Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 3 de abril de 2011

PORTUGUESES DE SEGUNDA...

(...)


Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas col
onias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colónias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.


Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.

Texto Integral   In Comunidade Lusófona

terça-feira, 29 de março de 2011

Componentes das 1ª e 2ª Colónias oriundas de Pernambudo (Brasil), e desembarcadas em Moçâmedes nos anos de 1849 e 1850 : Manuel José Alves Bastos e Amélia Torres Bastos ; Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres



                                                                Manuel José Alves Bastos

O casal constituido por Amélia Torres Bastos e Manuel José Alves Bastos, foram componentes das Primeira e  da Segunda Colónias chegadas a Moçâmedes em 1849 e em 1850, idas de Pernambuco, Brasil, em consequência da perseguições aos portugueses que se negavam em abdicar da sua nacionalidade (revolução praeira/mata-marinheiros/independência do Brasil). 

Manuel José Alves Bastos era natural de Fermil, distrito de Vila Real (Trás-os-Montes). Comerciante e proprietário, chegado a Moçâmedes em 4 de Agosto de 1849, juntamente com Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, estabeleceu-se na povoação onde se dedicou ao comércio de marfim e gado, e onde se dedicou à actividades agricola, à pesca ( recebia o peixe dos pescadores algarvios e colocava-o por sua conta, segundo Alfredo Felner) e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos da colónia, na época.


 

 Amélia Torres Bastos

Sobre Amélia Torres Bastos sabemos que faleceu a 12 de Abril de 1896, e seus restos mortais repousam em mausoléu no Cemitério de Moçâmedes, mais tarde Moçâmedes, hoje Namibe. Era filha de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, (componentes da Segunda Colónia, cujas fotos podem ser vistas um pouco a seguir). 



Manuel Joaquim Torres (1815-1882)
                                            Maria José da Costa Torres (1827-1912)
 
 


ela Repousa em jazigo de Família, no cemitério de Mossãmedes


Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres (naturais da Ilha de S. Miguel- Açores), componentes da Segunda Colónia de emigrantes idos de Pernambuco (Brasil), chefiada por José Joaquim da Costa , chegaram a Moçâmedes no ano de 1850,  e já eram pessoas endinheiradas quando partiram das terras de Santa Cruz. Em Moçâmedes foram proprietários, entre outros, de uma fazenda na Várzea dos Casados. Seus restos mortais repousam em mausoléu «aristocrático» no Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no qual se encontram gravados os seguintes dizeres referenciando Manbuel Joaquim Torres: «Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias nas lutas fratícidas de 1822».


A filha que os acompanhou integrando a 2ª colónia, Amélia Torres era casada com Manuel José Alves Bastos, componente da 1ª colónia, comerciante e proprietário que se dedicou ao comércio de marfim e gado, às actividades agrícola com plantações, e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos na época. Repousam em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.

Para além de Amélia Torres, a filha que os acompanhou na viagem para Moçâmedes,  do casamento de Manuel Joaquim Torres e Maria José Costa, nasceu em Moçâmedes António Florentino Torres, que por sua vez casou com Maria Júlia Mendonça. * 21.06.1866. Estes tiveram a seguinte descendência:

Da união de  Eduardo de Mendonça Torres Maria Salles Lane, iria derivar um dos ramos desta família pioneira da colonização de Moçâmedes  que ali se manteve até às independência de Angola, em 1975.


 Eram netos de António Florentino Torres e de Maria Júlia de Mendonça, bisnetos de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) e de Maria José da Costa Torres (1827-1912), um dos casais que,  acompanhados de sua filha Amélia Torres (na foto acima), integraram a 2ª colónia de emigrantes idos de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa , e que ali chegou no ano de 1850, para se juntar à 1ª colónia chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que havia chegado na Barca «Tentativa Feliz», no dia 04 de Agosto de 1849. Iam dar inicio à colonização do Distrito. Portanto,  faziam parte de uma 3ª geração já nascida em terras de Angola.


A família Mendonça Torres foi durante muito tempo uma das famílias melhor situadas socialmente e materialmente em Moçâmedes. A moradia da familia Mendonça Torres, um primeiro andar de traça classizante portuguesa, dos primeiros a serem ali construídos em Moçâmedes  (1885?), Ficava  num gaveto que convergia com a Rua dos Pescadores e com a Rua 04 de Agosto, próximo do antigo «Jardim da Colónia» (jardim, para o qual esteve projectado um monumento à memória dos fundadores, e que na década de 1940 foi demolido para dar lugar ao Cine Teatro de Moçâmedes).  A referida moradia a partir de determinada altura foi alugada à família Gouveia, passando a funcionar como o Hotel Central. Hoje serve de Museu, onde repousam aquilo que ficou na cidade do Namibe dos «restos do Império»...

Diz quem conheceu que Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil, integrados na 2ª colónia, em 1850. E que o interior desta bela moradia, onde viveram, mantinha as características dos lares das burguesias metropolitanas «aristocratizadas» da época, quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes. Ali não faltavam quadros a óleo, pratas e cristais cintilantes, o tradicional piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, e aos serões familiares as senhoras reunidas à volta de uma grande mesa, coziam  à máquina e bordavam ao bastidor, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc. 



Trata-se do interior de uma das casas mais antigas de Moçâmedes, a casa da familia Torres. 

Deste grupo de sete senhoras, que a foto acima representa, naturalmente já descendentes, em 1991, três ainda viviam: a primeira, a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano. (vidé foto e descrição, clicando AQUI). Ano provável: 1885.

