Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 5 de março de 2011

Annaes do Conselho Ultramarino: baía e Porto de Pinda, Mossâmedes, por Marcelino Antonio Norberto Kudzki, 1855








ANGOLA.

Notícia resumida da bahia e Porto de Pinda, ao sul de Mossâmedes,
por  Marcelino Antonio Norberto Kudzki.


Eram duas horas da tarde, do dia 6 de Dezembro de 1854, quando o brigue de guerra Serra do Pilar, que me conduziu a seu bordo, deu fundo na bahia do porto de Pinda: o brigue-escuna Trindade, que nos seguiu como transporte, ancorou na mesma occasião. A bahia occupa o espaço de nove léguas, sendo fechada do lado do norte, pela ponta do Cabo Negro, e do lado do sul, pelas areias que cercam a pequena enseada, denominada Porto Alexandre. Do mar, o aspecto do território é árido; nem uma árvore, nem um signal de vegetação se offerece á vista, á excepção da cordilheira dos rochedos que do Cabo Negro se estendem para sueste; só as dunas de areia se divisam, e algumas lagoas na foz do rio Coroca, formadas pelas enchentes do mesmo e pelo mar. No centro da bahia um rochedo a prumo eleva-se 100 pés sobre o nivel do mar, e é necessário rodea-lo uma milha pelo lado do sul, para achar desembarque e accesso. Foi na ponta d'este rochedo que se arvorou a bandeira nacional, e assentou o alicerce da nova colónia. O rochedo forma no cimo um taboleiro plano, de uma milha de circumferencia; cobre-lhe a superfície apenas uma camada de areia misturada com seixo, de um palmo de alto, de tão variadas cores, que com o brilho do sol, apresenta o mais bcllo mosaico. Encontram-sc aqui muitas e variadas petrilicações, e pelas duas horas da tarde, nos dias em que a atmosphera está limpa, gosa-se da vista mais agradável, isto é, da perfeita íllusão do phenomeno da miragem; as noites, porém, são insupportaveis, por causa do excessivo frio. Levava comigo um destacamento de 15 praças de pret, 6 libertos, 4 cabindas para serviço da lancha, mantimentos para seis mezes, e algumas pipas com agua; e para construcções 300 tuogas, 3:000 bordões, 36 tábuas, 6:000 pregos, algumas dobradiças c fechaduras, 8 moios de cal, 1 carpinteiro e 1 pedreiro.

Com estes meios comecei por desembarcar tudo para terra, e como as pipas com agua tivessem esvasiado no caminho, foi necessário antes de tudo pesquisar se era possivel encontra-la n'essa paragem. Depois da excursão de algumas milhas, reconheci o leito do rio Coroca, um dos que se infiltram na areia, e só em occasiões de grandes cheias despejam aguas no mar. Foi no leito d'este rio, que encontrei a dois palmos de fundo, agua potável muito boa. Construiram-se provisoriamente abrigos para a gente e para guardar os mantimentos, e logo que esta primeira providencia ficou effectuada, dediquei-me a reconhecer o território em que me achava, e aproveitar os recursos que elle offerecia. Diligenciarei dar alguma idéia desta parte da costa da Africa portugueza.

Todo o territorio em geral e mais de tres léguas das praias do mar para o interior, são areias finas, soltas e movediças, formando dunas, montes, valles de differentes aspectos, e que os violentíssimos ventos do sudoeste continuamente removem, dando-lhes a apparencia de incessante ondulação. Do rochedo onde assentei o acampamento, a vista abrange toda a bahia desde Cabo Negro até Porto Alexandre, e mais de seis léguas para o interior. Caminhando do acampamento em direcção a Cabo Negro, a meia milha de distancia, o terreno declina rapidamente, começam dunas de areia, ora elevando-se em montes muito altos, ora baixando, e deixando ver nas suas faldas, planícies cobertas de capim, caniço e outros vegetaes silvestres. A terra é negra e susceptível de se cultivar, e em lodos os logares destes valles ha agua em pequena profundidade; esta agua, posto que não seja salobra, sem gosto e cheiro desagradável, não tendo meios para a analysar chimicamente não posso affirmar que é mineral, nem que propriedades contém; inclino-me contudo a crer que é sulphurea. É destes logares que temos aproveitado caniço  capim para construcções, servindo-nos a agua para as obras de pedreiro, por ficar mais perto do que a boa agua potável que íamos buscar ao rio. Já disse que do mar nem um arbusto se apresenta á vista; não é porém assim de mais perto; os montes de areia são cercados na base por uns arbustos rasteiros, cujas raizes chegam a ter a grossura da tunga, e enlaçam-se uns com outros, segurando-se apenas com as pontas no terreno, ardem bem e dão fogo forte. Utilisamos-nos d'elles para combustível, pois são em grande abundância. O leito do rio dista do acampamento tres milhas, pouco mais ou menos, tem uma milha de largo, do lado do norte encosta-se aos rochedos que se prolongam do Cabo Negro, ao sul suas margens são altas dunas, e uma lingua de terra vegetal de algumas braças de largo onde fizemos horta mandando vir de Mossamedes sementes de hortaliças, de batata nutriente, cará, bananeiras e mandioca, o que tudo cresceu e produziu em abundância. Na rocha onde acampámos ha muita pedra solta; também ha outra, que deitada na agua por vinte e quatro horas, amassa depois como barro, liga bem com pedras, e faz um muro bastante forte; foi pois d'este material que edifiquei o aquartelamenlo, servindo a cal somente para o reboque interior e exterior das paredes. O junco fino de que aIi ha abundância, prestou-se melhor que o capim, para cobrir os telhados.

Nenhum verme destruidor alli se encontra, e por isso as construcções de madeira são de muita dura. Chove unicamente n'uma epocha do anno (em Janeiro), e isto duas ou tres vezes, caindo agua a cântaros durante algumas horas não interrompidas de cada vez; no interior porém, segundo affirmam os indígenas, as chuvas são bastante abundantes. A bahia é abundantíssima de peixe; em doze ou quinze braças de agua pesca-se pargo, corvina, cherne, cação, e o peixe prego; este ultimo chega a ter seis arrobas de peso; não é bom para comer, mas o fígado de um só dá ordinariamente seis a oito camadas de azeite. A salga do peixe é fácil e sem dispêndio, porque sal encontra-se aqui em abundância.  


