Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: a primeira ponte de cais

Descarregando munições em Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe), antes da 1ª ponte, em ponte móvel

Colonos desembarcando em Mossâmedes(?), ou outra qualquer ponte na região...  Da capa do livro Slaves, Peasants and Capitalists in Southern Angola 1840-1926 (African Studies)
by W. G. Clarence-Smith (December 3, 2007) 
A ponte de caes de Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe) e piquete da Guarda-Fiscal (de Gustave Eiffel).
  Foto do album de Cunha Moraes. Esta ponte começou a ser construida em 1880 e foi inaugurada em 1881. Custou 26 mil reis


Até 1873 não havia em Moçâmedes um modesto arremedo sequer de ponte de cais.Na baía, apesar da extensão e profundidade do fundeadoro, faziam-se os embarques pessoais aos ombros dos pretos, que, desastrosos, compeliam por vezes os passageiros a tomarem um banho forçado. Já em 1861, o autor anónimo do livro "Quarenta e cinco dias em Angola" aconselhava a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura proximamente das construções regulares e com escadarias para embarque e desembarque de pessoas e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega. Só em 1873 é que se construiu em Moçâmedes a primeira ponte de cais, toda de madeira, acente sobre estacaria, que, pela celeridade da construção, em pouco tempo se arruinou e se inutilizou. Assim nos informa o Governador Costa Cabral no seu relatório, datado de 19 de Junho de 1877, propondo a sua urgente substituição e lamentando que não houvesse no local outros meios de desembarque, ou de carga e descarga, que se faziam, em ocasiões de grande calema, com perigosos riscos pessoais e sensiveis prejuizos para as mercadorias. 
 
***

in Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado,  vol x, 1867, uma referência
que mostra bem a penúria da colonização portuguesa:

"...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal. ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripçao particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripçao  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias."

***

Sobre a primitiva ponte, refere em 1954  Manuel Júlio de Mendonça Torres: "Durou esta ponte, cuja localização os textos nos não indicam, até 1881, ano em que foi inaugurada a actual, no dia 04 de Agosto, pelo Governador Nunes da Mata, assunto de que havemos de tratar num volume, possivelmente intitulado "O Distrito de Moçâmedes, na quadra da produção intensiva da cana". 

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1960 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres in
Boletim do Ultramar
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.



Perspectivas da Ponte de cais antes do acrescento em madeira que veio a  acontecer, por força  do recuo das marés.
Movimento na ponte onde se vê o guindaste. Encostados à ponte um batelão e mais próximo uma chata

Desembarque do Bispo de Angola, D. António. Este conjunto de fotos, embora de finais do século XIX e  de inicios do século XX, já apresentam a ponte de embarque/desembarque definitiva


 Perspectiva da ponte, tendo por fundo uma parte da vila e a praia. Foto  de  finais do século XIX. A ponte foi inaugurada em 1881.

Outra perspectiva da ponte, esta já do início do século XX , onde se pode ver a Estação do Caminho de Ferro e estaleiros, o Observatório Metereológico, o Piquete da Guarda Fiscal, o Colégio das Doroteias, o edificio do Cabo Submarino, as Casuarinas etc.

 

Este postal regista o momento da passagem pelo antigo Piquete da Guarda Fiscal de Mossâmedes, em 1 de Outubro de 1905 do Conselheiro do Governador Geral de Angola, já de regresso a Luanda. No dia 28 de Setembro de 1905 fora inaugurada a Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  ,  assinada a acta, e ptocedeu-se ao assentamento da primeira pedra no cunhal leste da estação pelo  Dr. Ramada Curto. No dia 29 de Setembro de 1905 fora oferecido um copo d'água, no Saco, pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores da cidade. Também no mesmo dia partiu o primeiro comboio de Mossâmedes (Moçâmedes) ao Saco, conduzindo o Conselheiro Governador Geral, o Governador do Distrito, e o Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Luanda e convidados.
 
