Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 22 de outubro de 2008

WELWITSCHIA MIRABILIS


WELWITSCHIA MIRABILIS

Moçâmedes é a terra de nascimento da minha mãe e da minha avó e avô maternos e, foi lá que aportou a minha bisavó materna quando ainda tinha poucos anos de vida, depois de uma longa viagem com início na ilha da Madeira.

E é precisamente no deserto de Moçâmedes que se encontram os ÚNICOS exemplares da espécie da flora deste nosso planeta - a WELWITSCHIA MIRABILIS - que eu enquanto residi em Angola tive a oportunidade e a felicidade de a ver e apreciar

A 3 de Setembro comemora-se o dia da Welwitschia Mirabilis, planta desértica, descoberta nesta data no ano de 1859 pelo botânico explorador austríaco Frederich A. Welwitsch
Frederic Welwitsch (1809-1878) foi para Lisboa em 1839.
Posteriormente conseguiu autorização para entrar em Angola, para onde embarcou
a 8 de Agosto de 1853.
Fez demoradas explorações botânicas e descobriu a Welwitschia Mirabilis no deserto de Moçâmedes (actualmente com o nome de Deserto do Namibe).

A planta que recebeu o binome de Welwitschia Mirabilis Hook. F. era tão diferente, morfologicamente de todas as espécies botânicas conhecidas, que dada a grandeza dessa diferenças, não “cabia” em nenhum dos géneros já descritos.
Houve, por isso, a necessidade de criar um género novo, o qual ainda se conserva, como uma única espécie consequentemente.
Houve ainda que definir uma nova família de plantas para este único género, a família das WELWITSCHIACEAE.
WELWITSCHIA , é também conhecida por "Tumbo", pelos autóctones, nativos da região do deserto de Moçâmedes.


As suas flores são unisexuadas.
Os estames masculinos atingem aproximadamente 6 cm (antenas com 3 divisões) localizam o óvulo estéril envolto pelo periano.



Welwitschia é uma planta da família das gimnospérmicas adaptada á vida nas regiões desérticas da África tropical.
É uma planta acaule de grandes dimensões, com a forma de um gigantesco cogumelo dilatado e côncavo de 50 a 75 cm de altura que parece partida pelo golpe de um machado em tiras. As suas grandes folhas, duras e muito largas, deitadas no chão, arrastam-se pelo deserto podendo atingir dois ou mais metros de comprimento.
Diversos trabalhos mundiais sobre a Welwitschia encontram-se em exposição em vários
Jardins botânicos espalhados pelo mundo.

Que se encontram descritos no livro Botanical Gardens of the World

Entre outras pessoas que deram igualmente o seu contributo na pesquisa desta espécie no período de 1953 a 1955, podemos destacar os seguintes Professores:
A.H. Church,
E. Salisbury,
Henri Humbert,
Jose Dalton Hooker,
Luís Wittnich Carrisso,
Melo Geraldes,
R. J. Rodin,
W.J.Hooker
Mais recentemente, Maria Helena Boavida
Coisas que já se disseram acerca da "welwitschia mirabilis":

"A "welwitschia mirabilis", descoberta nas vizinhanças do Cabo Negro, da costa odicental africana, é a mais curiosa das gnetaceas e talvez que de todas as dicotiledoneas. Este bizarro vegetal é conhecido entre os indígenas pelo nome de TUMBO."
(Dr. José Dalton Hoecker, Presidente da Socidade Real de Londres e sócio da Academia das Ciências de Paris)
"Uma das curiosidades do deserto de Moçâmedes é a célebre "welwitschia mirabilis", planta estranha, verdadeiro aborto do reino vegetal. O caracteres aberrantes do seu aparelho vegetativo, conferem-lhe um lugar de destaque no conjunto das formas vegetais."
(Dr. Luís Wittnich Carrisso, Professor de Botânica da Universidade de Coimbra.)
"A "welwitschia mirabilis" é uma das maiores maravilhas que tem produzido a natureza."
(Dr. Augusto Henriques Rodolfo Griesbach, Professor de Botânica da Universidade de Göttingen)
"É sem sombra de dúvida a planta mais maravilhosa e também a mais feia que jamais trouxeram a este país."
(Regius Keeper, do Royal Botanic Gardens, Kew - 1863)
"Foi nos anos de 1858/59 que o botânico austríaco Dr. Welwitsch, contratado pelo governo português, descobriu e classificou a "welwitschia mirabilis", dando-lhe o nome de "tumboa bainesii". Os caracteres desta notável planta são de tal modo desconsertantes, que vindo a ser estudada há perto de 80 anos pelos mais eminentes botânicos, ainda hoje se discute qual o lugar que lhe compete na escala botânica, como se pode ler nos autores citados e nos trabalhos de Baines, Anferson, Júlio Henriques, Hallier, Chodal, etc..
A "welwitschia mirabilis" por consenso geral é tida como a maior descoberta botânica do século XIX e, em todo o globo, é o distrito de Moçâmedes o único lugar em que ela vegeta, havendo centenas de milhares na parte desértica, desde os minúsculos exemplares, até aquelas que, pelo seu porte, demonstram uma existência multissecular."
(M.A. de Pimentel Teixeira)
Consultar ainda:

in PSITACIDEO........
Mais sobre o assunto:
explorador zoologico Francisco Newton in
http://www.triplov.com/newton/welwits.html

Banha de Andrade O Naturalista José de Anchieta
http://hybris.no.sapo.pt/newton/welwits.html



....



Além de Welwitsch, quem visitou a Welwitschia, porque a sua missão incluía o deserto de Moçâmedes e saber se o curso do Coroca tinha ligação com o Cunene, foram Capelo e Ivens, como eles próprios contam em De Angola à Contracosta. 

As missões em África tinham muitos opositores. A ala liberal nunca foi colonialista, apoiava as independências. Capelo e Ivens iniciam a travessia de África de 1884 por Moçâmedes, seguem pela Huíla, descem o rio Caculovar até ao Humbe e prosseguem até Quiteve pela margem direita do Cunene.  Decifram o enigma dos morros de ferro magnético ( o Tongotongo é um morro, no Hai - Huíla).  Onde abbundava o sesquióxido de ferro magnético, encontrando-se grandes massas de magnetite, que produzem sobre a agulha os mais extraordinários desvios. O morro era conhecido também pelo nome de morro Sagrado, onde os indígenas da localidade celebravam anualmente uma festa. Os locais por onde Júlio Henriques faz passar Newton - Chimpumpunhime, Xicussi, etc., são estações do roteiro de Capelo e Ivens.

Antes deles e de Welwitsch, o pioneiro da exploração de Moçâmedes, Huíla, Bumbo, Cunene, Giraul, Cubal, etc., foi Gregório Mendes, no final do século XVIII. Quanto ao enigma da foz do Cunene, invisível por no tempo seco as águas se infiltrarem nas areias e nem chegarem ao mar, só em 1854 Fernando Leal a descobriu.

O Lubango foi um dos locais de colheita de Newton em situação de ubiquidade (errática).No dua 31 de Dezembro de 1881. Frank Newton, na Secretaria do Governo de Moçâmedes, tratava de qualquer documento, pelo que pagou $185 de emolumentos (Boletim Official de Angola). Se Newton andou pela Huíla, conheceu Duparquet, até porque os exploradores se alojavam nos fortes, nas roças ou nas missões. Mas conheceu-o depois de 1883. Porém, como Duparquet morreu no ano seguinte, e Newton, em 1883, não saiu do Giraul, de Monhino nem de Bibala, em Moçâmedes, só o pode ter conhecido  através da  literatura.






 

sábado, 4 de outubro de 2008

Manuel Abreu (o Mata-porcos), exibindo um troféu de caça, uma leoa abatida no Deserto do Namibe - 1922



Manuel Abreu, o Mata-Porcos


Anos 30. Noutros tempos dizia-se que leões rondavam vila de Moçâmedes... para quem não acredita, prova está aqui. Havia mesmo leões em zonas circunvizinhas. Manuel Abreu (filho), mais conhecido por «Mata-Porcos», no quintal da sua casa da Rua dos Pescadores, em Moçâmedes exibe a leõa que acabara de abater.


*

O porquê "MATA PORCOS"?

O patriarca remoto desta família, José de Abreu, avô de Manuel Abreu (filho) enquanto na Ilha da Madeira exercia a profissão de produtor de fumados e salsicharia, profissão que Manuel, seu neto, continuou a exercer em Moçâmedes, para onde a família se mudou, e onde era proprietário do «Bazar do Povo», loja que ficava situada numa esquina da Rua das Hortas com a Rua 4 de Agosto e onde vendia de tudo um pouco.

Mas Manuel de Abreu era também um exímio caçador dos animais do deserto de Moçâmedes. Aliás a sua faceta de caçador encontra-se intimamente ligada à sua actividade do comércio de carnes.

