Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 26 de maio de 2011

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mocuio



 A ponta de Stª Gertrudes divide a praia de Baba da baía do Mucuio (ou da Tartaruga, que é aberta para Noroeste. Na continuidade do Mucuio, navegando para norte, ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Lucira, Vissonga e o Bába. E a sul do Mucuio, a Baía das Pipas, Moçâmedes, Porto Alexandre e a Baía dos Tigres. 


FOI ASSIM QUE TUDO COMEÇOU...




João Thomás da Fonseca (pai)

 
Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste, por volta de 1914


Foto: Quem conheceu João Thomás da Fonseca (pai), o fundador da pescaria do Mucuio não esquece a sua postura, com bigode de ponta retorcida, casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso, indumentaria em conformidade com a sua posição de industrial  bem sucedido.  Na foto, sentado, ao centro, rodeado de amigos, entre os quais Manuel Vaz Pereira (vestido de branco). Data provável: 1920


Foto: Os irmãos Álvaro e João Thomás da Fonseca (filho), filhos do patriarca do Mucuio, com Mucuio à vista...



Tudo começou nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República, em finais do século XIX. Portugal vivia numa verdadeira anarquia, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas,  e  o dinheiro amealhado, estabelecer-se no Mucuio.  E foi ali, naquela praia deserta, pequena e inacessível,  perdida nas escarpas do deserto do Namibe, no distrito de Moçâmedes, a sul de Benguela, onde vales secos substituem rios que ali iam desaguar,  que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu a sua pescaria, requisitou pessoal indígena contratado, comprou os primeiros barcos à vela e a remos,  montou duas armações que para funcionar, precisavam no mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole,  e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então.

A pescaria Mucuio era sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía salinas,  fábrica de farinha de peixe e de conservas,  um pequeno estaleiro, uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do cachucho e da garoupa), e mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe chegaram a ser exportadas em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum, com respectivos rótulos, para o nordeste americano. Dedicava-se  também à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.

Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mucuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir,  com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, motivo de orgulho do industrial, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à  parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha,  duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e  um mirante  a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar  os galeões que entravam e saiam da baía,  fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola, Cabinda, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, recebendo em troca,  bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, e ao mesmo tempo controlar a azáfama da laboração pesqueira.

No Mucuio sequer havia água potável, a água ia de Moçâmedes em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Conta-se que morreu gente no Mucuio, devido à tubagem de cobre das canalizações. A vida dos pioneiros sempre foi rodeada de riscos. A verdade é que a pescaria do Mucuio deu origem à fixação de inúmeros  europeus e africanos na zona, estes entre contratados e livres. Uma comunidade que se desfez após a independência de Angola, em 1975, com o êxodo dos portugueses e não só, em meio a uma guerra fraticída entre movimentos independentistas, na disputa pelo poder, cada uma das quais apoiada por potências mundial interessada e interesseira.


Foto: A pescaria do Mucuio nos seus tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...



Foto: João Thomás da Fonseca (filho) e o gerente, Faria que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.  Em 1º pano giraus ou tarimbas de peixe seco. Atrás as instalações fabris.




Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  rodeado de amigos e de algumas personalidades, incluindo  representantes da Marinha portuguesa, quando faziam uma paragem para descanso, no decurso de uma viagem ao Mucuio, onde possuía a sua pescaria.  Data provável, talvez anos 1920, a chamada "Belle Époque", a ter em conta a indumentária das senhoras. 

Lembro aqui que foi em Moçâmedes, que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, destinado a operações terrestres, face ao receio de uma ofensiva vinda do Sudoeste Africano alemão (hoje Namibia) sobre a região planáltica, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre,  e com o objectivo de submeter populações nativas sublevadas, factos que agitaram sensibilidades e puseram a região em polvorosa. Em consequência,  o porto de Moçâmedes como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito, desempenhou um importante papel. 

Olhando para esta foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais  que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...



 

 

 Foto: Estas são algumas das mais recentes fotos do Mucuio, e da pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o elegante challet, sua imagem de marca, já em estado de decadência..






Mucuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Gostaria de acreditar!

Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.



Pesquisa e texto de MariaNJardim



(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.


Créditos

Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".

As fotos antigas foram publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto). Que me perdoe o João por as ter tirado para o nosso blog!

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Em tempo: Uma meia dúzia de anos após a publicação deste textos e fotos, voltei aqui para colocar esta foto que mostra o aspecto do MUCUIO em 2017 :





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Recuando na História, a primeira pescaria instalada em praias do Namibe foi fundada pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães, em 1843, na sequência de um acordo com "sobas" da região para instalação de colonos, mas tal como outras feitorias,  não teve continuidade. Uns anos após a rainha D. Maria enviava a graça de 1000 anzóis para Moçâmedes, por constatar que era terra de muito peixe.

A colonização propriamente dita das costas de Angola, ao sul de Benguela, teve início apenas em meados do Século XIX, com a fixação de famílias portuguesas, após ter desembarcado em Moçâmedes, em 1849, a primeira "leva" de colonos vindos de Pernambuco (Brasil), que embora dedicados essencialmente à agricultura  (foram eles que lançaram as raízes da agricultura nos vales férteis dos Rios Bero e Giraul), chegaram a possuir de início pequenas pescarias nas praias a norte de Moçâmedes, que estavam entregues a serviçais indígenas.

Segundo relatórios oficiais,  a pesca no Mucuio e na Baia das Pipas foi licenciada em 1854, e em 1857 havia em  Moçâmedes e em mais 4 praias a norte, até à Lucira, 16 pescarias com 40 escaleres, onde trabalhavam 280 escravos. Estranha-se estes dados pouco considerados uma vez que quase todos os escritos históricos apontam o arranque da industria de pesca, em 1861, com a chegada dos primeiros algarvios de Olhão que  às costas de Moçâmedes, viajando em seus próprios barcos à vela. O ponto de chegada era Moçâmedes, imediatamente a seguir, passou a ser também Porto Alexandre, e só alguns anos após, em 1865, a Baía dos Tigres. Segundo referências históricas os colonos de Pernambuco montaram algumas pescarias. porém mas praia a norte de Moçâmedes, ainda antes dos olhanenses se fixaram em tudo quanto eram praias e enseadas desérticas, a norte e a sul de Moçâmedes.  Continuando a residir em Moçâmedes, esses pescarias encontravam-se entregues a serviçais indígenas, os quais passaram a ser mais tarde denominados de "quimbares".


Nessa fase de transição entre 1936, data da publicação do decreto de abolição do tráfico de escravos pelo General Sá da Bandeira,  até 1869, quando o tráfico de escravos que entrara na clandestinidade é definitivamente abolido, sob a acção das marinhas portuguesa e inglesa que patrulhavam a costa, as áreas económicas do distrito, essencialmente agricultura e pescas,  viram-se preteridas do acesso à mão de obra indígena, uma vez que os serviçais apercebendo-se do que estava a passar, escapavam para as suas terras de origem à primeira oportunidade, e foram os algarvios de Olhão que vieram colmatar essa falta, ajudando-os nessa hora de crise.

Os algarvios em relação à pesca tiveram uma adaptação mais feliz que os luso-brasileiros que chegaram a Moçâmedes em 1849 e 1850,  cuja maioria dedicava-se essencialmente à agricultura. Importa ainda referir que foi graças a um factor de grande importância, também ele ligado ao mar, que foi viabilizado o comércio naquela costa remota de Angola, quando os baleeiros americanos que operavam entre a Ilha de Santa Helena e o sul de Angola, descobriram poderem ter na costa de Moçâmedes uma rede de abastecimento de frescos.

A vida era difícil, uma vez que em grande parte das praias onde os portugueses se fixaram não existia água doce disponível, sequer se vislumbrava um ponto verde no horizonte, mas era compensada pela abundância de peixe que era capturado, salgado e seco, e que apesar das difíceis condições, era exportado para algumas colónias africanas, ainda que de início muitas toneladas de produto fossem destruídas, ainda em Angola, devido às condições de tratamento, infiltração de areias, etc.

