Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 28 de abril de 2011

LIVRO: Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa. A fundação da colónia de Mossamedes.


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Transcrevo a seguir algumas passagens deste  Livro  intitulado "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa, Volumes 1-2  por Carlos José Caldeira, na parte que toca aos  primordios da fundação de de Mossâmedes, na fase que medeou entre o estabelecimento das primeiras feitorias até aos 2 e 3 primeiros anos após a chegada dos colonos de Pernambuco (Brasil) em 1849 e 1850.


Fundação da Colónia de Mossamedes e seu actual estado
Cap. XVIII

"...Ainda que não visitei este novo estabelecimento, direi d'elle o que pude colher de varias informações que obtive, e que alcançam até ao fim de 1858. A bahia de Mossamedes, a que os inglezes chamam Litte Fish Bay, jaz em 15° 8' de lat. sul, e 21° 11' de long. a leste de Lisboa. Por ordem do governo foi explorada em 1785 por mar e terra, com vistas de se fazer alli um presidio, o que porém caiu em esquecimento, e só em 1839 o vice-almirante A. M. de Noronha, governando Angola, encarregou de uma nova exploração por mar ao capitão tenente Pedro Alexandrino dá Cunha, ao mesmo tempo que o tenente João Francisco Garcia partia por terra ao mesmo destino. No relatório do primeiro feito em 1840, e na memoria do segundo em 1841 dão curiosas noticias sobre a fertilidade e riqueza dos territórios contíguos para o interior, as quaes todavia parece não serem tão grandes, conforme depois se reconheceu.

Logo em 1840 começou a povoação, e depois ali  se estabeleceram feitorias de negociantes de Angola e Benguella, e se levantou um forte, sendo estes trabalhos continuados em 1841 pelo capitão tenente Francisco Antonio Gonçalves Cardoso (commandante do brigue Tejo alli estacionado), e que penetrou até a Huila, a 60 ou 60 legoas no Interior, onde pela primeira vez fez tremolar a bandeira portugueza.

Foi crescendo o estabelecimento e em Agosto de 1849 alli desembarcaram 165 colonos portuguezes, idos de Pernambuco, sendo 115 homens, 27 mulheres, e 23 menores; levando tres máquinas de engenhos para o fabrico do assucar, e os utensílios respectivos; e em 1850 chegaram mais 80 a 90 colonos, idos da Bahia e do Rio de Janeiro.

Mossamedes constitue hoje um districto, mas por agora verdadeiramente não é mais que um presidio , porque o governador reúne todas as atlribuiçôes militares, judiciaes, e administrativas. E a ultima povoação na parte sul da província d'Angola, assente num areal cercado d'outros, onde poucos dias ha de excessivos calores por causa das constantes virações do sul, regulando a temperatura pela do mez de maio era Portugal. Tem uma nascente de boa agua com partículas férreas: o clima é salubre, e no liltoral da província é o ponto onde melhor vive, e vinga na sua pureza a progénie da raça branca. Não ha chuvas, e a humidade das terras provém das inundações, conservada depois pelos cacimbos, ou névoas baixas, que duram de 4 a 5 mezes.

O fundeadouro e o porto são excellentes, havendo sempre desembarque seguro, mesmo nas maiores calemas. Na bahia abunda prodigiosamente peixe de boa qualidade, do qual fazem salgas e séccas que exportam para Benguella, Loanda, e ainda para o interior.

Os povos próximos criam muitos gados, que já se vão costumando a vender, e os mais distantes os vendem alé mesmo com preferencia á cera e marfim, o que produz muita abundância e barateia de carnes, que se exportam para abastecimento da estação naval , e consumo em Loanda, propondo-se agora alguns especuladores a seccar a carne á maneira do Brasil, o que se pôde tornar um importante ramo de exportação. Um boi grande custa, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que sé pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundância de leite.

D'antes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns se recusam, a vender gados em maior quantidade, porque parece que os tem na mesma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do individuo pelo numero de cabeças que possue. Em algumas partes só matam os bois, e lhes comem a carne por occasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres.
Além dos gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
Nos limites de Mossamedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno Vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de differentes productos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das differentes culturas, pois que ha tres annot tem faltado as grandes inundações , que ferlilisam as terras. Comtudo ha já algumas plantações da canna sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavalleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito intelligente na cultura da canna e fabrico do assucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do districto: a dos Cavalleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veiu do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as maquinas para o descaroçar.

Planta-se a mandioca ou pão commum, que por agora não tem chegado para o consumo; attendendo porém ao incremento que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este anno (1853 ), ou no próximo já possa chegar. Abunda em excellentes hortaliças e bananeiras , produzindo também muito boas uvas; e já vai hayendo algum arvoredo, mas ha muita falta de lenha.
 
Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3 navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
 
Ha uma botica do governo, e um soffrivel hospital, que poderá conter 20 a 85 doentes; mas que de ordinário muito poucos contem, o. que bem prova a salubridade do sitio. Durante o anno de 1852 o maior numero de doentes que alli se reuniu foram 13 , entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias chronicas ; e quando em julho de 1849 visitou aquelle estabelecimento o governador d'Angola Adrião Accacio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre régio, regendo effectivamente a cadeira de instrucção primaria, com 12 discípulos, tendo uma pequena bibliolheca fornecida pelo governo, e apropriada ao ensino da infância. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulas. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população, do que de ordinário se encontra nas colónias d'Africa. Uma parte dos colonos foram casados, e outros se tem casado depois. Em outubro de 1851 foi a Mossamedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de A ngola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esla nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e á igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.  
O governo durante dois annos sustentou todos os colonos que permaneceram no Estabelecimento e se entregaram á cultura, e só lhes suspendeu o subsidio em outubro de 1852, vivendo já todos soffrivelmenta pelo producto do seu trabalho. Até ao fim do dito anno não havia qualidade alguma de imposto, nem direitos d'alfandega, o que parece conveniente continuar até que a còlonia se consolide, e se desenvolva de modo que possa contribuir para as suas despesas publicas, que aliás se limitam a 500/ 000 rs. mensaes, fornecidos pelo cofre de Benguella. Com taes elementos parece que esta colónia devia ter prosperado, e adquirido maior importância; mas  diversas causas tem concorrido para assim não acontecer : a principal talvez foi a má escolha dos colonos, tendo sido em boa parte perdida a grande despesa que o governo de Portugal fez com o transporte d'elles, por serem quasi todos impróprios para uma colónia agrícola, taes como caixeiros, escreventes, logistas, vadios, etc., de modo que em breve tempo desampararam o Estabelecimento, ou foram victimas de doenças, restando hoje poucos, e d'esses os principaes se dedicaram com preferencia ao commercio.