 

Os indígenas que habitam n'estas paragens chamam-se corocas; são selvagens, nos quaes ainda não apparece vestígio algum das relações com os Europeos, nem mesmo com os mais povos de Angola; falam um idioma propriamente seu, que os mais indígenas não entendem. Dividem-se em famílias pouco numerosas; os que habitam mais no interior formam tribus pequenas, cada uma das quaes constitue uma só povoação subordinada a um chefe, que é o mais velho da tribu, e a quem os mais chamam papai: este chefe exerce na tribu poderes patriarcaes, e não feudaes como os sobas de Angola. O nome de escravo é entre elles desconhecido, e por isso também não ha exemplo de se guerrearem uns aos outros. São pacíficos, humildes, fieis a toda a prova e tratáveis. Os do interior plantam alguma mandioca e feijão, mas em muito pequena quantidade, e sem melhodo, e fácil é conhecer que o fazem só ha pouco tempo e por imitação, depois que alguns d'elles foram a Mossamedes; pastam grandes manadas de gado vaccum, cujo leite lhes serve de alimento, e é difíicilimo decidi-los a vender alguma cabeça do dito gado, desculpando-se que não é seu, que elles somente são pastores de outro povo que habita no interior a quinze dias de viagem, e sobre as margens de um grande rio, de que este que tem o nome d'elles (o Kroque) é o braço. 1 As famílias d'este mesmo povo que habitam nas praias do mar, vivem em não interrompida ociosidade, nada plantam, não têem habitações de qualidade alguma, abrigam-se em covas abertas no declive de alguma duna de areia, e do lado opposlo ao vento sudoeste que é alli dominante, nutrem-se com raizes e sementes de capim, que pizam entre duas pedras, e aquecem ao fogo com agua era conchas; tambem comem casca de ramos de arbustos, aquecendo-os em brasas; não usam de sal na comida, ao passo que bebem sem repugnância agua salobra das praias. Alguns (poucos) pescam, para o que servem-se de bimba (tres páus unidos de uma qualidade de madeira muito leve); o pescador sentado na tal bimba com as pernas estendidas pelo comprimento dela, tem no collo a linha com o anzol já iscado, e nas mãos uma vara comprida que lhe serve já de maromba para se equilibrar, já de remos para navegar; chegando ao largo atira com a linha ao mar, tendo-a presa á perna, e logo que sente peixe, rema para terra, na praia puxa a linha, accende o lume aquece o peixe e come-o com escama e espinha sem deixar cousa alguma; feito isto vae passear o resto do dia.

1 Muitas informações dos ditos indígenas me confirmam na idea de que o rio grande, cujo braço dizem elles ser o Kroque, não é outro senão o rio Cunene, que o Governador de Mossamedes e mais pessoas com elle exploraram em 1851, e que tem a foz ao sul da grande Bahia dos peixes.
2 Alguns d'estes pretos costumam ir a Mossamedes para apanharem as cabeças de peixe que os pescadores deixam nas praias; ultimamente já se tinham prestado ao serviço dos moradores, a troco de farinha, algum bocado de fazenda e missanga; é alli que arranjam linhas e anzoes para pescarem.

3 Trazem sempre dois bocados de pau; esfregando um ao outro fazem fogo.

Cada homem tem uma mulher com quem vive; não lêem idéa de religião, e não seguem culto algum qualquer que seja; cobrem-se com couros de boi, de raposa ou de antílope, e só depois da minha ida para alli, começaram a usar de alguns pannos de fazenda, que lhes dava em troco dos serviços que com boa vontade prestavam, como carregar caniço, capim, barro e pedra. Ultimamente induzi-os a apanhar a urzella, e mandei a Loanda 12 arrobas como amostra, que foi alli reconhecida de superior qualidade. Esta gente não conhece o uso da pólvora nem armas de fogo; trazem flechas e zagaias para caçarem raposas, antílopes ou aves; só alguns d'elles que já têem estado em Mossamedes, conhecem a aguardente; os mais não lhe sabem o gosto nem o resultado, e quando provavam alguma, que eu lhes dava, mostravam visível repugnância a esta bebida, sendo que as mulheres nunca ousaram toca-la com os beiços. Respeitei n'elles esta inclinação á temperança, e guardei de lhes insinuar um vicio que por agora não tinham. A tres dias de marcha subindo o rio Coroca ha uma povoação numerosa destes indígenas, cujo chefe se chama Kuriquila. É n'um terreno plano nas faldas dos rochedos, próximo de uma lagoa que alli se forma pelas enchentes do rio, e depois cristallisa-se em sal; este sal é bellíssimo. lia pouco tempo o negociante de Mossamedes Paiva estabeleceu relações com este chefe, e por intervenção d'elle tem mandado fazendas para os IIinibas 1 que as trocam por marfim. Uma milha acima d'essa povoação já o rio Coroca corre, e tem uma braça de fundo, por seis de largo.

O clima d'este paiz é talvez o mais sadio da Africa Occidental. Durante onze mezes que alli estive, apesar de que nos primeiros seis soffremos muitos incommodos, como falta de habitações convenientes, e trabalhos com estas, que se estavam fazendo, e frio excessivo, nenhum de nós soffreu enfermidade alguma. O paiz abunda em aves aquáticas, patos de varias qualidades, garças, pelicanos, cegonhas, abutres, etc. Na enseada Porto Alexandre costumam entrar toninhas em tanta quantidade, que muitas vezes atiram consigo á areia onde ficam encalhadas e são devoradas pelas aves. Nunca ouvi dizer que alli próximo houvesse leão, tigre ou 1 Afirmam os Corocas que no território dos Himbas, ha minas de cobre... O Capitão Liger, da baleeira franceza Phoque, que fundeou alli em S de Maio de 1855 vindo do Cabo da Boa Esperança, mostrou-me um mineral de cobre vermelho, dizendo-me que os Missionários hollandezes da bahia Yelvitz-bay o iam buscar ás terras dos Himbas, povo que habita as margens de um grande rio, etc., etc. qualquer outro animal feroz; o que se encontra a algumas léguas de distancia são os elephantes; da povoação acima do Kuriquila veem-se em todas as partes pegadas e estrume d'elles, e mesmo muitas vezes se encontram os próprios animaes pastando ou procurando agua no rio. Á excepção do gado vaccum, em parte alguma se encontram vestígios de animaes ou aves domesticas; os Corocas nada d'isso conhecem, a não serem alguns que já tenham ido a Mossamedes.  Resta-me dizer que no Cabo Negro ainda existe o padrão que alli foi collocado por Diogo Cam; fui vè-lo e mandei a descripção d'elle ao Governador Geral da Província, que a mandou reproduzir no Boletim Official n.° 629 de 17 de Outubro de 1857.

Quando em Agosto de 1855 o Governador Geral da Província se dignou dar por acabada a minha commissão, deixei alli prompto o quartel militar com muitas e boas acommodações, horta plantada de batata, cará, mandioca, bananeiras, c muitas hortaliças, e os indígenas dos contornos, nas melhores disposições de se relacionarem comnosco. As expedições de maior importância tém desviado o Governo de ocupar-se d'este novo estabelecimento; mas talvez venha um dia, em que a salubridade do clima convide a irem para alli algumas pessoas, a quem bastará a pesca para não perderem o seu tempo, até que relações mais intimas com os povos do interior proporcionem mais avultadas vantagens. Sobre o padrão a que a precedente noticia se refere, lé-se no Boletim Official do Governo de Angola, de 17 de Outubro de 1857, o seguinte:

«Em 1485, reinando D. João II em Portugal, Diogo Cam, cavalleiro da Casa d'EI-Rei, descobriu o rio Zaire, e levantou na foz delle, do lado do sul um padrão, que denominou de S. Jorge. Foi d aqui que veio o nome de Ponta do Padrão áquella localidade, que ainda o conserva. A vandalica façanha da destruição do dito padrão foi praticada pelos hollandezes, durante a sua ephemera usurpação d'estas conquistas de 1641 a 1648.

