Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 22 de janeiro de 2011

MANDUME NDEMUFAYO - SÉCULO XX



 

Mandume (1914)

Mandume,  hoje é considero um herói  nacional angolano, um símbolo não apenas de resistência e de ódio aos portugueses. Mas será que este homem que se revelou um tirano e um  sanguinário para o seu próprio povo merece essa honra? Será que Angola seria o imenso território que hoje é se fosse seguida a  vontade de Mandume? 


Segue um texto que nos pode trazer alguma luz sobre este assunto:




MANDUME


Reinou de 1911 a 1917. Assume o trono aos 20 anos. Num ponto o Povo Cuanhama é unânime em relação ao porte de Mandume como homem. Extremamente cruel. Como chefe supremo da Nação Ovambo, muito inteligente, hábil político, déspota e corajoso. Mas antes de iniciarmos os relatos pessoais de meus informadores sobre esta impressionante figura de guerreiro, convém trocar algumas ideias obre as atitudes de Mandume e chegarmos ao ponto final da sua carreira, como rei e homem, que cumulou com a morte.

Assinatura do soba Mandume
Abstraindo das atitudes bárbaras que o caracterizavam, tolerava as Missões protestantes alemãs que o instruíram na língua, na escrita e na religião. Dizia ele «que todos os brancos que não fossem padres e estivessem dentro do seu território deviam ser mortos». E a comprová-lo mandou matar um português, a mulher e amigos que o acompanhavam. Em comparações que fazia entre as Missões católícas e protestantes, nas quais fora educado, apontava como justificação que aquelas «só se dedicavam à catequese e se «metiam em negócios de gado», enquanto que os luteranos primavam por elevar o nível social e intelectual das massas».
O fim trágico que o envolveu corresponde exactamente ao tipo de homem que encarnava. Valente, ousado, arrogante e aventureiro. Abandonando N'Giva, sede do Reino, depois da última batalha da Môngua, em Agosto de 1915, instado pelos Ingleses, foge para o lhole na fronteira com o Sudoeste. Mandume presta vassalagem a Sua Majestade Britânica. Constrói a nova 'Embala' em lhole, ainda pertencente ao domínio inglês, já que só posteriormente Namakunde passava a integrar o território português. Impaciente, de espírito ardente e guerreiro, desenvolve surpreendente actividade nos domínios já abrangidos pelos Portugueses, incitando seus súbditos à revolta contra os Brancos, intimando-os a passarem ao Sudoeste com suas manadas. Eufórico, vai além dos limites da prudência e exerce uma acção de combate em território inglês. No ano seguinte, dirige investidas ao Cuanhama, tentando reconquistar o reino perdido. E as autoridades portuguesas de Namakunde pedem aos Ingleses que terminem com as actividades de Mandume. A 30 de Outubro de 1916, aniquila uma força portuguesa comandada pelo tenente Raul de Andrade, habilmente atraída a uma cilada. Recusa-se a ir a Windhoeck conferenciar com os Ingleses a quem teria dito «que viessem ao lhole se quisessem», e preparando-se para recebê-los sabendo de antemão que apressava o seu fim: «se os Ingleses me querem, podem vir apanhar-me. Não dispararei o primeiro tiro, mas não sou um touro do mato. Sou um homem, não uma mulher, combaterei até ao último cartucho».


Túmulo do soba Mandume

Trava-se violenta batalha entre Namakunde e lhole, mas os Ingleses contornam a operação. Karora, o súbdito fiel, vigiava o Norte.

Uma força portuguesa entrou em acção. Já em Ondongua os Ingleses lutaram com pequenas forças de Mandume. E o último Soba Cuanhama, rodeado de aproximadamente seiscentos homens da sua guarda pessoal, enfrenta também o último combate.
 
Afirmam os ingleses que o «Rei» foi identificado com quatro balas de metralhadora. Os Cuanhamas têm outra versão mais digna e real, e dela não se afastam. Acuado, já ferido, Mandume é retirado pelos seus fiéis súbditos, os Lengas, bem assim como pelos filhos do seu primo Weyulu, para debaixo da árvore imensa, o imbondeiro, onde finalmente praticou o suicídio com a sua bela arma Mauser, depois de liquidar três companheiros de luta. Assim contam o episódio: Mandume reuniu-se com os filhos de Weyulu, a quem perguntou «se preferiam ser lacaios dos Portugueses ou morrer com ele», ao que optaram pela morte. O padre Keiling tem uma narração mais precisa do grande acontecimento:
E virando-se para os sobrinhos (primos) os filhos do falecido Soba Weyulu, lhes perguntou se queriam ser muleques de brancos. Como eles dissessem que antes queriam morrer, o Soba, levando a espingarda à cara, prostrou-os com dois tiros, e virando em seguida a arma contra si mesmo, fez saltar os miolos. 


Placa no Forte Roçadas.


Este acto vem confirmar a atitude assumida antes por Mandume junto à Missão católica no Cuanhama, e aos compromissos que o seu antecessor. Nande, havia mantido com o governo português. Às insinuações da Missão, teria respondido: «se o governo português quiser vir ocupar a minha terra, resistirei enquanto tiver um cartucho e um soldado capaz de atirar, e se for vencido suicidar-me-ei (...). Não há razão para pô-lo em dúvida. Os Portugueses, entretanto, descrêem do facto, numa atitude injustificada, já que o corpo foi encontrado decapitado. A relutância pelo episódio histórico que comporta, deve ter sua origem num sentimento de culpa muito comum a portugueses; o despojo do seu inimigo que na época lhes era odioso tornou-se peça de valor quando deveria ter ficado dentro de suas fronteiras. Nesse mesmo espírito, muitos crêem não serem os restos de Mandume que repousam no túmulo. Tal crença surpreende os Cuanhamas, ligados implicitamente por questão de honra ao último Soba. Queixam-se alguns da indiferença das autoridades em não transformar aquele reduto fúnebre e histórico num lugar condigno ao homem que foi senhor de um grande reino e que ombreou em valentia com um grande general português. O túmulo está esquecido e mal tratado. Relembramos, mais uma vez, o padre Keiling, que contactou assiduamente com Mandume em nome do Governo. Em entrevista com o Rei, na 'Ombala', transmite-lhe o pedido das autoridades:
a) A instalação da Missão católica que tinha sido destruída em 1912; 
b) Conversações com as autoridades; 
 c) Entrega dos prisioneiros europeus.

