Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 13 de novembro de 2010

João Francisco Garcia. Jornada pelo sertão, de Benguela a Mossãmedes, em 1839.




Segundo cópia extraída do livro MS "Annaes do Município de Mossamedes", de fls. 1 a 3-V, Annos de 1839 a 1849 

-"Mossamedes cuja bahia foi denominada - Angra do Negro - pelos nossos Navegadôres, foi mandada vezitar pelo Capital General d'Angola Barão de Mossamedes, cuja comissão foi incumbida ao Capitão Mór de Benguella que aqui veio com forças por terra, e a este facto deve a sua denominação. Embora a dacta do seu descobrimento seja muito antiga, o princípio de sua povoação dacta de 1939. Neste anno veio de Benguella a Quillengues, e de aqui a Huilla, Jau, e depois a Mossamedes o Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, onde já achou fundeada no porto a Corveta Izabel Maria commandada por Pedro Alexandrino da Cunha Garcia vinha nomeado Regente. Já então existia no local que hoje se chama - Hortas - huma feitoria bem montada pertencente a Jacomo Fellipe Torres, de Benguella, administrada por hum homem de sobrenome Guimarães, que fazia muito negócio, e se achava acreditada com o gentio, o que lhe accarretou tal perseguição que foi prezo na mesma Corveta para Loanda roubando-se-lhe e destruindo a feitoria acomo protestou contra a violencia, e obteve justiça, mas não reparação. Apezar deste accontecimento ainda assim veio em 1840 Clemente Eleutherio Freire montar outra feitoria de sociedade sociedade com D. Anna Ubertal de Loanda, e em 1843 veio pois veio João Antônio de Magalhães estabelecer outra feitoria de sociedade com Augusto Garrido; porem de todas estas feitorias so existe hoje a de Fernanda, por se ter fundado na pesca e dedicado também à cultura. Começou pois esta povoação por hum presidio em que alem da força millitar e degredados se estabelecêrão algumas feitorias, e d'entre alguns de seus administradôres taes como Fernanda e Freire; bem como o Tenente de Marinha A. S. De Souza Soares de Andreas, e Commandante do Brigue "Tejo", e sua guarnição foi que nascerão os primeiros ensaios da Agricultura. A força de vegetação que se conheceo em algumas sementes lançadas à terra, a descripção feita por alguns officiaes de Marinha; e a benignidade do clima fizerão suscitar a idea da colonização deste local por gente não degredada."

 No semanário O Panorama, de litteratura e instruccão, Volume 8 , Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Portugal), Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Lisbon, Portugal), encontramos o seguinte relato
da dviagem de exploração de Benguela a Mossãmedes, por terra, através de Quillengues, Huilla e Jau, escrito pelo próprio  Tenente de Artilheiria João Francisco Garcia, em 1839, que passamos a transcrever:

                                          Jornada pelo sertão em 1839.

Neste anno de 1839 o Sr. João Francisco Garcia , 1.° tenente de artilharia, atravessou por motivos de serviço, de Benguella a Mossamedes. Por serem de muita importancia todas as noticias que respeitam ás nossas possessões africanas damos o oficio em que o Sr. Garcia relata a sua viagem, de que obtivemos copia pela louvavel curiosidade de um nosso assignante : 

—«Ill.'"° Sr.—Tenho a honra de levar ao conhecimento de V.S.* que, sahindo desta cidade a 19 de setembro passado, afim de dar cumprimento á commissão de que V. S.* me encarregou , — de ir encontrar-me com a corveta Isabel , nas immediações de Cabo-Negro , depois de explorar sertões limitrophes d'aquelle ponto e bahia de Mossamedes; e conjunctamente com o commandante daquella embarcação , consultar sobre a possibilidade de naquella costa se formar um estabelecimento commercial: cheguei a Quilengues a 28 do dito mez , e dalli parti para a Huila a 5 de outubro, onde cheguei a 12 do mesmo. Desde a minha chegada á Huila tratei logo de dispor ao soba dalli a dar-me auxilio para me transportar pelo interior do paiz até á costa, no que encontrei bastante repugnancia ; comtudo á força de dadivas e razões, e pela antiga amizade que com aquelle soha tenho, pude afinal conseguir o dar-me um macota e carregadores , para acompanhar um morador do paiz, do meu conhecimento e confiança, e pago á minha custa, até á costa , de donde, assim que chegasse, deveria tratar de procurar noticias da corveta , communicar com ella , se lhe fosse possivel, e dar-me quanto antes todos os esclarecimentos e noticias que tivesse. Eu fiquei no entanto na Huila, não só por estar soffrendo das febres, mas tambem por me ser ainda vedado o progresso no paiz. Por esta occasião suhe que no Iáu estava prezo , por certos crimes de feiticaria , um sobeta nome Loquengo , hahitante da costa do mar, e como me occorresse que este Loquengo poderia ser de alguma utilidade para meus fins, pelo logar que hahitava, determinei o captiva-lo pela gratidão, fazendo-o soltar; o que pude conseguir pela influencia que o soba da Huila tem sobre o do Iáu , ainda que a bastante custo; porque estes crimes de feiticeria , cousa mui frequente entre o gentio, é a maior parte das vezes um pretexto para os potentados espoliarem os mais fracos, e parece que, neste caso, o soha do Iáu ainda não estava satisfeito com o que linha extorquido ao Loquengo. 

— Intimei a este sobeta que, quando solto, queria que me acompanhasse até á sua terra, ao que assentiu : porem logo que se viu livre , tratou de quanto antes se pór fóra do alcance do seu perseguidor , mandando-me dizer que não esperava por temer ser outra vez prezo ; e que o podaria seguir na certeza de que me recommendaria pelo caminho, e que contasse com, os seus hons officios logo que chegasse á sua terra.

— No emtanto cu não cessava de solicitar a licença de ir pessoalmente até á costa , o que a final consegui, tendo alegado como o principal fim das minhas instancias , o lerem dado á costa dois navios, e que por este motivo ea tinha sido mandado por terra para me juntar com a corveta que andava no mar, afim de pormos no tal sitio uma pedra ou marca para que se não perdessem mais navios.

— Parti da Huila no 1.º de novembro ás 8 da manhã , chegando ás 3 da tarde á libata do soba de Iáu : entre estes dois pontos ha tres leguas de um terreno mui fertil, banhado por um grande rio perenne, que corre a igual distancia das duas libatas, e em cujas margens pastam os gados dos dois povos.— Pelo soba do Iáu fui mui bem recebido e agasalhado a seu modo, prestando-se logo a promptificar carregadores e a nomear um ruacota que me guiasse , acompanhando-me o mesmo soba em todo o primeiro dia de marcha , que teve logar no dia 4 de novembro, até á ultima libata de sua terra onde pernoitei.

— No dia 3 levantei para o Quiácuto, descendo parte do grande despenhadeiro , que aqui faz o terreno e que olha para o sul ; dormimos a cousa de um terço da altura : do cimo desta altura sahe um pequeno rio que serpenteando pelo monte ahaixo, se vem a perder de vista na planicie. Toda a encosta é cuberta de arvoredo carregado de urzela. A este monte, ou antes despenhadeiro chamam os do paiz a munda do Quiácuto: do cimo desta munda se goza de um golpe de vista maravilhoso, descubrindo-se todo o fertil e ameno territorio dos cubaes. No dia 4 acabei de descer a munda, que me custou um penoso dia de marcha, e por fim cheguei á haixa , terra de cubaes; paiz em geral plano em toda a sua extensão, que é mui consideravel ; semeado de montes e outeiros mais ou menos consideraveis, separados por valles e varzeas de grande fertilidade, onde os naturaes cultivam grande porção de massango , e algum milho que consomem mesmo verde , recolhendo o massango para o tempo das sèccas. A quantidade de gado vaccum e ovelhum neste districto é immensa. Neste dia fiquei na libata de Mélequilungo , soba destes arredores, que mui bem me tratou, e me presenteou com bois e carneiros, tudo devido ás recommendações que a meu respeito tinha. Neste logar, que chamam o Quiácuto , soffri hastante incommodo porquanto, os rapazes e creanças que, pela primeira vez viam um homem branco, tinham de mim tal medo , que mal por acaso me avistavam , partiam espavoridos, e se precipitavam aterrados por entre as pedras de que o logar abunda , com grande risco: o que obrigou o soba a ordenar-me que me conservasse dentro da cabana ou libata , que apenas tinha duas varas de diametro e 2% palmos quadrados d'abertura de porta, e que, quando quizesse sahir deste forno, deveria primeiro faze-lo sahir, afim de dar aviso aos rapazes para se porem a salvo atempo.— Ha aqui a fruta chamada mabóque, cuja apparencia exterior é exactamente a de uma laranja : a casca comtudo é mui dura , e partindo-se se encontra dentro uma polpa mui saborosa, um tanto acida e cheia de pevides miudas. 