«No seguinte anno de 1486, voltou de Portugal Diogo Cam, e proseguindo na sua navegação para o sul, descobriu toda a costa até Cabo Negro, plantando dois novos padrões, um n'aquelle cabo, e outro mais ao norte, fronteiro ao Ilheo de Pina, na bahia de Santa Maria, ao sul de Benguella.
«Eram estes monumentos, como os descreve João de Barros: «Padrões de pedra de altura de dois estados d'homem, com o escudo das Armas Reaes deste Reino, e nas costas delle um letreiro em Latim, e outro em Portuguez, os quaes diziam, que Rey mandara descubrir aquella terra, e em que tempo, e por que capitão fôra aquelle padrão alli posto, e em cima no topo uma cruz de pedra embutida com chumbo. «O padrão de Cabo Negro ainda lá existe. Pela seguinte descripção que d'elle deu o Tenente Coronel graduado d'esla Província, Marcellino Antonio Norberto Rudzki, quando esteve commandando o presidio próximo de Porto de Pinda, em 1855, se verá quanto concorda com a de João de Barros, acima citada, salvas as differenças que devem de ser attribuidas á acção do tempo, em perto de tres séculos.

«Quando cheguei a esta terra fiquei logo desejoso de ver o padrão de Cabo-Negro, collocado alli por Bartholomeu Dias, em tempos mais ditosos. Os muitos objectos a meu cargo não me permittiram faze-lo até agora, porém em 27 do mez próximo lindo alli fui. Saí do presidio ás seis horas da manhã, e apesar de ir montado em boi-cavallo de boa marcha, andando sempre a passo largo, cheguei ao cabo ás nove horas e meia, o que me faz crer que a distancia é de tres léguas para mais. «O Cabo-Ncgro é a ponta mais saida ao mar, da cordilheira de rochedos que corre do nordeste ao sudoeste, descrevendo um arco, junto do qual, pelo lado do sul, passa o rio Kroque. Estes rochedos foram, na sua origem, elevadas dunas de areia, as quaes, por ajuntamento de outras matérias, se petrificaram, organisando-se em diversas camadas de massa compacta e dura, e de seixos mui variados em cor, tamanho e configuração, e também em penedos de pedra esponjosa e frágil. Estes últimos, amontoados uns sobre os outros em caprichosa desordem, e cobertos com uma casca escura e áspera, saem ao mar em fórma de lingueta com tres a quatro braças apenas de largura, constituindo o Cabo-Negro. No cimo o chão é de areia, com pedras soltas, e na extremidade sobre o mar, aonde forma um pequeno taboleiro plano, é aonde está collocado o padrão da antiga gloria nacional dos portuguezes.

«Se bem me recordo da historia, os padrões1 Da aqui equivoco, o padrão de Cabo Negro, e os dois do Zaire e da bahia dc Sanla Maria, foram postos por Diogo Cam, como jà o dissemos; Bartholomeu Dias, que continuou as explorações de Diogo Cam, até descobrir o Cabo da Boa Esperança em 1487, collocou o padrão do Santiago na Angra dos llhéos, áquem do dito cabo, aondo parece que ainda existe que Barlholomeu Dias plantou eram de ferro ': n'este caso, o que aqui se acha não é já primitivo. Este é de mármore branco venoso, c levanta do chão, sem pedestal, entre algumas pedras soltas: tem a fórma cylindrica, com cinco pés de altura fóra da terra, e trinta c duas pollegadas de circumferencia. Este pilar termina reclangularmente no topo, tendo dezoito pollegadas em cada lado da face, e oito de espessura, no parallelipipedo de que se trata. Tudo é de uma só peça inteiriça. Conhece-se que teve inscripções gravadas, mas estão de tal modo deterioradas, que se não pódem distinguir as letras. Do centro da pedra superior ergue-se uma cruz de quarenta pollegadas dc alto, havendo vinte e oito pollegadas dope da cruz aos braços, e doze por cima. Cada braço leni tambem este ultimo comprimento. A cruz é de barra de ferro, obra bastante tosca, sendo unidas as suas duas partes por um prego rebatido. Uma placa redonda de cobre forma resplendor no cruzamento dos braços. A barra tem duas pollegadas de largura, e unia de grossura, achando-se já mui carcomida da ferrugem. No braço horisontal da cruz, olhando para o mar, está o seguinte letreiro, em letras recortadas em cobre e soldadas á harra de ferro,=MERCURE— 27 J.er 18í8=» a
«Tenho a honra de apresentar a V. Ex." o desenho d'este monumento, como elle agora se mostra aos olhos do viajante; do que teria acanhamento se não estivesse certo que V. Ex. o receberá com indulgência, considerando a minha inhabilidade n'esta sorte de trabalho.»
Porto-Pinda, 18 de Março de 1855.=.V. A. JV, Rudzki, Major Commandante.



sábado, 22 de janeiro de 2011

MANDUME NDEMUFAYO - SÉCULO XX



 

Mandume (1914)

Mandume,  hoje é considero um herói  nacional angolano, um símbolo não apenas de resistência e de ódio aos portugueses. Mas será que este homem que se revelou um tirano e um  sanguinário para o seu próprio povo merece essa honra? Será que Angola seria o imenso território que hoje é se fosse seguida a  vontade de Mandume? 


Segue um texto que nos pode trazer alguma luz sobre este assunto:




MANDUME


Reinou de 1911 a 1917. Assume o trono aos 20 anos. Num ponto o Povo Cuanhama é unânime em relação ao porte de Mandume como homem. Extremamente cruel. Como chefe supremo da Nação Ovambo, muito inteligente, hábil político, déspota e corajoso. Mas antes de iniciarmos os relatos pessoais de meus informadores sobre esta impressionante figura de guerreiro, convém trocar algumas ideias obre as atitudes de Mandume e chegarmos ao ponto final da sua carreira, como rei e homem, que cumulou com a morte.

Assinatura do soba Mandume
Abstraindo das atitudes bárbaras que o caracterizavam, tolerava as Missões protestantes alemãs que o instruíram na língua, na escrita e na religião. Dizia ele «que todos os brancos que não fossem padres e estivessem dentro do seu território deviam ser mortos». E a comprová-lo mandou matar um português, a mulher e amigos que o acompanhavam. Em comparações que fazia entre as Missões católícas e protestantes, nas quais fora educado, apontava como justificação que aquelas «só se dedicavam à catequese e se «metiam em negócios de gado», enquanto que os luteranos primavam por elevar o nível social e intelectual das massas».
O fim trágico que o envolveu corresponde exactamente ao tipo de homem que encarnava. Valente, ousado, arrogante e aventureiro. Abandonando N'Giva, sede do Reino, depois da última batalha da Môngua, em Agosto de 1915, instado pelos Ingleses, foge para o lhole na fronteira com o Sudoeste. Mandume presta vassalagem a Sua Majestade Britânica. Constrói a nova 'Embala' em lhole, ainda pertencente ao domínio inglês, já que só posteriormente Namakunde passava a integrar o território português. Impaciente, de espírito ardente e guerreiro, desenvolve surpreendente actividade nos domínios já abrangidos pelos Portugueses, incitando seus súbditos à revolta contra os Brancos, intimando-os a passarem ao Sudoeste com suas manadas. Eufórico, vai além dos limites da prudência e exerce uma acção de combate em território inglês. No ano seguinte, dirige investidas ao Cuanhama, tentando reconquistar o reino perdido. E as autoridades portuguesas de Namakunde pedem aos Ingleses que terminem com as actividades de Mandume. A 30 de Outubro de 1916, aniquila uma força portuguesa comandada pelo tenente Raul de Andrade, habilmente atraída a uma cilada. Recusa-se a ir a Windhoeck conferenciar com os Ingleses a quem teria dito «que viessem ao lhole se quisessem», e preparando-se para recebê-los sabendo de antemão que apressava o seu fim: «se os Ingleses me querem, podem vir apanhar-me. Não dispararei o primeiro tiro, mas não sou um touro do mato. Sou um homem, não uma mulher, combaterei até ao último cartucho».