 

Naquele tempo não havia assistência profilática pecuária em Moçâmedes e muitas das rês dos bovinos abatidos para consumo da população não ofereciam garantias devido à contaminação que amiúde acontecia, uma vez que apresentavam a presença da «cisticercose». Para colmatar essa carência, Manuel de Abreu ia para o deserto caçar os animais selvagens, que ele próprio esquartejava e preparava, para pôr à venda no seu «Bazar do Povo», apetrechado do respectivo talho.



Aconteceu porém que em pouco tempo o gostinho pela caça acabou por se entranhar no espírito de Manuel de Abreu e do seu grupinho de amigos que passaram a frequentar o Deserto do Namibe, não já apenas para matar gazelas, olongos, guelengues, e outros animais, tendo em vista as carências alimentares da população, mas também, e sobretudo, pelo puro prazer de experimentar a pontaria e apresentar troféus de caça, situação que viria a afastar os animais da periferia da cidade para mais longe, para fugirem às perseguições de que eram alvo,  difícultando o transporte dos animais abatidos para a cidade.


Mas como o engenho humano não pára, eis que um dia Jacinto Gomes, outro emigrado da Ilha da Madeira a viver em Moçâmedes, ao regressar de umas férias na Metrópole, trouxe consigo um casal de cães galgos que passaram a ajudar, perseguindo e rodeando a caça, de modo a atrair os animais para mais próximo do alvo dos atiradores. Lamentavelmente não seria por muito tempo, porquanto subitamente estes galgos viriam a morrer não se sabe bem de quê. 


Foi quando o Engº Bernardo de Figueiredo, natural de Moçâmedes, no regresso da Alemanha trouxe consigo uma moto com «side-car», que este veiculo veio facilitar as caçadas, sempre necessárias, e para fazer o gosto ao dedo, o Engº convidava o «Mata-porcos» para o acompanhar e o ajudar posteriormente no esquartejamento dos animais. Outras vezes era Raúl de Sousa, mecânico por excelência, que o acompanhava nessas caçadas de «side-car» pelo Deserto do Namibe. 

 

E era assim que durante muito tempo a população de Moçâmedes se ia abastecendo de carne, para
além do bom peixe que no rico mar da terra sempre existia com fartura. Mas ainda não ficamos por aqui, pois com o decorrer do tempo surgiu em Moçâmedes o primeiro automóvel, um «Ford T» de 4 cilindros a gasolina que para ser posto a trabalhar necessitava de manivela. Estava-se em 1922. A partir daí tudo ficou mais facilitado em termos de distâncias, mas como o reverso da medalha nunca deixa de estar presente, é preciso que se diga que muitas e muitas barbaridades se fizeram com a matança de gazelas e de outros antílopes mais corpulentos, incluindo equideos.  Os abusos chegaram a tal ponto que, quando foi criada a Delegação dos Serviços Pecuários em Moçâmedes, alguns anos depois, o Dr. Carlos Carneiro teve que pôr aquela gente na ordem ao ter-se apercebido da situação, e acabou por probir as ditas caçadas até à publicação de regulamentação por aqueles Serviços.

Voltando a Manuel de Abreu, importa referir que ele era também uma espécie de ortopedista, ou mais propriamente, era um «endireita», pois sempre que havia alguém acidentado lá ia ajudar a pôr as articulações no devido lugar. E o mais curioso é que o fazia sem que a pessoa em causa ficasse a apresentar no futuro quaisquer sequelas. Outro «ortopedista-endireita» de Moçâmedes era João Ferreira, carpinteiro de profissão, que ajudou muita gente da terra a colocar no lugar ossos e articulações que sem a sua intervenção ficariam aleijados para sempre.





Crianças da familia observam a leoa abatida.no quintal da casa de Manuel de Abreu, na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes



 Exibindo o troféu de caça na Rua dos Pescadores, em Moçâmedes, na frente de uma carrinha «Brokway».  Imagino como seria o primeiro carro de Moçâmedes, o carro do Dr. Lapa e Faro, médico na década de 1860 em Moçâmedes, que ohavia mandado construir para transportar as pessoas para caçadas pelos areais do deserto. Trata-se de um carro que além de conduzir passageiros, servia também para transportar doentes e combalidos.




Exibindo o troféu de caça. De braços no ar, Mata-Porcos, e Raul de Abreu
Manuel Abreu, à esq., David Abreu (óculos). António Abreu (?)…

 


 Manuel Abreu (3º, da dt para a esq.), David Abreu (2º à dt.), Raul Abreu ao volante

 
Manuel de Abreu à dt., com o seu grupo de familiares e amigos na sua «Brokway», adaptada com carroceria a camionete para que todos pudessem se deslocar às feridas caçadas no Deserto do Namibe. O 2º à dt., de branco é filho de Manuel, o Raul de Abreu, o 3º, David Abreu... Repare-se como naquele tempo ia-se para o deserto caçar de fato e gravata...

 

 
                      
   Manuel de Abreu, à esq., segurando a corda atada ao pescoço da zebra.


Grupo de que faz parte Angelo Abreu (1º à esq.), Manuel Abreu (5º, à partir da dt.) e esposa (senhora 3ª à esq. da qual apenas se vê o chapéu), João Abreu? e algumas senhoras vestidas a preceito, entre as quais sentada e a segurar o chifre do guelengue, Emilia Abreu (?)...





 



Raúl de Abreu, à esq e Manuel de Abreu de cigarro na boca, à dt. com familiares e amigos, exibindo o troféu da caça: um enorme guelengue. 



 
A IDA DA FAMILIA ABREU PARA MOÇÂMEDES




A foto que segue mostra-nos Manuel Abreu, o "Mata Porcos" quando ainda criança, à esq., vestido de menina com  laços e uma boneca na mão, na companhia de seus pais Manuel de Abreu (pai) e Anastácia de Jesus, e de seu irmão Raúl de Abreu, à dt, vestido de marujo e também segurando oma boneca. .






A foto: Os modos de se vestir e de se apresentar ao mundo revelam o modo de ser de cada época da história da humanidade. Quando esta foto foi tirada, no Lubango, no início do século XX, como podemos ver, as senhoras ainda usavam vestidos compridos, e era chic, em certos estratos sociais, vestirem as crianças à marujo, assim como era comum verem-se crianças pequenas, do sexo masculino, geralmente o 2º filho do casal, vestidas como fossem meninas, com vestidos de folhos, laços no cabelo, cabelos compridos, caracóis, etc. Também era tido como normal, os meninos brincarem com bonecas. Talvez porque deste modo as mães, ainda que por breve período de tempo, matassem o desejo impossível de terem a seu lado a menina que tanto desejavam... Quanto aos homens, estes usavam grossas correntes, em prata ou em ouro, que seguravam relógios de bolso, o que também constituia um distinto em termos sociais, colete e gravata, esta contornando uma gola de camisa diferente da que conhecemos nos dias de hoje. Para além dos bigodes retorcidos, é claro! Mudam os tempos, mudam as mentalidades e as modas também, mas ficam registos interessantes como este, que para além de trazerem à recordação familiares antigos, ficam para sempre inscritos na história dos costumes e da moda de determinada época, povo e região





Manuel de Abreu pai era filho de José de Abreu, natural de Tábua, e de Maria do Nascimento. Dos quatro que se encontram nesta foto, apenas Manuel de Abreu pai integrou a 2ª colónia de madeirenses, em 1885, quando tinha 7 anos de idade, viajando na companhia de seus pais e de 7 irmãos, Maria, Vitorina, Francisco, Antónia, Virginia, João, Manuel e António (mediando entre os 23 e os 3 anos de idade). Os três da foto, Anastácia e os filhos de ambos, Manuel (o "Mata Porcos") e Raúl, eram já nascidos no Lubango. Foto do início do século XX


Portanto, em 8 de Junho de 1885, no vapor "ÁFRICA", partiu do Funchal (Ilha da Madeira) uma 2ª colónia composta por 206 madeirenses rumo a Moçâmedes (à época Mossâmedes/ actual cidade do Namibe, em Angola), onde chegaram a 19 de Agosto do mesmo ano. Iam juntar-se aos madeirenses ali chegados em 1884. Após uma estadia de cerca de um mês em Moçâmedes, tal como acontecer com os seus companheiros, partiram, a pé, e em carroças boers, atravessarem o deserto e escalaram a Serra da Chela, para ali, a muitos quilómetros do mar, se fixarem através das maiores adversidades, e contribuirem para o povoamento europeu da terras altas da Huila (Sá da Bandeira/Lubango).



