Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 5 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: o edifício da Alfândega



Postal com carroça puxada por manada de bois tendo por fundo  o edifício da Alfândega ainda  em construção. à esq, e por detrás do edificio da Alfândega, na Rua dos Pescadores, a «água furtada» do edifício de  1º andar da familia Zuzarte Mendonça onde (actualmente, no rés do chão, fica o Museu Etnográfico do Namibe). Foi Hotel Gouveia 

Idêntico ao anterior

Gravura  com edificio da Alfândega e Telheiro
Gravura com edificio da Alfândega de Mossãmedes e Telheiro, do livro " CAÍQUES DO ALGARVE NO SUL DE ANGOLA ", de ALBERTO ÍRIA.
A ALFÂNDEGA DE MOÇÂMEDES TINHA SIDO CRIADA POR DECRETO DE 18/02/1851, MANDADO SUSPENDER EM 1854, PERANTE A CONSULTA DO CONSELHO ULTRAMARINO DE 19/O6/1953. O GOVERNO GERAL AO MESMO TEMPO QUE QUE PUBLICAVA A ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DA PROVÍNCIA, POR DECRETO DE 07/11/1856 ( MOÇÂMEDES, HUILA, BUMBO E GAMBOS ) , PELA PORTARIA DE 492, 02/03/1857, ESTABELECER A ALFÂNDEGA DE MOÇÂMEDES, CUJO PORTO FICAVA ABERTO AO COMÉRCIO DOS NAVIOS DE TODAS AS NAÇÕES...- ALFREDO DE ALBUQUERQUE FELNER

Foto preciosa: Edificio da Alfândega de Moçâmedes, vendo-se em frente os telheiros onde ficavam arrecadadas as mercadorias, em plena Avenida, e também a linha férrea por onde deslizavam as vagonetas mo seu vai-vem entre a ponte, o Piquete da Guarda Fiscal e o edifício

O edificio da Alfândega de Moçâmedes é tão antigo que vem representado nos mais antigas fotos, gravuras e postais que se consegue encontrar da cidade...





Moçâmedes 1865.

Conforme  Manuel Julio de Mendonça Torres na sua obra dedicada a Moçâmedes, no periodo entre 1860 e 1879 a vila já contava  com os seguintes edificios públicos:  Igreja de Santo Adrião, começada a construir em 27.07.1849 com o lançamento da 1ª pedra;  a Fortaleza de S. Fernando e a de Capangombe;  o Palácio do Governo; a Alfândega; o Hospital; o Matadouro; o Cemitério; o Obelisco a Sá da Bandeira; o Jardim da Colónia; já estava feito o traçado e os arruamentos;  a primeira ponte de caes; a estrada para Capangombe.  Este periodo correspondeu ao dos Governadores António de Castro, Fernando Leal e Joaquim Graça. Em 1868  havia as Ruas paralelas da Praia do Bonfim (onde ficavam a Alfândega e os CTT),  a Rua dos Pescadores, a Rua do Alferes,  a Rua Calheiros e a Rua BoaVista. As transversais eram as ruas dos Prazeres e de S. João, que cortavam a da Praia do Bonfim;   a Rua da Alegria e a Rua Bom Jardim que atravessavam a Rua Calheiros;  a Rua Formosa que cruzava com a Boavista;  e as Travessas de Santo António, Cancela, da Alfândega e Flores, que partia da Rua da Praia do Bonfim e terminavam na Rua Calheiros.

No traçado moderno da vila, em forma quadriculada ou tabuleiro de damas, predominava a linha recta. A maioria dos prédios eram de um só piso, vendo-se já neste período, entre 1860 e 1879, ou no principio do seguinte,  duas casas construídas de 1º andar, a de João Duarte de Almeida, e aquela onde morava e tinha escritório José Júlio Zuzarte de Mendonça, ambas na Rua da Praia do Bonfim.  Sobressaia o Palácio do Governador, cuja frontaria alta rasgava três janelas de sacada.
 As ruas encontravam-se por empedrar e ainda sem iluminação pública, o que iria acontecer no período imediato.  Começou neste período a cuidar-se da arborização das praças e ruas da vila.  Também nesta época começaram as plantações de "eucaliptos globulus"
e outras palmeiras, segundo Costa Cabral, por iniciativa de Lapa e Faro.