Túmulo do soba Mandume

Trava-se violenta batalha entre Namakunde e lhole, mas os Ingleses contornam a operação. Karora, o súbdito fiel, vigiava o Norte.

Uma força portuguesa entrou em acção. Já em Ondongua os Ingleses lutaram com pequenas forças de Mandume. E o último Soba Cuanhama, rodeado de aproximadamente seiscentos homens da sua guarda pessoal, enfrenta também o último combate.
 
Afirmam os ingleses que o «Rei» foi identificado com quatro balas de metralhadora. Os Cuanhamas têm outra versão mais digna e real, e dela não se afastam. Acuado, já ferido, Mandume é retirado pelos seus fiéis súbditos, os Lengas, bem assim como pelos filhos do seu primo Weyulu, para debaixo da árvore imensa, o imbondeiro, onde finalmente praticou o suicídio com a sua bela arma Mauser, depois de liquidar três companheiros de luta. Assim contam o episódio: Mandume reuniu-se com os filhos de Weyulu, a quem perguntou «se preferiam ser lacaios dos Portugueses ou morrer com ele», ao que optaram pela morte. O padre Keiling tem uma narração mais precisa do grande acontecimento:
E virando-se para os sobrinhos (primos) os filhos do falecido Soba Weyulu, lhes perguntou se queriam ser muleques de brancos. Como eles dissessem que antes queriam morrer, o Soba, levando a espingarda à cara, prostrou-os com dois tiros, e virando em seguida a arma contra si mesmo, fez saltar os miolos. 


Placa no Forte Roçadas.


Este acto vem confirmar a atitude assumida antes por Mandume junto à Missão católica no Cuanhama, e aos compromissos que o seu antecessor. Nande, havia mantido com o governo português. Às insinuações da Missão, teria respondido: «se o governo português quiser vir ocupar a minha terra, resistirei enquanto tiver um cartucho e um soldado capaz de atirar, e se for vencido suicidar-me-ei (...). Não há razão para pô-lo em dúvida. Os Portugueses, entretanto, descrêem do facto, numa atitude injustificada, já que o corpo foi encontrado decapitado. A relutância pelo episódio histórico que comporta, deve ter sua origem num sentimento de culpa muito comum a portugueses; o despojo do seu inimigo que na época lhes era odioso tornou-se peça de valor quando deveria ter ficado dentro de suas fronteiras. Nesse mesmo espírito, muitos crêem não serem os restos de Mandume que repousam no túmulo. Tal crença surpreende os Cuanhamas, ligados implicitamente por questão de honra ao último Soba. Queixam-se alguns da indiferença das autoridades em não transformar aquele reduto fúnebre e histórico num lugar condigno ao homem que foi senhor de um grande reino e que ombreou em valentia com um grande general português. O túmulo está esquecido e mal tratado. Relembramos, mais uma vez, o padre Keiling, que contactou assiduamente com Mandume em nome do Governo. Em entrevista com o Rei, na 'Ombala', transmite-lhe o pedido das autoridades:
a) A instalação da Missão católica que tinha sido destruída em 1912; 
b) Conversações com as autoridades; 
 c) Entrega dos prisioneiros europeus.

 
Pela libertação dos soldados portugueses o padre Keiling oferece duas caixas de champanhe para cada homem. Esta era a bebida mais apreciada pelo Soba, que responde: «para resgate de prisioneiros negros, pode oferecer champanhe ou conhaque que não direi que não, mas para resgatar soldados portugueses só com espingardas finas e cartuchame». À primeira proposta teria respondido: «a tua Missão trazia-me a ocupação portuguesa e essa não quero. Tens uma Missão no Evale. Não precisas mais».


Sekulo Hinaune e duas das suas esposas no Olupale.



Apesar de o Povo Cuanhama aceitar, conformado, a soberania portuguesa, com um passado de incessantes crises, lutas, mortes e arbitrariedades, desde os Sobas anteriores, para cumular com o despótico Mandume, sentem que ele foi temido por estrangeiros e que merecia, depois de morto, outro tratamento para que ficasse gravado o seu nome nas futuras gerações, como Rei e guerreiro. Isto faz lembrar as palavras do General Pereira D'Eça ao julgá-lo como militar e homem, no Relatório de Campanha sobre a batalha de Môngua:

«Atacar três dias consecutivos um destacamento constituído por duas baterias de artilharia de campanha, quatro baterias de metralhadoras, estando estas formadas em Quadrado, e aproximando-se delas com muita insistência, que no último combate que durou dez horas, a uma distância que chegou a ser de cinquenta metros, revela uma moral e uma instrução de tiro e aproveitamento de abrigos que faria honra às melhores tropas brancas.»
 
Mas vejamos a opinião dos informadores sobre Mandume. Muakina, o velho «Lenga» de Nande, Chico Ipúlua e Tamira, este ainda criança em 1917, ouviam de seus pais e de toda a comunidade esta afirmação: «Mandume suicidara-se com a sua bela arma «Mauser», e Muakina explica: «Quando passamos pelo túmulo somos obrigados a descobrir-nos. Mandume foi o nosso Rei e o último que servimos.»

Mulher com traje tradicional e o marido.

Mutamu, como sempre o mais objectivo, esclarece: «Todos os Sobas eram maus e cometiam barbaridades, mas Mandume era um monstro. Ficámos satisfeitos em passar às mãos dos Portugueses.» 

Em outra ocasião, confidenciava-me:


«Eu e um companheiro de nome Kisi andávamos namorando uma moça que parecia ter agradado a Mandume sem que o soubéssemos. Ele mandou chamar Kisi, fê-lo ajoelhar à sua frente e bateu-lhe com uma moca nos órgãos sexuais até morrer. Eu fui amarrado e torturado. Entortaram-me os pés com ferros e partiram-me os pulsos.»

Tive ocasião de constatar a veracidade desta afirmação. Mutamu possuía pés e mãos completamente deformados, virados para um lado, com os ossos salientes próprios de fractura antiga, consolidada. «A mando de Mandume, foram também mortos dois de seus tios, Hinadelua ya Mulundu, Vajeka ya Mulundu, além de uma irmã muito querida, que morreu às mãos do próprio Marodume.»