Não seria por acaso que um viajante estrangeiro manifestou a sua surpresa,  quando em finais do século XIX,  na sua passagem por Mossâmedes, ao passar pelo casario da baixa, pôde ver e ouvir, em casas de familia jovens ao piano a tocar, a cantar e a bordar a bastidor, uma prática muito comum nos serões familiares femininos da época nas burguesias ocidentais.

Aliás, como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Mossâmedes uma determinada burguesia "aristocratizada" que já tinha ao seu dispôr para a educação das filhas, um Colégio e  sabe-se que  até se recorria a preceptoras estrangeiras para a  sua educação:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)

Ainda sobre a meama Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... » 

Foram estes usos e costumes burgueses "aristocratizados" *, que foram passados para a geração seguinte já nascida em Mossâmedes, e que vemos referidos na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221 :

«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Mpçâmedes.» Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Moçâmedes até à década de 50 foi professora particular de Música, Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra, etc, etc..
Isso talvez explique que Moçâmedes, terra de pescadores, primasse pelas suas mulheres, sempre prontas a aprender as boas regras de etiqueta, a bem receber, vestir, etc. De facto ainda em meados da década de 50, era facilmente detectável nas jovens raparigas da terra a preocupação das mães na sua educação. Eram mães que se dedicavam inteiramente ao lar e à família, e  muitas delas já não eram descendentes dos colonos idos do Brasil, mas daqueles que vieram a seguir, idos, na sua maioria do Algarve e mais propriamente de Olhão que, por mecanismos de imitação social, aprenderam a cultivar algumas dessas qualidades que transmitiam às suas filhas. A partir de finais da década de 50, as raparigas já não tinham tempo para o cultivo dessas «prendas domésticas» que faziam as delícias dos seus admiradores... Com a entrada decisiva da mulher no mundo do trabalho, abriam-se outras perspectivas para as suas vidas...

Acrescenta-se ainda que o culto da arte de bem receber da família Torres foi sendo transmitido de geração em geração, e esteve presente em 1932, quando por ocasião da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 

«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. 
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .

Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossãmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim)
Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.


Rui Duarte de Mendonça Torres foi o último gestor dos negócios e bens desta família, nas áreas da indústria pesca e agropecuária.

As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos. A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde, recordo, a família possuíam uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

MariaNJardim

Alguma bibliografia:
-«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»

-“O Mossamedense”,  nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro
- Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
-GeneallNet

Clicar AQUI para ver: Lista dos 1ºs. colonos chegados a Moçâmedes, provenientes de Pernambuco (Brasil).

Trechos e fotogravuras extraidas do livro «O distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Julio de Mandonça Torres.
                                                       


Ainda sobre Manuel José Alves Bastos

Em VIAGENS NA CIMBEBÁSIA / O RIO CUNENE / NOTA DO TRIPLOV PADRE CHARLES DUPARQUET (1879-1880), encontra-se uma referência a dois negociantes de Mossãmedes, um deles de nome Bastos:


Sexta-feira, 30 de Julho. São precisos oito dias para ir do Humbe à Huíla e quinze dias da Huíla a Moçâmedes, mas os carregadores levam ordinariamente quinze dias a fazer esse trajecto. Gastam quatro dias da Huíla e Ongambué, quatro dias de Ongambué ao Hai e dois dias do Hai à Huíla. Seguem sempre o rio Caculovar. Os Portugueses do Huambe não têm vagões; todos os transportes daqui para Moçâmedes se fazem com o auxílio dos carregadores. Estes levam 2.500 reis fortes (cerca de 12 frs. 77 c.) para transportar 2 arrobas (60 libras) de Moçâmedes ao Cunene.

De Moçâmedes a Capangombe há uma boa estrada para carros. Nesta localidade cultiva-se agora muito algodão, café e cana de açúcar. Com este último produto fabrica-se aguardente, muito procurada pelos indígenas. O único comércio do Humbe com Moçâmedes consiste em gado e algum marfim. A importação dos escravos está realmente proibida na Colónia Portuguesa; nenhum escravo pode actualmente ser vendido em Moçâmedes. Os Portugueses do Humbe compram ainda alguns nas tribos vizinhas, mas cedem-nos aos indígenas do Humbe a troco de gado. Compram cada escravo por um barril de aguardente (cerca de 60 frs.) e revendem-nos por três cabeças de gado aos indígenas do Humbe.

 
Estes portugueses são, na sua maioria, pobres e trabalham por conta de dois negociantes de Moçâmedes, os snrs. Narciso e Bastos, aos quais mandam o gado em troca de mercadorias e provisões enviadas por eles.



Mais sobre esta familia,  clicar AQUI

sábado, 26 de março de 2011

" PLANOS E REALIZAÇÕES"(de "SOURREIA" - Jornal "a Huila" nº 754 - (Editorial) - 27 de Agosto de 1955 -


" PLANOS E REALIZAÇÕES"