João Chagas, jornalista exilado em Moçâmedes, dizia na sua obra "Diário de um Condenado":
 "...Mossâmedes  não sendo uma colónia próspera , não fornecia borracha, marfim,  cera, café, produzia em comparação belas e saudáveis crianças que toleravam o sol ardente, e o interior das casas  da população branca, pintadas a cal, oca, anil, e vermelhão mantêm quadros e móveis tradicionais dos interiores das famílias portuguesas."

  .
 
 Moçâmedes em gravura de M Moraes

 




Gravura da época onde se pode ver, à esq. o edifício da Alfândega . Nesta altura a povoação começava a tomar forma, desenhando-se já com plantação de coqueiros, aquela que iria ser a futura Avenida D. Luis, que após a implantação da República em Portugal, em 1910, mudaria o nome para Avenida da República.  Sobre a denominação Avenida D. Luis presente em postais antigos de Moçâmedes, sabe-se que D. Luis herdou a coroa em Novembro de 1861, e que quando infante serviu na Marinha  visitou a África Portuguesa. Sabe-se também que Moçâmedes, entre 1 de Julho e 27 de Setembro de 1907, recebeu a visita de um  Principe, o Principe Dom Luís Filipe, que visitou na altura, também, as colónias portuguesas de São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Cabo Verde, e as colónias britânicas da Rodésia e África do Sul. A dificuldade de aceder a fontes que atestem qual D. Luis emprestou o nome à Avenida de Moçâmedes, leva-me a crer que foi o D. Luis,  que em 1861 sucedeu ao seu irmão D. Pedro V, por este não ter deixado descendência. Era um homem culto, de grande sensibilidade artística, poliglota, respeitador escrupuloso das liberdades públicas. Do seu reinado merecem especial destaque a abolição da pena de morte para os crimes civis, a abolição da escravatura no Reino de Portugal.



  A ponte da Praia das Miragens

  A ponte da Praia das Miragens nos tempos da 1ª Grande Guerra de 1914/18

  A ponte da Praia das Miragens

  Os  telheiros ou barracões da Praia das Miragens
Os  telheiros ou barracões da Praia das Miragens escondem a visibilidade do edifício da Alfândega


 Aqui o edifício da Alfândega surge em parque encoberto pelos coqueiros, tendo à sua frente, em plena Avenida um pavilhão, que se pressupõe ser um armazém para mercadorias em trânsito


Uma perspectiva da cidade, onde se pode ver, ao fundo da Rua que mais tarde seria a da Praia do Bonfim, o edifício da Alfândega. De arquitectura clássica, como era comum na época em edifícios públicos, ocupa todo um quarteirão; houve o cuidado do dotá-lo com 3 frentes, com portal encimado por frontão triangular, para melhor enquadramento e perspectiva


Foto de Moçâmedes que se presume seja do início do século XX, onde se pode ver, imponente, o edifício da Alfândega, com frente para a Rua 4 de Agosto e Para a Rua da Praia do Bonfim e Av. da República .
Por esta altura já haviam sido retirados os antigos barracões ...

Este postal de Mossâmedes/Moçâmedes permite ver parte do edifício da Alfândega e da Rua perpendicular ao mar, a 4 de Agosto


Esta é a Praça Leal, tendo no centro o chafariz. Aqui podemos ver a parte lateral do edifício da Alfândega, onde funcionaram os primitivos Correios.