 O Piquete da guarda-fiscal era um tipo de construção interessante, do século XIX, de traça romântica, que  acabou por desaparecer  com  a  inauguração do cais acostável. Era por ali que se fazia o controle da saida e entrada de mercadorias e pessoas que dos navios, ancorados a meio da baía, acediam à ponte, as mercadoria através de quatro batelões, barcos possantes e sem motor,  que eram por sua vez rebocados por um  pequeno barco a motor, as pessoas em barcos a motor alimentados a gasolina, chamados, por analogia, de «Gasolinas». Eram pequenos barcos, agradáveis à vista,  pintados de branco, que podiam possuir uma cabine totalmente fechada, ou meia fechada, com bancos corridos, e que comportavam cerca de 50 pessoas, sentadas e de pé. 

 

A PONTE (POEMA)
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"
Joaquim Paço D´Arcos

(que viveu em Moçâmedes de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914)
 
CURIOSIDADES

Conta-se que nesses tempos em que não existia cais acostável e os navios fundeavam ao largo, houve necessidade de se descarregar carruagens  destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes e como na época era a firma Duarte d'Almeida, agentes da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que possuia um estaleiro na Torre do Tombo na antiga praia do cano, na  hoje zona marginal, teve de construir algumas barcaças bastante grandes para se fazer a descarga. As barcaças eram encaminhadas para a antiga praia da Capitania que ficava junto a esta ponte onde foram montados carris ficando ali a aguardar a altura própria da maré para que fossem removidas as carruagens para terra firme. Nesta operação bastante difícil e instável trabalharam entre muitos alguns carpinteiros da época, Gilberto, Celestino, Manuel e António Valente, André, etc., gente anónima que merece ser aqui lembrada.

 Na ponte através de um guindaste embarca-se gado bovino. Ao largo, navios, palhabotes, batelões e baleeiras. Transcrevo um texto de Roberto Trindade




TOURADA NA PRAIA
(De Roberto Trindade)

Antes de ter sido construído o cais acostável, a estrada marginal e a linha de caminho de ferro que a acompanhava para transporte das mercadorias, os navios que escalavam Moçâmedes fundeavam ao largo e os passageiros eram transportados para terra e para bordo, por pequenos barcos de passageiros a que chamavam os “gasolinas do Bauleth”, por ser o sr. Bauleth o concessionário de tal transporte.
As mercadorias eram descarregadas para bordo de batelões, que eram rebocados para ancorarem ao largo, aguardando que fossem descarregados na ponte cais, onde trabalhava o sr. Rogério Camusseque, que para lá se deslocava na sua velha e pachorrenta bicicleta, tendo a parte de baixo das calças seguras com duas molas de roupa, para que se não sujassem de óleo na corrente da geringonça ! Também lá trabalhava nos guindates o sr. António Martins, irmão de outro Martins da Escola Industrial, e ainda irmão do João e Roberto Latinhas (...)

(Por alturas do Natal, nadávamos para os batelões para nos abastecermos de castanhas) ! ...
Do mesmo modo procediam quando as mercadorias, não só locais, como de outras zonas do interior, eram exportadas a partir de Moçâmedes.

Ali embarcavam pequenas manadas de gado destinadas ao puto. Os mucubais levavam a manada até à ponte, e o processo de embarque era muito original. Passavam uma cinta pela barriga do animal e este era içado pelo guindaste que o ia colocar a bordo do batelão. (Vejam na foto que junto abaixo, onde se vê um boi pendurado).

Por vezes acontecia escorregar um bicho que dava um monumental mergulho e acabava por nadar para terra e ir esbaforido para a Praia das Miragens, causando o pânico entre os banhistas que ali disfrutavam e se bronzeavam.

Certo dia em que aconteceu o mesmo, o desgraçado do boi corria de um lado para o outro, assustado e assustando cada vez mais os banhistas que tentavam correr mais que o boi e ainda assustavam mais o bichinho.

Foi nessa altura que se revelou o grande talento do nosso saudoso amigo António Carvalho Minas (Tonito Minas, como era conhecido) para a arte de bem tourear. O Tonito agarrou numa toalha de banho e vai de enfrentar a fera !...

Imaginem a cena : O boi assustado e o Tonito gritando : Hé, touro !
Fez uma faena e tanto, de tal forma que, em Moçâmedes, durante um tempo foi tema de conversa e foi merecida a ovação que todos lhe prestaram."


