João Pinheiro Chagas
Nasceu no Rio de Janeiro, a 4 de Setembro de 1865. Escritor, jornalista, panfletário, político e diplomata, pertencera à geração republicana do Ultimatum, combativa e conspiradora. Pertenceu à Maçonaria, tendo sido iniciado em 1896. Colaborou em vários jornais, de entre os quais o `Correio da Noite´, o `Tempo´ , o `Dia´, `A Portuguesa´ (1891), `O Panfleto´ (1894), `A Marselheza´ (1897-1898) e `O Norte´(1906). Fundou `A República´ (1890) e a `República portuguesa´ (1890-1891) e dirigiu `O Paiz´. Conhecido pelos ataques à Monarquia, nas colunas de jornais onde colaborou, foi várias vezes processado e condenado. Implicado na revolta do '31 de Janeiro' (1891) foi condenado e degredado para Moçâmedes. Foge e volta ao Porto onde foi recapturado, regressando após ser amnistiado. Conspira na revolta de 28 de Janeiro de 1908, sendo novamente preso, e envolve-se na preparação do 5 de Outubro. Preside ao primeiro governo constitucional (1911), enfrentando a primeira incursão monárquica, no primeiro aniversário da República. Foi ministro de Portugal em Paris, nomeado logo após a implantação da República, defendendo a aproximação com a França republicana. Durante o governo de Pimenta de Castro demite-se desse lugar, não querendo servir 'ditaduras'. Depois da revolução do '14 de Maio' de 1915 é chamado a formar governo em Maio de 1915, o que não acontece, pois é vítima de um atentado. Regressa a Paris, pugnando sempre pela causa intervencionista na Grande Guerra. Depois de um afastamento durante o sidonismo, fez parte da delegação portuguesa à Conferência de Paz e à Sociedade das Nações e regressou a Paris como Ministro Plenipotenciário (de 1919 a 1923). Faleceu em Lisboa, em 28 de Maio de 1925.
in Fundação Mário Soares
A Africa Portugueza, de Pinheiro Chagas.
LISBOA TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (Imprensa da Casa Real)
110, Rua do Diário de Noticias, 116 . 1890
“...Se tentasse em breves paginas contar-lhes as
aventuras d'esta Africa portugueza, que tantas amarguras nos tem custado, saber
deveras o que é, ô que tem sido um paiz,
já hoje tão impregnado de sangue portuguez, mas ao qual estão hoje ligados, como ao ultimo filho que nos resta d'essa
gestação audaciosa de mundos novos que
estivemos dando durante dois séculos á luz da civilisação ?
Já em torno d'ellas pairam, como abutres, as cubicas
estrangeiras. Em Lourenço Marques o capitão Owen reivindica para a Inglaterra o
domí-
nio d'essa bahia, que só quarenta annos depois a
arbitragem de Mac-Mahon nos reconhece definitivamente ;já o governo inglez nos
impede de estabelecer o nosso dominio na foz do Zaire, e também só cincoenta
annos depois a conferencia de Berlim nol-o reconhece.
Com tanta attenção devíamos olhar para essas longínquas regiões, e comtudo não nos occupavamos senão das nossas discórdias civis, dos nossos pequenos
interesses continentaes.
As colónias africanas eram o vazadouro para onde
despejávamos todas as fezes que tínhamos no reino. Com degredados as
povoávamos, com degredados formávamos o seu exercito e, quando não eram
degredados, que o compunham, eram batalhões expedicionários que levavam do
conti-
nente os mais torpes elementos das tropas nacionaes.
