Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 12 de julho de 2011

Primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico na Baía dos Tigres em Angola: 6 de Dezembro 1904



Esquadra Japonesa em Tsushima






Tsushima: A Batalha Decisiva

Quando a 6 de Dezembro 1904, pelos 8 horas da manhã, os japoneses chegam por fim ao cimo da colina 203 para iniciarem logo no dia seguinte o bombardeamento e destruição final dos restos da esquadra russa do Pacífico, a primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico entrava na Baía dos Tigres em Angola onde se encontrava a canhoneira portuguesa Limpopo sob o comando do tenente Silva Pereira, que, de imediato se dirigiu ao couraçado Kniaz Suvarov para interpelar o almirante-comandante da esquadra Rozhestvenski aí embarcado, dizendo-lhe que estava em águas portuguesas.

O almirante russo negou tal facto, pois estaria é certo na Baía dos Tigres, mas a mais de três milhas da costa. O oficial português respondeu que as águas nacionais começavam na linha que unia os extremos da baía. Após uma longa pausa, o almirante russo pediu 24 horas de permanência de acordo com as cláusulas do Direito Internacional, o que lhe foi concedido pelo tenente Silva Pereira, como escreveu no seu relatório.

Para o historiador alemão Frank Thiess, a pequena canhoneira Limpopo terá levantado ferro e navegado para Moçamedes onde estaria o cruzador britânico Barroso. Para o comandante J. Bouteille de um navio mercante não russo que integrava a esquadra russa, a Limpopo terá ameaçado disparar contra a poderosa 1ª Divisão russa se permanecesse em águas portuguesas mais de 24 horas. O que é certo é que a esquadra russa levantou os seus ferros dentro do prazo regulamentar, navegando depois para a ilha de St. Marie na costa oriental de Madagáscar primeiro e depois para o porto de Diego Suarez do extremo norte da então maior colónia insular francesa, onde esperava encontrar-se com os navios mais pequenos que nas cercanias de Tanger se separaram para seguirem a rota do Mediterrâneo, canal de Suez e Mar Vermelho até ao Índico. Tratava-se da 2ª Divisão comandada pelo almirante Barão Foelkersam.
 Nessa época a França era aliada da Rússia, enquanto a Grã-Bretanha tinha uma espécie de aliança com o Japão. Por razões diplomáticas impostas pelos ingleses que não gostaram nada de ver tantos navios de guerra em mares que consideravam quase como seus, aquela 2º Divisão foi obrigada a aportar à baía de Nosy Bé, na costa ocidental, a norte de Madagáscar, para onde se dirigiu o almirante Rozhestvenski com o intuito de impor alguma disciplina às respectivas guarnições debilitadas pela longa viagem e com os grupos propulsores dos navios frequentemente avariados e pela doença do respectivo almirante. Só na ilha de St. Marie é que o almirante russo tomou conhecimento pelos jornais que Porto Artur caíra nas mãos dos japoneses e a 1ª Esquadra do Pacífico estava integralmente afundada. O almirantado em São Petersbourg não se dera sequer ao trabalho de informar atempadamente Rozhjestvenski pelo telégrafo. As comunicações com a esquadra eram difíceis, a TSF dos navios tinha então um alcance muito curto. Era necessário telegrafar até ao extremo da linha telegráfica em Diego Suarez que liga Antananarivo, vindo a linha de Majunga na costa ocidental de Madagáscar onde liga o cabo submarino de Lourenço Marques, pela qual passa o cabo de Zanzibar e Paris que está ligada a S. Petersbourg. Enfim, na colónia francesa, a linha telegráfica passava por centena de quilómetros de floresta quase virgem, sempre sujeita a cortes e avarias. Os navios russos permaneceram na baía de Nosy Bé por mais de dois meses, perdida que estava a corrida para se encontrarem com a esquadra russa do Pacífico. Preferiram esperar por uma 3º Divisão de navios diversos e auxiliares armados à pressa em S. Petersbourg, constituída pelos cruzadores ligeiros Oleg e Isumrud e alguns navios auxiliares que não tardaram a surgir.

 O almirante russo teve de negociar longamente com a companhia alemã Hamburg-Amerika-Linie que queria terminar aí o abastecimento da esquadra com o carvão transportado nos seus navios. Os alemães tinham um contrato para fornecerem 340 mil toneladas de carvão à esquadra russa, mas receavam que os japoneses viessem até ao Índico ou ao longo das costas chinesas enfrentar os navios russos. Ao cabo de longas conversações, os alemães acabaram por aceitar carregar carvão pela última vez em Cam Rahn na então Indochina francesa. Antes disso, a esquadra iria meter carvão na baía de Luderitz na colónia alemã do Sudeste Africano, hoje Tanzânia. O combustível metido dava para 2.100 milhas, mas os navios navegaram no início com os convés quase a rasar o nível do mar e aguentaram assim uma borrasca que provocou alguns danos.

A esquadra do almirante Rozhestvenski tinha zarpado de Libau, na então província russa da Curlândia no Báltico, a 15 de Outubro de 1904 quando ainda havia a esperança de manter Porto Artur e os navios da 1ª Esquadra do Pacífico. Rozhestvenski levava consigo 7 couraçados, 2 velhos cruzadores protegidos, 4 cruzadores ligeiros, 7 contratorpedeiros e um certo número de navios auxiliares, nomeadamente paquetes armados em cruzadores de segunda classe e um navio hospital.

A ponta de lança da esquadra era constituída pelos 4 novos e poderosos couraçados, cujo desenho foi inspirado nos planos franceses para a construção do Tsarevitch. Eram o Imperator Alexander III, o Borodino , o Orel e o Kniaz Suvaroz. Desta classe, só um navio não partiu para o Oriente por ainda estar em estaleiro. Deslocavam normalmente 13.500 toneladas, mas chegaram a carregar 2.450 toneladas de carvão, pelo que o deslocamento chegou às 16.800 toneladas. Com estas unidades seguia o couraçado Osliabya muito inferior em todos os aspectos e outros navios. Teoricamente, a esquadra russa não era inferior à japonesa quando a enfrentou no estreito de Tsushima, até tinha um poder de fogo um pouco superior, para onde seguiu em linha recta após o último reabastecimento na Indochina, mas os nipónicos jogavam em casa, a poucas milhas das suas bases e estavam altamente treinados, principalmente os seus artilheiros. As suas máquinas propulsoras estavam em óptimas condições e tinham reforçado a protecção das suas superstruturas com muitos sacos de areia, o que é perfeitamente visível em muitas fotografias e gravuras da época. Os russos, pelo contrário, tinham feito uma viagem esgotante de vinte mil milhas e não puderam treinar eficazmente os seus artilheiros para não gastar munições, além de virem excessivamente carregados de carvão, portanto, com uma altura metacêntrica muito baixa com grande parte das cinturas blindadas dos cascos debaixo de água. Rozhestvenski decidiu-se pela rota mais curta até Vladivostok, ou seja, pelo estreito da Coreia que separa este país do Japão com a meio a pequena ilha de Tsushima que acabou por dar o nome à batalha travada nas suas cercanias. O almirante russo queria reduzir o combate ao mínimo indispensável, o que é sempre o prelúdio das grandes derrotas.

Os japoneses adivinharam o pensamento do almirante russo e esperaram na zona a chegada da esquadra inimiga, nunca tendo admitido que os russos resolvessem antes contornar o seu arquipélago e entrar no Mar Interior pelo norte, apesar de Rozhestvestki ter mandado dois cruzadores auxiliares navegarem para leste, a fim de dar a impressão que toda a esquadra faria o mesmo. Pelas 5 horas da madrugada do dia 27 de Maio de 1905, o navio auxiliar japonês Shinano Maru descobriu a esquadra russa a navegar em duas colunas na rota NE e avisou logo a esquadra de Togo que pairava ao largo da Coreia. Começou por ver o navio hospital Orel que vinha todo iluminado, como mandavam os regulamentos da época, o que foi uma asneira. Teoricamente, a esquadra russa era superior em poder de fogo com os seus sete couraçados contra os quatro japoneses, os Mikasa, Shikishima, Fuji e Asahi. Os russos podiam disparar com 26 peças de 305 mm contra 16 dos nipónicos; 12 de 254 mm contra 5 japonesas; 4 de 228 mm contra 0; 8 de 203 mm contra 26 e 109 de 152 mm contra 190 japonesas. Se em couraçados havia uma apreciável superioridade da parte dos russos, em cruzadores a situação era inversa. Os japoneses tinham mais cruzadores e um pouco mais modernos, já que ao almirante russo foram atribuídas algumas unidades extremamente velhas e de andamento lento que prejudicaram a manobra da esquadra. Foi uma opção resultante da campanha de um publicista naval que tudo fez para que o Almirantado russo enviasse os navios que ficaram no Báltico para reforçarem a esquadra que esperou dois meses cansativos no clima tropical e doentio de Madagáscar. O almirante russo bem telegrafava a dizer que queria menos navios, mas mais manobráveis e rápidos.