Ela ainda existe, velhinha e desmobilizada, testemunho silencioso de um tempo que não volta mais, desmobilizada que fora  após a inauguração, em 24.05.1957, do 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.


domingo, 29 de janeiro de 2012

A acção missionária da Congregação de S. Joseph de Cluny instalada em Mossamedes ( Moçâmedes, Namibe, Angola) em 1885



Créditos: Postais de DelCampe


Em Janeiro de 1883, aportaram a Landana, as primeiras religiosas das irmãs da Congregação das Irmãs de S. José de Cluny. Foi o princípio de uma presença continuada de 125 anos de uma Congregação, iniciada em França, mais propriamente em 11 de Novembro de 1789, na esteira da vitória dos republicanos e jacobinos na revolução francesa.

A história da fundação desta Ordem, tem origem precisamente num episódio, relacionado com uma pretensa perseguição a membros do clero por parte dos republicanos franceses, o que leva a que a bretã Ana Maria Javouey, tenha feito voto para se dedicar ao missionarismo, tendo sido a sua primeira Madre Superiora.

Segundo o professor Martins dos Santos no seu excelente trabalho “Cultura, Educação e Ensino em Angola” diz a páginas tantas “No dia 15 de Maio de 1885, embarcaram em Lisboa, com destino a Angola, a bordo do vapor África, três religiosas de S. José de Cluny, que nos aparecem no documentos da época sob a designação de Irmãs Educadoras, por se dedicarem especialmente à obra educativa e às actividades escolares. Destinavam-se às colónias do planalto sul. O governador do distrito de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata, empregou toda a sua influência para as reter na cidade, demovendo-as de se transferirem para o interior. Conseguiu os seus intentos e as religiosas estabeleceram-se ali, abrindo pouco depois a sua primeira escola. Segundo certas indicações que conseguimos obter, foi no dia 8 de Julho desse ano de 1885 que se fixaram em Moçâmedes. Foi a primeira povoação angolana a aproveitar-se da meritória acção das Irmãs Educadoras, se exceptuarmos a missão de Lândana, onde se estabeleceram em 1883, portanto dois anos mais cedo.”

Ainda se podia ler mais: “ No decorrer de 1897, chegaram a Angola algumas religiosas de S. José de Cluny, que se destinavam a Moçâmedes. O governador-geral António Duarte Ramada Curto, com o apoio de outros elementos de influência na cidade, instou com elas para se fixarem em Luanda. Desejava que abrissem uma escola, o que efectivamente fizeram; começou a funcionar no dia 1 de Dezembro desse ano, na Rua da Misericórdia.”


“Ainda a propósito dos referidos exames, o governador-geral Ramada Curto louvou, por portaria de 16 de Maio de 1900, as Irmãs Educadoras, nos termos seguintes: "Tendo eu confiado, em Dezembro de 1897, às Irmãs Educadoras, da Congregação de S. José de Cluny, a regência da cadeira de ensino primário, do sexo feminino, da cidade de Luanda, fechada por falta de alunas, e tendo presenciado o aumento sempre crescente do número de crianças matriculadas, vistas as informações prestadas com respeito à competência das professoras e aproveitamento das alunas, hei por conveniente louvar as Irmãs Educadoras, da referida congregação, que têm regido a escola, e em especial a superiora, Ir. Antónia Maria George, pelo zelo, competência e inteligência que têm demonstrado na regência da escola que lhes confiei". As Irmãs Educadoras agrupavam os seus alunos em cinco classes, conforme o seu adiantamento escolar. Por curiosidade, inserimos aqui o esquema do estudo ministrado: —Leitura, escrita e rudimentos de doutrina cristã; —Prática de ler, escrever e contar, e doutrina cristã; —Ler, escrever e contar, doutrina cristã e trabalhos manuais; —Gramática portuguesa, tabuada, aritmética, doutrina cristã e trabalhos manuais.”
Esta foi de uma forma sintética a relação das “madres” com a educação em Angola até à assinatura da Concordata de 10 de Julho de 1940, entre Portugal e a Santa Sé, onde se anexava o Acordo Missionário, que deu à Igreja Católica todas as facilidades e mordomias várias no ensino nas colónias, em detrimento de muitas outras confissões religiosas que ao tempo já trabalhavam na colónia, com algum empenho, tendo algumas sido perseguidas e os seus pastores e missionários presos ou expulsos dos territórios.