Em 1835, pouco depois de ter acabado a guerra da
liberdade, quando se quiz mandar uma expe- dição para Cabo-Verde, organisou-se
um batalhão
com os soldados mais ruins e indisciplinados que
havia, não no exercito vencedor mas no exercito vencido. Por isso, a façanha
que esse batalhão praticou foi matar todos os seus officiaes, á excepção de um
ou dois alferes, que escaparam por milagre
Se essas "colónias não eram senão ninhos de
escravos, e era a escravatura a única fonte da sua receita ! . . . Sá da
Bandeira appareceu,promulgou a lei de 1836 que abolia a escravatura, e procurou
fazel-a cumprir. Mas todos os interesses feridos se sublevavam contra elle.
Alcunhavam-n'o de utopista, accusavam-n'o de arruinar as colónias. Os
governadores que iam para o ultramar, com ordem expressa de acabar com o odioso
trafico, viam-se obrigados a transigir, ou
a fugir.
Em Moçambique, o marquez de Aracaty, um Oeynhausen,
tinha de suspender a lei de 1836 porque os escravistas não a deixavam executar.
D. António de Noronha em Angola, depois de uma lucta
formidável, tinha de fugir quasi para a Europa. Joaquim Pereira Marinho, em
Moçambique,
via-se salteado por toda a espécie de calumnias, e por
uma guerra ferocíssima, porque effectivamente debellava os escravistas. O
tratado com a Inglaterra concluído em 1842 impunha-nos sacrifícios enormes,
sujeitava-nos a continuados vexames, e a tudo nos resignávamos para cumprir
lealmente a nossa missão emancipadora. E, emquanto o cruzeiro portuguez se
mostrava implacável com os navios que transportavam escravos, emquanto as
nossas colónias definhavam porque perdiam uma receita que não era substituída,
os navios inglezes tomavam os negros escravos não para os libertar, mas para os
levar ás suas colónias, e estas floresciam com o trabalho gratuito dos braços
que á escravatura deviam.
De vez em quando algum estadista, algum governador do
ultramar pensava nas colónias, muito de relance comtudo, que as guerras civis
absor-
viam-nos. Bonitas palavras na camará de vez em quando,
actos raríssimos. Apparecia Pedro Alexandrino em Angola, procurando explorar e
conhecer a província, implacável com a escravatura, mas tentando deveras fazer
alguma coisa útil.
Depois em 1849 appareceu também um homem dedicado,
enérgico, de verdadeira iniciativa, Bernardino
Freire de Abreu e Castro, que era o verdadeiro fundador da colónia de
Mossamedes. Luctava com innumeras dificuldades, mas a colónia lá ia rompendo
lentamente, até que afinal se transformou na villa, que é hoje uma das nossas
glorias ultramarinas. Ha quarenta annos !
E pouco mais se fazia ! Em 1852 appareceu um decreto,
em cujo preambulo se dizia pomposamente que, sendo notório e incontestável que
innumeros emigrantes portuguezes iam procurar trabalho
no Brazil, sonhando phantasticas riquezas e não encontrando afinal senão a
miséria e a morte, sendo incontestável ainda que os madeirenses iam procurar em
Demerara, nos climas inhospitos da Guyana ingleza, as febres que faziam d'essa
colónia britânica um cemitério para os portuguezes, era indispensável que se
tratasse de derivar para as nossas colónias africanas essa emigração nacional,
e com esse louvável intuito de crear um imposto nas colónias sobre a importação
dos vinhos e aguardentes de Portugal. Palavras, e só palavras !
Trinta e três annos depois é que o auctor (destas
linhas fundava n'esse districto de Mossamedes, tão claramente indicado para a
colonisação portugueza, as auspiciosas colónias Sá da Bandeira
e S. Pedro de Ohibia !
