Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Campanhas de África: O alferes António Ribeiro Monteiro em Mossãmedes (actual Namibe), em Angola


O alferes António Ribeiro Monteiro em Angola

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro


Esta fotografia diz respeito à construção do caminho de ferro de Mossâmedes (depois Moçâmedes e, actualmente, Namibe) durante a primeira estadia (antes de 27 de Dezembro de 1909) do alferes Monteiro em Angola. Deve ser do início da estadia (à volta de 1906).


Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Esta fotografia diz respeito à segunda estadia (depois de 16 de Dezembro de 1910) do tenente Monteiro em Angola. Deve ser datada já de 1914 ou 1915.


Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)

O pai de António Aniceto Monteiro chamava-se António Ribeiro Monteiro e era alferes de infantaria quando, em 4 de Julho de 1905, foi requisitado para desempenhar uma comisão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes. Dois dias depois, na Paróquia dos Anjos, casou com Maria Joana Lino Figueiredo da Silva, “tendo sido dispensados dos proclamas por provisão de Exmo. Prelado” [AAM-CM] datada da véspera. No dia seguinte ao casamento, António Ribeiro Monteiro embarcou para Angola. Dez anos depois, dia por dia, a 7 de Julho de 1915, na sua casa de Mossâmedes, na rua dos Pescadores, morreu de doença, contraída durante operações militares resultantes da guerra no sul de Angola. Era então tenente de infantaria e deixou Maria Joana viúva e órfãos os dois filhos, Maria Petronila e António Aniceto, de nove e oito anos, respectivamente.

Para compreendermos as circunstâncias históricas que determinaram este início dramático da vida e do percurso angolano de António Aniceto Monteiro, temos que recuar até 1884. Em 15 de Novembro de 1884, iniciou-se a Conferência de Berlim que se prolongaria até 26 de Fevereiro de 1885, em que participaram vários países europeus, incluindo o Império Otomano e ainda os Estados Unidos da América, tendo em vista a definição das regras para a partilha de África. Este continente tinha um solo e, sobretudo, um subsolo riquíssimos, que despertavam a cobiça das grandes potências de então. A grande burguesia industrial e financeira precisava dos recursos naturais africanos, nem que fosse em detrimento das populações de origem europeia que já estavam instaladas no litoral e, acima de tudo, das populações indígenas que, ao longo de gerações e gerações, ali sempre tinham vivido. Claro que já havia conflitos em África resultantes das pretensões das potências europeias e, justamente, a Conferência de Berlim visava definir as regras daquilo que veio a chamar-se o “scramble for Africa”, a corrida desenfreada para a ocupação de África. Isso implicou o envio maciço de tropas e a consequente escalada dos conflitos principalmente com as tribos africanas. Aquele inverno de Berlim acabou por atear fogo a todo o continente.

Interessa especialmente o que se passou então na região de Mossâmedes, actualmente chamada Namibe. A província de Namibe fica no extremo sul e litoral de Angola e, vendo o mapa no sentido dos ponteiros do relógio, é banhada a oeste pelo Atlântico e faz fronteira, a norte, com Benguela, a leste, com Huíla (cuja capital é Lubango, antiga Sá da Bandeira) e Cunene (cuja capital é Ondjiva, antiga Pereira de Eça) e, a sul, com a Namíbia.  Ao longo de 1900 km, paralelamente à linha costeira, a província de Namibe e a Namíbia são atravessadas por um deserto que se estende para o interior cerca de 80 a 150 km. É considerado o mais antigo deserto do mundo, com mais de 80 milhões de anos, e a sua aridez é causada pelo ar frio e seco provocado pelas águas geladas da corrente de Benguela que corre de sul para nor-noroeste e das profundezas do oceano para a superfície, sobretudo devido à rotação da Terra. Portugal enviou tropas para todas as regiões de África que reivindicava na altura. Em toda a parte havia conflitos, nomeadamente em Angola e Moçambique, mas a situação era particularmente grave no sul de Angola. Segundo René Pélissier “de 1885 a 1915, o sul de Angola foi a guerra”(1). As populações do sul de Angola eram um mosaico de pequenos núcleos de origem europeia, que coexistiam com a esmagadora maioria de populações negras de diferentes etnias. Entre os primeiros, estavam os boers, instalados durante um período de tempo num território próprio na Huíla(2) e havia, ainda, colonos idos da ilha da Madeira, do Brasil, etc(3). As mais diversas correntes religiosas procuravam exercer a sua influência: católicos, protestantes, espiritanos franceses, luteranos, e outras(4). Havia o tráfico de armas, como as Martini-Henry e as Westley Richards(5), algumas provindas da guerra civil americana, outras da África do Sul. As tribos africanas não só estavam organizadas – possuindo meios rudimentares de comunicação militar, por exemplo – como estavam armadas com armas de fogo das mais diversas origens(6). A vida dos soldados portugueses não era, portanto, nada fácil. Além das dificuldades do terreno desértico ou semi-desértico, tinham que contar com uma resistência armada forte e quando, a partir de Outubro de 1914(7), tiveram que combater os alemães, por estes terem invadido o sul de Angola, continuavam a ser os negros os piores adversários. Os soldados que morriam, quando não morriam nos combates, morriam de sede e de doenças provenientes, muitas vezes, de beberem água inquinada. As marchas eram forçadas e os itinerários eram escolhidos de acordo com a necessidade de serem mais velozes do que a transmissão das mensagens através dos tantãs africanos. Os animais eram muito utilizados e, para o transporte de militares, os cavalos eram o meio preferido e, até, imprescindível. Dos momentos mais altos da guerra, antes da chegada do alferes Monteiro, destacam-se as revoltas do Humbe: a primeira, de 1885-1886, a segunda, de 1891, e a terceira de 1897-1898(8). Um momento de viragem registou-se em 25 de Setembro de 1904(9), com a vitória dos Cuamatos (uma tribo Ovambo), sobre os portugueses, na batalha do Vau de Pembe. As baixas portuguesas foram centenas, entre mortos e desaparecidos. Diz René Pélissier: “É preciso que se meça bem a amplidão desta derrota, que equivalia a eliminar num único dia perto de um décimo das forças totais existentes em Angola”(10). Em Lisboa soou o alarme e fizeram-se planos pormenorizados de envio de homens e material para uma campanha de seis meses cuja despesa prevista era de 1 884 contos, “isto é, aproximadamente o mesmo que em 1892 tinha custado à França a conquista do Daomé”(11). Para dirigir todas as operações, foi chamado o capitão do Estado-Maior Alves Roçadas(12) que, segundo René Pélissier, “estava longe de ser um génio como se provaria com os acontecimentos de 1914”(13). Foi, provavelmente, dentro deste plano geral de ofensiva no sul de Angola que o alferes Monteiro foi requisitado para partir para África num tão curto espaço de tempo.

O alferes Monteiro, pai de António Aniceto Monteiro, tinha nascido em 1880 e assentado praça como voluntário em 1898, com dezoito anos incompletos. Finalizou o curso de infantaria da Escola do Exército em 1902 e foi promovido a alferes em 15 de Novembro de 1903.
Mal chegou a Luanda, em 1905, já casado com Maria Joana, foi enviado para o sul para participar na construção do caminho de ferro de Mossâmedes, que foi iniciada nesse ano, embora a autorização do Governo remontasse a carta de lei de 1890. Em 1907, estavam prontos os primeiros 67 quilómetros. O engenheiro encarregado das obras era Artur Torres, futuro sogro de António Aniceto Monteiro. O projecto previa que a linha fosse até Lubango, antiga Sá da Bandeira, mas as obras pararam em 1910, provavelmente devido à guerra, quando estavam prontos 186 quilómetros. As obras só retomariam em 1917 e ficaram concluídas em 1923. O casal António e Maria Joana teve dois filhos: Maria Petronila, que nasceu em 5 de Abril de 1906, e António Aniceto, que nasceu em 31 de Maio de 1907, ambos na freguesia de Santo Adrião de Mossâmedes. Em 8 de Fevereiro de 1908, António Ribeiro Monteiro foi nomeado para provisoriamente exercer o cargo de chefe de dia e obras do caminho de ferro de Mossâmedes e, em 9 de Julho de 1909, foi nomeado condutor de 1ª classe. No fim desse ano, dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou. Em 5 de Outubro de 1909, chegou ainda a ser nomeado para condutor de 1ª classe do caminho de ferro de Luanda, lugar que nunca ocupou. Em 17 de Abril de 1911 foi colocado na direcção fiscal do caminho de ferro de Benguela mas, não é certo que aí tivesse efectivamente trabalhado. Nos três primeiros meses de 1910 António Ribeiro Monteiro esteve doente em Lisboa. No dia 1 de Abril de 1910, foi colocado no Regimento de Infantaria nº 11, em Setúbal e, no dia 1 de Dezembro desse ano, é promovido a tenente. É através de um relatório manuscrito [ARM1], datado de 5 de Novembro, extremamente elogioso, acerca dos serviços prestados por António Ribeiro Monteiro nesse regimento (e que pode ter servido para a sua promoção), que ficamos a conhecer um pouco da sua personalidade singular.

Esse relatório, assinado por José Narciso d’Andrade(14), Coronel Comandante do D.R.R. 5, ao referir-se ao alferes Monteiro, diz “não ser fácil encarecer à altura do seu valor as qualidades de tão illustrado oficial, honestíssimo caracter e homem de sciencia”. Fala ainda nas suas qualidades como “constructor e engenheiro”, nos seus “conhecimentos especiaes ou scientificos”, na sua capacidade de ministrar a instrução aos soldados “subordinado a um plano pratico e compreensivel” e nas “referencias altamente elogiosas” que lhe foram feitas pelo comandante da brigada “motivadas pela execução rapida, perfeito acabamento e rigorosa disciplina em todos os trabalhos feitos”. Mais adiante o relatório acrescenta: “Querendo tornar extensivos aos officiaes do meu regimento a pratica dos levantamentos topographicos à vista, convidei o Snr. Alferes Monteiro a expor à corporação o que de mais util houvesse sobre esta especie de trabalhos. Com tal profundeza de conhecimentos, clareza e feição desenvolveu o thema escolhido que não pude furtar-me a intimá-lo a apresentar por escripto a conferencia oral desenvolvida, com o fim de ser remettida para o Ministério da Guerra e ser devidamente apreciada”. Entretanto, tinha ocorrido a revolução republicana de 5 de Outubro e, a esse propósito, o relatório do coronel Narciso d’Andrade refere:

“Por ocasião da Revolução que proclamou a Republica em Portugal, Setúbal foi, como se sabe, theatro de desorientação popular que se traduziu por incendios a repartições publicas, egrejas, etc. Necessario se tornava mandar para a rua a força publica com o fim de evitar, sendo possivel a continuação de similhantes desvairamentos. Um capitão e um subalterno, levando sob o seu comando as praças disponiveis, saíram a coadjuvar a autoridade. Porem a população desrespeitou a força e feriu gravemente o seu comandante, bastante conhecido pelas suas ideias liberaes. Teve a força de retirar, à vista de similhante attitude. Foi então que chamei o Alferes Monteiro e com uma diminuta força o encarreguei de se dirigir ao povo e obstar à continuação dos vandalismos até então praticados e em ameaça de continuarem. De tal forma se houve e tal diplomacia desenvolveu que toda a gente acolheu com palmas as palavras do Alferes Monteiro e debandou sem que houvesse a mais leve resistencia ou continuassem na pratica dos actos pelos mesmos praticados. Attenta a attitude do povo, expôs-se n’esta difficil missão, aquelle illustre official, não só a ser desrespeitado como a ser esmagado pelo povo. A pacificação e tranquillidade dos animos foi obtida pelo habil official da seguinte forma: Mandou fazer alto à sua força a uma distancia consideravel dos ajuntamentos, mas de forma que por todos fosse presenciado. Embainha depois a sua espada e dirigindo-se ao povo, falla-lhe tão patrioticamente que começando a ser ouvido com apupos terminou por ser obedecido com vivas e palmas. Dias depois a população de Setubal, reconhecedora, combinava-se para lhe preparar uma manifestação de simphatia. Ignoro se se chegou a realizar; mas realizasse ou não, certo é que o Senhor Alferes Monteiro, é hoje, em Setubal, a pessoa de mais consideração que a sua cidade encerra”.

Mais adiante o relatório conta que tendo ele sido nomeado “defensor officioso” de um desertor, foi “por todos considerado um orador eximio, mais parecendo um distincto profissional na advocacia do que um homem que fez a sua estreia como amador”. O relatório diz ainda que “como chefe de família e caracter está superior a todo o elogio”, o que parece significar que, nesse ano, a família vivia com ele em Setúbal. É de assinalar que esta estadia do alferes Monteiro em 1910 em Setúbal explica a razão pela qual António Aniceto está registado no “livro de registos de nascimento da Administração deste concelho do ano de – 1910-1911”. O relatório finaliza com o parágrafo seguinte: “Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”. Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.

Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16. Não se percebe muito bem onde esteve e o que fez, exactamente, o tenente Monteiro, em 1911. Até ao fim da vida viveu sempre, muito provavelmente, em Mossâmedes e, em 1911, pode ter estado parcialmente ao serviço do caminho de ferro, embora não na sua construção, que estava parada(15). Entretanto, no ano de 1912, deu-se outro momento de viragem na vida do tenente Monteiro. Em Mossâmedes, no dia 9 de Abril, dirige o seguinte requerimento ao Presidente da República:
“António Ribeiro Monteiro, tenente de infantaria do exército da Metrópole, nomeado em Novembro de 1910, em comissão extraordinária, condutor de 1ª classe do Caminho de Ferro de Mossâmedes – onde já serviu desde Agosto de 1905 até Dezembro de 1909 – encontrando-se actualmente, por exoneração daquele cargo, apresentado na Secretaria Militar do Governo deste Distrito, necessita por motivos de força maior e para tratar de assuntos imperiosos de carácter particular, passar à situação de licença ilimitada; e assim, na sujeição de todas as disposições legais que lhe possam ser aplicáveis,
Pede a V. Ex.ª haja por bem conceder-lhe a referida licença”. [ARM1]
O que este documento significa exactamente, não sei. Apenas podemos imaginar o que sentiria um militar com família, que incluia dois filhos menores, em idade escolar, numa zona de guerra intensa que só tinha tendência a agravar-se. A licença foi concedida, a partir de 1 de Agosto, e o que ele fez depois, com essa licença, ignoro(16).
Sabe-se que, desde 1 de Setembro de 1913, “continuou na situação de adido mas em comissão extraordinária de serviço no Ministério das Colónias” [ARM1], e que foi colocado na “Secretaria Militar de Mossâmedes, por haver desistido da Licença ilimitada, no referido dia 1 de Setembro” [ARM1], tendo sido “nomeado chefe da Secção Militar da Fazenda de Mossâmedes na mesma data” [ARM1]. Foi exonerado deste cargo em 30 de Novembro de 1914. Sabe-se, também, que até ao fim de 1913 não teve nenhum posto de comando, isto é, nunca participou, directamente, na guerra. A partir do início de 1913, o tempo de serviço em Angola deixou de ser acrescido de 50%, como até aí. Em 20 de Abril desse ano, um documento, assinado pelo tenente Monteiro em Mossâmedes, confirma que a situação tinha mudado radicalmente. Trata-se de um compromisso formal, obrigatório(17), que contém o seguinte texto premonitório:
“Eu, António Ribeiro Monteiro, tenente d’infantaria, juro pela minha honra, como cidadão, como oficial, que, enquanto pertencer à oficialidade do exército portuguez, defenderei a Patria e as leis da Republica, e servirei com zêlo e valor, cumprindo as ordens legais dos meus superiores, fazendo-me obedecer e respeitar dos meus subordinados, segundo a mais severa disciplina, observando e fazendo observar os direitos e deveres de cada um, e procurando por todos os meios ao meu alcance acrescentar a glória da Pátria e do exercito portuguez, para o que, se tanto fôr necessario, sacrificarei a propria vida. E, para firmeza de tudo, assim o declaro”. [ARM1]

Desde o desastre de Vau de Pembe, de 1904, que a guerra não teve um momento de pausa, mas seria despropositado contar aqui tudo o que sucedeu. Seriam necessárias muitas dezenas de páginas. Como já se disse, no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs(18). Mais uma vez, o número de baixas portuguesas é impressionante. No seguimento, Alves Roçadas acaba por vir embora de Angola, sem honra nem glória, embarcando no início de Maio de 1915 [ARM3]. Porém, não partiu para Lisboa sem antes ter colocado o tenente Monteiro na 27ª Companhia Indígena de Infantaria, em 6 de Março de 1915, não se sabendo se este, que tinha mais um perfil de intelectual e nunca tinha ocupado um posto dessa natureza, chegou a combater. Entretanto, em 21 de Março o general Pereira de Eça(19,20) é nomeado comandante em chefe das tropas e governador geral de Angola. O seu principal objectivo era resolver o problema do sul, e para aí se dirigiu imediatamente para, pessoalmente, dirigir as operações contra os alemães e, sobretudo, contra a população negra. Mostrando ser mais inteligente que Roçadas, Pereira de Eça nomeou o tenente Monteiro chefe da Secretaria Militar do Distrito de Mossâmedes, no dia 24 de Maio.
O principal documento que relata os últimos dias de vida do tenente Monteiro é de um tenente coronel de infantaria, João Ortigão Peres(21), ex-chefe do estado maior do corpo expedicionário no sul de Angola, e diz o seguinte:
(...)“o tenente de infantaria António Ribeiro Monteiro, encontrando-se em comissão extraordinária no sul de Angola (...). (...) havendo necessidade de proceder a um reconhecimento na região dos Cubáes (serra da Chella) este oficial, apezar de estar ainda bastante atacado pelas febres, pediu insistentemente que lhe fosse confiado esse serviço, que conseguiu levar a bom termo, regressando porem a Mossâmedes num tal estado que faleceu dias depois da sua chegada”.(...) [AAM-CM, AAM-RUL]
A ser verdade que, quando partiu, o tenente Monteiro já se encontrava doente e sendo conhecidas as dificuldades que uma tal missão, de vários dias, comportava, só é de admirar que ainda tivesse regressado com vida.
Anos mais tarde, António Aniceto Monteiro contava, assim, este episódio, provavelmente por lhe ter sido relatado pela mãe: “Tratava-se de averiguar se os alemães tinham invadido o sul de Angola. O meu pai voltou com uma perniciosa. Ao chegar a Mossâmedes, foi saudar a minha mãe e ao sair para o Estado Maior para informar do resultado da expedição caíu desmaiado mas mesmo assim foi ao Estado Maior. Nessa noite jantou em casa o General Roçadas. Meu pai teve que assistir ao jantar deitado numa cadeira de viagem. Faleceu nessa mesma noite”.

Apesar de algumas imprecisões devidas ao esfumar da memória que a passagem do tempo induz, como a referência a Alves Roçadas que, como sabemos, nessa altura, já não estava em Angola, este relato tem o mérito de informar que, na noite da morte do tenente Monteiro, uma alta patente, provavelmente o próprio Pereira de Eça, esteve em sua casa. O episódio mostra até que ponto o estado maior, sediado em Mossâmedes, estava ávido de informações sensíveis da parte de um homem que, por ter trabalhado precisamente nessa zona como topógrafo militar durante vários anos na construção do caminho de ferro, conhecia o terreno como ninguém. Para que fique completo o relato da guerra com os alemães em Angola, basta dizer que, dois dias depois, tudo tinha acabado com eles, por se terem rendido aos sul-africanos do general Botha, no Sudoeste Africano, hoje Namíbia.

Esta primeira guerra colonial em Angola que começou com o “scramble” que se seguiu à Conferência de Berlim, durou cerca de quarenta anos, desde 1885 até 1925(22,23), serviu para destruir quase completamente a estrutura social que existia, definir as fronteiras daquele que é hoje um país independente e desenvolver a estrutura colonial que durou até 1974-1975. E a guerra acabou, porque as tropas europeias foram substituindo as mulas, os cavalos e os bois, por veículos motorizados(24), e, sobretudo, foram substituindo as carabinas e as espingardas por uma arma temível que, essa, os negros não possuiam – a metralhadora(25). Duvido que haja uma contablização absolutamente credível mas, ao todo, foram, muito provavelmente, centenas de milhares de mortos, a esmagadora maioria deles entre a população negra(26).

Ontem como hoje, todas as guerras têm consequências dramáticas. Em primeiro lugar, para as populações que nelas são forçadamente envolvidas ou delas têm que se defender. Em segundo lugar, para os soldados que para elas são conduzidos, a maior parte das vezes, enganados por uma propaganda ilusória. Em terceiro lugar, sofrem com as guerras as famílias destes soldados. Tal foi, seguramente, o caso da família do tenente Monteiro, que em Angola ficou sepultado, e, em particular, para a sua filha que tão cedo perdeu o pai.

Como afirmou um militar relativamente a outro camarada [JSP], talvez António Ribeiro Monteiro tenha “sido enterrado na cerca de arame farpado junto à muralha”, e lá tenha ficado “esquecido, e hoje ignorado, como tantos outros que por aqueles sertões morreram, faltando saber se com melhor sorte que aqueles que viveram”. De facto, muitos desses soldados sobreviventes continuaram a combater os negros em África ou vieram combater para a Europa, na guerra mundial de 14-18.
Seria necessário esperar cerca de 30 anos, após o fim da primeira guerra colonial em Angola, para se assistir ao início da derrocada do império e das ilusões coloniais. A União Indiana, que tinha conquistado a independência em 1947 (o que só por si devia ter feito meditar Salazar), começou nos anos 50 a reivindicar os territórios que Portugal ocupava – os enclaves de Goa, Damão Diu, Dadrá e Nagar-Avely.

Em fins de Julho de 1954, forças da União Indiana assaltaram e ocuparam definitivamente os dois pequenos enclaves de Dadrá e Nagar-Avely. A crise política desencadeada então entre os dois países durou cerca de um ano, mas os portugueses foram expulsos definitivamente de Goa, Damão e Diu em 19 de Dezembro de 1961, nas circunstâncias bem conhecidas. A tensão entre Portugal e a União Indiana só terminou em 31 de Dezembro de 1974. Nesse ano de 1954, a 11 de Agosto, em Portugal, o Movimento Nacional Democrático, cujo presidente era o matemático Ruy Luís Gomes, enviou aos jornais uma “nota oficiosa”(27), um extenso documento, que vale a pena ler, sobre a situação política em Portugal e sobre o que se estava a passar na Índia, condenando a política colonial do governo. Foi o suficiente para que Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Lobão Vital, José Morgado e Albertino Macedo fossem presos e acusados de traição à pátria(28), ameaçados com cinquenta anos de prisão mais medidas de segurança, e passassem por vários julgamentos até serem finalmente libertados em 1957. O próprio Ruy Luís Gomes, no seu Curriculum Vitae político [RLG], refere que foi “preso pela PIDE em 19 de Agosto de 1954 por ter, juntamente com os restantes elementos da Comissão Central do MND, elaborado um documento condenando a política colonial do Estado Novo e defendendo a autodeterminação dos Povos, por ocasião de incidentes ocorridos em Goa, Damão e Diu. Foi então acusado de traição à Pátria e julgado em Junho de 1955 no Tribunal plenário do Porto. Foi condenado em 18 meses de prisão. Recorreram da sentença, aguardando em liberdade o resultado do recurso. Anulado o julgamento, recolheu de novo à cadeia em meados de 1956. Novamente julgado em meados de 1957 foi condenado em dois anos de prisão. Mais de metade deste tempo foi passado na Colónia Penal de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, prisão especialmente destinada a presos comuns de difícil correcção; muitos destes presos eram dementes”. Na sequência destes acontecimentos, Ruy Luís Gomes, expulso da Universidade desde 1947 e com a vida muito dificultada em Portugal, vai, em Setembro de 1958, exilado, para Bahía Blanca, na Argentina, a convite do seu amigo António Aniceto Monteiro que já lá se encontrava. A influência mútua destes dois homens é conhecida, tanto no plano político, como no plano científico. António Aniceto Monteiro foi o principal dínamo das iniciativas do Movimento Matemático no que respeita à investigação e contagiou Ruy Luís Gomes. Por sua vez, Ruy Luís Gomes, vindo de uma família com tradições, era aquele que, dos dois, estava mais informado e era mais activo politicamente. Em ambos, o traço comum de um vida inteira de coerência cívica e científica, indestrinçáveis uma da outra.