O gosto e dedicação á cultura parece que se tem desenvolvido agora, depois das felizes experiências feitas com a canna da colheita de 1852 , que offereceu o morador e proprietário Fernando Cardoso Guimarães, e que  moeu no engenho que fez montar o governador José Herculano Ferreira da Horta, produzindo assucar de tão boa ou melhor qualidade que o do Brazil, e com o accrescimo pelo menos de 25 por cento sobre a producção ordinária da canna n'aquelle paiz. Vi as amostras d'aquelle assucar que vieram para o conselho ultramarino, nos estados bruto, purgado, refinado, e cristallisado; e dizem que os tres engenhos que foram comprados pelo governo são perfeitos no seu género.

Pelas poucas experiências até agora praticadas, a conclusão geral que se pôde tirar a respeito da cultura em grande, é que será vantajosa a da canna e a do algodão; porém não a do café, que- em vão se tem ensaiado. Em summa Mossamedes está ainda no seu começo, e posto que nos últimos tres annos tenha crescido e melhorado, comtudo carece ainda de muitas diligencias, cuidados, capitães, e espirito emprehendedor.

Vivem próximos a Mossamedes duas tribus de gentios, que pouco tem perdido dos seus hábitos naturaes, e que ainda se podem dizer nómades. Os homens pastoream gados e são máos carregadores ; as mulheres cultivam milho, e uns e outros começaram no meado de 1852 a dar-se á apanha da urzella, que trocam a fazendas, e em janeiro de 1853 se carregaram no brigue Lidador as primeiras 5 a 6:000 arrobas, saídas directamente de Mossamedes para Portugal, sendo esta na opinião de alguns a melhor urzella de toda a província. 

Os sertões de Mossamedes são ainda muito pouco conhecidos, e por isso julgo util transcrever aqui as noticias mais modernas que ha d'elles, as quaes juntas ás que publicou o tenente Garcia e a outras mais antigas, podem conjunctamente fornecer elementos para o conhecimento d'aquelles paizes, no que tanto interessam a geografia e outras sciencias, e os nossos interesses ligados com o futuro d'esta nova colónia. Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes noticias:

Seguindo para o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontram-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vivem de caça e do gado que pastoream. Seguindo também para o nascente a torrente Giraul, encontra-se um estéril deserto, cortado de cordilheiras, em cujos valles ha pequenas  arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, onde o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e muito industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra depos da Umpata. Estes dois valles são susceptíveis de muita -cultura, en'um d'elles ha uma plantação de canna, algodão, e mandioca, pertencente a José Leite. d1 Albuquerque, e já acima mencionada: o clima porém d'estes logares é muito insalubre.
Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a d*
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lo poente jaz o Bumbo), e a sua origem nos largos cam
esquerda & Umpata, Bovado dependente do Jau, c d'ahi á Huila, cujo sova é hamba ou espécie de imperador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Umpata, Bumbo, e todos os cubaesde origem Mondombe, em consequência d'uma revolução que teve logar no corrente século.
O Jau, Umpata, e Huila ficam entre os 14 <e 16° de lat. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilifisimos campos abundantes em pastos, e que produzem bem o "milho, feijão e batata, não porém a canna, por causa do frio, que em maio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, e jul•ga-se que n'ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio commercia com Mossamedes em gados, cêra, e algum marfim.
Da Huila ou do Jau seguindo depois para o nascente encontra-se o Hui, terreno fértil em pastos, mas çêcco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa: a tribu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa.
Caminhando quasi sempre a leste se chega aos Gambos, a umas 00 legoas de Mossamedes, paiz rico em gados, cereaes, e bem povoado", tendo muitos caçadores de elefante e abada.
Todos os povos mencionados, que habilom para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geralmente Munhenhecas, porque cortam a carapinha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, formando ira cabeça uma espécie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado.
Às referidas terras foram vistas pelo dito colono Bernardino, segundo elle diz,-accrescentando que, apesar da diffteuidade de obter informações claras de •gente tão THde, pôde saber mais o seguinte ácevca d'aquelles desconhecidos sertões. ' •
Tomando os Gambos por ponto de partida, ao norte fica Quilata, ao nordeste Quipungo, a leste Molondo, ao sueste Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cnbaesdos Gambos, abundantíssimos em gados.
Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Gamba do Cuanhama, fica o sovado d'este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o sueste já os cafuzes { pretos que negociam com fazendas que vão buscaT a BenguelJa) tem chegado ao Mocusso, abundante mercado de marfim, que se julga distar umas legoas de Mossamedos. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente, a que chamam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambeze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commercio na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa.
Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes.
Por esta rápida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d'estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo seguinte.

Seria muito conveniente dirigir para Mossamedes parte dos emigrados que da Madeira, dos Açores, e de Portugal vão para o Brazil; porém seria talvez ainda de maior conveniência, e mais extensos resultados a colonisação chineza, applicando a este districto e em geral a toda a província d'Angola, o que já disse no capitulo VIII sobre as vantagens que os colonos chins trariam a Moçambique. 

Com o elemento da população chineza, que formoso império portuguez se poderia formar n'esta terra de Africa! Situado no meio d'este vasto continente, teria por limites orientaes e occidentaes os oceanos Indico é Atlântico, separados pela distancia de 600 legoas, e pelo norte e sal (Testa extensa zona iriamos estendendo successivamente a nossa influencia e poder , até dar as mãos á influencia e poder das nações franceza e ingleza, que da Argélia e do Cabo caminham de pontos oppostos para se avizinharem comnosco. Então a civilisaçao europea dominaria em toda a Africa; as montanhas do Atlas, as serras da Lua, os desertos de Sahara, da Núbia, da Lybia, as correntes desconhecidas e mysteriosas do Nilo, do Zaire, do Zambeze, tudo seria transposto pelos prodígios do génio e da industria moderna; e as raças negras arrancadas á bruteza e á superstição, tomariam talvez o logar que lhes compete na escala da humanidade, participando dos seus progressos. "

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Relatório do governador geral da Provincia de Angola: Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes referido ao anno de 1861 (Google eBook)


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Relatorio do governador geral da Provincia de Angola: Sebastiao Lopes de Calheiros e Menezes referido ao anno de 1861 (Google eBook).
Contém inúmeras referências de valor histórico a Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) nas páginas 3-  4- 5- 9- 12- 17- 18- 24- 26- 31- 37- 40- 51- 54- 60- 61- 62- 70- 94- 101- 102- 125- 126- 127- 132- 143- 188- 194- 100- 186- 187- 189- 196- 197- 200- 236- 340- 359- 360- 363- 446- 447

terça-feira, 26 de abril de 2011

Boi-cavalo o meio de tranporte utilizado pelos colonos fundadores de Mossâmedes (Moçâmedes-Angola). 1862.