Com o rodar dos tempos, a indústria pesqueira no distrito de Moçâmedes foi-se desenvolvendo e transformou-se numa indústria próspera. Surgiram fábricas de enlatados, conseguiam preparar óleo e farinha de peixe que exportavam sendo valiosa a ajuda dos Serviços Veterinários que se instalaram em Moçâmedes, veio o negócio do peixe refrigerado e congelado, que era transportado para os consumidores  por caminho-de-ferro.  Em meados do século XX, o grosso das exportações era constituído por peixe seco, seguido pelo peixe em conserva, óleo de peixe, peixe em salmoura e outros produtos – ovas, peles e guano de peixes.

Em 1929  o Sindicato da Industria da Pesca de Moçâmedes  foi criado com o nome de Sindicato de Pesca e Comércio de Moçâmedes, tendo como 1º Presidente o Dr. Carlos Alberto Torres Garcia. Tentava-se com a sua criação debelar a crise que se instalara no sector, na década anterior, devido à crise de mercados de consumo que fizera paralisar o escoamento do peixe que se acumulava nos armazéns, ao ponto de ter sido deitado de novo ao mar. Chegara-se ao ponto do Sindicato ter que dar senhas de crédito aos pequenos industriais/pescadores possuidores de sacadas para pagamento do peixe que lhes ia sendo entregue. Contudo, julgava que com o Sindicato das Pesca os problemas estaria resolvido, não foi isso que aconteceu. Logo após a sua formação geraram-se dois grupos, de industriais/ /exportadores que se «guerreavam» entre si, criando situações complicadas, com a acumulação de dívidas, acções em tribunais, etc. De acordo com a orientação dada ao Sindicato, este não obrigava à sindicalização, e o Conselho Especial de Consulta e Parecer, que o Diploma previa, transformou-se num tribunal de pequenos delitos, originando-se uma situação absolutamente insustentável com exportações arbitrárias, sem qualquer espécie de controlo. O desacordo entre o governo e o grupo dissidente acentuou-se ao ponto de os Sindicatos serem dissolvidos criando-se a Federação dos Sindicatos de Pesca e os industriais//exportadores tomaram o controlo dos sindicatos e continuaram a exportar para o Congo até que o Governo Geral acabou demitindo.
 
Com o aumento das actividades pesqueiras e da importância económica da sua indústria, o Sindicato da Pesca e Comércio de Moçâmedes, criado no ano da grande crise da indústria pesqueira que a todos afectou e que foi decisiva para construção das primeiras fábricas de transformação de peixe em farinha e óleo, foi extinto, e criado em seu lugar, em 1 de Maio de 1949, o Grémio da Indústria da Pesca e seus derivados do Distrito de Moçâmedes, com o fim de organizar a indústria de peixe seco e farinhas e óleos de peixe, que até àquela data, como referia um Relatório, vegetavam ao sabor dos interesses de aventureiros e oportunistas.

 
O Grémio dos Industriais de Pesca viria a extinguir-se também, por força plano da reestruturação da Indústria de Pesca de Angola e a criação do  Instituto das Industrias de Pesca de Angola, com sede em Luanda (DG, 1960), junto do governo, mas distante das zonas de produção, com o fim de orientar e fiscalizar a produção do pescado, a sua transformação e o comércio dos produtos fabricados, coordenar as indústrias de pesca e de transformação afins.


Por sua vez, o Instituto da Pesca de Angola , que teve o Dr. Andrade como 1º Presidente, em 1970 criou as suas «secretarias» regionais, ou seja, Institutos da Pesca nas capitais de distrito dedicados à pesca, tais como Benguela, Porto Amboim e Luanda. facto que levou os industriais do distrito de Moçâmedes a se organizarem, através da criação da Associação dos Industriais de Pesca, só que agora alguns, poucos, ficaram preferivelmente de fora, isolados, como foi o caso de Gaspar Gonçalo Madeira, que exportava individualmente tendo para tal aberto uma empresa independente em Lourenço Marques (finais de 50). peixe seco meia cura e ultimamente congelado.

Em Moçâmedes, a criação do Instituto da Pesca levou consigo parte dos antigos funcionários do Grémio dos Industriais de Pesca, enquanto outros, saíram para trabalhar em Bancos, etc. Na altura da transição foi nomeado pelo Instituto da Pesca de Angola para director do Instituto da Pesca de Moçâmedes, o moçamedense Carlos Manuel Guedes Lisboa, industrial de pesca e funcionário do extinto Grémio da Pesca. Finalmente, Moçâmedes exibia já em vésperas da Independência de Angola (1974), 86 sócios inscritos dedicados à industria da pesca, sendo a seguinte a relação em 31/12/74, conforme vem descrito no livro de Carlos Cristão «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva, Lx 2005:

No seu livro «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva», Lx 2005, Carlos Cristão refere que em vésperas da independência de Angola, em 31/12/74, era a seguinte a relação das empresas industriais dedicadas à pesca em todo o distrito de Moçâmedes, entre as quais figura a de João Thomás da Fonseca & Cª:


A Industrial, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial do Canjeque, Lda. (Moçâmedes/Canjeque)

A Industrial Conserveira do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial de Moçâmedes, Lda. (Moçâmedes)

A Mariquita, Ind. Lda. (Moçâmedes)

Abano & Coimbra, Lda. (Porto Alexandre)

Adérito Augusto Sanches, Lda. (Porto Alexandre)

Agripesca Ind. Lda. (Moçâmedes)

Alvaro Thomás Serra Fernandes (Moçâmedes)

Amadeu Gonçalnes e Neves, Lda. (Moçâmedes)

António Francisco Antunes (Porto Alexandre)

António Francisco Baraço (Herds) (Moçâmedes)

Antunes da Cunha, Lda. (Porto Alexandre)

Associação Industrial de Peixe Seco de Moçâmedes (Moçâmedes)

Barbosa & Santos, Lda. (Porto Alexandre)

Beira Mar, Lda. (Porto Alexandre)

Bento & Irmão, Lda. (Moçâmedes)

Cabrita, Lda. (Baía dos Tigres)

Carmo & Martins, Lda. (Porto Alexandre)

Carvalho Oliveira & Cª (Moçâmedes)

Compª de Pesca Angola, Lda. (Moçâmedes)

Compª Ind. e Com. de Pesca Angola, SARL. ( Cipesca-Moçâmedes)

Compª Ind. Produtos do Mar, SARL (Porto Alexandre)

Compª Alexandrense de Produtos de Pesca (Porto Alexandre)

Cooperativa de Produtos do Mar (Porto Alexandre)

Costa & Silva, Lda.

Dafisilva - DA. Figueiras & Silva, Lda. (Moçâmedes)

Dídio Alceu Pimentel Pacheco (Porto Alexandre)

Duarte & Lourenço, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. Farinhas e Oleos de Peixe, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. e Mercantil de Pescas, SARL (Moçâmedes)

Empresa Ind. do Pinda. Lda. (Moçâmedes)

Empresa de Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Ferreira & Filhos, Lda. (Moçâmedes)

Francisco Baptista (Porto Alexandre)

Herds Dionísio Costa Tavares (Porto Alexandre)

Humberto Sena Tendinha (Porto Alexandre)

Industrial de Peixe Namibe Lda (Luanda)

J. Patrício Correia, Lda (Moçâmedes)

João Duarte Filhos, Lda. (Moçâmedes)

João Thomás da Fonseca & Cª (Moçâmedes)

Joaquim Conceição Camarinha (Moçâmedes)

José Dias Ferreira (Moçâmedes)

José Domingos da Conceição Martins (Porto Alexandre)

José Evangelista Aldeia (Moçâmedes)

José Joaquim Carreiro Correia (Porto Alexandre)

José Venâncio Delgado (Porto Alexandre)

Juventino Ferreira Graça , Lda. (Porto Alexandre)