 
Pela libertação dos soldados portugueses o padre Keiling oferece duas caixas de champanhe para cada homem. Esta era a bebida mais apreciada pelo Soba, que responde: «para resgate de prisioneiros negros, pode oferecer champanhe ou conhaque que não direi que não, mas para resgatar soldados portugueses só com espingardas finas e cartuchame». À primeira proposta teria respondido: «a tua Missão trazia-me a ocupação portuguesa e essa não quero. Tens uma Missão no Evale. Não precisas mais».


Sekulo Hinaune e duas das suas esposas no Olupale.



Apesar de o Povo Cuanhama aceitar, conformado, a soberania portuguesa, com um passado de incessantes crises, lutas, mortes e arbitrariedades, desde os Sobas anteriores, para cumular com o despótico Mandume, sentem que ele foi temido por estrangeiros e que merecia, depois de morto, outro tratamento para que ficasse gravado o seu nome nas futuras gerações, como Rei e guerreiro. Isto faz lembrar as palavras do General Pereira D'Eça ao julgá-lo como militar e homem, no Relatório de Campanha sobre a batalha de Môngua:

«Atacar três dias consecutivos um destacamento constituído por duas baterias de artilharia de campanha, quatro baterias de metralhadoras, estando estas formadas em Quadrado, e aproximando-se delas com muita insistência, que no último combate que durou dez horas, a uma distância que chegou a ser de cinquenta metros, revela uma moral e uma instrução de tiro e aproveitamento de abrigos que faria honra às melhores tropas brancas.»
 
Mas vejamos a opinião dos informadores sobre Mandume. Muakina, o velho «Lenga» de Nande, Chico Ipúlua e Tamira, este ainda criança em 1917, ouviam de seus pais e de toda a comunidade esta afirmação: «Mandume suicidara-se com a sua bela arma «Mauser», e Muakina explica: «Quando passamos pelo túmulo somos obrigados a descobrir-nos. Mandume foi o nosso Rei e o último que servimos.»

Mulher com traje tradicional e o marido.

Mutamu, como sempre o mais objectivo, esclarece: «Todos os Sobas eram maus e cometiam barbaridades, mas Mandume era um monstro. Ficámos satisfeitos em passar às mãos dos Portugueses.» 

Em outra ocasião, confidenciava-me:


«Eu e um companheiro de nome Kisi andávamos namorando uma moça que parecia ter agradado a Mandume sem que o soubéssemos. Ele mandou chamar Kisi, fê-lo ajoelhar à sua frente e bateu-lhe com uma moca nos órgãos sexuais até morrer. Eu fui amarrado e torturado. Entortaram-me os pés com ferros e partiram-me os pulsos.»

Tive ocasião de constatar a veracidade desta afirmação. Mutamu possuía pés e mãos completamente deformados, virados para um lado, com os ossos salientes próprios de fractura antiga, consolidada. «A mando de Mandume, foram também mortos dois de seus tios, Hinadelua ya Mulundu, Vajeka ya Mulundu, além de uma irmã muito querida, que morreu às mãos do próprio Marodume.»




Nduliana com roupa típica (lukula).



No entanto, Mutamu e Silasa declaram não ser verdade que o Soba mandasse abrir a barriga a mulheres grávidas. Não posso, entretanto, resistir à tentação de transcrever um pensamento, espontâneo, de Mutamu, em sua língua, vertendo-o depois, em tradução livre, para o português:

«Kenañalelo diua osese ohamba yeto ndele. Oh! mokutekula ovanu kemua nande. Okuananapo unene ovanu oinima io ngaho. Kesemuno otadengua. Nau inaningasa name oiodengange gaha kemadingaba. Atuse nase iokaana oko o Siueda. Oh! hanga otemo ndipá okuakufuapo ku Amukoto Uakapa inodenga okaana ehalelo dilua inafadikuau o Weyulu no Nande aié ovatalapa kavena mbudo ovo. Mandume okuetumanapo unene.»


Tradução livre


«As ordens não eram boas, mas recebiam-nas por virem do Soba. Oh! Não tratava bem as pessoas. Matou muita gente e sem culpa. Batia em toda a gente, mesmo os que não têm culpa, como eu. Mandou entortar-me os pés. Castigou a mim e ao Siueda. Oh! Queria matá-lo, mas foi salvo por Amukoto Uakapa, que disse: «Não mata esse homem que foi muito tempo criado de Weyulu e Nande.» Matou muita gente, não era bom, não dava ordens boas como as dos outros Sobas, Weyulu e Nande. Estes eram bons, não faziam mal a ninguém. Mandume acabou com a vida de muita gente.»

Passemos agora aos outros informadores: o velho Siueda foi pastor de cabras de Nande e Mandume. Conta que foi salvo por Amukoto e Uakapa, 'Lenga' de Mandume. Esta é a história que Mutamu contou e dada antes em tradução livre. Siueda explica assim o desenrolar da tragédia. Desejava ir trabalhar no Sudoeste, e Mandume, ao sabê-lo, mandara-o matar. Já vimos como foi salvo por Amukoto. E esclarece: «Mandume só era bom para os 'Lengas'. Mandava matar as pessoas na «chana» do Nakupira, que por isso se transformava em motivo de poemas tenebrosos de todos conhecidos. Matou por suas próprias mãos a irmã de Matamu e mandou abandoná-la às feras, na Nakupira.


Naulé com 120 anos em 1961 e ainda viva em 1974.