Antecedentes


O primitivo impulso para a deslocação dos colonos da Ilha da Madeira para o Lubango veio do receio de Portugal face à ambição das nações europeias dirigidas para o sul do território, nomeadamente da parte da Inglaterra, a velha aliada, e da Alemanha. Foi então que o condutor de Obras Públicas ao serviço no Distrito de Moçâmedes, Câmara Leme, impressionado com o paradisíaco vale do Lubango, procurou levar a cabo diversas tentativas tendo em vista o povoamento dirigido naquelas terras desabitadas do planalto sul de Angola, nomeadamente na Huíla, Humpata, Palanca e Bibala, região excepcional para a agricultura, cujas serranias faziam-lhe lembrar a Ilha da Madeira, seu berço natal, onde abundavam terrenos férteis, água pura e cristalina, e onde encontrariam um clima de uma amenidade incomparável em África. Aliás, no ano partida do 1º contingente de colonos madeirenses, teve inicio a Conferência de Berlim (1884-1885) que teve a participação de 15 países, 13 pertencentes à Europa, incluindo Portugal, e o restante advindo dos Estados Unidos e da Turquia, tendo por objectivo a elaboração de um conjunto de regras que dispusessem sobre a conquista da África pelas potências coloniais da forma mais ordenada possível, mas que acabaria resultando em uma divisão nada pacífica (Partilha de África).


A ideia de Câmara Leme veio ao encontro da preocupação governamental de contrabalançar os contingentes boers, emigrados da África da Sul para as terras planálticas da Huila, acossados pelas forças militares inglesas, e levou-o a deslocar-se à Metrópole para a expôr ao Ministro da Marinha e Ultramar, uma vez que o Governador Geral da Colónia não possuía poderes para tal. E foi assim se desenvolveu na Ilha da Madeira toda uma campanha de angariação de povoadores que visava ao mesmo tempo contrariar o fluxo migratório dos madeirenses para o Hawai, ilhas Sandwich, Demerara, onde em alguns destes locais, conforme a imprensa da época passou a veicular, se praticava uma autêntica escravatura branca.

Assim teve início a fixação da 1ª colónia de madeirenses em terras do Lubango, que constituiu uma verdadeira epopeia, ainda que o processo tivesse merecido uma planificação mais cuidada, na esteira da transferência dos portugueses de Pernambuco para Moçâmedes, em 1849. A colónia agrícola destinada ao planalto da Huila foi programada nas secretarias do Ministério da Marinha e Ultramar, em Lisboa, no primeiro semestre desse ano em que teve início a célebre Conferência.


Portugal estava a braços com uma sistemática crise financeira e social, e o recrutamento efectuado através da imprensa e de editais colocados no adro das Igrejas, ao qual apenas responderam apenas os madeirenses, não foi selectiva nem organizativa o quanto baste, e acabou por obedecer apenas a exigências de natureza política. O Estado limitou-se "arrebanhar", candidatos sobretudo onde a pobreza era mais premente, como era o caso da ilha da Madeira, gente indiferenciada, sem emprego, que deambulava por cidades e vilas: Funchal, Machico, Câmara de Lobos, etc, que por razões de ordem social e/ou económica estava disposta a partir para rumos desconhecidos. Câmara Leme apodou-os de "vadios". Na Ilha da Madeira por aquele tempo, a miséria dos campos levou à fuga para as vilas e cidades, de gente não preparada, sem condições para acompanhar as transformações em curso, gerando uma tensão permanente entre os antigos moradores. Na Madeira não existia terreno fértil por demarcar, e por esta altura os que quisessem sobreviver apenas encontravam no Estado a oportunidade de uma oferta de passagens e de um pouco de terreno para cultivar, lá muito longe onde os esperava um futuro não menos incerto. Foi, pois, neste desassossego que partiram mar fora, muitos dos 222 madeirenses, que embarcaram no Funchal, no vapor "Índia", destinados ao povoamento do planalto da Huila. Quanto à coesão e à diversidade deste grupo, afirma António Trabulo: “Na maioria dos casos, os emigrantes não se conheciam. […] Pouco mais de metade dos novos colonos trabalhava a terra desde sempre. Os outros eram marinheiros sem barco, pescadores sem rede, artífices sem emprego, ladrões, umas tantas prostitutas em idade da reforma e alguns chulos. Unia-os a pobreza e a esperança numa vida melhor. […] A bordo, as famílias foram obrigadas a dividir-se… homens e mulheres ficaram separados e apenas as crianças pequenas puderam acompanhar as mães.” In TRABULO, António – Os Colonos. Lisboa: Esfera do caos Editores Lda. 2007, p. 22-25.




Por essa altura, tinha chegado à Colónia de S. Januário, na Humpata, um inglês de nome Mr Botha, que vinha convencer os colonos boers ali instalados, a regressarem ao Transval, e a integrarem uma acção contra os povos revoltosos da Damaralândia, e para os aliciar, assegurava haver ali marfim em quantidade. Mas o grupo boer preferiu avançar até ao Bailundo, a noroeste Benguela, e daí avançar até ao Quipungo, Caconda, bacias Cunene e Cubango, e acabaram por se instalar em Otchinjau. Para estas digressões, que tiveram o apoio Governadores Geral e de Moçâmedes, chegou a ser organizada uma subscrição de recolha de fundos para prendas aos sobas da região.


Voltando ao 1º grupo de colonos madeirenses, estes saíram do Funchal no vapôr "India", acompanhados de D. José da Câmara Leme, o Director da colónia, também ele madeirense, conhecedor do sul de Angola, (Câmara Leme tinha construído a ponte de cais em Moçâmedes, destinada a barcos de pequeno calado). Chegados a Moçâmedes , o "India" esteve ancorado ao largo, na baía, enquanto decorreu o desembarque, através de escaleres, e os colonos foram alojados em barracões provisórios, ficando a aguardar a saída para o planalto, prevista para os dias seguintes, porém os carros bóers, contratados no Bumbo e na Humpata pelas autoridades portuguesas, sequer tinham dali saído, pelo que tiveram que aguardar em Moçâmedes cerca de um mês, até que em meados de Dezembro de 1884, já o tempo tinha aquecido, partiram rumo ao Planalto. Também os carros disponíveis se revelaram insuficientes para transportar todas aquela gente e suas modestas bagagens, que incluíam alfaias agrícolas e géneros alimentares, para o período de carência que se avizinhava. A colónia foi dividida em dois grupos, cerca de metade dos colonos ficaram a aguardar por um segundo transporte de pessoas e bens. Foi uma viagem atribulada, por estradas não pavimentadas, sob um sol escaldante, comendo pó pelo caminho, ou debaixo de chuvas torrenciais, após transporem o Deserto e chegar ao sopé da Chela. O primeiro momento complicado surgiu-lhes na descida para o vale do rio Giraúl. Superada a grande subida, chegaram a um plateau que conduzia à chamada "Pedra do Major", onde passaram a primeira noite. Manhã cedo do 2º dia, voltaram à longa e estafante caminhada por uma espécie de estrada plena de pedregulhos, por onde caminharam sem parar até à chamada "Pedra Grande", um bloco de granito pouco elevado, existente na zona entre Moçâmedes e a Serra da Chela, onde resolveram descansar, uma vez que era totalmente impossível alcançar o Munhino, antes do pôr-do-sol. No dia seguinte chegaram à região do Munhino, zona ocupada por um vale fértil e verdejante a cerca de 40 km da Bibala (Vila Arriaga), onde encontraram plantações de milho, cana de açúcar e batata doce, e algumas construções dispersas. Descansaram no leito de areia, e retomaram a marcha até alcançarem o início da subida da Serra da Chela. O percurso até à Bibala (Vila Arriaga), a cerca 900 metros de altitude, levaria dois dias a percorrer. Pideram observar outras plantações de cana sacarina e alguns campos de algodão. Estafados, pernoitaram próximo de uma das casas mais afastadas do povoado, e na madrugada seguinte retomarem o caminho, tendo que aliviar a carga dos carros bóers, e os empurrar para que estes conseguissem vencer as sucessivas e perigosas subidas, até finalmente chegarem ao vale do Lubango, onde encontraram à sua espera dois barracões provisórios, erguidos no local que passou a ser conhecido por "Barracões", nas margens do rio Caculovar, ou seja, no limite sudeste do extenso vale do Lubango. A viagem tinha demorado nove dias tendo a escalada da Serra da Chela consumido cerca de 100 horas de grande canseira.


Na manhã seguinte, serra abaixo, viajariam para Moçâmedes as carroças boers. Iam buscar a gente que ficara à espera. E alguns dias depois chegava ao Planalto da Huila a segunda leva deste primeiro contingente de colonos oriundos da Madeira. Concretizava-se assim a iniciativa do ministro Pinheiro Chagas, de instalar uma colónia agrícola no vale fértil do Lubango.


Chegaram exaustos e ansiosos, tristes e vencidos pelo cansaço, homens, mulheres e crianças, que haviam caminhado a pé e em carros boers, que atravessaram o escaldante Deserto do Namibe, e subiram a serra da Chela por caminhos acidentados, em períodos de chuvas torrenciais, que não se fizeram esperar. E mais desanimados ficaram quando, após descarregaram os carros viram os 4 barracões de pau-a-pique que os aguardava, cobertos a capim, mandados construir para eles, onde tiveram que ficar divididos (dois para casais e crianças, os outros dois para filhos crescidos e solteiros um para cada sexo), sem as mais elementares comodidades, e onde promiscuidade entristecia. Em separado foram erguidas cubatas destinadas ao director da Colónia, ao médico, secretaria provisória e ambulância.