Mamedes Sucessores, Lda. (Porto Alexandre)

Manuel Martins Ramos (Porto Alexandre)

Manuel Mendes Mamedes, Herds. (Porto Alexandre)

Mário Lino Caldeira (Porto Alexandre)

Marques & Marques, Lda. (Porto Alexandre)

Mercantil Piscativa, Lda. (Porto Alexandre)

Olímpio Mário Aquino, Lda. (Moçamedes)

Parceria de Pesca, Lda. (Moçâmedes)

Pescaria Algarve, Lda. (Porto Alexandre)

Pescarias Namibe, Lda. (Moçâmedes)

Pestana e Carvalho, Lda. (Moçâmedes)

Rogério Napoleão Gonçalves (Porto Alexandre)

Sampaio (Irmãos), Lda. (Porto Alexandre)

Sancho e Arvela, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ango-Algarve, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Armadores das Pescas de Angola, SARL (ARAN - Moçâmedes)

Sociedade Congeladora do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade de Conservas da Lucira, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade de Conservas Sagres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Frigo Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. Alexandrense, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ind. da Baía dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. do Cabo Negro, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. da Vissonga, Lda. (Lucira)

Sociedade de Pesca da Lucira, Lda. (Lucira)

Sociedade Piscatória dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Piscatoria do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sopeixe Ind. SARL. (Porto Alexandre)

Somar, Sociedade de Produtos do Mar, SARL (Moçâmedes)

Sopesca, Sociedade Ang. de Pescarias SARL. (Moçâmedes)

Sul Angolana, Lda (Porto Alexandre)

Tendinha & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Trocado & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Venâncio Guimarães e Compª. (Moçâmedes)

Venâncio Guimarães Sobrinho, Lda. (Moçâmedes)

Veríssimo & Irmão, Lda. (Porto Alexandre)


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Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?




Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.


Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”.


É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida naquele local e, por definição e determinação filológica, não desfruta de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano.


Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.


Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio.


Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. 


Vejamos em seguida a posição sobre o mesmo assunto de um outro neto do mesmo fundador, João Thomás da Fonseca:


"...Não quero ser polémico nem contestar ninguém mas pela experiência que tive da minha vivência de Àfrica, embora não sendo filólogo ou especialista em línguas, faz-me mais sentido que se escreva com “Mu”, pela simples razão que é um prefixo usado para definir o nome de uma raça humana no sul de Angola ou o nome de árvores. Dou alguns exemplos.
Àrvores:- Mucuio (figueira brava), Mulemba, Mucua, Muthiati e por aí além.
Raças humanas:-
Mucubal, 
MuMhuíla, Mudimba,
Mucuanhama,
Mukancala, etc.
Possivelmente o meu avô João Thomaz tenha usado a forma aportuguesada, pois realmente toda a louça do nosso chalet está com o nome MOCUIO.
Obrigado pela oportunidade de poder dar a minha opinião. "









VER VIDEO MUCUIO HOJE


Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html


  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

quinta-feira, 28 de abril de 2011

LIVRO: Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa. A fundação da colónia de Mossamedes.


Capa

Clicar sobre o livro para lêr

Transcrevo a seguir algumas passagens deste  Livro  intitulado "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa, Volumes 1-2  por Carlos José Caldeira, na parte que toca aos  primordios da fundação de de Mossâmedes, na fase que medeou entre o estabelecimento das primeiras feitorias até aos 2 e 3 primeiros anos após a chegada dos colonos de Pernambuco (Brasil) em 1849 e 1850.


Fundação da Colónia de Mossamedes e seu actual estado
Cap. XVIII

"...Ainda que não visitei este novo estabelecimento, direi d'elle o que pude colher de varias informações que obtive, e que alcançam até ao fim de 1858. A bahia de Mossamedes, a que os inglezes chamam Litte Fish Bay, jaz em 15° 8' de lat. sul, e 21° 11' de long. a leste de Lisboa. Por ordem do governo foi explorada em 1785 por mar e terra, com vistas de se fazer alli um presidio, o que porém caiu em esquecimento, e só em 1839 o vice-almirante A. M. de Noronha, governando Angola, encarregou de uma nova exploração por mar ao capitão tenente Pedro Alexandrino dá Cunha, ao mesmo tempo que o tenente João Francisco Garcia partia por terra ao mesmo destino. No relatório do primeiro feito em 1840, e na memoria do segundo em 1841 dão curiosas noticias sobre a fertilidade e riqueza dos territórios contíguos para o interior, as quaes todavia parece não serem tão grandes, conforme depois se reconheceu.

Logo em 1840 começou a povoação, e depois ali  se estabeleceram feitorias de negociantes de Angola e Benguella, e se levantou um forte, sendo estes trabalhos continuados em 1841 pelo capitão tenente Francisco Antonio Gonçalves Cardoso (commandante do brigue Tejo alli estacionado), e que penetrou até a Huila, a 60 ou 60 legoas no Interior, onde pela primeira vez fez tremolar a bandeira portugueza.

Foi crescendo o estabelecimento e em Agosto de 1849 alli desembarcaram 165 colonos portuguezes, idos de Pernambuco, sendo 115 homens, 27 mulheres, e 23 menores; levando tres máquinas de engenhos para o fabrico do assucar, e os utensílios respectivos; e em 1850 chegaram mais 80 a 90 colonos, idos da Bahia e do Rio de Janeiro.

Mossamedes constitue hoje um districto, mas por agora verdadeiramente não é mais que um presidio , porque o governador reúne todas as atlribuiçôes militares, judiciaes, e administrativas. E a ultima povoação na parte sul da província d'Angola, assente num areal cercado d'outros, onde poucos dias ha de excessivos calores por causa das constantes virações do sul, regulando a temperatura pela do mez de maio era Portugal. Tem uma nascente de boa agua com partículas férreas: o clima é salubre, e no liltoral da província é o ponto onde melhor vive, e vinga na sua pureza a progénie da raça branca. Não ha chuvas, e a humidade das terras provém das inundações, conservada depois pelos cacimbos, ou névoas baixas, que duram de 4 a 5 mezes.

O fundeadouro e o porto são excellentes, havendo sempre desembarque seguro, mesmo nas maiores calemas. Na bahia abunda prodigiosamente peixe de boa qualidade, do qual fazem salgas e séccas que exportam para Benguella, Loanda, e ainda para o interior.

Os povos próximos criam muitos gados, que já se vão costumando a vender, e os mais distantes os vendem alé mesmo com preferencia á cera e marfim, o que produz muita abundância e barateia de carnes, que se exportam para abastecimento da estação naval , e consumo em Loanda, propondo-se agora alguns especuladores a seccar a carne á maneira do Brasil, o que se pôde tornar um importante ramo de exportação. Um boi grande custa, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que sé pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundância de leite.

D'antes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns se recusam, a vender gados em maior quantidade, porque parece que os tem na mesma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do individuo pelo numero de cabeças que possue. Em algumas partes só matam os bois, e lhes comem a carne por occasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres.
Além dos gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
Nos limites de Mossamedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno Vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de differentes productos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das differentes culturas, pois que ha tres annot tem faltado as grandes inundações , que ferlilisam as terras. Comtudo ha já algumas plantações da canna sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavalleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito intelligente na cultura da canna e fabrico do assucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do districto: a dos Cavalleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veiu do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as maquinas para o descaroçar.

Planta-se a mandioca ou pão commum, que por agora não tem chegado para o consumo; attendendo porém ao incremento que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este anno (1853 ), ou no próximo já possa chegar. Abunda em excellentes hortaliças e bananeiras , produzindo também muito boas uvas; e já vai hayendo algum arvoredo, mas ha muita falta de lenha.
 
Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3 navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
 
Ha uma botica do governo, e um soffrivel hospital, que poderá conter 20 a 85 doentes; mas que de ordinário muito poucos contem, o. que bem prova a salubridade do sitio. Durante o anno de 1852 o maior numero de doentes que alli se reuniu foram 13 , entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias chronicas ; e quando em julho de 1849 visitou aquelle estabelecimento o governador d'Angola Adrião Accacio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre régio, regendo effectivamente a cadeira de instrucção primaria, com 12 discípulos, tendo uma pequena bibliolheca fornecida pelo governo, e apropriada ao ensino da infância. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulas. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população, do que de ordinário se encontra nas colónias d'Africa. Uma parte dos colonos foram casados, e outros se tem casado depois. Em outubro de 1851 foi a Mossamedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de A ngola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esla nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e á igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.  
O governo durante dois annos sustentou todos os colonos que permaneceram no Estabelecimento e se entregaram á cultura, e só lhes suspendeu o subsidio em outubro de 1852, vivendo já todos soffrivelmenta pelo producto do seu trabalho. Até ao fim do dito anno não havia qualidade alguma de imposto, nem direitos d'alfandega, o que parece conveniente continuar até que a còlonia se consolide, e se desenvolva de modo que possa contribuir para as suas despesas publicas, que aliás se limitam a 500/ 000 rs. mensaes, fornecidos pelo cofre de Benguella. Com taes elementos parece que esta colónia devia ter prosperado, e adquirido maior importância; mas  diversas causas tem concorrido para assim não acontecer : a principal talvez foi a má escolha dos colonos, tendo sido em boa parte perdida a grande despesa que o governo de Portugal fez com o transporte d'elles, por serem quasi todos impróprios para uma colónia agrícola, taes como caixeiros, escreventes, logistas, vadios, etc., de modo que em breve tempo desampararam o Estabelecimento, ou foram victimas de doenças, restando hoje poucos, e d'esses os principaes se dedicaram com preferencia ao commercio.

O gosto e dedicação á cultura parece que se tem desenvolvido agora, depois das felizes experiências feitas com a canna da colheita de 1852 , que offereceu o morador e proprietário Fernando Cardoso Guimarães, e que  moeu no engenho que fez montar o governador José Herculano Ferreira da Horta, produzindo assucar de tão boa ou melhor qualidade que o do Brazil, e com o accrescimo pelo menos de 25 por cento sobre a producção ordinária da canna n'aquelle paiz. Vi as amostras d'aquelle assucar que vieram para o conselho ultramarino, nos estados bruto, purgado, refinado, e cristallisado; e dizem que os tres engenhos que foram comprados pelo governo são perfeitos no seu género.

Pelas poucas experiências até agora praticadas, a conclusão geral que se pôde tirar a respeito da cultura em grande, é que será vantajosa a da canna e a do algodão; porém não a do café, que- em vão se tem ensaiado. Em summa Mossamedes está ainda no seu começo, e posto que nos últimos tres annos tenha crescido e melhorado, comtudo carece ainda de muitas diligencias, cuidados, capitães, e espirito emprehendedor.

Vivem próximos a Mossamedes duas tribus de gentios, que pouco tem perdido dos seus hábitos naturaes, e que ainda se podem dizer nómades. Os homens pastoream gados e são máos carregadores ; as mulheres cultivam milho, e uns e outros começaram no meado de 1852 a dar-se á apanha da urzella, que trocam a fazendas, e em janeiro de 1853 se carregaram no brigue Lidador as primeiras 5 a 6:000 arrobas, saídas directamente de Mossamedes para Portugal, sendo esta na opinião de alguns a melhor urzella de toda a província. 

Os sertões de Mossamedes são ainda muito pouco conhecidos, e por isso julgo util transcrever aqui as noticias mais modernas que ha d'elles, as quaes juntas ás que publicou o tenente Garcia e a outras mais antigas, podem conjunctamente fornecer elementos para o conhecimento d'aquelles paizes, no que tanto interessam a geografia e outras sciencias, e os nossos interesses ligados com o futuro d'esta nova colónia. Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes noticias:

Seguindo para o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontram-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vivem de caça e do gado que pastoream. Seguindo também para o nascente a torrente Giraul, encontra-se um estéril deserto, cortado de cordilheiras, em cujos valles ha pequenas  arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, onde o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e muito industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra depos da Umpata. Estes dois valles são susceptíveis de muita -cultura, en'um d'elles ha uma plantação de canna, algodão, e mandioca, pertencente a José Leite. d1 Albuquerque, e já acima mencionada: o clima porém d'estes logares é muito insalubre.
Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a d*
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lo poente jaz o Bumbo), e a sua origem nos largos cam
esquerda & Umpata, Bovado dependente do Jau, c d'ahi á Huila, cujo sova é hamba ou espécie de imperador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Umpata, Bumbo, e todos os cubaesde origem Mondombe, em consequência d'uma revolução que teve logar no corrente século.
O Jau, Umpata, e Huila ficam entre os 14 <e 16° de lat. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilifisimos campos abundantes em pastos, e que produzem bem o "milho, feijão e batata, não porém a canna, por causa do frio, que em maio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, e jul•ga-se que n'ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio commercia com Mossamedes em gados, cêra, e algum marfim.
Da Huila ou do Jau seguindo depois para o nascente encontra-se o Hui, terreno fértil em pastos, mas çêcco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa: a tribu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa.
Caminhando quasi sempre a leste se chega aos Gambos, a umas 00 legoas de Mossamedes, paiz rico em gados, cereaes, e bem povoado", tendo muitos caçadores de elefante e abada.
Todos os povos mencionados, que habilom para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geralmente Munhenhecas, porque cortam a carapinha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, formando ira cabeça uma espécie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado.
Às referidas terras foram vistas pelo dito colono Bernardino, segundo elle diz,-accrescentando que, apesar da diffteuidade de obter informações claras de •gente tão THde, pôde saber mais o seguinte ácevca d'aquelles desconhecidos sertões. ' •
Tomando os Gambos por ponto de partida, ao norte fica Quilata, ao nordeste Quipungo, a leste Molondo, ao sueste Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cnbaesdos Gambos, abundantíssimos em gados.
Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Gamba do Cuanhama, fica o sovado d'este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o sueste já os cafuzes { pretos que negociam com fazendas que vão buscaT a BenguelJa) tem chegado ao Mocusso, abundante mercado de marfim, que se julga distar umas legoas de Mossamedos. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente, a que chamam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambeze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commercio na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa.
Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes.
Por esta rápida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d'estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo seguinte.

Seria muito conveniente dirigir para Mossamedes parte dos emigrados que da Madeira, dos Açores, e de Portugal vão para o Brazil; porém seria talvez ainda de maior conveniência, e mais extensos resultados a colonisação chineza, applicando a este districto e em geral a toda a província d'Angola, o que já disse no capitulo VIII sobre as vantagens que os colonos chins trariam a Moçambique. 

Com o elemento da população chineza, que formoso império portuguez se poderia formar n'esta terra de Africa! Situado no meio d'este vasto continente, teria por limites orientaes e occidentaes os oceanos Indico é Atlântico, separados pela distancia de 600 legoas, e pelo norte e sal (Testa extensa zona iriamos estendendo successivamente a nossa influencia e poder , até dar as mãos á influencia e poder das nações franceza e ingleza, que da Argélia e do Cabo caminham de pontos oppostos para se avizinharem comnosco. Então a civilisaçao europea dominaria em toda a Africa; as montanhas do Atlas, as serras da Lua, os desertos de Sahara, da Núbia, da Lybia, as correntes desconhecidas e mysteriosas do Nilo, do Zaire, do Zambeze, tudo seria transposto pelos prodígios do génio e da industria moderna; e as raças negras arrancadas á bruteza e á superstição, tomariam talvez o logar que lhes compete na escala da humanidade, participando dos seus progressos. "

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Relatório do governador geral da Provincia de Angola: Sebastião Lopes de Calheiros e Menezes referido ao anno de 1861 (Google eBook)


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Relatorio do governador geral da Provincia de Angola: Sebastiao Lopes de Calheiros e Menezes referido ao anno de 1861 (Google eBook).
Contém inúmeras referências de valor histórico a Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) nas páginas 3-  4- 5- 9- 12- 17- 18- 24- 26- 31- 37- 40- 51- 54- 60- 61- 62- 70- 94- 101- 102- 125- 126- 127- 132- 143- 188- 194- 100- 186- 187- 189- 196- 197- 200- 236- 340- 359- 360- 363- 446- 447

terça-feira, 26 de abril de 2011

Boi-cavalo o meio de tranporte utilizado pelos colonos fundadores de Mossâmedes (Moçâmedes-Angola). 1862.