 Depois de largos anos de quase uma apatia contaminosa e prejudicial, começo o sul de Angola, toda esta vasta e rica região da Huila, a ser olhada com mais carinho, a serem compreendidas as suas necessidades urgentes e imprescindíveis. O planalto da Huila é talvez a melhor região de Angola para a instalação dos colonos chegados da Metrópole distante, satisfazendo em parte o seu problema de excedência demográfica, sem que todavia se possam ou se devam esquecer as necessidades e exigências locais. De clima bastante saudável, esta terra maravilhosa e rica em recursos naturais, encravada no interior sertanejo da negra África, estava como que condenada a continuar nessa aflitiva situação ainda por mais tempo, atrofiando-se e extinguindo-se as boas vontades representadas por esses valorosos e esforçados colonos que há sete dezenas de anos trepararam esforçada e denodadamente esta tão majestosa quanto ardilosa Chela, aqui assentaram arraiais e prosseguiram na luta. E, hoje, é com justificado orgulho e vaidade que todos nós vemos amparados e prosseguindo em acelerado ritmo os sonhos das gentes de antanho, as necessidades imediatas das gentes do presente. Não se podia levar ávante um plano de colonização, de civilização dos naturais instalados ou refugiados no sertão inóspito, sem se procurarem beneficiar e aproveitar convenientemente as condições naturais das diversas regiões, na maioria férteis e fáceis de cultivar. Surgiu então o grandioso plano de irrigação de uma grande parte da região sul, aproveitando-se esses mananciais de água que correm sem proveito, descansada e orgulhosamente superiores à vontade dos homens, mas que muito em breve se precipitarão em cachoeiras ruidosas, movendo poderosos geradores que hão de fornecer energia eléctrica a preços mais acessíveis numa extensa linha, correndo depois então através de canais dirigidos às melhores regiões agrícolas que estavam condenadas a uma fauna agreste, onde reinassem as feras, mas que, mercê da lúcida e boa compreensão de quem nos dirige,se hão-de tornar em magníficos campos de agricultura, onde vivam pacificamente as gentes lusitanas, quer vindas do continente distante, quer os naturais da região, nascidos e criados para a luta e cultivo da terra e que a amam tanto quanto ao que têm de mais querido. Directamente ligado com o problema da irrigação e fornecimento de energia eléctrica para os mais variados usos, desde os industriais aos domésticos, apresentava-se o problema dos transportes que escoassem para o litoral portuário os produtos do interior. As estradas rodoviárias não eram suficientes, nem podiam satisfazer as condições económicas, atendendo ainda às desvantagens que surgem na época das chuvas. Por tal, o Caminho de Ferro de Moçamedes, vindo daquela cidade até á capital do planalto, tinha de seguir mais ávante, atravessando essas regiões agrícolas e pecuárias, indo mesmo além fronteiras, escoando desse modo e em sentidos diversos, não só os produtos do interior de que necessitam as vizinhas colónias estrangeiras, como ainda dando vazão com o mesmo destino, à riqueza piscatória de Moçamedes,Porto Alexandre e Baía dos Tigres. Era um sonho que se alimentava esperançosamente, que se enraizou em todos nós, e que, finalmente, podemos dizer, se realizou. Esses trilhos, largos e metálicos, suportados por resistentes madeiras das nossas florestas, correm pelo interior cortando o seio bravo e espinhoso desta estranha África! Vão-se melhorando as condições de vida das gentes e vão surgindo paralelamente às linhas gémeas, lindas e progressivas populações. Iniciado o plano de irrigação e melhorando o dos transportes, em grande escala e baixo custo, a região da Huila entra decididamente no verdadeiro caminho da exploração agro-pecuária e, consequentemente, no ramo industrial, na transformação e aproveitamento dos produtos naturais,passando da produção e consumo à venda em larga escala para os mercados mundiais, favorecido ainda pela maior capacidade e facilidade de embarque do novo porto acostável de Moçamedes. Hão-de surgir muitas e novas populações, centros de colonização branca; hão-de tomar vulto e desenvolvimento as cidades do sul, mais directamente beneficiadas pelo programa e trabalhos que se estão realizando.Mas toda a Província de Angola será influenciada por esses melhoramentos, beneficiada pelas produções intensas, beneficiada mesmo até certo limite pelo aproveitamento hidro-eléctrico da Matala ou de outras barragens que estão em planos, na transformação eficiente e económica de seus produtos, no desenvolvimento intenso e modernizado das suas indústrias. Venceram-se barreiras, reduziram-se dificuldades, e dia a dia, a nova linha vai avançando; hoje, Vila Artur de Paiva, amanhã Matala e depois, mais além, até á fronteira ! Dia a dia as gentes vibram de entusiasmo e choram de comoçaão e alegria ao ouvirem vibrar o silvo estridente da fogosa máquina, ecoando pelos montes, e ao verem pela primeira vez, sulcando os trilhos metálicos, essa mesma e gigantesca "Garratt", atrelada a modernas e amplas carruagens, a modernos Wagons que transportarão os seus produtos e dar-lhes-ão um melhor nível de vida. Para finalizar, recordemos esta parte do feliz discurso de S. Exa. o Governador-Geral de Angola, Sr. Capitão Silva Carvalho, quando da inauguração do 1º troço da linha sul (na Chibia), no prolongamento do Caminho de Ferro de Moçamedes : ..." Hoje, mais um troço de linha férrea; amanhão, mais uma estrada, mais uma escola,mais uma igreja, um novo cais, novas riquezas extraídas do solo, novas produções arrancadas á terra, novas facilidades aos colonos, novos núcleos de população indígena levada á civilização latino-cristã. E é um novo país que surge, menos rápidamente do que pede o nosso desejo, mas num ritmo seguro, persistente, fatal, de quem apenas prolonga, no espaço e no tempo, as linhas estruturais do nosso destino de Nação".