Em 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de angolanos ataca prisões de Luanda, tentando libertar presos políticos dando início, assim, à segunda guerra colonial em Angola – a guerra que conduziu à independência. Um dos muitos objectivos dessa acção, que envolveu cerca de 200 pessoas armadas de catanas e outras armas artesanais, era a libertação da maioria dos presos políticos do processo dos 50 que estavam na Casa de Reclusão Militar e que se suspeitava que iriam ser transferidos em breve para o Campo de Concentração do Tarrafal. No Brasil, vivia um grande grupo de exilados portugueses, a maioria dos que estavam na América Latina. Entre eles, interessa-me destacar, nesta intervenção, Manuel Sertório e Henrique Galvão. Este último tinha liderado o desvio do navio Santa Maria em 22 de Janeiro de 1961, que muita gente pensava ir aportar a Luanda, mas que acabou por ir para o Recife, no Brasil. Muitos jornalistas de vários países acorreram então à capital de Angola, na expectativa de relatarem a chegada do Santa Maria, tendo sido a possiblidade de uma grande cobertura internacional mais um factor que incentivou o 4 de Fevereiro de 1961. Os resistentes angolanos desejavam chamar a atenção para a grave situação que se vivia naquela colónia, com destaque para o massacre dos camponeses da Baixa de Cassange que estavam a ser bombardeados e mortos, aos milhares, com napalm. Nenhuma das acções do 4 de Fevereiro teve êxito, mas, pelo menos, conseguiram chamar a atenção do mundo inteiro para o que se passava em Angola. As autoridades coloniais designavam os resistentes africanos de “terroristas” ou, ainda mais depreciativamente, de “turras”. Para os mais racistas, todos os negros eram “terroristas”. No seguimento do 4 de Fevereiro, foi desencadeada a caça generalizada ao “turra” e mais massacres foram perpetrados.

O grupo de exilados no Brasil era politicamente muito heterogéneo. O capitão Henrique Galvão tinha sido um adepto entusiasta de Salazar, mas começou a divergir deste, sem nunca romper com a ideologia que sempre tinha apoiado, nomeadamente na sua componente colonialista. Na organização da oposição na América Latina, Manuel Sertório, que vivia em São Paulo, era o elemento que fazia a ligação com os dois portugueses de Bahía Blanca, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro. Assumindo sempre as suas raízes angolanas, como “tendo nascido em Angola”, António Aniceto Monteiro troca com Manuel Sertório, em 1961, algumas cartas [AAM-MS] que visavam a elaboração de uma declaração conjunta de oposicionistas sobre a situação que se vivia na colónia portuguesa. As quatro cartas que António Monteiro escreveu então a Manuel Sertório, estão marcadas com um sotaque argentino e, aqui e ali, com alguma fina ironia.
Na carta de 23 de Março de 1961, afirma o seguinte
“Creio que não é suficiente condenar o envio de forças armadas para os territórios coloniais e que se deveria também reclamar que se retirem todas as tropas de repressão enviadas nos últimos tempos. Ao mesmo tempo convém aclarar que a responsabilidade de todos os sucessos que ocorram nas colónias recai inteiramente sobre o governo de Portugal e serão uma simples consequência da sua política de repressão, que se pode contrapor à atitude dos diversos movimentos para a independência das colónias que reclamam insistentemente negociações pacíficas”. Termina citando a frase “nenhum povo pode ser livre se oprime outro povo”.
A carta seguinte, de 24 de Abril de 1961, exprime o desapontamento por alterações entretanto introduzidas ao documento, no Brasil, por Henrique Galvão e outros:
“(...) tenho aqui à mão uma declaração sobre o problema colonial, que a Comissão de Inter-Ligação enviou ao Prof. Ruy Gomes em 30 de Março. Trata-se de um documento com uma orientação essencialmente distinta da declaração impressa à qual enviei a minha adesão na carta que lhe escrevi em 23 de Março. Devo dizer-lhe que não assinarei a declaração de 30 de Março anteriormente indicada, porque o problema da autodeterminação dos povos coloniais está posto em termos ambíguos. Em primeiro lugar se reconhece o direito à irrestrita autodeterminação, mas logo a seguir se agrega «sob as necessárias garantias de exercício desse direito em condições humanamente progressivas, etc.» o que pode significar, por exemplo, que os povos coloniais terão de esperar mais alguns séculos para que se lhes reconheça esse direito”. E, mais adiante, António Aniceto Monteiro diz que “o artigo 6º (...) usa o tom dum patrão a falar para um escravo”, para, depois, concluir do seguinte modo: “sobre o problema da autodeterminação dos povos coloniais não pode haver nenhuma espécie de reticências. Depois de uma política de opressão, escravidão e extermínio que durou séculos o governo iniciou actualmente uma guerra de extermínio em Angola e outras colónias, que é necessário condenar nos termos mais enérgicos apoiando os povos coloniais na sua luta pela independência nacional.”
A terceira carta, de 29 de Maio de 1961, mostra que a redacção final da referida declaração acaba por ser de acordo com a opinião de António Aniceto Monteiro, porque diz a Manuel Sertório: “pode pôr o meu nome entre o das pessoas que assinam a declaração em questão que consta de três pontos”. A parte final da carta revela que ele, em Bahía Blanca, a milhares de quilómetros dos centros de decisão, via mais longe do que Salazar e os seus acólitos: “A situação em Angola agrava-se cada vez mais. Os jornais já falam de 25 000 mortos (negros); mobilizaram em Portugal, segundo me informa Ruy, a classe de 58. Estamos frente a uma guerra colonial que só terminará com a derrocada do fascismo e a instauração dum governo provisório revolucionário; a menos que se consiga interromper a guerra pela intervenção da ONU”.

A quarta e última carta, de 6 de Junho de 1961, é, como as outras, muito interessante sob o ponto de vista histórico. Destaco a seguinte passagem: “Há 11 anos que estou completamente isolado das coisas portuguêsas e só agora, desde que está aqui o Ruy, é que tenho mais algumas notícias, além das que leio em Portugal Democrático. De um modo geral penso que no exterior o que é fundamental é apoiar as directivas da frente interna de resistência.
O Galvão acabou por revelar-se completamente como um autêntico colonialista nos 3 artigos que escreveu num diário de São Paulo. Para mim as reticências que ele punha à primeira redacção da declaração tinham um significado perfeitamente claro e por isso mesmo não quiz assinar a segunda redacção”.

Como se vê, estas quatro cartas de António Aniceto Monteiro não podiam ser mais claras. E, para terminar, direi que o objectivo principal desta minha intervenção foi o de revelar situações e factos históricos pouco conhecidos relacionados com a vida de António Aniceto Monteiro, prestando homenagem a um homem que, apesar de todas as dificuldades, realizou um trabalho científico notável em vários países, sempre ambicionando viver pacificamente, mas nunca virando a cara à luta. Vêm-me à memória as palavras que António Aniceto Monteiro escreveu a Guido Beck, do Rio de Janeiro, numa carta enviada em 1948: “Também conheço mal a situação na Argentina. Mas seria possível viver em paz, sem ser perseguido pelas minhas opiniões? Deve responder com precisão a esta pergunta, dizendo o que pensa” [AF-AV]. Soube-se, depois, qual foi a resposta que a realidade lhe deu.
Tal como o fez António Aniceto Monteiro há que lutar contra todos os fatalismos e conformismos. Temos que confiar que a luta pelo direito a viver e a trabalhar em paz tem que ser bem sucedida, porque a conquista desse direito é absolutamente necessária. Por ocasião do seu centenário aqui fica, pois, nesta intervenção, a minha homenagem ao homem bom que, como poeta, assinava com o pseudónimo de “Adrião de Mossâmedes”.

Agradecimentos: António Brotas, Arquivo Histórico Militar, Colégio Militar, Manuela Cruzeiro (Centro de Documentação 25 de Abril), Universidade de Lisboa.

(*) Departamento de Matemática da FCUL e Grupo de Física-Matemática da Universidade de Lisboa (GFMUL), Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, Av. Prof. Gama Pinto, 2, 1649-003 Lisboa, Portugal. O GFMUL é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Retirado DAQUI

 https://archive.org/stream/acampanhadocuam00castgoog/acampanhadocuam00castgoog_djvu.txt

sábado, 19 de dezembro de 2015

"Mossamedes 1914" : a marcha de regresso a Moçâmedes histórias sobre a guerra


O Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira (à direita)
e um companheiro de armas, numa foto tirada em Moçâmedes, em 1915.



Sobre esses momentos históricos que ficaram a marcar a História da colonização de Angola,  encontrei no site http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/CEP Marco Oliveira,  material interessante colocado pelo autor, que procura deste modo dar a conhecer essa parte do espólio do seu avô, o Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira, que participou nas marchas no Sul de Angola, e  nas trincheiras em França, e  deixou, entre outras recordações, postais, incluso de Moçâmedes,  que  são testemunhos silenciosos do mundo em que ele viveu. 

Procurando introduzir o tema, direi que , na Europa tinha estalado a I Grande Guerra (1914-18). As operações militares no sul de Angola (1914) tinham conduzido à acção indecisa de Naulila, que teve como consequência a inutilização da soberania no Cuamato, no Humbe e no Evale. Nova expedição metropolitana chegou a Angola em 1915, sob comando do General Pereira d’Eça e desta vez a ocupação atingira a actual fronteira a sul, abrangendo os territórios perdidos no ano anterior e o Cuanhama até então impenetrável.

Eis alguns aspectos retirados ao referido site, relacionados com os incidentes na fronteira sul de Angola, na fase final das Campanhas, em que o Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira participou, e que passo a transcrever:

 ... O meu avô contava muitas histórias (na próxima semana espero publicar aqui algumas) e trouxe vários postais. Num envelope com a inscrição "Mossâmedes 1914", encontrei duas colecções de postais sobre esta cidade. Hoje fica aqui a primeira dessas colecções. http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

 ...Em 1915, com a rendição das forças alemãs do Sudeste Africano ao exército sul-africano e a destruição de vários aldeamentos cuanhamas no sul de Angola, a expedição comandada pelo general Pereira d’Eça devia agora iniciar o regresso ao ponto de embarque. Esgotadas pelas constantes movimentações, pelas condições do território (onde grassava uma seca há mais de quatro anos) e por alguns confrontos, o regresso foi uma longa e penosa marcha que as tropas tiveram de realizar em direcção a costa.

...Os dias do regresso sucederam-se monotonamente e sem grandes sobressaltos. Das memórias desses dias, o meu avô repetia com frequência o episódio em que se perdeu numa caçada. Foi durante a marcha de regresso a Moçâmedes que decidiu acompanhar um companheiro de armas numa caçada. Levando um cão que farejava possíveis presas, percorreram a savana devastada pela seca sem nada encontrarem. Ao fim de algumas horas, o meu avô – que não era caçador - desistiu da caminhada e regressou ao acampamento. O seu companheiro que persistia em incitar o cão a procurar alguma pista Caminhando sozinho pelo mato, percebeu ao fim de algumas horas que não encontrava vestígios do acampamento. Estava perdido no mato. Sem quaisquer referências resolveu parar. Talvez não estivesse longe do acampamento, mas caminhar ao acaso podia levá-lo a afastar-se cada vez mais. A sorte sorriu-lhe ao fim de algum tempo quando ouviu o ecoar de um clarim. Felizmente nos acampamentos militares tudo funciona a toque de clarim; e este ouve-se a grande distância. Correu na direcção do som enquanto o ouviu, e voltou a parar; pouco depois um novo toque, proporcionou-lhe uma nova corrida. Ao fim de várias corridas, foi-se apercebendo do tropear de milhares de homens e cavalos. Acabou por entrar no acampamento em passo acelerado. Tanto quanto sabemos, o meu avô não voltou a participar em mais caçadas.

...A chegada a Moçâmedes e o embarque para Lisboa não tiveram história. Regressando no mesmo navio que o general Pereira d’Eça, várias vezes lhe chamou a atenção para uma bronquite que se agravava. De nada adiantou, porque pouco depois de chegar a Lisboa, o general viria a falecer. Espero na próxima semana poder começar a publicar postais que o meu avô adquiriu durante a sua presença na frente ocidental (1916-1918).http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

.... Ele contava sempre as mesmas histórias sobre a guerra". É bem possível. Uma experiência tão intensa como uma guerra deve deixar muitas recordações bem gravadas na memória. O texto que se segue foi preparado com a preciosa colaboração do meu pai, que reuniu algumas dessas histórias repetidamente contadas pelo meu avô.

...Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, a expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste, mantendo-se a alguns dias de marcha do Cunene, para evitar incidentes na preocupante fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano. Nas deslocações de uma coluna militar, a cavalaria tinha por missão explorar o terreno na vanguarda e nos flancos, em constante movimentação, procurando evitar que a infantaria fosse surpreendida.


O tenente-médico Monteiro d'Oliveira, em Moçâmedes, 1915

...O tenente-médico Monteiro d’Oliveira, integrado num esquadrão de dragões, acompanhava as deambulações da cavalaria, mas naturalmente a um médico não se considerava necessário fornecer um bom cavalo. O médico deveria colocar-se na retaguarda, para acudir aos feridos que ficassem para trás, ao contrário do comandante, que deveria preceder todos os outros, para ter visibilidade que lhe permitisse avaliar a situação.