Legenda:  Colono de Mossamedes montado n'um boi-cavallo




O BOI-CAVALO foi o meio de transporte para montado e tracção adoptado na labuta agrícola nos primórdios da colonização, para além da machila, da tipoia e das carroças puxadas por manadas de bois, introduzidas no sul de Angola pelos boers. Sobre o boi-cavalo conta Bernardino Abreu e Castro numa das suas cronicas que à chegada dos colonos, em 1849,  para procederem à distribuição e medição dos terrenos as autoridades, sob o rigor do sol, percorriam-nos montados em bois-cavalos. E Ponce Leão escrevia no Jornal de Mossâmedes em 1884 que Francisco Maia Barreto, da 1ª colonia de 1849, sempre que havia eleições dirigia-se de véspera escarchado no seu boi-cavalo até às Hortas e Quipola, onde arengava profusamente aos agricultores para obter votação em determinada lista, e no dia seguinte entrava na vila com ar triunfante sob espessa nuvem de poeira, à frente de um esquadrão de 30 a 40 cavaleiros que seriam, como supunha, outros tantos votantes da mesma lista, montados em belos e ligeiros bois-cavalos que abundavam na região.

O BOI-CAVALO, ainda muito antes das carroças boers, era o transporte utilizado por alguns colonos fundadores de Mossâmedes, vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849 e 1850, nas suas deslocações às Hortas ou à Quinta dos Cavalleiros, como seria o caso de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

A designação boi-cavalo causava uma certa sensação de surpresa no visitante que, chegado à povoação, se persuadia de ir ver um animal de nova espécie, produto híbrido da raça bovina e cavalar, quando na realidade se tratava de um boi, como tantos outros. A utilização do boi-cavalo como meio de transporte foi uma prática comum a muitos povos de África e foi seguida pelos colonos que se viam obrigados a percorrer grandes distancias, sem terem acesso a cavalos ou outros meios de transporte, substituindo-as pelos bois.

Segue um texto a este respeito retirado do livro "45 dias em Angola":
 
"...Não é pelo aspecto da Villa e do terreno, que a circunda, que se deve ajuizar da importância de Mossamedes como colónia agricola: para isso teriamos de nos entranharmos para o interior; mas como aqui viemos só para nos restabelecermos de um incommodo febril, que nos accommeteu em Loanda, contentar-nos-hemos de montar um boi-cavallo, e ir até ás Hortas e à quinta dos Cavalleiros. Este nome de — boi-cavallo — produz certa sensação no viajante, que se persuade ir ver um animal de nova espécie, producto hybrido da raça bovina e cavallar. Logo me desenganei quando vi que o exemplar que me apresentaram nenhuma diferença fazia dos outros bois. Como os colonos se viam obrigados a fazer grandes digressões, e não tinham cavalgaduras, o que ainda hoje lhes acontece, resolveram imitar o exemplo de muitos povos da costa, e do interior da Africa, substituindo-as pelos bois. Quasi todos os proprietários da Praia, principalmente os donos de quintas ou hortas, tem o seu boi-cavallo. Escolhem de preferencia para esse effeito os bois mochos, furam-lhes a membrana que separa as ventas, e introduzem n'esse furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quasi igual à dos cavallos, e por esse meio os governam e lhes reprimem os ímpetos. Um sellote com retranca, ou sellim razo com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado que está affeito a este serviço anda com uma velocidade pouco própria do — passo do boi — . Percorri umas sete léguas n'esses bois, e a sua andadura não me pareceu peor do que a de um cavallo; mas a espora e o chicote tem de trabalhar continua-mente para lhes recordar o seu dever. Já que temos cavalgaduras, vamos até ás Hortas, que é um passeio que quem vai a Mossamedes não deve deixar de dar. "

Refere  também o autor do livro "45 Dias em Angola" , 1862, que quasi todos os proprietários da "Praia", designação que os moradores davam à povoação de Mossâmedes,  principalmente os donos de quintas ou hortas, tinham o seu boi-cavalo, escolhendo de preferência para esse efeito bois machos, furando-lhes a membrana que separa as narinas e introduzindo no furo uma espécie de bridão de uma só peça, preso a uma cabeçada quase idêntica  à dos cavalos, e por esse meio os orientam e lhes reprimem os ímpetos. Um selote com retranca, ou selim raso com rabicho, é o arreio ordinário em que montam homens e senhoras. O gado afeito a este serviço, andava com uma velocidade pouco própria do passo do boi e, como refere o autor após ter percorrido umas sete léguas nesses bois,  a sua andadura não lhe pareceu pior do que a de um cavalo, sendo contudo que a espora e o chicote tem de trabalhar continuamente para os fazer avançar.

Outro meio de transporte utilizado era a machila, "...espécie de palanquim suspenso, servido por dous pretos.", é referido pelo mesmo autor:

"...Farei a descripção d'este traste, que faz parte de todas as mobilias, e que não deixa de apparecer em todos os leilões, que frequentemente se fazem, tanto por motivo de retirada, como de fallecimento. A base que serve de assento pôde comparar-se á de um canapé de palhinha, de metro e meio de comprido, e setenta centímetros de largura. N'uma das extremidades, mas de um só lado, e no sentido longitudinal, tem um apoio tal qual o dos nossos camapés, para servir d'encosto ao braço. De cada uma das extremidades partem cinco cordões, que atravessam a grade de madeira, e vão reunir-se, na altura de pouco mais de um metro, a umas argolas que se introduzem em dous ganchos fixados n'um tronco de palmeira, a que chamam tunga, e que é digna de reparo pela sua solidez e notável leveza. Sobre ella prende um docel, de dimensões pouco maiores que as da base, guarnecido em volta de um bambolim, para esconder os arames em que correm duas cortinas de chita adamascada de cores muito vistosas. Os pretos põe aos hombros as extremidades da tunga e como então o assento fica apenas arredado do chão uns trinta centímetros, tem a gente de se baixar para entrar para a machilla, onde se senta com as pernas estendidas, como quem está n'um banho de tina. Os pretos carregadores marcham um diante do outro, mas nunca de modo que o de traz siga as pisadas do que vai na frente. Quem estiver no meio d' uma rua e veja ir uma machilla diante de si, descobre perfeitamente os dous carregadores, e até quem vai dentro d'e11a. Os pretos gostam muito de trazer na mão uma chibalinha, ou um cacetinho curto, principalmente os carregadores, que parece ao andar equilibrarem-se com elle, levando-o de braço erguido como uma espada. Alguns usam um pau curto com uma bola na extremidade, e que nas suas mãos é uma arma terrivel, atirando-a a grandes distancias tão certeiramente, que chegam a matar caça. A primeira vez que entrei n'uma machilla senti grande repugnância ao vêr-me transportado por dous homens alagados em suor, tremendo-lhes as pernas, com o corpo exposto ao sol ardente, apenas resguardado por uma tanga, e com os hombros retalhados pelo varal : saltei indignado fora d'ella, e segui a pé para a cidade alta. O balanço que se sente ao andar é agradável como o de um catre, a bordo de uma embarcação; comtudo este meio de locomoção não deixa também de ter seus inconvenientes. Se por ventura um prelo tropeça e cáe, ou que a tunga quebra, tem a gente de sofrer não só a queda, mas também a pancada do varal n'um hombro, ou na cabeça. Já não fallo nos terríveis encontrões que se leva ao subir as fortes rampas da cidade alta, devidos à pequena altura entre o chão e o assento da machilla. "