(de "SOURREIA" - Jornal "a Huila" nº 754 - (Editorial) - 27 de Agosto de 1955  


Sobre o autor: , natural de MOÇÂMEDES (ANGOLA), com ascendência Afro-Luso-Brasileira(Minas Gerais). Frequentou as Escolas Primárias Nº60,“LUÍS DE CAMÕES”,no LUBANGO (SÁ DA BANDEIRA)e Nº 67,"PINHEIRO CHAGAS", na CHIBIA; depois, o Liceu Nacional “DIOGO CÃO”(sendo um dos seus professores o escritor e capitão GASTÃO DE SOUSA DIAS) e o Colégio “INFANTE SAGRES”, em SÁ DA BANDEIRA, (tendo neste como professor, o etnólogo e escritor, padre CARLOS ESTERMANN; mais tarde frequentou o Instituto Industrial de Nova Lisboa (Curso de Química Laboratorial e Industrial -– não concluído). Ainda estudante e, posteriormente, foi colaborador dos seguintes jornais: “A HUILA” (sendo mesmo e durante um certo período, seu redactor, em horas extras), “NOTÍCIAS da HUILA”,“O NAMIBE”,“A VOZ DO PLANALTO”, “A PROVÍNCIA DE ANGOLA” e do “JORNAL DE ANGOLA”, da ASSOCIAÇÃO AFRICANA (em Luanda, de que foi ainda membro da direcção e colaborador da LIGA NACIONAL AFRICANA), usando sempre o seu pseudónimo “Sourreia”. Nos Jogos Florais das “Bodas de Prata” do Liceu “DIOGO CÃO” -(1954)- obteve o 2º lugar (“Malmequer de Prata”) na modalidade de “Prosa” e recebeu ainda a única menção honrosa atribuída na modalidade de “Quadra”. Nessa altura, escreveu e publicou algum tempo mais tarde (1956), com o mesmo pseudónimo, a sua primeira obra literária “ASSIM SOMOS TODOS”. Foi colaborador e fundador do "CENTRO DE TURISMO DA HUILA" e do "NÚCLEO FILATÉLICO DE NOVA LISBOA"; colaborador dos "VICENTINOS" para a recuperação e construção da nova "CASA DOS RAPAZES DE CAMACUPA". Ingressou nos Serviços da Fazenda Pública (Finanças) em 1956 tendo prestado serviço (sucessivamente) em: Nova Lisboa, Luanda, Camacupa, Porto Alexandre, Chinguar, Silva Porto, Bailundo, Nova Lisboa e Camacupa. Em 1974 ingressou no Quadro Geral de Adidos, retirando-se para Portugal na “Ponte Aérea” de Nova Lisboa. Foi ainda colocado na Direcção Distrital de Finanças de Coimbra, tendo-se aposentado posteriormente. Prestou alguma colaboração (em Portugal)ao Jornal “O DIA” (artigos e reportagens) e "O LOBITO"(este um antigo Jornal de ANGOLA)e nalguns outros diários. A partir de 1990 publicou diversas obras literárias sobre a História de Angola: Para saber mais : Blog de Roberto Correia

Inauguração do 1. troço das obras do cais de Moçâmedes em 24.05.1957




Devidamente engalanado, o paquete "Uije" aproxima-se  do cais e prepara-se para encostrar... Fotos, históricas, marcam o momento da chegada do Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo a Moçâmedes (actual cidade do Namibe), a bordo do paquete Uíge, em 24.05.1957, para inaugurar o 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.



O paquele "Uige" e a multidão vistos que para ali se havia deslocado para assistir à inauguração, vistos do cimo da falésia

 

Perspectiva mais aproximada da multidão que se aglomerou junto ao cais, onde se podem ver, enfileiradas, as alunas do Colégio de Nossa Senhora de Fátima de Moçâmedes, devidamente fardadas com a tradicional saia azul escura, blusa e chapéu brancos. Reconhece-se à esq. Mário António Gomes Guedes da Silva, à época funcionário do Grémio da Pesca de Moçâmedes. Ao centro, Mário da Ressurreição Maia Rocha, Chefe de Repartição da Câmara Municipal de Moçâmedes. Mais à dt., o professor Canedo.


Celísia Vieira Calão, a basquetebolista do Ginásio Clube da Torre do Tombo, faz as honras da «casa» entregando a «chave da cidade» ao Governador Geral de Angola. A descer a escada do navio, de fato escuro, o então Governador do Distrito de Moçâmedes, Nunes da Ponte.


A aguardar o Governador Geral, o bispo da Diocese de Sá da Bandeira e elementos representativos das "forças vivas" da cidade

 

Apresentação de cumprimentos das «forças vivas da cidade» de Moçâmedes ao Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana . Ao centro, cumprimentando o Governador, Abílio Gomes da Silva (vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes). Da esq. para a dt.: o médico Dr. Mário Moreira de Almeida, (Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes), Raúl Radich Junior (Vice-Presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes), Rui Duarte de Mendonça Torres (Vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes), Virgilio Carvalho (Vereador da Câmara Municipal de Moçâmedes), Dr. Urbulo Antunes da Cunha (Presidente da Associação Comercial de Moçâmedes) e Dr. Manuel João Tenreiro Carneiro (Advogado).



O momento simbólico do descerramento da placa comemorativa da inauguração do 1º troço do cais do porto de Moçâmedes, em 24.05.1957, pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.

 

Por baixo de um toldo erguido no cais, o Governador de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte, entre o Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, e o Dr. Mário Moreira de Almeida (Médico), presidente da Câmara Municipal de Moçâmedes, procede à assinatura do auto da inauguração.



