Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma viagem a Mossamedes: trechos do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862


Postal da povoação de Mossâmedes (Moçâmedes (Namibe), onde se pode ver o morro de D. Fernando (também chamado na época de Morro da Ponta Negra),  onde foi inplantada a Fortaleza (de início Presidio/Estabelecimento) a demarcar a posse militar da área e áreas circunvizinhas (1839-1840). À dt,  a Igreja de Santo Adrião. Postal
.


Outra imagem do Forte mandado construir em 1840 e reconstruido em 1884, pelo então Governador Geral da Província de Angola - Manuel Eleutério Malheiros que o apetrechou com 26 canhões.
 
 


  Postal da povoação de Mossâmedes (Moçâmedes- Namibe)  

A flotilha que esperou em Moçâmedes o 1º Governador, em 1849
Ver AQUI
Ponte móvel de embarque/desembarque


No livro "Quarenta e cinco dias em Angola", de autor anónimo,  datado de 1862, encontram-se elogiosas referências a Moçâmedes (Mossâmedes) se comparadas com as referências em relação Benguela, à "inóspita e doentia Benguela", cidade portuária a norte de Moçâmedes,  fundada em 1617, que  durante séculos e até bem dentro do século XIX, juntamente com Luanda, serviu  de entreposto  do comércio de escravos africanos para o Brasil e Américas, um negócio que envolveu comerciantes brasileiros, portugueses e africanos (sobas) de outras regiões, que foram responsáveis pelo envio de quase meio milhão de africanos,  e de paragem obrigatória para comerciantes de cera e marfim que se dirigiam a Luanda... 



Interessante  o relato da partida para Moçâmedes:


"...Amanhã levantamos ferro, e seguimos viagem para Mossamedes. Adeus maldita Benguella : — não terás as minhas cinzas! Fica-te com os teus elegantes coqueiros, e com as tuas lindas bananeiras — deixo-te sem saudades — o teu ar mata. Adeus homens óptimos; Deus vos conceda uma óptima cova, onde sejaes optimamente enterrados: — viver n'esse estado não é viver.

Benguela ficava no meio de pântanos e lagoas. Abundavam os mosquitos,  o paludismo era uma constante, e chegou a ser chamada "cemitério de brancos". 


O autor prossegue o seu relato prossegue com uma não menos interessante descrição da costa angolana, entre Benguela e Moçâmedes que transcrevo a seguir: 

"...Vamos seguindo uma costa árida e melancólica, que os homens ainda não conseguiram cultivar, e que o próprio Creador parece ter abandonado. Esta solidão é medonha!... Ao contemplar o horisonte limitado por escarpadas e estéreis montanhas, cujos cumes se confundem com as nuvens, sinto o coração comprimir-se-me de tristeza; volvo o pensamento para a Europa, mas ás saudades que de mim se apoderam, só posso dar allivio vertendo lagrimas de arrependimento. Pátria, familia, e amigos, que eu nunca deveria ter-vos deixado, tornar-vos-hei a ver ainda?...

Quanto é extensa esta costa ! Ha vinte horas que navegamos e comtudo apenas tenho descuberto duas ou três feitorias.  Ah ! lá se avista a Ponta Grossa; estamos na bahia a que os inglezes deram o nome de — Pequena bahia dos peixes — e de um só lançar d'olhos pôde o viajante abraçar toda a povoação de Mossamedes, hoje villa, e á qual os habitantes dão o nome de Praia.

A impressão primeira de Moçâmedes vista do mar e em terra:

Mossamedes, ao inverso de Benguella, apresenta um aspecto triste, porque as suas casas baixas e por em quanto pouco numerosas, estão como perdidas no meio d'um extenso areal.

Em frente de nós e sobre um morro alcantilado temos a fortaleza; á direita, mais para o interior, descobre-se a igreja — mais longe, algumas habitações e o hospital. Á esquerda, na baixa, e em arruamentos regulares está a povoação ; — no fundo, a extensa e longínqua serra de Chella, um dos mais admiráveis caprichos da natureza, mita este quadro de um colorido pouco variado.

A distancia talvez de três quartos de légua, avista-se arvoredo e bella vegetação: — é o sitio das Hortas, alfobre delicioso, onde se reproduzem todos os fructos, hortaliças, e arbustos europeus juntamente com os dos trópicos. Entre as Hortas e a Villa, veem-se espalhados alguns túmulos e cruzes toscas, levantadas em memoria dos primeiros colonos que alli se foram estabelecer. Aquelle cemitério está abandonado, por terem feito outro em sitio mais próprio e convenientemente disposto.

Saltemos em terra e vejamos esta povoação, que tanto nos tem gabado. O clima é delicioso. Sinto renascer, n'uma agradável transição, a energia que o calor abrasador de Loanda me tinha feito perder: já não estou alagado em suor, como hontem ainda me acontecia — julgo estar na Europa.

Mossamedes é uma villa moderna, em que muitos dos melhoramentos indispensáveis estão ainda por executar; assim mesmo muito se conseguiu com os poucos recursos de que poderam dispor, porque o Governo não tem olhado como deveria para aquelle abençoado torrão. É a terra da Província que mais tem sido visitada pelos europeus: — todos os empregados que adoecem, pedem licença para se irem restabelecer á Cintra africana, e isso hoje é-lhes mais fácil com os vapores da «União Mercantil» , do que no tempo em que não haviam senão uns pequenos navios do Estado, em que se viam obrigados a alurar as demoras e caprichos que os commandantes podessem ter nos diversos pontos da costa.

Não há ainda vinte annos, que n'aquelle extenso areal nem uma só cabana se avistava; — agora possue três bellas ruas, bem alinhadas, cortadas por outras tantas que dão accesso á praia, com lindas casas térreas no estylo americano, bem construidase commodamente repartidas. Os colonos estrangeiros, mais avisados, levaram comsigo operários intelligentes, que introduziram innovações desusadas em outros sítios da Provincia, sabendo tirar todo o partido dos raríssimos recursos que o paiz lhes offerecia."


A Fortaleza de S. Fernando (ver AQUI)

A Igreja Paroquial de Santo Adrião


 
 Os barracões no local onde se abriu a Avenida da República

  Outra perspectiva dos mesmos barracões...


A Rua que conhecemos como da Praia do Bonfim


Moçâmedes: Praia, ponte e cidade (postal)

 

Moçâmedes avançando na sua urbanização, de acordo com o projecto 
do Gov. Fernando Costa Leal. Outra prespectiva da Praia do Bonfim

 
 Prespectiva da rua que conhecemos como da Praia do Bonfim

 
 Passeio domingueiro nas Hortas de Mossãmedes.
Foto decida pelo Engº Albino da Cunha a Sanzalangola (Lay Silva)

 O Palácio do Governador...



Sobre a população de Moçâmedes na época e sobre factor habitação:


 "...Successivos comboios de colonos teem ido estabelecer-se em Mossamedes contando actualmente a villa e subúrbios para mais de dous mil habitantes, sendo seiscentos e tantos brancos, mil escravos, e compondo-se o resto de pardos, pretos livres e libertos. As três tríbus circumvisinhas de Crok, Giraúl, e Quipola tem para cima de setecentos habitantes. Os concelhos da Huila, do Bumbo, e dos Gambos, reunidos, apresentam uma população muito mais numerosa, mas os brancos não excedem talvez a cento e setenta, os pardos a trínta, e os escravos e libertos a quinhentos e quarenta, avultando a população em indigenas dos Gambos, que orçam por uns cincoenta mil.

"... As primeiras construcções, foram como no resto da Provincia, compostas de Urtigas, com barro e ramos de palmeira servindo de cobertura: algumas d'essas humildes habitações ainda hoje existem, a parede outras mais elegantes, como para mostrar ao viajante, por que serie d'incommodos tiveram de passar aquelles que se animaram a lançar as bases de uma povoação, que está destinada para ser um dia a mais bella das nossas possessões africanas.Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862
  

             
A tríade Plácio do Governador, Igreja e Hospital...
A Fortaleza, o Palácio do Governador, a Igreja e o Hospital vistos do mar...

O Hospital de Moçâmedes, na Avenida Felner, fronteira ao mar,
 demolido nos finais da década de 1950

 
 O Bairro da Torre do Tombo visto da baía de Moçâmedes
 
 
O autor aborda a relação entre o Governador Fernando da Costa Leal (5º Gov. Moçâmedes) e um certo sector da população:


"...Mossamedes podia ter prosperado muito mais, se tivesse tido sempre governadores tão intelligentes e honrados como Fernando da Costa Leal, a quem ella muito deve. Moço de instrucção, de um carácter enérgico, e de uma honradez exemplar, foi o único governador de Mossamedes que fez obras de reconhecida utilidade, apesar das dificuldades que teve de vencer, e da crua e injusta guerra que lhe moveram alguns habitantes da villa. Ja há muito reconheceram elles os seus erros, porque viram que a inteliigencia, energia e boa vontade foram bem mal substituidas, attendendo-se ao interesse particular e despresando-se completamente os do districto. A verdade que este estado de cousas convém a certos individuos; porque em Mossamedes, se a terra é boa, a gente nem toda o é; há muito quem pesque era aguas turvas, e a quem convenha a desordem e o desleixo.