Nandyala, minha velha informadora, tem uma interessante história vivida com Mandume. Mandume vira-a dançar ao som da 'Omakola' único instrumento usado pelo Cuanhama, e que é tocado pelo 'kimbanda' somente em cerimónias de práticas religiosas. Mostrando-se grato pela dança a ele dedicada, ordena que se mate imediatamente um boi e se prepare a pele para presentear naquele mesmo momento a Nandyala. Só a secagem e o amaciamento da pele levavam geralmente cinco dias a realizar. Após esta fase, é o couro cortado em tiras, que, costuradas, formam a típica vestimenta da mulher. Uma multidão de servos extenuados atirou-se à tarefa, sob pena de serem espancados até à morte. Nandyala afirma que o seriam.


Mas a roupa foi feita e vestiu-a na presença de Mandume.


Mas vejamos agora a opinião de Ondyebo, outro irmão de Mutamu, com 102 anos, ao ser inquirido pelo chefe de Mukunda, Tamira.


Tamira - É verdade que Mandume mandava matar as mulheres e as vacas?

Ondyebo - É verdade. Ele fez um reinado muito feio. Eu cultivava meu arimbo (quinta) com muito massango e massambala (sorgo). Mandume mandava tirar toda a sementeira que semeei com tanto esforço. Se estivesse bem disposto, mandava dar uma cria em troca do arimbo. Mas o meu 'arimbo' valia mais de três bois.

T. - Como é que você viveu com Mandume? Dizem que mandava matar os feiticeiros para o lado de Nakupira...


O. - Na 'chana' de Nakupira matou mais de uma pessoa. A minha irmã Limbuese, filha de Inhepo, que era rapariga nova e ainda usava «ondyeva»...


T. - Sua irmã foi enterrada?


O. - Todos que ele matava foram deixados na chana para serem comidos pelos pássaros e outros bichos. Minha irmã não foi enterrada, pois todos aqueles que Mandume matava não podiam ser enterrados. Depois de morta, tive que levar um boi ao Soba. Se o não fizesse, seria morto. O boi é para pagamento por nos ter morto um parente. Eu fico a chorar a irmã e ainda fico sem boi...

T. - Ouvi falar que Mandume mandara uma vez um homem subir uma árvore, uma palmeira altíssima, e atirara nele como pontaria. É verdade?


O.- Sim. Atirava na pessoa e nas conchinhas de Ombaba que lá mandava pôr. Chamava-se Ankongo, filho do homem Siendya. Foi pendurado lá em cima e depois Mandume fez pontaria.


T. - Diziam que Mandume mandara escalpelar um branco...


O.-  Ouvi dizer. Um operador chamado Hengualate que operou um branco. Besuntou-lhe a cabeça com «lukula» e amaciou o couro cabeludo. Pôs manteiga.


Na opinião de Tamira, o fim do reinado do Soba e a sua passagem para o domínio português representou um bem para o Povo Cuanhama. Era o termo de uma vida intensa de lutas e desespero. Da humilhação do homem e do sacrifício dos seus ideais. Nos Portugueses viam eles a salvação de suas próprias vidas e daqueles que amavam. Nem sequer lhes interessava saber se continuariam ou não detentores de seus territórios. O importante era mudar, e só os Brancos ofereciam essa alternativa.


EMBO


E Tamira cita: «Um 'Lenga' de Mandume tinha dois cavalos, chamados Simeda e Amunio. Por ordem dele, sai com os animais e vai estragar (pisar) as lavras dos súbditos e matar aqueles que lhe desagradavam. Makiri, o 'Lenga', entrou nas terras da mãe de Tchietekela, Soba do Cuamato, e danificou-lhe toda a lavra. Os Cuamatos fugiam, espavoridos, sem reagir, por se tratar do poderoso Mandume, a quem ninguém se podia opor. Contudo, se se perguntar a um velho Cuanhama a opinião sobre a sua figura, reconhecem-no como um «grande soberano».

Como é lógico, a única opinião divergente deveria ser a de seu descendente Paulus Nande, filho do Soba anterior a Mandume. Dizia-me Nande que Mandume desejava continuar a lutar nas 'cacimbas' de Môngua. Os brancos do Evale juntaram-se aos de Roçadas e só assim puderam vencer. Só com a ajuda dos Ingleses derrotaram o indomável guerreiro. Suicidou-se com uma bala da sua bela «Mauser». Tinha quatro mulheres, mas não deixou filhos nem sobrinhos. Afirma Mande que ele não era tão mau quanto a história o retrata. Foi acusado de muitas mortes que não cometera. Os próprios 'Lengas', com o poder autoritário que disfrutavam, cometiam os crimes em nome de Mandume.

Nande afirma ainda que Mandume era um homem justo e só matava quando muito zangado. Isto não releva, é cairo, os crimes confessos, tanto mais que Mandume vivia eternamente zangado contra tudo e todos.

Termino esta parte da personalidade de Mandume com a opinião de Nande, o actual representante legítimo de um reinado extinto, num passado ainda recente, herdeiro desse sumptuoso Ovambo e de uma raça reconhecidamente superior em relação às outras tribos do mesmo bloco.

Hoje, os Cuanhamas «queremos» viver em paz, não desejamos a guerra. Como autoridade superior gentílica, como Regedor, abaixo da autoridade portuguesa, se encontrar algum Cuanhama nestas «guerras modernas», amarro-o e entrego-o às autoridades.» (1).



(1) Gravação em fita magnética da primeira entrevista com Paulus Nande, actuando como intérprete Tito Lívio da Costa Alemão. Nande também falava português.

Nação Ovambo, M. Helena Figueiredo Lima, Universidade Nova, Editora Aster.

Nota: as fotografias foram copiadas do livro acima referido.