 

Piquete da Guarda Fiscal
Datado de 1905, este postal mostra-nos o belo Piquete da Guarda Fiscal, de arquitectura romântica, que funcionou em conjugação com os serviços de Alfândega até meados do século XX, e encontrava-se ligado  à ponte de embarque/desembarque através de carris de ferro sobre os quais rolavam vagonetas que faziam o transporte das mercadorias.  Por este Piquete passavam, pois, pessoas e  mercadorias. Acabou desmantelado. O edifício da Alfândega fica por detrás (vê-se ao fundo), do outro lado da Avenida. À dt, um dos  Barracões que à época existiam na Avenida.

 A foto regista o momento da passagem pelo antigo Piquete, em 1 de Outubro de 1905,  já de regresso a Luanda,  do Conselheiro Governador Geral de Angola,  Dr. Ramada Curto,  após ter assistido à inauguração  da Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  , realizada em 28 de Setembro de 1905,  procedido à assinado a acta do assentamento da primeira pedra no cunhal leste da  referida estação, e participado num copo d'água que lhe foi oferecido na povoação do Saco, pela comissão de festejos composta de comerciantes e agricultores de Moçâmedes. Registe-se que em 29 de Setembro de 1905 deu-se a partida do primeiro comboio de Moçâmedes ao Saco, conduzindo os Exmos. Snrs. Conselheiro Governador Geral, Governador do Districto e Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Loanda e convidados.  Ainda que o ano do lançamento da construção do Caminho de Ferro de Mossâmedes fosse em 1905,   a autorização do Governo remonta a carta de lei de 1890.  

Esta visita ocorreu numa altura em que problemas graves, internos e externos, ocorriam tanto no Portugal metropolitano como no além-mar africano.    Estava-se num período crucial da história portuguesa (ver AQUI ), atravessada por uma grave crise política, social e económica, que coincidia com a decadência da Monarquia e a alvorada da República, em que a tutela portuguesa no imenso território de uma África cobiçada e considerada necessária ao progresso europeu, era colocada em cheque.  O pequeno Portugal tinha de se haver contra o Golias germânico, entre outros. A coabitação, a dominação e a influência dos portugueses, por antigas que fossem, podiam a todo o momento ser contestadas pelos seus súbditos, vassalos e vizinhos.  As revoltas no sul de Angola haviam sido de alguma forma torneadas ou ignoradas, mas não resolvidas, como os grandes revezes sofridos  em Setembro de 1904 pelos expedicionários portugueses no Cuamato, em que um guia ovimbundo que fora deportado para o Humbe os levara a cair numa emboscada em Umpungo. Em 2 de Janeiro de 1904 dera-se revolta dos hereros contra os colonizadores alemães na então África do Sudoeste, atual Namíbia tendo a resposta alemã sido avassaladora.

No dia 25 de Setembro de 1905, o jornal português O Século, recordava assim o dia 25 de Setembro de 1905:

...É hoje dia de luto nacional e mui principalmente para as armas portu­guesas, por passar o primeiro aniversário do trágico massacre das nossas forças na margem esquerda do Cunene (...). Atacados de surpresa por forças cuamatas muito superiores, não temendo a aventura perigosa que se ia travar, mal imaginando o seu fim tenebroso, oficiais e praças, numa comunhão de pensamento, somente se lembraram de que, ali, no interior do sertão, repre­sentavam a honra do País, que deviam conservar imaculada, e o nome portu­guês, que tinham de levantar bem alto.

Na mesma página de O Século, na parte reservada aos sufrágios, podia ainda ler-se uma comunicação lacónica:  

"...Amanhã, pelas 11 horas da manhã, na igreja dos Mártires, rezar-se-á uma missa por alma do tenente Luz Rodrigues, outra vítima da catástrofe, missa a que tencionam assistir os oficiais do batalhão de caçadores de el-rei, a que o desditoso extinto pertenceu. (...)".                             

(Para mais informação, ver AQUI)

Piquete da Guarda Fiscal, de traça romântica. Ficava ligado por carris de ferro (por  onde rolavam vagonetas que transportavam as mercadorias), ao edificio da Alfândega

 Piquete da Guarda Fiscal, vendo-se o acesso à ponte, e os carris de ferro acima referidos. Por detrás e ao fundo o edifício da Alfândega



Vista da Praia das Miragens, com Piquete da Alfândega à esq. e mercado do peixe, à dt.
O dia a dia na Praia das Miragens, em finais do século XIX, com a ponte, à dt,  barracão à esq, e palhabotes e caíques na baía.
Na Praia das Miragens, uma carroça puxada por manadas de bois aguarda naturalmente o carregamento de pessoas e mercadorias...