No fim dos anos 40, tendo em conta a exiguidade das instalações na Misericórdia, e com grande empenhamento do Monsenhor Alves da Cunha (aproveito para lembrar que parte das letras da peanha da sua estátua caíram, pelo que não seria mau que fossem lá colocadas de novo), foi-lhes dado um terreno na Rua do Kafako, que é nem mais nem menos que o nome muito antigo da rua que desemboca na Rua da Missão.

Ali se construiu um edifício de gosto revivalista-classizante, exemplar de “Arquitectura do Estado Novo”, vulgarmente conhecida pelo gosto “Português Suave”, que dada a sua volumetria, os seus portais, arcadas, frontões, torreões e pináculos é um edifício marcadamente matizado na paisagem urbana.

Desde 1953 até 1975, no colégio de S. José de Cluny em Luanda leccionou-se a raparigas desde a instrução primária até ao 5º ano do liceu, como era costume dizer-se ao tempo, em regime de externato, havendo também algumas alunas internas.

Esse edifício, que foi a seguir à Independência do País o Instituto Pré-Universitário de Luanda, foi entregue à Igreja Católica, aquando dos acordos entre o governo e o Papa Woityla, na sua passagem por Luanda no início dos anos 90.

Desse acordo, surgiu a possibilidade da instalação da Universidade Católica no edifício que sofreu para o efeito inúmeras obras de reparação e beneficiação.

No Huambo também foi criado no fim dos anos 50 um colégio com as características do de Luanda, também orientado pelas” irmãs de Cluny”, que para além destes colégios mais emblemáticos, tinham outros espalhados pelo território de Angola, como por exemplo em Cabinda, Namibe e Malange.
Muitas alunas passaram pelos colégios e internatos da “Congregação das Irmãs de S. José de Cluny”, o que não deixa de ser relevante em trabalhos futuros que se façam sobre o ensino em Angola, pois a sua presença durante 125 anos, perpetuou uma obra que merece cuidado respeito.

Fernando Pereira
7/05/07
Do site Recordações da Casa Amarela

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

 
 
 


 LIVRO
 by F.A.Pinto, juiz de Direito
1888 
 
 
 
 
 
(...)
 
Demos agora logar ao destronado rei dos animaes. 

II 

Leao 

Este animai, dentro dos territorios de que trato, parece habitar so do Quanza para
o Sul. Pelo menos so excepcionalmente terà sido encontrado ao norte deste rio. 
Lembro-me apenas de uma vez me terem dito, que apparecéra na regiao do Dondo ou
Gazengo um grande biche, que foi visto so por pretos, e que segundo elles 
informavam era o leao, porque tinha cara de gente. 

Na regiào do Gongo, ao sul do Zaire, nào tenho conhecimento da sua existencia ;
e do lado do norte d'este rio afirmaram-me que nao apparece. A regiao pois, que
posso designar para o seu habitat, é a dos districtos de Benguella e Mossamedes,
onde elle apparece frequentemente, e faz o iheatro das suas proezas. 

N'esta regiao chamam-lhe os indigenas curica; e nas lingoas do lado do norte do 
Quanza chama-se hoje. 

Os habitantes de Benguella e Mossamedes e os viajantes, que por ali passam, nem se
lembram de que podem encentrar o leao, a maior parte das vezes. Eu nunca os vi,
nem ouvi rugir, se bem que uma vez passei muito perto d'um. 

Um proprietario da Biballa, que veio a Gapangombe, quando eu ali estava, depois de
se ter demorado quasi todo o dia, e a proposito de nào sei que historia, é que se
lembrou de me dizer, que linha encontrado um leào no caminho da Assumpcao, por onde
eu linha passado pouco tempo antes d'elle, de madrugada. O homem tomou o partido que,
segundo é sabido, deve tomar-se em taes circumstancias ; parou, e fitou o animal,
que a principio indignado ou admirado terminou por mostrar receio e retirar-se, em 
attitude similhante a dos galos, que se affastam d'uma pendencia, sem terem jogado 
a unbada. 

N'estas circumstancias seria lemeridade atirar a fera. So um atirador de primeira 
ordem, comò Serpa Finto, que contasse com toda a sua presenta de espirito e com a 
força e rapidez dos seus tiros, poderia sem perigo prostrar o animal, feriodo-o no
coração ou no cerebro. Se porém o ferisse, deixando-lhe ainda o uso dos sentidos e 
a faculdade de saltar, poderia considerar-se perdido, a nào ser que Ihe acudissem, 
como fizeram a Livingston os seus companheiros. 