— Já no districto de Iáu , eu encontrei a figueira agreste, cujo fructo , e inteiramente igual ao figo da Europa em tudo, menos na grandeza, que excede a das maiores peras, e na arvore que os dá que é de mui avultadas dimensões : os naturaes lhe chamam cúios, e os comem, na falta de outro mantimento, cosidos e desfeitos em polme ou malete.—

A uns cincoenta passos do Quiácuto , corre um magestoso rio acompanhado de arvoredo em ambas as margens, e parece vir do sueste : delle tomei agua até a Faiòna, onde a agua que leva já é mui pouca e quasi estagnada.— No dia 5 levantei deste logar, acompanhado de um macota do Mélequilungo, que de muito me serviu nos seis dias de marcha até a Faiòna , fazendo-me fornecer em todo o transito de bois, carneiros e grande copia de leite, dos repetidos e numerosos rebanhos de gado, que por todo este territorio dos cubaes encontrei: a minha comitiva nesta data chegava a cincoenta pessoas.

— A 11 cheguei a Faiona : é uma povoação cercada de muito boa madeira, de paus mui grossos muito altos e direitos : encontrei os mesmos arimos [fazendas], a mesma linguagem, e abundancia de gado. O soba de Faiòna é ao parecer, de 50 annos de idade, muito alegre e franco. 

— Do Quiácuto a Faiòna é o caminho em geral bom, o terreno coherto de madeiras e a vegetação mui vigorosa.

—Tanto esta povoação como a do Quiácuto tem mui pouca gente, e pelo caminho encontrei seis libatas abandonadas, sendo o motivo , o andar esta população espalhada com os numerosos rebanhos, pelos logares deste vasto territorio onde o pasto é mais abundante, e não falta água.

— Esta gente dos Cubáes é a mais simples que eu conheço n'estas partes: todo o seu alvo é tratar dos seus rebanhos, e nada sahem de roubos nem de guerras, como o outro gentio. Não tinham ainda por aqui visto um branco, e por isso a minha presença lhe causou grande admiração: com tudo tem boa opinião dos brancos, e os tratam com amizade. Não conhecem a vil prática de se venderem uns aos outros, e quando apanham algum ladrão dos seus gados preferem o mata-lo ao resgate. Como os gados lhes fornecem com abundancia os meios de subsistencia , tratam pouco da agricultura ainda que o terreno seja mui fertil. Em Faiòna tive a noticia de que a corveta [que elles chamam elefante do mar] estava fundeada n'um logar que depois (•) Vide n.° precedente sube ser a hahia de Mossamedes. Partindo de Faiòna, atravessei um terreno arido, sècco, e sem vegetação, e não vi nem gente, nem gados, até ao dia 16 em que desci uma montanha de areia de grande altura. Ao chegar ao cimo desta descida se observa uma lista de vasto arvoredo que na baixa junto ao monte faz cotovello , estendendo-se para o norte e para o oeste. Este arvoredo marca o alveo do rio de que me tinha separado ha tres dias, que vem aqui ter da banda do norte e vai desaguar na bahia de Mossamedes e Loquengo, no tempo das cheias : agora ainda corria mui pouca agua ao pé do cotovelo no fundo do monte de areia de que fallei, e daqui para haixo só encontrava agua debaixo da areia , o que se obtinha abrindo mesmo com a mão uma pequena cova , e logo a um palmo apparecia mui boa agua. Cheguei finalmente no dia 17 de novembro a Mossamedes, e no mesmo dia communiquei com o commandante da corveta.

— No seguinte dia fui visitado pelo soba Loquengo [aqurlle que eu soltei no Iáu] trazendo-me um boi e dois carneiros.

— Passados dias fomos eu e o commandante á libata do Loquengo que nos tratou muito bem e nos obsequiou o melhor que póde, e ao commandante pediu com grande instancia que o avassalasse afim de ficar protegido contra as vexações do soba do Iáu e outros que o opprimiam, como ha pouco lhe tinha acontecido. Pediu que lhe pozesse um nome, e lhe désse alguma insignia que indicasse a sua auctoridade; estimámos muito estas hoas disposições do soba, e consultando-me o commandante sobre o caso, assentámos de annuir aos seus desejos, e então se Ibe deu o nome de Giráhulo, cuja palavra exprime as relações que os seus antepassados tiveram com os brancos. Depois deste acto que teve logar com o ceremonial do costume, lhe recommendou muito o commandante que tratasse bem os brancos, que désse todo o auxilio aos navios que alli aportassem, e que soccorresse os naufragados, o que tudo protestou fazer de boa vontade. Convidou-o o commandante a ir a bordo da corvela, onde queria corresponder aos seus obsequios, e dar-lhe o distinctivo da sua nova auctoridade. Passados alguns dias foi com efeito o soha a bordo, onde foi mui hem tratado, e alli repetiu todas as promessas anteriores. Na presença da guarnição em parada , lhe poz o commandante uma bella capa encarnada , toda ornada de botões dourados e lavores, todo feito a bordo, e lhe deu uma cadeira , com o que, e uma salva de oito tiros de despedida ficou o homem por extremo contente e satisfeito. Alem do soba Giráhulo de quem tenho fallado, e que tem a sua libata no Loquengo a cousa de 4 a 5 milhas,' na costa do norte fóra da bahia, ha ainda outro mesmo na bahia , a que chamam Mussungo, que pela pouca importancia que parece ter, foi quasi neutro em todas estas transacções ; ficou com tudo muito satisfeito da nossa estada , pois que alem do beneficio que dela lhe resultou na boa porção de fazendas que lhe deixámos, tanto minhas como da corveta, não houve uma unica pessoa tanto de bordo como da minha comitiva que lhe désse o menor desgosto , ou praticasse o minimo excesso.

— Por todos estes motivos ambos os sobas ficaram dispostos a entrar em qualquer transacção com os brancos , e ambos mostraram grande desejo de que alli se fosse assentar algum estabelecimento. Os terrenos que occupam estes dois sobas, são duas varzeas nas margens do rio que desagua na hahia de Mossamedes , deitando um braço para o Loquengo e em amhos os logares tem terrenos que parecem de grande fertilidade, onde tem alguns arimos em que as mulheres cultivam feijão, milho, aboboras e alguma mandioca, que são as plantas que exclusivamente se cultivam por todos estes sertões. Concluidas as minhas observações e as do commandante da corveta, partimos para Benguela , onde me acho prompto a receher as ordens de V. S. 

— Deus Guarde a V. S. — Benguela 13 de dezembro de 1839. — Ill.0'° Sr. governador da Benguela e suas dependencias. (Assignado ) — João Francisco Garcia , 1.* tenente.

In O Panorama: semanario de litteratura e instruccão, Volume 8 Por Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Portugal),Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis (Lisbon, Portugal)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A colonização de Mossãmedes (Moçâmedes-Namibe-Angola) e o cultivo do algodão: 1854

O cultivo do algodão em Mossãmedes, nos primeiros tempos da sua fundação: 
Do livro Anais do Conselho Ultramarino, parte oficial, serie I, Fevereiro de 1854 a Dezembro 1858, Lisboa 1867.