A 19 de Janeiro foi fundada oficialmente a Colónia Sá da Bandeira, em homenagem ao Marquês com o mesmo nome, que à época chefiava o Ministério do Ultramar, a qual passaria a ser dirigida pelo condutor de Obras Públicas D. José da Câmara Leme. Foi ali rezada a 1ª missa pelo padre José Maria Antunes, reitor da missão da Huíla. 25 MEDEIROS, Carlos Alberto – A Colonização das Terras Altas da Huíla (Angola).


Os primeiros tempos foram difíceis de suportar. Sentiam-se como que numa enorme prisão sem grades, desiludidos, revoltados, sem meios financeiros para regressar à sua Ilha da Madeira, mais pobres que nunca, incapazes de decidir e expôr os seus protestos, sujeitos a castigos e a punições, e acabaram por ficar. Uma situação complicada que obrigou Câmara Leme a evidenciar todas as suas qualidades de chefia e de autoridade. Ainda mal refeitos da estafante subida da Chela, foi-lhes ordenado que iniciassem a abertura de uma vala que conduziria a água do Mucúfi até à zona escolhida para centro do povoamento, local onde se distribuiriam terrenos aos colonos, e que ficou praticamente concluída em finais de Fevereiro. E também construção de um açude regulador da captação de água.


Para os mais diligentes e para os mais abnegados, não tendo outro remédio, foi o arregaçar de mangas, o meter ombros com ardor e entusiasmo à tarefa urgente de desenvolver condições de vida na selva e criar uma povoação próspera que começaram a desbravar. Outros aceitaram mais facilmente as ordens do promotor, de arrotear e semear os campos, e a ideia de que o Lubango a partir de então era a sua terra e a terra dos seus filhos, acolhendo os aconselhamentos dos padres e das irmãs da Missão da Huila. E assim de imediato os colonos se meteram tarefa de desenvolver condições de vida na selva que desbravaram com denodo, e, em menos de trinta dias realizaram os trabalhos indispensáveis para fazer a inauguração oficial da "Colónia de Sá da Bandeira", a 19 de Janeiro de 1885. Era na altura governador de Moçâmedes, Sebastião Nunes da Mata.


Ao primeiro contingente, seguiu-se um segundo, de 206 colonos, também eles embarcados no Funchal, em 18 de Junho de 1885, no vapor "África", que chegou a Moçâmedes em 19 de Agosto desse ano, perfazendo o número global de 428 pessoas. Este grupo de colonos já obedeceu a um melhor critério de selecção, evitando-se tudo quanto fossem considerados marginais, deportados, etc., como era a prática dos governantes portugueses com relação às colónias de África. Foi neste contingente, como referido atrás, que a família de Manuel de Abreu se integrou.


A seguir outros portugueses foram chegando à região de Moçâmedes que então englobava o Planalto da Huila (Terras Altas de Mossâmedes), vindos de vários pontos do território metropolitano, funcionários públicos, professores, homens de negócios, de comércio, de industria, agricultores, isoladamente, e todos juntos operaram no Lubango um ritmo de crescimento considerado por muitos superior às demais cidades de Angola. Não foi vertiginoso, mas foi progressivo e seguro o crescimento de Sá da Bandeira, que em 1889 era elevada a sede do concelho do Lubango, e mais tarde, com Norton de Matos, em 31 de Maio de 1923, ascenderia a cidade.


Algumas famílias de madeirenses, mais tarde se transferiram para Moçâmedes, onde se dedicaram à pesca, à agricultura e ao comércio. Foi o caso da família de Manuel de Abreu, o "Mata Porcos", à qual esta postagem refere.



AS FAMÍLIAS ABREU E JESUS NA LISTA DOS COLONOS MADEIRENSES


Através dos nomes que seguem, tirados da lista dos colonos de 1884 e de 1885, podemos facilmente detectar a frequência com que os apelidos das famílias Abreu e Jesus, surgem . Sabe-se que uns acabaram por se radicar em Moçâmedes, mas que a maioria subiu a Chela e fixou se definitivamente em Sá-da-Bandeira (Lubango). Parece tratar-se de duas famílias bastante interligadas entre si atraves de casamentos. Os nomes que seguem foram retirados das listas do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres. 1º volume:


Familiares que integraram a 1ª colónia desembarcada em Moçâmedes a 18(19) de Novembro de 1884, composta por 222 (213 ?) colonos madeirenses vindos a bordo do "ÍNDIA" , saído do FUNCHAL, em 12 de Outubro, de acordo com o projecto de D. JOSÉ DA CÂMARA LEME:

--- FRANCISCO MARQUES DE JESUS - natural de Santa Ana(48 anos), casado com JOANA ROSA DE JESUS; filhos : - Maria(17), Manuel(13), Francisco(5) e João (16 meses ?).
--- FELISBERTO GONÇALVES DELGADO - natural de Porto Monis(4o anos), casado com MARIA DE JESUS.
--- FRANCISCO GOMES FARIA - natural de Curral das Freiras(26 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel (1),João (nasceu a 1/6/1885).
---JOSÉ FERREIRA JÚNIOR - natural de S. Martinho(20 anos). Casou com MARIA DE JESUS em Janº/1886; filho : - Manuel(17/9/1886).
--- LUIS DE ABREU FARIA - natural de Ribeira Brava(30 anos), casado com CRISTINA DA SILVA DE JESUS; filho - Manuel(20 anos).
--- MANUEL PAULO DE FREITAS - natural de Boaventura(35 anos), casado com BASÍLIA DE JESUS; filhos :- Maria(3) e Manuel(nascido em Dezº 1886.
--- MANUEL VICENTE FERREIRA - natural de S.Jorge(42 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(8), Maria(6) e António(2).


2
Familiares que integraram a 2ª colónia de madeirenses, em 18 de Junho de l885, embarcados no vapor "ÁFRICA", no FUNCHAL, rumo a Mossãmedes/Angola, tendo ali chegado em 19 de Agosto:

~-- ANTÓNIO DE ABREU, natural de Boa Ventura(24 anos),casado com MARIA DE JESUS.
----ANTÓNIO GOMES JÚNIOR - natural de S. Roque(32 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Matilde (21), Gregório(9), Maria(3 meses).
--- ANTÓNIO MANUEL GOUVEIA - natural de S. Vicente(31 anos), casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Maria(4), Manuel(7 meses), Isabel(nascida a 28/9/1886), Maria(nascida 23/7/1887).
--- ANTÓNIO MARQUES LUIZ - natural de Santa Ana(46 anos), casado com JOAQUINA FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(14), José(12), Carolina(8), Ana(6), Luisa(3) e António (22 dias).
--- FRANCISCO DE GOUVEIA - natural de Ribeira Brava(25 anos),casado com ISABEL DE JESUS GOMES.
--- JOSÉ DE ABREU - natural de Tábua, casado com MARIA DO NASCIMENTO ; filhos : - Maria(23), Vitorina(20), Francisco(18), Antónia(16), Virgínia(12), João(10), Manuel(7), António(3).
--- JOÃO NUNES - natural de Ribeira das Galinhas(20 anos),solteiro. Casou com MARIA DE JESUS em 1/8/1887.
--- JOSÉ DE CASTRO - natural de Santo António(49 anos),casado com ANTÓNIA DE JESUS; filhos : - Luis(15), Alexandre(13) e Augusto(1).
--- JOÃO DE FREITAS - natural do Machico(43 anos),casado com CRISTINA DE JESUS; filhos : - Romana(13), Maria(12), Augusta(10), Cristina(7), Manuel(5), Tereza(2) e Alexandrina(1 mês).
--- JOÃO DOS SANTOS - natural de S.Martinho(29 anos),casado com JUSTINA DE JESUS; filha - Maria(2) e cunhado JOSÉ DE PONTES(17 anos).
--- JOÃO MARQUES CALDEIRA - natural de S. Jorge(45 anos), casado com MARIA ROSA DE JESUS; filhos - Maria(16),FRancisco(12) e José(8).
--- JOÃO SOARES DE ABREU - natural de Porto da Cruz(40 anos), casado com MARTA ROSA; filhos : - Rosa(6), João(4), José(nascido a bordo em 20/5/1885).
--- JOÃO DE FREITAS GOMES - natural de Santa Ana(48 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Maria(20),António(16), Joaquina(12) e António(primo - 19 anos).
--- JOÃO MARQUES LUIS - natural de Santa Ana(41 anos), casado com MARIA DE FREITAS DE JESUS; filhos : - Manuel(6),Maria(4), Gertrudes(2) e João (nascido a bordo em Outubro de 1885).
--- JOÃO DA COSTA - natural de Machico(32 anos), casado com FRANCISCA DE JESUS; filhos : - Maria(13),Francisca(10),José(8), Francisco(6) e João(4 anos).
--- JÓSÉ DE ABREU PEREIRA - natural de Tábua(42 anos), casado com VIRGINIA ROSA; filhos : - António(11), Jacinto(7), Maria(4) e Manuel Francisco(pupilo).
--- JOÃO FERNANDES DA SILVA - natural de Calheta(50 anos), casado com MARIA DE JESUS; filhos : - Manuel(12), Cristina(7)e Maria(6 anos).