A única vantagem proporcionada pelos velhos cruzadores e contratorpedeiros foi ter vindo num deles 44 telémetros Barr & Strout, os primeiros a serem utilizados em combate. Mas, os russos não puderam estudá-los devidamente e fazer treino intenso de tiro com os mesmos, tão ocupados estavam com a navegação. Os visores ópticos e os medidores de distâncias só foram instalados nas torres principais dos couraçados da classe Borodino; os respectivos artilheiros não chegaram a praticar tiro real com os mesmos. Por outro lado, não foi possível instalar um conveniente sistema de comunicações entre os operadores dos telémetros e os artilheiros, pelo menos, à prova do ruído ensurdecedor da batalha. Na maior parte dos navios russos não havia telefones; apenas apitos, tambores e sinais visuais para as comunicações internas nos navios, as quais começaram a falhar logo no início da batalha. As sessões de tiro de treino e de manobra de navios em esquadra não foram suficientes para formar uma força operativa de grande valor; não havia munições de reserva em quantidade suficiente nem carvão e, além disso, não se podia gastar excessivamente as máquinas propulsoras dado não haver bases russas nas proximidades. Nesse aspecto, os japoneses utilizaram com muita eficácia os seus visores e telémetros, principalmente na pontaria contínua das suas peças de tiro rápido.Para o almirante russo, os melhores telémetros eram as peças de 152 mm, avaliando a distância pelo impacto das respectivas granadas. E até foram essas peças que mostraram uma maior eficácia.

Nada disso acontecia com os japoneses que combatiam juntos aos seus arsenais, não necessitando de estarem sobrecarregados de carvão e tinham tudo afinado à perfeição. Togo estudou a táctica para alcançar um vitória decisiva, isto é, que destruísse a força inimiga uma vez por todas. E acrescente-se que batalhas navais decisivas só se registaram três no Século XX: Tsushima em 1905, Midway em 1942 e Filipinas em 1944. A primeira marcou a ascensão do Japão a grande potência naval e as duas outras acabaram definitivamente com o marinha de guerra japonesa e com o Japão militar, dando o controlo dos mares e oceanos aos EUA até hoje. Parecendo que não, os cinco minutos do ataque da esquadrilha do capitão-tenente McClusky, levado a cabo a 4 de Junho de 1942, perto da ilha de Midway, foi o golpe mais decisiva de toda a história naval, pois os nipónicos perderam aí a espinha dorsal de porta-aviões que nunca mais puderam recuperar. Curiosamente, não conheço nenhum grande navio da armada americana com o nome do capitão-tenente McClusky. O valente piloto não deve ter chegado a almirante e provavelmente morreu na guerra, daí não ser recordado. A batalha do mar das Filipinas foi apenas o estertor final de uma marinha já derrotada; foi o funeral do Japão militar.

Raramente a História regista mais que uma a duas batalhas navais decisivas por Século; Lepanto em 1571, a destruição da Invencível Armada em 1588 e Trafalgar em 1805. Todas as outras batalhas navais não foram decisivas, na medida em que não alteraram fundamentalmente o rumo dos acontecimentos, nem sequer Pearl Harbour que não determinou mais que seis meses de supremacia nipónica.

Pelas 13h45, da ponte do Mikasa, o almirante Togo viu as duas colunas russas caírem lentamente para bombordo e iniciou logo uma manobra ousada. Mudou o seu rumo de 12 quartas para se colocar numa posição paralela ao seu adversário. Os russos abriram logo fogo a sete mil metros de distância, causando alguns estragos nos navios japoneses, enquanto Rozhesteveski ordena a reorganização da esquadra numa só linha com os quatro couraçados da classe Borodino à frente, entre os quais o seu navio, o Kniaz Suvarov, que fazia de ponta de lança. Mas, os japoneses aproximaram-se mais mil metros para abrirem um fogo mais rápido, concentrando-o à boa maneira tradicional nos dois navio-chefe das duas divisões, o referido couraçado de Rozhesteveski e o Osliabya no qual seguia o corpo do almirante Fokersam falecido de doença dias antes. Togo aproveitou a sua maior velocidade e ligeireza dos seus navios com as carenas impecavelmente limpas para formar um arco com os seus navios mais próximos uns dos outros para tocar no arco russo com uma certa superioridade de fogo, concentrando-o primeiro no Kniaz Suvarov que rapidamente perdeu uma chaminé, um mastro e a torre da ré, sofrendo, além disso, um incêndio que o deixou desamparado com o almirante Rezhesteveski muito ferido para ser transferido pouco tempo depois para um contratorpedeiro.
O navio-chefe da 2ª Divisão, o couraçado Osliabya, foi atingido pelos cruzadores protegidos de Togo que na ocasião combatiam como se fossem couraçados, dado que os japoneses só dispunham de quatro couraçados. Carregado até mais não de carvão, o Osliabya tinha a cintura blindada muito submersa pelo que ficou muito vulnerável às granadas do Shimoze. Togo pensou como Nelson em Trafalgar, deixou o inimigo disparar a grande distância, convencido que não faria grandes estragos e foi-se aproximando, mesmo com os cruzadores que foram os primeiros a dispararem. A precisão dos primeiros tiros nipónicos desmoralizou os comandos da esquadra russa e feriu mesmo gravemente o almirante-em-chefe que, pelas 14h25, ainda deu ordem para mudar de rumo para evitar a tentativa de cruzamento em T pelos navios japoneses mais rápidos.

Togo tinha feito toda uma volta para apanhar o bombordo da formação russa com a sua vantagem de 2 a 3 nós. Ao contrário da linha russa que era liderada pelos couraçados, a esquadra de Togo começava por quatro cruzadores seguidos pelos seus quatro couraçados. Ambas as linhas navegaram durante algum tempo em dois arcos quase paralelos a uma distância de 5 mil e quinhentos a 6 mil metros.

Sempre que a visibilidade permitia, as esquadras disparavam com tudo o que podiam; o cruzador japonês Asama recebeu um tiro de 305 mm que destruiu a máquina do leme, deixando-o praticamente desgovernado; outro tiro russo de 305 mm atingiu o cruzador Nishin, provocando a destruição de uma torre de peças de 203 mm. Depois de dissipados os fumos dos primeiros tiros, os russos procuraram aumentar a distância em relação à linha nipónica, mas fizeram-no muito tarde; o Osliabya recebeu mais um impacto no costado que provocou entrada de água, fazendo-o virar-se completamente. Ao mesmo tempo, o Kniaz Suvarov saía da linha de batalha desgovernado também com a máquina do leme destruída. O fogo japonês passou então a concentrar-se no couraçado seguinte, o Alexander III que assumira a liderança da formação russa.

Os couraçado Borodino e Orel, além dos Oliabya a afundar-se, passaram a ser os grandes alvos da esquadra nipónica, cujos grandes navios nada tinham sofrido ainda porque deixaram a primeira divisão de cruzadores sofrer os primeiros estragos para manterem intacto todo o potencial de fogo dos seus quatro couraçados.