Esta é infelizmente a grande ulcera das nossas possessões. As ambições, a inveja, e o ascendente que muitas vezes certos empregados subalternos tomam sobre outros mais graduados, mas de menos inteligência, são  causa de muitos devaneios, de muita injustiças, de muita intriga, e acabam sempre pela completa desorganisação do systema administrativo que se tenha tentado seguir. Mas ainda esta não é a maior difficuldade que a authoridade tem de combater, porque havendo sufficiente energia, com pouco custo faz entrar no seu dever os seus subordinados, e facilmente pode afastar para longe aquelles que lhe forem hostis; o que é mais para recear, são certos habitantes que depois de se pilharem, senhores de uma casaca preta, de um chapeo de copa alta, e de um par de luvas brancas, esquecem o que foram, e o que verdadeiramente ainda são, pretendendo como o gaio da fábula, revestido das pennas do pavão, que lhes dão uma importância que elles não merecem e até de que não são dignos. Quando um governador, que conhece o seu lugar, encontra d'esses perus cheios de vento e de soberba, e não transige com elles, tem de luctar constantemente com mil intrigas e embaraços que adrede lhe preparam aquelles, cuja influência foi despresada.

A mania geral em Angola, de ser o favorito dos governadores, dominal-os, e fazer depender da sua approvação certos pedidos e determinações.

O zeloso 5º Governador de Moçâmedes, Fernando da Costa Leal (1854-1859), responsável pela construção da Fortaleza de S. Fernando no local do antigo forte,  pela planta topográfica da cidade, pela conclusão da Igreja, pelo edifício da alfândega, entre as muitas obras a que Moçâmedes lhe ficou a dever
(Oleo existente nos Paços do Concelho da CMM)


"...O Governador Leal emancipou-se d'essas tutorias: e achou-se no campo, luctou com perseverança, pagou a ingratidão com benefícios, e succumbindo com glória, retirou-se, sem que a mais leve nódoa tivesse manchado o seu nome. D'estes homens não convém para as nossas possessões : e por isso teve de recolher a Portugal.

Este zeloso funccionario levantou uma planta de Mossamedes, e n'ella indicou as construcções que tencionava mandar fazer: projecto bem combinado, e conveniente para evitar o desalinho que se nota em todas as terras, onde logo de principio não houve o cuidado de traçar um plano geral de obras. Edificou o quartel, que com quanto seja hoje um dos peores edifícios de Mossamedes, era n'aquelle tempo o melhor que havia, mesmo porque então não se dispunha ainda de muitos objectos que já se encontram no mercado, e também porque os recursos que tinha, eram mui restrictos. Principiou a fortaleza, cujo plano foi depois alterado e estragado por quem o substituiu na direcção d'aquelles trabalhos.

Lançou as fundações de um Palácio para o governador, juntando á custa de muitos sacrificios, grande quantidade de materiaes para a sua continuação.

Edificou uma bella igreja, com residência para o parocho, e tentou estabelecer um moinho, para cujo fim chegou a receber de Lisboa as pedras necessárias, que jazem dispersas na praia onde provavelmente ficarão cobertas pela areia. Visitou o interior, construiu fortes, e deu grande incremento á Colónia da Huilla, onde estabeleceu um moinho, que ainda hoje trabalha com proveito dos colonos e da guarnição.

Actualmente as únicas obras que se vêem em andamento são as da fortaleza, mas essas mesmas seguem com morosidade, porque os operários também se occupam no serviço de alguns particulares influentes. Os materiaes, destinados para o Palácio, tem sido vendidos, dados e roubados!

Contrasta de uma maneira bem singular este estado de dissolução com a actividade que presidiu ao desenvolvimento material, que em outro tempo se manifestara, e que eu tractei de esboçar. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



 Sobre Moçâmedes, o seu casario, suas ruas, avenidas, plantações...

"...Em Mossamedes não ha senão uma casa de um andar, e nem é prudente fazel-as ; não só por falta de madeiras solidas, como também por causa do modo de construcçao de que se servem por não haver pedra; pois que a que apparece na villa é um grés friável, ou uma petriíicação curiosa, que se compõe de conchas envolvidas n'uma espécie de betume. Com esta qualidade de pedra é que estão construindo a fortaleza.

O Governador Leal descobriu próximo de Mossamedes gesso de excellente qualidade, de que fazem grande uso na villa, e que os navios poderiam transportar como lastro para Loanda: — é mais um ramo de commercio que tem sido despresado.

As construcções são feitas com adubos seccos ao sol, sem nenhuma outra preparação, e formando pedaços de grandes dimensões. Cada tijolo tem proximamente 4-4 centímetros de comprimento, por 22 d'espessura, e outros tantos de largura : o barro é do melhor que se pôde desejar, e daria magníficos tijolos se os cozessem e os fabricassem do formato francez.

A casa de melhor risco é onde vive o governador, e pertence a um portuguez, natural de Lisboa, estabelecido na ilha de S. Thomé. Afora mais algumas casas particulares, as outras são occupadas por gente de negocio, soldados casados e degredados com officio.

Quasi todas as habitações da Praia tem páteos, onde plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quaes abrem a sua cacimba, pequeno poço, cujo revestimento interno é formado cora barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, e d'onde tiram a agua para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Apesar de ser muito melhor que a de Loanda, a agua é igualmente filtrada, e julgo que vêem do interior os filtros que lá usam, de um grés mais compacto do que o que se emprega nas construcções. O açougue fica situado n'uma elevação, e algum tanto afastado do centro da villa.

As ruas estão por calçar; — tencionavam dar principio a esse melhoramento, o que me não pareceu muito acertado, em quanto não tiverem fixado com plantações de arvores, ou outras edificações, as areias que os ventos trazem sempre em movimento.

Sem uma barreira no littoral que se opponha á invasão das areias, e que sirva para no futuro fornecer madeiras de construcção, mal poderá Mossamedes conseguir ter nas suas excellentes ruas um piso commodo e uma communicação fácil com o sitio tão concorrido das Hortas. Dizem-me que já tentaram a sementeira dos pinheiros, mas sem resultado. Houve por força má direcção n'essa experiência, porque o pinheiro ha de dar-se n'um clima tão benigno como aquelle : longe de desanimar, deveriam repetir por mais vezes, e em diferentes pontos, outras tentativas, porque o seu bom êxito muito contribuiria para a prosperidade d'aquella terra."


Convinha primeiro plantar ao longo da praia cinco ou seis fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada, para se poder estabelecer uma linha de defeza, como se pratica nas Landes, e ao abrigo d'ella ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira,essa mesma serve de resguardo ás que depois quizerem fazer.

É muito para sentir que se tenham occupado tão pouco de plantações: apenas na praça da Colónia se vêem algumas arvores mal resguardadas. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

A problemática da água é abordada:

O Governador Leal tentou edificar a villa no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a commodidade dos desembarques, e sobre tudo o receio que muitos tinham que alli se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa. Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado.

A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquelle governador a encontrou a pequena profundidade.

Há em Mossamedes dous operários de merecimento um d'elles é carpinteiro, e faz as vezes de sub-delegado, e d'architecto—fala de papo na Novissima Reforma, e nos differentes estylos d'architectura ; o outro, chamado Espirito Santo, é um d'esses homens como se encontram muitos nas cidades do Minho, e a que dão o nome de—faz tudo. —Uma das suas obras existe na fortaleza: é uma chapa de fundição com letras em relevo, que não achei mal feita, e dei-lhe bastante apreço por ter sido executada n'uma época em que faltavam as cousas mais indispensáveis. Dos outros officios que exerce, nada posso dizer, senão que como cozinheiro, faz detestáveis maças, e deixa queimar os assados. Assisti a um jantar, feito por elle, onde provei um bocado de maçado assado, que me não pareceu delicado manjar. Também ha um excellente funileiro, natural do Porto, e para alli enviado pela Relação."

A bahia de Mossamedes é uma das mais bellas que tenho visto—o seu fundeadouro é magnifico e vasto.

Como na maior parte das nossas possessões africanas, faz-se o desembarque aos ombros de barqueiros, o que sempre apresenta certo risco aos visitantes que se não acharem preparados para tomar um banho de choque.

Um caes bem construido, que nivelle a praia pela altura proximamente das construcções regulares que alli existem, com escadarias para os desembarques, e uma ponte de descarga para o serviço da Alfandega, são as obras mais urgentes. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 O edifício da Alfândega de Moçâmedes, em postal,
   
mandado construir pelo Governador Fernando da Costa Leal



"....A Alfandega precisa também ser reformada : a actual é um barracão impróprio e sem accommodações. Uma Alfandega deve ser um edifício isolado, próximo ao desembarque, e com as condições necessárias, não só para os empregados, mas principalmente para armazenar as fazendas, que muitas vezes os compradores não podem recolher nas suas habitações.

Na praia presenceia-se uma scena assaz desagradável e á qual deveriam pôr termo, se os Camaristas quizessem mais tractar dos interesses da terra, e menos de certas intriguinhas, e questões pessoaes, com que ninguém aproveita, e elles muito perdem."Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 

 
Moçâmedes: vista panorâmica com o Palácio e a falésia (à dt.) ao fundo


Moçâmedes. Grupo de emigrantes algarvios.  Foto de Antunes Salvador

Habitação de uma família de indígenas no distrito de Moçâmedes (postal da época)


O moinho de vento mandado construir por João da Costa Mangerição, da colónia do Brasil (1849-50). *

O edifício da Alfândega em construção. Carro de bois recolhendo água de fonte pública

 
O Jardim da Praça da Colónia para onde esteve projectado um
 monumento aos pioneiros de que existe maquete.
 