Nduliana com roupa típica (lukula).



No entanto, Mutamu e Silasa declaram não ser verdade que o Soba mandasse abrir a barriga a mulheres grávidas. Não posso, entretanto, resistir à tentação de transcrever um pensamento, espontâneo, de Mutamu, em sua língua, vertendo-o depois, em tradução livre, para o português:

«Kenañalelo diua osese ohamba yeto ndele. Oh! mokutekula ovanu kemua nande. Okuananapo unene ovanu oinima io ngaho. Kesemuno otadengua. Nau inaningasa name oiodengange gaha kemadingaba. Atuse nase iokaana oko o Siueda. Oh! hanga otemo ndipá okuakufuapo ku Amukoto Uakapa inodenga okaana ehalelo dilua inafadikuau o Weyulu no Nande aié ovatalapa kavena mbudo ovo. Mandume okuetumanapo unene.»


Tradução livre


«As ordens não eram boas, mas recebiam-nas por virem do Soba. Oh! Não tratava bem as pessoas. Matou muita gente e sem culpa. Batia em toda a gente, mesmo os que não têm culpa, como eu. Mandou entortar-me os pés. Castigou a mim e ao Siueda. Oh! Queria matá-lo, mas foi salvo por Amukoto Uakapa, que disse: «Não mata esse homem que foi muito tempo criado de Weyulu e Nande.» Matou muita gente, não era bom, não dava ordens boas como as dos outros Sobas, Weyulu e Nande. Estes eram bons, não faziam mal a ninguém. Mandume acabou com a vida de muita gente.»

Passemos agora aos outros informadores: o velho Siueda foi pastor de cabras de Nande e Mandume. Conta que foi salvo por Amukoto e Uakapa, 'Lenga' de Mandume. Esta é a história que Mutamu contou e dada antes em tradução livre. Siueda explica assim o desenrolar da tragédia. Desejava ir trabalhar no Sudoeste, e Mandume, ao sabê-lo, mandara-o matar. Já vimos como foi salvo por Amukoto. E esclarece: «Mandume só era bom para os 'Lengas'. Mandava matar as pessoas na «chana» do Nakupira, que por isso se transformava em motivo de poemas tenebrosos de todos conhecidos. Matou por suas próprias mãos a irmã de Matamu e mandou abandoná-la às feras, na Nakupira.


Naulé com 120 anos em 1961 e ainda viva em 1974.



Nandyala, minha velha informadora, tem uma interessante história vivida com Mandume. Mandume vira-a dançar ao som da 'Omakola' único instrumento usado pelo Cuanhama, e que é tocado pelo 'kimbanda' somente em cerimónias de práticas religiosas. Mostrando-se grato pela dança a ele dedicada, ordena que se mate imediatamente um boi e se prepare a pele para presentear naquele mesmo momento a Nandyala. Só a secagem e o amaciamento da pele levavam geralmente cinco dias a realizar. Após esta fase, é o couro cortado em tiras, que, costuradas, formam a típica vestimenta da mulher. Uma multidão de servos extenuados atirou-se à tarefa, sob pena de serem espancados até à morte. Nandyala afirma que o seriam.


Mas a roupa foi feita e vestiu-a na presença de Mandume.


Mas vejamos agora a opinião de Ondyebo, outro irmão de Mutamu, com 102 anos, ao ser inquirido pelo chefe de Mukunda, Tamira.


Tamira - É verdade que Mandume mandava matar as mulheres e as vacas?

Ondyebo - É verdade. Ele fez um reinado muito feio. Eu cultivava meu arimbo (quinta) com muito massango e massambala (sorgo). Mandume mandava tirar toda a sementeira que semeei com tanto esforço. Se estivesse bem disposto, mandava dar uma cria em troca do arimbo. Mas o meu 'arimbo' valia mais de três bois.

T. - Como é que você viveu com Mandume? Dizem que mandava matar os feiticeiros para o lado de Nakupira...


O. - Na 'chana' de Nakupira matou mais de uma pessoa. A minha irmã Limbuese, filha de Inhepo, que era rapariga nova e ainda usava «ondyeva»...


T. - Sua irmã foi enterrada?


O. - Todos que ele matava foram deixados na chana para serem comidos pelos pássaros e outros bichos. Minha irmã não foi enterrada, pois todos aqueles que Mandume matava não podiam ser enterrados. Depois de morta, tive que levar um boi ao Soba. Se o não fizesse, seria morto. O boi é para pagamento por nos ter morto um parente. Eu fico a chorar a irmã e ainda fico sem boi...

T. - Ouvi falar que Mandume mandara uma vez um homem subir uma árvore, uma palmeira altíssima, e atirara nele como pontaria. É verdade?


O.- Sim. Atirava na pessoa e nas conchinhas de Ombaba que lá mandava pôr. Chamava-se Ankongo, filho do homem Siendya. Foi pendurado lá em cima e depois Mandume fez pontaria.


T. - Diziam que Mandume mandara escalpelar um branco...


O.-  Ouvi dizer. Um operador chamado Hengualate que operou um branco. Besuntou-lhe a cabeça com «lukula» e amaciou o couro cabeludo. Pôs manteiga.


Na opinião de Tamira, o fim do reinado do Soba e a sua passagem para o domínio português representou um bem para o Povo Cuanhama. Era o termo de uma vida intensa de lutas e desespero. Da humilhação do homem e do sacrifício dos seus ideais. Nos Portugueses viam eles a salvação de suas próprias vidas e daqueles que amavam. Nem sequer lhes interessava saber se continuariam ou não detentores de seus territórios. O importante era mudar, e só os Brancos ofereciam essa alternativa.


EMBO


E Tamira cita: «Um 'Lenga' de Mandume tinha dois cavalos, chamados Simeda e Amunio. Por ordem dele, sai com os animais e vai estragar (pisar) as lavras dos súbditos e matar aqueles que lhe desagradavam. Makiri, o 'Lenga', entrou nas terras da mãe de Tchietekela, Soba do Cuamato, e danificou-lhe toda a lavra. Os Cuamatos fugiam, espavoridos, sem reagir, por se tratar do poderoso Mandume, a quem ninguém se podia opor. Contudo, se se perguntar a um velho Cuanhama a opinião sobre a sua figura, reconhecem-no como um «grande soberano».

Como é lógico, a única opinião divergente deveria ser a de seu descendente Paulus Nande, filho do Soba anterior a Mandume. Dizia-me Nande que Mandume desejava continuar a lutar nas 'cacimbas' de Môngua. Os brancos do Evale juntaram-se aos de Roçadas e só assim puderam vencer. Só com a ajuda dos Ingleses derrotaram o indomável guerreiro. Suicidou-se com uma bala da sua bela «Mauser». Tinha quatro mulheres, mas não deixou filhos nem sobrinhos. Afirma Mande que ele não era tão mau quanto a história o retrata. Foi acusado de muitas mortes que não cometera. Os próprios 'Lengas', com o poder autoritário que disfrutavam, cometiam os crimes em nome de Mandume.