Manda Sua Majestade El-Rei, regente em Nome do Rei, pela Secretária de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, remeter a Junta da Fazenda da Província de Angola os dois inclusos conhecimentos, datados de 26 de Outubro do ano passado e 10 do corrente, de duas maquinas de descaroçar algodão, que se remetem pelo brigue novo africano, capitão José Preim da Costa, ao qual a mesma junta satisfará a quantia de 117$925 reis, pela importância do frete dos referidos objectos, que deverão ser enviados para Moçâmedes, e ali entregues ao colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o qual deverá satisfazer á referida junta, com o produto do primeiro algodão em rama ali preparado, não só a predita quantia de 117$925 reis, importância do frete, como também a de 33$095 reis fortes, em que importaram as referidas maquinas, responsabilizando-se a esse pagamento por meio de uma obrigação, que deverá assinar no acto em que lhe forem entregues.

Paço, 18 de Janeiro de 1854 = Visconde de Athoguia.
                                                           
                                                             *   *   *

Manda sua majestade el-rei, regente em nome do rei, pela secretaria de estado dos negócios da marinha e ultramar, comunicar ao governador de Moçâmedes, que nesta data se remeteu a junta da fazenda de Angola, pelo brigue novo africano, as duas maquinas de descaroçar algodão, que havia requisitado o colono Bernardino Freire, ao qual a mesma junta as mandará entregar mediante uma obrigação que ele deverá nesse acto, e na forma do seu pedido, assinar, em que declare se responsabiliza a satisfazer a sua importância pelo produto do primeiro algodão em rama já preparado; e por esta ocasião manda o mesmo augusto senhor recomendar ao referido governador, que informe de seis em seis meses a respeito do uso que delas tiver feito aquele colono, e do estado em que achar a cultura do algodão, para que em vista de tais informações possam adoptar-se as providencias que mais convier.

Paço, 18 de Janeiro de 1854 = Visconde de Athoguia.


A cultura do algodão  iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumiu no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Mossãmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, que iria medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos. 


Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
                                                                          *   *   * 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Um conto de vez em quando: o Padre Basílio

    A Igreja paroquial de Santo Adrião, vendo-se à esquerda a sacristia




O Padre Basílio


Sobre o Padre Basílio transcrevo a seguir um texto que mostra bem a personalidade do muito propalado homem de Igreja que um dia foi mandado estar à frente da Paróquia de Santo Adrião, em Moçâmedes.

"...O padre Basílio foi um padre bizarro que passou por Mossâmedes (Moçâmedes-Angola) nos anos 1930/1940, uma vez que possuía um comportamento pouco ortodoxo que não se enquadrava nos padrões morais da época, nem se enquadrariam ainda hoje, passados que foram mais de 70 anos, e de tal modo que se tornou para quem ali vivia, como que uma figura mítica, rodeada por uma auréola de negatividade.  Dele se dizia que era rezingão e malcriado, que não gozava da simpatia e dos favores da população, que poucos o amavam e muitos o odiavam, que alguns o toleravam, pelos muitos anos que levava pastoreando o mesmo rebanho de fiéis, pelo respeito pela batina negra que vestia, e pelas compridas barbas que pendiam do seu rosto mal encarado e mal amado.

O padre Basílio, tinha o seu próprio código de honra, de ética e de convivência, desajustado para a figura de  uma pessoa que deveria primar pelo exemplo da conduta e da contenção da palavra.  Pai de um casal de mestiços que com ele partilhava a residência paroquial, na parte traseira da Igreja paroquial de Santo Adrião,  nunca escondeu a ninguém a paternidade das crianças, assumindo-a na sua plenitude, como se fosse a coisa mais vulgar deste mundo um sacerdote seguir à letra o preceito da bênção de Deus a Noé  aos seus filhos: «Sejam férteis, cresçam e encham a Terra».

Nem o bispo, nem as pessoas mais importantes da cidade, muito menos as beatas mais militantes ousavam frontalmente censurá-lo, com temor das suas reacções ou das represálias contundentes, onde quer que fosse, no púlpito da Igreja, no salão requintado, ou em qualquer esquina ou rua da cidade. E com o avançar da idade mais ainda foi apurando o  seu génio briguento, de tal modo que corria pela cidade, naquela década, que quando a vizinhança uma vez clamou contra a praga de ratos que vinham do templo consagrado à oração, ele próprio decidiu fazer a desratização da sacristia, da Igreja e da residência paroquial...a tiros de revólver.

Outra faceta do mau feitio deste padre era revelada pelo modo como catalogava os seus paroquianos, dos mais carenciados aos mais abastados,  dos pobres de espírito e pobres de cultura aos pobres de estrutura. A estes, esporadicamente, quando se recolhiam no seu confessionário para se libertarem dos pecados, mesmo que  implorassem, não lhes era concedida a penitência nem a absolvição. "

Mário Augusto da Silva Lopes 
 
                                            


P.S.

O que o meu amigo Mário Augusto não referiu, foi uma cena ocorrida no interior da Igreja Paroquial de Santo Adrião, em Moçâmedes, que teve como protagonistas o  padre Basílio, e duas jovens  estudantes,  e que deu brado em toda a cidade.

Por essa altura  uma das escolas primárias da terra funcionava  no rés-do-chão do Palácio do Governador, ali mesmo ao lado da Igreja. Contavam as senhoras que viveram aquele tempo (anos 1930-40) que um dia, a duas jovens estudantes, ao passarem pela Igreja no regresso a casa, apeteceu-lhes empurrar a porta que estava entreaberta, entrar, e ficar ali a rezar um pouco. E se tal pensaram, assim o fizeram. Com o que não contavam foi com a cena que se iria desenrolar à sua frente, quando, vindo dos lados do altar, o atrevido padre Basílio, envolvido numa capa que lhe cobria o corpo nu, ao aproximar-se delas, abriu a capa e  deixou-se exibir... Resultado, as jovens envergonhadas saíram a correr, apavoradas, da casa do Senhor Jesus Cristo, e a notícia correu a cidade de canto a canto. A  partir de então, as raparigas da pacata  Moçâmedes aconselhadas pelas vigilantes mamãs quanto ao risco que corriam ao entrar naquela Igreja, nunca se atreveram a ali entrar sem a companhia de alguém de um adulto da sua confiança. Pelo menos enquanto ali esteve o malandreco Padre.



MariaNJardim

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Os incidentes de Pernambuco (Brasil) na origem do arranque da colonização branca de Mossãmedes(Moçâmedes, actual Namibe), em 04.08.1848

















Transcreve-se a parte de um texto ass. por Jorge Fernandes Alves, pelo interesse de que se reveste para o assunto tratado neste blog:


Tensões nativistas


Depois das agruras da viagem, o português desembarcado no Brasil, depara, particularmente nos tempos pós-independência, com uma luso-fobia acentuada, que sintetiza vários tipos de animosidades ( políticas, económicas, sentimentos de rua contra a caristia...). Pedro Calmon sublinhou devidamente as dificuldades iniciais de um sistema «imigrantista» que substituisse a escravidão, devido a preconceitos ancestrais de xenofobia colonial, cuja informe agressividade espicaçava, nas ruas, o delírio nacionalista». E, «consumada a independência, resta o acto popular de desforra, o mata-maroto que na Baía se repete, pitoresca e tragicamente todo o ano, e em Recife tem aspecto de uma ameça permanente, social da Patuleia, contra o comércio retalhista».

Multiplicaram-se este tipo de motins na época regencial, mas o seu lastro permaneceu durante muito tempo, tendo muitos jornais da época, verdadeiramente incendiários no seu  radicalismo jacibino, contribuiso para os criar ou ampliar.