Informações colhidas in "Quarenta e cinco dias em Angola. Apontamentos de viagem", de autor desconhecido, editado em 1862

MariaNJardim

Talvez interesse este texto  Voz de Angola em Tempo de Ultimato , by Aida Freudenthal

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"



 Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"

"Um brigue brasileiro Feliz Animozo naufragando na peninsula dos Tigres, o capitão e parte da tripulação chegou em uma lancha a Mossamedes reclamando soccorro para salvar vinte e tantas pessoas que ainda tinham ficado na praia. A escuna Nympha, que se achava fundeada em Mossamedes, recebeu o capitão e alguns marinheiros, e fazendo-se de vella para o lugar indicado salvaram o resto da tripulação, a carga que se pode transportar, bem como o massame, e chegando a Mossamedes Pedro Alexandrino da Cunha devendo fazel-a seguir com os objectos salvados para a Alfandega de Loanda, como a unica mais regularmente constitituida em toda aquella costa, praticou totalmente o inverso, fez desembarcar todas as fazendas, e mais artigos do navio naufragado, ficando tudo exposto ás humidades e rigores da estação. Ao mesmo tempo foram esses objectos considerados mais um meio de satisfazer a ambição, e contra os interesses dos carregadores ou dos seguradores foram mandados por á venda em hasta publica na praia de Mossamedes, onde não existia nem sombras d'Alfandega, e nem se quer um commerciante (além do chefe do estabelecimento) que os podesse avaliar ; mas foi por est'arte que o capitão e caixa teve de presenciar a venda de todas as fazendas por um preço insignificantissimo sem que podesse reclamar, e protestar contra tão formal violencia e illegalidade em pura perda dos interessados, por isso que a ordem para a venda delas dimanara do omnipotente Alexandrino, que para esse fim fez desembarcar a guarnição da curveta Izabel do seu commando, e conjunctamente com o destacamento da intitulada fortaleza foram os arrematantes dos salvados, que depois entregaram directa ou indirectamente aos que os haviam mandado representar nesta farça, recebendo mais alguma cousa como lucro da fecticia transação, e por este modo gradualmente satisfeitas todas as ambições."

Imagem colhida na Net.

                                                             *************




NAUFRÁGIO NA BAÍA DOS TIGRES

Encontrei algures esta imagem que sugere o naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo", numa fase imediatamente anterior à fundação de Moçâmedes. Procurando saber o que de facto se passou, encontrei este texto que a seguir transcrevo na íntegra:

Naufrágio na Península dos Tigres (Baía dos Tigres), do brigue brasileiro "Feliz Animozo"
"... O brigue brasileiro Feliz Animozo naufragando na peninsula dos Tigres... O capitão e parte da tripulação chegou em uma lancha a Mossamedes reclamando soccorro para salvar vinte e tantas pessoas que ainda tinham ficado na praia. A escuna Nympha, que se achava fundeada em Mossamedes, recebeu o capitão e alguns marinheiros, e fazendo-se de vella para o lugar indicado salvaram o resto da tripulação, a carga que se pode transportar, bem como o massame, e chegando a Mossamedes Pedro Alexandrino da Cunha devendo fazel-a seguir com os objectos salvados para a Alfandega de Loanda, como a unica mais regularmente constitituida em toda aquella costa, praticou totalmente o inverso, fez desembarcar todas as fazendas, e mais artigos do navio naufragado, ficando tudo exposto ás humidades e rigores da estação. Ao mesmo tempo foram esses objectos considerados mais um meio de satisfazer a ambição, e contra os interesses dos carregadores ou dos seguradores foram mandados por á venda em hasta publica na praia de Mossamedes, onde não existia nem sombras d'Alfandega, e nem se quer um commerciante (além do chefe do estabelecimento) que os podesse avaliar ; mas foi por est'arte que o capitão e caixa teve de presenciar a venda de todas as fazendas por um preço insignificantissimo sem que podesse reclamar, e protestar contra tão formal violencia e illegalidade em pura perda dos interessados, por isso que a ordem para a venda delas dimanara do omnipotente Alexandrino, que para esse fim fez desembarcar a guarnição da curveta Izabel do seu commando, e conjunctamente com o destacamento da intitulada fortaleza foram os arrematantes dos salvados, que depois entregaram directa ou indirectamente aos que os haviam mandado representar nesta farça, recebendo mais alguma cousa como lucro da fecticia transação, e por este modo gradualmente satisfeitas todas as ambições."
In Demonstração geografica e politica do territorio portuguez na Guiné inferior ... Por Joaquim Antonio Menezes
1846, pgs 75 a 94
Imagem colhida na Net.



Nota:
Este livro foi publicado no Rio de Janeiro, em 1848, um ano antes da chegada a Moçâmedes dos primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, ali desembarcados em 04 de Agosto de 1849, e é mais um livro crítico da acção governamental levada a cabo pelo governo português em relação a Angola. Por esta altura, o governo português procurava, com grande dificuldade e ausência de meios, implementar em Angola o Decreto Lei de 10 de Dezembro de 1836, de Sá da Bandeira, que punha fim ao tráfico escravos, medida acolhida por uns e mal recebida por outros, interessados na continuidade do vil negócio. Na Metrópole tinham chegado ao fim a chamadas "patuleias", ou seja, o conjunto de lutas entre cartistas e setembristas, e viviam-se os derradeiros momentos do cabralismo. Ora, desde a revolução de 1820 em diante, passando pelo triunfo do liberalismo (1934), e pelas disputas que se seguiram no seio do liberalismo, até à Regeneração (1851), os sucessivos governos não conseguiram um momento de paz para poder legislar. E no período que se seguiu todas as atenções foram voltadas para a Metrópole, ficando as colónias praticamente ao abandono. Angola passou a viver uma situação de anarquia governativa que perdurou por todo o constitucionalismo monárquico e se estendeu à implantação da 1ª República, em 1910.

O livro é uma crítica demolidora a esta fase da História de Portugal  em que se assiste à fundação de Moçâmedes, ou seja, a esse período de pré-colonização por que passou a "Angra do Negro»", em que o autor não poupa críticas à acção governativa de figuras  que nos habituamos a ver, em outras obras, aureoladas de grande prestígio, como foi o caso do Comandante da fragata "Isabel Maria" Pedro Alexandrino da Cunha, que participou na exploração da costa do sul de Benguela, e se empenhou na repressão do tráfico ilícito de escravos, sendo nomeado Governador-Geral Província de Angola entre 1845 e 1848, e que surge aqui como um tirano, incompetente, protegido do regime, catalogado de "ultra-setembrista", cuja "vontade tem sido sempre mais soberana que a Lei", não apenas pelo acto acima descrito, mas também por outras situações que o autor atrás referido refere. O mesmo autor avança também algumas referências a outra personalidade ligada a esta fase da formação de Moçâmedes, o "astuto capitão-tenente Francisco António Cardoso,  comandando o brigue Audaz..."
Enfim, sendo a História algo vivo e não estático, a sua compreensão não dispensa uma análise comparada de textos, sobretudo quando sobre um mesmo acontecimento, somos confrontados com duas posições antagónicas, mas cujos factos apontados de uma e de outra parte nos poderão levar a outras leituras, ajudando a compreender um pouco mais, no campo da pesquisa que nos propusermos levar a cabo, sobretudo dessa fase de passagem para um novo paradigma colonial coincidente com a fundação de Moçâmedes.
MariaNJardim


domingo, 17 de abril de 2011

Subsidios para a História do Namibe, Moçâmedes, Mossâmedes, Angola: BERO, o "RIO DAS MORTES"; BERO. o "NILO" de MOSSÂMEDES


Rio Bero, o "Rio das Mortes"