Nande afirma ainda que Mandume era um homem justo e só matava quando muito zangado. Isto não releva, é cairo, os crimes confessos, tanto mais que Mandume vivia eternamente zangado contra tudo e todos.

Termino esta parte da personalidade de Mandume com a opinião de Nande, o actual representante legítimo de um reinado extinto, num passado ainda recente, herdeiro desse sumptuoso Ovambo e de uma raça reconhecidamente superior em relação às outras tribos do mesmo bloco.

Hoje, os Cuanhamas «queremos» viver em paz, não desejamos a guerra. Como autoridade superior gentílica, como Regedor, abaixo da autoridade portuguesa, se encontrar algum Cuanhama nestas «guerras modernas», amarro-o e entrego-o às autoridades.» (1).



(1) Gravação em fita magnética da primeira entrevista com Paulus Nande, actuando como intérprete Tito Lívio da Costa Alemão. Nande também falava português.

Nação Ovambo, M. Helena Figueiredo Lima, Universidade Nova, Editora Aster.

Nota: as fotografias foram copiadas do livro acima referido.

Fonte: Mémorias de Angola ( http://pissarro.home.sapo.pt/ )



OLHARES DISTANCIADOS: O SANGUE KWANYAMA EM TRÊS VERSÕES COLONIAIs



http://www.mazungue.com/angola/index.php?page=Thread&threadID=1386&pageNo=1

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Os tenentes Francisco Aragão, Raul d'Andrade e António Rodrigues Marques e os alemães da Damaralândia

Carregar na imagem para ver em tamanho 825 x 1247.
"O Tenente Aragão

Causou alvoroço de uma ressurreição a noticia oficial de que o tenente Francisco de Aragão, o valente comandante dos dragões de Mossamedes, que fôra dado como morto em combate, se encontrava prisioneiro dos alemães na Damaralandia com mais dois oficiaes: os tenentes Raul d'Andrade e Antonio Rodrigues Marques."

sábado, 25 de dezembro de 2010

As Festas de Nossa Senhora da Conceição do Quipola em Mossâmedes, Moçâmedes (actual Namibe): até aos anos 40/50





Esta é a foto mais antiga que consegui da Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, em Moçãmedes, e das festividades ali realizadas anualmente, no dia 08 de Dezembro. Repare-se no aspecto engalanado do local, nas charretes encostadas à parede lateral da capela, e no recinto à direita (mancha escura em forma de quadrado), espécie de estrado coberto a folhas de bananeiras, onde decorria após a missa e a procissão, o bailarico.   

Quanto à data exacta em que foi construída esta Capela, encontrámos o seguinte texto que sugere que a mesma já existia em 1884.

"...Em 3 de Outubro de 1884, efectuaram-se novas provas de exame em Moçâmedes.
"... Além das provas de ensino primário elementar, havia uma aluna que fazia exame de Francês, e era exactamente a filha do governador Sebastião Nunes da Mata, de nome Beatriz da Conceição da Mata.
"... O prémio referido, de noventa mil reis, foi dividido em quatro fracções, cada uma delas atribuída a um aluno.
"...A filha do governador foi também premiada. O coronel Sebastião Nunes da Mata levantou-se e pediu licença ao júri e à Câmara Municipal para oferecer a importância do prémio concedido à sua filha à capela de Nossa Senhora da Conceição, da Quipola. Declarava que esta atitude não diminuía o seu reconhecimento às pessoas relacionadas com esse prémio, nem a satisfação que tivera por a sua filha ter sido distinguida, assim como não significava desacordo com qualquer das decisões tomadas. Fonte deste texto
 


Ainda nos finais dos anos 40, início dos anos 50, mantinha-se viva a tradição da romagem à capela da Nossa Senhora da Conceição do Quipola, romagem essa que reunia grande número de  crentes e de não crentes, sendo para tal posto à disposição da população um comboio que assegurava as idas e vindas, sobretudo nesses tempos mais trás, quando não havia automóvel.




  A chegada de peregrinos transportados no ronceiro "Camacouve"....

 
  Peregrinos caminhando em direcção à Capela...

 

Peregrinos e visitantes, passando por entre os mastros embandeirados erguidos no local



Era  gratuitamente, que o Caminho de Ferro de Moçâmedes transportava os peregrinos, ajudando a impulsionar a festa. Ao comboio, chamavam-lhe o «Camacouve» devido à morosidade dos percursos, e à pouca velocidade com que caminhava. Imagine-se, demorava o dia inteiro para completar os cerca 240 Km que separavam Moçâmedes de Sá da Bandeira. Ultrapassado sim, mas estimado, pois  era através dele que a população ia tendo acesso a percursos mais longos, e a este topo de festividades, em que à boa maneira portuguesa "sagrado" e "profano" se misturam. Ou seja, a peregrinação incluía uma «missa campal» seguida de procissão, os fiéis recebiam a comunhão, cantavam "ossanas", rezavam o terço, e culminava num arraial em recinto de terra batida,  enfeitado com mastros, bandeiras, dísticos, folhas de palmeiras, onde se erguiam pavilhões, barracas (alvo jogos de argolas e cavalinhos), tômbolas, etc, etc, que vendiam de tudo: estatuetas, rifas, objectos variados, gulodices,  comidas, bebidas, tabaco, cigarros, etc. etc. E assim as gentes de Moçâmedes iam quebrando a rotina do quotidiano.



 

Esta foto mostra-nos o muito estimado e popular padre Guilhermino Galhano, no fim da missa campal, a organizar os peregrinos para a incorporação na tradicional procissão. O Padre Galhano era um padre moderno que foi "carola" do Ginásio Clube da Torre do Tombo e do futebol, modalidade que ele próprio praticou, descontraidamente, lado a lado com os jovens daquele clube pioneiro. Sabia chamar a si os jovens e as crianças da terra, e não se inibia em jogar futebol com elas, aos domingos, após a missa e a catequese, vestido de batina branca e  meias pretas, com suas longas barbas negras o distinguia dos demais. Os jogos decorriam no descampado que ficava entre a Igreja Paroquial de Santo Adrião e o Palácio do Governador.


   O momento solene da missa campal



O momento da  procissão. Procissão e festividades sempre tinham a participação tanto de europeus como de africanos (kimbares)


O ponto culminante da festa era o baile, que decorria sobre um estrado de madeira, onde gente de todas as idades se divertia ao som da velha concertina, ou  do gramofone, que altifalantes pendurados nas árvores das redondezas faziam ecoar as modinhas mais em voga. Mas havia outros entretenimentos. Um pouco mais adiante, jovens e criança divertiam-se disputando as tradicionais corridas do saco, do ovo e da colher, tiro ao alvo, corrida de cavalinhos, etc.