E' certo, porém, que o leao a maior parte das vezes é inoffensivo para o homem : 
nao quer luclar com elle, cantenta-se com outras prezas mais modestas. 

Em Capangombe e Mossamedes, em geral, alimenla-se de zebras : é o pastor d aquellas
manadas; e busca, para fazer a preza, o momento em que os animaes vào beber, saltando
traiçoeiramente sobre uma cria, e ficando a devoral-a, em quanto a récua foge 
espavorida. 

Quando este alimento Ihe falta, o animai procura outro, é claro ; e algumas vezes 
compellido pela fome chega a fazer victimas humanas. N'estas circumstancias é
terrivel, porque, quebrado o encanto que o mantinha temeroso diante do homem, 
parece pouco resolvido a alimentar-se de outra especie de carne. No caminho de 
Benguella para a Catumbella, e no silio denominado Gavaco, andou muilas semanas um
leào, que de quando em quando saltava sobre um viandante, e levava-o na bocca para
o devorar na espessura do mato ; e ha jà uns poucos de annos, que um leào em 
Capangombe devorou em noiles quasi successivas as sentinellas da forlaleza, 
naturalmente porque as enconlrava adormecidas. 

Em ambos esles casos intervieram os moradores a conjurar a calamidade, e conseguiram
matar os ferozes carniceiros. 

Um outro caso demonstra ainda, que o leào deixou uma vez de se sentir embaragado pelo
respeito ao homem. 

Dr. Aguiar de Mossamedes ia para Capangombe, montado n'um boi cavallo, e acompanhado
sómenle pelo seu criado particular. Jà ia perle da Fedra Grande, quando viu a saltar 
sobre si um leào, que o desmontou com o choque, e flcoa com as prezas e as garras 
cravadas sobre as ancas do pobre boi. Dr. Aguiar, logo que póde levantar-se, fugiu a
pé ; e o criado preto puxoo ainda pelas redias ao boi, e ralhou com o leao que queria
comer o boi do senhori, sem se importar com rugir ameagador da fera, deixando-lhe a 
proeza, quando està caia prostrada, e lembrando-se so enlao de fugir tambem! 

Estes casos, pórém, sao excepcionaes e muito raros. Os leões, ainda mesmo famintos
espeitam o homem, ou so atacam depois de provocados e feridos. 

Na fazenda de Seraphim e Victoria, nas margens do rio Curoca, appareceram ha tempo 
quatro leoes, que se installaram dentro da plantaçao, e faziam ali quarlel general 
das suas correrias sobre as manadas da fazenda. Por fim iam jà de noite ao curral, 
saltando por cima do muro que tem dois metros de altura, e trazendo para fora, e pelo
mesmo caminho, a preza nos dentes. proprietario nao se atrevia a ir atacar as feras;
e ainda não tinha tomado uma resoluçao para sahir d'aquella situaçao difficil, quando 
em uma das manhas um servirai preto reconhece nos restos do festim da noite alguns
pedaços do seu querido boi, que era toda a sua propriedade. Tanto bastou para que 
tomasse uma espingarda, amotinasse os companheiros, e fossem todos ale junto da 
plantaçao, onde se sentia rogir das feras, dar uma descarga là para dentro. Os leOes,
perturbados na sua laboriosa digestao, mal se dispunham ao combate; mas afinal 
sahiram investindo com os pretos, que apanhando-os a descoberto, fora docanavial,
deixaram estendidos sem vida tres, e correram pelos areaes em perseguiçao do quarto, 
que fugiu, demorando-se por là todo o dia. Chegado a este ponto, senhores, haveis de
permittir que vos apresente o nosso Julio Gerard, o intrepido cagador de leoes, 
Nestor José da Costa. E tao modesto, comò valente e bom atirador; e por isso ninguem
o conhece no seu paiz, a nào serem as poucas pessoas que o lem visto. Rapaz dos seus
trinta e quatro annos, robusto e leve, de barba e cabellos pretos, olhar meigo e 
firme, é proprietario de duas fazendas importantes no concelho de Capangombe, uma na
Biballa e outra no Munhino. N'aquella cultiva tafée canna, e n'esta algodào. Em ambas
tem multo gado. 