A Revista Universal Lisbonense, dá-nos conta deste ambiente ao longo de vários números, e publica textos de defesa em 1851, escritos por portugueses radicados no Brasil, para divulgação neste país, dado o número elevado de assnantes da publicação aqui existentes. Entre insultos, o Argos Maranhense apontava o essencial: «são mais protegidos do que nós no comércio, dedicam-se exclusivamente a ele, e além dos tropeços que encontramos em uma legislação incoerente com os interesses nacionais, impõem-nos uma barreira insuperável e impedem que brasileiro algum se possa proficuamente ocupar neste ramo de industria. Outros jornais brasileiros, como o Estandante ou o Progresso, afinam pelo mesmo diapasão, numa propagação da luta contra o facto de o comércio a retalho estar em mãos portuguesas, pelo que se apela à nacionalização do comércio.

Esta campanha pela nacionalização do comércio a retalho, no âmbito da hostilidade dos portugueses,  terá sido desencadeada em 1842, em Pernambuco, por ocasião da rebelião "praieira" . Mais tarde, em 1844, o mesmo partido praieiro terá peomovido um abaixo assinado em que se  requeria ao governo a expulsão de artistas estrangeiros, e a proibição de certas produções industriais por estrangeiros. E, em 1848 (26 de Junho), ainda em Pernambuco, a partir de uma briga entre um estudante  brasileiro e um caixeiro português, de que o primeiro saiu ferido, estala um motim anti-português, em que aos gritos de "mata-marinheiro" se liquidaram vários portugueses comerciantes e se solicitou de novo à assembleia provincial a expulsão dos estrangeiros  do comércio a retalho, bem como a a expulsão de todos os portugueses solteiros com mais de 15 anos, num cortejo de acusações que proliferavam em jornais e clubes nocturnos. Vários enviados do governo português colocaram-se à disposição dos  emigrantes, para os conduzir à  alternativa de África, indo algumas centenas construir então a colónia de Moçâmedes, Angola.

Embora amainando è medida em que surgiam medidas graduais no longo caminho da abolição da escravatura e se desenvolviam políticas de emigração, esta animosidade está subjacente ao relacionamento do brasileiro com o português, num clima vivencial qie Pedro Calmon definiu exemplarmente "o contraste entre a transacção lusófila do alto e a trepidante lusofobia das ruas" . Assim, de vez em quando emergem conflitos em que o português se torna "bode expiatório"...

In "Variações sobre o brasileiro". Tensões na emigração e no retorno do Brasil. Revista Portuguesa de História. Tomo XXXIII (1999). U. Coimbra
Para ler o texto completo: AQUI

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma viagem a Mossamedes: trechos do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862


Postal da povoação de Mossâmedes (Moçâmedes (Namibe), onde se pode ver o morro de D. Fernando (também chamado na época de Morro da Ponta Negra),  onde foi inplantada a Fortaleza (de início Presidio/Estabelecimento) a demarcar a posse militar da área e áreas circunvizinhas (1839-1840). À dt,  a Igreja de Santo Adrião. Postal
.


Outra imagem do Forte mandado construir em 1840 e reconstruido em 1884, pelo então Governador Geral da Província de Angola - Manuel Eleutério Malheiros que o apetrechou com 26 canhões.
 
 


  Postal da povoação de Mossâmedes (Moçâmedes- Namibe)  

A flotilha que esperou em Moçâmedes o 1º Governador, em 1849
Ver AQUI
Ponte móvel de embarque/desembarque


No livro "Quarenta e cinco dias em Angola", de autor anónimo,  datado de 1862, encontram-se elogiosas referências a Moçâmedes (Mossâmedes) se comparadas com as referências em relação Benguela, à "inóspita e doentia Benguela", cidade portuária a norte de Moçâmedes,  fundada em 1617, que  durante séculos e até bem dentro do século XIX, juntamente com Luanda, serviu  de entreposto  do comércio de escravos africanos para o Brasil e Américas, um negócio que envolveu comerciantes brasileiros, portugueses e africanos (sobas) de outras regiões, que foram responsáveis pelo envio de quase meio milhão de africanos,  e de paragem obrigatória para comerciantes de cera e marfim que se dirigiam a Luanda... 



Interessante  o relato da partida para Moçâmedes:


"...Amanhã levantamos ferro, e seguimos viagem para Mossamedes. Adeus maldita Benguella : — não terás as minhas cinzas! Fica-te com os teus elegantes coqueiros, e com as tuas lindas bananeiras — deixo-te sem saudades — o teu ar mata. Adeus homens óptimos; Deus vos conceda uma óptima cova, onde sejaes optimamente enterrados: — viver n'esse estado não é viver.

Benguela ficava no meio de pântanos e lagoas. Abundavam os mosquitos,  o paludismo era uma constante, e chegou a ser chamada "cemitério de brancos". 


O autor prossegue o seu relato prossegue com uma não menos interessante descrição da costa angolana, entre Benguela e Moçâmedes que transcrevo a seguir: 

"...Vamos seguindo uma costa árida e melancólica, que os homens ainda não conseguiram cultivar, e que o próprio Creador parece ter abandonado. Esta solidão é medonha!... Ao contemplar o horisonte limitado por escarpadas e estéreis montanhas, cujos cumes se confundem com as nuvens, sinto o coração comprimir-se-me de tristeza; volvo o pensamento para a Europa, mas ás saudades que de mim se apoderam, só posso dar allivio vertendo lagrimas de arrependimento. Pátria, familia, e amigos, que eu nunca deveria ter-vos deixado, tornar-vos-hei a ver ainda?...

Quanto é extensa esta costa ! Ha vinte horas que navegamos e comtudo apenas tenho descuberto duas ou três feitorias.  Ah ! lá se avista a Ponta Grossa; estamos na bahia a que os inglezes deram o nome de — Pequena bahia dos peixes — e de um só lançar d'olhos pôde o viajante abraçar toda a povoação de Mossamedes, hoje villa, e á qual os habitantes dão o nome de Praia.

A impressão primeira de Moçâmedes vista do mar e em terra:

Mossamedes, ao inverso de Benguella, apresenta um aspecto triste, porque as suas casas baixas e por em quanto pouco numerosas, estão como perdidas no meio d'um extenso areal.

Em frente de nós e sobre um morro alcantilado temos a fortaleza; á direita, mais para o interior, descobre-se a igreja — mais longe, algumas habitações e o hospital. Á esquerda, na baixa, e em arruamentos regulares está a povoação ; — no fundo, a extensa e longínqua serra de Chella, um dos mais admiráveis caprichos da natureza, mita este quadro de um colorido pouco variado.

A distancia talvez de três quartos de légua, avista-se arvoredo e bella vegetação: — é o sitio das Hortas, alfobre delicioso, onde se reproduzem todos os fructos, hortaliças, e arbustos europeus juntamente com os dos trópicos. Entre as Hortas e a Villa, veem-se espalhados alguns túmulos e cruzes toscas, levantadas em memoria dos primeiros colonos que alli se foram estabelecer. Aquelle cemitério está abandonado, por terem feito outro em sitio mais próprio e convenientemente disposto.

Saltemos em terra e vejamos esta povoação, que tanto nos tem gabado. O clima é delicioso. Sinto renascer, n'uma agradável transição, a energia que o calor abrasador de Loanda me tinha feito perder: já não estou alagado em suor, como hontem ainda me acontecia — julgo estar na Europa.

Mossamedes é uma villa moderna, em que muitos dos melhoramentos indispensáveis estão ainda por executar; assim mesmo muito se conseguiu com os poucos recursos de que poderam dispor, porque o Governo não tem olhado como deveria para aquelle abençoado torrão. É a terra da Província que mais tem sido visitada pelos europeus: — todos os empregados que adoecem, pedem licença para se irem restabelecer á Cintra africana, e isso hoje é-lhes mais fácil com os vapores da «União Mercantil» , do que no tempo em que não haviam senão uns pequenos navios do Estado, em que se viam obrigados a alurar as demoras e caprichos que os commandantes podessem ter nos diversos pontos da costa.