Fonte: Mémorias de Angola ( http://pissarro.home.sapo.pt/ )



OLHARES DISTANCIADOS: O SANGUE KWANYAMA EM TRÊS VERSÕES COLONIAIs



http://www.mazungue.com/angola/index.php?page=Thread&threadID=1386&pageNo=1

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Os tenentes Francisco Aragão, Raul d'Andrade e António Rodrigues Marques e os alemães da Damaralândia

Carregar na imagem para ver em tamanho 825 x 1247.
"O Tenente Aragão

Causou alvoroço de uma ressurreição a noticia oficial de que o tenente Francisco de Aragão, o valente comandante dos dragões de Mossamedes, que fôra dado como morto em combate, se encontrava prisioneiro dos alemães na Damaralandia com mais dois oficiaes: os tenentes Raul d'Andrade e Antonio Rodrigues Marques."

sábado, 25 de dezembro de 2010

As Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Mossâmedes, Moçâmedes (actual Namibe): até aos anos 40/50





Esta é a foto mais antiga que consegui da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em Moçãmedes, e das festividades ali realizadas anualmente, no dia 08 de Dezembro. Repare-se no aspecto engalanado do local, nas charretes encostadas à parede lateral da capela, e no recinto à direita (mancha escura em forma de quadrado), espécie de estrado coberto a folhas de bananeiras, onde decorria após a missa e a procissão, o bailarico.   

Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma já existia em 1884.

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.
"... Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata.
"... O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.
"...A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. Fonte deste texto
 


Ainda nos finais dos anos 40, início dos anos 50, mantinha-se viva a tradição da romagem à capela da Nossa Senhora da Conceição do Quipola, romagem essa que reunia grande número de  crentes e de não crentes, sendo para tal posto à disposição da população um comboio que assegurava as idas e vindas, sobretudo nesses tempos mais trás, quando não havia automóvel.




  A chegada de peregrinos transportados no ronceiro "Camacouve"....

 
  Peregrinos caminhando em direcção à Capela...

 

Peregrinos e visitantes, passando por entre os mastros embandeirados erguidos no local



Era  gratuitamente, que o Caminho de Ferro de Moçâmedes transportava os peregrinos, ajudando a impulsionar a festa. Ao comboio, chamavam-lhe o «Camacouve» devido à morosidade dos percursos, e à pouca velocidade com que caminhava. Imagine-se, demorava o dia inteiro para completar os cerca 240 Km que separavam Moçâmedes de Sá da Bandeira. Ultrapassado sim, mas estimado, pois  era através dele que a população ia tendo acesso a percursos mais longos, e a este topo de festividades, em que à boa maneira portuguesa "sagrado" e "profano" se misturam. Ou seja, a peregrinação incluía uma «missa campal» seguida de procissão, os fiéis recebiam a comunhão, cantavam "ossanas", rezavam o terço, e culminava num arraial em recinto de terra batida,  enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras, onde se erguiam pavilhões, barracas (alvo jogos de argolas e cavalinhos), tômbolas, etc, etc, que vendiam de tudo: estatuetas, rifas, objectos variados, gulodices,  comidas, bebidas, tabaco, cigarros, etc. etc. E assim as gentes de Moçâmedes iam quebrando a rotina do quotidiano.



 

Esta foto mostra-nos o muito estimado e popular padre Guilhermino Galhano, no fim da missa campal, a organizar os peregrinos para a incorporação na tradicional procissão. O Padre Galhano era um padre moderno que foi "carola" do Ginásio Clube da Torre do Tombo e do futebol, modalidade que ele próprio praticou, descontraidamente, lado a lado com os jovens daquele clube pioneiro. Sabia chamar a si os jovens e as crianças da terra, e não se inibia em jogar futebol com elas, aos domingos, após a missa e a catequese, vestido de batina branca e  meias pretas, com suas longas barbas negras o distinguia dos demais. Os jogos decorriam no descampado que ficava entre a Igreja Paroquial de Santo Adrião e o Palácio do Governador.


   O momento solene da missa campal



O momento da  procissão. Procissão e festividades sempre tinham a participação tanto de europeus como de africanos (kimbares)


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre um estrado de madeira, onde gente de todas as idades se divertia ao som da velha concertina, ou  do gramofone, que altifalantes pendurados nas árvores das redondezas faziam ecoar as modinhas mais em voga. Mas havia outros entretenimentos. Um pouco mais adiante, jovens e criança divertiam-se disputando as tradicionais corridas do saco, do ovo e da colher, tiro ao alvo, corrida de cavalinhos, etc.

Havia ainda o concurso do «pau ensebado», especialmente apreciado pelos africanos "quimbares",  que decorria no largo frontal à Capela, onde era colocado um mastro de madeira com cerca de 8 metros de altura, impregnado de sebo, no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida (brandy, vinho do porto, aguardente, vinho tinto, etc) que desafiava a quem ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre ganho pelos "quimbares", cuja estratégia era, para não escorregarem, levavam areia nos bolsos das calças de forma a que, de quando em quando pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem o precioso líquido colocado a prémio. Mas não eram apenas quimbares (povo africano e aportuguesado da zona) que se juntavam aos portugueses nestas romarias. Era raro, mas um dia aconteceu, contava-se na cidade, que ao estrado de dança subiu uma mulher etnia cuanhama que dançou com um algarvio (Manuel de Faro), proporcionando um delirante e ovacionado espectáculo. Digo raro, porque o cuanhama embora se encontrasse num estádio civilizacional mais avançado que o mucubal ---povo pastoril, nómada ou semi-nómada, que mantinha as suas tradições, vivia da pastorícia, andava semi-nú, e era  resistente à integração----não se encontrava completamente integrado nos usos e costumes portugueses.

 .