Ficam estas recordações


MariaNJardim



Nota: As fotos foram dispensadas por Nito Abreu, filho de Raúl de Abreu. Por Nito Abreu foram fornecidos também os elementos sobre a sua familia, aqui descritos.

Alguma bibliografia consultada:


-Felner, A. de A. Angola: apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do sul de Angola. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1940.

- Machado, C. R. Colonização do Planalto de Huíla e Moçâmedes. Boletim da Soc. Geog. Lisboa.


-Medeiros, C. A colonização das terras altas do Huíla. Lisboa, 1976.


-Silva, R. J. C. da S. Subsídios para a História da Colonização do Distrito de Moçâmedes durante o século XIX: capítulo III. Studia, n. 35, p. 421-439, 1972b.

-Torres M. J. de M. O distrito de Moçâmedes nas fases de origem e de primeira organização (1485-1859). Lisboa, 1950.

-Vicente, Pe. J. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1969


Consultámos também, Net:

Livro Emigração da Ilha da Madeira



A respeito de caça e de troféus de caça...

O moçamedense António A. M. Cristão, publicou no seu livro «Memórias de Angra do Negro -Namibe- Angola», uma crónica assinada por Silvestre Newton da Silva que representa uma sentida alusão aos vândalos e caçadores furtivos que já nessa altura (1958) vinham dizimando a fauna do Deserto do Namibe, em busca de troféus que, segundo autor, para nada mais serviam que a serem exibidos a ingénuos pacóvios...

Silvestre Newton da Silva foi um jornalista profissional que a determinada altura abandonou o jornalismo para se tornar Gerente do Banco de Angola em Moçâmedes, e posteriormente
abandonou o Banco de Angola para, juntamente com Raúl Radich Júnior, criar a empresa Cicorel que se dedicava ao comércio, à construção civil e à industria extractiva de mármores e granitos. Foi graças a esta empresa que os mármores e granitos de Moçâmedes se tornaram conhecidos além fronteiras, e que vendidos em bruto, chegaram a ser em seguida transaccionados, dada a sua qualidade, como se de mármores de Carrara se tratasse.

Clicar AQUI para ler A excelente crónica de Newton da Silva sobre a caça no deserto de Moçâmedes.




Nota: Tudo o que for retirado deste blog deverá respeitar a sua proveniência)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pintura de Tchitundu-Hulu, Namibe, Angola.












 




Pintura de Tchitundu-Hulu, Namibe, Angola. 


"São as gravuras rupestres do “Morro Sagrado dos Mucuisses” um dos mais belos conjuntos rupestres da Pré-História de Angola. Encontram-se num morro granítico, chamado Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchitundulo, situado em Capolopopo, a cerca de 137 km, para leste da cidade de Moçâmedes, no deserto do mesmo nome, na sua faixa semi-desértica, área do posto administrativo do Virei e nas fronteiras da concessão do Karaculo, um pouco ao Sul do Paralelo de Porto Alexandre.

Estão estas gravuras em riscos de desaparecer, pelo empolamento, por acções térmicas, de uma camada superficial que depois se fragmenta. A interpretação e conservação das pinturas do Morro do Tchitundulo, embora difícil, torna-se, por isso, urgente. Encontram-se essas inscrições no grande morro granítico que dá acesso à chamada Casa Maior que se abre sobre a falésia em forma de anfiteatro. Quase toda – talvez mesmo toda – a grande pedra de granito por onde se atinge a base Maior encontra-se atapetada de gravuras. Qual a idade daquelas gravuras e daqueles desenhos? Há quanto tempo aquelas gravuras foram executadas no morro?

 

 


 


 





Em primeiro lugar, os fragmentos das gravuras executadas sobre as placas de granito, atestam a existência de homens sobre o Tchitundulo anteriormente à clivagem da rocha. Assim, a história geológica da região e do Morro pode vir trazer dados concretos para a história dos primitivos homens das cavernas do Capolopopo.

No interior das Covas surgem as pinturas rupestres que se afiguram mais recentes, apesar do estilo ser deveras parecido com o estilo das gravuras.
Quem teriam sido os primitivos habitantes das cavernas?
Elementos da raça Mucuisse?
O problema da raça que habitou o Morro do Tchitundulo é de difícil solução.

De qualquer maneira os Mucuisses não têm a mais pequena ideia sobre quem pudesse ter sido o autor das gravuras, mas mantêm uma certa veneração pelo monte, afirmando que os círculos concêntricos gravados no Tchitundulo são os astros, principalmente, o Sol.

Em nenhuma outra estação de arte rupestre de Angola há tão grande número de desenhos, representações de pequenos animais, como os desenhos esquematizados do Tchitundulo.
Qual o significado daquele chacal no início da vertente norte do Morro?
Haverá alguma relação entre as figurações do Tchitundulo e uma vaga manifestação em relação a determinadas plantas?
Que profundas intenções descobriremos nas figurações cruciformes e alguns desenhos "radiográficos”?
Haverá qualquer semelhança entre alguns sinais da escrita Bamum (1) , em diversas fases da sua evolução e alguns desenhos do Tchitundulo?
Enfim, qual o significado, qual a finalidade, quais as intenções que teriam os autores das inscrições e pinturas rupestres do Morro Sagrado dos Mucuisses?" Alguma bibliografia sobre a Pré-História de Angola.(...)
Creditos: http://www.angola-saiago.net/cuissis2.html
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Pertenciam ao grupo Bochiman os homens de pequena corpulência semelhantes aos mongóis em estrutira óssea, que se pensa oriundos do orienta da Europa, considerados os primeiros povos que habitaram a região do Namibe?

Quando os primeiros europeus chegaram a África depararam ainda com bochímanos a executar este tipo de pinturas.O professor António Almeida numa Confererência na Sociedade de Geografia a 7 de Maio de 1956, em Lisboa,
diz-nos que os bochímanos , raça somática e assaz etnicamente muito curiosa , é, por muitos considerada das mais antigas do mundo. A designação boschímanos de origem holandesa significa homens dos bosques; esta designação que vem desde meados do século XVII, dada pelos colonos neerlandezes ao povo que vivia no interior da província do Cabo da Boa Esperança, em regiões cobertas de mato, que para ali fora empurrado pelos Hotentotes e depois pelos Bantos. Impey diz.nos que gentes de Grymaldi passaram da Ásia à Africa à 150 mil anos e que a África do Sul também teria sido habitada por estes homens 100 mil anos depois, saídos uns da Europa, duramte o quarto período glaciário, outros da Ádia, permanecendo estes últimos , muitos séculos, no Egipto. Outros dizem-nos que os bochímanos, propriamente ditos, vivem na África Austral , apenas à quatro ou cinso mil anos , e que são descemdentes dos negróides que estacionaram no vale do Nilo. Marcelin Boule, por sua vez, diz que os bochímanos são descendentes dos negróides aurinhacenses, provenientes de um tronco muito antigo, desenvolvido no centro ou norte de África, cujos ramos evoluiram em várias direcções gerográficas e antropológicas. A maioria dos autores sul-africanos por sua vez, afirmas que os bochímanos têm por ascendentes os homens mesolíticos de Boskop e Florisbad. Von Oord dá-nos a sua origem mais recente e que resulta da mestiçagem entre egípcios, somális e mongóis. Os dizem ainda que são ascendentes de mineiros persas, assírios e indianos, durante as explorações auríferas de Manica e do Quiteve.

A certeza só nos pode ser dada pelos especialistas, historiadores, arqueolologos, etnologos, etc. que se dedicam ao estudo do passado de Africa. Podemos afirmar que existe perto do Virei no Tchitundo-Hulo, pinturas rupestes que talvez possam ser atribuidas aos primeiros habitantes da região.