Naturalmente que cada cavaleiro teria que conhecer bem o seu cavalo, e o meu avô foi informado que o cavalo se recusava a saltar, além de uma certa tendência para tomar o freio nos dentes. Isto chegou a causar várias vezes uma situação caricata, em que o médico aparecia a galopar à frente de todos, para grande escândalo do comandante. Mas também foi motivo de um pequeno acidente, quando ao tentar contornar um obstáculo, o meu avô foi projectado da sela, porque o cavalo resolveu saltar a par dos outros. Apesar de ter recuperado trabalhosamente a sua posição na sela sem maiores problemas, sofreu uma fractura de um dedo que nunca pode ser bem tratada, e lhe deu uma maneira de escrever muito característica.

O itinerário da expedição tinha sido preparado pelo “serviço de etapas”, fixando os locais de abastecimento, em especial os cursos de água, onde homens e animais poderiam dessedentar-se. No entanto uma seca rigorosa gorou as expectativas, e depois de atravessarem vários leitos secos, houve que inflectir para o Cunene. Foi uma longa marcha, sempre a passo para evitar a transpiração, mas sem paragens, até porque nos últimos quilómetros nada detinha os animais, nem os fazia desviar do caminho do rio. Apesar de toda a sua fidelidade, os cavalos podiam virar a cabeça, apertados pelo freio dos cavaleiros, e tentavam acelerar o passo na direcção da água que já pressentiam, e a que conseguiram chegar nos limites da desidratação.

A cavalaria era uma arma fundamental nas vastidões africanas, mas seguindo o ditado português de que “quem não tem cão caça com gato”, quando não havia cavalos, os dragões montavam muares. Naquelas condições a sua segurança era dramaticamente reduzida, porque a vantagem da cavalaria era a rapidez. Com as mulas não se pode andar a “mata cavalos”, porque quando estão cansadas empinam-se, escoucinham, mas não avançam. Os dragões que só conseguiam mulas para as suas missões de patrulha despediam-se em grande pranto dos camaradas, porque dificilmente conseguiriam regressar.


Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915

.... Reagrupada e reabastecida a expedição, foi decidido que só uma progressão muito rápida sobre os objectivos conseguiria surpreender o inimigo, e concluir com sucesso a expedição. Rapidez significava naquelas circunstâncias, significava andar a mais de 30 quilómetros por dia, que era a velocidade de transmissão das mensagens dos “tantans” africanos. Assim os soldados, subalimentados e desidratados, foram obrigados a uma marcha forçada, que provocava frequentes desfalecimentos.

Certamente havia macas, mas não havia maqueiros, e o Dr. Monteiro d’Oliveira, movimentando-se na rectaguarda, recolhia os soldados desfalecidos, atravessava-os no cavalo, e levava-os até um carro de bagagem , onde ficavam estendidos o resto do dia. Como medicamentação recebiam um remédio precioso pela sua escassez: ¼ de água das pedras. A terapêutica era eficaz a 100% e no dia seguinte os soldados já marchavam ao lado dos camaradas.

A pronta recuperação de tantas baixas acabou por ser notada pelo general Pereira d’Eça, que mais tarde exarou um louvor ao tenente-médico António Monteiro d’Oliveira.

Finalmente a vila de N’giva (futura vila Pereira d’Eça) surgiu à vista da coluna. Era um dos principais objectivos da missão. Os dragões carregaram, a população fugiu, e quando a infantaria chegou a embala estava abandonada. A tomada de NGiva foi um sucesso, não só pelo reduzido número de baixas, mas também pela captura de documentação, nomeadamente uma curiosa carta de um missionário luterano, desaparecido na confusão do ataque, que comunicava aos seus superiores no Sudoeste Africano que a coluna portuguesa tinha sido totalmente derrotada...


Agradecimento da Câmara de Mossâmedes ao alferes Monteiro (21 de Dezembro de 1909)


© Família de António Aniceto Monteiro
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...Mais uma vez a Câmara da minha presidencia tem o prazer e honra de agradecer a V.Excia. a preciosa coadjuvação que tão gostosa e desinteressadamente de ha muito lhe vem dispensando, quer na elaboração da planta da cidade, trabalho proficiente e completissimo, que só por si representa um alto valor de progresso e melhoramento para este municipio, quer na elaboração da planta do mercado, quer ainda nas varias vezes[?] em que a tem illucidado em trabalhos de especialidade, alta competencia e capacidade de V.Excia.
Tudo isso, que tanto trabalho tem revelado a par de profundos conhecimentos tecnicos, muito calculo, muita ponderação e estudo aturado, esta Camara já mais o esquecerá, e faltaria aos mais sagrados dos deveres de gratidão se lhe não demonstrasse, como demonstra, o seu alto reconhecimento e mais profundo agradecimento.
É para esta Camara de bem intensa magua a retirada de V.Excia d'esta cidade; e fazendo votos por uma feliz viajem, deseja que a fortuna e felecidade o galardôem sempre tão grandemente,  quanto os predicados de V.Excia o exigem.

-
Nota: A assinatura que se vê é, muito provavelmente, de Seraphim Simões Freire de Figueiredo, que seria, então, Presidente da Câmara (ver Fernando da Costa Leal, quinto governador de Mossâmedes (1854-1959)). Seraphim Simões Freire de Figueiredo e o alferes Monteiro foram padrinhos de casamento dos pais de Lídia Monteiro.
===
(...)
No fim desse ano [1909], dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
(...)
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
(...)




Ver também aqui : http://mocamedesregistosefactos.blogspot.pt/2012/11/o-batalhao-de-marinha-expedicionario.html

 http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

4 cartas de António Aniceto Monteiro sobre o início da Guerra em Angola há 50 anos



  • 1 "Nenhum povo pode ser livre se oprime outro povo":...
  • 2 «Sobre o problema da auto-determinação dos povos c...
  • 3 «Estamos frente a uma guerra colonial que só termi...
  • 4 «Penso que no exterior o que é fundamental é apoia...
  •  

    António Aniceto Monteiro nasceu em Moçâmedes, Angola, em 31 de Maio de 1907.  Mossâmedes era a designação dessa época, mais tarde (anos 20?) mudada para Moçâmedes. O nome depois da independência passou a ser Namibe. Os oito primeiros anos da sua vida, até à morte do pai, em 1915, passou-os o menino António Aniceto em pleno cenário de guerra. A mesma guerra que acabaria por matar o pai, tenente de infantaria, deixando uma viúva e dois órfãos.

    O pai de António Aniceto Monteiro fora requisitado para desempenhar uma comissão de serviço dependente do Ministério da Marinha e Ultramar na construção do caminho de ferro de Moçâmedes por decreto de 4 de Julho de 1905, menos de um ano após o desastre de Vau de Pembe. Seguiu para o sul de Angola em 7 de Julho de 1905. Exactamente 10 anos depois (7 de Julho de 1915) faleceu em Mossâmedes, de doença, como morriam muitos soldados naquela altura, após uma missão de reconhecimento à serra da Chela. Para sabe mais, clicar AQUI
    AQUI
     

    sexta-feira, 25 de março de 2011

    A guerra no sul de Angola em 1914 (2)


    (...)
    A crítica condena, por todas as razões, a dispersão das poucas forças expedicionárias de que se dispunha, por pontos longínquos em relação ao Cunene.
    O facto é tanto mais estranho quanto é certo que a decisão de mandar para o Pocolo a divisão de artilharia e para Ediva-Otchinjau-Otchitoto a 11ª companhia do B.I.14, foi tomada já em face da missão que nos propúnhamos realizar — opor-se aos Alemães no Cunene.
    E desde que íamos para o Cunene, mandava a lógica que não nos enfraquecêssemos, por este lado, de um quarto de infantaria e metade da artilharia expedicionárias. Ficaria no Pocolo a protecção habitual que já lá estava, isto é, a lª companhia europeia de infantaria de Angola, com um dos seus pelotões em Otchinjau, e mais nada. Que solução milagrosa ia levar ao Pocolo uma divisão de artilharia, à custa da inutilização da única bateria que se tinha digna deste nome?
    Porque a dispersão de forças à última hora, sem o mais leve factor novo de decisão que levasse a considerar o avanço de forças alemãs, de importância ou não, pelo lado Otchinjau-Pocolo?
    Perante a situação que se lhe apresentava e em face dos diminutos meios de acção de que dispunha, o comandante teria a tomar uma resolução geral definitiva, acto essencial da sua vontade, sobre a forma de conduzir e empregar o pequeno agrupamento expedicionário, sabendo o que queria, como queria e por que queria.
    O chefe não tinha que aguardar indefinidamente uma última palavra sobre a situação para traçar a conduta geral de emprego do referido agrupamento. Disse Clausewitz: «A guerra é o campo das incertezas». Esperar, para adoptar uma decisão de ordem geral, que todas se dissipem, é arriscar-se a um fatal e nocivo atardamento.

    No sul de Angola, a situação de contacto com a Damaralândia deu lugar a preocupações levando a curiosos voos de imaginação.
    Pessoas chegavam a ver colunas de Alemães a invadirem o território, através do Baixo Cunene, em várias direcções, após marcha de centenas de quilómetros por precárias vias de comunicação, em travessia rápida das estepas sem fim do norte da Damara, queimadas pelo sol ardente do deserto Namib e áreas kalaharianas, a caminho do planalto ou caindo sobre Moçâmedes!
    Arquitectavam, com uma facilidade admirável, disparatados raids à Jameson ou mesmo golpes da natureza dos que mais tarde Von Lettow Vorbeck levou a efeito na África Oriental, noutras condições totalmente diferentes.
    Fez-se realizar por competentes oficiais — o capitão Albano de Melo e tenente António Ribeiro Monteiro — o reconhecimento militar do Baixo Coroca, no litoral atlântico, bem como o estudo do acesso possível de forças, invasoras às regiões do Otchinjau através dos contrafortes, da Chela e, em sentido inverso, da viabilidade de uma corrente desembocada do Swartboy Drift ir despenhar-se pelos desfiladeiros da serra, a caminho de Porto Alexandre e Moçâmedes.
    E no seu novo plano (1), em face da situação resultante do incidente de Naulila, prescreve o comandante das F.O.:

    «Estabelecimento de uma linha (?) de defesa fixa que compreende o triângulo Moçâmedes-Porto Alexandre-Coroca, no litoral, e Chibia-Pocolo-Gambos ou Ediva, no planalto».
    Por outro lado, a oeste da Chela, toma vulto uma certa confusão, em que vemos envolvidos, aquele comandante, o governador de Moçâmedes. e o governo geral.
    Porque interessa ao nosso estudo, vamos referir os traços principais de algumas das muitas directivas e comunicações que foram trocadas entre as três entidades e que traduzem o ambiente.
    Do comandante das F.O. para o governador de Moçâmedes :

    «...O serviço de vigilância convém seja estabelecido sobretudo na direcção da foz do Cunene, na do vale do Coroca e na do vale do Béro» (2).
    O governador-geral faz transmitir ao governador de Moçâmedes:

    «Referência nota 133, de 19; Geral recomendar defesa especialmente Moçâmedes, caminho de ferro e vias acesso este para planalto. Não concordar estabelecer postos Popochiva e Damba Carneiros evitar dispersão forças. Proximidades Porto Alexandre deve ficar força cavaleiros explorando caminhos Papochiva, Damba Carneiros. Estação telegráfica Porto Alexandre deve ser ocupada militarmente. Caso ataque forças superiores, deve abandonar Porto Alexandre avisando telégrafo Moçâmedes. Auxiliares montados possa obter, duas patrulhas oficial existentes, além um corpo de camelos que deve ser constituído desde já aproveitando os existentes, vigiarão caminhos» (3).
    O governador de Moçâmedes encarrega o tenente António Ribeiro Monteiro (4) de, conciliando as directrizes recebidas do comandante das F.O. e do governador-geral, realizar o dispositivo de defesa de aí resultante, que vem a, ser:

    Ocupar militarmente a estação telegráfica de Porto Alexandre, a qual deveria ser abandonada e prevenido o governador de Moçâmedes telegràficameute, no caso de ataque por forças superiores (não se lhe diz como, nem por onde se faria a evacuação em tal caso); e bem assim montar a exploração dos caminhos de Popochiva e da Damba dos Carneiros, coordenada com uma vigilância afastada no rio dos Elefantes e na Damba das Víboras (aqui por iniciativa do tenente Monteiro), confluências do Cunene.

    O comandante das F.O. não simplifica, dirigindo ao governador de Moçâmedes o seguinte telegrama:

    «Julgo indispensável organização posto Coroca no local indicado brigada reconhecimentos, um dos itinerários atribuídos Alemães é: vau Erikson Drift-Foz dos Elefantes-Otchiqueque-Popochiva-Porto Alexandre» (5).
    O governador de Mocâmedes encarrega o tenente Francisco Maria Rodrigues, comandante do destacamento da 2ª companhia europeia, da defesa próxima de Mocâmedes contra o avanço de forças inimigas pela estrada Chacuto-Moçâmedes, pelo vale do Béro ou pelo caminho de Porto Alexandre.