Escalação de peixe, na praia, junto à ponte, piquete e Fortaleza de S. Fernando (ao fundo)

Autóctones retirando a rede de arrasto do mar e cães na praia
Autóctones retirando a rede de arrasto do mar. A Fortaleza e o navio encalhado



A Pesca e resíduos piscícolas:


"...Quero fallar da escallação do peixe, que convinha se fizesse em sitio retirado e mais apropriado para esse fim ; onde o vento da barra não cobrisse d'areia fina, como agora acontece, o peixe preparado de fresco, o que o torna impróprio para quem não estiver ainda aífeito como os negros, a trincar areia sem se lhe arripíar os cabellos. Também é costume quando chegam os pescadores virem á praia os pretos comprar o peixe para os seus senhores, e leval-o para casa, já aberto e escamado, para o que vêem sempre munidos d'uma faca. Os cães attrahidos pela esperança de pilharem alguma lambugem,
rodeiam os pretos na occasião do amanho. Alguns mais atrevidos, ou mais famintos, levam a ousadia a ponto de querer partilhar melhor quinhão do que aquelle que lhes
destinam, mas pagam caro o atrevimento, porque o prelo, estúpido e cruel, dá-lhes desapiedadamente com o gume da faca nas mãos, e continua tranquillamente o seu trabalho. Contei n'um dia em que fui ver chegar o peixe, vinte e seis cães, deitados á sombra de uns barcos que se estavam concertando: vi-os levantar de vez em quando a cabeça, e olhar para o lado d'onde deviam vir os barcos, e como nada avistassem, recostar-se, fechar os olhos e dormir. Repetiu-se esta scena muitas vezes, até que chegando finalmente os pescadores, elles ahi se levantam todos, e a passo lento se dirigem ao sitio onde os barcos aportaram. Foi então que tive occasião de notar, que a maior parte d'elles eram aleijados das mãos, e que me explicaram o motivo de sua má sorte. Não sei de que sirva tanto cão em Mossamedes, a indiferença dos habitantes deixa-os assim produzir espantosamente, até que se vejam obrigados a combatelos, como os primeiros colonos tiveram de fazer aos lobos, que todas as noites vinham cumprimentar os seus novos hospedes. O que é muito singular e digno de reparo é, que em Angola, onde o calor é excesssivo, e onde se não encontram tão facilmente como na Europa sitios onde os cães possam beber, não ha lembrança de um só caso de hydrophobia." Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



Colono de Moçâmedes montado num boi-cavalo, em postal



Os meios de transporte: o boi-cavalo

"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola : para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar n'um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e á quinta dos Cavalleiros.

Este nome de—boi-cavallo—produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma differença fazia dos outros bois.

Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual á dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os Ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do—passo do boi—. Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo;
mas a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para lhes recordar o seu dever.

Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem visita Mossamedes não deve deixar de dar....» Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862


A Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

Moçâmedes: Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Chefe da 1ª colónia ida de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes, em1849Um dos símbolos da fixação do primeiro grupo de portugueses que, idos do Brasil, fugidos aos lastimosos acontecimentos de Pernambuco ocorridos a 26 e 27 de Junho de 1848,  chegaram a Mossâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, para alí, em solo que consideravam Luso,  se fixarem e desenvolverem as suas propriedades agrícolas nas margens férteis dos rios Bero e Giraúl .


«...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda há pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa;

"...Continuemos agora a nossa excursão.
O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona, que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro, que na maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha, pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada.

D'esse mesmo lado descobrem-se vários terrenos cultivados, e algumas habitações de lavradores. Entre ellas acolá se avista a de uma portuense celebre, que tendo ido para o Brazil, fez parte da colónia que foi d'aquelle Império para Mossãmedes. D. Isabel d'Austria, era uma senhora muito prendada e de bastante instrucção, que falleceu ha poucos annos ; no cemitério velho vé-se o seu túmulo, mas com o nome quasi ininteligivel. Esta senhora dedicou-se á agricultura e á educação dos seus escravos e escravas : ellas ainda hoje são das mais procuradas, e algumas adoptaram e conservam o nome da sua primeira possuidora.

Esse costume é muito frequente em Angola, e até certos Régulos do interior teem pedido como grande honra a alguns Governadores geraes a mercê de poderem usar de igual nome, inclusivamente do de família.

Eis-nos na quinta dos Cavalleiros. É uma extensão immensa de terreno, cultivado á maneira do Brazil, com excellentes plantações de canna d'assucar de magnifica qualidade, bello algodão, muita mandioca e bananas.
Esta propriedade pertence a um individuo que fazia parte da colónia brazileira, e que hoje se acha na Europa, com pouca tenção de voltar a Mossamedes.

Dentro da habitação do fazendeiro está uma boa machina americana de limpar o algodão, que trabalha com a maior regularidade, dando óptimo resultado. A pequena distancia existem as ruinas do engenho do assucar, que não funcciona por falta de meia dúzia de traves para o reparar provisoriamente !

Tudo quanto do terraço podemos alcançar com a vista foi aqui ha tempos devastado e roubado pelos Munanos ou Nanos, espécie de vândalos do interior, que só vivem de pilhagem. Quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.


Cinco mil d'estes gentios tentaram uma invasão em Mossamedes onde já não faltava medo, porque não estavam então preparados para lhes poderem resistir. Entraram pelo lado do norte, que é o mais mal guarnecido, — com quanto fosse fácil forma um reducto a quatro léguas de distancia da villa, para conter em respeito estes bárbaros, — chegaram á quinta, onde umas dezoito pessoas mal armadas os contiveram durante umas poucas de horas; lançaram o fogo e talaram todas as plantações, incendiaram o engenho e a habitação, e retiraram a final, levando prisioneiros o fazendeiro e parte samedes com os trajes que trazia quando veio ao mundo, e alguns escravos que depois conseguiram fugir vieram apresentar-se-lhe.


Assim ficou em poucas horas, este homem laborioso, reduzido quasi á miséria; mas graças aos esforços e hábil administração da pessoa a quem o proprietário deixou entregue a sua quinta, a não serem as ruinas do engenho, nada nos poderia fazer acreditar n'uma semelhante devastação.


Póde-se dizer que a quinta já se acha talvez em melhor estado, do que antes da invasão, mas muito mais se teria conseguido se o fazendeiro contasse o numero de escravos precisos para o serviço. Com muitos sacrifícios tem comprado alguns, mas o seu numero ainda está longe de chegar ao que d'antes era, e esse mesmo, na actualidade, seria insufficiente.

O Governador geral deveria animar este homem brioso, pondo ao seu serviço, durante quatro ou cinco annos, um numero avultado de libertos; quando não, continuará, por falta de braços, a perder-se a colheita da canna e do algodão.

Foi por occasião d'esta invasão que o Governador de Mossamedes deu a mais evidente prova da sua inépcia. Apenas teve noticia que os Munanos(1) se aproximavam, o seu primeiro cuidado foi de flanquear uma loja em que vende manteiga, com quatro peças d'artilheria, e convidar os habitantes para o coadjuvarem. Para o resolver a enviar soccorros á quinta, foi preciso descompôl-o : — mandou então a muito custo uma peça, mas com balas que lhe não serviam !
Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

Nota: As fotos foram colocadas à margem dos textos. 
As transcrições foram  respeitadas na íntegra.

Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de biblitecas até ser cuidadosamente digitalizado pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos.



Ver também AQUI

..................................................................................................................................................................................


 
O «moinho de vento» a que se refere a estatística respeitante ao ano de 1854, junta ao ofício de FERNANDO LEAL, dirigido ao Ministério do Ultramar, em 2 de Janeiro de 1855.



 
*«...Dentro das máquinas agrícolas usadas no Distrito, na sua fase incipiente, interessa particularmente mencionar  o«moinho de vento» a que se refere a estatística respeitante ao ano de 1854, junta ao ofício de FERNANDO LEAL, dirigido ao Ministério do Ultramar, em 2 de Janeiro de 1855. Pertencera a João da Costa Mangericão, que o Governador Sérgio de Sousa considerava um dos artistas mais prestáveis da Colónia. Começou a moer em 15 de Agosto de 1851, como se lê no Relatório de Sérgio de Sousa, de 31 do mesmo mês e ano, mas parece que em face dos insucessos agrícolas dos primeiros anos, que só teve regular funcionamento a partir de 1853, ano em que a agricultura distrital prin.principiara a desenvolver-se. Assente em casa própria, era movido pela acção do vento, sendo de ferro coado todas as rodas dentadas. Moía, termo médio,um cazunguel de grão por hora. Moinho e casa , fora tudo trabalho executado pelo seu proprietário. ( B.O. nº322, de 29 de Novembro de 1851)




quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Mossâmedes (Moçâmedes) e as operações militares em 1914 no sul de Angola