Não há ainda vinte annos, que n'aquelle extenso areal nem uma só cabana se avistava; — agora possue três bellas ruas, bem alinhadas, cortadas por outras tantas que dão accesso á praia, com lindas casas térreas no estylo americano, bem construidase commodamente repartidas. Os colonos estrangeiros, mais avisados, levaram comsigo operários intelligentes, que introduziram innovações desusadas em outros sítios da Provincia, sabendo tirar todo o partido dos raríssimos recursos que o paiz lhes offerecia."


A Fortaleza de S. Fernando (ver AQUI)

A Igreja Paroquial de Santo Adrião


 
 Os barracões no local onde se abriu a Avenida da República

  Outra perspectiva dos mesmos barracões...


A Rua que conhecemos como da Praia do Bonfim


Moçâmedes: Praia, ponte e cidade (postal)

 

Moçâmedes avançando na sua urbanização, de acordo com o projecto 
do Gov. Fernando Costa Leal. Outra prespectiva da Praia do Bonfim

 
 Prespectiva da rua que conhecemos como da Praia do Bonfim

 
 Passeio domingueiro nas Hortas de Mossãmedes.
Foto decida pelo Engº Albino da Cunha a Sanzalangola (Lay Silva)

 O Palácio do Governador...



Sobre a população de Moçâmedes na época e sobre factor habitação:


 "...Successivos comboios de colonos teem ido estabelecer-se em Mossamedes contando actualmente a villa e subúrbios para mais de dous mil habitantes, sendo seiscentos e tantos brancos, mil escravos, e compondo-se o resto de pardos, pretos livres e libertos. As três tríbus circumvisinhas de Crok, Giraúl, e Quipola tem para cima de setecentos habitantes. Os concelhos da Huila, do Bumbo, e dos Gambos, reunidos, apresentam uma população muito mais numerosa, mas os brancos não excedem talvez a cento e setenta, os pardos a trínta, e os escravos e libertos a quinhentos e quarenta, avultando a população em indigenas dos Gambos, que orçam por uns cincoenta mil.

"... As primeiras construcções, foram como no resto da Provincia, compostas de Urtigas, com barro e ramos de palmeira servindo de cobertura: algumas d'essas humildes habitações ainda hoje existem, a parede outras mais elegantes, como para mostrar ao viajante, por que serie d'incommodos tiveram de passar aquelles que se animaram a lançar as bases de uma povoação, que está destinada para ser um dia a mais bella das nossas possessões africanas.Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862
  

             
A tríade Plácio do Governador, Igreja e Hospital...
A Fortaleza, o Palácio do Governador, a Igreja e o Hospital vistos do mar...

O Hospital de Moçâmedes, na Avenida Felner, fronteira ao mar,
 demolido nos finais da década de 1950

 
 O Bairro da Torre do Tombo visto da baía de Moçâmedes
 
 
O autor aborda a relação entre o Governador Fernando da Costa Leal (5º Gov. Moçâmedes) e um certo sector da população:


"...Mossamedes podia ter prosperado muito mais, se tivesse tido sempre governadores tão intelligentes e honrados como Fernando da Costa Leal, a quem ella muito deve. Moço de instrucção, de um carácter enérgico, e de uma honradez exemplar, foi o único governador de Mossamedes que fez obras de reconhecida utilidade, apesar das dificuldades que teve de vencer, e da crua e injusta guerra que lhe moveram alguns habitantes da villa. Ja há muito reconheceram elles os seus erros, porque viram que a inteliigencia, energia e boa vontade foram bem mal substituidas, attendendo-se ao interesse particular e despresando-se completamente os do districto. A verdade que este estado de cousas convém a certos individuos; porque em Mossamedes, se a terra é boa, a gente nem toda o é; há muito quem pesque era aguas turvas, e a quem convenha a desordem e o desleixo.

Esta é infelizmente a grande ulcera das nossas possessões. As ambições, a inveja, e o ascendente que muitas vezes certos empregados subalternos tomam sobre outros mais graduados, mas de menos inteligência, são  causa de muitos devaneios, de muita injustiças, de muita intriga, e acabam sempre pela completa desorganisação do systema administrativo que se tenha tentado seguir. Mas ainda esta não é a maior difficuldade que a authoridade tem de combater, porque havendo sufficiente energia, com pouco custo faz entrar no seu dever os seus subordinados, e facilmente pode afastar para longe aquelles que lhe forem hostis; o que é mais para recear, são certos habitantes que depois de se pilharem, senhores de uma casaca preta, de um chapeo de copa alta, e de um par de luvas brancas, esquecem o que foram, e o que verdadeiramente ainda são, pretendendo como o gaio da fábula, revestido das pennas do pavão, que lhes dão uma importância que elles não merecem e até de que não são dignos. Quando um governador, que conhece o seu lugar, encontra d'esses perus cheios de vento e de soberba, e não transige com elles, tem de luctar constantemente com mil intrigas e embaraços que adrede lhe preparam aquelles, cuja influência foi despresada.

A mania geral em Angola, de ser o favorito dos governadores, dominal-os, e fazer depender da sua approvação certos pedidos e determinações.

O zeloso 5º Governador de Moçâmedes, Fernando da Costa Leal (1854-1859), responsável pela construção da Fortaleza de S. Fernando no local do antigo forte,  pela planta topográfica da cidade, pela conclusão da Igreja, pelo edifício da alfândega, entre as muitas obras a que Moçâmedes lhe ficou a dever
(Oleo existente nos Paços do Concelho da CMM)


"...O Governador Leal emancipou-se d'essas tutorias: e achou-se no campo, luctou com perseverança, pagou a ingratidão com benefícios, e succumbindo com glória, retirou-se, sem que a mais leve nódoa tivesse manchado o seu nome. D'estes homens não convém para as nossas possessões : e por isso teve de recolher a Portugal.

Este zeloso funccionario levantou uma planta de Mossamedes, e n'ella indicou as construcções que tencionava mandar fazer: projecto bem combinado, e conveniente para evitar o desalinho que se nota em todas as terras, onde logo de principio não houve o cuidado de traçar um plano geral de obras. Edificou o quartel, que com quanto seja hoje um dos peores edifícios de Mossamedes, era n'aquelle tempo o melhor que havia, mesmo porque então não se dispunha ainda de muitos objectos que já se encontram no mercado, e também porque os recursos que tinha, eram mui restrictos. Principiou a fortaleza, cujo plano foi depois alterado e estragado por quem o substituiu na direcção d'aquelles trabalhos.

Lançou as fundações de um Palácio para o governador, juntando á custa de muitos sacrificios, grande quantidade de materiaes para a sua continuação.

Edificou uma bella igreja, com residência para o parocho, e tentou estabelecer um moinho, para cujo fim chegou a receber de Lisboa as pedras necessárias, que jazem dispersas na praia onde provavelmente ficarão cobertas pela areia. Visitou o interior, construiu fortes, e deu grande incremento á Colónia da Huilla, onde estabeleceu um moinho, que ainda hoje trabalha com proveito dos colonos e da guarnição.

Actualmente as únicas obras que se vêem em andamento são as da fortaleza, mas essas mesmas seguem com morosidade, porque os operários também se occupam no serviço de alguns particulares influentes. Os materiaes, destinados para o Palácio, tem sido vendidos, dados e roubados!

Contrasta de uma maneira bem singular este estado de dissolução com a actividade que presidiu ao desenvolvimento material, que em outro tempo se manifestara, e que eu tractei de esboçar. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



 Sobre Moçâmedes, o seu casario, suas ruas, avenidas, plantações...

"...Em Mossamedes não ha senão uma casa de um andar, e nem é prudente fazel-as ; não só por falta de madeiras solidas, como também por causa do modo de construcçao de que se servem por não haver pedra; pois que a que apparece na villa é um grés friável, ou uma petriíicação curiosa, que se compõe de conchas envolvidas n'uma espécie de betume. Com esta qualidade de pedra é que estão construindo a fortaleza.

O Governador Leal descobriu próximo de Mossamedes gesso de excellente qualidade, de que fazem grande uso na villa, e que os navios poderiam transportar como lastro para Loanda: — é mais um ramo de commercio que tem sido despresado.