    «Para qualquer dos casos, não dispondo de forças algumas, só pode V. Ex.ª contar com os auxiliares e voluntários, habitantes de Moçâmedes, que de antemão tenha preparado e combinado para em caso de necessidade se reunirem e marcharem para guarnecer qualquer dos postos avançados.
    «Deve para isso V. Ex.ª, com urgência, percorrer o rio Béro para além da fazenda do agricultor Torres e escolher a posição adequada para a construção dum entrincheiramento improvisado, simples, e seguidamente proceder da mesma forma para a defesa do vale do Giraul, para o caso de ataque de forças vindas de Porto Alexandre. Para poder armar o maior número possível de voluntários, fica V. Ex.a autorizado a fazer recolher todas as espingardas aperfeiçoadas dos particulares e distribuí-las a auxiliares que se ofereçam, quando os seus donos não possam prestar serviço. De igual forma procederá V. Ex.ª quanto ao armamento existente na 4ª Companhia de Depósito, contando contudo com o indispensável para as praças impedidas nos diversos serviços» (6).

    O mesmo governador encarrega ainda o alferes António Henriques da

    «defesa da linha férrea de Moçâmedes a Vila Arriaga e do estabelecimento de comunicações para o sul da mesma linha (?) até aos Cubais. A defesa da linha férrea será feita com dois postos...» (7).
    Não fatigamos mais o leitor. Basta o que acabamos de ler para avaliar o lamentável ambiente que a visão exagerada e infundada de forças alemãs chegou a gerar em Moçâmedes.
    O governador, em face das directivas, por vezes discordantes, que recebe do comandante da expedição e do governo-geral, patenteia a sua confusão e mesmo inquietação nas ordens dadas e nas comunicações para estas entidades dando conta do que fez e do que vai fazer.
    Colocado entre o comandante das F.O. e o governador-geral, preso do receio de uma ofensiva alemã, não dispondo, porém, de tropas para realizar medidas de defesa, o governador de Moçâmedes foi, certamente, das três entidades, a de mais difícil situação.

    Quem conhece as terríveis condições que o deserto ditava a um avanço de forças invasoras pela faixa litoral, assim como os riscos que correria o inimigo que deixasse o planalto e, aventurando-se pelos desfiladeiros — ratoeiras da Cheia — fosse enterrar-se nas areias do Namib com o fito de -alcançar Porto Alexandre e Moçâmedes, fica, na verdade, admirado da confusão que se gerou.
    E afinal, além de uma cobertura tranquilizadora em Porto Alexandre, a principal providência a tomar reduzia-se a preservar, por guarda e por vigilância directa e indirecta, a linha férrea de Moçâmedes, de sabotagens intentadas mais por elementos internos traidores, da raça do boer Duplessis, do que por destacamentos alemães invasores.
    A protecção eficaz da linha férrea contra golpe de mão era uma medida, embora aparentemente simples, difícil na realização, por falta de forças.
    Em Moçâmedes fez imensa falta um verdadeiro comandante militar.

    Vêm a propósito duas palavras sobre o papel e importância de Moçâmedes na defesa.
    Então e sempre, no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, ou seja contra indígenas insubmissos ou contra os Alemães invasores, o porto de Moçâmedes tem desempenhado um importante papel.
    Base do caminho de ferro e base litoral única do distrito da Huíla, tem-lhe cabido a função de receber reabastecimentos de toda a espécie e expedi-los pelo caminho de ferro. Porto de desembarque e de evacuação; estação depósito.
    Mas o caso em que a sua importância atingiria a mais alta sensibilidade não era aquele de que se tratava em 1914, mas sim o de uma ofensiva alemã sobre o planalto vinda do Sudoeste, conjugada com outra para a posse de Moçâmedes. Ao passo que Sá da Bandeira seria o objectivo final das operações terrestres do invasor para o domínio do planalto, Moçâmedes seria o primeiro objectivo da sua acção sobre a costa.
    No quadro das operações terrestres do defensor, Sá da Bandeira e Moçâmedes aparecem-nos então como intimamente ligadas.
    De facto a queda de Moçâmedes representa a queda do caminho de ferro, a queda automática da costa, com Porto Alexandre e Baía dos Tigres; representa a impossibilidade de utilizar a linha de comunicações por esse porto; sujeita Sá da Bandeira a uma incursão desse lado; enfim, põe o defensor na delicadíssima situação de, ou face ao Cunene ou face ao oceano, ter o adversário nas costas, obrigando assim à divisão de forças.
    Em tais circunstâncias, impor-se-ia ao defensor a instante necessidade de diminuir, quanto possível, a sensibilidade de Sá da Bandeira em relação à sorte de Moçâmedes.
    Como? Mudando a sua linha de comunicações.
    Nunca, nesta forma das operações, seria prudente contar com utilizar Moçâmedes como base marítima definitiva. Deve estar previamente estudada a outra linha de comunicações e tudo preparado para a sua adopção no momento julgado oportuno, inclusive a devida ocupação de Mulondo e Capelongo desde o início das operações.
    Os transportes seriam então à base de camionagem.

    Não se deve exagerar o perigo, para o planalto defendido e com o caminho de ferro destruído, de uma agressão empreendida, do lado de Moçâmedes, por um inimigo desembarcado.
    É que entre o planalto e este porto há o formidável obstáculo da Chela. Barradas as suas poucas e difíceis passagens com alguma artilharia e armas automáticas, nenhumas forças lá passariam. É a verdadeira chave da defesa contra um ataque partindo do litoral. Moçâmedes tem poucas condições de defesa, a qual, no entanto, deve ser efectivada pela forma e com os meios definidos no dispositivo geral da defesa da costa da província, O plano de defesa de uma província ultramarina como é Angola, com fronteiras terrestres e marítimas, tem sempre duas partes — contra a agressão pelas fronteiras terrestres e contra a agressão vinda do mar. E a parte essencial desta última é a defesa dos portos.

    O caso concreto de 1914 era, porém, inteiramente diferente. A situação dos Alemães era crítica, as possibilidades de conquista nenhumas. Não era de encarar uma ofensiva pelo Cunene sobre o planalto, nem um ataque por mar sobre Moçâmedes.
    (...)

    (1) Comunicado ao Governador de Moçâmedes por sua extensa nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
    (2) Sua nota nº 32, de 3-Nov.-1914.
    (3) Telegrama do C.E.M. de Angola, n° 654, de 24-Nov.-1914.
    (4) Suas instruções para o ten. Monteiro, de 10-Dez.-1914.
    (5) Seu telegrama n° 136, de 14-Dez.-1914.
    (6) Nota n° 416/66, de 16-Dez.-1914.
    (7) Suas instruções para o alferes, de 16-Dez.-1914.

    Ernesto Machado, No sul de Angola. Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1956 (450 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 312-320.
    -
    Notas:
    Recordemos que
    «no final de 1914, os alemães invadiram o sul de Angola. A 18 de Dezembro de 1914, em virtude de opções tácticas erradas, Alves Roçadas é derrotado em Naulila pelas tropas alemãs»,
    e ainda que
    «Em 1914, quando se organizou a primeira expedição a Angola, para defender o sul da colónia, que fazia fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano, Roçadas foi escolhido para a comandar. O incidente de Naulila, nas margens do Cunene, perto da fronteira entre as duas colónias, incidente entre forças militares portuguesas e alemãs, acontecido em 18 de Outubro, fez com os alemães atacassem o posto isolado de Cuangar, nas margens do Cubango. Alves Roçadas decidiu então, com as poucas forças de que dispunha, atravessar o Cunene e procurar as forças alemãs que tinham entrado no território português. Mas foi derrotado em Naulila, em 18 de Dezembro, e obrigado a atravessar o Cunene e o Caculevar, concentrando-se à volta do Forte Gambos. Devido a esta retirada os povos do Humbe revoltaram-se. Alves Roçadas foi, por isso, chamado a Portugal, embarcando em princípios de Maio de 1915.»

    Do blog Aniceto Monteiro


     http://docplayer.com.br/84287205-Joao-roby-e-o-desastre-do-vau-de-pembe.html

    Ver tb : http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/CadernosColoniais/CadernosColoniais-N28&p=1

    A guerra no sul de Angola em 1915 (1)



    A CAMPANHA
    DO SUL DE ANGOLA
    em 1915

    I
    Preparação das operações

    Foi num dos primeiros dias do mês de Fevereiro de 1915 que sua Ex.ª o General Pimenta de Castro, Ministro da Guerra e presidente do Governo, me fez o convite para assumir o comando das tropas expedicionárias ao Sul de Angola. Nessa ocasião Sua Ex.ª mostrou-me ser conveniente que, com este comando, acumulasse o cargo de Governador Geral da província.
    Se é certo que as funções de comando no ultramar, onde os recursos escasseiam e as necessidades das tropas mais se acentuam, são suficientes para absorverem todas as atenções de quem as exerce, certo é também que, para que esse comando se possa efectuar com os menores atritos e a máxima utilidade, é muito vantajoso que não tenha a sua acção limitada ao campo puramente militar, e pelo contrario, ela se estenda a tudo o que possa interessar ás operações, o que se pôde conseguir fazendo convergir, na mesma pessoa as respon-sabilidades de comando e as responsabilidades governativas.
    Assim o têm demonstrado todas as grandes campanhas coloniaes.
    Foi por isto, e só por isto, que resolvi aceitar a.acumulação do governo da província de Angola com o comando superior das forças que nela iam operar. Assente pelo governo da Republica que eu me encarregasse da honrosa missão para que me convidou, nas condições que deixo expostas, eu, por minha vez, convidei para meu chefe de estado-maior o major de infantaria, com o curso do estado maior, João Ortigão Peres, lente do referido curso da Escola de Guerra.
    Este oficial, com uma verdadeira isenção, com o seu patriotismo, e com a sua dedicação pessoal por mim, aceitou o meu convite, aceitação que Sua Ex.ª o Ministro da Guerra tornou efectiva, nomeando-o para o referido cargo. O primeiro trabalho a que procedemos foi à leitura de toda a correspondência trocada entre o Ministro das Colónias, o Governador Geral da Província, e o então comandante das forças expedicionárias, sr. tenente coronel do serviço do estado maior, Alves Roçadas, afim de ajuizarmos da situação.
    Essa leitura levou-me às seguintes conclusões :
    1º — Que a acção das forças da Damaraland no combate de Naulila não foi uma acção a fundo, pois não tendo elas efectuado a perseguição das nossas, pouco tempo depois se afastaram da fronteira.

    (cortado pela censura)