 Antes de regressar a casa, este grupo de estudantes de Moçâmedes e suas famílias posam para a posteridade junto do comboio que os iria transportar. De entre os estudantes, vestidos com a farda da Mocidade Portuguesa, o mais alto, mesmo em frente, trata-se do João Luis (Nico) Maló de Abreu que mais tarde iria para a Metrópole prosseguir os estudos e em simultâneo alinham pela Acadêmica (guarda-redes de futebol). Da esq. para a dt reconheço o Soares, o Carlos Ferreira (Miroides), o Pedro da Costa Gomes.  De entre os adultos recoheço: Júlia Almeida, Alice de Freitas, Idalinda Ferreira, Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida, Iolanda de Freitas






Esta foto que se pensa datada de 1920/30, foi tirada em Moçâmedes, por ocasião de uma dessas peregrinações anuais à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, e deixa pressupôr pela indumentária, tratar-se de um grupo de "elegantes" da classe média de então. Uma indumentária que não fica atrás daquela que na mesma época era exibida em Lisboa e mesmo em Paris. Enquadra-se  na  "Belle Epoque", período decorrido entre os anos 1880 e o início da I Guerra Mundial (1914-18), em que floresceu nos países europeus ocidentais, a partir de França, toda uma cultura de lazer e de bem estar, em que a moda teve papel relevante.  A moda feminina tinha dado um grande salto, os vestidos já não eram até aos pés, mas a meia perna ou pelo tornozelo. As senhoras usavam chapéus de vários feitios,  abas largas, abas estreitas, já não apenas para se protegerem do sol, mas porque o chapéu passara a servir  de distinção de classe e de função social. Também a moda masculina tinha mudado, os homens usavam colarinho branco, gravata, e chapéu, preferencialmente o  "chapéu de côco" que podia ser de feltro castanho ou cinzento, ou de palha branco. Moçâmedes como se pode ver tinha as suas e os seus "elegantes" que nessa altura, através dos "Armazéns Primavera" (1),  mandavam vir as suas toilletes dos " Armazéns Printemps" de Paris, um ponto de referência existencial para aqueles que estavam sintonizados com os ares da Belle Époque (2).  Os nossos "elegantes" pagavam as suas encomendas com produtos que Moçâmedes exportava para o exterior,  que serviam de moeda de troca. Na década de 20 e 30 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e  Gabão, conservas de alta qualidade que competiam com as de outras origens por serem mais   baratos, e  em troca, muitas vezes chegavam  a Moçâmedes produtos de vários géneros. 83)


Estas festividades, que remontam aos tempos em que as pessoas ainda se deslocavam em tipóias,   charretes, de boi-cavalo e até de carroças boers, atingiram o auge  nos anos 1920-30, mantiveram-se firmes na década de 1940,  e foram aos poucos perdendo o brilho, até que no decurso da década de 1950, com as novas formas de lazer que foram surgindo em Moçâmedes, começaram a perder o brilho, até acabaram  por se extinguir.  Mas sem dúvida, elas ajudaram durante o tempo que duraram a tornar mais agradável a vida da população, proporcionando momentos de  fé religiosa misturados  e momentos de lazer e folia,  sempre bem vindos a uma população carente de festas e distracções que lhes aliviasse a rotina do quotidiano. Não admira, se pensarmos que ainda nos finais dos anos 1940 em Moçâmedes, muitas casas  eram iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio (ou telefonias) ainda eram alimentados a bateria, e, assim sendo,  às 8 e 9 horas da noite já estava toda a gente na cama. Como não aproveitar todas estas ocasiões?

Ficam mais estas recordações de um tempo que ficou para trás no tempo, e de uma realidade vivida algures num recanto do litoral Icidental de África, na cidade de Moçâmedes, a  simples, calma e singela cidade erigida entre o deserto e o mar...


MariaNJardim







(1) Os "Armazéns Primavera" ficavam no rés do chão do edifício da família Zuzarte de Medonça Torres, na Rua dos Pescadores , por detrás da Alfândega , que conhecemos como Hotel Central, fazendo esquina com a Rua 4 de Agosto. Estes Armazéns recebiam encomendas das nossas e dos nossos "elegantes" da época. Segundo testemunhos daqueles que viveram esta época, Moçâmedes  possuía uma bela casa de espectáculos, o Cine Teatro Garrett, situado no local onde mais tarde foi erguida a sede do Atlético Clube de Moçâmedes, na Rua Calheiros. Era uma casa de espectáculos estilo Teatro S Luís, salvaguardando é claro as devidas distâncias, com seus camarotes, suas frisas, seus reposteiros de veludo vermelho, sua decoração dourada etc etc., e toda uma ambiência levava alguns espectadores a vestirem-se a condizer para assistirem a espectáculos de Teatro e até a filmes em Cinema mudo.  Ali realizavam-saraus de todo o género, frequentados pela "gente fina" do burgo, que aproveitava para exibir o seu estatuto real ou elaborado. Era uma época de ouro na Europa,   proporcionada pelas invenções tecnológicas, com o avanço da Revolução Industrial: telefone, telégrafo sem fios, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, etc., que inspiravam novas percepções da realidade e tornavam a vida mais agradável. Pelo comboio chegavam ao Portugal metropolitano, vindas de Paris,  as últimas novidades. Paris, referencial de vida para os intelectuais de todo o mundo, cidade  dos cabarés, dos cafés-concerto, das operetas, das livrarias, dos teatros, dos boulevards do cancan e da alta costura... Alguma influência destes modismos foi chegando à longínquia Moçâmedes, a pequena cidade de gente simples, mas que sempre teve os seus e as suas "elegantes"!

(2) Época de ouro, proporcionada pelas invenções tecnológicas, com o avanço da Revolução Industrial: telefone, telégrafo sem fios, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, etc., que inspiravam novas percepções da realidade e tornavam a vida mais agradável. Pelo comboio chegavam a Portugal, vindas de Paris,  as últimas novidades. Paris, referencial de vida para os intelectuais de todo o mundo, cidade  dos cabarés, dos cafés-concerto, das operetas, das livrarias, dos teatros, dos boulevards do cancan e da alta costura...

(3) A Fábrica Africana de Figueiredo e Almeida, Lda. posteriormente deu lugar à conhecida SOS, tinha colocação fácil nos mercados britânicos, e que as exportações em  tempos de crise com a 1ª Grande Guerra,  reanimaram-se a partir de 1923,  exportação de conservas de atum, sarrajão, cavala, merma, etc., principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, e também para os Congos Belga e Francês e o Gabão.

Ficam estas recordações.



MariaNjardim




Coloco a seguir alguns testemunhos e algumas poesias de moçamedenses sobre a citada peregrinação:


 Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhámos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quizer ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!

Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...

Pergunta ao João...


(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujo
in Mazungue


***


Outros poemas dedicados a estas festividades:



Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...

A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade

da Menina-Mãe ANGOLA!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...

(recordando...)

Aileda (in Sanzalangola)



***


À Sr.ª da Quipola

Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem à Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.

Manuela Lopes






CURIOSIDADES

"....Sitio do Quipola,  local da região de Moçâmedes, a seguir ao Bero, onde vivia a tribo do soba Moeni-Quipola,  que esteve presente juntamente com o sobas Mossungo e Giraúl na recepção de boas vindas aos colonos fundadores, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que ali chegara , vindos de Pernambuco, Brasil, no dia 04 de Agosto de 1849 .


"...A povoação indígena  Mossongo Bittoto "... habita as praias e valle próximo do forte: os seus mais notáveis chefes são os Sobas Moeni-Qupola, (sem nenhuma importância entre os seus) e Giraúl,
este mais poderoso e mui respeitavel ancião, tem em grande valia as relações com os Portuguezes, que igualmente o consideram pela superioridade de sua posição. O seu dominio estende-se até a ponta do Norte da bahia bastante povoada. 


"...Em geral todos estes povos occupam-se pouco da gricultura, semeam unicamente o indispensavel para a sustentação da vida, que mais empregam em pastorar o gado que possuem em extraordinaria quantidade, no que fazem consistir a sua maior riqueza, cuidadosamente guardada em lugares desconhecidos dos outros povos do interior, quando por estes invadidas as suas povoações por qualquer pretexto de guerra, em que pelejam só por se defenderem de seus aggressores."


 In "Demonstração geográfica e política do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846  por Joaquim Amtónio Menez, e publicado no Rio de Janeiro em 1848.



(Menez escreveu este texto às vésperas do início da colonização de Moçâmedes, Menez no desejo de chamar a atençào dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruído as benéficas disposições que podiam tornar florescentes as Províncias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência. O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezasseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quase extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.




NO TEMPO DO CAPARANDANDA...



NO TEMPO DO CAPARANDANDA...


Crescemos todos a ouvir a expressão :"Isso é do tempo do Caparandanda!!" para explicar algo acontecido em tempos remotos...

Uma crónica, com pouco mais de 100 anos, sobre o temível Kaparandanda, filho de soba e bandoleiro... que existiu nos finais do séc XIX vem desvendar o significado do nome.

Na página acima, sem qualquer referância quanto a fontes,  podemos ver o grande chefe CAPARANDANDA preparando mais um assalto. Filho do soba Calumbe, CAPARANDANDA era possuidor de um fisico robusto e de um arrebatado génio,  chefe de um bando de salteadores que levavam a vida a assaltar e a roubar comitivas na sua passagem pela região do Quissange, tendo por fito principal o assalto aos lotes de aguardente. De nada serviam as queixas dos gentio ao soba pai, nem as admoestrações deste. Insubordinado e desobediente não escutava o proprio pai, a autoridade da região, soba bom e estimado pelo seu povo, chegando mesmo a ameaça-lo de morte. Calumbe teria solicitado a prisão do filho e ajudado as autoridades da época na sua captura e detenção,  facto que envolveu aparato militar e civil e que ficou conhecido como  "guerra do Caparandanda", em que o salteador foi aprisionado e deportado para fora da provincia.

Há referência a Caparandanda no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa 30, 31 se 1912.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Namibe, Mossamedes, Moçâmedes, Angola: Videos históricos. TV Ciencia online

Para ver a coleccao completa, clicar AQUI

Cuadi
1950
Há mais de quatrocentos e setenta anos Diogo Cão e os companheiros chegaram ao litoral desértico ao sudoeste de Angola junto de um pequeno cabo de rocha escura a que deram nome de Cabo Negro ...


Bosquímanos - Cazamas

Nas chamadas terras do fim do mundo situadas nas longínquas regiões do Cuango, entre meadas de planícies e de florestas raras, habita um povo que habitualmente leva vida nómada como os Cassequeles ...


Bosquímanos – Aspectos Antropológicos

Trabalhos de recolha de elementos antropológicos dos Bosquímanos pela missão de investigadores em Angola


Entre os Bosquímanos de Angola
1952
Os Bosquímanos são dotados de características somáticas, linguísticas e étnicas. Nómadas por excelência, apenas se demorando em certa região, enquanto houver frutos e mel para colher e animais para caçar ...


Actividades da Missão Antropobiológica de Angola

Missões Antropobiológicas de Angola em trabalhos de recolha de dados junto da população - Medições antropométricas e fisiológicas, os processos e o dia a dia dos elementos sa missão.


Para ver a coleccao completa, clicar AQUI








ODISSEIA DUMA GENTE – 1884 - A Primeira Colónia de Madeirenses destinada ao povoamento do planalto Huilano: 1ª Parte


carro boer 1

Carro bóer – Réplica à escala 1 – 5 m. Construído por Jorge Rodrigues

1884 – ODISSEIA DUMA GENTE

PRIMEIRA PARTE

Duma Ilha para um continente
A 19 de Novembro de 1884, o vapor “Índia” acosta na baía de Moçamedes. A bordo uma carga humana de 222 almas constituída por homens, mulheres, adolescentes e crianças. Esta carga humana, ao aportar, havia já passado pelos sacramentos do baptismo e do crisma com o nome de “Primeira Colónia de Madeirenses” destinada ao povoamento do planalto Huilano.