Rio Bero, o "Rio das Mortes" como lhe chamou Pinheiro Furtado, por ter alli o gentio assassinado o tenente Sepúlveda e o cirurgião da fragata Luanda  e mais dois marinheiros. Eis o que a este respeito disse Furtado para o governador, barão de Moçâmedes:
"... Em 5 de agosto 1785 deu ella a fragata fundo na grande enseada do Negro, em 15 graus,  que achamos com a lastimável noticia de ter sido assassinado o tenente de artilheria José de Sousa Sepúlveda, e o cirurgião Francisco Bernardes, no dia 29, com dois marinheiros, por 34 negros do paiz. Este, muito imprudentemente, sem necessidade e mesmo contra a ordem recebida, costumava ir para terra e por entranhar-se n'ella, com o desacordo de incendiar por duas diferentes vezes as cabanas dos negros que encontrou desertas: estes negros se apresentaram, e com apparencias de sincero trato e venda de gados por fazenda, os seduziram e mataram na praia com azagaias, despojando-os dos vestidos. O tenente ainda pode retirar-se para a lancha, |porém mortalmente trespassado polo peito, e expirou logo n'ela... Os negros tinham vindo effectivamente á praia nos dias antecedentes, com carneiros que queriam trocar por facas, pannos, e ferro para azagaias, o que tudo foi referido e confirmado por dois soldados qne andavam com os assassinados e conseguiram salvar-se. "  (1)



Rio Bero, o "Nilo" de Moçâmedes

Ainda sobre este rio "de cujas águas brotou a ressurreição de Mossâmedes" (1)  conforme vem referido na obra de José Bento Duarte -Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos- Editorial Estampa - Lisboa – Portugal, foi grande o desapontamento que tiveram os primeiros colonos vindos de Pernambuco, Brasil, fugidos da revolução praieira, quando, ao entrarem na baía de Moçâmedes, a bordo da barca brasileira "Tentativa Feliz",  em 04 de Agosto de 1849,  enxergaram angustiados, as "fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero" e a "monotonia dos areais sem fim" dos quais sobressaia o "recorte severo da fortaleza de S. Fernando", onde lhes estava destinado erguerem os seus novos lares, que de início não foram mais que "meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha". 

O  baixo Bero, de corrente hídrica irregular, de margens bastante largas rodeadas de areia, com uma grande percentagem de aluvião, mantinha quase permanentemente água no subsolo (salvo as devidas proporções) um pouco à semelhança do Rio Nilo. Esta particularidade vai ser fundamental para o nascimento da povoação e para a sua evolução.






Repartindo-se de imediato pelos campos marginais do rio Bero, o "Nilo de Mossamedes", como lhe chamara Bernardino Freire de Abreu e Castro, procuravam os terrenos mais aptos para as culturas, e, informados das suas inundações periódicas, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região e começaram as lides agrícolas, mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante" e esquadrilharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Mas o triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas, as primeiras águas, empurradas do planalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado, o Bero tornou-se numa língua de areias crestadas, com as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco, e dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva, enquanto os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz, remediando-se com cacimbas escavadas nas proximidades ou nos quintais das residências. Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos sobreviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi este o quadro em que a povoação viu, apesar de tudo, ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, provenientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procuravam dar corpo ao projecto português no Sul de Angola. As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílopes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.














O 1º Centenário de Mossâmedes, depois Moçâmedes, hoje Namibe, em Angola: 04.08.1949















 


Para mais notícias sobre este acontecimento:

REPORTAGEM  DO CENTENÀRIO COM FOTOS  AQUI


Boletim Geral das Colónias . XXVI - 296
PORTUGAL. Agência Geral das Colónias.
Nº 296 - Vol. XXVI, 1950, 224 pags.



domingo, 3 de abril de 2011

PORTUGUESES DE SEGUNDA...

(...)


Com os olhos postos sobretudo em Angola e Moçambique, a ojeriza e desconfiança de Marcelo Caetano em relação aos brancos naturais dessas col
onias levaram-no, como ministro das Colônias, que apenas visitara durante breves dias as possessões portuguesas em África, a legislar normas limitativas de direitos civis aos naturais de todas as colónias que não fossem filhos de Portugueses originários de Portugal (reinóis); não podiam, por exemplo, concorrer aos cursos das escolas de oficiais das forças armadas nacionais, desempenhar funções de chefia, a nível superior, na administração pública colonial, etc., etc... Eram os chamados "portugueses de segunda classe"... Situação injusta que perdurou até à década de 60.... Sempre éramos enxergados com suspeição. No Hospital Militar Principal, em Lisboa, o autor destas linhas, antes de ser incorporado no curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em 1949, teve de sujeitar-se a uma junta de revisão para constatação de sua pureza racial "lusitana" uma vez que, sendo natural de Angola, seu pai (coronel-médico) e seu avô paterno (coronel de infantaria do extinto exército ultramarino - EU -) eram naturais de Pangim, Estado Português da Índia. Ao sermos interrogado pelo coronel-médico presidente da junta de revisão (racial), mentimos-lhe afirmando que aqueles nossos ancestrais eram brancos puros, descendentes diretos de reinóis (Portugueses originários de Portugal, leucodérmicos sem... mistura, que afinal quase todos se não todos os portugueses têm). Assim, porque esse médico militar nos deu crédito, pudemos ser admitido ao referido curso de oficiais de complemento...enterrando por algum tempo aquele velho "conselho portuga": quando vires um indiano e uma víbora, mata o indiano e deixa em paz a víbora...Por essa ocasião (segunda metade da década de 40), o melhor aluno cadete do curso de oficiais de artilharia da Escola do Exército (que viria a ser engenheiro fabril e brigadeiro mais tarde...), um natural de Goa, filho de um oficial superior ou general do extinto exército ultramarino mas descendente, isto é, mestiço, embora não-hindú, tendo-se descoberto (algum invejoso o teria delatado) que tinha ascendência indiana foi submetido a junta de revisão e a inquérito; durante algum tempo esteve tremida a sua permanência no curso... Ora, anteriormente a Caetano na pasta das Colônias, jamais alguém levantara esse problema e a prova estava em nosso próprio progenitor (já não falando mais nas várias gerações de avoengos) que, embora natural de Pangim e "descendente", atingira o posto de coronel-médico. Naquele tempo, nem o nosso primo-coirmão Mário Arnaldo de Jesús da Silva, hoje general de divisão do exército português, prémio Defesa Nacional, homem de confiança da JSN e de Costa Gomes em Angola depois da "revolução dos cravos", assessor militar especial do ex-primeiro ministro (de centro-direita que diz ser de centro-esquerda baralhando o escalograma de Guttmann...) Cavaco e Silva, nem o nosso tio e pai dele, também oficial, engenheiro fabril, se tentassem iniciar carreira no oficialato do exército jamais o teriam conseguido!!! Acabaram também, para os "notáveis" dentre nativos das colônias, integrantes das elites tradicionais, os postos honoríficos de oficiais de segunda linha das milícias tradicionais com que outrora (PARA POUPAR DESPESA E CONTAR COM A FIDELIDADE DE MILÍCIAS TRADICIONAIS) eram contemplados príncipes, sobas, sobetas africanos e liurais (reis) timorenses. O que se nos afigura mais estranho é o RUMOR de que Marcelo Caetano, como o denunciava seu tipo étnico e leptorrinia, seria também um descendente, segundo no-lo revelou em Lisboa, certa feita, um INFORMANTE DOS SERVIÇOS ESPECIAIS DA L.P. e soldado da Guarda Fiscal, Pompeu de Andrade (primo do Secretário Provincial de Obras Públicas de Angola, tenente-coronel engº da Força Aérea Carloto de Castro) que conhecia o pai do sucessor de Salazar, um cabo ou sargento da sua corporação que teria (não o estamos afirmando, note-se) servido na Índia onde casara com uma natural, "descendente", mãe de Marcelo Caetano; a ser verdadeira esta versão, Caetano seria também um... "mestiço", "um cu lavado" (na gíria racista portuguesa aplicada à nossa gente de Goa,"descendente", como o é o autor destas linhas embora seja nascido em Angola) e não um "reinol" puro! Estas achegas servem para se entender quanta razão assistia aos Angolanos BRANCOS e MESTIÇOS que quiseram lutar pela independência da terra em que haviam nascido e na qual eram também discriminados, humilhados e olhados com desconfiança por vários Portugueses preconceituosos (conquanto não se deva estereotipar essa pecha) de naturalidade européia. Portugueses esses que, como já fizemos sentir em outros ensaios, não podiam (nem podem) ser considerados.... "brancos" puros mas que, em não poucos casos, tal como se constata também no Brasil, sofrem dum "eugenismo" psicopatológico. Apenas o governador-geral Silvino Silvério Marques acabou com isso, protegendo angolanos e caboverdianos dessas injustas perseguições e do preconceito racial, seguido de Rebocho Vaz e de Santos e Castro. Isso preocupava o MPLA que em suas emissões radiofônicas do exterior, através da Radio Brazzaville, o maltratava denominando-o de "fusível" por ser muito magro...o que não conseguia roubar-lhe o prestígio de que gozava entre as massas africanas ( e não só nessas), mas que era mal visto pelo incompetente ministro das colônias Silva Cunha e sua clique de fofoqueiros e pajens bajuladores como o seu chefe de gabinete Joaquim Fonseca feito por ele "inspetor superior de administração colonial" sem nas colónias (Angola, donde era natural) ter sido mais do que... chefe de posto! Fez sua fulgurante "carreira colonial"... no gabinete equipado com aquecimento central e ar condicionado, alcatifado, do seu patrão, no "palácio" do Restêlo construido por vontade de Adriano Moreira com o ouro trazido de Goa à última hora, numa aeronave dos TAIP, que pertencia a depositantes particulares que jamais tiveram de volta esses valores confiados em Goa ao Banco Nacional Ultramarino antes da invasão armada da União Indiana, tal como os depositantes de dinheiros, de acordo com leis vigentes então, nos cofres da Fazenda da República Portuguesa em Angola, destinados a transferência legal para a Obra Social do Ministério do Ultramar e para o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças muito antes da independência de Angola, viram ( até hoje) seus direitos ignorados e denegados arrogantemente pelos sucessivos governos ditos "democráticos" e "progressistas" posteriores ao "25 de Abril de 1974", dizendo-se que essas transferências não são reconhecidas...e portanto, todos ficaram sem os valores em escudos que legalmente haviam confiado ao Tesouro Português. Nós temos documento repugnante ( um ofício digno de ser utilizado apenas na privada do WC!) transmitindo o despacho de um zoilo "clown" dito "Secretário de Estado", tratado aburguesadamente por SUA EXCELÊNCIA, à "boa maneira" fascista, negando a restituição desse dinheiro que teria ficado com o "honesto" regime" de Luanda... "gerido" pelo MPLA. Isso é UMA VERGONHA!!! como diria o grande comentarista brasileiro da TV RECORD Boris Kasoy.