Legenda:  Colono de Mossamedes montado n'um boi-cavallo




O BOI-CAVALO foi o meio de transporte para montado e tracção adoptado na labuta agrícola nos primórdios da colonização, para além da machila, da tipoia e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas no sul de Angola pelos boers. Sobre o boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas cronicas que à chegada dos colonos, em 1849,  para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

O BOI-CAVALO, ainda muito antes das carroças boers, era o transporte utilizado por alguns colonos fundadores de Mossâmedes, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, nas suas deslocações às Hortas ou à Quinta dos Cavalleiros, como seria o caso de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros. A utilização do boi-cavalo como meio de transporte foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou outros meios de transporte, substituindo-as pelos bois.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":
 
"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere  também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Mossâmedes,  principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica  à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois,  a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.

Outro meio de transporte utilizado era a machila, "...espécie de palanquim suspenso, servido por dous pretos.", é referido pelo mesmo autor:

"...Farei a descripção d'este traste, que faz parte de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em todos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por motivo de retirada, como de fallecimento. A base que serve de assento pôde comparar-se á de um canapé de palhinha, de metro e meio de comprido, e setenta centímetros de largura. N'uma das extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitudinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremidades partem cinco cordões, que atravessam a grade de madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de um metro, a umas argolas que se introduzem em dous ganchos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notável leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de um bambolim, para esconder os arames em que correm duas cortinas de chita adamascada de cores muito vistosas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da tunga e como então o assento fica apenas arredado do chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar para entrar para a machilla, onde se senta com as pernas estendidas, como quem está n'um banho de tina. Os pretos carregadores marcham um diante do outro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeitamente os dous carregadores, e até quem vai dentro d'e11a. Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chibalinha, ou um cacetinho curto, principalmente os carregadores, que parece ao andar equilibrarem-se com elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Alguns usam um pau curto com uma bola na extremidade, e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a grandes distancias tão certeiramente, que chegam a matar caça. A primeira vez que entrei n'uma machilla senti grande repugnância ao vêr-me transportado por dous homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguardado por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a cidade alta. O balanço que se sente ao andar é agradável como o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo este meio de locomoção não deixa também de ter seus inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, ou que a tunga quebra, tem a gente de sofrer não só a queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos à pequena altura entre o chão e o assento da machilla. "



Informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862

MariaNJardim

Talvez interesse este texto  Voz de Angola em Tempo de Ultimato , by Aida Freudenthal

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"



 Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"

"Um brigue brasileiro Feliz Animozo naufragando na peninsula dos Tigres, o capitão e parte da tripulação chegou em uma lancha a Mossamedes reclamando soccorro para salvar vinte e tantas pessoas que ainda tinham ficado na praia. A escuna Nympha, que se achava fundeada em Mossamedes, recebeu o capitão e alguns marinheiros, e fazendo-se de vella para o lugar indicado salvaram o resto da tripulação, a carga que se pode transportar, bem como o massame, e chegando a Mossamedes Pedro Alexandrino da Cunha devendo fazel-a seguir com os objectos salvados para a Alfandega de Loanda, como a unica mais regularmente constitituida em toda aquella costa, praticou totalmente o inverso, fez desembarcar todas as fazendas, e mais artigos do navio naufragado, ficando tudo exposto ás humidades e rigores da estação. Ao mesmo tempo foram esses objectos considerados mais um meio de satisfazer a ambição, e contra os interesses dos carregadores ou dos seguradores foram mandados por á venda em hasta publica na praia de Mossamedes, onde não existia nem sombras d'Alfandega, e nem se quer um commerciante (além do chefe do estabelecimento) que os podesse avaliar ; mas foi por est'arte que o capitão e caixa teve de presenciar a venda de todas as fazendas por um preço insignificantissimo sem que podesse reclamar, e protestar contra tão formal violencia e illegalidade em pura perda dos interessados, por isso que a ordem para a venda delas dimanara do omnipotente Alexandrino, que para esse fim fez desembarcar a guarnição da curveta Izabel do seu commando, e conjunctamente com o destacamento da intitulada fortaleza foram os arrematantes dos salvados, que depois entregaram directa ou indirectamente aos que os haviam mandado representar nesta farça, recebendo mais alguma cousa como lucro da fecticia transação, e por este modo gradualmente satisfeitas todas as ambições."

Imagem colhida na Net.

                                                             *************




NAUFRÁGIO NA BAÍA DOS TIGRES

Encontrei algures esta imagem que sugere o naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo", numa fase imediatamente anterior à fundação de Moçâmedes. Procurando saber o que de facto se passou, encontrei este texto que a seguir transcrevo na íntegra:

Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"
"... O brigue brasileiro Feliz Animozo naufragando na peninsula dos Tigres... O capitão e parte da tripulação chegou em uma lancha a Mossamedes reclamando soccorro para salvar vinte e tantas pessoas que ainda tinham ficado na praia. A escuna Nympha, que se achava fundeada em Mossamedes, recebeu o capitão e alguns marinheiros, e fazendo-se de vella para o lugar indicado salvaram o resto da tripulação, a carga que se pode transportar, bem como o massame, e chegando a Mossamedes Pedro Alexandrino da Cunha devendo fazel-a seguir com os objectos salvados para a Alfandega de Loanda, como a unica mais regularmente constitituida em toda aquella costa, praticou totalmente o inverso, fez desembarcar todas as fazendas, e mais artigos do navio naufragado, ficando tudo exposto ás humidades e rigores da estação. Ao mesmo tempo foram esses objectos considerados mais um meio de satisfazer a ambição, e contra os interesses dos carregadores ou dos seguradores foram mandados por á venda em hasta publica na praia de Mossamedes, onde não existia nem sombras d'Alfandega, e nem se quer um commerciante (além do chefe do estabelecimento) que os podesse avaliar ; mas foi por est'arte que o capitão e caixa teve de presenciar a venda de todas as fazendas por um preço insignificantissimo sem que podesse reclamar, e protestar contra tão formal violencia e illegalidade em pura perda dos interessados, por isso que a ordem para a venda delas dimanara do omnipotente Alexandrino, que para esse fim fez desembarcar a guarnição da curveta Izabel do seu commando, e conjunctamente com o destacamento da intitulada fortaleza foram os arrematantes dos salvados, que depois entregaram directa ou indirectamente aos que os haviam mandado representar nesta farça, recebendo mais alguma cousa como lucro da fecticia transação, e por este modo gradualmente satisfeitas todas as ambições."
In Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior ... Por Joaquim Antonio Menezes
1846, pgs 75 a 94
Imagem colhida na Net.