Pelas 15h00, o comandante Bukvostv do Alexander III guinou para bombordo a fim de cruzar a ré da formação japonesa, enquanto os torpedeiros e os cruzadores ligeiros russos tentavam lançar os seus torpedos contra os navios russos. Togo virou também para bombordo para evitar o cruzamento e lançou os seus cruzadores ao assalto ao Alexander III, obrigando-o a virar para estibordo, enquanto a segunda divisão de cruzadores protegidos nipónicos cercava o Kniaz Suvarov que resistia com denodo. Pelas 15h07, os japoneses conseguem fazer o cruzamento em T de estibordo para bombordo, abrindo fogo sobre o Alexander III que quase submergia sob o dilúvio de fogo, mas as suas blindagens iam aguentando os impactos dos canhões de Togo. Os russos disparavam da pior maneira possível, pelo que os japoneses ousaram aproximar-se até a uma distância de uma milha da formação russa. O Mikasa chegou a tentar um ataque com os seus torpedos, mas sem êxito. Por fim, Togo ordenou o afastamento da sua linha, fazendo duas voltas para sudoeste, enquanto os seus cruzadores continuavam a bater no Kniaz Suvarov com as suas peças de 203 e 153 mm, já tendo destruído todas as superstruturas frágeis como mastros, chaminés e ventiladores. O cruzador Chihaya ainda tentou lançar dois torpedos, mas sem acertar no alvo.

Depois, a segunda divisão de contratorpedeiros nipónicos tentou mais um ataque a torpedo, mas foi sempre repelida pelas peças de pequeno calibre do Kniaz Suvarov. Pelas 14h00, os russos ainda tinham intactos três couraçados da classe Borodino que tentaram, por sua vez, cruzar a linha japonesa em T, aproveitando o facto de os nipónicos se aproximarem do navio-chefe a dispararem, apesar do navio estar meio destruído e já não ter intactos telémetros e visores ópticos. O couraçado teimava em manter-se a flutuar e a disparar apesar dos incêndios a bordo. As granadas de alta deflagração japonesas causaram grande número de mortos e feridos, os quais já não cabiam na enfermaria, sendo tratados no camarote do comandante e do almirante. Os muitos estilhaços obrigavam os médicos de bordo a operarem rapidamente sem anestesia com clorofórmio por manifesta falta de tempo. Pela primeira vez foi utilizado a bordo de um navio em combate um aparelho de Raios X para observar a posição dos estilhaços nos corpos dos feridos. Um homem ferido no cérebro teve uma grave perturbação psicótica, pelo que teve de ser metido num colete-de-forças. Nas zonas protegidas do couraçado, o ar tornava-se irrespirável por estarem avariados os ventiladores e todas as escotilhas terem de estar fechadas. Enfim, um inferno de sangue, dor, gritos e calor. Só nos curtos intervalos da batalha é que se podia operar convenientemente. Muitos marinheiros tinham sido treinados para se tornarem enfermeiros auxiliares, mas não tiveram a possibilidade de utilizarem os seus conhecimentos por estarem igualmente feridos.

Contra tudo e todos, o couraçado russo Kniaz Suvarov continuava a flutuar e a navegar a 10 nós. Os japoneses flagelavam o navio com as suas peças de 152 mm e pouco conseguiam com os grandes canhões de 305 mm. Num calor infernal, o pessoal das caixas de fogo continuavam a alimentar as caldeiras com quanta força tinham os seus braços. Togo reconheceu então que errava ao tentar com os seus couraçados destruir o navio-chefe russo, deixando a formação inimiga passar, pelo que alterou o rumo para Norte, a fim de apanhar os três outros couraçados russos e enfrentá-los decisivamente, mas mandou as suas flotilhas de torpedeiros tentarem acabar com o Kniaz Suvarov Um deles conseguiu acertar um torpedo no navio russo, fazendo-o adornar uns 10º. O combate do Kniaz Suvaroz permitiu afastar os cruzadores e torpedeiros japoneses dos navios auxiliares e transportes da esquadra russa que assim puderam retroceder e salvar-se de uma destruição certa. Apenas o rebocador Rus foi afundado por engano pelos tiros dos próprios russos, enquanto o transporte armado Ural abalroa outro navio russo, acabando por ser destruído pelo fogo dos couraçados japoneses, impossibilitado como estava de navegar.

O comando da esquadra russa passa para o almirante Nebokatov embarcado no Borodino que dirige uma linha formada pelo Orel, Imperator Nikolai I, Apraksin, Seniavin, e Ushakov. O couraçado Imperator Alexander III ficava para trás debatendo-se com as avarias e meio desgovernado. Atrás ainda vinham os pequenos couraçados Sissoi Veliki, Navarin e Admiral Nakhimov. Os transportes armados Anadir, Irtish e Korea seguiam a estibordo com os cruzadores Almaz e Svetlana. A bombordo, Nebokatov organizou uma linha de cruzadores com o Aurora, o Donskoi¸o Monomask, o Yemtchung e o Izumrud. Os contratorpedeiros russos navegavam entre as duas linhas. O Imperator Alexander III era agora o grande castigado, enquanto algum fogo japonês começou a concentrar-se no Borodino. Togo deixou o Orel disparar à vontade a seis mil metros de distância, sem qualquer resultado aparente. Mesmo assim, o couraçado japonês Shikishima foi atingido num dos mastros com uma granada de 75 mm. O Mikasa levou um tiro de 152 mm. O Nishin também teve de encaixar um impacto de 203 mm. Os japoneses pouco preocupados com os tiros recebidos continuavam a desmantelar o Imperator Alexander IIII, a táctica era um por um; concentrar sempre o fogo de todos os navios japoneses numa só unidade inimiga, de preferência um navio-chefe. Pelas 18h50, o Imperator Alexander III decai para bombordo e inclina-se rapidamente até voltar-se e ir para o fundo com 30 oficiais e 806 marinheiros. Apenas quatro homens sobreviveram.ORIGEM



Linha de Ataque Japonesa.jpg

 

1904: O Começo das Guerras Imperialistas

A paz reinante em 1900 durou apenas até 1904, quando os japoneses atacaram de surpresa a frota russa em Porto Artur, desencadeando a primeira das guerras das novas potências contra aquilo que poderíamos chamar de antigas potências como os impérios russo, britânico, francês, holandês, português e belga. Entre as novas potências cheias de apetite territorial contava-se o Japão, a Alemanha e a Itália e os EUA que já tinham conquistado uma boa parte do México.

No fundo, as guerras do Século XX tiveram como motivação principal a ascensão da Alemanha e do Japão à condição de potências imperialistas com um atraso de séculos relativamente a outras como a Grã-Bretanha e todas as nações europeias detentoras de impérios. As primeiras queriam o seu “império” e as segundas nada queriam ceder e viam nas potências em ascensão um perigo para o seu poderio.

Com a técnica e os seus conhecimentos de física, os homens organizados em estados mais ou menos populosos transformaram-se em dinossauros pelas suas armas e em células “cancerosas” pela sua multiplicação por todo o planeta com efeitos tão nefastos para o ambiente que se admite como possível morte do doente, o nosso pequeno planeta Terra.

O Japão teve um percurso notável desde que em 1853 a esquadra do almirante norte-americano Perry obrigou os nipónicos a abrirem os seus portos ao comércio internacional e abandonarem assim mais de dois séculos de total isolamento relativamente ao mundo exterior. O país estava então técnica e politicamente ao nível da Idade Média. Não conhecia mais que a velha espingarda que os portugueses trouxeram no Século XVI e, em termos navais, apenas dispunham de alguns juncos. Viviam sob uma espécie de ditadura militar, feudal e hereditária dos Shoguns, enquanto o imperador era mantido, como um deus vivo afastado, dos negócios políticos.

Com a chegada dos navios fumegantes e cheios de canhões do almirante Perry, os japoneses perceberam que a velha espingarda portuguesa de 1543 não permitia a sua defesa e, para tal, tinham de dotar-se dos mesmos navios e possuírem a técnica moderna, principalmente de natureza militar.

Essa tomada de consciência do seu atraso provocou uma autêntica revolução.
Em 1869, o novo imperador Mutsu-Hito inicia a época denominada “Meiji” de abertura ao Mundo, depois de ter um ano antes jurado fidelidade a uma constituição liberal e moderna do tipo europeu e derrotado numa sangrenta guerra civil as forças do restabelecimento feudal.