As edificagOes da fazenda do Munhino ficam n'um cerro coberto de blocos de granito,
que as rodeam em posigoes caprìchosas, tornando os caminhos dìQiceis. Està tudo 
dentro d'um muro : para um lado a vivenda do proprietario com os armazens do algodào;
para o outro as habitaçoes dos serviçaes; e no centro, em fórma de cidadeira, um 
cercado de paus a prumo, aguçados em cima, que é o curral dos bois. Isto é jà
 precauçao centra as feras. 

Certa noite sentiu Nestor os bois muito inquietos no curral; e em breve teve a 
certeza de que um leao. que tlnha saltado pelo muro da cerca, rodeava o cercado, 
procurando introduzir-se no curral. proprietario quiz defender a sua proprledade ;
apezar da escuridào da nolte, tomou a sua meihor espingarda, abriu com precauçao a
porta, e procurou a fera com a vista. Antes, porém, de a ter encontrado, sentiu-lhe
o rugido, vendo-a logo saltar sobre si proprio. Mal teve tempo de descarregar e 
arremessar a esplngarda, mettendo-se immediatamente dentro da porla, que estava perto
; quando elle batia com a porta fechando-a, batia n'ella tambem pelo lado de fora o 
leao a persegull-o 1 Succederam-se horas angustiosas, porque o animai parecia, 
pelo rugir furioso, que tinho sldo ferido pelo tiro. No dia seguinte, depois de longo
silencio, aventuroii o nosso heroe a cabeça por una buraco do telhado, a ver se
conseguia saber onde parava a fera ; e, depois de demorado exame, viu-a estendida 
na cozìnha com a cabeça em posigào escondida, nào sabendo por isso se estava morta.
Para se certificar disparou-Ihe de cima para baixo um tiro no corafao. bicbo nào se 
mexeu : eslava morto, e estavam todos salvos. Os serviçaes so se atreveram a abrir as
portas e sahir, depois do patrão estar no pateo a examinar os effeitos do seu primeiro 
tiro. 

D'outra vez um leào ferido com armadiiha, dentro do recinto, leve ainda vida e força
para saltar o muro ; e rugiu do lado de fora loda a noite. 

De manha o Nestor queria que os serviçaes fossem trabalhar e os gados fossem pastar,
mas isso era uma temeridade que podia custar algumas vidas ; e por isso resolveu-se 
a esperar que a fera morresse, ou se afastasse. Esperou lodo o dia e toda a noite
seguinte, e a fera continuava a rugir escondida entre os penedos da visinhança. 

O gado jà estava faminto, e a necessidade dos serviços era urgente. Foi mister tomar
uma resoluçao. 

Nestor armou-se, e fez-se acompanhar d'um pequeno moleque, seu criado parlicular que
lhe levava uma outra espingarda, e d'um caosinho que farejaria o leào para o auxiliar
na pesquiza. 

Avancou cautelosamente na direçao d'onde partiam os rugidos, e em breve notou que o
cão fugia para traz, dando todos os signaes de terror. A fera devia estar ali perto,
e estava jà calada. De repente ouve o rugido, e ve o leào a saltar para elle. 
Descarregou a espingarda, e mal leve tempo de tornar a outra que o pequeno Ihe 
entregou, jà engatilhada. A fera tocava com a cabeça no cano da espingarda, quando 
elle disparou o segando tiro e estes, e muitos outros casos difficeis de caçadas,
foram-me contados pelo proprio Nestor no teatro das suas façanhas. Já tinha morto
a esse tempo, em 1879, uns sete leoes, e protestava nào tornar a meter-se com 
semilhantes feras ; mas eu soube, que o horoe nao campriu a sua promessa, e jà elevou
a muito mais do dobro o numero das victimas, Valha a verdade, que os lem morto sempre
por necessidade, diz elle, afóra estes casos o leao em geral mostra-se cobarde perante
 o homem. Os seguintes facies demonstram-no bem. 

Um proprietario do Curoca estava n'um domingo de tarde estendido sobre a cama a ler
os jornais que recebera da Europa, e, comò tinha sentido durante a noite passada o
rugir do leao na visinhança levou para dentro do quarto, e prendeu a um pé da cama, 
um caosito que possuia, para que o leao Iho nào levasse, encontrando-o distrahido
fora da porta. 