O movimento regenerador punha termo êm Portugal ás
discórdias civis que tinham alagado de sangue o nosso território, e paralysado
o nosso
progresso. Inaugurou-se a politica do fomento, gastavam-se
com plena razão rios de dinheiro para fazer estradas no paiz, para fazer caminhos
de ferro, mas as nossas colónias africanas não tinham senão um mesquinho
quinhão n'esse jubileu do progresso. Pensou-se em tudo que não custasse muito
dinheiro. Auctorisou-se a exploração botânica de Angola pelo dr. Welwitsch, que
foi maravilhosa, mas que de certo não desequilibrou o orçamento. Creou-se o conselho
ultramarino, que deu excellentes indicações, e que chamou um pouco a attenção
publica para os negócios coloniaes ; mas, quinze ou dezeseis annos depois, o
sr. Latino Coelho aboliu-o porque o julgou dispendioso.
Appareceu Sá da Bandeira em 1856 com o seu velho
enthusiasmo pelas colónias, mas sem conseguir arrancar aos seus collegas as sommas necessárias para a desenvolver. Além disso
não tinha quem o ajudasse, e o seu espirito generoso, mas demasiadamente
theorico, estragava
as suas concepções por não descer ás particularidades
da pratica. Quiz fundar colónias militares em Huilla e em Tete. Foram duas
povoações
do reino da Utopia.
Prodigalisou os conselhos e as sementes aos governadores
para que elles fomentassem differentes culturas.
Para que servia, quando as innumeras e enormes
concessões de terrenos que se faziam no ultramar ficavam constantemente
desaproveitadas?
O enthusiasmo do paiz pelas colónias tornou-se bem
patente na subscripçao que se abriu para a colónia de Pemba. Sá da Bandeira
logrou pôr á testa d'essa subscripçao um dos grandes capitalistas do tempo,
Thomaz Bessone, fez com que todos os administradores abrissem subscripçoes nos
seus concelhos. Algumas capitães de districto chegaram a dar 30$000 réis, o
concelho de Povoa de Varzim subscreveu com dez tostões!
A colónia lá foi ainda assim para Moçambique. Mas, se
faltavam a Sá da Bandeira os subscriptores, ainda mais faltavam os
auxiliadores. Os colonos foram mal escolhidos, peior escolhido ainda o sitio na
bahia de Pemba, onde não havia sequer agua potável. Para a encontrarem tinham
de se affastar muito da beira-mar. Um desastre completo coroou esta malfadada
tentativa de colonisação.
Se não conseguíamos atinar com o meio de dar ás nossas
colónias o desenvolvimento de que ellas careciam, em compensação continuávamos
a ser fidelíssimos á nossa missão de antí-escravistas. N'aquelle território da
Africa Occidental entre 5 o , 12' e 8 o , em que a Inglaterra não consentia que
puzessemos o pé, fazia-se odiosamente escravatura. Estava no poder o primeiro
ministério regenerador, era ministro da marinha o visconde de Athouguia,
presidente do conselho ultramarino Sá da Bandeira, governador de Angola
Rodrigues de Amaral, commandante da estação naval Redovalho. Passou- se por
cima da prohibição da Inglaterra, e em 1855 occupou-se audaciosamente o Ambriz.
Dentro de uns barracões encontraram-se 150 pretos, que esperavam navio
escravista para embarcar. Era flagrante o caso. A Inglaterra não se atreveu a
protestar, como os negociantes inglezes, prováveis proprietários dos 150
escravos, se não atreveram a reclamal-os.
Mas nós continuávamos a ser apresentados á Europa como
incorrigíveis escravistas, e a Inglaterra, a pátria de Wilberforce, continuou a
ostentar a gloria de ser ella a nação chefe na brilhante, humanitária e
redemptora cruzada contra a escravidão.
Em Moçambique os plantadores das colónias francezas e
especialmente os da ilha da Reunião, antiga ilha Bourbon, tinham tomado o
costume de ir
contractar o que elles chamavam trabalhadores livres.