A ponte da Praia das miragens apinhada de gente, que a partir dali e da praia assistem a uma corrida de natação... Início do século XX

 O movimento da ponte e da baía de Moçâmedes, em dia de corridas de natação. à dt da ponte e por detrás desta, vê-se parte do edificio da Alfândega, e por detrás deste a parte superior do edificio da familia Torres, na Rua dos Pescadores


 Ponte da Praia das Miragens, no dia do desembarque do Bispo D. António, de passagem por Moçâmedes
 
Navio "Salvador Correia" descarregando armamento na Ponte da Praia das Miragens

  O movimento da ponte de Moçâmedes
 O movimento da ponte e da baía de Moçâmedes

 
 Vista aérea da cidade, podendo ver-se o edifício da Alfândega, tendo na Avenida à sua frente o primitivo Coreto de ferro e o Obelisco a Sá da Bandeira, à direita. Foto de 1930
 
 A Alfândega em 1935, e Obelisco ao General Sá da Bandeira, o liberal progressista que um século antes , em 1836, mandou publicar o decreto de abolição  do tráfico de escravos. De início este Obelisco esteve no centro de uma Praça no terreno onde se encontrava a Escola Portugal (Escola 55, de Fernando Leal). Na década de 1940 o Obelisco passou para a Praceta onde ainda hoje se encontra, perto do antigo Bairro da Facada, porém tendo sido vandalizado após 1975 já não apresenta as respectiva dedicatória.

Panorâmica com o edifício nos anos 1960




  O edifício da Alfândega de Moçâmedes

In  "Conspecto Imobiliario do Distrito de Moçâmedes",  no ciclo de 1860 a 1879, Manuel Júlio de Mendonça Torres refere:
"...Pinto de Balsemão no relato da sua viagem a Moçâmedes, declara em ofício datado de 27 de Março de 1868  que "...o edifício da Alfândega, primorosamente acabado, obra do benemérito Governador Leal,  era dos mais regulares, elegantes e sólidos que havia em toda a  Província" lamentando porém, que não lhe correspondesse o movimento que seria para desejar, "visto que estava quase sempre ermo de fardos".

Mendonça Torres entende que não era exacta a afirmação de Balsemão, porque no ciclo que estava a estudar, "o tráfico distrital havia-se revelado, por essa época, francamente animador" , "o comércio estava então notoriamente a prosperar, pois que assim indicavam, sem possível contestação, o movimento exportador algodoeiro, e as condições favoráveis, nunca antes verificadas, da sua balança mercantil.   "

Quanto ao  edifício da "Alfândega", como refere Mendonça Torres  quec o plano e execução ficou a dever-se ao Governador Fernando tendo começado a construir-se em 1863, no primeiro ano do seu segundo governo, sendo a sua construção ultimada em Abril de 1868, no tempo da administração do governador Joaquim Graça.

Referindo-se a notícias sobre o assunto no livro de Brito Aranha, "Memórias Histórico- Estatísticas" a pág. 273.

"...O edifício da "Alfândega" ocupa uma área de 1081 metros quadrados, tendo de frente 23 metros, de fundo 47 e de pé direito, 6. É de alvenaria, mas as portas e janelas têm guarnecimentos de cantaria. Sustenta-o uma cobertura de telha. Consta de cinco salas e dois grandes armazéns com um pátio no centro.  A porta da entrada olha para a baía, e a da saída para a Praça da Colónia. Paralelamente ao edifício levantou-se um telheiro de madeira que já não existe. Media este 9 metros de largura e 23 de fundo apoiados em 12 pilares de madeira assentes em socos de cantaria. Servia o telheiro para abrigae os escaleres da Alfândega e as mercadorias que houvessem de embarcar a horas em que a repartição estivesse fechada.