O Governador Geral de Angola,Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo, no topo da falésia, tendo a seu lado o Governador do Distrito de Moçâmedes, Vasco Nunes da Ponte. No cais, junto do paquete «Uije», parte da multidão que ali se delocara para assistir à inauguração.



Finda a cerimónia, o cais vazio de gente... O paquete Uije descansa enquanto os visitantes e comitiva, forças vivas e povo se deslocam para outros pontos da cidade para proceder e assistir a outras cerimónias, tais como a inauguração do novo edifício-sede do Grémio dos Industrias da Pesca e seus Derivados do Distrito de Moçâmedes, e cerimónia da colocação da primeira pedra que deu início à construção do complexo desportivo do Sport Moçâmedes e Benfica, ambos os actos presididos pelo Governador Geral de Angola, Tenente Coronel Horácio José de Sá Viana Rebelo.


Panorâmicas do cais e da baía no decurso das obras da construção
Nesta 1ª fase das obras ainda a maioria das primitivas pescarias  alí se encontravam. Não tardaria muito a ser demolidas.do cais acostável e da avenida marginal de Moçâmedes.


Foto tirada em 1961, 5 anos após a inauguração da 1ª fase da construção cais acostável de Moçâmedes, e 7 anos após o lançamento da primeira pedra para  o início da mesma.

A construção do cais de Moçâmedes foi outorgada por contrato, a empreitada por 3 anos,  pelo Comandante Sarmento Rodrigues à firma adjudicatária Engº Rafael del Pino e Moreno

O arranque deste 1º troco foi inaugurado com em cerinónia de colocação da 1ª pedra, pelo General Craveiro Lopes a Moçâmedes, no decurso da sua visita em 24.06.1954. Clicar AQUI.
 Foi assim que se apresentou à noite a baía de Moçâmedes quando da inauguração da Avenida Marginal em 1963. Fotos cedidas por Vitor Torres





Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do futuro cais acostável



(Parecer do Comandante Correia da Silva).
… … … … … … … … … … … …

Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.

Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.

… … … … … … … … …

A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.



Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.

… … … … … … … … … …

(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil). 
 

Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.

…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.

Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.

A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.

O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.

Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.

A sua importância futura, é pois, considerável.

Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.

O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.

Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas

.............


Do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres

.................


Porto de Mossãmedes

Outras opiniões sobre o equipamento

(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico)

«Mossãmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Mossãmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
 

 Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.

 
Pesquisa de MariaNJardim

Para mais informação: AQUI


Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.               
                                                                         
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Motivos aconselháveis quanto ao local para construção do futuro cais acostável


(Parecer do Comandante Correia da Silva).
… … … … … … … … … … … …
Pela ordem das condições de abrigo, segue-se a baía de Moçâmedes que é presentemente um bom fundeadoro em condições normais de tempo, e poderá tornar-se um excelente porto permanentemente abrigado, dada a direcção constante das vagas, se se dragar a enseada da Torre do Tombo, ao sul da baía, e se se fizer aí, não o porto de pescadores que hoje é, mas o porto comercial. A muralha acostável da Torre do Tombo não será nunca um porto grande, mas será um porto bom e mais que espaçoso para o movimento provável de Moçâmedes. Com essa muralha de mais a mais, dado o abrigo da enseada, poderá fazer-se acostável de qualquer lado e em qualquer direcção que seja construída, mais espaçoso será o porto de Moçâmedes.


Muito se tem pensado em fazer o porto acostável de Moçâmedes na enseada do Saco. Embora a terra que vem da ponta do Giraúl dê também a essa enseada um abrigo que lhe dá uma boa praia de águas tranquilas, e extensão abrigada é muito menor que na Torre do Tombo, e mais facilmente se ressentirá a ressaca do sudoeste, que incide directamente a uma pequena distância da praia abrigada. Além disso, o Saco fica a légua e meia, pela praia, de Moçâmedes. A Torre do Tombo é hoje um bairro de Moçâmedes, e, se as obras do porto se fizerem , como certamente haverá a ligação por caminho de ferro e por estrada, pelo mar, da Fortaleza de S. Fernando a distância do último extremo da Torre do Tombo ao centro da cidade actual, percorrer-se-á em poucos minutos.
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A preferência dada por algumas opiniões que conhecemos, do Saco do Giraúl, funda-se principalmente na amplidão de terrenos para edificações, na profundidade actual da enseada e no facto de ficar essa praia num ponto da linha do Caminho de Ferro além da passagem do Bero, que constitui, por enquanto, um dos mais graves obstáculos ao trânsito regular dos comboios, por ocasião da cheia.


Ora essas razões que justificam a existência actual, nessa praia, de uma atracação, não são, a nosso ver, suficientes para que se faça nessa enseada o futuro porto de Moçâmedes. Seria um porto novo a construir, não o porto de Moçâmedes, e , sem de forma alguma querermos dar a impressão de que existe, nesta origem de caminho de ferro, o mesmo duelo que há entre Benguela e Lobito, defendendo a orientação de fazer as obras definitivas na Torer do Tombo, seguimos apenas a velha predilecção, que sempre tivemos, como oficial de marinha, pelo maior abrigo das suas águas, que, neste caso, se combina com os interesses da cidade capital do distrito.
… … … … … … … … … …
(Cópia dactilografada do Relatório do comandante Correia da Silva, consultado em Moçâmedes, na Repartição Distrital de Administração Política e Civil).