Por mais de uma vez, nos próprios tribunaes da ilha da Reunião se reconhecera
que es-
ses suppostos trabalhadores livres não eram senão
escravos. A Inglaterra chamava a attenção do governo portuguez para essa escravatura
disfarçada, que se fazia em Moçambique. Ingenuamente Sá da Bandeira, que
acabara de promulgar a lei de 1858, abolindo a escravidão, e que era o complemento
da sua lei de 1836, prohibiu que
se consentissem em Moçambique os suppostos contractos
de trabalhadores livres. As auctoridades portuguezas informaram o sr. de
Méquet, commandante da estação naval franceza, dos abusos que os navios da sua
nação praticavam e que tinham dado origem a esta prohibição do governo
portuguez. O sr. de Méquet respondeu que não consentiria
que fossem navios francezes a Moçambique fazer esses contractos. Comtudo,
n'esse mesmo anno de 1858 um navio de guerra portuguez encontrou em
Quitangonha, na bahia de Conducia, uma barca franceza, a Charles-et-Georges, a
fazer contractos de trabalhadores pretos livres. Os pre-
tos interrogados declararam que eram levados á força.
A barca foi apresada, o tribunal competente proferiu a sentença condemnatoria.
O governo francez de então, o governo de Napoleão iii,
reclamou ; nem quiz esperar a decisão dos tribunaes superiores, enviou uma
esquadra
ao Tejo, ordenou que o seu ministro, o marquez de Lisle
de Siry, retirasse com o pessoal da sua legação, se a barca Charles-et-Georges
não fosse entregue. Não o foi. O governo do duque de Loulé respondeu
simplesmente : Sois os mais fortes ! Levae-a. E um navio de guerra francez, que
tinha um nome condigno da missão que desempenhava, o Tubarão, le Requin, levou
a barca Charles-et-Georges.
Tínhamos appellado para a Inglaterra, para a Inglaterra
que fora a nação que protestara contra os suppostos contractos de trabalhadores
livres, que nos levara a prohibil-os. Encolheu os hom-
bros, e disse-nos : Cedam !
Onze annos depois, em 1839, uma corveta de guerra
ingleza, a Daphne, fazia no próprio porto de Moçambique o mesmo que a
Charles-et-Georges
fizera na bahia de Conducia.
Simplesmente, em vez de contractar trabalhadores
livres, contractava criados livres. Era governador de Moçambique Fernando da
Costa Leal, que fora governador de Mossamedes, e que era dotado de uma rara
energia. Intimou o commandante da Daphne a que não procedesse as-
sim, o official inglez desdenhou a intimação, Fernando
Leal observou-lhe tranquillamente que a corveta Daphne não sairia com os seus
contractados do porto de Moçambique, senão debaixo de fogo das fortalezas e
depois de ter destruído os meios de resistência que elle tinha á sua disposição.
O commandante da Daphne teve medo do escândalo que
isso faria na Europa, e cedeu !
E Portugal continuou a ser apresentado pela Inglaterra
ao mundo como um paiz essencialmente e incorrigivelmente escravista !
E as colónias continuavam no seu triste abandono! Lá
se percebia emfim que em Moçambique o nosso domínio era insignificante, que até
os nos-
sos portos de mar estavam á mercê dos pretos, e alguma
coisa se fazia para pôr termo a essa ordem de coisas. Em 1861 tomávamos
Angoche,
n'esse mesmo anno reoccupavamos o Zumbo abandonado,
mas o official encarregado de tomar posse, ao sair de Tete, não podia
atravessar a Chedima e o Dande senão quando lh'o permittiam os régulos
indígenas.