Os Bochimanes pertencem ao grupo Khoisan, que não conheceu neinhuma organização tribal e vivem da caça, de frutos e raózes ( tentando pôr alguma ordem étnica ) que caracteriza a região, em primeiro lugar a grande divisão rácica entre povos Khoisan e negros; estes subdividem-se em Bantos e não Bantos. Os Khoisan são constituidos pelos Bochimanes, Kedes e individuos de origem Hotentote mestiçados como Bantos. Os representantes dos negros não Bantos são os Kuissis e até certo ponto os cuandos.
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Existem referências às pinturas rupestres de Angola: Tchitundo Hulo e filho de Tchitundo Hulo: Um artigo de Henri Breuil e António Almeida, "Das gravuras e das pinturas rupestres do deserto de Moçâmedes (Angola)", in Estudos sobre Pré-História do Ultramar português, vol 2º, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1964. Essa antiga Junta de Investigações do Ultramar chama-se actualmente Instituto de Investigação Científica e Tropical. O artigo contém texto e fotografias a preto e branco de pinturas, consideradas do Paleolítico e Neolítico efectuadas por povos anteriores aos bantos e pode ser consultado no Instituto ou na Biblioteca Nacional ou outras que tenham depósito legal (até no Rio de Janeiro, no Real Gabinete de Leitura). Há muitos livros de Etnologia e História publicados por esta antiga Junta, escritos por etnólogos, missionários, geógrafos ... com a linguagem colonial mas ricos em informações

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A visita a Mossãmedes do Presidente da República, Óscar Fragoso Carmona, em Agosto 1938

  
 


Mossâmedes /Moçâmedes, 8 de Agosto de 1938. 

Estava-se em plena vigência do Estado Novo (1933-74). Salazar havia «arrumado» a casa portuguesa e, munido do grande prestígio que lhe concedera a qualidade de Ministro das Finanças (1928-1932),  voltava a sua atenção para as colónias de além-mar em África, apoiado num regime de partido único, no quadro de uma nova ordem anti-parlamentar, anti-democrática e anti-liberal.

Ultrapassados estavam os tempos da I República,  e com eles os ideias de emancipação, que prometiam às colónias de além-mar uma autonomia cada vez mais larga de modo a conduzi-las mais tarde à independência, tendo como exemplo o Brasil.


Toda a filosofia politica do Estado Novo, encontrava-se consubstanciada  no artigo 3º do Acto Colonial
 “ os domínios ultramarinos de Portugal denominam-se colónias e constituem o Império colonial português”. (1)

Salazar precavia-se ante o temor pela cobiça estrangeira trazida pelo avanço do capitalismo na sua fase monopolista ou financeira que  provocara a desigualdade entre as nações européias, tendo a disputa por novas áreas, por novos mercados, pela hegemonia do continente africano levado a Europa à 1 Guerra Mundial (1914/18). Com o fim da guerra, a derrota da Alemanha, os Estados Unidos lançaram a idéia de unir os povos a fim de evitar uma nova guerra, numa Liga das Nações que tinha o como princípios fundamentais a autonomia dos povos. A tradicional aliança com a Inglaterra a expedição militar com destino a Angola e Moçambique,  a posição de Portugal  não se podia separar da defesa das colónias ultramarinas, já que as ambições da Alemanha sobre estas eram bastante grandes. o Governo português enviou contingentes militares para África.o tratado anglo-alemão de 1898 previa uma partilha de Angola, Moçambique e Timor,

Assim, com o eclodir da guerra, as possessões portuguesas em África ficavam, novamente, à mercê das ambições da Alemanha. A 25 de agosto de 1914, os militares alemães fizeram uma incursão ao Norte de Moçambique. Em 11 de setembro, Portugal envia a primeira expedição militar para as colónias.No final de 1914, Portugal estava em guerra não declarada com a Alemanha no Sul de Angola e no Norte de Moçambique.


No plano económico, e nesta fase, a preocupação era o equilíbrio e a moderação, o proteccionismo alfandegário e o condicionamento à industrialização. As colónias forneciam as matérias-primas para a indústria metropolitana, e a Metrópole fornecia às colónias os produtos manufecturados de que necessitavam, tudo convergindo na direcção dos interesses de uma burguesia metropolitana instalada no poder, sem grande preocupação pelo real desenvolvimento da colónia e promoção social das suas populações.


No âmbito da política externa, na Europa as coisas não iam bem. Os problemas da política externa portuguesa sempre haviam sido colocados em segundo plano, em prol de outras questões consideradas mais relevantes. Mas a guerra civil espanhola e a eclosao da ...veio alterar essa realidade.

Em 1936, Hitler e Moussolini tinham assinado o Tratado do Eixo, a Alemanha  havia anexado a Austria e  Goebbels tinha ordenado a perseguição dos judeus. Avizinhava-se a todo o vapor a invasão da Polónia pela Alemanha e a eclosão da 2ª Guerra Mundial (1939/45), que se tornaria uma guerra a uma escala sem precedentes. Salazar procurando fugir ao conflito, tinha declarado que em caso de guerra tomaria uma posição neutral (2), enquanto  continuava o comércio de Portugal com os beligerantes, de forma a tirar contrapartidas económicas da guerra. Deve-se, porém, ter em conta que a pedra basilar na política externa portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial continuaria a ser a aliança Luso-Britânica, expressão da dependência do Portugal autoritário, antidemocrático e antiliberal, parecendo mais proximo ideologicamente de uma Alemanha e de uma Itália,  ao império britanico, democrático, liberal e parlamentar, movido por interesses económicos e estratégicos. A aliança  perigo da anexação de Portugal pela Espanha franquista (apoiada pelo Eixo) faz prever um alinhamento ao lado dos aliados









  Era este o contexto histórico quando o General Óscar de Fragoso Carmona, 11º Presidente da República Portuguesa, 1º do Estado Novo, na sua digressão às terras portuguesas de África, chegou a Moçâmedes no navio «Angola», às nove horas da manhã do dia 8 de Agosto de 1938.


Vejamos o que nos diz desta viagem o Boletim  


da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 16





Notas de reportagem de bordo:
Desde as 9 horas que navegávamos à vista da costa de Moçâmedes. A cidade foi-se pouco a pouco mostrando, com a sua fisionomia de terra de pescadores, branca e graciosa.

Às 9 e 15, no meio duma flotilha composta de mais de trezentas canoas e outras embarcações de pesca, embandeiradas, o «Angola» e o «República» navegavam nas águas da baía. Desses pequenos barcos, e de terra, incessantemente, sobem foguetes no ar. Por cima dos navios que chegam sobrevoam aviões do Aero-clube.

 
Às 10 horas da manhã efectuou-se o desembarque.
É o presidente da municipalidade, Sr. Dr. Francisco Monteiro do Amaral quem primeiro usa da palavra.

(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 312  a 316)
Depois falou o sr. José Antunes da Cunha, presidente da Associação Comercial e Industrial de Moçâmedes, que disse: 
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 316 a 321)
Seguiu-se no uso da palavra o Governador Provincial da Huila sr. Capitão Ferreira Carvalho.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 321 a  324)

Chegou o momento mais solene da cerimónia. Toda a assistência , homens e senhoras se erguem e preparam-se para escutar. O Sr. Presidente da República, vai falar.
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs.324 a 327)  

Depois o sr. General Carmona condecorou as seguintes pessoas : Coronel médico dr. Monteiro do Amaral, com a Comenda de Cristo; Antunes da Cunha e Dr. Carlos Tenreiro Carneiro, respectivamente, presidentes da Associação Comercial e Sindicato do Pesca, com o grau de Cavaleiro de Mérito Industrial, Manuel Seabra, comerciante do Lubango, Caetano Evaristo Peixoto, funcionário ferroviário, oficiais de Mérito Industrial, António Joaquim Ribeiro, de Moçâmedes, e José Nóbrega, do Lubango, agricultores, oficiais de Mérito Agrícola.
O Sr. Presidente da Republica dirigiu-se para o antigo palácio do Governo, de carro, que a multidão tirou. Foi uma apoteose.  A multidão, - brancos e pretos,  - comprimia-se, galvanizada pelo mesmo anseio de saudar. Os estudantes rodeavam o automóvel. Os alunos do Liceu da Huila cobriam o veiculo com as suas capas negras. O Sr. General Carmona, de pé, comovidamente, agradecia as manifestações de carinho que de novo lhe manifestavam.


Chegado àquele Palácio,  o Sr. General Carmona pareceu à varanda, a-fim-de satisfazer  as instâncias da multidão clamorosa. Igualmente foi chamado o Sr. Ministro das Colónias, que veio acompanhado da  senhor de Fragoso Carmona, a qual foram dados, também «vivas» entusiásticos.
Às 13 e 30 foi o almoço na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição» da família Mendonça Torres,  à beira do Bero.

Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda  e demais família, recebiam com extremos de gentileza.  O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, dquela deliciosa festa íntima.

O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse: (vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330)


Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com  a Ordem de Mérito Agrícola.


Nota da visita feita pelos jornalistas à fazenda:

«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e  mão do homem a orientar e  trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.»
 