Nota:
Este livro foi publicado no Rio de Janeiro, em 1848, um ano antes da chegada a Moçâmedes dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, ali desembarcados em 04 de Agosto de 1849, e é mais um livro crítico da acção governamental levada a cabo pelo governo português em relação a Angola. Por esta altura, o governo português procurava, com grande dificuldade e ausência de meios, implementar em Angola o Decreto Lei de 10 de Dezembro de 1836, de Sá da Bandeira, que punha fim ao tráfico escravos, medida acolhida por uns e mal recebida por outros, interessados na continuidade do vil negócio. Na Metrópole tinham chegado ao fim a chamadas "patuleias", ou seja, o conjunto de lutas entre cartistas e setembristas, e viviam-se os derradeiros momentos do cabralismo. Ora, desde a revolução de 1820 em diante, passando pelo triunfo do liberalismo (1934), e pelas disputas que se seguiram no seio do liberalismo, até à Regeneração (1851), os sucessivos governos não conseguiram um momento de paz para poder legislar. E no período que se seguiu todas as atenções foram voltadas para a Metrópole, ficando as colónias praticamente ao abandono. Angola passou a viver uma situação de anarquia governativa que perdurou por todo o constitucionalismo monárquico e se estendeu à implantação da 1ª República, em 1910.

O livro é uma crítica demolidora a esta fase da História de Portugal  em que se assiste à fundação de Moçâmedes, ou seja, a esse período de pré-colonização por que passou a "Angra do Negro»", em que o autor não poupa críticas à acção governativa de figuras  que nos habituamos a ver, em outras obras, aureoladas de grande prestígio, como foi o caso do Comandante da fragata "Isabel Maria" Pedro Alexandrino da Cunha, que participou na exploração da costa do sul de Benguela, e se empenhou na repressão do tráfico ilícito de escravos, sendo nomeado Governador-Geral Província de Angola entre 1845 e 1848, e que surge aqui como um tirano, incompetente, protegido do regime, catalogado de "ultra-setembrista", cuja "vontade tem sido sempre mais soberana que a Lei", não apenas pelo acto acima descrito, mas também por outras situações que o autor atrás referido refere. O mesmo autor avança também algumas referências a outra personalidade ligada a esta fase da formação de Moçâmedes, o "astuto capitão-tenente Francisco António Cardoso,  comandando o brigue Audaz..."
Enfim, sendo a História algo vivo e não estático, a sua compreensão não dispensa uma análise comparada de textos, sobretudo quando sobre um mesmo acontecimento, somos confrontados com duas posições antagónicas, mas cujos factos apontados de uma e de outra parte nos poderão levar a outras leituras, ajudando a compreender um pouco mais, no campo da pesquisa que nos propusermos levar a cabo, sobretudo dessa fase de passagem para um novo paradigma colonial coincidente com a fundação de Moçâmedes.
MariaNJardim


domingo, 17 de abril de 2011

Subsidios para a História do Namibe, Moçâmedes, Mossâmedes, Angola: BERO, o "RIO DAS MORTES"; BERO. o "NILO" de MOSSÂMEDES


Rio Bero, o "Rio das Mortes"

Rio Bero, o "Rio das Mortes" como lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter alli o gentio assassinado o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda  e mais dois marinheiros. Eis o que a este respeito disse Furtado para o governador, barão de Moçâmedes:
"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus,  que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado polo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados qne andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. "  (1)



Rio Bero, o "Nilo" de Moçâmedes

Ainda sobre este rio "de cujas águas brotou a ressurreição de Mossâmedes" (1)  conforme vem referido na obra de José Bento Duarte -Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos- Editorial Estampa - Lisboa – Portugal, foi grande o desapontamento que tiveram os primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos da revolução praieira, quando, ao entrarem na baía de Moçâmedes, a bordo da barca brasileira "Tentativa Feliz",  em 04 de Agosto de 1849,  enxergaram angustiados, as "fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero" e a "monotonia dos areais sem fim" dos quais sobressaia o "recorte severo da fortaleza de S. Fernando", onde lhes estava destinado erguerem os seus novos lares, que de início não foram mais que "meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha". 

O  baixo Bero, de corrente hídrica irregular, de margens bastante largas rodeadas de areia, com uma grande percentagem de aluvião, mantinha quase permanentemente água no subsolo (salvo as devidas proporções) um pouco à semelhança do Rio Nilo. Esta particularidade vai ser fundamental para o nascimento da povoação e para a sua evolução.






Repartindo-se de imediato pelos campos marginais do rio Bero, o "Nilo de Mossamedes", como lhe chamara Bernardino Freire de Abreu e Castro, procuravam os terrenos mais aptos para as culturas, e, informados das suas inundações periódicas, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região e começaram as lides agrícolas, mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante" e esquadrilharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Mas o triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas, as primeiras águas, empurradas do planalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado, o Bero tornou-se numa língua de areias crestadas, com as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco, e dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva, enquanto os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz, remediando-se com cacimbas escavadas nas proximidades ou nos quintais das residências. Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos sobreviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi este o quadro em que a povoação viu, apesar de tudo, ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, provenientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procuravam dar corpo ao projecto português no Sul de Angola. As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílopes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.














O 1º Centenário de Mossâmedes, depois Moçâmedes, hoje Namibe, em Angola: 04.08.1949















 


Para mais notícias sobre este acontecimento:

REPORTAGEM  DO CENTENÀRIO COM FOTOS  AQUI


Boletim Geral das Colónias . XXVI - 296
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias.
Nº 296 - Vol. XXVI, 1950, 224 pags.



domingo, 3 de abril de 2011

PORTUGUESES DE SEGUNDA...

(...)


Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas col
onias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colónias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.


Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.

Texto Integral   In Comunidade Lusófona

terça-feira, 29 de março de 2011

Componentes das 1ª e 2ª Colónias oriundas de Pernambudo (Brasil), e desembarcadas em Moçâmedes nos anos de 1849 e 1850 : Manuel José Alves Bastos e Amélia Torres Bastos ; Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres



                                                                Manuel José Alves Bastos

O casal constituido por Amélia Torres Bastos e Manuel José Alves Bastos, foram componentes das Primeira e  da Segunda Colónias chegadas a Moçâmedes em 1849 e em 1850, idas de Pernambuco, Brasil, em consequência da perseguições aos portugueses que se negavam em abdicar da sua nacionalidade (revolução praeira/mata-marinheiros/independência do Brasil). 