Não deixa de ser interessante a razão de tão prolongado isolamento do Japão. Tudo leva a crer que isso se deve aos portugueses, mais concretamente aos padres franciscanos que pregaram os ensinamentos de Cristo como vem na Bíblia, portanto uma doutrina revolucionária de igualdade de todos os homens perante Deus, esquecendo-se de explicar que isso não era para ser levado totalmente à letra e que haveria sempre uns filhos e uns enteados do Nosso Senhor e que a Cristandade conviveu durante quase dois milénios com as mais diversas formas de escravatura e servidão, apesar de as condenar como matéria de princípio.

O cristianismo perturbou muito os velhos senhores feudais, habituados como estavam a viver numa sociedade altamente hierarquizada em que uns eram gente e outros quase nada.

O shogunato, ou seja, o poder do primeiro-ministro, aproveitou-se bem da espingarda portuguesa para unir o Japão, mas de seguida proíbe o cristianismo em 1614 com medo que a ideia da igualdade pudesse afectar a estrutura social extremamente hierarquizada da sua sociedade.

Com a era “Meiji” aparece pela primeira vez uma burguesia que ascende ao poder por via do estudo das técnicas europeias. Os japoneses correram quase em massa para a Europa para estudarem tudo; foram aprendizes nas mais lúgubres fundições, operários nos estaleiros, alunos das escolas militares e das universidades, etc.

Na Europa como então no Japão, e tal como sucedia em parte no Portugal dos descobrimentos, a classe dita burguesa caracterizava-se pela ideia de projecto de vida pessoal e nacional sem a servidão feudal nos campos e daí a ideia de expansão, comércio e indústria, ao contrário do nobre que se julga alguém simplesmente por ter nascido.
Em princípio, o burguês, principalmente o oriundo das classes trabalhadoras da cidade (burgo), é educado no trabalho e até no estudo, fazendo passar essa ideia para o todo nacional e concebendo o Estado-nação como um projecto político de progresso e daí o enorme desenvolvimento industrial dos Séculos XIX e XX.

Infelizmente, a ideia de tirar o que é dos outros passou das aristocracias para as burguesias e tornou-se parte dessa noção de projecto nacional, o que produziu as terríveis guerras do Século XX. Até os partidos que pretendiam ser do proletariado puro também foram infectados pelo mesmo vírus mental da tal apropriação do que a outros pertence, principalmente territorialmente.

Em 1903, o Japão tinha acrescentado à sua marinha de guerra quatro novos couraçados, 16 cruzadores, 23 contra-torpedeiros, além de numerosas unidades mais pequenas. Sentia-se tão forte que seria o primeiro país asiático a atacar uma potência europeia, o Império Russo do Czar Nicolau II. Fundamentalmente queria obter o domínio da Coreia e conquistar a península de Kwuantung com a cidade fortaleza de Porto Artur que lhe tinha sido retirada por via do Tratado de Shimonoseki que deu por finda a guerra sino-japonesa de 1895.

Os russos conseguiram instalar-se aí em força e decididos a nunca mais de lá saírem. Loshun crismada de Porto Artur pelos russos, ao contrário de Vladivostok, mais a norte e a oriente da península coreana, era um porto aberto todo o ano; o único de águas quentes com saída oceânica do imenso império continental que era a Rússia de então. Tinha, todavia, o defeito de estar muito assoreado na maré baixa, o que fazia com que os navios ficassem bloqueados no porto interior ou então tivessem que ancorar ao largo, frente à península dos Tigres.

Quando começou o conflito, os russos tinham em Porto Artur e Vladivostok sete couraçados, quatro cruzadores couraçados, catorze cruzadores pesados e ligeiros, duas canhoneiras couraçadas e 27 contra-torpedeiros e torpedeiros de alto mar. Uma esquadra valiosa se tivesse em boas condições técnicas de manutenção e dotada de guarnições bem treinadas, o que não acontecia, dada a ineficácia do supremo comandante e governador da Sibéria Oriental, o príncipe general-almirante Eugénio Alexeiev, filho do anterior Czar Alexandre II, enfim, um homem de carácter excessivamente burocrático e despótico. Nada se fazia sem autorizações por escrito e requerimentos prévios e qualquer decisão levava semanas a ser tomada.

A guarnição de Porto Artur era já de 38 mil homens e mais de 90 mil militares russos estavam acantonados na fronteira com a Manchúria. Mas, para além dos números, faltava quase tudo; até espingardas, para não falar em munições e, mesmo, comida. O transiberiano tinha ainda uma só via e um intervalo de 100 milhas no lago Baical que tinha de ser atravessado de barco. Um batalhão completo levava mais de um mês para chegar ao Extremo-Oriente russo.

O Japão aproveitou o facto de uma companhia russa ter iniciado a exploração e corte de árvores a sul do rio Yalu, portanto, dentro da zona que os nipónicos consideravam de sua influência, apesar de a Coreia ser um estado independente, ou quase. Um empresário russo tinha obtido do governo coreano uma concessão para esse tipo de exploração em 1896, conseguindo emitir um grande número de acções colocadas na bolsa de S. Petersbourg com tanto êxito que até o Czar Nicolau II se tornou um importante accionista da empresa Bjesobarow.

Pouco antes do início da guerra russo-japonesa, o marquês nipónico de Ito visitou S. Petersbourg e tentou negociar então com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Conde Lamsdorff, uma delimitação de zonas de influência no Extremo-Oriente entre as duas potências e, com isso, manter relações pacíficas. A Manchúria com a Península de Kwuantung e Porto Artur ficariam sob a influência russa, enquanto a Coreia, a sul do rio Yalu, passaria para a esfera nipónica.

O então ministro das Finanças do Império Russo, Conde Witte, estava de acordo, mas como o autocrata Nicolau II possuía acções da empresa do especulador Bjesobarow, pessoa muito influente na corte, a proposta não foi aceite e ninguém explicou ao Czar a imensa vantagem de uma expansão pacífica pela Manchúria, bem como a posse definitiva de Porto Artur, e a falta de preparação das suas forças, além de que a Coreia não tinha interesse para o Império Russo e, menos ainda, uma simples exploração madeireira.

Nicolau II tinha imensos poderes; não havia sequer primeiro-ministro e, menos ainda, um parlamento ou um conselho alargado. O autocrata ocupava simultaneamente os cargos de chefe de Governo e do Estado, além da chefia das Forças Armadas, mas não era particularmente inteligente, nem sequer gostava de política. Era um bom pai de família, um homem cortês e até modesto e bem intencionado, mas não tinha a mais pequena sensibilidade para os problemas materiais, nomeadamente dos militares ou da população e daí ter conduzido o Império de desastre em desastre até ao triste fim que ele e a sua família sofreram.

Nicolau II limitava os seus contactos pessoais aos ministros, a familiares e a uns tantos aristocratas. Gostava de viver num pequeno palacete nos arredores de S. Petersbourg e adorava o seu estúdio instalado numa cabana de caça. Quando estalou a Revolução de 1905, só o seu dentista é que lhe pôde dar algumas informações práticas sobre a vida do povo e sobre os intelectuais de esquerda que proliferavam por toda a parte.

Como acontecia com toda a nobreza herdeira de muitas gerações do Poder, desconhecia o sentido logístico da vida pelo que tinha a ideia que tudo se arranjava por si próprio; os servos e os súbditos tinham a obrigação de prover todos os bens materiais, o que não era muito difícil quando se tratava de abastecer um corte e umas tantas famílias nobres com um pequeno grupo de burocratas.

Outra coisa era, sem dúvida, encontrar os meios para satisfazer grandes exércitos e esquadras. Para isso, a nobreza não servia, era necessária a capacidade de organização dos melhores das classes médias, o que passava naquela época pela instituição de um regime liberal e parlamentar como o japonês e instrução pública para quase toda a população.

Saliente-se aqui que no Japão como na Alemanha e noutros países, os ditos regimes parlamentares das burguesias industriosas serviram para equipar grandes exércitos e marinhas e, uma vez resolvido o problema logístico, foram quase todos postos de parte. Os generais e almirantes aristocratas ou snobes deitaram-nos fora como trapos inúteis e meteram-se em guerras sem conta de vitória em vitória até às derrotas totais.

Recusadas as propostas do marquês de Ito, este firmou em 1902 uma aliança de cinco anos com a Grã-Bretanha. Na Rússia, o Czar entrega a política do Extremo-Oriente a um comité chefiado pelo corrupto Bjesobrawov com alguns amigos do Czar que não pararam de tentar avançar o mais possível para a outra margem do Yalu e, assim, acicatar ainda mais os ânimos dos nipónicos. Logo após a nomeação de Alexeiev para governador, tomou-se mesmo a decisão de ir para a guerra com o Japão, se necessário fosse.