A construção da Alfândega custou, aproximadamente,  12.000$000 réis."


Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.





 Zona de depósito de caixas de madeira, barris, etc

Estas fotos foram retiradas do Instituto de Investigação Científica Tropical via Arquivo Histórico Ultramarino. Trata-se, como se pode ver, da zona da Alfândega destinada ao armazenamento ao ar livre (Praia das Miragens) das mercadorias destinadas a embarque/desembarque.

Ainda sobre o edifício da Alfândega de Moçâmedes,  debrucemo-nos um pouco sobre a "arquitetura classicizante das obras públicas" no quadro da colonização portuguesa:


"...As edificações das obras públicas, ou nelas inspiradas, dentre um leque de funções muito abrangente, apresentam alguns exemplos mais notáveis na área dos transportes (alfândegas, estações de caminho-de‐ferro), nas sedes municipais (câmaras), e em edifícios governamentais, quartéis, tribunais, prisões.

As alfândegas representam um tema fundador da moderna fiscalidade e do controlo de espaços portuários e comerciais, essencial no desenvolvimento urbano. Daí a sua presença constante, quase sempre seguindo um modelo estilístico classicizante.  (...) Refiram‐se ainda as obras da Praia, de cerca de 1880, de Benguela, de 1870, remodelada em 1914 com estruturas metálicas, e com ponte‐cais de 1876, de Moçâmedes, de 1863‐1866, e de Sá da Bandeira, de 1900‐1905. As estações de caminho‐de‐ferro urbanas foram outro tipo de construção sistematicamente desenvolvido nesta época, a par da implantação das ferrovias ao longo do território, e símbolo acabado da modernização dos sistemas de transportes, adotando muitas vezes o desenho classicizante. Exemplifiquem‐se com as de Moçâmedes, obra de frontão e vãos de arco redondo, de Benguela e de Sá da Bandeira, de 1905‐1923 esta última, pelo arquiteto Humberto Trindade. " DAQUI


http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2012/02/alfandega-de-mossamedes-mocamedes.html



COLÉGIO DE RAPARIGAS EM MOSSAMEDES, MOÇÂMEDES, ANGOLA (1880-1894)






Foto do interior da casa da familia Mendonça Torres em Mossamedes, Moçâmedes, Angola, no último quartel do século XIX

Não seria por acaso que um viajante estrangeiro manifestou a sua surpresa  quando em finais do século XIX,  na sua passagem por Mossamedes, ao passar por uma rua da vila, pôde ouvir sons de piano saidos da casa de uma família....

Tocar piano ao serão, cantar ou bordar a bastidor, era uma prática muito comum nos serões familiares femininos da época nas burguesias ocidentais. Aliás, como podemos ver pela transcrição que se segue, havia na altura  em Mossâmedes uma determinada burguesia "aristocratizada" que já tinha ao seu dispôr para a educação das filhas, um Colégio e  sabe-se que  até  recorriam a preceptoras estrangeiras para a  sua educação.

UM COLÉGIO DE RAPARIGAS EM MOSSAMEDES (1880-1894)
De acordo com um texto que se segue, retirado DAQUI , houve em Mossamedes no ano de 1880 e até 1894, um colégio frequentado por jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, dirigido por uma professora de origem irlandesa, de porte distinto e invulgarmente culta, que exercera o magistério em Lisboa, e que ali ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. As jovens mantinham-se no citado Colégio, cujo programa educativo rivalizava com as melhores de Portugal e mesmo da Europa, durante bastantes anos e algumas só saíam para casar... Trata-se de Miss Herriet (Herreeth) Deehan ou Henriqueta Deehan . 