As construcções são feitas com adubos seccos ao sol, sem nenhuma outra preparação, e formando pedaços de grandes dimensões. Cada tijolo tem proximamente 4-4 centímetros de comprimento, por 22 d'espessura, e outros tantos de largura : o barro é do melhor que se pôde desejar, e daria magníficos tijolos se os cozessem e os fabricassem do formato francez.

A casa de melhor risco é onde vive o governador, e pertence a um portuguez, natural de Lisboa, estabelecido na ilha de S. Thomé. Afora mais algumas casas particulares, as outras são occupadas por gente de negocio, soldados casados e degredados com officio.

Quasi todas as habitações da Praia tem páteos, onde plantaram palmeiras e coqueiros, no meio dos quaes abrem a sua cacimba, pequeno poço, cujo revestimento interno é formado cora barricas sem fundo, sobrepostas umas nas outras, e d'onde tiram a agua para usos domésticos, sendo alguma de boa qualidade.

Apesar de ser muito melhor que a de Loanda, a agua é igualmente filtrada, e julgo que vêem do interior os filtros que lá usam, de um grés mais compacto do que o que se emprega nas construcções. O açougue fica situado n'uma elevação, e algum tanto afastado do centro da villa.

As ruas estão por calçar; — tencionavam dar principio a esse melhoramento, o que me não pareceu muito acertado, em quanto não tiverem fixado com plantações de arvores, ou outras edificações, as areias que os ventos trazem sempre em movimento.

Sem uma barreira no littoral que se opponha á invasão das areias, e que sirva para no futuro fornecer madeiras de construcção, mal poderá Mossamedes conseguir ter nas suas excellentes ruas um piso commodo e uma communicação fácil com o sitio tão concorrido das Hortas. Dizem-me que já tentaram a sementeira dos pinheiros, mas sem resultado. Houve por força má direcção n'essa experiência, porque o pinheiro ha de dar-se n'um clima tão benigno como aquelle : longe de desanimar, deveriam repetir por mais vezes, e em diferentes pontos, outras tentativas, porque o seu bom êxito muito contribuiria para a prosperidade d'aquella terra."


Convinha primeiro plantar ao longo da praia cinco ou seis fileiras de coqueiros, que se dão bem na agua salgada, para se poder estabelecer uma linha de defeza, como se pratica nas Landes, e ao abrigo d'ella ir semeando os pinheiros, que nunca poderão vingar, se depois de semeados os deixarem abandonados e entregues ás invasões das areias. Vingada a primeira sementeira,essa mesma serve de resguardo ás que depois quizerem fazer.

É muito para sentir que se tenham occupado tão pouco de plantações: apenas na praça da Colónia se vêem algumas arvores mal resguardadas. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

A problemática da água é abordada:

O Governador Leal tentou edificar a villa no sitio mais alto e onde as areias são menos abundantes, mas a commodidade dos desembarques, e sobre tudo o receio que muitos tinham que alli se não encontrasse agua, fizeram com que preferissem a baixa. Tempo virá em que aqueloutro terreno será mais apreciado, sobre tudo se se levar a cabo o Palácio projectado.

A falta d'agua já a não devem recear, porque também aquelle governador a encontrou a pequena profundidade.

Há em Mossamedes dous operários de merecimento um d'elles é carpinteiro, e faz as vezes de sub-delegado, e d'architecto—fala de papo na Novissima Reforma, e nos differentes estylos d'architectura ; o outro, chamado Espirito Santo, é um d'esses homens como se encontram muitos nas cidades do Minho, e a que dão o nome de—faz tudo. —Uma das suas obras existe na fortaleza: é uma chapa de fundição com letras em relevo, que não achei mal feita, e dei-lhe bastante apreço por ter sido executada n'uma época em que faltavam as cousas mais indispensáveis. Dos outros officios que exerce, nada posso dizer, senão que como cozinheiro, faz detestáveis maças, e deixa queimar os assados. Assisti a um jantar, feito por elle, onde provei um bocado de maçado assado, que me não pareceu delicado manjar. Também ha um excellente funileiro, natural do Porto, e para alli enviado pela Relação."

A bahia de Mossamedes é uma das mais bellas que tenho visto—o seu fundeadouro é magnifico e vasto.

Como na maior parte das nossas possessões africanas, faz-se o desembarque aos ombros de barqueiros, o que sempre apresenta certo risco aos visitantes que se não acharem preparados para tomar um banho de choque.

Um caes bem construido, que nivelle a praia pela altura proximamente das construcções regulares que alli existem, com escadarias para os desembarques, e uma ponte de descarga para o serviço da Alfandega, são as obras mais urgentes. Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 O edifício da Alfândega de Moçâmedes, em postal,
   
mandado construir pelo Governador Fernando da Costa Leal



"....A Alfandega precisa também ser reformada : a actual é um barracão impróprio e sem accommodações. Uma Alfandega deve ser um edifício isolado, próximo ao desembarque, e com as condições necessárias, não só para os empregados, mas principalmente para armazenar as fazendas, que muitas vezes os compradores não podem recolher nas suas habitações.

Na praia presenceia-se uma scena assaz desagradável e á qual deveriam pôr termo, se os Camaristas quizessem mais tractar dos interesses da terra, e menos de certas intriguinhas, e questões pessoaes, com que ninguém aproveita, e elles muito perdem."Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

 

 
Moçâmedes: vista panorâmica com o Palácio e a falésia (à dt.) ao fundo


Moçâmedes. Grupo de emigrantes algarvios.  Foto de Antunes Salvador

Habitação de uma família de indígenas no distrito de Moçâmedes (postal da época)


O moinho de vento mandado construir por João da Costa Mangerição, da colónia do Brasil (1849-50). *

O edifício da Alfândega em construção. Carro de bois recolhendo água de fonte pública

 
O Jardim da Praça da Colónia para onde esteve projectado um
 monumento aos pioneiros de que existe maquete.
 
Escalação de peixe, na praia, junto à ponte, piquete e Fortaleza de S. Fernando (ao fundo)

Autóctones retirando a rede de arrasto do mar e cães na praia
Autóctones retirando a rede de arrasto do mar. A Fortaleza e o navio encalhado



A Pesca e resíduos piscícolas:


"...Quero fallar da escallação do peixe, que convinha se fizesse em sitio retirado e mais apropriado para esse fim ; onde o vento da barra não cobrisse d'areia fina, como agora acontece, o peixe preparado de fresco, o que o torna impróprio para quem não estiver ainda aífeito como os negros, a trincar areia sem se lhe arripíar os cabellos. Também é costume quando chegam os pescadores virem á praia os pretos comprar o peixe para os seus senhores, e leval-o para casa, já aberto e escamado, para o que vêem sempre munidos d'uma faca. Os cães attrahidos pela esperança de pilharem alguma lambugem,
rodeiam os pretos na occasião do amanho. Alguns mais atrevidos, ou mais famintos, levam a ousadia a ponto de querer partilhar melhor quinhão do que aquelle que lhes
destinam, mas pagam caro o atrevimento, porque o prelo, estúpido e cruel, dá-lhes desapiedadamente com o gume da faca nas mãos, e continua tranquillamente o seu trabalho. Contei n'um dia em que fui ver chegar o peixe, vinte e seis cães, deitados á sombra de uns barcos que se estavam concertando: vi-os levantar de vez em quando a cabeça, e olhar para o lado d'onde deviam vir os barcos, e como nada avistassem, recostar-se, fechar os olhos e dormir. Repetiu-se esta scena muitas vezes, até que chegando finalmente os pescadores, elles ahi se levantam todos, e a passo lento se dirigem ao sitio onde os barcos aportaram. Foi então que tive occasião de notar, que a maior parte d'elles eram aleijados das mãos, e que me explicaram o motivo de sua má sorte. Não sei de que sirva tanto cão em Mossamedes, a indiferença dos habitantes deixa-os assim produzir espantosamente, até que se vejam obrigados a combatelos, como os primeiros colonos tiveram de fazer aos lobos, que todas as noites vinham cumprimentar os seus novos hospedes. O que é muito singular e digno de reparo é, que em Angola, onde o calor é excesssivo, e onde se não encontram tão facilmente como na Europa sitios onde os cães possam beber, não ha lembrança de um só caso de hydrophobia." Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862



Colono de Moçâmedes montado num boi-cavalo, em postal



Os meios de transporte: o boi-cavalo

"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola : para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar n'um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e á quinta dos Cavalleiros.