Em 1862 o governador de Lourenço Marques auxiliou
eíBcazmente o pode-
roso regulo Muzilla nas guerras que este tivera com o
seu irmão Mauéva, e obtinha que o Muzilla reconhecido se declarasse vassallo de
Portugal ; o governador de Quilimane, Custodio José da Silva, á força de
dedicação e de coragem, logrou man-. ter abertas as communicaçoes entre
Quilimane, Senna e Tete, mas tudo isto eram factos isolados,
não havia a persistência indispensável. As communicaçoes
entre Tete e Zumbo continuaram a ser quasi impossíveis ; a vassallagem de
Muzilla
não se tornou effectiva ; a Zambezia, um momento pacificada
pelo governador de Quilimane Custodio José da Silva, tornava dentro em pouco a
ser um foco de desordens ; Angoche ficava, apezar de
conquistado, em tristíssimas condições ; a vassallagem
do Muzilla não passou de ser nominal, e não tardou o próprio regulo a
esquecel-a, em Sofala os habitantes, constantemente vexados pelas incursões dos
pretos, abandonavam esse antigo padrã das nossas glorias, e refugiavam-se em
Chiloane, para onde se transferiu também a sede do governo do districto.
De vez em quando, se alguma catastrophe mais terrível
chamava as attenções de Portugal, lá se organisavam uns tristes batalhões
expedicionários, que iam, tant bien qae mal, restabelecer a ordem
em Cassange, em Angola ; mas nunca a feira de Cassange
se poderá restabelecer, as communicacoes entre Loanda e Ambriz eram
interceptadas pelo chamado marquez de Mossul, e emquanto isto
continuava assim, abandonado e decadente, não se
parava com a construcção de estradas e de caminhos de ferro em Portugal.
Infelizmente, no meio deste desleixo absoluto, começavam a apparecer na
Africa Oriental os viajantes inglezes. Livingstone em seis annos fizera
trabalhos que tinham excitado enthusiasmo em Inglaterra. Nós o tínhamos
ajudado, as nossas auctoridades tinham-lhe facilitado os estudos, tinham-n^o
por mais de uma vez salvado, acolhera-o Silva Porto, o grande africanista
portuguez, com a mais cordeal hospitalidade, tinham-lhe dado as mais amplas
indicações geographicas os portuguezes de Tete e de Quilimane, e nas suas Fiagens
não teve para nós o famigerado doutor senão palavras de ódio e de malevolencia
!
A cubiça da Inglaterra fora estimulada ; nunca mais deixaremos de a
encontrar no nosso caminho. Como se fosse muito o que despendíamos com
as colónias, apparecem n'este momento os ministérios
das economias. Espalha-se a singular doutrina de que as colónias devem viver
com os seus próprios recursos, supprimem-se os subsídios, e ufanam-se alguns
ministros de apresentar um orçamento ultramarino com saldo positivo. O sr.
Latino Coelho obedece muito a esse principio. Rebello da
Silva decretou leis excellentes com explendidos relatórios, mas que não
encerram senão palavras que de pouco servem. O que resulta de tudo isto é o
terrível desastre da Zambezia. Batalhões organisados segundo o detestável systema
habitual, com tão indisciplinados elementos,
que já na metrópole se começaram a insubordinar, vão
succumbir ás intempéries do clima, aos ataques dos pretos selvagens. As cabeças
dos seus officiaes espetadas na aringa do bonga são o triste documento do nosso
desastre. Ficou tumultuosa, apezar de uma pacificação apparente, só conseguida
ainda assim depois de muitos annos, aquella rica região que orla o Zambeze. O
rendimento da província é insignificante.
Alguma coisa se vae fazendo ainda assim a favor das
colónias. A ilha de S. Vicente de Cabo Verde tinha uma situação geographica tão
excel-
lente, que os paquetes transatlânticos, apezar de tudo,
a procuraram, e o governo conseguiu que o
cabo submarino do Brazil tivesse em S. Vicente uma estação. Estabeleceu-se, com
subsidio pesado, uma carreira de vapores para a Africa Occidental, mas como o
governo luctou primeiro que se resolvesse a fazer esse sacrifício ! E comtudo, apezar
de todo o abandono, as colónias eram taes que poucos annos depois já a
navegação se fazia sem subsidio.