 «...Vem a propósito dizer que trabalhava nessa altura em Mossamedes uma senhora muito distinta, que se dizia ser a melhor e mais competente professora de Angola, Henriqueta Deehan, de origem irlandesa mas educada na França. No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »

No seu colégio ministrava-se o mais vasto programa educativo de toda a província, podendo comparar-se ao que havia de melhor na Europa. Preenchia só ela o lugar de muitas mestras. Manteve-se na cidade cerca de pelo menos quinze anos e a sua escola era frequentada pelas meninas das melhores famílias. Ali se conservavam até bastante tarde, saindo do colégio apenas quando casavam... »

«...UM COLÉGIO DE RAPARIGAS EM MOSSAMEDES (1880-1894) Miss Harriet Dehan professora de Angola, de origem irlandesa mas educada na França, tinha maneiras muito distintas. (...)
«Era uma professora muito consciente da sua missão, dedicada ao ensino e invulgarmente culta. Viajara por diversos países da Europa, Ásia, África e Oceania. Residira na Inglaterra e na França. Exercera o magistério em Lisboa. Deveria ter-se fixado em Moçâmedes pelo ano de 1880, mantendo-se ali em 1894. Ensinava Português, Francês, Inglês, Geografia, História, Desenho, Música, etc. A sua escola era frequentada pelas jovens do sexo feminino das mais distintas famílias da cidade, mantendo-se ali até bastante tarde, algumas só saíam para casarem... Este colégio, no dizer de um inspector, era a escola que em Angola ministrava mais vasto programa educativo, rivalizando com as melhores de Portugal e mesmo da Europa! Preenchia, por si só, o lugar de muitas mestras, emprestando ao ensino grande seriedade e importância, insistência e intensidade. Os desenhos e bordados das suas educandas poderiam colocar-se a par dos mais perfeitos das exposições escolares realizadas em qualquer país! Embora, em regra, recebesse só meninas, aceitava algumas vezes, por excepção, alguns rapazinhos, mas exclusivamente quando eram ir mãos das suas alunas. »(3) 

Tenha-se em conta que a cidade de Mossamedes foi fundada por emigrantes idos de Parnambuco (Brasil) e alí chegados nos anos de 1849 e 1950, e que desses grupos fazia parte uma «elite» preoaupada com a educação de suas filhas, numa época em que a escola pública se democratizava e se abria à coedução. Não lhes conviria pois, ter as suas meninas misturadas nem com as meninas de outras classes, nem com elementos do sexo oposto. Aliás, o mesmo aconteceu na Metrópole, no século XIX, onde as famílias de uma determinada elite recorriam a preceptoras estrangeiras ou a «Colégios elegantes», onde as meninas podiam adquirir conhecimentos de História, Português, Francês, Inglês, Geografia, Desenho, Música (Piano), Canto, etc.,  «prendas» à época julgadas imprescindíveis na educação de uma mulher, e necessárias a um bom casamento.

Foram estes usos e costumes burgueses e de certo modo aristocratizados *, que foram passados para a geração seguinte já nascida em Mossamedes, e que vemos referidos na obra de António A. M. Cristão, «Memórias de Angra-do-Negro Moçâmedes», no cap. II.4-EDUCAÇÃO, pg.221:

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Mossamedes, Moçâmedes, Namibe e a sua História: a primeira ponte de cais

Descarregando munições em Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe), antes da 1ª ponte, em ponte móvel

Colonos desembarcando em Mossâmedes(?), ou outra qualquer ponte na região...  Da capa do livro Slaves, Peasants and Capitalists in Southern Angola 1840-1926 (African Studies)
by W. G. Clarence-Smith (December 3, 2007) 
A ponte de caes de Mossâmedes (Moçâmedes/Namibe) e piquete da Guarda-Fiscal (de Gustave Eiffel).
  Foto do album de Cunha Moraes. Esta ponte começou a ser construida em 1880 e foi inaugurada em 1881. Custou 26 mil reis