Manuel José Alves Bastos era natural de Fermil, distrito de Vila Real (Trás-os-Montes). Comerciante e proprietário, chegado a Moçâmedes em 4 de Agosto de 1849, juntamente com Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, estabeleceu-se na povoação onde se dedicou ao comércio de marfim e gado, e onde se dedicou à actividades agricola, à pesca ( recebia o peixe dos pescadores algarvios e colocava-o por sua conta, segundo Alfredo Felner) e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos da colónia, na época.


 

 Amélia Torres Bastos

Sobre Amélia Torres Bastos sabemos que faleceu a 12 de Abril de 1896, e seus restos mortais repousam em mausoléu no Cemitério de Moçâmedes, mais tarde Moçâmedes, hoje Namibe. Era filha de Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres, (componentes da Segunda Colónia, cujas fotos podem ser vistas um pouco a seguir). 



Manuel Joaquim Torres (1815-1882)
                                            Maria José da Costa Torres (1827-1912)
 
 


ela Repousa em jazigo de Família, no cemitério de Mossãmedes


Manuel Joaquim Torres e Maria José da Costa Torres (naturais da Ilha de S. Miguel- Açores), componentes da Segunda Colónia de emigrantes idos de Pernambuco (Brasil), chefiada por José Joaquim da Costa , chegaram a Moçâmedes no ano de 1850,  e já eram pessoas endinheiradas quando partiram das terras de Santa Cruz. Em Moçâmedes foram proprietários, entre outros, de uma fazenda na Várzea dos Casados. Seus restos mortais repousam em mausoléu «aristocrático» no Cemitério de Moçâmedes (Namibe), no qual se encontram gravados os seguintes dizeres referenciando Manbuel Joaquim Torres: «Cidadão digno e soldado valente, derramou o seu sangue pugnando pelas liberdades pátrias nas lutas fratícidas de 1822».


A filha que os acompanhou integrando a 2ª colónia, Amélia Torres era casada com Manuel José Alves Bastos, componente da 1ª colónia, comerciante e proprietário que se dedicou ao comércio de marfim e gado, às actividades agrícola com plantações, e também à pesca e à exploração de salinas. Com João Duarte de Almeida, eram os dois homens mais ricos na época. Repousam em jazigo de Família, no cemitério de Moçâmedes.

Para além de Amélia Torres, a filha que os acompanhou na viagem para Moçâmedes,  do casamento de Manuel Joaquim Torres e Maria José Costa, nasceu em Moçâmedes António Florentino Torres, que por sua vez casou com Maria Júlia Mendonça. * 21.06.1866. Estes tiveram a seguinte descendência:

Da união de  Eduardo de Mendonça Torres Maria Salles Lane, iria derivar um dos ramos desta família pioneira da colonização de Moçâmedes  que ali se manteve até às independência de Angola, em 1975.


 Eram netos de António Florentino Torres e de Maria Júlia de Mendonça, bisnetos de Manuel Joaquim Torres (1815-1882) e de Maria José da Costa Torres (1827-1912), um dos casais que,  acompanhados de sua filha Amélia Torres (na foto acima), integraram a 2ª colónia de emigrantes idos de Pernambuco (Brasil) para Moçâmedes, chefiada por José Joaquim da Costa , e que ali chegou no ano de 1850, para se juntar à 1ª colónia chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que havia chegado na Barca «Tentativa Feliz», no dia 04 de Agosto de 1849. Iam dar inicio à colonização do Distrito. Portanto,  faziam parte de uma 3ª geração já nascida em terras de Angola.


A família Mendonça Torres foi durante muito tempo uma das famílias melhor situadas socialmente e materialmente em Moçâmedes. A moradia da familia Mendonça Torres, um primeiro andar de traça classizante portuguesa, dos primeiros a serem ali construídos em Moçâmedes  (1885?), Ficava  num gaveto que convergia com a Rua dos Pescadores e com a Rua 04 de Agosto, próximo do antigo «Jardim da Colónia» (jardim, para o qual esteve projectado um monumento à memória dos fundadores, e que na década de 1940 foi demolido para dar lugar ao Cine Teatro de Moçâmedes).  A referida moradia a partir de determinada altura foi alugada à família Gouveia, passando a funcionar como o Hotel Central. Hoje serve de Museu, onde repousam aquilo que ficou na cidade do Namibe dos «restos do Império»...

Diz quem conheceu que Manuel Joaquim Torres e de Maria José da Costa Torres já eram pessoas endinheiradas quando partiram do Brasil, integrados na 2ª colónia, em 1850. E que o interior desta bela moradia, onde viveram, mantinha as características dos lares das burguesias metropolitanas «aristocratizadas» da época, quer no mobiliário, quer na indumentária das suas femininas representantes. Ali não faltavam quadros a óleo, pratas e cristais cintilantes, o tradicional piano, instrumento que fazia parte da educação de uma menina prendada, e aos serões familiares as senhoras reunidas à volta de uma grande mesa, coziam  à máquina e bordavam ao bastidor, faziam leituras em voz alta, tocavam, cantavam, etc. etc. 



Trata-se do interior de uma das casas mais antigas de Moçâmedes, a casa da familia Torres. 

Deste grupo de sete senhoras, que a foto acima representa, naturalmente já descendentes, em 1991, três ainda viviam: a primeira, a que está sentada à máquina de costura, e a que está sentada ao piano. (vidé foto e descrição, clicando AQUI). Ano provável: 1885.

Não seria por acaso que um viajante estrangeiro manifestou a sua surpresa,  quando em finais do século XIX,  na sua passagem por Mossâmedes, ao passar pelo casario da baixa, pôde ver e ouvir, em casas de familia jovens ao piano a tocar, a cantar e a bordar a bastidor, uma prática muito comum nos serões familiares femininos da época nas burguesias ocidentais.

Aliás, como podemos ver pela transcrição que se segue retirada DAQUI , havia na altura  em Mossâmedes uma determinada burguesia "aristocratizada" que já tinha ao seu dispôr para a educação das filhas, um Colégio e  sabe-se que  até se recorria a preceptoras estrangeiras para a  sua educação:

"... Para encerrar este capítulo, faremos referência muito especial a uma ilustre senhora católica, de origem irlandesa mas educada na França e cujo nome aportuguesado é Henriqueta Deehan.  Miss Herriet (Herreeth) Deehan tinha maneiras muito distintas. (...) 