Este nome de—boi-cavallo—produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma differença fazia dos outros bois.

Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual á dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os Ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do—passo do boi—. Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo;
mas a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para lhes recordar o seu dever.

Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem visita Mossamedes não deve deixar de dar....» Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862


A Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro

Moçâmedes: Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Chefe da 1ª colónia ida de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes, em1849Um dos símbolos da fixação do primeiro grupo de portugueses que, idos do Brasil, fugidos aos lastimosos acontecimentos de Pernambuco ocorridos a 26 e 27 de Junho de 1848,  chegaram a Mossâmedes no dia 04 de Agosto de 1849, para alí, em solo que consideravam Luso,  se fixarem e desenvolverem as suas propriedades agrícolas nas margens férteis dos rios Bero e Giraúl .


«...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda há pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa;

"...Continuemos agora a nossa excursão.
O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona, que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro, que na maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha, pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada.

D'esse mesmo lado descobrem-se vários terrenos cultivados, e algumas habitações de lavradores. Entre ellas acolá se avista a de uma portuense celebre, que tendo ido para o Brazil, fez parte da colónia que foi d'aquelle Império para Mossãmedes. D. Isabel d'Austria, era uma senhora muito prendada e de bastante instrucção, que falleceu ha poucos annos ; no cemitério velho vé-se o seu túmulo, mas com o nome quasi ininteligivel. Esta senhora dedicou-se á agricultura e á educação dos seus escravos e escravas : ellas ainda hoje são das mais procuradas, e algumas adoptaram e conservam o nome da sua primeira possuidora.

Esse costume é muito frequente em Angola, e até certos Régulos do interior teem pedido como grande honra a alguns Governadores geraes a mercê de poderem usar de igual nome, inclusivamente do de família.

Eis-nos na quinta dos Cavalleiros. É uma extensão immensa de terreno, cultivado á maneira do Brazil, com excellentes plantações de canna d'assucar de magnifica qualidade, bello algodão, muita mandioca e bananas.
Esta propriedade pertence a um individuo que fazia parte da colónia brazileira, e que hoje se acha na Europa, com pouca tenção de voltar a Mossamedes.

Dentro da habitação do fazendeiro está uma boa machina americana de limpar o algodão, que trabalha com a maior regularidade, dando óptimo resultado. A pequena distancia existem as ruinas do engenho do assucar, que não funcciona por falta de meia dúzia de traves para o reparar provisoriamente !

Tudo quanto do terraço podemos alcançar com a vista foi aqui ha tempos devastado e roubado pelos Munanos ou Nanos, espécie de vândalos do interior, que só vivem de pilhagem. Quando a fome os aperta fazem as suas correrias pelos povos que se dizem nossos vassallos, e a pretexto de cobrarem os tributos, a que não teem direito, roubam o gado aos pastores, devastam tudo por onde passam, e recolhem ao Nano, levando os prisioneiros que poderam fazer, para serem vendidos nas proximidades de Benguella, ou resgatados por grandes quantias.


Cinco mil d'estes gentios tentaram uma invasão em Mossamedes onde já não faltava medo, porque não estavam então preparados para lhes poderem resistir. Entraram pelo lado do norte, que é o mais mal guarnecido, — com quanto fosse fácil forma um reducto a quatro léguas de distancia da villa, para conter em respeito estes bárbaros, — chegaram á quinta, onde umas dezoito pessoas mal armadas os contiveram durante umas poucas de horas; lançaram o fogo e talaram todas as plantações, incendiaram o engenho e a habitação, e retiraram a final, levando prisioneiros o fazendeiro e parte samedes com os trajes que trazia quando veio ao mundo, e alguns escravos que depois conseguiram fugir vieram apresentar-se-lhe.


Assim ficou em poucas horas, este homem laborioso, reduzido quasi á miséria; mas graças aos esforços e hábil administração da pessoa a quem o proprietário deixou entregue a sua quinta, a não serem as ruinas do engenho, nada nos poderia fazer acreditar n'uma semelhante devastação.


Póde-se dizer que a quinta já se acha talvez em melhor estado, do que antes da invasão, mas muito mais se teria conseguido se o fazendeiro contasse o numero de escravos precisos para o serviço. Com muitos sacrifícios tem comprado alguns, mas o seu numero ainda está longe de chegar ao que d'antes era, e esse mesmo, na actualidade, seria insufficiente.

O Governador geral deveria animar este homem brioso, pondo ao seu serviço, durante quatro ou cinco annos, um numero avultado de libertos; quando não, continuará, por falta de braços, a perder-se a colheita da canna e do algodão.

Foi por occasião d'esta invasão que o Governador de Mossamedes deu a mais evidente prova da sua inépcia. Apenas teve noticia que os Munanos(1) se aproximavam, o seu primeiro cuidado foi de flanquear uma loja em que vende manteiga, com quatro peças d'artilheria, e convidar os habitantes para o coadjuvarem. Para o resolver a enviar soccorros á quinta, foi preciso descompôl-o : — mandou então a muito custo uma peça, mas com balas que lhe não serviam !
Do Livro «Quarenta e cinco dias em Angola», 1862

Nota: As fotos foram colocadas à margem dos textos. 
As transcrições foram  respeitadas na íntegra.

Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de biblitecas até ser cuidadosamente digitalizado pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos.



Ver também AQUI

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O «moinho de vento» a que se refere a estatística respeitante ao ano de 1854, junta ao ofício de FERNANDO LEAL, dirigido ao Ministério do Ultramar, em 2 de Janeiro de 1855.



 
*«...Dentro das máquinas agrícolas usadas no Distrito, na sua fase incipiente, interessa particularmente mencionar  o«moinho de vento» a que se refere a estatística respeitante ao ano de 1854, junta ao ofício de FERNANDO LEAL, dirigido ao Ministério do Ultramar, em 2 de Janeiro de 1855. Pertencera a João da Costa Mangericão, que o Governador Sérgio de Sousa considerava um dos artistas mais prestáveis da Colónia. Começou a moer em 15 de Agosto de 1851, como se lê no Relatório de Sérgio de Sousa, de 31 do mesmo mês e ano, mas parece que em face dos insucessos agrícolas dos primeiros anos, que só teve regular funcionamento a partir de 1853, ano em que a agricultura distrital prin.principiara a desenvolver-se. Assente em casa própria, era movido pela acção do vento, sendo de ferro coado todas as rodas dentadas. Moía, termo médio,um cazunguel de grão por hora. Moinho e casa , fora tudo trabalho executado pelo seu proprietário. ( B.O. nº322, de 29 de Novembro de 1851)




quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Mossâmedes (Moçâmedes) e as operações militares em 1914 no sul de Angola