    2º — Que o resultado do combate de Naulila, conjunctamente com a intensa propaganda desde longa data efetuada pelos alemães e com a retirada das nossas forças, teve como consequência natural a rebelião, formal ou latente, de todo o gentio de além Cunene e da região do Humbe.
    3º — Que pelas diversas e grandes requisições feitas pelo Governador Geral de Angola e pelo tenente coronel Alves Roçadas se verificava a existência de grandes dificuldades com que se lutava para pôr as tropas enviadas para o Sul de Angola em estado de executarem as operações, dificuldades principalmente derivadas da não existência de uma conveniente linha de étapes, do facto de os grandes reforços para ali enviados, depois, dos acontecimentos de Naulila, não terem sido precedidos, ou pelo menos acompanhados, de tudo quanto era necessário para a sua pronta entrada em acção, e ainda da circunstancia das funções de comando e as funções de Governo não estarem concentradas na mesma pessoa, o que, apesar de exercidas ambas por dois ofíciaes muito distínctos e patriotas, não pôde deixar de traduzir-se em falta de unidade de acção e em perda de tempo.
    As duas primeiras conclusões constituíram a base do projecto de operações que apresentei a S. Ex.a o Ministro das Colónias e que foi aprovado com uma ligeira restrição.
    A 3ª conclusão forneceu-me elementos para fazer as requisições que julguei necessárias para colocarem as forças do meu comando em condições de realísarem o esforço que lhes havia de exigir, devendo notar que, neste ponto, a leitura da correspondência não me desvendou completamente as dificuldades da situação, que só em Mossamedes pôde bem conhecer.
    Uma questão de.alta importância me devia merecer também todo o cuidado, era a questão política internacional, e por isso procurei S. Ex.ª o Ministro dos Negócios Estrangeiros e lhe pedi os necessários esclarecimentos.
    A nossa beligerância não estava nitidamente declarada; é certo que tinha havido um ataque efectuado pelas forças da Damaralandia aos nossos postos e às nossas forças, mas era duvidoso se aquelas forças eram regulares e se tinham procedido de motu-proprio, constituindo a sua acção um simples incidente de fronteira, ou se pelo contrario, tinham cumprido ordens do Governo local, ou até do Governo da Metrópole. Também se dizia que o Governo da União da África do Sul tinha encarregado o General Botha de invadir a Damaraland e muito importava saber se este facto se confirmava. Tudo isto se apresentava ao meu espirito por uma forma pouco definida e exigia que me fossem fornecidos dados precisos que me indicassem uma maneira de proceder nítida, clara e franca; doutro modo a acção das forças do meu comando podia vir a exercer-se por forma inconveniente, tanto sob o ponto de vista militar como sob o ponto de vista político.
    O certo é que nenhuns esclarecimentos consegui obter de Sua Ex.ª e que parti orientado apenas pelo facto de ter sido aprovado o meu projecto de operações com a restrição a que já me referi e firmemente resolvido a não perder a menor oportunidade de desagravar o mais amplamente possível a honra nacional.
    Seja-me permitido registar que a diplomacia portuguesa, sendo, por vezes, de uma indescrição surpreendente, é, noutras ocasiões, de uma reserva tão impenetrável que torna a sua acção inútil para quem nela precisa orientar a sua conducta.
    Da leitura dos documentos existentes no Ministério das Colónias e do estudo das cartas do sul de Angola e da Damaraland, poude eu ainda em Lisboa, fazer uma ideia, tão aproximada quanto possível, da situação criada pelos acontecimentos de Naulila e portanto da tarefa que me cumpria realisar, e nela baseei como disse, o meu projecto de operações, em que quaisquer que fossem as modificações a introduzir-lhe in loco, em harmonia com o conhecimento mais directo dessa situação tinha que dominar, como fim geral a atingir, a preocupação de se reocupar o território abandonado ao gentio, ocupar a região do Cuanhama, que sendo nossa in nomine nunca tinha sofrido de facto o nosso domínio e se encontrava desde longa data muito trabalhada .pelos alemães da Damaraland, e principalmente castigar a afronta sofrida em Naulila, recebendo condignamente os alemães se eles tornassem ao nosso território, ou passando as nossas tropas a fronteira, para os atingir onde mais conviesse, prestando, em qualquer dos casos, um muito valioso concurso aos nossos aliados da África do Sul.
    Tanto do exame das cartas, como do conhecimento de trabalhos de valor executados por distintos oficiais como, por exemplo, os de Eduardo Costa, Alves Roçadas, Eduardo Marques, e João de Almeida, eu concluí que tinha de escolher para base de operações o Humbe, que pela sua situação estratégica, para tal fim se impunha, pois, encontrando-se coberta pela linha defensiva do Cunene, está ao mesmo tempo, no centro das comunicações, que do planalto de Mossamedes se dirigem para o Evale, Cuanhama, Cuamato, Dongoêna, e portanto nas melhores condições para dali se proceder à submissão do gentio revoltado, e pela sua conveniente distancia à fronteira, para aí se basearem operações, quer ofensivas, quer defensivas, contra os alemães.
    Nessa, região devia eu portanto fazer a concentração do grosso das minhas forças, mas impunha-se-me também a obrigação de ter devidamente observada a linha de penetração que do posto de Cuangar se estende pelo vale do Cubango em direcção ao posto A, para daí se dirigir por Cassinga ao planalto de Mossamedes ou internar-se no distrito de Benguela e a linha que do Cunene mais directamente se encaminha para o referido planalto, isto é, a linha Otchinjau-Pocolo-Chibia-Lubango.
    Certo era que tudo indicava que no caso de nova incursão alemã, por qualquer destas linhas só se poderia esperar ligeiras demonstrações, para nos obrigagarem a dividir as nossas forças, visto as duas primeiras linhas serem muito extensas, excêntricas e em que o inimigo quanto mais se internasse mais perigos correria, e a terceira atravessar terreno difícil e ser facilmente cortada por qualquer movimento de flanco executado peias tropas que se deslocassem do Humbe, ou de qualquer outro ponto conveniente da linha que liga esta região com o planalto de Mossamedes.
    O que era porem incontestável era a necessidade de fazer ampliar no Humbe as operações dum efectivo que não deveria ser inferior a uns 6 a 7.000 homens e uns 3.000 solipedes, para o que se tornava necessário prover o estabelecimento de uma solida linha de étapes de uns 600 kilometros de extensão, e a necessidade de igualmente ter tropas nas linhas de Cubango de Otchinjau-Pocolo, de muito menor efectivo, mas exigindo também a montagem de linhas secundárias de étapes com menores recursos, mas sendo a do Cubango ainda mais extensa que a linha principal.
    Todas estas considerações acrescidas com o conhe-mento de que nos últimos 4 anos tinha havido grande falta de chuvas no sul de Angola, portanto aí dominava a fome, me levaram a mesmo aqui em Lisboa, considerar como questão capital para a honrosa, mas difícil missão que me fora confiada, a dos abastecimentos e dos respectivos transportes, devendo estes últimos ser o mais rápido possível porque a estreiteza de tempo que se tinha para realizar as operações, derivada da pressão inglesa exercida na Damaraland, que naturalmente atiraria com os alemães, para a nossa fronteira, e da necessidade de dar ás mesmas operações a maior amplitude antes do começo das chuvas (fins de setembro) assim o exigia. Por isso perfilhei todas as requisições de viveres e transportes que se encontravam no Ministério das Colónias ainda por satisfazer, completei-as como julguei conveniente, reservando-me para, de Angola, as modificar, se o entendesse necessário, insisti pela aquisição imediata de 80 camions automóveis e 750 carros alentejanos, requisitados com urgência pelo Governador Geral, Norton de Matos, exigi que, partindo eu em 5 de Março tivesse em Mossamedes em l de Abril, viveres para 4 meses e metade dos transportes requisitados e em l de Maio viveres para 6 meses e a totalidade desses transportes, tencionando montar devidamente as linhas de étapes logo que chegasse, a Mossamedes, Principiaria em Abril a escalonar os víveres pelos respectivos postos, completaria em Maio o abastecimento dos depósitos principaes de Lubango, Gambo e Humbe e no fim desse mês, ou princípios de Junho, poderia iniciar as operações de Alem-Cunene com todo o desembaraço.
    Infelizmente as promessas feitas de cumprimento destas exigências não foram cumpridas com o rigor e a pontualidade requeridas, apesar da minha constante insistência, e daí resultaram as dificuldades com que lutei durante toda a minha estada em Angola e que no decurso deste relatório resaltarão!
    Tendo embarcado no África em 5 de Março, desembarquei em Loanda em 21 desse mês, tendo assumido, neste mesmo dia, o Governo da província, imediatamente principiei a ocupar-me com o maior ardor de tudo o que interessava as operações e ali podia tratar pensando contudo em prolongar o menos possível a minha estada nessa cidade; porque estava verdadeiramente ansioso de seguir para o Sul, afim de poder de visu conhecer a situação. Não foi porem de pouca utilidade a minha demora em Loanda.
    Da troca de impressões com o secretário geral e com os governadores dos distritos do Congo e Lunda, colhi a confirmação de que os acontecimentos de Naulila tinham tido a natural repercursão não só no gentio do sul mas também no de toda a província que, por numerosos indícios, revelava mais ou menos declaradamente o seu espirito de rebelião, o que me levou a recomendar a esses governadores, e depois por escrito, a todos os dos outros distritos, que procurassem comtemporisar e fazer face a qualquer manifestação mais evidente da rebeldia com os recursos próprios, que o reflexo dos futuros acontecimentos do sul muito contribuiriam para o restabelecimento da quietação em toda a província. Da revista que passei ás tropas estacionadas em Loanda (1 bateria de artilharia de montanha e 1 companhia de infantaria 20) e da forma como as vi realisar vários exercícios colhi as melhores impressões, a respeito do seu aprumo, disciplina e instrução.
    (...)

    Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 57-63.
    Retirado do blog dedicado a Aniceto Monteiro, Matemático, natural de Moçâmedes, exilado político.

    quarta-feira, 30 de maio de 2007

    RELAÇÃO DOS COMPONENTES DAS 1ª E 2ª COLÓNIAS DE PORTUGUESES (DE PERNAMBUCO-BRASIL) CHEGADOS A MOSSAMEDES (MOCAMEDES, NAMIBE) EM 4 DE AGOSTO DE 1849 E EM 26 NOVEMBRO DE 1950



    Quadro histórico [representando] Brique "Douro" da Real Marinha Portuguesa chega a Moçâmedes no dia 1-8-1849, transportando os 1ºs colonos portugueses vindos de Pernambuco. Pintura de Brique "Douro" da Real Marinha Portuguesa. "Eram aguardados pelo major J.H.Ferreira Horta, mais autoridades e muitos habitantes da povoação." Pintura de Moraes Carvalho em Janeiro de 1965 e oferecido pelo autor em Lx 29-06-1967.Copyright. Arquivo Histórico Ultramarino, Calcada da Boa Hora, n.30, 1300-095 Lisboa Portugal

     






    Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Chefe da 1ª colónia chegada a Moçâmedes em 04 de Agosto de 1840

     
    Se considerarmos colono, o europeu que partiu para África com a intenção de se fixar permanentemente – não sendo soldado, degredado ou membro do serviço colonial – seremos levados a concluir que a colonização portuguesa em Angola não começou antes de meados do século XIX, ou seja, não começou antes da colonização de Moçâmedes, inaugurada com a chegada à velha Angra do Negro a 1ª colónia de luso-brasileiros para dar início ao povoamento branco da região. 



    No seu livro “O Distrito de Moçâmedes na Fase da sua Origem e Primeira Organização: 1485-1859”, Manuel Júlio de Mendonça Torres defende  o ano de 1840, como o da fundação do Presídio, e "...a montagem de feitorias (1), casas comerciais de movimento incerto, que não poderiam por isso manter-se, a despeito das confiantes diligências dos seus empreendedores." Para Mendonça Torres a fase das "feitorias" que antecipou a chegada dos colonos de Pernambuco não  contribuiu para a valorização económica do Distrito. As actividades exercidas e as exportações efectuadas, representavam apenas escassas tentativas que redundaram em malogro. O 04 de Agosto de 1849, sim. esta data é considerada a data da fundação de Moçâmedes, a cujos componentes "cabe-lhes a indiscutível glória não só de terem erguido no Distrito a primeira povoação, como terem nele terem iniciado, com necessária eficácia, a exploração agrícola, a labutação piscatória, o movimento comercial e o exercício de várias outras secções de trabalho".   Refere também que só a partir de 1860 os colonos de Pernambuco tiveram na faina marítima, como activos cooperantes, colonos algarvios que lhes prestaram concurso digno de apreço para o progresso piscatório distrital. Os primeiros colonos algarvios chegaram em 1860, de onde passaram a Porto Alexandre e daí à Baía dos Tigres.  Aliás, convém sublinhar que a colonização de Moçâmedes foi uma oportunidade que surgiu ao governo português inesperadamente, que o mesmo governo não deixar escapar, uma vez que à época as famílias metropolitanas continuavam a preferir o Brasil e as Américas para emigrar, e a África continuava a ser vista como um destino não grato para europeus, terra de febres e doenças fatais, em pouco tempo consumidora  de vidas. A mola que impulsionou a fixação do primeiro contingente dos colonos em Moçâmedes foi uma insurreição armada que aconteceu em 1848, na cidade brasileira de Pernambuco,  que levou um grupo de portugueses e luso-brasileiros maltratados, a solicitar a Portugal transporte e ajuda para os primeiros tempos, para que pudessem fixar-se em qualquer lugar do globo terrestre onde tremulasse a bandeira portuguesa. E já a barca brasileira "Tentativa Feliz" vogava havia uma semana pelo Atlântico, capitaneada pelo brigue português "Douro", ainda no Parlamento português se discutia o montante irrisório da ajuda concedida, e os mais incrédulos na colonização apontavam para o Alentejo desertificado a carecer de gente como solução.

    A fixação deste primeiro grupo de colonos em Moçâmedes  foi, pois, uma oportunidade inesperada que o governo soube aproveitar, e para a qual contribuiu Simão da Luz Soreano, então funcionário do quadro do Ministério da Marinha e Ultramar, que no contacto com determinadas leituras se apercebeu da bondade do clima de Moçâmedes e encaminhou o processo que culminou com a vinda dos colonos do Brasil, aos quais foram fornecidos meios de transporte, empréstimo para compra de alfaias e alguns alimentos para os primeiros tempos da fixação.

    Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, foi o mentor e chefe dessa 1ª colónia agrícola de povoadores portugueses, que, vindos de Pernambuco (Brasil), na Barca "Tentativa Feliz", chegaram a Moçâmedes, Angola, no dia 04 de Agosto 1849 (ao todo 166, entre homens, mulheres e crianças).  