"...Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram irmãos das suas alunas. »(3)

Ainda sobre a meama Miss Herriet Deehen ou  Henriqueta Deehen, encontramos esta passagem:

«...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossâmedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... » 

Foram estes usos e costumes burgueses "aristocratizados" *, que foram passados para a geração seguinte já nascida em Mossâmedes, e que vemos referidos na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÂO, pg.221 :

«A psicologia de vida alegre e atraente da população deve-se, por altura de 1920, em parte, senão muito, à elite da época, constituida por um interessante elenco de Senhoras já dali naturais, que no exterior, e, especialmente em Londres, concluiram umas o curso de alta-costura, outras o do conservatório de música e dança, formação que, então, passaram a ministrar às jovens dali naturais. A beleza e o fino porte destas jovens encantavam todos aqueles com elas conviviam. Este facto, podia, até há bem pouco tempo, ser atestado pela Senhora Celeste Kressmann Rosa, descendente do Capitão José da Rosa Alcobaça, recentemente falecida com cerca de 100 anos. Várias destas senhoras uniram-se a ilustres figuras de Mpçâmedes.» Neste livro, entre outros, são destacados nomes, como: Maria Sales Lane, casada com Eduardo de Mendonça Torres, economista; Ema Zuzarte Mendonça, solteira, diplomada com o curso do Conservatório de Música de Lisboa, que em Moçâmedes até à década de 50 foi professora particular de Música, Francisca Reis, casada com o Dr. Luiz Bobela da Mota, juiz da comarca; Judith Reis, casada com José Manuel da Costa, Governador Civil de Moçâmedes; Alice Reis, casada com Rogério Morgado, proprietário e filho de emigrante da 2ª colónia, Constantina Reis, casada com Júlio Rogado Leitão, importante comerciante na terra, etc, etc..
Isso talvez explique que Moçâmedes, terra de pescadores, primasse pelas suas mulheres, sempre prontas a aprender as boas regras de etiqueta, a bem receber, vestir, etc. De facto ainda em meados da década de 50, era facilmente detectável nas jovens raparigas da terra a preocupação das mães na sua educação. Eram mães que se dedicavam inteiramente ao lar e à família, e  muitas delas já não eram descendentes dos colonos idos do Brasil, mas daqueles que vieram a seguir, idos, na sua maioria do Algarve e mais propriamente de Olhão que, por mecanismos de imitação social, aprenderam a cultivar algumas dessas qualidades que transmitiam às suas filhas. A partir de finais da década de 50, as raparigas já não tinham tempo para o cultivo dessas «prendas domésticas» que faziam as delícias dos seus admiradores... Com a entrada decisiva da mulher no mundo do trabalho, abriam-se outras perspectivas para as suas vidas...

Acrescenta-se ainda que o culto da arte de bem receber da família Torres foi sendo transmitido de geração em geração, e esteve presente em 1932, quando por ocasião da visita a Moçâmedes do Presidente Óscar Fragoso Carmona, foi servido um almoço na residência de Eduardo Mendonça Torres e de sua esposa, Maria Sales Lane, na Fazenda «Nossa Senhora da Conceição», na zona do rio Bero, conforme se pode ler no Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330:
 

«...Na residência, o Sr. Eduardo Mendonça Torres, sua esposa, Maria Sales Lane Torres, suas gentis filhas, Maria Antónia e Maria Eduarda e demais família, recebiam com extremos de gentileza. O almoço decorreu num ambiente encantador de respeitosa deferência para com o ilustre visitante, Sr. General Óscar Carmona, a quem acompanharam os Srs. Dr. Francisco Vieira Machado, coronel Lopes Mateus, capitão Ferreira de Carvalho e demais pessoas da comitiva. 
A ementa fora «composta» sobre lindos cartões com fotografias de diversos aspectos da Fazenda e que constituíram uma interessante recordação do encantador local, daquela deliciosa festa íntima. O Sr. Eduardo de Mendonça Torres, agradecendo a subida honra que lhe dera o Sr. General Óscar Carmona visitando a Fazenda, disse:(vidé discurso pg, do mesmo Boletim) .

Por sua vez o Presidente da República erguendo-se, afirmou os seus melhores agradecimentos pelas atenções de que fora alvo, e referindo-se ao que na propriedade acabava de ver, disse todo o seu contentamento de português. Depois condecorou o Sr. Eduardo Mendonça Torres com a Ordem de Mérito Agrícola.
Quanto à impressão que causou aos visitantes a Fazenda desta família, fala por si a pena de um dos jornalistas que nessa altura a visitaram:
«Os terrenos, como todos os do vale daquele rio, são férteis, mas ali encontra-se a inteligência e mão do homem a orientar e trabalhar. A visita deixa uma magnifica impressão, pois ali mostram-se em interessante companhia as árvores de frutos tropicais e as que se dão na metrópole. Os talhões de cultura, de alinhamento impecável estão todos aproveitados. A água, que um grande engenho a vapor tira do sub-solo corre, abundante, pelas valas. As ruas, limitadas por filas de árvores de alto porte, são enormes, rectilíneas, circulando à vontade, por entre elas, os automóveis. O jardim, bem tratado, com lindas flores; as dependências, os estábulos de gado de raça, tudo, enfim, que constitui os elementos de uma fazenda agrícola, ali se encontra bem delineado, bem tratado, numa amplitude e num conjunto que prende e encanta.» (vidé mesmo Boletim)

No decurso dessa visita, Eduardo Mendonça Torres acompanhou o Presidente da República na tradicional caçada no deserto de Mossãmedes, onde, no Pico do Azevedo foi servido o pequeno almoço e no local onde faleceu o Dr. Luiz Carriço, - Os morros Paralelos – foi prestada homenagem à memória do professor e naturalista, tendo-se seguido a caçada propriamente dita, com o abate de várias gazelas e guelengues, enquanto operadores cinematográficos filmavam. Ao almoço o General Carmona ergueu um brinde a Eduardo Mendonça Torres, felicitando-o pelo «belo tiro certeiro».(vidé o mesmo Boletim)
Outra figura de destaque desta família foi o Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres, cuja obra “O Distrito de Moçâmedes”, de sua autoria (edição da Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1974 (reprodução fac-similada da edição de 1950), são dois volumes considerados o melhor e mais completo estudo sobre a história do Distrito de Moçâmedes, hoje Namibe. Manuel Júlio de Mendonça Torres, sabe-se também, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossãmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nessa «famosa» Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e que preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e se dedicou a escrever os dois volumes do seu belo livro sobre a História da nossa Terra (*). E onde veio a falecer nos anos 50.


Rui Duarte de Mendonça Torres foi o último gestor dos negócios e bens desta família, nas áreas da indústria pesca e agropecuária.