Claro, o imenso Império Russo não temia o Japão, dada a correlação global de forças, mas em S. Petersbourg ninguém entendia a questão do poder regional e o facto de o Japão querer ser uma barreira à expansão da Rússia ainda mais para Oriente.

Na verdade, a Rússia de 1904 tinha mais de 145 milhões de habitantes e estendia-se desde a Polónia ao Estreito de Behring, incluindo a Finlândia, os actuais países bálticos, a Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia e todos aqueles países orientais que agora se tornaram quase independentes. Enfim, uma área terrestre superior 14 milhões de quilómetros quadrados, tanto como 152 vezes a superfície de Portugal.
Os japoneses, por sua vez, ainda não eram mais que uns trinta milhões e o seu território era uma ínfima parte do russo.

A guerra surge de facto sem que os russos estivessem preparados para o combate, até porque a dada altura deixaram de acreditar que os japoneses quisessem mesmo ir para uma guerra. O próprio Czar chegou a mandar um telegrama a Alexeiev para nada fazer no caso de os japoneses desembarcarem tropas a sul de Seul e que seria aconselhável que não fossemos nós a iniciar as hostilidades.

 Um Século de Guerra no Mar de Dieter Dellinger
  * À margem: onde se refere tenente Silva Pereira deve ler-se "João Carlos da Silva Nogueira". Especialista em hidrografia fez várias campanhas de levantamento costeiro nas possessões ultramarinas portuguesas, com destaque para a produção das cartas dos portos, barras e enseadas de Moçambique. Notabilizou-se pelo denodo como ao comando da canhoneira Limpopo, um pequeno vaso de guerra, em 6 de Dezembro 1904 se opôs à entrada primeira divisão da esquadra russa do Báltico na Baía dos Tigres em Angola na Baía dos Tigres, em Angola. A entrada apenas foi autorizada depois de formalmente pedida, implicando um reconhecimento explícito da soberania portuguesa sobre a área[2]. Wikipédia

REVISTA COLONIAL 25 Nov. 1913, nr. 11 : II cultura do algodão em Mossamedes

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl

Joaquim Bernardo Cardoso Botelho da Costa, 1º visconde de Giraúl
 

REVISTA COLONIAL

II cultura do algodão em Mossâmedes

A Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da primeira colonia. que, vinda de Pernambuco, às praias de Mossamedes aportou em 4 de Agosto de 1849, se deve a introducção d'esta preciosa planta no districto. Distribuiu elle a semente de que se munira no Brazil pelos seus companheiros e ainda hoje, decorridos cerca de 64 annos, a maioria das plantações de algodão proveem da semente brazileira.

Chegou a cultura ao seu auge no anno de 1872 em que se exportaram pelo porto de Mossâmedes 355 toneladas ; mas tendo-se seguido uns annos de seccas e havendo o preço do algodão declinado quasi repentinamente de dois mil duzentos e cincoenta réis o kilo a 260 e 169 réis, a maioria das plantações, quasi na totalidade, foram abandonadas, o que originou o encerramento de duas fabricas de tecidos que existiam nesta cidade, uma a vapor, pertencente a Eugenio Wherlin, francez, e outra, com teares manuaes, de Luiz José de Oliveira, teares que ainda hoje existem, uns numa arruinada casa pertencente
á Missão Catholica de Huilla e outros na casa da viuva do citado Oliveira .

Devido ás causas que apontámos, dedicaram-se os agricultores, quasi exclusivamente, á cultura da canna saccharina para fabrico de aguardente que se produzia em 35 destillações mais ou menos bem montadas . O maximo da producção, dizem-nos, jámais excedeu á totalidade de 1500 pipas cujo va-
lor póde computar-se em 1 20 .000000 .

Desde a conferencia de Bruxellas, começaram a acastellar-se perigos ameaçando a já então prospera cultura á qual Mossamedes deveu muito do seu desenvolvimento . O decreto de 27 de Maio de 191 t, como é de todos sabido, veiu, de vez, pôr cobro á cultura da canna, porque, havendo uma unica fabrica de assucar em todo o districto, actualmente encerrada,e sendo as principaes plantações bastantes kilometros distantes d'ella (pois é sabido, quanto mais distantes as destillações se encontravam do littoral mais proximas estavam dos centros da consumo) não podia aproveitar-se senão uma pequena parte . Felizmente os agricultores e legisladores, mal viram despontar o perigo que ameaçava o fabrico do alcool, de novo estimularam a cultura do algodão, conseguindo-se que ella reapparecesse em alguns valles do districto e se desenvolvesse um pouco mais em propriedades onde não chegára a desapparecer
por completo. Todas ellas embora muito lentamente e com sorte varia se vão desenvolvendo, não obstante a falta de mão d'obra que de ha muito assoberbava a agricultura e industria do Districto e, ultimamente, por motivos de todos conhecidos, se tem aggravado um pouco. Esta falta, se não se conseguir uma forte e voluntaria corrente de emigração de trabalhadores de Huilla, por bastante tempo se fará ainda sentir . -Mas, se se fizer a occupação militar do districto que vimos preconizando desde a primeira vez que na qualidade de Inspector do 6 .0 grupo de Circumscripções Civis de Angola, visitámos a de Capangombe cuja substituição por postos Militares alvitrámos, por ser a unira occupação com razão de ser nas terras d'aquella região, hoje englobadas na circumscripção civil de Mossamedes, a qual, em consequencia da séde escolhida, ainda tem menos razão de existir que tinha a de Capangombe, que algo de aproveitavel ia já produzindo, dispensavel se tornará essa corrente de emigração, pois é positivo que Chella abaixo ha mais do que os trabalhadores necessarios para a manutenção e desenvolvimento da agricultura e industrias de Mossamedes .


Mas, deixemo-nos de considerações sobre o problema da mão de obra, que longe, nos levariam, tanto mais que, apesar da sua capital importancia para a economia do districto elle é de facil solução, bastando, como já dissemos na colunnas d'esta «Revista» uma simples companhia indigena de infan-
taria para o conseguir e, passemos a tratar do algodão que produz a agricultura do districto, do que pode produzir e do papel que este districto, em que muitos persistem em ver apenas uma colonia de povoamento quando pode e deve voltar a  ser uma colonia de plantação, poderia representar na economia metropolitana .

O algodão exportado produzido no districto nos ultimos tres ermos, incluindo o actual, em que novos embarques se farão ainda, foi o seguinte : ,
1911 - Viuva Bastos & Filhos . . . 6478 kilos»
-- Duarte de Almeida & C.a 4440 » »
-Souza & Reis 1096»
1912 - Figueiredo & Almeida . , . 9 i 9 »
1913 - Viuva Bastos & Filhos . , .3760 »»
- Duarte de Almeida & C:.a 22312 »
- Figueiredo & Almeida . . . 201,0»

Em 1912 e 1913 foram exportados 2 :420 kilos de algodão produzidos neste districto, por individuos não agricultores, que englobámos nos numeros acima indicados. A Companhia de Mossamedes exportou em 191 I, 35799 kilos e, em 1912, 4.221 para mercados nacionaes. Em 1913 exportou 5 :000 kilos para estes mercados e 28 :800 kilos para Hamburgo. Não mencionámos estes numeros na producção do districto porque a Companhia de Mossamedes não tem aqui propriedades agricolas . Como atrai dissemos, muito brevemente seguirão para Hamburgo mais umas dezenas de toneladas de algodão produzidas por esta Companhia e pela firma Duarte d'Almeida & C.a

Vê-se, pois, que para quinze milhões de kilos de que o nosso paiz carece annualmente, poderia Mossamedes ter concorrido com 27:587, o que ainda assim não fez por a producção se ter destinado quasi integralmente á Allemanha por causas absolutamente extranhas á vontade dos agricultores, causas de que adiante trataremos e que só revelam o desconhecimento, do que por aqui se passa e tanto deve interessar aos industriaes de fiação do nosso paiz e ás Associações Commerciaes .