    Segue a relação dos nomes, de homens, mulheres e crianças, que naquele ano de 1949 resolveram partir  rumo a essa odisseia que foi a fundação de Moçâmedes:

     RELAÇÃO DOS COMPONENTES DA PRIMEIRA COLÓNIA DE EMIGRANTES DE PERNAMBUCO (PORTUGUESES)CHEGADOS A MOSSAMEDES (MOCAMEDES, NAMIBE) NA BARCA "TENTATIVA FELIZ" EM 4 DE AGOSTO DE 1849. MUITOS DELES SEGUIRAM DEPOIS PARA A BIBALA, CAPANGOMBE,HUMPATA E HUÍLA :

    ADELINO DUARTE DA NAZARETH - ALBERTO DA FONSECA ABREU E CASTRO - AMÉLIA PEREIRA TAVARES - ANA ANTUNES DE BARROS - ANA GUILHERMINA CAVALCANTI - ANA JOAQUINA DOS PRAZERES - ANA LUÍSA DE CASTRO ROCHA - ANA RITA DOS SANTOS (e filha MARIA) - ANTÓNIO AROUCA - ANTÓNIO COELHO DA MOTA - ANTÓNIO DA COSTA CAMPOS - ANTÓNIO COUTINHO - ANTÓNIO COUTINHO DE AZEVEDO - ANTÓNIO FERREIRA MENESES JÚNIOR - ANTÓNIO JOAQUIM DE ABREU AFONSO - ANTÓNIO JOAQUIM DE ABREU CARDOSO - ANTÓNIO JOAQUIM RODRIGUES - ANTÓNIO JOAQUIM DE SOUSA ARAÚJO - ANTÓNIO JOSÉ ALVES - ANTÓNIO JOSÉ PEREIRA DIAS GUIMARÃES - ANTÓNIO JOSÉ DOS SANTOS BRAGA - ANTÓNIO LOPES DA ROSA - ANTÓNIO MARTINS PEREIRA - ANTÓNIO MOREIRA DA SILVA E SOUSA - ANTÓNIO PEREIRA DA FONSECA (e seus filhos : ANTÓNIO e JOÃO) - ANTÓNIO PEREIRA DO NASCIMENTO - ANTÓNIO PINTO DE QUEIRÓS - ANTÓNIO ROMANO FRANCO (casado com JOANA RAQUEL DA SILVA) - ANTÓNIO DA SILVA TORRES -ANTÓNIO VASQUES (e sua filha JOSEFA) - ANTÓNIO VIEIRA COELHO - AUGUSTO CÉSAR DE ABREU MAGALHÃES - AUGUSTO LEBREMANN (casado com HELENA MARIA DA CONCEIÇÃO) - BALBINA GENEROSA DA CONCEIÇÃO - BÁRTOLO JOSÉ PEREIRA - BENTO DA PAIXÃO VASQUES - BENTO RESENDE PEREIRA - BERNARDINO ANTÓNIO RESENDE - BERNARDINO DA COSTA E SOUSA - BERNARDINO FRANCO PONTES - BERNARDINO FREIRE DE FIGUEIREDO DE ABREU E CASTRO - BERNARDINO JOSÉ BESSA - BERNARDINO JOSÉ DA SILVA - BERNARDINO VIEIRA DOS SANTOS BRAGA - CAETANO DE PAIVA FERREIRA - CLARA MARIA DO ROSÁRIO - DOMINGOS JOSÉ BRAGA - DOMINGOS LUÍS FERREIRA - ELISA DO ROSÁRIO PEREIRA - FILIPA JOAQUINA MARTINS DE LIMA - FIRMINO DE ALCÂNTARA GUIMARÃES - FRANCISCA LÚCIA DOS PRAZERES - FRANCISCA ROSA - FRANCISCO ANTÓNIO DE BRITO - FRANCISCO CECÍLIA - FRANCISCO DOMINGUES DOS SANTOS - FRANCISCO INÁCIO - FRANCISCO JOSÉ PEREIRA - FRANCISCO JOSÉ PINTO DE OLIVEIRA - FRANCISCO JOSÉ RODRIGUES DE CASTRO - FRANCISCO JOSÉ DA SILVA LOPES - FRANCISCO LEAL - FRANCISCO DE MAIA BARRETO - FRANCISCO PINTO FRANCO ROCHA - FRANCISCO RICARDO DA SILVA - FRANCISCO ROMANO MONIZ - FRANCISCO ROSA - FRANCISCO DA SILVA - FRANCISCO TAVARES - FRANCISCO TAVARES DA SILVA - GOTTLIEB HENRY (casado com JACINTA FLORA) - HELIODORO RIBEIRO DA FONSECA - HORTÊNSIA RAQUEL DA SILVA - INÁCIA UMBELINA DO ESPÍRITO SANTO - INÁCIO BRAZ DE OLIVEIRA (casado com GERTRUDES MARIA DA SILVA) - INÁCIO VASQUES - ISABEL DE ÁUSTRIA DE SOUSA PRADO - JOANA MARIA DA FONSECA - JOANA MARIA DO LIVRAMENTO - JOÃO BAPTISTA DE PASSOS - JOÃO BESSA - JOÃO FERNANDES MOREIRA - JOÃO FRANCISCO RIBEIRO - JOÃO LEITE DA COSTA BASTOS - JOÃO MARIA DA SILVA - JOÃO RODRIGUES COELHO - JOÃO SOARES BOTELHO - JOÃO VASQUES LUÍS - JOAQUIM DE ANDRADE PESSOA PIMENTEL - JOAQUIM ANTÓNIO DIAS DE CASTRO - JOAQUIM JOSÉ FERREIRA - JOAQUIM JOSÉ DA ROCHA - JOAQUIM DE PAIVA FERREIRA - JOAQUIM DA SILVA CONCEIÇÃO - JOAQUIM DA SILVA COSTA FRADELOS - JOSÉ DE ALMEIDA MONIZ (casado com JOAQUINA ROSA DE JESUS e filhas MARIA e FRANCISCA) - JOSÉ ANTÓNIO BRANCO - JOSÉ DA COSTA - JOSÉ DA COSTA GUIMARÃES - JOSÉ DO ESPÍRITO SANTO BRAGA - JOSÉ FERNANDES GUIMARÃES - JOSÉ FRANCISCO MOREIRA - JOSÉ GONÇALVES DA SILVA SOARES - JOSÉ JACINTO (casado com MARIA TEREZA JACINTO) - JOSÉ JACINTO DE MEDEIROS - JOSÉ JOAQUIM BENEVIDES - JOSÉ JOAQUIM DE MACEDO - JOSÉ JOAQUIM DE PINHO - JOSÉ JOAQUIM RODRIGUES DE CASTRO (casado com TERESA MARIA DOS PASSOS DE JESUS) - JOSÉ JOAQUIM DA SILVA PEREIRA (casado com TERESA DE JESUS) - JOSÉ LEITE DE ALBUQUERQUE - JOSÉ LEITE DA COSTA - JOSÉ MARIA BARBOSA (casado com MARIA ROSA DA CONCEIÇÃO) - JOSÉ MARTINS FERREIRA - JOSÉ MARTINS DA SILVA - JOSÉ DE MELO DA SILVA PIMENTEL - JOSÉ DE OLIVEIRA - JOSÉ PEDRO DE ALCÂNTARA - JOSÉ PEDRO LEITE - JOSÉ PEREIRA BASTOS - JOSÉ PINTO FRANCO ROCHA - JOSÉ RODRIGUES PIRES DA MAIA (MATA ?) - JOSÉ DA SILVA MONIZ - JOSÉ DA SILVA NOGUEIRA - JOSÉ DE SOUSA - JOSÉ TRILHO FONTES - JÚLIO DA GRAÇA BASTOS - MANUEL DUARTE - MANUEL GONÇALVES BOUCINHO - MANUEL GONÇALVES FERREIRA LIMA (casado com MARIA DA CONCEIÇÃO LIMA) - MANUEL JOAQUIM DE ABREU - MANUEL DUARTE- MANUEL JOAQUIM DA FONSECA - MANUEL JOSÉ ALVES BASTOS - MANUEL JOSÉ FERNANDES - MANUEL LUIS DE ALMEIDA - MANUEL PINTO DUARTE - MANUEL DO REGO CORREIA BARROS - MANUEL DA SILVA TAVARES - MANUEL VASQUES DA CRUZ - MANUEL VICENTE PEREIRA LAMEGO - MARIA CÂNDIDA DE AZEVEDO - MARIA CAROLINA DA CONCEIÇÃO - MARIA JOAQUINA PEREIRA DE BASTOS - MARIA MADALENA DE PAULA - MARIA DO ROSÁRIO ROCHA - MARTINHO DA SILVA PEREIRA - MINERVINA DE CASTRO FRANCO ROCHA - NARCISO FRANCISCO DE SOUSA - RITA MARIA DE JESUS - RODRIGO BARBOSA LEAL - SERAFIM BAPTISTA DA SILVA BASTOS

    Alguns dos componentes desta 1ª colónia, chegados dispersaram-se pela Bibala, Capangombe, Humpata e Huila.

    Em 1850 um novo grupo de emigrantes luso-brasileiros partiu de Pernambuco para Moçâmedes, agora na Barca Bracarense , igualmente capitaneada pelo brigue Douro.


    RELAÇÃO DOS COMPONENTES DA 2ª COLÓNIA DE PORTUGUESES (DE PERNAMBUCO) SAIDOS A 13 DE OUTUBRO DE 1950 E CHEGADOS A MOSSAMEDES (MOCAMEDES, NAMIBE) EM 26 DE NOVEMBRO DE 1950 NA BARCA PORTUGUESA "BRACARENSE" COMBOIADA PELO NO BRIGUE NACIONAL "DOURO". SUBSCRIÇÂO PROMOVIDA PELA COLÒNIA PORTUGUESA DO BRASIL, MUITOS DOS QUAIS SEGUIRAM DEPOIS PARA O "CHÃO DA CHELA"(BUNGO)E HUILA :