A GUERRA EM ANGOLA

1. AS PRIMEIRAS OPERAÇÕES MILITARES EM 1914
 
Leito do Cacoluvar
 A procurar água no leito do rio Cacoluvar 

 
I. A FORÇA EXPEDICIONÁRIA. PREPARAÇÃO DAS OPERAÇÕES
A entrada da Inglaterra no conflito europeu, tornada pública com a declarado de guerra à Alemanha em 5 de Agosto de 1914, e a possibilidade de que, mais tarde ou mais cedo nos poderíamos encontrar envolvidos no mesmo conflito, levaram o governo português a pedir ao Congresso da República, em 7 do referido mês, «as faculdades necessárias para, em tal conjuntura, garantir a ordem em todo o país e salvaguardar os interesses nacionais, bem como para ocorrer a quaisquer emergências extraordinárias de carácter económico e financeiro».
Dada a nossa condição de potência colonial, cujas duas maiores possessões ultramarinas - Angola e Moçambique - confrontavam, ao tempo, com dois grandes territórios alemães -  a Damaralandia e o Leste Africano - e tendo em atenção que eram sobejamente conhecidas as pretensões germânicas de compartilhar a posse daqueles nossos domínios, o Governo da metrópole, na previsão de futuros acontecimentos, resolve reforçar as guarnições provinciais com dois corpos expedicionários, um destinado a Angola, outro a Moçambique.
No dia 18 de Agosto, o general Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convida o tenente coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas 1 a aceitar o comando do primeiro daqueles corpos, constituído por um quartel general, um batalhão de infantaria, uma bateria de metralhadoras, uma bateria de artilharia de montanha, um esquadrão de cavalaria, serviços de saúde, engenharia, administração militar, transportes e de etapas, e tendo por missão assegurar a obediência do gentio e vigiar a fronteira sul nos pontos importantes 2.
A partir do dia 20, e por intermédio do Ministério das Colónias, Roçadas expede ao governador geral ele Angola uma série de telegramas pedindo informações sobre os recursos existentes na província e mandando proceder a vários trabalhos, entre os quais a mobilização das unidades indígenas e europeias.
Passados dias, e depois de ter reunido os elementos que lhe foi possível colher em Lisboa, apresenta ao Ministério das Colónias um projecto de operações, no qual prevê o reforço do corpo do seu comando com unidades da guarnição da província de modo a constituir-se uma coluna de operações cuja composição e efectivo correspondessem à importância dos objectivos a atingir e que seriam: ocupação directa cio Cuanhama e oposição ao avanço de quaisquer forças, isoladas ou não, que pretendessem invadir o território da colónia.
Nos dias 10 e 11 de Setembro, a bordo cios vapores Cubo Verde e Moçambique, parte ele Lisboa o corpo expedicionário.
A 27 de Setembro e 1 de Outubro desembarcam em Moçamedes o Comando, as unidades de menor efectivo e os Serviços, continuando a bordo por alguns dias, e até que fosse escolhido e preparado o seu aquartelamento na cidade, o batalhão de infantaria 14.
Pouco depois da instalação do quartel-general em Moçamedes, e até 11 de Outubro, publicam-se as ordens e instruções para a organização do serviço de informações e dos serviços da retaguarda.
Para a organização do primeiro destes serviços, o Governador-Geral de Angola, Norton de Matos, ampliando as instruções confidenciais do Ministro das Colónias, determinava ao Governador do distrito de Moçamedes que cooperasse com o comandante do corpo expedicionário na instalação e funcionamento do referido serviço, ordenava aos chefes de concelho, de circunscrição e de postos da beira mar que se pudesse em contacto com as canhoneiras Save e Massabi, que estavam cruzando ao longo da costa de Moçamedes.
Cais de Moçamedes
Cais flutuante de Moçamedes
Ao Governador do mesmo distrito solicitava Roçadas que lhe transmitisse quaisquer informações que se referissem à acção de alemães ou indígenas nas nossas águas, no nosso litoral, no próprio território da Damaralandia e no interior do distrito; e aos capitães-mores do Cuamato, Evale e Baixo Cubango confia-lhes idêntico serviço a respeito do que se passar dentro da área das respectivas jurisdições e no país da Damaralandia, que interesse à nossa acção militar e política no sul da província.
Com o fim de completar as informações relativas ao inimigo provável com as que diziam respeito ao terreno em que poderia vir a operar, manda ainda proceder ao reconhecimento militar do Baixo Coróca no litoral de Moçamedes, ao estudo do acesso possível às regiões de Otchinjou, através dos contrafortes da Chela, estudos estes cujo objectivo era encontrar uma posição militar que fechasse o acesso do Baixo Cunene a Porto Alexandre e Moçamedes e verificar se era possível pôr em ligação a força, que porventura viesse guarnecer aquela posição, com as futuras forças do sector de defesa do Pocolo.
Publica, a seguir, a organização dos serviços da retaguarda, estabelecendo como base dessa organização:
Zona do interior – Desde o litoral até o planalto da Huíla. Zona da retaguarda – Desde o planalto da Huíla até o Cuamato. Zona de operações – Desde o Cuamato até à fronteira alemã. Estação de reunião – Os depósitos de Moçamedes, na estação do caminho-de-ferro. Estação «terminus» – Estação do caminho-de-ferro de Vila Arriaga. Base de etapas – Lubango-Chibia. Testa de etapas -Forte do Cuamato.
Expede ainda as instruções para o serviço de etapas e, no dia 11 de Outubro, depois de ter verificado pessoalmente o estado de adiantamento dos alojamentos destinados às diversas unidades expedicionárias, ordena a concentração destas no planalto.
A 18, Roçadas tomava posse do governo da Huíla. A fim de ser facilitada a sua acção como comandante do corpo expedicionário, cujas operações militares deviam desenrolar-se em regiões pertencentes àquele distrito.
A 19, dá-se o primeiro incidente de fronteira, em Angola – o incidente de Naulila.
 
A caminho do embarque
1914 - O batalhão de marinha a caminho do embarque
O Dr. Vageler, ao terminar os seus estudos próximo do Cunene, pretendera passar para a Damaralândia, através da Hinga, mas detido pela nossa polícia nas proximidades da Dombondola e remetido para o Humbe, onde se encontrava por ocasião do incidente de Naulila, serviu de intérprete ao administrador daquela circunscrição na conferência que esta autoridade tentara realizar com o sargento alemão da escolta do Dr. Schultze Jena, junto ao Calueque, na manhã do dia 19 de Outubro, seguindo para a Damaralândia com a referida escolta, depois de ter exclamado: C'est la guerre. O incidente de Naulila e a apreensão do comboio dos 11 carros boers levaram Roçadas, de acordo com o coronel Coelho, a mandar retirar a missão do distrito da Huíla, na previsão de dificuldades que poderiam advir à execução das medidas do governo com a permanência dos membros da mesma missão no interior.
A maioria destes encontravam-se rio Lubango, donde seguiram directamente para Moçamedes; mas Schubert, oficial de artilharia da reserva, que andara juntamente com Roma Machado, tendo pedido autorização para seguir pelo caminho do Chácuto, o que lhe fora concedido, desaparece de uma maneira singular na estação do caminho de ferro do Munhino, no intuito de seguir para a Damaralandia, o que lhe não foi consentido, e, ao ser preso na Chela pelo português Morgado, exclama: Já vem tarde.
Mais súbditos alemães, além daqueles a que acabamos de fazer referência, se encontravam espalhados pelos distritos de Benguela e Huíla, exercendo, aparentemente, as profissões de negociantes, colonos agrícolas, exploradores de terras e empregados em oficinas particulares, mas, segundo todas as probabilidades, desempenhando o papel de espiões informadores.
A ordem de expulsão do território do distrito da Huíla dada aos membros da missão de estudos é mandada aplicar, como era óbvio, a todos os súbditos de raça germânica e ainda àqueles que, estrangeiros ou nacionais, fossem considerados suspeitos, tornando-se extensiva ao vice-cônsul Schoss e família logo após o conhecimento do massacre do Cuangar.
Dias depois, quando se procedia à detenção de um alemão, que se verificara ser oficial da reserva e era empregado nas oficinas do Almeida da Chibia, foi-lhe apreendida uma carta da Damaralandia, onde estava traçado a lápis o itinerário com a indicação das etapas que mais tarde seguiram as forças que de Outjô, e sob o comando do major Frank, vieram atacar Naulila (18 de Dezembro).

Texto longo. Para continuar, clicar aqui:  http://www.arqnet.pt/portal/portugal/grandeguerra/pgm_ang01.html 


Fonte : Coronel António Maria Freitas Soares, «A campanha de Angola»
in General Ferreira Martins (dir.), Portugal na Grande Guerra, Vol. 2, Lisboa, Ática, 1934,
págs. 193-205


terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Fundação de Moçâmedes (Namibe), no Sul de Angola, por uma Colónia Vinda do Brasil (Ano de 1849)

. 
Mapa de Angola. Moçâmedes corresponde ao actual Namibe (área assinalada)
.
Nota Prévia
. No longo e difícil processo de consolidação territorial da sua colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, o desafio de cobiçosas potências estrangeiras, desejosas de os substituírem naquelas paragens.
É certo que a presença lusitana em Angola datava de 1482, ano em que os navios de Diogo Cão chegaram à embocadura do rio Zaire e se estabeleceram relações, ao princípio amistosas, com o povo Bacongo.
.
Contudo, mais de três séculos depois, a ocupação do território, com a respectiva delimitação de fronteiras, estava ainda muito longe daquilo que veio a ser já no século XX (mapa acima).
Os Portugueses tinham nesta altura duas grandes preocupações: a ocupação da costa sul, para baixo de Benguela, e a subsequente penetração para o interior, praticamente dominado pelas tribos africanas (no Sul, e de ocidente para leste, essas tribos pertenciam sobretudo aos grupos Herero, Nhaneca-Humbe e Ambós).
.