Até 1873 não havia em Moçâmedes um modesto arremedo sequer de ponte de cais.Na baía, apesar da extensão e profundidade do fundeadoro, faziam-se os embarques pessoais aos ombros dos pretos, que, desastrosos, compeliam por vezes os passageiros a tomarem um banho forçado. Já em 1861, o autor anónimo do livro "Quarenta e cinco dias em Angola" aconselhava a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura proximamente das construções regulares e com escadarias para embarque e desembarque de pessoas e uma ponte de carga e descarga para o serviço da Alfândega. Só em 1873 é que se construiu em Moçâmedes a primeira ponte de cais, toda de madeira, acente sobre estacaria, que, pela celeridade da construção, em pouco tempo se arruinou e se inutilizou. Assim nos informa o Governador Costa Cabral no seu relatório, datado de 19 de Junho de 1877, propondo a sua urgente substituição e lamentando que não houvesse no local outros meios de desembarque, ou de carga e descarga, que se faziam, em ocasiões de grande calema, com perigosos riscos pessoais e sensiveis prejuizos para as mercadorias. 
 
***

in Archivo Pittoresco, Semanário Ilustrado,  vol x, 1867, uma referência
que mostra bem a penúria da colonização portuguesa:

"...Noticias posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça, completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal. ia mandar construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os necessários meios, abrira uma suhscripçao particular entre as pessoas mais abastadas e mais interessadas do municipio, e esta subscripçao  em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000 réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias."

***

Sobre a primitiva ponte, refere em 1954  Manuel Júlio de Mendonça Torres: "Durou esta ponte, cuja localização os textos nos não indicam, até 1881, ano em que foi inaugurada a actual, no dia 04 de Agosto, pelo Governador Nunes da Mata, assunto de que havemos de tratar num volume, possivelmente intitulado "O Distrito de Moçâmedes, na quadra da produção intensiva da cana". 

In Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1960 a 1879 por Manuel Júlio de Mendonça Torres in
Boletim do Ultramar
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.



Perspectivas da Ponte de cais antes do acrescento em madeira que veio a  acontecer, por força  do recuo das marés.
Movimento na ponte onde se vê o guindaste. Encostados à ponte um batelão e mais próximo uma chata

Desembarque do Bispo de Angola, D. António. Este conjunto de fotos, embora de finais do século XIX e  de inicios do século XX, já apresentam a ponte de embarque/desembarque definitiva


 Perspectiva da ponte, tendo por fundo uma parte da vila e a praia. Foto  de  finais do século XIX. A ponte foi inaugurada em 1881.

Outra perspectiva da ponte, esta já do início do século XX , onde se pode ver a Estação do Caminho de Ferro e estaleiros, o Observatório Metereológico, o Piquete da Guarda Fiscal, o Colégio das Doroteias, o edificio do Cabo Submarino, as Casuarinas etc.

 

Este postal regista o momento da passagem pelo antigo Piquete da Guarda Fiscal de Mossâmedes, em 1 de Outubro de 1905 do Conselheiro do Governador Geral de Angola, já de regresso a Luanda. No dia 28 de Setembro de 1905 fora inaugurada a Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes  ,  assinada a acta, e ptocedeu-se ao assentamento da primeira pedra no cunhal leste da estação pelo  Dr. Ramada Curto. No dia 29 de Setembro de 1905 fora oferecido um copo d'água, no Saco, pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores da cidade. Também no mesmo dia partiu o primeiro comboio de Mossâmedes (Moçâmedes) ao Saco, conduzindo o Conselheiro Governador Geral, o Governador do Distrito, e o Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Luanda e convidados.
 
 O Piquete da guarda-fiscal era um tipo de construção interessante, do século XIX, de traça romântica, que  acabou por desaparecer  com  a  inauguração do cais acostável. Era por ali que se fazia o controle da saida e entrada de mercadorias e pessoas que dos navios, ancorados a meio da baía, acediam à ponte, as mercadoria através de quatro batelões, barcos possantes e sem motor,  que eram por sua vez rebocados por um  pequeno barco a motor, as pessoas em barcos a motor alimentados a gasolina, chamados, por analogia, de «Gasolinas». Eram pequenos barcos, agradáveis à vista,  pintados de branco, que podiam possuir uma cabine totalmente fechada, ou meia fechada, com bancos corridos, e que comportavam cerca de 50 pessoas, sentadas e de pé. 