Depois de Sá da Bandeira era Andrade
Corvo o primeiro ministro que se occupava das colónias com
verdadeiro amor. Foi elle que completou a
obra redemptora de Sá da Bandeira, acabando definitivamente e de facto com
a escravidão no ultramar, foi elle emfim que teve a coragem de
reclamar para as colónias os melhoramentos que tão prodigamente se
espalhavam na metrópole, e de organisar as expedições de obras publicas, que, apezar
dos defeitos da execução d ; essa medida,
fizeram ás colónias um bem infinito. Mas que tempo se perdera, e que tempo
ainda se perdeu depois, porque os melhoramentos nas colónias fo-
ram feitos aos sacões, sem persistência, sem amor !
Basta lembrarmos que o paiz soube com a máxima
indiíferença que Portugal assignára com a republica da Africa do Sul um tratado
de limites, pelo qual se restringia de um modo extraordinário o nosso districto
de Lourenço Marques, abandonando sem razão nem motivo, sem pressão ao menps de
uma nação forte, ricos terrenos auriferos.
Ao menos agora pensava-se mais nas colónias, e
concorrera também para isso a fundação em 1875 da benemérita Sociedade de Geographia; mas que desconhecimento dos nossos interesses coloniaes, que desprezo por
esses assumptos se manifestou no parlamento, quando discutiu em 1879 a
concessão da Zambezia feita ao intrépido explorador Paiva d'Andrada, e em 1881
o tratado de Lourenço Marques assignado com a Inglaterra ! Nem uma coisa, nem
outra eram acceitaveis, mas a camará ficava na negação sem lembrar, nem acceitar
os alvitres que se propozessem para se substituir o que se rejeitava.
Quando um desastre fulminava as colónias, lá vinha um
movimento de sobresalto, e foi assim que o desastre de Bolor na Guiné levou a
camara a dar ao governo os fundos necessários para se to-
marem algumas providencias urgentes, para se separar a
Guiné de Cabo- Verde, e cuidar um pouco da sua guarnição. Caia porém tudo na
apathia antiga.
Assim fora em 1877, graças á iniciativa de Andrade
Corvo, que fizera passar na camará uma lei que auctorisou o governo a gastar 30
contos com ex- ploração scientifica, que se organisou a gloriosa ex- pedição em
que appareceram pela primeira vez os nomes de Serpa Pinto, de Capello e de
Ivens. Em 1880 voltavam os exploradores, Serpa Pinto tendo atravessado a
Africa, Ivens e Capello tendo feito exploraçõe importantíssimas nos sertões de
Benguella. Foram acolhidos com extraordinário enthusiasmo, mas por ahi se
ficou. Só annos depois
se retomaram as explorações.
Houve também por esse tempo uma nova tentativa de
colonisação, tão infeliz como a da colónia de Pemba. Foi devida ao sr. Júlio de
Vilhena, que, se não pôde ver executada com felicidade a sua idéa, ao menos
formulou um excellente regulamento de coionisação, que de muito serviu aos seus
successores.
Em Moçambique, entretanto, a semente deitada á terra
por Livingstone ia fructificando. Os missionários escocezes invadiam o interior
da nossa colónia africana, fundavam o estabelecimento de Blantyre, e nós, com a
amabilidade que sempre nos distinguiu, não só os ajudávamos mas até quasi que
reconhecíamos a sua independência, estipulando na pauta de Moçambique um
simples imposto de transito de 3 °/o para as mercadorias que fossem para a
região dos Lagos, como se essa região fosse estrangeira! Sentimos-lhe hoje as
consequências.
Os TartufFos escocezes acceitaram com humildade os
favores, e, quando emfim os quizemos pôr fora, exclamaram arrogantes : Cest à
vous cTen sortir !
Precisa o auctor d'estas rápidas linhas de fallar
agora da sua própria obra, mas, como pelas circumstancias que então houve,
bastantes acontecimentos importantes se deram, temos de os relatar com a brevidade
a que nos temos cingido.