Era manifesto o descontentamento das gentes brancas do Centro e do Sul de Angola. Em Julho/Agosto de 1963 deslocamo-nos ali, integrados num grupo de 20 e poucos finalistas do curso superior de administração ultramarina - e, ao mesmo tempo, por despótica e arbitrária ordem do ministro Silva Cunha ao diretor do GNP, o competente e impecável inspetor superior Dr. Ângelo dos Santos Ferreira, em missão especial de observação e informação, embora estivéssemos oficialmente de licença disciplinar. Em Sá da Bandeira (Lubango) participamos de um jantar oferecido no melhor hotel da cidade pelo governador do distrito da Huíla, inspetor Laranjeira, do Quadro Administrativo. Presentes os nossos professores, Dr. Martins de Carvalho, ex-ministro da Saúde e Assistência, e Padre Abílio Lima de Carvalho, que acompanhavam a viagem dos finalistas do ISCSP/UTL patrocinada por várias empresas privadas. No discurso que proferiu, o governador Laranjeira, casado, com filhos nascidos em Angola, no desempenho daquele alto cargo há vários anos, não ocultou o seu angolanismo "cicronho" (do Sul), criticando a burocracia do governo geral, a mil quilômetros do Lubango e a ignorância do Terreiro do Paço (ministério das Colônias) e frisando que, por isso mesmo, qualquer problema demorava anos para ser resolvido; ele defendia a independência do Sul de Angola (e quem sabe se...até não seria simpatizante ou mesmo militante da FUA!) que teria condições para se tornar um país próspero e viável em todos os aspectos. Pouco tempo depois, essa sua franqueza pública valeu-lhe ter sido demitido do cargo de governador, por despacho ministerial ( de Silva Cunha), passando a ser apenas um simples inspetor administrativo...em Luanda, tendo como "território" somente uma mesa de trabalho na Inspeção Administrativa, em Luanda.

A concluir esta paupérrima contribuição para a Ecmnésia Histórica Colonial, cumpre-nos dizer que, face ao trágico panorama que, há quase cinco lustros, nos vem mostrando a desastrosa independência de Angola, atribuímos tudo isso não só à incapacidade e ignorância dos autores da chamada "descolonização exemplar" mas também à intolerância e à teimosia míope do ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar (de estreita visão política colonial, mau assessoramento e muita rapacidade em prol da clique "judaico-lusitana") que não lhe permitiu enxergar quanto Portugal teria lucrado se tivesse acolhido, bem aproveitado e acarinhado, em devido tempo, ou seja, em seus primórdios, a FUA - FRENTE PARA A UNIDADE DOS ANGOLANOS. Poderia ter sido, essa, talvez, a mais equilibrada panacéia para a estruturação de uma unidade pacífica a bem do futuro dos povos daquele imenso e potencialmente rico território de 1.246.700 quilômetros quadrados, 14 vezes maior do que Portugal: a grande oportunidade arracial que a estupidez "portuga" perdeu e destruiu... em vez de chamar a si a tempo de evitar desvios.

Não fugiu Portugal, ou melhor, o seu governo, ao mau hábito peninsular (castelhano e lusitano) de impiedosamente, em nome da Fé CRISTÃ, esmagar ou castrar civilizações, nalguns casos até superiores como eram as dos INCAS e AZTECAS e as Orientais duma maneira geral, que conquistava pela força ou, à maneira espanhola, pela vil perfídia...

O historiógrafo tem como "pátria" a verdade dos fatos históricos pesquisados, doa ela a quem doer.

Não se escandalize, prezado leitor internauta, ao ler neste trabalho comentário ditados pela nossa "alma" formatando este texto de forma que para alguns será considerada "apatriótica" ou "anti-patriótica"... Mas, quem estas linhas escreve defende a verdade e só a verdade, doa ela a quem possa doer. Nós hoje, na diáspora voluntária (ninguém nos prendeu ou exilou) a que nos entregamos neste acolhedor e robusto filho de Portugal que é o Brasil, torcemos pelo lema "one planet, one people" bastante globalizante (o que está... em moda).

Há anos Alguém escreveu:"
"Daqui a poucos anos duas coisas se observarão em África: o progresso paralisado em muitas das suas extensões com a total ruína das economias, a degradação das populações, o horror das lutas intestinas, e experiências de colonialismo internacional, irresponsável, diante do qual o Preto, diplomado ou não, será apenas uma unidade estatística."

Esta declaração foi feita a um jornal francês , nos idos anos 60 (!), conforme nos referiu um nosso amigo e internauta que visita assiduamente este portal e a Ecmnésia Histôrica Colonial, por um político português que jamais visitou qualquer território colonial ou outro país além da vizinha Espanha numa rápida deslocação para ali ir assinar, com o Caudilho Francisco Franco, o ineficaz "Pacto Ibérico": o ex-padre ditador Antônio de Oliveira Salazar.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
Lorena-SP, BRASIL, 01 de Janeiro de 2001

Esclarecimento: Na redação deste texto procuramos utilizar as regras ortográficas do português em uso no Brasil, nosso lar de eleição voluntária.

Texto Integral   In Comunidade Lusófona