor que eles ...não apresentando nada de comparável ao que existe em Porto Alexandre e sobretudo na Baía dos Tigres."
Por portaria editada no Diário de Governo de 27 de Junho de 1925 o governo português louva o esforço colonizador no distrito de Moçâmedes, terminando nestes termos:

"Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério das Colónias que seja dado público testemunho do muito apreço em que é tido o valioso trabalho realizado por estes colonos, que tanto honram a Pátria e por esse motivo sejam louvadas as populações de Moçâmedes e Porto Alexandre por serem os principais núcleos desta colonização.


Paços do Governo da República 27 de Junho de 1925"



Vai um texto que encontrei na Net:

Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher 
O episódio, com sabor naval, que nos propomos divulgar teve por cenário o que é hoje um dos mais importantes  centros piscatórios do espaço português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade, realidade bem visível de quanto vale o esforço e a tenacidade da raça lusíada. Trata-se de Porto Alexandre que, para além da simples menção de ter sido cenário da nossa história, bem merece mais algumas palavras. Ao percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia. Foi Diogo Cão quem dela deu notícias pela primeira vez, em 1485, designando-a por Angra das Aldeias, e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos navegantes portugueses em demanda de novas descobertas. Em flagrante contraste com a excelênciada baía e quietude hospitaleira das suas águas, surgia aos olhos dos nossos navegadores uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água, onde qualquer idéia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo que decorreram 3 séculos desde que Diogo Cão descobriu a velha Angra das Aldeias até ao início da ocupação efectiva das terras desertas do sul de Angola; porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades foram vencidas, mercê da persistência e tenacidade tão características do povo português.
Foi em 1860 que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola, grupos de decididos, tenazes e abnegados algarvios iniciaram a ocupação efectiva daquele rincão de Portugal e, em gesta que, sem exagero, podemos apelidar de heroica, venceram a dureza e a desolação do terreno, souberam dominar a fome, a sede e o isolamento e suportaram estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.
Nasceram rudimentares habitações, os ventos e areias foram sendo dominados. Rodaram os tempos e com estes se foi acentuando a vitória do homem sobre o deserto, em obra notável de que se destaca uma extensa cortina verde, iniciada há 37 anos e que conta actualmente com cerca de 300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o futuro e cresceu. Cresceu em extensão e formosura e surge hoje aos nossos olhos como uma linda cidade dotada de todos os requisitos modernos, verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade, obra transcendente iniciada por portugueses de «antes quebrar que torcer», continuada por sucessivas gerações de igual têmpera que ainda hoje se mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade inquebrantável. Mas, feito este pequeno apanhado da história de Porto Alexandre, modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores, voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem receio de grande erro, situar no período 1865-1870. 
Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios, utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela, de  pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4 metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a fanúlia CRUZ ROLÃO, donde sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. MARIA DA CRUZ ROLÃO era possuidora duma energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão unânime, a elegerem sua pri-  meira autoridade civil, nela depositando uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava, patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA CRUZ ROLÃO mais uma vez se envidenciou impondo a saída das nossas águas territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que estava em  águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande falta de cortezia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade  e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito. Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe uma estátua.

AUTOR DESCONHECIDO


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Segue um texto por  Alberto Iria :  DESCENDENTES DA REGEDORA


«Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lourdino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara». Fim de citação.


De Claudio Frota, vai este testemunho:

"...chamava-se "Harmonia", nome do caíque que pertencera à família Tendinha, de origem olhanense, nas primeiras décadas do séc. XX. Em 1976 agravou-se a guerra civil que assolava todo o território de Angola, com a sequente fuga da população. A população portuguesa ou de origem portuguesa que ainda permanecia preparou-se para abandonar o território. Urgia por a salvo o que restava de pessoas e bens.  O "Harmonia" juntou-se a outras traineiras para rumarem ao porto da Namíbia Walwis Bay. Deste porto houve quem rumasse ao Brasil fazendo-se transportar nos seus barcos de pesca. Dezenas de traineiras e alguns pequenos atuneiros partiram com destino à cidade de Portimão, no Algarve. A meio do percurso juntou-se-lhes o "S. Gabriel", barco de carga da Marinha de Guerra Portuguesa,  com combustível e mantimentos. Três dessas traineiras não chegaram ao destino, começaram a meter água e foram abandonadas e afundadas. Duas chegaram a reboque com os motores avariados. No Funchal, Ilha da Madeira, ficaram alguns atuneiros. No Algarve, "O Harmonia" mudou de nome, puseram-lhe "Miragem" porque havia outro barco de pesca com aquele nome; pescou na costa do Algarve e nos mares de Marrocos. As políticas europeias levaram-no ao abate quando prestava serviço nas pescas e se encontrava completamente restaurado pronto a novos desafios, acabando os seus dias com o nome de "Iona". Pertenceu sempre à família Tendinha, fixada em Faro e Olhão." Fim de citação.