Havia ainda o concurso do «pau ensebado», especialmente apreciado pelos africanos "quimbares",  que decorria no largo frontal à Capela, onde era colocado um mastro de madeira com cerca de 8 metros de altura, impregnado de sebo, no topo do qual era pendurada uma garrafa de bebida (brandy, vinho do porto, aguardente, vinho tinto, etc) que desafiava a quem ousasse subir para a ir buscar. Este concurso era sempre ganho pelos "quimbares", cuja estratégia era, para não escorregarem, levavam areia nos bolsos das calças de forma a que, de quando em quando pudessem esfregar as mãos e  subir um pouco mais, até alcançarem o precioso líquido colocado a prémio. Mas não eram apenas quimbares (povo africano e aportuguesado da zona) que se juntavam aos portugueses nestas romarias. Era raro, mas um dia aconteceu, contava-se na cidade, que ao estrado de dança subiu uma mulher etnia cuanhama que dançou com um algarvio (Manuel de Faro), proporcionando um delirante e ovacionado espectáculo. Digo raro, porque o cuanhama embora se encontrasse num estádio civilizacional mais avançado que o mucubal ---povo pastoril, nómada ou semi-nómada, que mantinha as suas tradições, vivia da pastorícia, andava semi-nú, e era  resistente à integração----não se encontrava completamente integrado nos usos e costumes portugueses.

 .

 Antes de regressar a casa, este grupo de estudantes de Moçâmedes e suas famílias posam para a posteridade junto do comboio que os iria transportar. De entre os estudantes, vestidos com a farda da Mocidade Portuguesa, o mais alto, mesmo em frente, trata-se do João Luis (Nico) Maló de Abreu que mais tarde iria para a Metrópole prosseguir os estudos e em simultâneo alinham pela Acadêmica (guarda-redes de futebol). Da esq. para a dt reconheço o Soares, o Carlos Ferreira (Miroides), o Pedro da Costa Gomes.  De entre os adultos recoheço: Júlia Almeida, Alice de Freitas, Idalinda Ferreira, Etelvina Ferreira, Odete Maló de Almeida, Iolanda de Freitas






Esta foto que se pensa datada de 1920/30, foi tirada em Moçâmedes, por ocasião de uma dessas peregrinações anuais à Capela de Nossa Senhora da Conceição do Quipola, e deixa pressupôr pela indumentária, tratar-se de um grupo de "elegantes" da classe média de então. Uma indumentária que não fica atrás daquela que na mesma época era exibida em Lisboa e mesmo em Paris. Enquadra-se  na  "Belle Epoque", período decorrido entre os anos 1880 e o início da I Guerra Mundial (1914-18), em que floresceu nos países europeus ocidentais, a partir de França, toda uma cultura de lazer e de bem estar, em que a moda teve papel relevante.  A moda feminina tinha dado um grande salto, os vestidos já não eram até aos pés, mas a meia perna ou pelo tornozelo. As senhoras usavam chapéus de vários feitios,  abas largas, abas estreitas, já não apenas para se protegerem do sol, mas porque o chapéu passara a servir  de distinção de classe e de função social. Também a moda masculina tinha mudado, os homens usavam colarinho branco, gravata, e chapéu, preferencialmente o  "chapéu de côco" que podia ser de feltro castanho ou cinzento, ou de palha branco. Moçâmedes como se pode ver tinha as suas e os seus "elegantes" que nessa altura, através dos "Armazéns Primavera" (1),  mandavam vir as suas toilletes dos " Armazéns Printemps" de Paris, um ponto de referência existencial para aqueles que estavam sintonizados com os ares da Belle Époque (2).  Os nossos "elegantes" pagavam as suas encomendas com produtos que Moçâmedes exportava para o exterior,  que serviam de moeda de troca. Na década de 20 e 30 exportava-se para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e  Gabão, conservas de alta qualidade que competiam com as de outras origens por serem mais   baratos, e  em troca, muitas vezes chegavam  a Moçâmedes produtos de vários géneros. 83)


Estas festividades, que remontam aos tempos em que as pessoas ainda se deslocavam em tipóias,   charretes, de boi-cavalo e até de carroças boers, atingiram o auge  nos anos 1920-30, mantiveram-se firmes na década de 1940,  e foram aos poucos perdendo o brilho, até que no decurso da década de 1950, com as novas formas de lazer que foram surgindo em Moçâmedes, começaram a perder o brilho, até acabaram  por se extinguir.  Mas sem dúvida, elas ajudaram durante o tempo que duraram a tornar mais agradável a vida da população, proporcionando momentos de  fé religiosa misturados  e momentos de lazer e folia,  sempre bem vindos a uma população carente de festas e distracções que lhes aliviasse a rotina do quotidiano. Não admira, se pensarmos que ainda nos finais dos anos 1940 em Moçâmedes, muitas casas  eram iluminadas a petróleo, os aparelhos de rádio (ou telefonias) ainda eram alimentados a bateria, e, assim sendo,  às 8 e 9 horas da noite já estava toda a gente na cama. Como não aproveitar todas estas ocasiões?

Ficam mais estas recordações de um tempo que ficou para trás no tempo, e de uma realidade vivida algures num recanto do litoral Icidental de África, na cidade de Moçâmedes, a  simples, calma e singela cidade erigida entre o deserto e o mar...


MariaNJardim







(1) Os "Armazéns Primavera" ficavam no rés do chão do edifício da família Zuzarte de Medonça Torres, na Rua dos Pescadores , por detrás da Alfândega , que conhecemos como Hotel Central, fazendo esquina com a Rua 4 de Agosto. Estes Armazéns recebiam encomendas das nossas e dos nossos "elegantes" da época. Segundo testemunhos daqueles que viveram esta época, Moçâmedes  possuía uma bela casa de espectáculos, o Cine Teatro Garrett, situado no local onde mais tarde foi erguida a sede do Atlético Clube de Moçâmedes, na Rua Calheiros. Era uma casa de espectáculos estilo Teatro S Luís, salvaguardando é claro as devidas distâncias, com seus camarotes, suas frisas, seus reposteiros de veludo vermelho, sua decoração dourada etc etc., e toda uma ambiência levava alguns espectadores a vestirem-se a condizer para assistirem a espectáculos de Teatro e até a filmes em Cinema mudo.  Ali realizavam-saraus de todo o género, frequentados pela "gente fina" do burgo, que aproveitava para exibir o seu estatuto real ou elaborado. Era uma época de ouro na Europa,   proporcionada pelas invenções tecnológicas, com o avanço da Revolução Industrial: telefone, telégrafo sem fios, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, etc., que inspiravam novas percepções da realidade e tornavam a vida mais agradável. Pelo comboio chegavam ao Portugal metropolitano, vindas de Paris,  as últimas novidades. Paris, referencial de vida para os intelectuais de todo o mundo, cidade  dos cabarés, dos cafés-concerto, das operetas, das livrarias, dos teatros, dos boulevards do cancan e da alta costura... Alguma influência destes modismos foi chegando à longínquia Moçâmedes, a pequena cidade de gente simples, mas que sempre teve os seus e as suas "elegantes"!

(2) Época de ouro, proporcionada pelas invenções tecnológicas, com o avanço da Revolução Industrial: telefone, telégrafo sem fios, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, etc., que inspiravam novas percepções da realidade e tornavam a vida mais agradável. Pelo comboio chegavam a Portugal, vindas de Paris,  as últimas novidades. Paris, referencial de vida para os intelectuais de todo o mundo, cidade  dos cabarés, dos cafés-concerto, das operetas, das livrarias, dos teatros, dos boulevards do cancan e da alta costura...