Registe-se que seis meses antes, este “Índia”, nesta mesma baía, “descarregou” 44 emigrantes entre estes 16 oriundos da Madeira. Esta gente foi despachada a pé para a Humpata, 1800m de altitude, 180km de Moçâmedes. A caminhada foi calcorreada pela íngreme portela do Bruco, via “Colónia Penal do Txivinguiro”. Por via do choque térmico – calor de Serra – Abaixo contra a exposição às chuvas e frias noites do planalto - muitas pessoas adoeceram. O envio destes colonos para a Humpata constituiu, por intenções óbvias, o embrião do estabelecimento de portugueses para ombrear com a irrequieta e problemática comunidade bóer ali instalada em Janeiro de 1881. Recorde-se que no local onde foram fixados estes recém-chegados, existiam alguns casebres degradados obra de sete homens e uma mulher, parcela proveniente da fracassada e dissolvida colónia “Júlio Vilhena”, de Pungo-Andongo/Malange, composta por 41 salteadores e vadios requisitados às cadeias de Lisboa. Esta fracção, expirado o período das regalias de subsídio a juntar a ocorrência dum homicídio por esfaqueamento, abandonou a Humpata deixando as terras como no dia em que ali chegou – Março de 1883.

Tem assim início a realização do sonho de Bernardo de Sá Nogueira Figueiredo, partidário do funesto liberalismo do inconstante D. Pedro IV, (primeiro imperador do Brasil!). Foi este general sem um braço, perdido em combate no Alto da Bandeira contra o exército Miguelista que, feito Marquês de Sá da Bandeira e depois Ministro da Marinha e Ultramar, no reinado de D. Maria II, concebeu um plano para o povoamento, por portugueses, do planalto da Huíla.

Os planos de Sá da Bandeira (falecido em 1876) foram humanamente bem intencionados. Mas, passados à prática na vigência do ministro Pinheiro Chagas (crítico de Sá da Bandeira), como se verá neste breve esboço no tratamento dado aos madeirenses, todos os intervenientes nos preparativos de recepção e fixação destes, não deixaram saudades. No dia 20 de Novembro o governador de Moçâmedes, capitão Sebastião Nunes da Mata, nomeia Câmara Leme director desta primeira colónia baptizada de Sá da Bandeira. Este Câmara Leme, também madeirense, já conhecia bem a região inclusive o local para onde seria conduzida esta “Primeira Colónia”.

Debilitados devido ao enjoo, péssima alimentação e deficiente higiene nos 36 dias que durou a viagem, os “passageiros” são levados em pequenos botes para terra (a ponte cais, obra de Câmara Leme, encontrava-se já assoreada). Ali, o que viram e sentiram? No horizonte, o desolador deserto; sob os pés, muitos deles descalços, areia escaldante; sobre a cabeça, um sol impiedoso. Em grande sofrimento, clamavam por água para matar a secura e um tecto que os aliviasse da inclemente insolação. Apelo inútil: a água foi distribuída a conta-gotas, e um tecto simplesmente não havia sido providenciado e nulas as possibilidades de o improvisar.

Esgotada a paciência, na presença do governador, os até aí submissos ludibriados, enfurecidos, em uníssono, exigiam a sua imediata repatriação. O governador apela à calma e paciência enquanto, ao mesmo tempo, astuciosamente, evocava os contratos assinados e os subsídios de 30$000 réis avançados no momento do engajamento na Madeira. Entre os habitantes que indignados assistiam ao triste espectáculo, um deles, pescador de profissão, colocou à disposição um armazém para instalação precária dos recém-chegados.

Aparentemente amainados os ânimos, com crianças e bagagem às costas, foram-se amontoando, qual rebanho de carneiros, no disponibilizado armazém. Ante tamanha adversidade, a confiança e a esperança que os animou ao embarcarem na Madeira foram esmorecendo.

Para aumentar o desânimo daquela pobre gente, por desleixo das “autoridades”, nem os meios de transporte para o Lubango haviam sido garantidos. Só nesse momento foram solicitados (via terrestre) à Bibala, Capangombe, Bumbo e Humpata os carros possíveis. Os solicitados ao Bumbo, por recusa do proprietário, foram tomados à força. Por tal incúria, de uns 10 dias previstos de permanência na inóspita vila de Moçâmedes, prolongou-se – calculo – por entre 20 e 40 dias.

Os efeitos dessa vergonhosa negligência foram deveras nefastos e desesperantes. Enquanto os homens deambulavam pelas tascas a afogarem as suas desilusões em aguardente e a provocar desacatos, as mulheres e crianças, amarguradas, regavam com suas lágrimas as areias escaldantes do deserto; lágrimas de saudade da sua “Miséria na Madeira”, agora tão distante, para onde nem lhes era permitido escreverem: não fossem as desanimadoras notícias desmotivar os conterrâneos das angariações em curso para aquele enganoso “eldorado”…

Do mar para a serra – penosa viagem
Com intervalos consideráveis, conforme as distâncias de origem, os carros (4 rodas puxados por espanas de 20 bois) e carroças (2 rodas puxadas por 10 bois) foram chegando a Moçâmedes. Porque para além do preço da viagem era cobrada certa importância por cada dia de espera, a “Colónia” foi fraccionada em três grupos, com partidas entre princípios e fins de Dezembro.

Primeira etapa – Nas referidas viaturas, com toldos montados, sobre as bagagens foram amontoadas as mulheres e crianças. Os homens e adolescentes, por falta de espaço nos carros e necessidade dos seus braços, marcharam a pé na vanguarda do “comboio”, com a tarefa de suavizar os buracos da “estrada”. Devido ao forte calor e escassez de água o percurso pelo deserto até próximo da Bibala, era feito, salvo imprevistos, em dois “trekes” (jornadas) de 3 horas: a primeira, das 5 às 8; a segunda, das 17 às 20, a uma média de 3km/h. De dia, sob a rala sombra das esparsas espinheiras, as pausas eram aproveitadas para confecção de alimentos e pasto dos bois. A da noite, para “repouso” das pessoas e descanso dos bois a ruminarem o insuficiente e seco capim.

Segunda etapa – Ao 12 º dia, percorridos 170km, o “comboio” chega à Bibala (Vila Arriaga desde 1912), 800m de altitude, na falda da imponente escarpa da cordilheira da Chela. Para a gente e bois, os dias de sufocante calor e carestia de água tinham terminado. Mas faltavam ainda 80km, agora com as condições climáticas invertidas – chuva e frio – para alcançarem a “Terra da Promissão”.