Foi no período de 1883 a 1885 que contractou a ligação
telegrapbica de todas as nossas colónias da Africa Occidental com a metrópole.
A ilha de S. Vicente era ligada por um
cabo submarino á de S. Tiago, esta a Bolama e Bolama a Bissau.
Da Guiné seguiu o cabo para a ilha do Príncipe, d'aqui
para S. Thomé, de S. Thomé para Loanda, Benguella e Mossamedes, e de Mossamedes
para o Cabo da Boa Esperança. O telegrapho está funccionando.
Contractou-se o caminho de ferro de Loanda a Ambaca,
que já tem varias secções em exploração.
Contractou-se o caminho de ferro de Lourenço Marques á
fronteira do Transvaal, e essa linha férrea está em exploração também.
Construiram-se varias pontes importantes em Angola e
em S. Thomé.
Contractou-se e realisou-se o abastecimento de aguas
de Loanda, e o abastecimento de aguas da cidade do Mindello de Cabo- Verde.
Retomaram-se as tentativas de
colonisação em Mossamedes, e doesta vez com resultado melhor. Estão
florescentes as colónias madeirenses de Sá da Bandeira e de S. Pedro de Chibia
; e, se o caminho de ferro agora projectado se realisar, serão dentro em poucos
dias núcleos poderosos de colonisação.
A conferencia de Berlim resolveu as questões do Zaire.
Podemos occupar emfim esse território comprehendido entre 5 o 12' e 8 o de
latitude. Tivemos de acceitar, porém, o domínio de um novo Estado africano, o
Estado livre do Congo, na margem direita do Zaire. Reconheceu-se-nos comtudo a
posse de territórios que tínhamos recentemente adquirido e a que nunca tínhamos
aspirado, os de Cacongo e Massabi.
D'ahi proveiu organisar-se o novo districto do Congo,
estabelecendo- se por um contracto a navegação regular do Zaire, e comprando-se
duas
canhoneiras e uma lancha para a policia do rio. Urgente
era acudir á Africa Oriental, onde os estabelecimentos inglezes iam tomando um
des- envolvimento assustador pelo lado dos Matabeles. Por isso se reoccupou
Manica, ha muito abandonada, e alli se organisou um novo districto. Por isso
também se aproveitou a morte do Muzilla, para reatar com seu filho e successor,
Gungunha- na, os laços de relações esquecidas, tornando-as porém d'esta vez
mais solidas, porque se fez o tratado em Lisboa e se estabeleceram residentes nas
terras do regulo.
Outra questão importante havia a resolver em Moçambique,
que estava ha quarenta annos pendente. O nosso visinho pelo lado do Norte, o
sul-
tão de Zanzibar, considerava como sua a bahia de
Tungue, e ahi estabelecera postos aduaneiros, e todos os signaes de domínio
contra nós. Tínhamos sempre protestado, mas não conseguíramos obrigal-o a.
desistir da sua persistente invasão, até que em janeiro de 1886 o sr.Augusto de
Castilho, governador de Moçambique, fez reapparecer na contestada bahia a
bandeira portugueza. Era o principio da reoccupação, que no tempo do ministério
immediato foi concluída.
Não aconteceu o mesmo ao protectorado portuguez
estabelecido em 1885 na costa de Dahomé, que o ministério immediato aboliu. Era
uma idéa
sympathica a de fazer com que Portugal grangeasse a
gloria de abolir aquelles sacrifícios humanos, que tornam tão horrorosamente
legendá-
rio o reino de Dahomé. Pôde ser que o rei bárbaro e
pérfido, de quem estão agora os francezes justamente queixosos, nos trahisse
como os trahiu a elles, mas, emquanto durou o protectorado portuguez, e bem
pouco tempo foi, não se fizeram as sinistras carnificinas.