Razões da opção quanto a um local a escolher para a construção do futuro cais acostável; parecer do Comandante Frederico da Cruz.
…Moçâmedes é, incontestavelmente, o terceiro porto da colónia, e tem condições para se trnasformar num dois mais importantes de toda a África Ocidental.
Escavado na latitude 15º e 10´Sul, a sua vasta área cobre 3.300 hectares. A área útil, ao Sul, próximo da cidade, não anda longe dos 600 hectares; ao Norte anda próximo dos 500 hectares.
A baía de Moçâmedes, profundo recorte em forma de concha, é limitada, ao Norte, pela ponta do Giraúl, e ao Sul, pela ponta Negra, se bem que o baixo Amélia, mais ao mar, tenha pretensões a esporão submerso.
O fundeadouro fica afastado da terra 750 metros.
Moçâmedes é testa do Caminho de Ferro de Sá da Bandeira, vias de comunicações que, fatalmente, se há-de alongar a caminho da Rodésia do Norte, em necessário paralelismo com a linha Lobito-Dilolo.
A sua importância futura, é pois, considerável.
Hoje, o porto de Moçâmedes serve principalmente a exportação do peixe seco, farinhas, óleos de peixe, e produtos agrícolas da Huila.
O seu movimento em toneladas de arqueação é já notável.
Em 1947 lançaram âncora nas suas águas navios nacionais de longo curso, totalizando 300.738 toneladas
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Do livro «Moçâmedes» de Manuel Júlio de Mendonça Torres
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Porto de Moçâmedes

Outras opiniões sobre o equipamento

(Manuel Pires de Matos, engºhidrográfico)




«Mossâmedes pode ser considerado um porto misto, predominando contudo nele as características de porto geral e de pesca.
O seu equipamento deve fazer-se no sentido de aproveitar o cais no quebra mar para embarque de pasageiros, carga e descarga de navios transportando deste ou para este porto, quantidade de mercadorias, carga e cereais a granel e carga e descrga de combustível líquido.
No cais longitudina, far-se-ão de preferência s operações de carga e descarga de navios com grandes quantidades de mercadorias a movimentar a carga de carne, peixe e frutas frigorificadas , pois os frigoríficos, armazéns , depósitos de carvão , etc., serão construidos junto deste cais, a servir por linhas férres em abundância para fácil manobra de grande quntidade de vagões, sem o receio de congestionamento.
De começo, o porto poderá dispôr de um frigorífico, armazéns, «gare» marítima, depósitos de carvão e silos, a construir nos terraplenos, que pelo presente ante-projecto se conquistam ao mar.
A construção de depósitos combustível líquido, entre a Ponta do Mexilhão e a Ponta do Noronha, é conveniente que se faça em subterrâneos a escavar na escarpa, para ficarem convenientemente abrigados dos ataques aéreos.
Além do equipamento já atrás indicado, serão precisos guindastes, a captação e a beneficiação, rede de distribuição de água aos navios e serviços do porto, a construção de uma central termo-electrica para as necessidades de Moçâmedes e do porto e um rebocado para as manobras de atracar e desatracar.
Mais tarde, quando as circunstâncias o aconselharem, deverá também considerar-se o equipamento do porto de pesca, a construção de carreiras para navios de vela e embarcações, armazens de redes e outros aprestos de pesca, doca seca para a reparação de navios, etc.
 

 Boletim Geral das Colónias . XVIII - 203
Nº 203 - Vol. XVIII, 1942, 1o1 pg.


 
 Pesquisa de MariaNJardim

 Fotos gentilmente cedidas por Amilcar de Sousa Almeida e Celísia Calão.



-Para mais informação: AQUI
-Para ver fotos sobre a visita do General Craveiro Lopes a Moçâmedes e a cerimónia da colocação da 1ª pedra, que em 24.06.1954 deu o arranque à construção do cais de Moçâmedes, clicar AQUI.


Nota: Agradece-se se forem daqui tiradas fotos e textos que não esqueçam os respectivos créditos de texto e de imagem.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A guerra no sul de Angola em 1915 (1)



A CAMPANHA
DO SUL DE ANGOLA
em 1915

I
Preparação das operações

Foi num dos primeiros dias do mês de Fevereiro de 1915 que sua Ex.ª o General Pimenta de Castro, Ministro da Guerra e presidente do Governo, me fez o convite para assumir o comando das tropas expedicionárias ao Sul de Angola. Nessa ocasião Sua Ex.ª mostrou-me ser conveniente que, com este comando, acumulasse o cargo de Governador Geral da província.
Se é certo que as funções de comando no ultramar, onde os recursos escasseiam e as necessidades das tropas mais se acentuam, são suficientes para absorverem todas as atenções de quem as exerce, certo é também que, para que esse comando se possa efectuar com os menores atritos e a máxima utilidade, é muito vantajoso que não tenha a sua acção limitada ao campo puramente militar, e pelo contrario, ela se estenda a tudo o que possa interessar ás operações, o que se pôde conseguir fazendo convergir, na mesma pessoa as respon-sabilidades de comando e as responsabilidades governativas.
Assim o têm demonstrado todas as grandes campanhas coloniaes.
Foi por isto, e só por isto, que resolvi aceitar a.acumulação do governo da província de Angola com o comando superior das forças que nela iam operar. Assente pelo governo da Republica que eu me encarregasse da honrosa missão para que me convidou, nas condições que deixo expostas, eu, por minha vez, convidei para meu chefe de estado-maior o major de infantaria, com o curso do estado maior, João Ortigão Peres, lente do referido curso da Escola de Guerra.
Este oficial, com uma verdadeira isenção, com o seu patriotismo, e com a sua dedicação pessoal por mim, aceitou o meu convite, aceitação que Sua Ex.ª o Ministro da Guerra tornou efectiva, nomeando-o para o referido cargo. O primeiro trabalho a que procedemos foi à leitura de toda a correspondência trocada entre o Ministro das Colónias, o Governador Geral da Província, e o então comandante das forças expedicionárias, sr. tenente coronel do serviço do estado maior, Alves Roçadas, afim de ajuizarmos da situação.
Essa leitura levou-me às seguintes conclusões :
1º — Que a acção das forças da Damaraland no combate de Naulila não foi uma acção a fundo, pois não tendo elas efectuado a perseguição das nossas, pouco tempo depois se afastaram da fronteira.