Às 16 horas efectuaram-se na sala de recepção do Palácio do Governo os cumprimentos o Sr. Presidente da República. Além das autoridades civis  militares e funcionários superiores , haviam acorrido corporações, colectividades económicas, imprensa, e os colonos do distrito de Moçâmedes, estando a recepção imensamente concorrida. Afavelmente, o Sr. General Carmona recebeu cumprimentos , tendo palavras amáveis para todos.  O mesmo aconteceu no dia seguinte, quando a população dos colonos e deputação com as autoridades e imprensa  da Huila foram levar o Chefe do Estado a expressão da sua respeitosa homenagem.  Todos o General Carmona encantou pela gentileza e simplicidades do trato.


O Sr. Presidente da Republica visitou as instalações do Sindicato da Pesca e as fábricas de conservas da Torre do Tombo, cujos operários o aclamavam com ardor.

Após as visitas às fábricas, o Sr. Presidente da Republica, sempre acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, e vários membros da comitiva, deu um passeio de automóvel pela cidade.

À tarde e à noite, no coreto da Avenida da República, tocou a banda da 1ª  C. I.I.  O movimento no lindo jardim de Moçâmedes foi enorme.


Notas da reportagem.
São 19 horas. A cidade iluminada e bela. Os edifícios públicos e a Fortaleza de S. Fernando estão iluminado a electricidade. Vêem-se balões a correr pelas ruas.   Encosta sobre o palácio está cheia de luz. O jardim público regorgita de gente. No Clube Nautico e em outras casas dança-se desde as cinco horas da tarte. O entusiasmo é geral e indescritível. Mossãmedes está a dar, com o Lubango, cuja população na maior parte está aqui, um nota de portuguesismo inexcedível.

9 de Agosto.


A nota cativante deste dia, foi a  festa infantil que teve por quadro o Jardim Público, à beira mar, oferecida pelo Sr. Presidente da Republica e sua ilustre esposa, sra. D. Maria do Carmo de Fragoso Carmona.

Principiou a festa por um desfile de milhares de crianças de Moçâmedes, Lubango e Huila , - e uma explêndida demonstração do poder de adaptação da nossa gente.  Todos aqueles pequeninos eram filhos e até netos de colonos. Lindíssimo espectáculo que arrancou por vezes ardentes palmas à assistência, principalmente ao ser entoado por aquele Portugal de miúdos o hino nacional. Centenas de senhoras presenciaram a festa, tendo algumas delas auxiliado a esposa do Chefe do Estado n distribuição de brinquedos, que dela fez parte.

Depois, o público pequenino sentou-se, em alacre algazarra, às mesas, sobre as quais havia guloseimas em abundância, a encantar os olhos, a alvoraçar o apetite. Terminada a refeição, espalhou-se a pequenada pelo jardim,  brincar, até quase ao fim da tarde.
Eis como um jornalista angolano descreve a festa:


Antes de retirar, o Chefe do Estado percorreu , de automóvel as ruas, tendo sido, durante o percurso, sempre, delirantemente aclamado.À noite, no Palácio, realizou-se um jantar de gala.

Pormenoriza do aspecto da sala, o aspecto local:


«Profusão de luzes, de flores e de cristais. Notas de distinção e de elegância. A refulgência dos ouros das fardas e a severidade do negro das casacas contrastavam com as cores variadas dos vestidos das senhoras, de grande elegância,sôbre os quais as jóias punham cintilantes fulgurantes».

Abriu a série de brindes, o Sr. capitão Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, governador da província, que disse:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 335 a 339)

Falou depois o sr Eduardo de Mendonça Torres pelos colonos do planalto:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg . 339 a 343

Pouco depois pediu vénia para brindar o representante dos colonos da Huíla, sr. João Ricardo Rodrigues, que se expressou nos seguintes termos:
(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. 343 a 346 )

Encerrou a série de brindes, o Dr. Carlos Baptista Carneiro,  pelos orbanismos económicos da Huíla
:(vidé boletim da agência geral das colónias : vol xiv : nº 162, pg. )

Por último o Sr. Presidente da República pronunciou breves palavras de profundo reconhecimento pelas atenções que lhe têm sido dispensadas e mostrando quão grata tem sido para o seu coração de lusíada esta viagem que o trouxe a terras tão portuguesas, onde todos se congregam para dignificar o nome de Portugal.

10 de Agosto

Às 16 horas, realizou-se uma parada militar, a que assistiram, numa tribuna, levantada na Avenida, o Sr. Presidente da República, o Sr. Ministro das Colónias, o sr. Governador Geral, casas civil e militar do Chefe do Estado, e outras altas entidades.

Ao lado da tribuna formava uma força da marinha do aviso «República». Brilhantíssima de impecável garbo a marcha das forças militares. À passagem das unidades, o publico irrompia em aplausos. Ao desfile das duas companhias de Infantaria Indígena, seguiu-se os das deputações indígenas de toda a província. Cada soba vestia farda de pano branco, de alamares verde e encarnados, trazendo na cabeça bonés de pala. Na Avenida comprimia-se o povo curioso do bizarro espectáculo desse desfile. Iniciaram-no os escoteiros.


Vinha depois o grupo dos quarenta cavaleiros cuanhamas que passaram em frente da tribuna, no belo arranque de um galope, a saudarem, agitando no ar os chapéus emplumados, soltando ao mesmo tempo entusiástica gritaria.



A seguir, numerosas tribus, cada uma formada por numerosos indígenas, indo à frente a rainha Galinaxo do Cuanhama, com seu trajo de gala e grande séquito de damas, uma das quais, a seu lado, ostentava alto a bandeira portuguesa.


«No local onde estamos, - descreve o representante da Província de Angola, - vê-se a Avenida extensa que é um mar de pretos e de tribus, todos com bandeirinhas nacionais que agitam no ar, produzindo um lindíssimo efeito e comunicando o seu entusisasmo à multidão que irrompe em «vivas» prolongados.


Todas as tribus indígenas, levavam, ao lado, os respectivos sobas e régulos, bem como a bandeira nacional. Sempre que passavam em frente da tribuna presidencial, para saudar o Chefe do Estado, - soltando gritos de entusiasmo, a seu modo, como homenagem do máximo respeito e veneração a Sua Exª - , ouviram-se também , entre os gritos, muitos «vivas» a Portugal e de simpatia pela Nação. Cada tribu apresentou os seus batuques ao som dos quais os guerreiros e dançarinos negros rodopiavam e faziam cabriolas, oderecendo assim um espectáculo inédito, de cor local interessantíssina. Toda a gente o admirou, incluindo aqueles que vivem em Angola.O desfile prolongou-se por longo tempo. Muito curioso o facto de se terem apresentado na parada, indumentárias indígenas das mais variadas, tanto em homens como em mulheres, segundo as regiões. As mães conduziam à mão ou às costas os filhos, visto que associavam a família a estas manifestações.»


Assim foram passando cuanhamas, cuamatos, cacondas, ngivas, naulilas, evales, namacundes, quipungos, quilengues, muílas, muhembes, - as raças bravias do Sul de Angola …

Terminado o desfile a rainha Galinacho (*), com o seu séquito e as mulheres dos principais sobas, dirigiram-se à tribuna a cumprimentar o Chefe do Estado , que comunicou por meio de um intérprete, e ofereceu à soberana preta cortes de seda, além de outros valiosos presentes,entregando aos chefes medalhas comemorativas da sua visita a Angola.

Grande alegria produziu a gentileza do Sr. Presidente da República, que foi aclamado pelos negros, assim como o nome de Portugal. O Sr. General Carmona retirou-se em seguida para o Palácio, sempre muito ovacionado pela multidão, que também aclamou os Srs. Ministro das Colónias, Governador Geral e Governador da Província. 

À noite, os edifícios e a fortaleza iluminavam novamente, assim como muitas casas particulares. A Câmara Municipal ofereceu um baile que decorreu com o maior brilho. Moçâmedes apresentava o aspecto de uma animação de que não se guardava memória.


Às 6 horas da manhã, do Palácio do Governo, largou uma extensa fila de automóveis.

Ia-se ao deserto de Mossãmedes a caçar. Diversão interessantíssima em honra do Sr. General Carmona. No Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço. Depois repartiram-se em três grupos de caçadores, cada qual com o seu sentido, tomando o do Sr. Ministro das Colónias, a direcção do local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – onde foi prestada homenagem à memória do ilustre professor e naturalista.


«O deserto apresenta aspectos vários e diferentes. Encontra-se areia endurecida sobre a qual os carros deslizam velozes; e noutros pontos pedras soltas. No fundo vêem-se morros altos que o circundam, e árvores de pequeno porte que vivem numa espécie de leito de rios que aqui se chamam danibas e são locais geralmente frequentados por caça de toda a espécie».


A primeira peça abatida foi uma gazela com um tiro da carabina do Sr. Dr. Francisco Vieira Machado, que por esse motivo recebeu muitas felicitações. Encontrou o grupo Leste chefiado pelo velho caçador João Teixeira e Raimundo Serrão , várias manadas de cabras das quais foram abatidas algumas.