A media da producção do algodão «caravonia», tem sido de 200 . kilos por hectare, sendo, portanto necessarios 75 :000 hectares de cultura, admittindo que se não consigam sementes mais productivas que forneçam o algodão necessario para o consumo portuguez. Poderá Mossamedes produzil-o ?

Affigura-se-nos que sim, pois só no extincto concelho de Capangombe, com terrenos e clima eminentemente proprios para todas as culturas, especialmente a de algodão, existiram em tempos idos 57 propriedades algodoeiras ; e, revendo os diplomas de concessões de terrenos para algodão, vê-se que de 1863 a 1892 foram ali concedidos cento e quarenta e sete mil quatrocentos e dezoito hectares, á margem de varios rios. De tamanha area,havendo ainda muitos terrenos proprios que jamais foram requeridos, estão hoje sendo aproveitados, e bem mal, apenas umas centenas de hectares com varias culturas, quasi exclusivamente mantimentos. Afóra a area citada existem no districto terrenós na posse das principaes firmas que podem avaliar-se em 16 :000 hectares proprios para algodão, de que só uma pequena parte contém esta planta .


Todo exportado para portos nacionaes . Excepto 435 kilos que se destimnram a portos nacionaes
toda a producçáo foi exportada para Hamburgo.  São do conhecimento de todos os que um pouco se dedicam a questões coloniaes, os exforços empregados pelas varias nacionalidades para se emanciparem da esmagadora tutela da America do Norte que, só á sua parte, produz dois terços do algodão consumido nos mercados mundiaes. Desses exforços resultaram, como se sabe, entre outras, associações como a British Cotton Crowing Association, Associação Algodoeira Franceia e Associação Germano-Levantina . Nós, infelizmente, apesar de ainda hoje ocuparmos o quarto legar entre as nações coloniais, nada mais temos produzido, alem de muitos decretos e portarias, é crivei que muito patrioticas e bem intencionadas, mas, positivamente, de resultados quasi miles, entre os quass é justo destacar o decreto de 2 de Setembro de 1901, cujo prazo convem prolongar, no tocante a impostos e premios.

E, o que é mais: anullamos a propria iniciativa particular incitando os agricultores a venderem o algodão, de que carecemos em absoluto, á Allemanha, porque, não obstante os exforços empregados pelos Governos do districto e da provincia, e, ainda, os do Agente da Empreza Nacional de Navegação
para que esta Empreza faça a redacção de tarifas para o seu transporte, ella continha, certamente esquecida de que o Estado no intuito unico de a beneficiar sobrecarrega com maiores direitos de exportação as mercadorias transportadas pelas marinhas estrangeiras, continua cobrando 25 000 réis por tonelada de algodão emquanto a «Woerman Linie» leva só iz ooo réis. E, como se fóra pequeno o incentivo á exportação para o Estrangeiro, emquanto o algodão de Mossamedes é cotado nos mercados nacionaes a 350 réis o kilo, na praça de Hamburgo logra a cotação de 450 réis!

O facto de até agora nada termos produzido, comparativamente com o muito que poderia estar feito, obriga-nos a recuperar o tempo perdido, pois podemos e devemos, repetimos, só neste dristricto ultramarino, produzir todo o algodão de que carecemos para a nossa industria .

Evidentemente, sem a realização de tão dispendiosas como remuneradoras obras de arte, como barragens, canalizações, poços nos leitos dos rios, etc., sem a acquisição de charruas, desgranadeiras, arranca-cepas, machinas de apanhar algodão e enfardadeiras a vapor, que substituam quanto possível
o braço indigena, obras e acquisições estas que poderão custar, talvez, para cima de um milhar de contos, não é facil conseguir agricultar toda: a area que se torna indispensavel para conseguir esse desideratum.

Não ha no districto capitaes para empreza de tal magnitude, embora sobeje, por honra nossa, iniciativa para obras de maior vulto. Mas, o que os agricultores daqui não pódem fazer, tem a Companhia de Mossamedes (que pelas clausulas do seu contracto se obrigou a plantar cem mil hectares de algodão, tendo até á data, ao que nos dizem, bem mal tratados por signal, apenas mil hectares) obrigação de o fazer ou, pelo menos, tentar, organizando uma Companhia Algodoeira que tal nome mereça, com poucos ou nenhuns directores na metropole, tendo em Africa os technicos escolhidos de que careça, para muito trabalharem, como se tornaria necessario e, até ; uma fabrica para produzir o algodão tecido de que carecesse a Provincia de Angola.

Dissemos e não nos cançaremos de o repetir, que aquella Companhia incumbe essa iniciativa . Restando-lhe, segundo consta de dados ofplciaes que temos presentes, 1 :141 .9218883 réis
do seu capital, tem fundos de sobejo para o fazer, absolutamente dentro das clausulas do seu contracto . Gastou ella em Africa, vê-se de documentos ofliciaes que o affirma, a fabulosa somma de 1 :979 .953$117 reis . . . Em qué será facil provai-o, pois tudo, absolutamente tudo o que possue nos dois districtos do Sul de Angola, bem vendido, não produzirá cousa que se pareça com cem contos de reis. A Companhia da Zambezia, que oflìcialmente tem sido accusada de não cumprir o seu contracto, com um dispendio em África _de 1 .182:686 8oz réis, gastou cerca de cem contos, na occupação de alguns prazos -- regimen que muito desejaríamos vér applicado a Mossamedes e Huilla --; construiu um caminho de ferro de 28 kilometros de extensão ; adquiriu uma pequena esquadrilha de vapores para o rio Zambeze ; levantou explendidos edifcios, fabricas a vapor para tratamento do cairo e limpeza do arroz, oficinas, igualmente a vapor, que não se envergonham das que o Estado possue, fez uma estrada na qual, pelas grandes dificuldades do traçado gastou cerca de 17 contos, de Villa Bocage á Serra da Morrumballa, onde tem uma plantação de 73:000 pés de café das mais afamadas procedencias ; fez salinas, dedicou-se ao apuramento do gado bovino, de que possue cerca de cinco mil cabeças, e ainda lhe sobrou capital e iniciativa, apesar de pagar generosamente aos seus empregados talvez por isso mesmo, para ter em plena producção cerca de 400:000 coqueiros, 330 :000 plantas de agave e 4 :000 palmeiras de coconote, além de muito importantes culturas intercalares e viveiros de cacau, ficus elastica, castiloas, sansiviera cylindrica, sapium, kapok, etc., que occupam, destinados a experiencias, algumas dezenas de hectares. Afóra isto, no dizer duma auctoridade insuspeita, o consul de Inglaterra, ha longos annos residente em Moçambique, conseguiu o melhor typo deadministrador e o melhor typo de subordinado . . .

Assim tem procedido uma Companhia, com bons fundamentos, accusada de não ter cumprido o seu contracto. Que a Companhia de Mossamedes ponha os olhos nella ou nas suas congeneres d'aqueila fertilíssima e formosa região, e emprehenda a creação :d'uma Companhia Algodoeira de Mossamedes, adquirindo todos os terrenos proprios para algodão existentes no districto, o que julgamos poderá fazer com o dispendio maximo de duas centenas de contos, parte dos quaes poderia, talvez, pagar em acções . E abandone as pouco importantes plantações do planalto, a cerca de 500 kilometros do littoral, dos quaes 300. feitos por carros boers, estabelecendo-se em Mossamedes onde as plantações podem ser servidas pelos 176 kilometros de Caminho de Ferro já construidos e pelos portos e bahias com que a Natureza tão prodigamente dotou este districto . Todas as dificuldades com que lactam os agricultores do disiricto as tem ella no planalto, accrescidas ainda com as dos transportes aqui desconhecidas, e é positivo que as terras onde se estabeleceu são de inferior qualidade, comparadas com as do Munhino, Bibala, Bentiaba, Bambe, Coroca ou S. Nicolau.