(3) A Fábrica Africana de Figueiredo e Almeida, Lda. posteriormente deu lugar à conhecida SOS, tinha colocação fácil nos mercados britânicos, e que as exportações em  tempos de crise com a 1ª Grande Guerra,  reanimaram-se a partir de 1923,  exportação de conservas de atum, sarrajão, cavala, merma, etc., principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, e também para os Congos Belga e Francês e o Gabão.

Ficam estas recordações.



MariaNjardim




Coloco a seguir alguns testemunhos e algumas poesias de moçamedenses sobre a citada peregrinação:


 Eu lembro-me como se fosse hoje. Apanhámos o comboio, de carvão ainda! E quando finalmente chegamos trilhamos aquele terreiro de cor farrusca, onde o cheiro dos assados persistia a me abrir o apetite, mas era garoto e não tinha dinheiro! Passei lá uma tarde maravilhosa com os meus irmãos! Mais tarde a caminho de Moçâmedes a rapaziada entusiasmada cantava uma canção que só ouvi uma vez mas nunca mais esqueci:

Quem quizer ver
é só ir à Quipola.
Comer churrasco
e beber coca-cola!

Pergunta ao João
ele sabe a picada
ele sabe a morada
do meu barracão...

Pergunta ao João...


(paro por aqui... porque a emoção é bastante elevada!)
Estavamos em 1966 (penso)
tony araujo
in Mazungue


***


Outros poemas dedicados a estas festividades:



Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Voltámos a Angola
numa doce oração...
aquecemos o coração
com a Senhora do Quipola...

A tal urbe abençoada,
com fulgor, em romaria...
pede à Senhora do povo
um esgar de calmaria...
desejo de mundo novo!!!

Em marcha lenta
o comboio lá vai...

Cada um faz a oração
à benção do vinho e do pão...

entre comes e bebes
a Festa esquenta...
tudo mais se inventa...
bailarico p'ros imberbes

há vivas ao mais folião...
há caçador de coração...

estamos no Quipola...
a assentar a meninice
a reunir a mocidade
a rever a traquinice
da tal palavra Saudade

da Menina-Mãe ANGOLA!!!

em marcha lenta
o comboio lá vai...

(recordando...)

Aileda (in Sanzalangola)



***


À Sr.ª da Quipola

Dia da nossa Senhora da Quipola
Que Moçamedense não esquece
Passem lá os anos que passarem
O nosso coração nunca arrefece

Surgem lembranças bem marcantes
Recupera-se o tempo da mocidade
Revive-se cada ano a lembrança
E rola uma lágrima de saudade

Mesmo á entrada da Cidade
Numa simples casinha amarela
Nossa Senhora vai abençoando
Quem passa ou entra na Capela

Era repouso de cada visitante
Na alegria ou revés para louvar
Era fonte do peregrino sequioso
Quando Nela, se queria sedentar

Era a festa, a romaria a procissão,
A homenagem à Senhora nossa Mãe
Por te sabermos nossa protectora,
Nunca te esqueceremos também.

Manuela Lopes






CURIOSIDADES

"....Sitio do Quipola,  local da região de Moçâmedes, a seguir ao Bero, onde vivia a tribo do soba Moeni-Quipola,  que esteve presente juntamente com o sobas Mossungo e Giraúl na recepção de boas vindas aos colonos fundadores, chefiados por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que ali chegara , vindos de Pernambuco, Brasil, no dia 04 de Agosto de 1849 .


"...A povoação indígena  Mossongo Bittoto "... habita as praias e valle próximo do forte: os seus mais notáveis chefes são os Sobas Moeni-Qupola, (sem nenhuma importância entre os seus) e Giraúl,
este mais poderoso e mui respeitavel ancião, tem em grande valia as relações com os Portuguezes, que igualmente o consideram pela superioridade de sua posição. O seu dominio estende-se até a ponta do Norte da bahia bastante povoada. 


"...Em geral todos estes povos occupam-se pouco da gricultura, semeam unicamente o indispensavel para a sustentação da vida, que mais empregam em pastorar o gado que possuem em extraordinaria quantidade, no que fazem consistir a sua maior riqueza, cuidadosamente guardada em lugares desconhecidos dos outros povos do interior, quando por estes invadidas as suas povoações por qualquer pretexto de guerra, em que pelejam só por se defenderem de seus aggressores."


 In "Demonstração geográfica e política do território portuguez na Guiné inferior que abrange o Reino de Angola, Benguela, e suas dependências .."  escrito em Lisboa em 1846  por Joaquim Amtónio Menez, e publicado no Rio de Janeiro em 1848.



(Menez escreveu este texto às vésperas do início da colonização de Moçâmedes, Menez no desejo de chamar a atençào dos portugueses sobre as vantagens e recursos que a Metrópole poderia recolher do vasto e rico território de Angola, e lamenta que Portugal após a administração vigorosa e civilizadora de Pombal em pouco tempo tenha destruído as benéficas disposições que podiam tornar florescentes as Províncias d'além mar, que se estavam  mal,  pior ficaram, agravando a sua decadência. O autor esteve em Angola no ano de 1842, dezasseis anos após a sua última estadia no território, e ficou surpreendido com a decadência. Viajou na escuna Amélia que naufragou em Moçâmedes, esse célebre episódio que deu o nome à Praia Amélia. Percorreu  pontos da costa até Luanda, que nessa altura apresentava já os sintomas de uma vida quase extinta. Acabou por regressar a Lisboa em 1845, atrozmente perseguido, devido ao conceito que fazia da administração e a vontade de prestar algum serviço à Nação.




NO TEMPO DO CAPARANDANDA...



NO TEMPO DO CAPARANDANDA...


Crescemos todos a ouvir a expressão :"Isso é do tempo do Caparandanda!!" para explicar algo acontecido em tempos remotos...

Uma crónica, com pouco mais de 100 anos, sobre o temível Kaparandanda, filho de soba e bandoleiro... que existiu nos finais do séc XIX vem desvendar o significado do nome.

Na página acima, sem qualquer referância quanto a fontes,  podemos ver o grande chefe CAPARANDANDA preparando mais um assalto. Filho do soba Calumbe, CAPARANDANDA era possuidor de um fisico robusto e de um arrebatado génio,  chefe de um bando de salteadores que levavam a vida a assaltar e a roubar comitivas na sua passagem pela região do Quissange, tendo por fito principal o assalto aos lotes de aguardente. De nada serviam as queixas dos gentio ao soba pai, nem as admoestrações deste. Insubordinado e desobediente não escutava o proprio pai, a autoridade da região, soba bom e estimado pelo seu povo, chegando mesmo a ameaça-lo de morte. Calumbe teria solicitado a prisão do filho e ajudado as autoridades da época na sua captura e detenção,  facto que envolveu aparato militar e civil e que ficou conhecido como  "guerra do Caparandanda", em que o salteador foi aprisionado e deportado para fora da provincia.

Há referência a Caparandanda no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa 30, 31 se 1912.