A occasiào prestava-se para isso, porque àquella bora todos OS pretos andavam a
trabalhar nas letras, que os patroes costumam ceder-lhe para com esse usofructo Ihe
pagarem os serviços de toda a semana; e nenhum estava em casa, ou porto. 

N'esta situaçao foi o proprietario distrahido da leitura por um vulto, que rapidamente
entrava pela porta dentro em direcçao ao pé da cama. Era o leao, que ia buscar o ca- 
chorro.  O homem sem reflectir no que fazia, levantou-se, e bateu 
com jornal no leao gritando-lhe instinctivamente. A fera afastou-se e fugiu, sem ter
feito mal ao caosito. D'outra vez um proprietario de Mossamedes trouxe para casa uns
leõesitos, que conseguiu arranjar, na mente de os criar e mandar para a Europa. 

Jà nem se lembrava, que os paes poderiam procurar a sua prole, quando um dia, estando
a jogar com algiins amigos sobre a meza de jantar, que estava provisoriamente
installada n'uma barraca coberta de esteiras, viram cair do tecto, rompendo-as, um
leào que assustado por aquella estranha sitaaçao fugiu pela proxima janella aberta,
sem jà se lembrar dos filhos, que estavam ali perto, e o atrahiram là pelo cheiro, 
ou pela voz. 

Os donos da casa tambem nào esperaram outra visita: foram pressurosos depositar os
fìlhos em logar, onde fosse facil aos paes encontral-os. 

Na Iquemina, fazenda muito conbecida e frequentada pelos navios de guerra inglezes,
que vào ali tornar gado e refrescos, tambem costumam apparecer leOes proprietario
quiz uma noite fazer uma espera a uns poucos que Ihe rondavam a casa. Armou-se com 
os seus mais corajosos empregados e servigaes, e foi esperai- os para cima da terra,
 que é superior a um segundo andar. Os animaes vieram, mas, sem chegar ao alcance dos 
tiros, reliraram-se. No dia seguinte Bastos Pina dizia para os seus 
amigos de Benguella, em fórma de telegramma : «Eram ciuco 
leoes; esperamol-os no terraço. Gobardes, fugiram» 

Os leoes, tendem a desapparecer dentro mesmo da circumscrìpcao, que deixo indicada 
para o seu habitat. indigena do planalto do sul, corajoso e aguerrido, ataca-o por
vezes com as suas armas brancas, ou, melhor direi, com as suas armas escuras; porque
as zagaias, facas e outras armas de ferro de uso dos pretos, andam sempre untadas de 
maniciga e cobertas d'urna camada de pò humedecido por ella, que Ihe impede a 
oxidacao, sem Ihe deixar o brilho, que entra nós deu a armas similhantes, o nome de brancas.
indigena dizia eu, ataca-o por vezes, e consegue matal-o, e fazer-se heroe na tribù
por esse motivo. 

Os boeres, ultimamente estabelecidos na Humpata, tambem tem morto muitos leSes. 

Empregam para esse fim um meio mais racional e seguro. Quando apparece um leao na 
visinhança, sempre que o sitio é descoberto, vao immediatamente matal-o. Partem, um 
ou dois, montados em cavallos muito habituados a galopar pelas campinas, apezar dos
buracos do porco espinho que tornam perigosa a carreira para outros cavallos, e 
dirigem-se a fera, atacando-a frente a frente. chegados a uma distancia de cincoenta
ou sessenta metros, apontam, e atiram. Raras vezes tiro lhes falba, porque sào muito
bons atiradores. 

Em seguida a esle primeiro ataque fogem para respeitosa distancia, e d'ahi observam o
animai. Quando a agonia se Ihe prolonga muito, voltam a mesma dislancia, e dào-lhe
outro tiro. 

Este processo nào tem os perigos que alguem ppderà imaginar, porque o leào nao corre 
atraz das suas viclimas ; limita-se a saltar sobre ellas, uma, duas ou tres vezes,
transpondo de cada salto o vao maximo de dez metros. 

Os perigos portante d'este systema de perseguiçào do leao limitam-se ao do cavallo
partir as pernas mellendo-as nos buracos de que fallei, e tornar assim dificil a
situaçao do cavalleiro, que póde chegar a ser vidima, se a distancia é pequena, e o
leao vae saltando sobre elle. 


(...)

Full text of "Angola e Congo. Conferencias

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