Ao que nos consta, o Senhór Visconde do Giraul está envidando exforços para a creação d'uma companhia algodoeira . Oxalá elle, a Companhia de Mossamedes, os agricultores da colonia ou os industriaes da metropole portugueza, tão interessados no caso, o conseguissem! mas, emquanto tal se não fizer, que ao menos coadjuvem os exforços dos srs . Governadores deste districto e da Provincia para que as tarifas da Empreza Nacional acompanhem as da «Woerman Linie» e as cotações do algodão em Portugal não sejam inferiores ás de Hamburgo, pois é anti-patriotice além de irracional que as
colonias portuguezas exportem para o Extrangeiro productos que a nossa industria se vé forçada a adquirir por qualquer preço, onde os encontre. Taes são os nossos votos .
by
VIEIRA BRANCO 

*Coronel-medico, fundador das Cias Cuanza do Sul e Sul de Angol, Comendador da Ordem de NSCVV, Oficial da Ordem de Avis. Cavaleiro da Ordem de Cristo e da Coroa Real da Prussia.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Pioneiros da fundação de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): o Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro

Quem foi o major-médico Dr. JOÃO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO ? Que interesse teve este médico para a História de Mossâmedes, mais tarde Moçâmedes, hoje cidade do Namibe? 

Considerando que a História do Distrito de Mossâmedes seria mutilada se ignorássemos os testemunhos escritos deixados pelos viajantes que se pressupõem sinceros, embora, como não poderia deixar de ser, perspectivados sob o prisma da mentalidade da época, nos possam vir a agradar ou a desagradar, passaremos a citar alguns elementos, fruto de pesquisa da autora deste blog, com a citação das devidas fontes.

Na obra "Quarenta e Cinco Dias em Angola", de autor anónimo, publicado em 1862, podemos ler estas referências ao Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro:
 

"...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda ha pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa; proporciona-nos a occasião de vermos a propriedade do mais excêntrico dos facultativos. 


O cirurgião-medico de Mossamedes, além de sèr habilissimo na sua arte, é um excellente homem, estimado de toda a gente qiie tem a felicidade de o conhecer. Lapa e Faro é o seu nome, estudou quatro annos na escola do Porto, frequentou o quinto em Lisboa, entrou para o serviço da armada, e acha-se, não sei como, estabelecido em Mossamedes, onde gosa dos melhores créditos. Dotado de um génio independente, obsequeia a todos, mas não se torna importuno com pedidos. Qual outro Robinson, poderia o acaso lançal-o em aguma ilha deserta, que pouco se affligiria com isso : ha- bilidoso em todos os officios, é elle que se veste, se calça, e faz os seus chapéos — mas tudo parece mais obra de um hábil mestre, que de um simples curioso. Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. 

Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho. Preferindo Viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz magnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de casado em Portugal, parece estar no firme propósito de trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde tenciona occupar-se da cultura do algodão.




Através da obra de Manuel Júlio de Mendonça Torres, "O Distrito de Moçâmedes", ficámos a saber de outros nomes que não estando registados como fundadores do Distrito de Mossâmedes, são elevados a esse «Quadro de Honra», como é o caso do popular facultativo da provincia, Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro  alí colocado, onde exerceu clínica e passou quase toda a sua vida:

"...Ainda que não pertencesse a nenhum dos grupos de 1849 ou de 1850, activa e dedicadamente prestara inovidáveis serviços ao Distrito e às suas gentes na fase da sua formação, pelo que a sua veneranda memória se tornara credora de singela, mas expressiva homenagem, que aqui deixamos reproduzida".

"...Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho.
O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro ,  que na  maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado  seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha  pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada. 

Ainda sobre o Dr Lapa e Faro, e no que concerne a caçadores que se distinguiram à época da formação do distrito de Mossãmedes,  seguem algumas informações colhidas do Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, onde vem publicado um relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879. 

Lapa e Faro era possuidor de um veículo que havia mandado construir para transportar pelos areais de Mossâmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender.  Tratava-se de um carro leve e comodo, puxado por um boi-cavalo, orientado por um indigena da região, e além de conduzir passageiros, servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.


O Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, que passou quase toda a sua vida em Mossâmedes, onde exerceu clínica, comunicava — em 22 de Maio desse ano de 1865 — ter concluído a primeira fase do embalsamamento de um leão, que se remetia para o reino. Em cota lavrada sobre o documento determinava-se que este facultativo fosse louvado pelo trabalho realizado e iniciativa que tivera. BERNARDINO JOSÉ BROCHADO E JOÃO DUARTE DE ALMEIDA, NESTOR DA COSTA, JOSÉ ANCHIETA
                                                                      ............

Mendonça Torres evoca os nomes de outras individualidades, que, embora nem todas  havendo entrado na constituição dos seus componentes das 1ª e 2ª colónias, foram contemporâneos do Dr. Lapa e Faro e estiveram ligados  à vida do Distrito, de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), através de préstimosa e distintivos activação:

Recuando atrás, muito atrás, aos tempos da formação do Distrito, nunca é demais salientar os nomes de três caçadores que ficaram ligados a este vastíssimo e atraente Deserto, atraidos que foram pela abundância e variedade de animais que nele têm o seu habitat. Um deles foi Nestor José da Costa, filho do chefe da 2ª colónia chegada a Mossâmedes em 1850 proveniente de Pernambuco (Brasil), José Joaquim da Costa. Outro, foi José Anchieta, naturalista, que colheu no deserto do Namibe e enviou para o Museu Nacional de Lisboa milhares de exemplares entre os quais cerca de cinquenta novas espécies. https://www.academia.edu/7444096/Fotografia_cient%C3%ADfica_em_Angola_no_%C3%BAltimo_quartel_do_s%C3%A9culo_XIX_o_caso_do_naturalista_Jos%C3%A9_de_Anchietahttps://www.academia.edu/7444096/Fotografia_cient%C3%ADfica_em_Angola_no_%C3%BAltimo_quartel_do_s%C3%A9culo_XIX_o_caso_do_naturalista_Jos%C3%A9_de_Anchieta



A bela moradia do Dr. Lapa e Faro (1)



No Livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, 2º volume, do Ciclo Aureo da Cultura do Algodão, faz referência a um ofício de Pinto Balsemão,  datado de 23.03.1868, onde este descreve, entusiasmado, a casa do Dr. Lapa e Faro, médico na povoação, que estava à época a ser construida, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que devia ser a melhor da vila. Possuia também dois jardins, um deles coberto de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, etc., outro a ser construido ainda. Segue um fragmento do ofício de Balsemão: 

 «Só quem vê aquele aquele areal estéril e pleno de monotonia em que está colocada a vila,  pode bem prever as dificuldades com que o Dr. Lapa e Faro tinha lutado para conseguir ter jardins no pé em que estão os que cercam a sua vivenda em Mossâmedes, dada a dificuldade de obtenção de tudo quanto é necessário, a terra para jardim vinda de grande distância,  as sementes e os arbustos de países remotos para aclimatar a Mossâmedes, grandes despesas».

Quando Manuel Júlio de Mendonça Torres, o autor do livro, nasceu, a casa já não pertencia ao Dr Lapa e Faro, que havia falecido há muito.  



"...Ficava situada na Rua das Hortas (?), época em que a moradora, sua proprietária, era Rosa Gonçalves Moreira, funcionando arrendado no jardim um campo de jogos de um grupo desportivo local.  Refere ainda Balsemão a existência de uma outra vivenda que também pertenceu ao Dr. Lapa e Faro,  próxima da Aguada, nos arrabaldes da vila, construida posteriormente, que nada tem a ver com esta situada em plena vila...


Nota: O edificio pintado a azul (foto recente emviada do Namibe) penso ser o  edificio conhecuso em Moçâmedes pot "Chalé" da Horta da Nação, com pintura nova. Ficava na margem esquerda do Rio Bero. Era em 1975 propriedade de José Prazeres Madeira e pensa-se ter sido o 1º proprietário o Dr Lapa e Faro, o 1º médico de Moçâmedes, que foi  contemporâneo dos colonos da fundação. Dele também foi aquela que conhecemos como a artistica Casa da Desvia, na Rua onde ficam a Câmara e a Escola Portugal (ex Rua Calheiros).  Actualmente pertence à Policia Nacional.
 O Chalé" da Horta da Nação, é sem dívida uma belíssima construção. Em 1975 era propriedade de José Prazeres Madeira .Segundo Vitor Mandonça Torres, "...nada fazia parte da propriedade que vinha das salinas até às hortas torres(benfica incluso) e que voi vendido em lotes ao meu tio gaspar madeira e dps em herança para o prazeres e a de benfica para o Venancio". 