A partir da Bibala o trajecto da íngreme ascensão para contornar a alcantilada escarpa, exigia dos peões tapa-buracos, muitas vezes encharcados, esforços redobrados. Os “trekes”, face aos perigos da precipitosa e esburacada “estrada” e de um possível ataque de leões, passaram a ser percorridos em marcha mais lenta: das 6 às 9 h e das 15 às 18. Os peões e “tripulações” (trios) dos carros rapidamente improvisavam, com estacas e rama, uns cobertos para abrigo e protecção das fogueiras, atiçadas durante a noite.

Galgada a serra – talvez numa semana – a primeira fracção da “Primeira Colónia de Madeirenses”, contornada a portela da Quilemba, avista o planalto huilano: a “Terra da Promissão”. E a 25 de Dezembro de 1884, sexta-feira, de zero para 1750m de altitude, acampa finalmente na margem direita do rio Caculuvar, onde é “despejada”.

Mais desencantos – Barracões

Usei o termo “despejada” por considerar o mais ajustado e consentâneo à realidade episódica por que passou esta primeira colónia. Enquanto estes aguardavam em Moçâmedes pelos meios de transporte, foi confiado a um agricultor da Copola – Serra-Abaixo – admitido como colono, para com o auxílio do chefe da Huíla, capitão Pedro Augusto Chaves, proceder à construção de barracões para acampamento temporário dos colonos. Só que à chegada destes ao local, previamente preferido, encontraram apenas o lugar, o “colono extra” de braços cruzados e alguns machados à espera de homens para os manejar. Do chefe da Huíla, que por obrigação do cargo deveria estar presente, nem sinais. Este encontrava-se – onde por sistema permanecia por longos períodos – na Chibía, a gerir o seu monopólio comercial, os grandes campos de cana-doce e os alambiques a destilarem aguardente; prova de absoluto desrespeito pelos insignificantes colonos chegados à área do concelho à mercê da sua autoridade. Por abrigo para os colonos, à deriva, do rigor da chuva, valeu-lhes a boa-vontade dos donos dos carros, permanecendo ali por alguns dias e a cedência de duas lonas estendidas sobre uma armação de paus com uma elevação em ângulo obtuso.

Um dia após a chegada da colónia, homens e adolescentes, enquanto uns empunhando os machados davam início ao corte de paus na área circundante, outros os transportavam, aos ombros, para o local da construção. Terminada a estrutura do primeiro barracão, por falta do capim – em Janeiro esta poácea está ainda a meio crescimento – preferido para coberturas, este foi coberto provisoriamente com várias camadas de rama até atingir o grau de inclinação necessário para escoamento das chuvas. Nas paredes, de pau-a-pique, para protecção do vento, foi também aplicada uma espessa camada de rama presa por varas transversais atadas com malói.

Concluído o primeiro barracão segue-se a construção de outro, talvez com o reforço do pessoal do segundo grupo (não encontrei registo da data da chegada deste). A 18 de Janeiro de 1885 chega ao local o terceiro grupo, ficando assim para triste alegria de todos, reunificada a “Primeira Colónia de Madeirenses”. A inauguração oficial da colónia Sá da Bandeira teve lugar a 19 de Janeiro de 1885 – Segunda-Feira.

Já que principiei vou concluir a história dos barracões. Depois dos dois atrás descritos, a um ritmo mais lento, foram construídos mais dois. Em meados de Maio a espécie de capim “Muhóque”, próprio pela qualidade e tradição para coberturas, está pronto para corte. Porque os bois mesmo em verde mal lhe tocam e resiste às pragas de insectos e lagartas, a sua vegetação espessa, em terrenos abertos, abunda em todo o centro e sul de Angola. Assim, foi fácil a ceifa da quantidade necessária para cobrir os quatro barracões e reserva para algum remendo. As coberturas foram trabalhadas por homens proficientes na arte de colmar. Em simultâneo, todas as paredes, de pau-a-pique, foram barreadas. Por estes barracões passaram as sete colónias de madeirenses: as duas de 1885, e as anuais – 1888 a 1892. Em 1890 serviram ainda de abrigo durante a instalação da colónia do Caculuvar – de má memória – a historiar em capítulo próprio.

CARRO BOER

Carro Bóer de passageiros – Humpata  “ A colonização de Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros
 
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Carro Bóer– Mossamedes “ A colonização de Terras Altas da Huila” de Carlos Alberto Medeiros

Cumprida a sua utilidade, os barracões, votados ao abandono, foram-se degradando e as madeiras, ressequidas, acabaram em cinzas nas trempes do povo das redondezas. Anos depois, como sinal de sentido respeito pelo sítio e pela gente que lhe deu vida, foi erigida uma réplica destes, assistida com os indispensáveis cuidados de conservação até a década de quarenta. Este, descurada a manutenção, aos poucos, teve o mesmo fim dos primeiros. Próximo deste foi erigida uma pequena capela a tijolo e telha e em simultâneo murado o cemitério onde repousam os que ali pereceram.

Desde o primeiro ano da chegada dos madeirenses, 115 anos decorreram. A odisseia dessa gente passou à história; mas os símbolos permanecem indeléveis: O 19 de Janeiro consagrado a feriado da cidade do Lubango; o Lugar conserva o nome de Barracões; a Capela mantém-se erecta e de portas abertas; o Cemitério, incólume e silencioso, esconde no seu seio os que ali dormem até à consumação dos séculos. E, em posição de relevo, a assinalar o Sagrado Lugar, o memorável Monumento no qual, na face orientada ao Atlântico, gravada a Saudosa e Justa Homenagem:

NESTE LOCAL INSTALARAM-SE
OS PRIMEIROS COLONOS MADEIRENSES
EM 1885
BARRACÕES 8 A
Lugar dos barracões
Figura2
Lugar dos barracões
BARRACOES 2
Lugar dos barracões
BARRACÕES 10
Lugar dos barracões

Texto de Jorge da Conceição Rodrigues