 

A PONTE (POEMA)
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua
poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

De "Poemas Imperfeitos"
Joaquim Paço D´Arcos

(que viveu em Moçâmedes de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914)
 
CURIOSIDADES

Conta-se que nesses tempos em que não existia cais acostável e os navios fundeavam ao largo, houve necessidade de se descarregar carruagens  destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes e como na época era a firma Duarte d'Almeida, agentes da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que possuia um estaleiro na Torre do Tombo na antiga praia do cano, na  hoje zona marginal, teve de construir algumas barcaças bastante grandes para se fazer a descarga. As barcaças eram encaminhadas para a antiga praia da Capitania que ficava junto a esta ponte onde foram montados carris ficando ali a aguardar a altura própria da maré para que fossem removidas as carruagens para terra firme. Nesta operação bastante difícil e instável trabalharam entre muitos alguns carpinteiros da época, Gilberto, Celestino, Manuel e António Valente, André, etc., gente anónima que merece ser aqui lembrada.

 Na ponte através de um guindaste embarca-se gado bovino. Ao largo, navios, palhabotes, batelões e baleeiras. Transcrevo um texto de Roberto Trindade




TOURADA NA PRAIA
(De Roberto Trindade)

Antes de ter sido construído o cais acostável, a estrada marginal e a linha de caminho de ferro que a acompanhava para transporte das mercadorias, os navios que escalavam Moçâmedes fundeavam ao largo e os passageiros eram transportados para terra e para bordo, por pequenos barcos de passageiros a que chamavam os “gasolinas do Bauleth”, por ser o sr. Bauleth o concessionário de tal transporte.
As mercadorias eram descarregadas para bordo de batelões, que eram rebocados para ancorarem ao largo, aguardando que fossem descarregados na ponte cais, onde trabalhava o sr. Rogério Camusseque, que para lá se deslocava na sua velha e pachorrenta bicicleta, tendo a parte de baixo das calças seguras com duas molas de roupa, para que se não sujassem de óleo na corrente da geringonça ! Também lá trabalhava nos guindates o sr. António Martins, irmão de outro Martins da Escola Industrial, e ainda irmão do João e Roberto Latinhas (...)

(Por alturas do Natal, nadávamos para os batelões para nos abastecermos de castanhas) ! ...
Do mesmo modo procediam quando as mercadorias, não só locais, como de outras zonas do interior, eram exportadas a partir de Moçâmedes.

Ali embarcavam pequenas manadas de gado destinadas ao puto. Os mucubais levavam a manada até à ponte, e o processo de embarque era muito original. Passavam uma cinta pela barriga do animal e este era içado pelo guindaste que o ia colocar a bordo do batelão. (Vejam na foto que junto abaixo, onde se vê um boi pendurado).

Por vezes acontecia escorregar um bicho que dava um monumental mergulho e acabava por nadar para terra e ir esbaforido para a Praia das Miragens, causando o pânico entre os banhistas que ali disfrutavam e se bronzeavam.

Certo dia em que aconteceu o mesmo, o desgraçado do boi corria de um lado para o outro, assustado e assustando cada vez mais os banhistas que tentavam correr mais que o boi e ainda assustavam mais o bichinho.

Foi nessa altura que se revelou o grande talento do nosso saudoso amigo António Carvalho Minas (Tonito Minas, como era conhecido) para a arte de bem tourear. O Tonito agarrou numa toalha de banho e vai de enfrentar a fera !...

Imaginem a cena : O boi assustado e o Tonito gritando : Hé, touro !
Fez uma faena e tanto, de tal forma que, em Moçâmedes, durante um tempo foi tema de conversa e foi merecida a ovação que todos lhe prestaram."


Ela ainda existe, velhinha e desmobilizada, testemunho silencioso de um tempo que não volta mais, desmobilizada que fora  após a inauguração, em 24.05.1957, do 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954,  por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.