Baía de Moçâmedes (Namibe)
.
A zona de Moçâmedes, posteriormente baptizada de Namibe, era vital para os Portugueses.
Com efeito, não se poderia pensar em progredir para leste, com ideias de ocupação do território, sem possuir à retaguarda, junto ao mar, uma posição solidamente estabelecida.
.
A preocupação começara umas décadas antes, com o envio de várias expedições de exploração e reconhecimento às paragens meridionais.
As mais famosas foram as que ordenou o governador de Angola, barão de Moçâmedes, em 1785 (uma por mar e duas por terra).
Mais tarde, em 1839, veio uma corveta comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que estabeleceu contacto com os povos da zona (Cuvales, do grupo Herero).
.
Foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, encravada entre as águas da baía e o deserto. Chegaram alguns comerciantes, oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda. Nasceram feitorias na praia. E, em 1840, decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando.
O impulso não tardou contudo a afrouxar, sobretudo devido à escassez de europeus. Parecia fora de dúvida que, sem uma qualquer reviravolta, dificilmente poderiam os Portugueses sonhar com a transformação da baía na estratégica rampa de lançamento para o interior.
.
Welwitschia Mirabilis, unicamente existente no deserto do Namibe
.
Foi então que, de Pernambuco, no Brasil, chegou uma petição às autoridades lusitanas.
Algumas dezenas de Portugueses, queixando-se de problemas de convívio com grupos de nativistas brasileiros (ocorridos posteriormente à independência daquela antiga colónia portuguesa, datada de 1822), solicitavam que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império português.
.
Agarrando-se ao apelo desses candidatos a colonos verdadeiramente tombados dos céus, o Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía angolana, onde, amparados pelas autoridades, deveriam fundar uma colónia agrícola.
.
Assim que os peticionários manifestaram o seu assentimento, Lisboa agiu com de­termina­ção e desusada celeridade, despachando para águas brasileiras o brigue de guerra Douro.
No dia 23 de Maio de 1849 o navio saiu do Recife de Pernambuco rumo às costas de África, escoltando a barca Tentativa Feliz.
Seguiam a bordo, nessa primeira leva, cento e setenta e quatro refugiados.
Os Portugueses estavam prestes a apresentar-se em força às portas dos desertos meridionais de Angola.
.
.
Os Colonos Vindos do Brasil
.
"(...) Em Lisboa, nas sessões do Parlamento de 12 e 14 de Junho de 1849, discute-se finalmente a proposta que autoriza o Governo a fundar uma colónia agrícola em Moçâmedes, no Sudoeste de Angola, e a transferir para lá os refugiados do Brasil.
Quando estes vogam já pelo Atlântico há cerca de três semanas, a Oposição resol­ve bater-se com afinco contra o projecto. Regateia até à exaustão a verba de dezoi­to contos de réis metálicos consagrada ao empreendimen­to. Um deputado salta com o Alentejo para o debate e proclama que todo aquele esforço seria muito mais bem empregado nas planícies agrestes do Sul português, onde, ainda por cima, há ca­rência de braços para o trabalho.
.
O ministro abespinha-se e replica que a entidade menos própria para influir sobre quaisquer cidadãos para irem para esta ou aquela região é o Governo. Quanto às intenções dos portugueses de Pernambuco, fica de uma vez por todas a saber-se que eles não desejam retornar à Pátria para se meterem a colonizar o Alentejo. Provavelmente não fa­zem finca-pé quanto à ida para Moçâmedes: mas o que sem dúvida pretendem é virar costas ao Brasil e pas­sar-se para África.
A proposta acaba aprovada por maioria de votos.
.
.
A muitas centenas de milhas destas discussões inflamadas, a barca Tentativa Feliz, escoltada pelo brigue de guerra e pejada de gente que mal pode mexer-se no tombadilho atravancado de bagagens, continua a sua carreira para Angola. Empurradas por ventanias contrárias ou tolhidas pela brusca calmaria de verdadei­ros mares de leite, as embarcações começam a atrasar-se.
.
Para agravar as coisas, declara-se entre os passageiros um surto de varíola. Cinquenta e seis pes­soas são atingidas pela doença e jazem desfiguradas pelas pústulas. O médico do brigue anda numa roda-viva entre os dois barcos. Auxiliam-no o patrão da barca, um bar­beiro e o chefe da colónia de emigrantes. Mas a epidemia cedo ofe­rece à escuridão dos abismos atlânticos os corpos de oito vítimas - três adultos e cinco crianças.
.
No auge do infortúnio, de olhos perdidos na espuma deslizante das vagas ou em remo­tos horizontes de esperança, os emigrantes entoam os seus vi­bran­tes hinos de fé. Depositam apesar de tudo uma confiança inquebran­tável na sua estrela. E, também, em Bernardino Castro, o chefe carismático que os trouxe até ali.
.

.
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, um beirão de Nogueira do Cravo, povoação vizinha de Oliveira do Hospital, vai nos quarenta anos à data da viagem.
É um homem moreno e seco, de sulcos vincados no rosto ossudo e grave. Possui cabelos escuros e lisos, que contrastam com a fina barba de colar, precoce­mente embranquecida, que lhe escorre de orelha a orelha por baixo do queixo. A sisudez da fisionomia atenua-se com o fulgor de uns olhos miúdos e insinuantes.
.
Este emigrante de marcada personalidade tem vivido uma existência rocambo­lesca. Aos vinte anos é aluno de leis em Coimbra, mas passa fugazmente pelos bancos universitários. Seduzido pela causa do rei Miguel, integra como tenente de caçado­res um contingente de voluntários e mergulha a fundo nas lutas em que libe­rais e absolutistas se chacinam mutuamente.
Após a capitulação de Miguel, Bernardino compromete-se num plano que visa devolver o trono ao soberano exi­lado. Descoberta a conspiração, furta-se por uma unha negra à captura e esgueira-se das montanhas da Beira para Lisboa.
.
Em 1839, desfeitas as ilusões, asila-se no Brasil, em Recife de Pernambuco, onde ganha a vida como professor de um colé­gio. Dado às letras, publica um romance - Nossa Senhora de Guararapes - e uma arrojada História Geral, em seis volumes, que remexe os dias da Humanidade desde as enevoadas narrativas do Antigo Testamento até à história re­cente de Portugal e do Brasil.
.
É pela sua pena que o Governo português toma co­nhecimento das violências perpetradas no Brasil contra os cidadãos lusos. É ele o autor da pe­tição por essa altura dirigida a Lisboa. É ainda Bernardino quem lança entre os compatriotas de Pernambuco a entusiástica campanha da aventura africana.
.
.
A viagem prolonga-se há mais de dois meses e não se vislumbram indícios do litoral de África.
Os emigrantes suspeitam de que se tenha deixado de contar com eles no porto de destino. Bernardino Castro conferencia com o coman­dante do bri­gue e pede-lhe que siga na dianteira a fim de prevenir o desembarque. O Douro distancia-se da Tentativa Feliz na noite de 26 de Julho.
.
Os refugiados rompem agora as trevas, silenciosos e cismadores, embalados pelo marulhar das vagas contra o costado da barca. Quando nasce o dia, não há sinais do Douro nem de terra. Tornam então a elevar-se os cânticos religiosos por sobre as reverbera­ções metálicas do oceano.
.
A 4 de Agosto, mortificados por setenta e quatro dias de na­vegação, os passageiros têm enfim à vista, coados pelo véu pardacento de um dia de cacimbo, os desertos fulvos das costas de Moçâmedes. Quando se internam na baía, onde paira a silhueta familiar do Douro, enxergam, com um re­colhimento an­gustiado, as fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim, o recorte severo da fortaleza de S. Fernando. Sobressaindo na de­solação, erguem-se os seus novos lares - meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha.
.
O desânimo dos emigrantes face ao despojamento daqueles lugares encontra al­gum consolo no calor da recepção que lhes é dispensada. Com efeito, pressen­tindo na sua chegada o novo alento de que carecem para sobreviver, os pou­cos europeus da baía submergem-nos numa onda de júbilo.
.
Quando, a 5 de Agosto de 1849, os passageiros da barca tomam lugar nos batéis e iniciam o de­sembarque, o brigue salva alegremente com as suas bocas de fogo, no que é imi­tado pela artilharia da fortaleza logo que eles saltam em terra. Silvam foguetes no espa­ço, trespassando a cortina de cacimbo e estralejando, longínquos e amorteci­dos, por sobre a quietude do deserto. Na praia há abraços, risos e promessas. Soam vi­vas aos recém-chega­dos, às autoridades, à rainha Maria Segunda e a Portugal.
.
.
Alojados nos barracões que constituiriam a sua morada provisória, e mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante, os colonos esquadrinharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Procuravam os terre­nos mais aptos para as culturas. Informados das inundações periódi­cas do Bero, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região.
.
A 16 de Agosto Bernardino Castro viajou por mar até Luanda, onde se avistou com o go­vernador-geral e conheceu Sérgio de Sousa, o primeiro governador nomeado para Moçâmedes. Com este volveu ao Sul em 12 de Outubro. No dia seguinte, Sousa tomou posse do cargo. Durante as comemorações nocturnas, as águas serenas da baía faiscaram sob o clarão dos archotes, que luziam feericamente nos esconsos desalinhados da povoação.
.
A 14 de Outubro elegeu-se o Conselho Colonial de Moçâmedes, órgão consultivo do Governo, onde Bernardino Castro ganhou, natu­ralmente, assento. Repartiram-se de imediato os campos marginais do rio e tive­ram começo as lides agrícolas.
A pena de Bernardino esboça um cenário de bucólica azáfama nesses primeiros dias de efectiva ocupação do Sul de Angola pelos Portugueses:
.É um bulício, Moçâmedes; uns edificam casas na povoação que escolhe­ram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chama­do dos Namorados, e que dista uma légua; outros arroteiam terras nas Hortas; outros, no sítio da Olaria, a légua e meia de distância, mas com em­barque próximo, onde se vai fazer tijolo e telha; outros, na várzea da União, duas léguas longe daqui; outros, enfim, no vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos; lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo junco e tábuas; acolá, as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente (...) .
.
Igreja de Santo Adrião, Moçâmedes (Namibe), de construção posterior à época aqui referida
.
Católicos devotados, os colonos somente a 1 de Novembro de 1849 viveram o conforto espiritual da sua primeira missa em Moçâmedes.
Como não houvesse ain­da pároco na povoação, recorreu-se aos préstimos do padre Matias Rebelo, de Benguela, que se achava de passagem pela baía a bordo da corveta Oito de Julho.
Instalou-se um altar portátil numa dependência inacabada da fortaleza e a corveta forneceu uma profusão de pavilhões de cores vivas, que alegraram as paredes despidas.
.
Às dez da manhã, a banda do navio abriu a marcha de um concorrido cortejo que, galgando o morro, se encaminhou com vagar solene para o templo provisório. Incorporavam-se na procissão os marinheiros e a oficia­lidade da Oito de Julho, a guarnição da fortaleza, as autoridades, os colonos e muitos dos escra­vos e libertos trazidos para a baía.
.
A missa contou com a presença de convidados especiais - alguns cuvales do Giraul que estavam de visita a Moçâmedes.
Nesse dia histórico, associados àquela multidão de brancos possuídos de pia excitação, os Cuvales testemunharam, curiosos e circunspectos, os estranhos ritos litúrgicos dos seus novos vizinhos. Deleitaram-se sobretudo com as melodio­sas intervenções da banda, que sublinhavam a espaços as falas indecifráveis do celebrante.
.
Terão prova­velmente sofrido um susto na altura da elevação da hóstia, quando, sem aviso, as peças da fortaleza estrondearam numa descarga súbita, en­quanto os foguetes as­so­biavam ruidosamente pelos céus da baía. Mas sentiam-se fascinados. E a impres­são que lhes causaram aqueles cerimoniais permaneceria para sempre guardada nas suas memórias.
.
Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino de Abreu e Castro
.
Não obstante as grandes esperanças iniciais, foram calamitosos os primeiros anos dos colonos de Moçâmedes. Eles não tardaram a experimentar na carne e no espírito a dolorosa dimensão da terra, plena de sortilégios e oportunidades, mas simultaneamente pródiga em amargas surpresas.
.
O triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas. O leito do rio Bero - o Nilo de Moçâmedes, como lhe chamava Bernardino Castro - tornou-se numa língua de arei­as crestadas, as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco.
Os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz. Dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva. Os colonos remediavam-se com as cacimbas escavadas nas proximida­des do rio ou nos quintais das residências.
.
As primeiras águas, empurradas do pla­nalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado. A colónia vacilava. Bernardino não media esforços para revigorar os ânimos, apelando à fé e à resis­tência num estilo de ressonâncias bíblicas: Só será salvo o que perseve­rar até ao fim!
.
Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos so­breviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi num quadro destes que a povoação viu apesar de tudo ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, pro­venientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procu­ravam agora dar corpo ao projecto português no Sul de Angola.
.
Rio Bero
.
As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílo­pes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.
.
Apareceram três ze­bras a rebolar nas águas tumultuosas, recupe­rando-se uma delas, a única que mos­trava sinais de vida.
Uma ser­pente descomunal emergiu bruscamente dos cachões de espuma amarelada como um demónio do rio e infiltrou-se, coleante e agressiva, na várzea dos Cavaleiros, a três léguas da foz, onde Bernardino de­marcara os seus terrenos. Quando o bicho investiu contra os bois espavoridos das manadas, colonos e serviçais viveram ins­tantes de sobressalto e emoção antes que conseguissem pôr cobro à ameaça.
.
.
Das águas brotou igualmente a ressurreição de Moçâmedes.
Isso deveu-se em parte ao sucesso das fazendas ribeirinhas, onde se espraiavam a perder de vista os campos de cana-de-açúcar, algodão, tabaco, vinhas e árvores de fruto.
Progrediu também a indústria do charque, carne salgada e seca pelos sistemas uru­guaio e brasileiro.
.
Alguns moradores meteram-se esperançosamente aos caminhos do mar e retornaram com os barcos a transbordar. Os quintais cobriram‑se de estrados de caniço, onde o peixe secava exalando um cheiro acre.
A baía passou a ser procu­rada por embarcações ávidas de géneros frescos, predominando os baleeiros norte-americanos que devassavam os refúgios dos cetáceos entre a costa angolana e a ilha de Santa Helena. Moçâmedes prospe­rava e, em 1855, seria elevada à catego­ria de vila (...)" (*)
.
(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (1999)