(cortado pela censura)

2º — Que o resultado do combate de Naulila, conjunctamente com a intensa propaganda desde longa data efetuada pelos alemães e com a retirada das nossas forças, teve como consequência natural a rebelião, formal ou latente, de todo o gentio de além Cunene e da região do Humbe.
3º — Que pelas diversas e grandes requisições feitas pelo Governador Geral de Angola e pelo tenente coronel Alves Roçadas se verificava a existência de grandes dificuldades com que se lutava para pôr as tropas enviadas para o Sul de Angola em estado de executarem as operações, dificuldades principalmente derivadas da não existência de uma conveniente linha de étapes, do facto de os grandes reforços para ali enviados, depois, dos acontecimentos de Naulila, não terem sido precedidos, ou pelo menos acompanhados, de tudo quanto era necessário para a sua pronta entrada em acção, e ainda da circunstancia das funções de comando e as funções de Governo não estarem concentradas na mesma pessoa, o que, apesar de exercidas ambas por dois ofíciaes muito distínctos e patriotas, não pôde deixar de traduzir-se em falta de unidade de acção e em perda de tempo.
As duas primeiras conclusões constituíram a base do projecto de operações que apresentei a S. Ex.a o Ministro das Colónias e que foi aprovado com uma ligeira restrição.
A 3ª conclusão forneceu-me elementos para fazer as requisições que julguei necessárias para colocarem as forças do meu comando em condições de realísarem o esforço que lhes havia de exigir, devendo notar que, neste ponto, a leitura da correspondência não me desvendou completamente as dificuldades da situação, que só em Mossamedes pôde bem conhecer.
Uma questão de.alta importância me devia merecer também todo o cuidado, era a questão política internacional, e por isso procurei S. Ex.ª o Ministro dos Negócios Estrangeiros e lhe pedi os necessários esclarecimentos.
A nossa beligerância não estava nitidamente declarada; é certo que tinha havido um ataque efectuado pelas forças da Damaralandia aos nossos postos e às nossas forças, mas era duvidoso se aquelas forças eram regulares e se tinham procedido de motu-proprio, constituindo a sua acção um simples incidente de fronteira, ou se pelo contrario, tinham cumprido ordens do Governo local, ou até do Governo da Metrópole. Também se dizia que o Governo da União da África do Sul tinha encarregado o General Botha de invadir a Damaraland e muito importava saber se este facto se confirmava. Tudo isto se apresentava ao meu espirito por uma forma pouco definida e exigia que me fossem fornecidos dados precisos que me indicassem uma maneira de proceder nítida, clara e franca; doutro modo a acção das forças do meu comando podia vir a exercer-se por forma inconveniente, tanto sob o ponto de vista militar como sob o ponto de vista político.
O certo é que nenhuns esclarecimentos consegui obter de Sua Ex.ª e que parti orientado apenas pelo facto de ter sido aprovado o meu projecto de operações com a restrição a que já me referi e firmemente resolvido a não perder a menor oportunidade de desagravar o mais amplamente possível a honra nacional.
Seja-me permitido registar que a diplomacia portuguesa, sendo, por vezes, de uma indescrição surpreendente, é, noutras ocasiões, de uma reserva tão impenetrável que torna a sua acção inútil para quem nela precisa orientar a sua conducta.
Da leitura dos documentos existentes no Ministério das Colónias e do estudo das cartas do sul de Angola e da Damaraland, poude eu ainda em Lisboa, fazer uma ideia, tão aproximada quanto possível, da situação criada pelos acontecimentos de Naulila e portanto da tarefa que me cumpria realisar, e nela baseei como disse, o meu projecto de operações, em que quaisquer que fossem as modificações a introduzir-lhe in loco, em harmonia com o conhecimento mais directo dessa situação tinha que dominar, como fim geral a atingir, a preocupação de se reocupar o território abandonado ao gentio, ocupar a região do Cuanhama, que sendo nossa in nomine nunca tinha sofrido de facto o nosso domínio e se encontrava desde longa data muito trabalhada .pelos alemães da Damaraland, e principalmente castigar a afronta sofrida em Naulila, recebendo condignamente os alemães se eles tornassem ao nosso território, ou passando as nossas tropas a fronteira, para os atingir onde mais conviesse, prestando, em qualquer dos casos, um muito valioso concurso aos nossos aliados da África do Sul.
Tanto do exame das cartas, como do conhecimento de trabalhos de valor executados por distintos oficiais como, por exemplo, os de Eduardo Costa, Alves Roçadas, Eduardo Marques, e João de Almeida, eu concluí que tinha de escolher para base de operações o Humbe, que pela sua situação estratégica, para tal fim se impunha, pois, encontrando-se coberta pela linha defensiva do Cunene, está ao mesmo tempo, no centro das comunicações, que do planalto de Mossamedes se dirigem para o Evale, Cuanhama, Cuamato, Dongoêna, e portanto nas melhores condições para dali se proceder à submissão do gentio revoltado, e pela sua conveniente distancia à fronteira, para aí se basearem operações, quer ofensivas, quer defensivas, contra os alemães.