A GUERRA EM ANGOLA

1. AS PRIMEIRAS OPERAÇÕES MILITARES EM 1914
 
Leito do Cacoluvar
 A procurar água no leito do rio Cacoluvar 

 
I. A FORÇA EXPEDICIONÁRIA. PREPARAÇÃO DAS OPERAÇÕES
A entrada da Inglaterra no conflito europeu, tornada pública com a declarado de guerra à Alemanha em 5 de Agosto de 1914, e a possibilidade de que, mais tarde ou mais cedo nos poderíamos encontrar envolvidos no mesmo conflito, levaram o governo português a pedir ao Congresso da República, em 7 do referido mês, «as faculdades necessárias para, em tal conjuntura, garantir a ordem em todo o país e salvaguardar os interesses nacionais, bem como para ocorrer a quaisquer emergências extraordinárias de carácter económico e financeiro».
Dada a nossa condição de potência colonial, cujas duas maiores possessões ultramarinas - Angola e Moçambique - confrontavam, ao tempo, com dois grandes territórios alemães -  a Damaralandia e o Leste Africano - e tendo em atenção que eram sobejamente conhecidas as pretensões germânicas de compartilhar a posse daqueles nossos domínios, o Governo da metrópole, na previsão de futuros acontecimentos, resolve reforçar as guarnições provinciais com dois corpos expedicionários, um destinado a Angola, outro a Moçambique.
No dia 18 de Agosto, o general Pereira de Eça, Ministro da Guerra, convida o tenente coronel do Corpo do Estado Maior Alves Roçadas 1 a aceitar o comando do primeiro daqueles corpos, constituído por um quartel general, um batalhão de infantaria, uma bateria de metralhadoras, uma bateria de artilharia de montanha, um esquadrão de cavalaria, serviços de saúde, engenharia, administração militar, transportes e de etapas, e tendo por missão assegurar a obediência do gentio e vigiar a fronteira sul nos pontos importantes 2.
A partir do dia 20, e por intermédio do Ministério das Colónias, Roçadas expede ao governador geral ele Angola uma série de telegramas pedindo informações sobre os recursos existentes na província e mandando proceder a vários trabalhos, entre os quais a mobilização das unidades indígenas e europeias.
Passados dias, e depois de ter reunido os elementos que lhe foi possível colher em Lisboa, apresenta ao Ministério das Colónias um projecto de operações, no qual prevê o reforço do corpo do seu comando com unidades da guarnição da província de modo a constituir-se uma coluna de operações cuja composição e efectivo correspondessem à importância dos objectivos a atingir e que seriam: ocupação directa cio Cuanhama e oposição ao avanço de quaisquer forças, isoladas ou não, que pretendessem invadir o território da colónia.
Nos dias 10 e 11 de Setembro, a bordo cios vapores Cubo Verde e Moçambique, parte ele Lisboa o corpo expedicionário.
A 27 de Setembro e 1 de Outubro desembarcam em Moçamedes o Comando, as unidades de menor efectivo e os Serviços, continuando a bordo por alguns dias, e até que fosse escolhido e preparado o seu aquartelamento na cidade, o batalhão de infantaria 14.
Pouco depois da instalação do quartel-general em Moçamedes, e até 11 de Outubro, publicam-se as ordens e instruções para a organização do serviço de informações e dos serviços da retaguarda.
Para a organização do primeiro destes serviços, o Governador-Geral de Angola, Norton de Matos, ampliando as instruções confidenciais do Ministro das Colónias, determinava ao Governador do distrito de Moçamedes que cooperasse com o comandante do corpo expedicionário na instalação e funcionamento do referido serviço, ordenava aos chefes de concelho, de circunscrição e de postos da beira mar que se pudesse em contacto com as canhoneiras Save e Massabi, que estavam cruzando ao longo da costa de Moçamedes.
Cais de Moçamedes
Cais flutuante de Moçamedes
Ao Governador do mesmo distrito solicitava Roçadas que lhe transmitisse quaisquer informações que se referissem à acção de alemães ou indígenas nas nossas águas, no nosso litoral, no próprio território da Damaralandia e no interior do distrito; e aos capitães-mores do Cuamato, Evale e Baixo Cubango confia-lhes idêntico serviço a respeito do que se passar dentro da área das respectivas jurisdições e no país da Damaralandia, que interesse à nossa acção militar e política no sul da província.
Com o fim de completar as informações relativas ao inimigo provável com as que diziam respeito ao terreno em que poderia vir a operar, manda ainda proceder ao reconhecimento militar do Baixo Coróca no litoral de Moçamedes, ao estudo do acesso possível às regiões de Otchinjou, através dos contrafortes da Chela, estudos estes cujo objectivo era encontrar uma posição militar que fechasse o acesso do Baixo Cunene a Porto Alexandre e Moçamedes e verificar se era possível pôr em ligação a força, que porventura viesse guarnecer aquela posição, com as futuras forças do sector de defesa do Pocolo.
Publica, a seguir, a organização dos serviços da retaguarda, estabelecendo como base dessa organização:
Zona do interior – Desde o litoral até o planalto da Huíla. Zona da retaguarda – Desde o planalto da Huíla até o Cuamato. Zona de operações – Desde o Cuamato até à fronteira alemã. Estação de reunião – Os depósitos de Moçamedes, na estação do caminho-de-ferro. Estação «terminus» – Estação do caminho-de-ferro de Vila Arriaga. Base de etapas – Lubango-Chibia. Testa de etapas -Forte do Cuamato.
Expede ainda as instruções para o serviço de etapas e, no dia 11 de Outubro, depois de ter verificado pessoalmente o estado de adiantamento dos alojamentos destinados às diversas unidades expedicionárias, ordena a concentração destas no planalto.
A 18, Roçadas tomava posse do governo da Huíla. A fim de ser facilitada a sua acção como comandante do corpo expedicionário, cujas operações militares deviam desenrolar-se em regiões pertencentes àquele distrito.
A 19, dá-se o primeiro incidente de fronteira, em Angola – o incidente de Naulila.
 
A caminho do embarque
1914 - O batalhão de marinha a caminho do embarque
O Dr. Vageler, ao terminar os seus estudos próximo do Cunene, pretendera passar para a Damaralândia, através da Hinga, mas detido pela nossa polícia nas proximidades da Dombondola e remetido para o Humbe, onde se encontrava por ocasião do incidente de Naulila, serviu de intérprete ao administrador daquela circunscrição na conferência que esta autoridade tentara realizar com o sargento alemão da escolta do Dr. Schultze Jena, junto ao Calueque, na manhã do dia 19 de Outubro, seguindo para a Damaralândia com a referida escolta, depois de ter exclamado: C'est la guerre. O incidente de Naulila e a apreensão do comboio dos 11 carros boers levaram Roçadas, de acordo com o coronel Coelho, a mandar retirar a missão do distrito da Huíla, na previsão de dificuldades que poderiam advir à execução das medidas do governo com a permanência dos membros da mesma missão no interior.
A maioria destes encontravam-se rio Lubango, donde seguiram directamente para Moçamedes; mas Schubert, oficial de artilharia da reserva, que andara juntamente com Roma Machado, tendo pedido autorização para seguir pelo caminho do Chácuto, o que lhe fora concedido, desaparece de uma maneira singular na estação do caminho de ferro do Munhino, no intuito de seguir para a Damaralandia, o que lhe não foi consentido, e, ao ser preso na Chela pelo português Morgado, exclama: Já vem tarde.
Mais súbditos alemães, além daqueles a que acabamos de fazer referência, se encontravam espalhados pelos distritos de Benguela e Huíla, exercendo, aparentemente, as profissões de negociantes, colonos agrícolas, exploradores de terras e empregados em oficinas particulares, mas, segundo todas as probabilidades, desempenhando o papel de espiões informadores.
A ordem de expulsão do território do distrito da Huíla dada aos membros da missão de estudos é mandada aplicar, como era óbvio, a todos os súbditos de raça germânica e ainda àqueles que, estrangeiros ou nacionais, fossem considerados suspeitos, tornando-se extensiva ao vice-cônsul Schoss e família logo após o conhecimento do massacre do Cuangar.
Dias depois, quando se procedia à detenção de um alemão, que se verificara ser oficial da reserva e era empregado nas oficinas do Almeida da Chibia, foi-lhe apreendida uma carta da Damaralandia, onde estava traçado a lápis o itinerário com a indicação das etapas que mais tarde seguiram as forças que de Outjô, e sob o comando do major Frank, vieram atacar Naulila (18 de Dezembro).

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Fonte : Coronel António Maria Freitas Soares, «A campanha de Angola»
in General Ferreira Martins (dir.), Portugal na Grande Guerra, Vol. 2, Lisboa, Ática, 1934,
págs. 193-205