sábado, 14 de agosto de 2010

Emigração - escravatura branca em Mossãmedes nos primórdios da colonização: 1851




Na Revista universal Lisbonense , encontramos os seguintes textos, que se revestem de interesse histórico, para a compreensão de certos factos ainda ignorados,  respeitantes ao processo de abolição do tráfico negreiro de escravos para o Brasil e Américas, e que em muitos aspectos assumiu contornos de escravatura branca, de Portugal para a antiga colónia do Brasil,   e do Brasil para Angola, bem assim como sobre os  primórdios da colonização de Moçâmedes (Namibe), e os anos que vieram a seguir:
....

Paço das Necessidades, em 2 de Julho de 185l.José Ferreira Pettana.


EMIGRAÇÃO

ESCRAVATURA BRANCA MOSSAMEDES.
Chamamos hoje a mais seria attenção do Governo e da imprensa sobre a importante carta, que ao diante publicámos do nosso illustre e mui patriótico correspondente de Pernambuco o Sr. António Bernardo Coutinho. O perfeito conhecimento dos factos aqui referidos, manifestado em toda a carta, e o credito que nos merece quem a escreve,  são motivos que nos dispensam de acrescentar quaesquer considerações a eloquência e verdade dos factos, que a carta perfeitatamente prova.

14 de Agosto de 1851.
S. J. RIBEIRO DE SÁ. (Carta.) 


Sr. Redactor. — Pelo vapor Paraense entrado hontem dos portos do Sul, recebemos jornaes do Rio, e nos do Commercio do dia 3 do corrente, vejo que entrara naquelle porto, vindo do Faial, a escuna Milheiro 1.°, portugueza , capitão Manoel da Rosa Martins, com 35 dias de viagem , 3 passageiros, e 118 colonos!!! Para os quaes em os seguintes jornaes, se lê o seguinte annuncio. «A bordo da Escuna portugueza Milheiro 1, fundeada defronte da Prainha, ha colonos de ambos os sexos e idades para se engajarem, mirados hontem do Fail; trata-se com o capitão a bordo, ou na rua d'Alfandega n." 39 , sobrado.  Que bella maneira de trazer passageiros?! 121 passageiros em a escuna Milheiro 1.!!! e ainda traz 16 pessoas de tripulação!!!

Oh Sr. redactor não haverá meio de acabar com este infame trafico de escravos brancos? Veja o Sr. Ministro da Marinha o caso que as autoridades fazem das ordens que se expedem pela repartição!

Veja o Sr. Ministro do Reino, se este navio podia sahir sem o Governador Civil dar os passaportes!

Veja o Sr. Ministro dos Estrangeiros, se os Cônsules, ou o Ministro portuguez no Rio, lhe deram parte deste , e de outros carregamentos, como eu lhe avisei,

Sr. redactor! O governo que já pagou a despesa da primeira expedição desta província para Mossamedes, que sabe que por subscripção foi a segunda , e sabe que da Bahia, foi outra que é terceira; a qual alli chegou em o dia 27 de Fevereiro , como logo eu mostrarei , com a copia de uma carta que d'alli vi; e deve saber que do Maranhão deve sahir outra ; porque não olhará para as medidas que lhe cumpre tomar em tal conjunctura?

Não lerá alguma noticia favorável daquella colónia , que faça publicar  e com ella animar aos que habitam em Portugal?

Será preciso que, os que para alli foram para trabalhar, estejam fazendo relatórios das suas diligencias, e soffrimentos , para virem aqui aos seus amigos, pois para aqui é que todos elles tem mais relações, pela demora que já aqui tiveram, (depois que sahiram de Portugal) para então d'aqui os remetter-mos para Portugal, com dispêndio de tempo, que ás vezes não temos sufficiente para este trabalho ; despesa de portes de cartas, e obrigação em que ficamos para a imprensa ahi os publicar?!

Quando o governo tem as suas autoridades, que só podem mais fielmente informa-lo , e o seu jornal aonde as fizesse imprimir;  mas qual a noticia que a tal respeito se encontra?

Ainda não será tempo de se saber que resultado tem obtido a gente que do Brasil para alli tem hido; que progresso apresenta aquella colónia em agricultura , e por consequência em commercio, ou de importação ou exportação?

Eu pedi em cartas de 2 e 7 do corrente, estas informações a pessoas que idas d'aqui, sei que tem bastante curiosidade, mas que talvez não tenham tempo , e jamais poderão ter facilidade em as obter verdadeiras por falta de dados, que só as autoridades possuem : como vou ter (pois já mandei assignar) todas as folhas de Lisboa e Porto, veremos se os particulares são mais cuidadosos do que o governo ; e se com estas noticias , bem positivas  se convencera estes de irem para alli, digo estes, os que estão era o Brasil; e com os que estão em Portugal , e que cá não devem vir, nem sahir de lá para fora ; a industria agrícola  e fabril, deve ser o seu padre nosso constante: jamais emigrarem , seja para aonde for. Para provar-lhe a fortuna a que os conduzem os taes alliciadores que os seduzem, até espalhando dinheiro para os tentarem, (os agentes) o que tudo depois elles pagam, bem pago, quando chegam ao Brazil; vou copiar alguns anúncios, que constantemente se acham em os jornaes ; o seu maior valor é todo o rigor da lei contra os que se retiram das casas para que são contractados; e contra quem lhe der asylo. Eu ainda não pude comprehender como judicialmente isto se faz ; vejo um rapaz de 14 anos que será levado aos tribunaes: já causa se faz respeitar, mas que horror nos não deve causar, quando vir-mos que a justiça concede mais direitos, ou melhores, a quem tem mais dinheiro, ou empenhos; e o que tem um colono, além dos seus algozes? Taes são os mesmos, que nos annucios vai ver, como tendo contractado com elle (que sabe o rapaz de 14 annos? taes são os capitães que os trazem, que sabe-se como os tratam; taes são os consignatários, e donos dos navios, e estes'ainda em maior escalla. O contratante desta faz remessa a outro contrabandista, embora toda a giria da argumentação para se acreditar o contrario ; ora o rapaz sahe da sua terra sempre enganado, salvo quando elle foge á farda , ou a algum crime , (ás vezes até amoroso;) chega ao mar, dão-lhe de comer e beber sempre miseravelmente, deshumanamente, barbaramente, por isso chega á vista de terra, levanta as mãos ao céo, e lança quantas pragas sabe proferir a quem é o culpado do seu tormento; imagina que elles estão findados, o que só mais tarde conhece que errou. Pois o mesmo que os alliciou , e enganou, ou o seu representante quer que elle lhe dó bem depressa o lugar despejado , e por isso o primeiro malvado que apparece pelos annuncios (que vão copiados) é homem honrado pela informação daquelle que o quer ver pelas costas; e Já vai o contracto fazer-se com um rapaz de 14 anos, (sem ter quem lhe doa a sua ingrata sorte). Este honrado homem, mais velho, que contracta, já se vê que que hade saber amarrar a victima , para bem se recompensar da quantia que por elle paga aos taes protectores, que o foram buscar a Portugal para o felicitar; e segue a regra ordinária; se tem escravos trata-os melhor do que o branco, pois que elles custam-lhe mais dinheiro, e se morrerem elle perde-o, quando a sua conveniência e que elles vivam muitíssimos annos; o branco é outra a conta, hade trabalhar muito e no peior, porque satisfeita a quantia, ou o praso do contracto, pôde o diabo leva-lo, que elle já nada perde, e vai contractar outro desgraçado, ao qual succede outro tanto, e assim por diante. Nisto como em todas as coisas, ha honrosas excepções, mas muito poucas. A época da febre bem o evidenciou, ali foi publicado o relatório da Sociedade de Beneficência em o Rio de Janeiro, que bera se explicou, em quanto á conducta da maior parte dos patrões para com caixeiros, quanto mais para com colonos.
Qual é pois a situarão do colono quando contracta ? E a do maior grito de escravidão, só a esperança da melhora o sustenta para encetar a mudança; mas elle fica obrigado a cumprir sempre mais do que rasoavelmente se podia ajustar, (dentro de casa) e se não tem valor para tanto, e foge, tem as penas da tal lei rigorosa, que elle só então sabe que o faz punir, mas que não lho disseram antes de embarcar em Portugal.