As «Hortas» da família Torres, junto do terrenos férteis do Rio Bero, eram verdadeiro Oásis em pleno deserto do Namibe, e estavam abertas à visita de todos os moçamedenses que a quisessem visitar. Ali junto ao bonito «challet», onde se estendiam longas fileiras de mesas, à sombra amena de frondosas árvores de frutos tropicais e mediterrânicos: mangueiras, tangerineiras, laranjeiras, nespereiras, goiabeiras, videiras (em latadas), etc., etc., faziam-se piqueniques que ajudavam a preencher, agradavelmente, os fins de semana de muitas famílias, numa terra onde a luta pela vida era o pão nosso de cada dia. Nas «Hortas» da família Mendonça Torres sequer faltava um mini-zoo com vários animais do deserto, cabrinhas de leque, zebras, guelengues, etc., que faziam o encanto de adultos e crianças, sem esquecer o grande tanque cheio de água (bebedouro dos animais) que servia de piscina onde os mais novos se iam banhar. Alí não havia restrições, e as crianças podiam correr, saltar, brincar, trepar às àrvores à vontade, colher frutos, comê-los, e, na hora do regresso a casa, as famílias sempre podiam contar com a graciosa oferta de saborosos frutos. A exploração pecuária desta família situava-se na zona semi-desértica do Caraculo onde, recordo, a família possuíam uma casa de tipo colonial situada no topo de um enorme rochedo granítico.

MariaNJardim

Alguma bibliografia:
-«O Distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Júlio de Mendonça Torres»

-“O Mossamedense”,  nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro
- Boletim da Agência Geral das Colónias : vol xiv : nº 162, pgs. 328 a 330
-GeneallNet

Clicar AQUI para ver: Lista dos 1ºs. colonos chegados a Moçâmedes, provenientes de Pernambuco (Brasil).

Trechos e fotogravuras extraidas do livro «O distrito de Moçâmedes» da autoria do Dr. Manuel Julio de Mandonça Torres.
                                                       


Ainda sobre Manuel José Alves Bastos

Em VIAGENS NA CIMBEBÁSIA / O RIO CUNENE / NOTA DO TRIPLOV PADRE CHARLES DUPARQUET (1879-1880), encontra-se uma referência a dois negociantes de Mossãmedes, um deles de nome Bastos:


Sexta-feira, 30 de Julho. São precisos oito dias para ir do Humbe à Huíla e quinze dias da Huíla a Moçâmedes, mas os carregadores levam ordinariamente quinze dias a fazer esse trajecto. Gastam quatro dias da Huíla e Ongambué, quatro dias de Ongambué ao Hai e dois dias do Hai à Huíla. Seguem sempre o rio Caculovar. Os Portugueses do Huambe não têm vagões; todos os transportes daqui para Moçâmedes se fazem com o auxílio dos carregadores. Estes levam 2.500 reis fortes (cerca de 12 frs. 77 c.) para transportar 2 arrobas (60 libras) de Moçâmedes ao Cunene.

De Moçâmedes a Capangombe há uma boa estrada para carros. Nesta localidade cultiva-se agora muito algodão, café e cana de açúcar. Com este último produto fabrica-se aguardente, muito procurada pelos indígenas. O único comércio do Humbe com Moçâmedes consiste em gado e algum marfim. A importação dos escravos está realmente proibida na Colónia Portuguesa; nenhum escravo pode actualmente ser vendido em Moçâmedes. Os Portugueses do Humbe compram ainda alguns nas tribos vizinhas, mas cedem-nos aos indígenas do Humbe a troco de gado. Compram cada escravo por um barril de aguardente (cerca de 60 frs.) e revendem-nos por três cabeças de gado aos indígenas do Humbe.

 
Estes portugueses são, na sua maioria, pobres e trabalham por conta de dois negociantes de Moçâmedes, os snrs. Narciso e Bastos, aos quais mandam o gado em troca de mercadorias e provisões enviadas por eles.



Mais sobre esta familia,  clicar AQUI

sábado, 26 de março de 2011

" PLANOS E REALIZAÇÕES"(de "SOURREIA" - Jornal "a Huila" nº 754 - (Editorial) - 27 de Agosto de 1955 -


" PLANOS E REALIZAÇÕES"