Cerca das 11 horas encontrava-se outra de guelengues, - grandes antiólopes- de que, na perseguição, tombaram três exemplares.
O primeiro caiu com uma bala do Sr. António Eça de Queiroz, que também derrubou um famoso e célebre avestruz. Correm lebres. Fora do alcance do tiro, precipitam-se na fuga manadas de zebras. Os operadores cinematográficos não descansam. Os carros rodam a toda a velocidade, em todos os sentidos, e às 13 horas voltam ao Pico do Azevedo, para o almoço.



que conduzia o Sr. General Carmona, e sus esposa, que haviam saído de Mossãmedes às 11 e meia. O automóvel encontrou uma gazela que o Sr. Presidente encontrara no trajecto, matando-a com um tiro certeiro no coração, dado a mais de 50 metros e com o automóvel em movimento, o que foi aplaudido por todos os presentes.

O almoço decorreu com a maior alegria e à-vontade. Conversando com familiaridade, o Sr. General Carmona inquiria de todos acerca dos princípios da caçada. A um brinde do Sr. Eduardo Torres, felicitando-o pelo belo tiro certeiro, o Sr. General Carmona respondeu espirituosamente, dizendo que para não envergonhar os caçadores saira mais tarde, mas uma gazela, teimosamente, viera postar-se na trajectória da bala, sacrificando-se à sua glória de caçador. A assistência levantou três calorosos «vivas», ao Sr. Presidente da República.

Balanço da caçada: 8 cabras, 6 guelengues. 1 avestruz e uma «tua» abatida por um tiro do sr. dr. José Saldanha, secretário do Sr. Ministro das Colónias. Foi então digna de ver-se a competição dos carros, como numa grande corrida em enorme pista, todos procurando atingir primeiro o carro do Sr. Presidente da República, ao qual formaram por fim um grande séquito até perto da cidade. O Sr. Presidente da República, com um tiro certeiro, abatera outra gazela.Um magnífico fecho da caçada , - escreveram os jornalistas:

À entrada da cidade, próximo do seu acampamento, encontravam-se os cavaleiros cuanhamas, que, compondo alas, aguardam o automóvel presidencial, acompanhando-o depois, no meio de ruidosas aclamações. Todos os outros indígenas dançaram à passagem, dando «vivas» e saudando calorosamente o Chefe do Estado, que, descendo do automóvel com a sua esposa, se acercou das pretas, risonho, afável.

A Senhora de Fragoso Carmona, o Sr. Ministro das Colónias, visitaram, antes de deixarem Mossãmedes, os acampamentos indígenas, onde as mulheres lhes ofereceram pulseiras, retribuindo generosamente as ilustres senhoras, o que às presenteadas causou grande alegria. 

Apesar do Sr. Presidente da República se ter ausentado para o deserto, na cidade continuaram sempre no meio do maior interesse e entusiasmo, as festas em sua honra. Assim, à tarde, realizaram-se na Avenida Marginal várias diversões que estiveram muito concorridas, vendo-se em grande número, crianças que vestiam trajos regionais portugueses.    

                                 

À noite percorreu a cidade, que continuou a iluminar, uma deslumbrante marcha «aux flambeaux», que, dirigindo-se ao Palácio do Governo, ali saudou o Chefe do Estado, principalmente quando sua excelência apareceu na varanda a agradecer. O Sr. Ministro das Colónias, que se encontrava ao lado do Sr. Presidente da República, foi também na ocasião vivamente aclamado. O embarque do Sr. Presidente da República para o Lobito estava marcado para as dez horas. Já muito antes daquela hora na ponte-cais e nas proximidades comprimia-se a concorrência. Estava triste o dia, sem sol. Não se tratava duma despedida, depois de dois dias de grande alegria, duma animação como nunca a cidade ali conhecera. Estão as Escolas, - alunos, mestres e estandartes em duas filas; os estudantes do liceu da Huila, os rapazes da Escola de Pesca; o elemento oficial, figuras notáveis da colónia; a guarda de honra; duas companhias de Infantaria Indígena. A multidão é cada vez mais densa. A mocidade escolar solta diversos «vivas» patrióticos: a Portugal, ao Chefe do Estado, a Salazar, ao Ministro das Colónias…



11 horas e meia.
Morteiros estalando no ar anunciam a saída do Senhor Presidente da República do Palácio do Governo. Ao chegar junto das crianças das escolas, o Sr. General Carmona, saindo do automóvel, passou a pé entre elas, que «vivaram» com calor.O Sr. General Carmona afaga-as e despede-se dos professores. Tornando ao automóvel que o vai levar ao ponto do embarque, pelo caminho fora as aclamações não cessam. Um toque de sentido. Os soldados perfilam-se. É o Sr. Presidente que chega. Às vozes do comando os soldados apresentam armas. Segue-se a cerimónia da revista à guarda de honra, finda a qual o Chefe do Estado se despede dos oficiais. A multidão aclama sempre. A emoção da despedida a todos toma. E é no meio de uma multidão compacta, carinhosa, que expande a sua saudade, que o Sr. Presidente da República se dirige para a ponte, onde muitas senhoras compareceram, também para apresentar as suas despedidas às esposas dos Srs. General Carmona e Dr. Vieira Machado.



O Sr. Presidenta da República aperta a mão aos vereadores de Mossãmedes, aos magistrados, aos representantes de associações e organismos e funcionalismo.Depois, num gesto gentilíssimo, a todas as senhoras presentes agradecendo assim o carinho com que o receberam e a sua esposa. Acompanhado pelos Srs. Ministro das Colónias, governador geral e governador da província, embarca em seguida no «gasolina» qie iça imediatamente o pavilhão presidencial. O «República» salva. Dos barcos ancorados soltam-se também saudações: 


Recebidos a bordo, o Sr. Presidente da República, o Sr Ministro das Colónias, e pessoas da sua comitiva, logo o Angola levantava ferro e começava a afastar-se...



Citando Carmona, o título não podia ser mais expressivo: "Agradeço hoje à Providência o ter-me guardado para esta jornada maravilhosa".Estes são os tempos do império e da redefinição do orgulho nacional, época do Acto Colonial - pedra angular da primeira época do Estado Novo e da sua visão de Portugal no mundo - e de uma "Pátria em tamanho natural, duma Pátria em que se confundem todas as raças e todos os séculos", lia-se no editorial desse dia.

Enquanto o Estado Novo reforçava a sua imagem interna e externa, as páginas do DN registam o acumular de sinais que vão culminar no ataque alemão à Polónia no 1 de Setembro do ano seguinte. Sob o título "Hitler fez ontem uma visita de inspecção às fortificações da Renânia", lia-se que "são desfavoráveis as perspectivas de acordo entre checos e sudetas". Ao lado, registavam-se ainda as "manobras navais" da esquadra portuguesa, que fundeara no dia anterior na baía do Funchal.Estes eram os tempos em que o DN inscrevia na primeira página «Visado pela Censura».


(1) Com a revisão da Constituição de 1933 em 1951, o Acto Colonial é revogado, e as «colónias» passam a designar-se, de novo, «províncias ultramarinas», a única designação que traduzia a concepção de indivisibilidade e integridade do território nacional. A partir dessa década é financiada a construção de infraestruturas, principalmente as relacionadas com o comércio regional, como os caminhos de ferro e a fixação de colonos. Os cidadãos mais pobres da Metrópole são incentivados  a emigrar para as colónias  de África, onde, pelo trabalho árduo e dedicação decerto iriam encontrar condições de vida ... enquanto paralelamente, através de congressos, conferências e exposições, era incutinda  a mística imperial, como se o Império fosse a razão da existência histórica de Portugal.

(2) Em 1914, Portugal não  conseguiu manter-se  neutral, após a declaração de guerra à França pela Alemanha, dada a sua posição estratégica no Atlântico, a forte influência que a Inglaterra exercia como velha aliada e  a  necessidade de defesa dos territórios de Angola e Moçambique que faziam fronteira com as colónias alemãs.  Na madrugada do dia 25 de Agosto de 1914, pouco depois de definida a posição de Portugal perante o conflito europeu,  o  pasto de Maziúa, na província de Moçambique e Naulila e Cuangar, no Sul de Angola foram atacados de surpresa por forças alemães,  obrigando ao envio de duas expedições militares ao Sul de Angola, comandadas, a primeira,  por  Alves Roçadas e a  segunda, por Pereira d‘Eça. Em Moçambique, os conflitos com as forças Alemãs  só terminaram com o Armistício em 1918. Portugal havia decidido participar nas trincheiras da Flandres. Em Fevereiro de 1942, os japoneses, os aliados da Alemanha invadem Timor e fazem dezenas de milhares de mortos. Derrotado o Japão pelas forças aliadas, em Setembro de 1945, é reposta a administração portuguesa.
FIM DE REPORTAGEM

             
 
Pesquisa e compilação de textos: MariaNJardim





FONTE 
Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162 de 1938. Os discursos foram propositadamente omitidos porque tornariam o texto demasiado extenso.