Qual é o negocio valido em Portugal sendo ajustado com indivíduo a quem a lei não conhece com a idade, e circunstancias precisas, para se julgar emancipado? Serão válidos os negócios feitos com rapazes de 14 annos?! Mas ve-se serem em o Brazil! Qual será o liomera que se dignará fallar neste objecto em cortes, ou em o Governo?


Quando se porá termo a tantas vergonhas e barbaridades?! Quando se porá um destes bárbaros allíciadores. armadores, (ou donos de navios), capitães, consignatários, tripulações, Cumules, Encarregado de Negócios, Governador Civil, Ministro de Estado, Capitão do Porto, ou de qualquer modo ou maneira culpado nesta vergonha e desgraça, n'um degredo por toda a vida, se não houver castigo maior?

Eu já lembrei, Sr. redactor, algum modo de reprimir, e até mesmo de extinguir este criminoso negocio; se alguma medida não appareccr para chegar áquelle fim , eu renegarei de me considerar portugues, antes quererei ser mouro!

Maldição eterna a quem assim abandona uma nação! Nunca mais só poderá permittir, que um indivíduo sem chegar á idade de se governar, siga do seu lar pátrio para aonde acha tanta depravação; nem mesmo aos que já são homens se deve consentir, sem lhe mostrar o que por cá lhe succede, embora elle persista ; e nesse caso siga ainda que para o inferno , jamais se poderá queixar e soffrerá para seu devido castigo. Como vai ver ha de todas as idades e sexos, com todo o rigor da lei ameaçados.

Em jornal de 3 de Maio de 1851 , le-se : « Gratififica-se a quem aprehender ou der noticia na rua da Candelária n.° 47, dos colonos seguintes: Francisco Machado Borges de 59 annos , Bartholomeu Corrêa de 28 annos, Alexandre Joaquim da Silva de 20 annos, e José Menezes de Oliveira de 19 annos, todas as idades prcscriptas são prováveis, sendo o primeiro e o quarto naturacs da Ilha Terceira , o segundo e terceiro da Graciosa, todos chegados a este porto a 27 de Fevereiro do corrente anno, vindos da Ilha Terceira , na barca Brasileira Maria 2., e se evadiram do deposito do Lazareto: o primeiro no dia 9 da Março, o segundo no dia 11, o terceiro no dia 18, e o quarto no dia 29 de Abril. O annunciante protesta desde já, e sempre com todo o rigor da lei contra os ditos colonos pelas suas passagens, e contra quem os tiver em seu poder. Rio de Janeiro de 2 de. 1851.—João Lopes da Costa, affretador da barca Maria 2." 

No jornal de 2 de Maio, lè-se o seguinte» Grattíca-se a quem aprehender ou der noticia, no largo do Carpim n." 75, de um colono natural da Ilha Terceira, vindo para esta no patacho Visconde de Bruges em7 de Janeiro, por nome João Ferreira, de 14annos de idade cabellos e olhos castanhos, arrastando a voz quando fala, tem muitas verrugas nos pés; o qual acha-se contractado a servir por um anno, e desaparecera no dia 29 do corrente , protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o tiver acoitado. Rio 30 de Abril de 1851.—Dr. Paulo Costa.
 
Egual vem em o do dia l, e no do dia 29 d'Abril, è-se : fugio hontem 27 do corrente, da rua d'Assembléa n. 24, uma colona vinda ha pouco tempo das lhas em o brigue Oliveira, por nome Jacinta Isabel, tan baixa e cheia de corpo , com cara de quem bebe muitui , e tem cabello coitado. Roubou uma porção e prata , jóias , dinheiro em papel e prata, roupa, protesta-se contra quem a acolher, não só pelo resto a sua passagem na forma da lei, como pelos objectos roubados. e gratifica-se a quem dela der noticia.— António José Baptista Bastos.

Faço-lhe remessa , Sr. Redactor, deste impresso que incluo , para egualmente fazer ver a essa gente, no depois de tão penoso tirocínio , se algum destes martyres chega a adquirir alguma coisa, e quer gaia uma pataca, tem da frente as sentenças que nelle apparecem ; será talvez de bom effeito o verem, que cá consentem que venham portuguezes, para se empregarem em a agricultura , ou talvez consintam que eles façam fretes; pois para qualquer outro emprego , não querem ; vejam que querem que se prohiba que tenha loja de alfaiate . sapateiro , ourives , ferreiro, marceneiro, funileiro, carpinteiro, etc. , se não pagar uma licença annualmentc de 800 000 rs. a 2:000 000 rs. , o que acho muito a propósito  com todo este projecto só falta dizer que fica livre de morrer das febres; no entanto tem uma virtude este projecto, assim como os seus auctores, que é serem bastantes em numero para fazer executar aquelle (quando por lei) e dizerem com bastante antecedência , para se estar prevenido com tempo. Eu julgo que isto merece ser ahi publicado em letras bem visíveis, para ser bem visto por quaesquer curtos da vista; e para mais rapidamente chegar ao conhecimento dos que não sabem ler , dar-se aos cegos , para elles apregoarem ; e até aos rapazes das cautellas , visto o muito que elles transitam e gritam. No entanto , aqui se appresenta a somma dos portugueses chegados em o mez de Marco ao Rio de Janeiro, 787, aos quaes se lhe dá o pomposo nome de escravos brancos.

Eu, Sr. Redactor, vou em romaria a qualquer Santo que goze de muita fé , para lhe mostrar o quanto eu fico agradecido, quando estes Srs. fizerem voltar os navios que taes carregamentos trazem , pelo mesmo caminho , com todos os taes passageiros ; e mais me contentarei se o capitão ficar preso, e o consignatário , ou dono , ou affretador tiver um degredo por toda a vida , e em jogar em que possa durar pouco tempo com vida ; não peco que seja morta qualquer pessoa, porque entendo que esta altribuirão só á natureza compete, em os casos mesmo mais graves que se conheçam ; porque , pela qualidade de crime, nenhum mais revoltante eu encaro, do que o dos taes Srs. donos, affretadores, e consignatários dos mesmos navios. Cumpre todavia mostrar que são também navios brazileiros, que se empregam em ir buscar os taes escravos brancos, para virem tirar aos mesmos brasileiros os logares no commercio; o que é falta de patriotismo , e elles não devem commeter, para se poderem queixar dos portuguezes; pois se me queixo é só dos portuguezes que cá os trazem  para elles contratarem aos 14 annos. As cartas que seguem são as que eu copiei, e notei acima.

Sr. T. P. da M. Estima. — Pernambuco.
Loanda 1 de Março de 1851.
Amigo e Sr. — Participo-lhe que me acho arrumado em uma excellente casa , ganhando 25 000 rs. por mez, e que me acho prompto para o seu serviço ; seu primo desarranjou-se da casa em que estava , mas logo se arranja. Dos colonos que vieram para esta cidade só dois é que não se arranjaram , um por que é uma lesma , o outro por ser de costume embriagar-se, que é o F. . . A C.. ., (aqui enche 12 linhas com coisas próprias de rapazes, o segue:

A rapaziada de Mossamedes decidiram-se pelo centro da Colónia, uns foram para os Gambos, terra muito fértil, e regada por um rio, ponto de muitas esperanças para a lavoura , c Commercio ; outros para a Huila , aonde se vae montar um engenho pelo Governo, para o que a escuna Falcão já sahiu daqui carregada de canna , para plantações: outros foram para o Bumbo com o Costa e o Moreira, montar os seus engenhos, aonde se acham muito contentes, e com muitas esperanças; Deus se digue proteger esta terra.

Já se acabaram mais cinco casas na povoação pertencentes á gente da segunda expedição que dahi veio, e estão fazendo mais; esquecia-me dizer-lhe que no Giraúl (perto das hortas) se arranjaram umas calinas, e os andores foram muito felizes, pois tem tirado sai, egual ao de Setúbal, c com muita abundância.


Mossamedes, á primeira vista, altera os ânimos mais resolutos, mais depois de se examinarem os seus contornos , já se cria outra alma ; o homem sente-se com toda a anterior coragem; fique certo que o não estar mais prospera esta Colónia deve-se ao Bernardino.