 Depois de largos anos de quase uma apatia contaminosa e prejudicial, começo o sul de Angola, toda esta vasta e rica região da Huila, a ser olhada com mais carinho, a serem compreendidas as suas necessidades urgentes e imprescindíveis. O planalto da Huila é talvez a melhor região de Angola para a instalação dos colonos chegados da Metrópole distante, satisfazendo em parte o seu problema de excedência demográfica, sem que todavia se possam ou se devam esquecer as necessidades e exigências locais. De clima bastante saudável, esta terra maravilhosa e rica em recursos naturais, encravada no interior sertanejo da negra África, estava como que condenada a continuar nessa aflitiva situação ainda por mais tempo, atrofiando-se e extinguindo-se as boas vontades representadas por esses valorosos e esforçados colonos que há sete dezenas de anos trepararam esforçada e denodadamente esta tão majestosa quanto ardilosa Chela, aqui assentaram arraiais e prosseguiram na luta. E, hoje, é com justificado orgulho e vaidade que todos nós vemos amparados e prosseguindo em acelerado ritmo os sonhos das gentes de antanho, as necessidades imediatas das gentes do presente. Não se podia levar ávante um plano de colonização, de civilização dos naturais instalados ou refugiados no sertão inóspito, sem se procurarem beneficiar e aproveitar convenientemente as condições naturais das diversas regiões, na maioria férteis e fáceis de cultivar. Surgiu então o grandioso plano de irrigação de uma grande parte da região sul, aproveitando-se esses mananciais de água que correm sem proveito, descansada e orgulhosamente superiores à vontade dos homens, mas que muito em breve se precipitarão em cachoeiras ruidosas, movendo poderosos geradores que hão de fornecer energia eléctrica a preços mais acessíveis numa extensa linha, correndo depois então através de canais dirigidos às melhores regiões agrícolas que estavam condenadas a uma fauna agreste, onde reinassem as feras, mas que, mercê da lúcida e boa compreensão de quem nos dirige,se hão-de tornar em magníficos campos de agricultura, onde vivam pacificamente as gentes lusitanas, quer vindas do continente distante, quer os naturais da região, nascidos e criados para a luta e cultivo da terra e que a amam tanto quanto ao que têm de mais querido. Directamente ligado com o problema da irrigação e fornecimento de energia eléctrica para os mais variados usos, desde os industriais aos domésticos, apresentava-se o problema dos transportes que escoassem para o litoral portuário os produtos do interior. As estradas rodoviárias não eram suficientes, nem podiam satisfazer as condições económicas, atendendo ainda às desvantagens que surgem na época das chuvas. Por tal, o Caminho de Ferro de Moçamedes, vindo daquela cidade até á capital do planalto, tinha de seguir mais ávante, atravessando essas regiões agrícolas e pecuárias, indo mesmo além fronteiras, escoando desse modo e em sentidos diversos, não só os produtos do interior de que necessitam as vizinhas colónias estrangeiras, como ainda dando vazão com o mesmo destino, à riqueza piscatória de Moçamedes,Porto Alexandre e Baía dos Tigres. Era um sonho que se alimentava esperançosamente, que se enraizou em todos nós, e que, finalmente, podemos dizer, se realizou. Esses trilhos, largos e metálicos, suportados por resistentes madeiras das nossas florestas, correm pelo interior cortando o seio bravo e espinhoso desta estranha África! Vão-se melhorando as condições de vida das gentes e vão surgindo paralelamente às linhas gémeas, lindas e progressivas populações. Iniciado o plano de irrigação e melhorando o dos transportes, em grande escala e baixo custo, a região da Huila entra decididamente no verdadeiro caminho da exploração agro-pecuária e, consequentemente, no ramo industrial, na transformação e aproveitamento dos produtos naturais,passando da produção e consumo à venda em larga escala para os mercados mundiais, favorecido ainda pela maior capacidade e facilidade de embarque do novo porto acostável de Moçamedes. Hão-de surgir muitas e novas populações, centros de colonização branca; hão-de tomar vulto e desenvolvimento as cidades do sul, mais directamente beneficiadas pelo programa e trabalhos que se estão realizando.Mas toda a Província de Angola será influenciada por esses melhoramentos, beneficiada pelas produções intensas, beneficiada mesmo até certo limite pelo aproveitamento hidro-eléctrico da Matala ou de outras barragens que estão em planos, na transformação eficiente e económica de seus produtos, no desenvolvimento intenso e modernizado das suas indústrias. Venceram-se barreiras, reduziram-se dificuldades, e dia a dia, a nova linha vai avançando; hoje, Vila Artur de Paiva, amanhã Matala e depois, mais além, até á fronteira ! Dia a dia as gentes vibram de entusiasmo e choram de comoçaão e alegria ao ouvirem vibrar o silvo estridente da fogosa máquina, ecoando pelos montes, e ao verem pela primeira vez, sulcando os trilhos metálicos, essa mesma e gigantesca "Garratt", atrelada a modernas e amplas carruagens, a modernos Wagons que transportarão os seus produtos e dar-lhes-ão um melhor nível de vida. Para finalizar, recordemos esta parte do feliz discurso de S. Exa. o Governador-Geral de Angola, Sr. Capitão Silva Carvalho, quando da inauguração do 1º troço da linha sul (na Chibia), no prolongamento do Caminho de Ferro de Moçamedes : ..." Hoje, mais um troço de linha férrea; amanhão, mais uma estrada, mais uma escola,mais uma igreja, um novo cais, novas riquezas extraídas do solo, novas produções arrancadas á terra, novas facilidades aos colonos, novos núcleos de população indígena levada á civilização latino-cristã. E é um novo país que surge, menos rápidamente do que pede o nosso desejo, mas num ritmo seguro, persistente, fatal, de quem apenas prolonga, no espaço e no tempo, as linhas estruturais do nosso destino de Nação".

(de "SOURREIA" - Jornal "a Huila" nº 754 - (Editorial) - 27 de Agosto de 1955  


Sobre o autor: , natural de MOÇÂMEDES (ANGOLA), com ascendência Afro-Luso-Brasileira(Minas Gerais). Frequentou as Escolas Primárias Nº60,“LUÍS DE CAMÕES”,no LUBANGO (SÁ DA BANDEIRA)e Nº 67,"PINHEIRO CHAGAS", na CHIBIA; depois, o Liceu Nacional “DIOGO CÃO”(sendo um dos seus professores o escritor e capitão GASTÃO DE SOUSA DIAS) e o Colégio “INFANTE SAGRES”, em SÁ DA BANDEIRA, (tendo neste como professor, o etnólogo e escritor, padre CARLOS ESTERMANN; mais tarde frequentou o Instituto Industrial de Nova Lisboa (Curso de Química Laboratorial e Industrial -– não concluído). Ainda estudante e, posteriormente, foi colaborador dos seguintes jornais: “A HUILA” (sendo mesmo e durante um certo período, seu redactor, em horas extras), “NOTÍCIAS da HUILA”,“O NAMIBE”,“A VOZ DO PLANALTO”, “A PROVÍNCIA DE ANGOLA” e do “JORNAL DE ANGOLA”, da ASSOCIAÇÃO AFRICANA (em Luanda, de que foi ainda membro da direcção e colaborador da LIGA NACIONAL AFRICANA), usando sempre o seu pseudónimo “Sourreia”. Nos Jogos Florais das “Bodas de Prata” do Liceu “DIOGO CÃO” -(1954)- obteve o 2º lugar (“Malmequer de Prata”) na modalidade de “Prosa” e recebeu ainda a única menção honrosa atribuída na modalidade de “Quadra”. Nessa altura, escreveu e publicou algum tempo mais tarde (1956), com o mesmo pseudónimo, a sua primeira obra literária “ASSIM SOMOS TODOS”. Foi colaborador e fundador do "CENTRO DE TURISMO DA HUILA" e do "NÚCLEO FILATÉLICO DE NOVA LISBOA"; colaborador dos "VICENTINOS" para a recuperação e construção da nova "CASA DOS RAPAZES DE CAMACUPA". Ingressou nos Serviços da Fazenda Pública (Finanças) em 1956 tendo prestado serviço (sucessivamente) em: Nova Lisboa, Luanda, Camacupa, Porto Alexandre, Chinguar, Silva Porto, Bailundo, Nova Lisboa e Camacupa. Em 1974 ingressou no Quadro Geral de Adidos, retirando-se para Portugal na “Ponte Aérea” de Nova Lisboa. Foi ainda colocado na Direcção Distrital de Finanças de Coimbra, tendo-se aposentado posteriormente. Prestou alguma colaboração (em Portugal)ao Jornal “O DIA” (artigos e reportagens) e "O LOBITO"(este um antigo Jornal de ANGOLA)e nalguns outros diários. A partir de 1990 publicou diversas obras literárias sobre a História de Angola: Para saber mais : Blog de Roberto Correia