Finalmente, retomou-se o caminho das exploracoes. Em
1884 Capello e Ivens voltaram á Africa, atravessarain-n'a de occidente a
oriente, e regressaram gloriosamente á pátria em 1885, e n'esse mesmo anno
foram Serpa Pinto e Augusto Cardoso explorar a região entre o Cabo Delgado e o
Nyassa, n'esse mesmo anno ainda partiu Henrique de Carvalho a fazer a sua tão
profícua e tão gloriosa exploração de Muata-Yanvo. Os Stanley e os Wissmann
sentiam por toda a parte o echo da passagem dos exploradores portuguezes.
Assim a nossa politica colonial africana não tivera a
persistência indispensável para o fim a que ella devia aspirar. Quando n'essa
vastíssima província de Moçambique era indispensável occupar fortemente os
pontos essenciaes para o domínio, e manter na nossa obediência os régulos que
tão facilmente sempre nos seguiram, vemos
que em 1861 reoccupavamos o Zumbo, abandonado havia
muito e em 1862 fazíamos o tratado com o Muzilla, e só vinte e três annos
depois, em
1884, reoccupavamos Manica, e em 1885 fazíamos um mais
solido tratado com o Gungunhana ; quando tão necessário era, para a
administração,
para o commercio, para a agricultura, sulcar esses
sertões com a locomotiva que leva a toda a parte a ordem, a prosperidade* só em
1884 e 1885 se faziam os caminhos de ferro essenciaes de Lourenço Marques e de
Ambaca ; finalmente,
quando a colonisação persistente, constante, era o grande meio efficaz de
tornarmos esses vastos territórios solidamente portuguezes, só em 1849 se
fundava a colónia de Mossamedes, e só 36 annos depois em 1885 se fundavam as
colónias Sá da Bandeira e S. Pedro de Chibia.
Quando a exploração perseverante e scientifica do
interior da Africa tinha de ser o complemento da nossa missão dominadora,
deixávamos os nossos negociantes, como Silva Porto, fazer viagens admiráveis,
os nossos mestiços percorrer o continente negro em todos os sentidos, sem os
fazermos seguir por homens que soubessem conquistar esse continente para a
sciencia, e esse commercio para a nossa bandeira, só em 1877 se lançou a primeira
expedição scientificamente organisada, só sete annos depois em 1884 se lançaram
outras três expedições scientificas de maravilhosos resultados.
E entretanto pairava em torno das nossas colónias a
cubica estrangeira, arrojava-se a Europa inteira á partilha da Africa, e nós
corríamos perigo de. ser excluidos. Os tratados de 1886 com a França e com a
Allemanha impozeram-nos sacrifícios relativamente pequenos a troco do reconhecimento
de vastos domínios em Africa Occidental, mas na Oriental é que estava o perigo,
porque ahi affloravam o oiro e os diamantes e luzia a cubica nos olhos da
Inglaterra. O perigo estimulou-nos e continuou-se, depois de se perder algum
tempo, no caminho em que se entrara em 1884 ; novas expedições se tentaram,
alargou-se um pouco o districto de Manica, fundou-se o districto do Zumbo, mas
já tarde. A Inglaterra intimou-nos brutalmente a parar. Não contamos o resto ;
a historia é recente e o coração ainda nos verte
sangue. . .
Ahi
está em breves traços a historia da Africa portugueza nos cincoenta e seis
annos de regimen constitucional. Preferiríeis ura romance? Não o pôde haver
mais dilacerante do que este nosso ro-mance colonial, este romance africano,
truncado, abandonado, de que apenas foram escriptos alguns capítulos por uns
poetas que se apaixonaram, por esse épico ideal. Que os corações patrióticos
dos que me lêem pulsem com a narrativa do que fizemos e do que podíamos fazer,
e que se apaixonem também por esse ideal resplandecente. Isso bas- tará para
que resurjâmos. O que nos tem faltado é a boa vontade persistente dos governos,
e o sincero enthusiasmo do povo.
FIM DE TEXTO