Ha dias chegaram do Rio de Janeiro dez colonos, e esperamos o navio «General Rego» de lá com mais outra expedição, em que dizem vem duzentos mocetões, Teremos : assim como que o governador desta recebeu aviso do Ministro da Marinha para esperar outra expedição do Maranhão. A exportação de Mossamedes em o anno de 1849 a 1850 em cera , marfim , urzela e peixe secco, foi de 120:000^000 réis. Ahi deve ter chegado o Pavão que dahi veiu , o qual sendo governado pela mulher , aqui-não quiz ficar , apezar de ganhar por dia 2 500 réis; veja se elle ahi ganhava similhante jornal.

O Manjaricão parece que se quer retirar, a que também não admira, visto ter mulher e filhas, e pôde ser verdade que duas delas estavam faltadas para cazarem, como aqui alguém me diz.
Fique certo, caro estima, que Mossamedes é uma terra muito boa , e hade ser feliz quem se dedicar ao campo, a fazer progredir a agricultura, tendo saúde ponto em que felizmente muito ganha esta província, presentemente, ao Brazil; aqui sabemos o que ainda está sucedendo em essa provincia , na Bahia , Rio de Janeiro, Pará e outras.

Se tiver alguma carta para mim, fará favor de ma remetter ainda que seja pelo Rio, pondo a direcção para casa de J. C. de Bittancourt.—Saúde e felicidade . sou de v. attento venerador e criado. — José António Pinto Guimarães. 

. S. O Rangel c o Coutinho foram para os Gambios, o primeiro encarregado de fazer uma pequena fortaleza.


Presadissima filha do meu coração. — Pernambuco.
Mossamedes 27 de Fevereiro de 1851.

Com muito gosto pego na penna para te dizer da minha saúde , que felizmente e boa , e de teu mano egualmente. Já te escrevi por dois navios, e ainda não tive resposta tua. Aqui não ha regalos, que se possa mandar algum , a povoação é muito pequena , ha muitas terras , mas ás vezes faltão as chuvas em tempo próprio; dá-se muito bem o milho e outras plantas, três vezes no anno; por hora o negocio é pouco, mas espera-se que vá melhorando , o clima é muito bom , tanto que de Benguella vem quem é doente , aqui tomar ares.
Aqui estou com casa de chocolate, caffe , comida , e bebida etc.(como sabes era minha tenção) por hora em ponto pequeno, os lucros são pequenos, já comprei uma casa, e estou acabando outra de pedra e cal, que deve estar prompta daqui a dois mezes; também comprei um pequeno sitio (quinta) no qual tenho de hortelão o António Gallego , e me dá hortaliças e frurtas, tanto para gasto de casa, como para vender.




Minha filha, faz muita diligencia para fazer bom negocio, e mais teu mano , pois eu ainda quero que nos juntemos outra vez, ou aqui. ou em Portugal, que isto é muilo bonito, para o conceito do publico, e para mim de eterna consolação; teu mario José Pedro esta na minha companhia , mas pouco me ajuda ; é aqui o mesmo que era n'ossa.

Eu já te disse para me mandares algumas fazendas, porém que seja tudo muito barato, que é para vender igualmente barato; no caixão das obras de folha, não me mandes cocos, que aqui não se vendem. Diz ao Sr. Francisco Barbosa que em tendo navio me mande três barricas de assucar mascavado, uma do branco, quatro de Tirinha de trigo. e seis saccas da de mandioca , e qualquer outra cousa, que elle veja cá se venda; e a conta , que eu pagarei tudo promptamente como costumo.
Teu padrinho morreu em Loanda. Faz da minha, parte muitas visitas a todos, e escreve-me a miúdo; esta serve igualmente para teu mimo. Esta tarde entrou neste porto, vinda da Bahia , uma barca com colonos que aqui já esperávamos , dizem que vem 200 , veremos. — Tua mãe que muito te estima.—Margarida de Jesus.

Em 21 de Maio.

Sr. Redactor. Eu quiz enviar esta em o vapor Tcviot, mas elle não me deu tempo , por isso a augmontarci, e com que será desgraçadamente com a chegada de mais dos taes escravos brancos.

No dia 10 deste entrou no Rio a galera portugneza Flora, capitão António Martins Fiúza de Oliveira, cm 42 dias do Porto, 35 pessoas de tripulação, e 150 passageiros. No mesmo dia 10, a escuna portugueza Leonor, capitão João Joaquim Gomes, em 40 dias do Fayal, 15 pessoas de tripulação c 137 passageiros. Ora aqui lemos desde o dia 2 a 10 de Maio entraram em o Rio de Janeiro 408 porluguezcs, fora alguns dos homens da tripulação que haviam de ficar , pois estes navios jamais podem pagar a tanta gente; metade mesmo é suficiente para a sua manobra; podemos contar 440 pessoas!!! Já disse bastante , em esta data a tal respeito ; esse povo , especialmente do Porto, deve fazer justiça a esses monstros, que ahi vão pejar os navios ; aliás ficarão sem gente ; e cá andarão fugidos uns , presos outros , penando em o martyrio dos contractos outros, e todos em a mais aviltante situação.

Concluirei dando a v. copia do annuncio que o consulado inglez fez, para governo de quem quizer daqui escrever para Portugal , e para qualquer outro ponto; eu dezejo que appareça em a imprensa , qual a regra que ahi se segue para as cartas c jornaes políticos e liltcrarios que se remellem para o Brazil, em as mallas dos vapores inglezes; pois que ainda o não achei em algum.

Diário de Pernambuco 8 de maio.—Consulado britannico em Pernambuco.
Faz-se publico que por ordem do correio geral da Grã-Bretanha em conformidade de um convénio entre o governo de S. M. B. e o Governo de Portuga) , serão expedidas e recebidas as malas para Lisboa , deste consulado, pelos vapores da carreira sem pagamento de porte algum aqui, restando ao agente do dito correio tomar conta ao peto total das cartas e o numero das gazetas que vão, pondo-lhe o respectivo sello da data , não pago , e remettendo a nota do pezo, e numero ao agente britannico em Lisboa, e aqui se ha de cobrar pelo mesmo o respectivo porte á rasão 468 rs. por onça das cartas e 2 ditos por cada gazeta.

Na chegada dos vapores do sul as malas devem logo estar promptas, e immediatamente se ha de unhar na porta do consulado a ultima hora do recebimento, e depois não se receberá mais cartas nem gazetas, por qualquer empenho que se pertencia fazer; isto conforme as ordens geraes, e para o bom andamento do despacho e serviço publico. Regula isto somente para Lisboa , e quaesquer cartas ou gazetas achadas no sacco para qualquer outro porto ou lugar ficam sujeitas a serem detidas e encaminhadas pelo agente depois de receber o respectivo porte aqui de 445 rs. por meia onça ; mas serão incluídas como para Lisboa todas as cartas e gazetas que se acharem Do sacco para o reino de Portugal, e assim encaminhadas para Lisboa em direitura, sem que possa haver reclamação alguma por erros ou lapsos seus a este respeito.


Recife 6 de Maio de 1851.

Ao Christophles , Vice-Consul. — Tendo de concluir, Sr. Redactor , cumpre-me fazer uma confissão, e é, que tenho-me dirigido á imprensa litleraria , para que se não pense que aqui anda espirito de partido, que se lhe attribuiria pelo jornal a que me dirigisse, tanto os que lessem lá , como aqui; eu mesmo não olho como política aquillo que respeita tão de perto, e em tamanho gráo, aos interesses geraes de todos os membros da Nação Portugneza. Da política do Brazil eu nada sei mais, que respeitar todos os Brazileiros, e em quanto eu poder transitar sem ser incommodado , como sempre me tem succedido, nada me auctorisa a levantar a menor queixa. A sua imprensa é que faz bem ver , que o mar não é de leite ; e ainda nesta, eu vejo que exagerados é que produzem o mal, de ambos os lados ; no entanto é forçoso reconhecer que a trovoada se vai formando. Em Portugal desejo que governe aquelle ou aquelle que melhor ou mais se chegarem para a lei, que sejam affastados sempre aquelles que sabem mais sofismas que executal-a; esta habilidade, tem por resultado , maiores prejuízos e a desgraça para mim não tem encantos. Não devo esperar que anjos desçam da alta região em que os imaginamos, para vir governar sem alguns erros; mas erros involuntários são menos prejudiciais ; que os estudados com todo o esmero. Igualmente me falta vaidade para escrever para o publico, mas a modéstia não me priva de informar do que souber aquelles que tão corajosamente manejam a penna, e que constantemente vejo o empenhados , em arrancar Portugal á sua muita e tão antiga apathia. Eis a rasão porque lhe tenho dirigida as minhas informações, e pedidos; incitado pela leitura dos seus escriptos, e pelo que nelles encontrei em os D, 18 e 37 do novo anno.


Já terá ahi chegado o projecto apresentado em a Assembléa {do Rio de Janeiro para no dia 7 de Setembro de 1870 ficar extincta a escravatura em Brazil. Eu procurarei ver as reflexões que a imprensa faz a tal respeito, e em relação aos estrangeiros qua aqui residem. Tendo enviado alguns escriptos á redacção da Revista Popular , espero ver em o dia 2 de Junho, se sobre elles se diz alguma coisa , assim como pedia que depois , toda a mais imprensa se encarregasse de reproduzir o que aquelle jornal disser. O meu tempo é muito pouco, por isto, e pelas minhas fracas ou nenhumas habilitações , eu peça desculpa , para que relevem meus erros, e me considere sempre

Seu constante leitor. *. B. COUTINHO.
In Revista universal Lisbonense / por UMA Sociedade Estudiosa, Volumes 12-13