    ANICETO MONIZ BESSA - ANTÓNIO CARDOSO CALDEIRA - ANTÓNIO FRANCISCO NOGUEIRA - ANTÓNIO JOSÉ MENDES - ANTÓNIO JOSÉ DA ROCHA - ANTÓNIO RIBEIRO DA COSTA PORTO - CLAUDINO FERREIRA PINTO - DIOGO JOSÉ DE OLIVEIRA - FRANCISCA MARIA DA CONCEIÇÃO - FRANCISCA MARIA DE SANTANA E SILVA (com seus filhos : DOMINGOS e MARIANA) - FRANCISCO ANTÓNIO DE MESQUITA (casado com JOANA DA CONCEIÇÃO MESQUITA e sua filha IDALINA) - FRANCISCO BOAVENTURA FERREIRA - FRANCISCO FERREIRA RANGEL PINTO - FRANCISCO INÁCIO FERREIRA - FRANCISCO JOSÉ DA COSTA - FRANCISCO JOSÉ PAVÃO (casado com ANTÓNIA JOAQUINA, acompanhados por seus filhos : MARIA, JOAQUIM, JOSÉ e RICARDA) - FRANCISCO JOSÉ RICARDO FERREIRA - FRANCISCO JOSÉ RODRIGUES - FRANCISCO JOSÉ DA SILVA MORAES - FRANCISCO DE LIMA - FRANCISCO RODRIGUES PINTO DA ROCHA, natural de Lamego - GERÓNIMO INÁCIO VALADÃO, natural de Pernambuco (com seus filhos : ANGELA, ANTÓNIA, ANTÓNIO, CLARA, COSME, DAMIÃO, JOÃO e MARIA) - GUILHERME EVANGELISTA CRITTONOVICHI - HENRIQUE DE ALMEIDA RODRIGUES - IDALINA SOARES DE AL-BERGARIA - INÁCIO AUGUSTO DE AGUIAR - INÁCIO JOSÉ DA COSTA - ISABEL AMÉLIA DE SOUSA - JACINTO DE COUTO FALCÃO - JACINTO SIMÕES DE ÁVILA -JOÃO ANTÓNIO DA SILVA - JOÃO DA COSTA MANGERICÃO (casado com BERNARDA DE JESUS e seus filhos : ANA, JOSÉ e TERESA) - JOÃO EVANGELISTA PIRES (casado com JOAQUINA MARIA PIRES) - JOÃO JACINTO DE CARVALHO - JOÃO JACINTO PEREIRA CABRAL - JOÃO JOSÉ DE OLIVEIRA - JOÃO DE SOUSA MOREIRA - JOAQUIM DA COSTA - JOAQUIM GONÇALVES VIEIRA -JOAQUIM JOSÉ ANDRÉ - JOAQUIM JOSÉ BENTO, natural do Porto - JOAQUIM PEREIRA DOS SANTOS - JOAQUIM PEREIRA DA SILVA - JOAQUIM SOARES BARBOSA - JOAQUINA MARIA DA CONCEIÇÃO - JOAQUINA MARIA DOS SANTOS - JOSÉ ANTÓNIO LOPES DA SILVA, natural de Santiago de Vila Seca-Braga- JOSÉ ANTÓNIO PINTO GUIMARÃES - JOSÉ CORREIA NUNES - JOSÉ FERNANDES TORRES - JOSÉ FRANCISCO DE AZEVEDO - JOSÉ FRANCISCO DE PAULA - JOSÉ JOAQUIM DA COSTA (casado com FRANCISCA ALEXANDRINA DA SILVA COSTA e seus filhos : ADELAI0.DE, AMÉLIA, EDUARDO, IRONDINA, MANUEL e NESTOR) - JOSÉ LUÍS MENDES - JOSÉ PEDRO DE SOUSA PINTO - JOSÉ PEREIRA DE ALMEIDA - JOSÉ RAMALHO DE SOUSA - LUÍS JOSÉ DIAS BRANDÃO - MANUEL CARDOSO DE SOUSA - MANUEL FERREIRA DA CUNHA - MANUEL JOAQUIM MARQUES DA FONSECA - MANUEL JOAQUIM TORRES (casado com MARIA JOSÉ DA COSTA TORRES e sua filha AMÉLIA) - MANUEL JOSÉ MACHADO - MANUEL JOSÉ MOREIRA - MANUEL JOSÉ DE OLIVEIRA - MANUEL JOSÉ PEREIRA (e seus filhos : ANTÓNIO, EUFRÁSIA, JOSÉ e MARIA) - MANUEL JOSÉ RIBEIRO DE FIGUEIREDO, natural de Vizeu - MANUEL JOSÉ RODRIGUES (casado com FRANCISCA ROMANA SALGUEIRO e seus filhos : FRANCISCO e JOÃO) - MANUEL JOSÉ SANTIAGO (casado com MARIA ROSA DA CONCEIÇÃO) - MANUEL LÁZARO DE BARROS - MANUEL MONIZ GESTEIRO - MANUEL RODRIGUES PINTO DA ROCHA, natural de Tendais, distrito de Vizeu - MANUEL SOARES DE BRITO - MANUEL VIEIRA DOS SANTOS - MARGARIDA DE JESUS - MARIA FILIPA DA CONCEIÇÃO - MARIA JOAQUINA DUARTE MONTEIRO - MATEUS FERREIRA FRANCO - PAULINO ANTÓNIO GONÇALVES PEREIRA - ROSA MARIA DO NASCIMENTO - ROSA DE MEDEIROS - SIMEÃO PINTO VITORINO - TEOTÓNIO JOAQUIM DA COSTA (casado com EMÍLIA CÂNDIDA DE LACERDA) - FRANCISCA MARIA DA CONCEIÇÃO e VITORINO DE MELO PUGA . VOLUME (1837/1912)


    Alguns dos componentes da 2ª colónia, dispersaram-se pelo chão da Chela (Bumbo)  e Huila.


    Do Boletim Geral Ultramarino XXVll  322 por Manuel Júlio de Mendonça Torres: "A Dessiminação colonizadora do Distrito de Moçâmedes e a formação dos seus aglomerados demográficos":

    Os colonos de 1849/50 fixaram-se não só em Moçâmedes, mas também se disseminaram pelas margens do Béro e Giraúl (arrabaldes campestres), pelos rios do Norte (Carunjamba e S Nicolau), pelas margens de um rio do sul ( Coroca), e pela região interior (Bumbo).

    Formaram assim, além da povoação de Moçâmedes, capital do Distrito, os primeiros aglomerados rurais com 95 propriedades (Hortas, Boa Vista, dos Casados, da Boa Esperança, dos Cavaleiros, da Macala) e as de outros vales. E não apenas núcleos agrícolas, construíram também aglomerados marítimos instalando 22 pescarias no Distrito, 18 das quais em Moçâmedes, 1 na Baía das Pipas, 1 no Baba, 1 na Lucira e 1 em Catara.

    (...)
    O governador do Distrito Fernando Augusto da Costa Cabral, em relatório datado de 19/06/1877 indica-nos os aglomerados rurais do seu tempo (1877-78), que constituíam as fazendas agrícolas das cercanias da vila, situadas nas margens do rio Bero (Hortas, Quipola, Cavaleiros) e do rio Giraúl, com menção dos nomes dos seus donos. Hei-los, com designação dos respectivos proprietários:

    Hortas:  António Moreira da Silva e Sousa
                  António Acácio de OLiveira Carvalho
                  António Jacinto Neves
                  João José de Oliveira
                  Manuel de Oliveira Soares
                  Rodolfo Antão
    Quipola:António Moreira da Silva e Sousa
                  António Rodrigues Boa Tarde
                  Aires Correia de Sousa
                  Casal de Manuel Ferreira de Lima
                  Domingos Gomes Galambas
                  Inácio Saraiva Ferrão Pimentel
                  Joaquim de Paiva Ferreira
                  José Joaquim da Costa
                  José Augusto Liberman
                  José António Todo Bom
                  Luis Soares Ferreira
                  Manuel Pinto e Silva
                  Manuel P. Duarte
                  Manuel Moreira da Silva
                  Manuel José Machado
    Cavaleiros
                  Augusto Tomás dos Santos
                  Aguiar e Bire
                  Casal de Justino António da Silva
                  Ferreira de  Carvalho
                  Casal de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
                  Dameso M. da Silva e Sousa
                  Elias Fortunato
                  José Ferr Soares
                  Maria Madalena da Silva e Sousa
                  e Simão José de Abreu
    Giraúl    Aires Borges de Azevedo
                  Francisco José Moreira
                  Inácio Eugénio Ribeiro
                  José Joaquim da Costa
                  José Ferr Duarte Leitão
                  Liberman & Pereira
                  Manuel de Almeida Soares
                  e Moreira & Irmão

    No tempo do Governador Costa Cabral existiam  nos arredores de Moçâmedes, como consta do citado relatório do Governador, 39 propriedades, todas muito importantes e produtivas. As das "Hortas" e sobretudo a dos "Cavaleiros" que se estendiam pelos fertilíssimos terrenos das 2 margens do Bero, abundavam em plantações de cana; e as do Giraúl, situada a 4 léguas da vila extremavam-se em culturas de algodão.

    Havia ainda durante este ciclo, mas já bastante desviadas do centro populacional da capital do distrito, mais 10 fazendas agrícolas, cujos proprietários também vem indicados no relatório de Costa Cabral de 19/06/1877. Umas situadas a norte, nas margens do rio S. Nicolau, outras ao sul marginando o rio Coroca. De umas e doutras as mais importantes merecem registo específico, o que faremos a seguir.
    (...)
    Pg 41 do Boletim Geral Ultramar XXVIII 322, 1952
                                                                                                                  



    Seguem mais algumas fotos  conseguidas de colonos que nas listas acima vêm assinalados a bond :


                                                                                
    António Moreira da Silva, componente da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849.



    João Duarte de Almeida, componente da 1 colónia, o maior possuidor de algodoais nas suas fazendas de S. João do Norte, de S. João do Sul e de S. Nicolau, e  principal exportador de algodão do Distrito, Agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo. 
     Amélia Duarte de Almeida

    Amélia Duarte de Almeida, componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1850. 




     Manuel Joaquim Torres, natural dos Açores, São Miguel, 09.04.1813, casou com Maria José da Costa, 1827 . Consta que eram  pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil, e em Moçâmedes foram proprietários, entre outros, de uma fazenda na Várzea dos Casados. Seus restos mortais repousam em mausoléu «aristocrático» no Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no qual se encontram gravados os seguintes dizeres: «Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias nas lutas fratícidas de 1822».




    MARIA JOSÉ DA COSTA TORRES



    José Joaquim Pinho,  natural de Aveiro, Terra da Feira, c. de 1820, foi componente da Primeira Colónia de portugueses que, saídos de Pernambuco, em Maio de 1849, na barca brasileira "Tentativa Feliz" acompanhada pelo brigue de guerra português "Douro", de entre os quais sobressaiu, Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, o chefe da colónia, chegaram a Angola a 4 de Agosto de 1849, e fundaram a cidade de Moçâmedes. Era proprietário de terras na região, entre elas a fazenda situada na Várzea da Boa Esperança. Era filho de JOSÉ JOAQUIM DE PINHO e de MARIA DE JESUS RODRIGUES. (in Genea= era filho de José Joaquim de Pinho e de Augusta Gomes). JOSÉ JOAQUIM DE PINHO teve de uma primeira união (ainda solteiro), da qual deixou descendência. Casou com MARIA DOS ANJOS RODRIGUES, natural da Ilha de São Miguel (filha de ANTÓNIO RODRIGUES e MARIA DE JESUS RODRIGUES, naturais dos Açores, São Miguel), falecida em Moçâmedes a 1.5.1873, da qual deixou descendência. Era proprietário de terras na região, entre elas a fazenda situada na Várzea da Boa Esperança.  Repousa no cemitério de Moçâmedes onde foi mandado erguer, pelos seus filhos, um mausoléu no lugar em que está enterrado junto a sua mulher (legítima).


     

    José Rodrigues Pires da Maia, componente da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849.


    Joaquim Paiva Ferreira


    Joaquim Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849. Fez parte da Comissão para a formação em Moçâmedes da Escola Lusitana, de raiz maçónica.  

     
    Manuel José Alves de Bastos
     

    Amélia Torres Bastos
      Amélia Torres era casada com Manuel José Alves Bastos, componentes da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849. Amélia Torres era filha de Manuel Joaquim Torres de de Maria José da Costa. Manuel José Alves de Bastos era comerciante e proprietário  dedicou-se ao comércio de marfim e gado, às actividades agrícola com plantações, e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos na época. Repousam em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.
     
    Narciso Francisco de Sousa

    Narciso Francisco de Sousa

    Narciso Francisco de Sousa, natural do Porto, Lordelo de Ouro, 02.08.1830,  componente da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849, por ocasião da onda de anti-lusitanismo gerada pela revolução praeeira. Era filho de Joquim Francisco de Sousa e de Joaquina Maria Paiva. Era casado com Antónia Leopoldina Correa Bettencourt Pereira. Foi  comerciante de urzela em S. Nicolau


    José Leite de Albuquerque
    José Leite de Albuquerque componente da 1ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849, por ocasião da onda de anti-lusitanismo gerada pela revolução praeeira. Estabeleceu-se na colónia de Capangombe e Bumbo (foto do Boletim Geral do Ultramar),  a algumas léguas de Moçâmedes, prosperou na cultura da cana e da mandioca, e era o que mais se distinguia na zona pelos seus trabalhos agrícolas. Outros colonos seguiam o seu exemplo. In Annais Conselho Ultramarino- Parte não oficial-

    António Francisco Nogueira

    António Francisco Nogueira, componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1850. Autor do livro «A raça negra».



    Francisca Alexandrina da Silva Costa
    Francisca Alexandrina da Silva Costa

    Francisca Alexandrina da Silva Costa , componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1850. Esposa do chefe da 2ª colónia, José Joaquim da Costa, do qual nao constam fotos.. 


    Hirondina da Costa Brito

    Hirondina da Costa Brito

    Hirondina da Costa Brito, componente da 2ªcolonia vinda do Brasil para Moçâmedes, em 1850. Filha do Chefe da 2ª colonia, José Joaquim da Costa.

     

     



    Manuel José Ribeiro de Figueiredo, (1821-1881)
     Manuel José Ribeiro de Figueiredo

    Manuel José Ribeiro de Figueiredo, (1821-1881), componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1849.




    Manuel Rodrigues Pinto da Rocha

    Manuel Rodrigues Pinto da Rocha

    Manuel Rodrigues Pinto da Rocha, componente da 2ª colónia vinda de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes em 1850. Era casado com Idalina Soares Albergaria e natural de Tendais (Vizeu

    Idalina Soares de 
Albergaria


    Idalina Soares de Albergaria

    Idalina Soares de Albergaria, componente da 2ª colonia vinda de Pernambuco para Moçâmedes em 1850. Era esposa de Manuel Rodrigues Pinto da Rocha, componente da 1ª colónia (foto acima).
    Informações colhidas, entre outros em:
    «Moçâmedes» 1º Volume, de Manuel Júlio de Mendonça Torres
    -Texto integral- ao qual anexei algumas fotos a que tive acesso

    Annais Conselho Ultramarino- Parte não oficial-


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    Pg 41 do Boletim Geral Ultramar XXVIII 322, 1952