Nessa, região devia eu portanto fazer a concentração do grosso das minhas forças, mas impunha-se-me também a obrigação de ter devidamente observada a linha de penetração que do posto de Cuangar se estende pelo vale do Cubango em direcção ao posto A, para daí se dirigir por Cassinga ao planalto de Mossamedes ou internar-se no distrito de Benguela e a linha que do Cunene mais directamente se encaminha para o referido planalto, isto é, a linha Otchinjau-Pocolo-Chibia-Lubango.
Certo era que tudo indicava que no caso de nova incursão alemã, por qualquer destas linhas só se poderia esperar ligeiras demonstrações, para nos obrigagarem a dividir as nossas forças, visto as duas primeiras linhas serem muito extensas, excêntricas e em que o inimigo quanto mais se internasse mais perigos correria, e a terceira atravessar terreno difícil e ser facilmente cortada por qualquer movimento de flanco executado peias tropas que se deslocassem do Humbe, ou de qualquer outro ponto conveniente da linha que liga esta região com o planalto de Mossamedes.
O que era porem incontestável era a necessidade de fazer ampliar no Humbe as operações dum efectivo que não deveria ser inferior a uns 6 a 7.000 homens e uns 3.000 solipedes, para o que se tornava necessário prover o estabelecimento de uma solida linha de étapes de uns 600 kilometros de extensão, e a necessidade de igualmente ter tropas nas linhas de Cubango de Otchinjau-Pocolo, de muito menor efectivo, mas exigindo também a montagem de linhas secundárias de étapes com menores recursos, mas sendo a do Cubango ainda mais extensa que a linha principal.
Todas estas considerações acrescidas com o conhe-mento de que nos últimos 4 anos tinha havido grande falta de chuvas no sul de Angola, portanto aí dominava a fome, me levaram a mesmo aqui em Lisboa, considerar como questão capital para a honrosa, mas difícil missão que me fora confiada, a dos abastecimentos e dos respectivos transportes, devendo estes últimos ser o mais rápido possível porque a estreiteza de tempo que se tinha para realizar as operações, derivada da pressão inglesa exercida na Damaraland, que naturalmente atiraria com os alemães, para a nossa fronteira, e da necessidade de dar ás mesmas operações a maior amplitude antes do começo das chuvas (fins de setembro) assim o exigia. Por isso perfilhei todas as requisições de viveres e transportes que se encontravam no Ministério das Colónias ainda por satisfazer, completei-as como julguei conveniente, reservando-me para, de Angola, as modificar, se o entendesse necessário, insisti pela aquisição imediata de 80 camions automóveis e 750 carros alentejanos, requisitados com urgência pelo Governador Geral, Norton de Matos, exigi que, partindo eu em 5 de Março tivesse em Mossamedes em l de Abril, viveres para 4 meses e metade dos transportes requisitados e em l de Maio viveres para 6 meses e a totalidade desses transportes, tencionando montar devidamente as linhas de étapes logo que chegasse, a Mossamedes, Principiaria em Abril a escalonar os víveres pelos respectivos postos, completaria em Maio o abastecimento dos depósitos principaes de Lubango, Gambo e Humbe e no fim desse mês, ou princípios de Junho, poderia iniciar as operações de Alem-Cunene com todo o desembaraço.
Infelizmente as promessas feitas de cumprimento destas exigências não foram cumpridas com o rigor e a pontualidade requeridas, apesar da minha constante insistência, e daí resultaram as dificuldades com que lutei durante toda a minha estada em Angola e que no decurso deste relatório resaltarão!
Tendo embarcado no África em 5 de Março, desembarquei em Loanda em 21 desse mês, tendo assumido, neste mesmo dia, o Governo da província, imediatamente principiei a ocupar-me com o maior ardor de tudo o que interessava as operações e ali podia tratar pensando contudo em prolongar o menos possível a minha estada nessa cidade; porque estava verdadeiramente ansioso de seguir para o Sul, afim de poder de visu conhecer a situação. Não foi porem de pouca utilidade a minha demora em Loanda.
Da troca de impressões com o secretário geral e com os governadores dos distritos do Congo e Lunda, colhi a confirmação de que os acontecimentos de Naulila tinham tido a natural repercursão não só no gentio do sul mas também no de toda a província que, por numerosos indícios, revelava mais ou menos declaradamente o seu espirito de rebelião, o que me levou a recomendar a esses governadores, e depois por escrito, a todos os dos outros distritos, que procurassem comtemporisar e fazer face a qualquer manifestação mais evidente da rebeldia com os recursos próprios, que o reflexo dos futuros acontecimentos do sul muito contribuiriam para o restabelecimento da quietação em toda a província. Da revista que passei ás tropas estacionadas em Loanda (1 bateria de artilharia de montanha e 1 companhia de infantaria 20) e da forma como as vi realisar vários exercícios colhi as melhores impressões, a respeito do seu aprumo, disciplina e instrução.
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Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). O fragmento aqui reproduzido é das páginas 57-63.
Retirado do blog dedicado a Aniceto Monteiro, Matemático, natural de Moçâmedes, exilado político.