Pesquisa e composição de texto de MariaNJardim 

Ajude a difundir este blog. Respeite o nosso trabalho. Se publicar algo retirado daqui, não se esqueça de dar os respectivos créditos a "Mossâmedes do Antigamente". E não esqueça também de citar outras fontes por sua vez aqui citadas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Famílias antigas de Moçâmedes: a família de João Thomás da Fonseca e a pescaria do Mocuio



 A ponta de Stª Gertrudes divide a praia de Baba da baía do Mucuio (ou da Tartaruga, que é aberta para Noroeste. Na continuidade do Mucuio, navegando para norte, ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Lucira, Vissonga e o Bába. E a sul do Mucuio, a Baía das Pipas, Moçâmedes, Porto Alexandre e a Baía dos Tigres. 


FOI ASSIM QUE TUDO COMEÇOU...




João Thomás da Fonseca (pai)

 
Foto: João Thomás da Fonseca junto da esposa, Celeste Sena Fonseca, e a filha de ambos, a pequena Celeste, por volta de 1914


Foto: Quem conheceu João Thomás da Fonseca (pai), o fundador da pescaria do Mucuio não esquece a sua postura, com bigode de ponta retorcida, casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso, indumentaria em conformidade com a sua posição de industrial  bem sucedido.  Na foto, sentado, ao centro, rodeado de amigos, entre os quais Manuel Vaz Pereira (vestido de branco). Data provável: 1920


Foto: Os irmãos Álvaro e João Thomás da Fonseca (filho), filhos do patriarca do Mucuio, com Mucuio à vista...



Tudo começou nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República, em finais do século XIX. Portugal vivia numa verdadeira anarquia, quando João Thomás da Fonseca (pai), algarvio, natural de Tavira, resolveu emigrar para Angola, onde esteve ao leme de um veleiro que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas,  e  o dinheiro amealhado, estabelecer-se no Mucuio.  E foi ali, naquela praia deserta, pequena e inacessível,  perdida nas escarpas do deserto do Namibe, no distrito de Moçâmedes, a sul de Benguela, onde vales secos substituem rios que ali iam desaguar,  que João Thomás da Fonseca (pai) ergueu a sua pescaria, requisitou pessoal indígena contratado, comprou os primeiros barcos à vela e a remos,  montou duas armações que para funcionar, precisavam no mínimo de 4 barcos para efectuarem a pesca à valenciana (1), pagou mestres de terra algarvios que mandou vir da Metrópole,  e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então.

A pescaria Mucuio era sem dúvida uma importante pescaria, que nos seus tempos áureos possuía salinas,  fábrica de farinha de peixe e de conservas,  um pequeno estaleiro, uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas (só para a pesca do cachucho e da garoupa), e mais de 20 embarcações pequenas. Da fábrica de conservas de peixe chegaram a ser exportadas em latas de 2,5kg, conservas de merma e atum, com respectivos rótulos, para o nordeste americano. Dedicava-se  também à salga e seca de peixe, e a uma pequena congelação.

Apesar dos condicionalismos de toda a ordem, e do isolamento a que obrigava, o Mucuio foi evoluindo ao longo do tempo, e já no início do século XX, João Thomás da Fonseca (pai) mandou construir,  com todo o conforto, o seu bonito chalet cor-de-rosa, em pleno areal da praia, motivo de orgulho do industrial, onde nada faltava, inclusive um sistema de aquecimento e de canalização de água ligado à  parte exterior, onde ficavam a casa de banho e a cozinha,  duas guaridas (uma para o guarda, outra para aquecimento central), e  um mirante  a partir do qual podia, sentado de frente a olhar o oceano, a praia e as instalações da sua pescaria, observar  os galeões que entravam e saiam da baía,  fazendo o transporte de mercadorias para o norte de Angola, Cabinda, Gabão e Golfo da Guiné, levando dali ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão, recebendo em troca,  bordão, madeiras preciosas, e outros produtos mais, e ao mesmo tempo controlar a azáfama da laboração pesqueira.

No Mucuio sequer havia água potável, a água ia de Moçâmedes em enormes pipas, de início transportada por barcos de pesca e por carros puxados por manadas de bois, e mais tarde em camiões. Conta-se que morreu gente no Mucuio, devido à tubagem de cobre das canalizações. A vida dos pioneiros sempre foi rodeada de riscos. A verdade é que a pescaria do Mucuio deu origem à fixação de inúmeros  europeus e africanos na zona, estes entre contratados e livres. Uma comunidade que se desfez após a independência de Angola, em 1975, com o êxodo dos portugueses e não só, em meio a uma guerra fraticída entre movimentos independentistas, na disputa pelo poder, cada uma das quais apoiada por potências mundial interessada e interesseira.


Foto: A pescaria do Mucuio nos seus tempos áureos. Nada aqui foi construído por acaso. Dá para apreciar a estética da organização espacial e não só, do complexo pesqueiro que nesta altura parecia intocável...



Foto: João Thomás da Fonseca (filho) e o gerente, Faria que ali trabalhou durante 50 anos. Data provável: 1942.  Em 1º pano giraus ou tarimbas de peixe seco. Atrás as instalações fabris.




Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  rodeado de amigos e de algumas personalidades, incluindo  representantes da Marinha portuguesa, quando faziam uma paragem para descanso, no decurso de uma viagem ao Mucuio, onde possuía a sua pescaria.  Data provável, talvez anos 1920, a chamada "Belle Époque", a ter em conta a indumentária das senhoras. 

Lembro aqui que foi em Moçâmedes, que nos anos 1914 e 1915 desembarcou grande parte do efectivo militar português, destinado a operações terrestres, face ao receio de uma ofensiva vinda do Sudoeste Africano alemão (hoje Namibia) sobre a região planáltica, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre,  e com o objectivo de submeter populações nativas sublevadas, factos que agitaram sensibilidades e puseram a região em polvorosa. Em consequência,  o porto de Moçâmedes como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito, desempenhou um importante papel. 

Olhando para esta foto, podemos facilmente reparar que à falta de cadeiras, as senhoras estão sentadas sobre pequenos caixotes de madeira, devidamente rotulados. Acontece que naquele tempo, e até 1950, a gasolina era importada dos Estados Unidos da América, em latas de 20 litros acondicionadas em caixotes, mas o precioso combustível também chegava a Angola em tambores de 200 litros. E porque nesse tempo fora das cidades não existiam de bombas de gasolina para abastecimento, os proprietários dos escassos transportes automóveis que existiam, tinham que levar consigo, nas suas deslocações, alguns desses caixotes com as respectivas latas para se abastecerem pelo caminho, quando o depósito do veículo esgotava. Aliás, os mais antigos recordam ainda as bombas manuais  que existiam nesse tempo, nas principais cidades de Angola, e em certas povoações do mato, que, com um pouco de sorte, eram oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas aos potenciais importadores. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma "torre" de 2,5 m de altura, que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitados para transporte de água. Uma água que, por vezes, durante algum tempo, apresentava um certo sabor a gasolina ...



 

 

 Foto: Estas são algumas das mais recentes fotos do Mucuio, e da pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o elegante challet, sua imagem de marca, já em estado de decadência..






Mucuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Gostaria de acreditar!

Ficam estas recordações da gesta dos portugueses em Angola.



Pesquisa e texto de MariaNJardim



(1) Os barcos mantinham as redes no fundo do mar, geralmente com vista a capturar espécies migratórias nas suas rotas, e estas eram levantadas, por duas vezes , durante o dia, para retirar o pescado, e apenas eram retiradas para manutenção.


Créditos

Algumas destas informações foram recolhidas do livro "Baia dos Tigres".

As fotos antigas foram publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto). Que me perdoe o João por as ter tirado para o nosso blog!

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Em tempo: Uma meia dúzia de anos após a publicação deste textos e fotos, voltei aqui para colocar esta foto que mostra o aspecto do MUCUIO em 2017 :





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Recuando na História, a primeira pescaria instalada em praias do Namibe foi fundada pelo algarvio Fernando Cardoso Guimarães, em 1843, na sequência de um acordo com "sobas" da região para instalação de colonos, mas tal como outras feitorias,  não teve continuidade. Uns anos após a rainha D. Maria enviava a graça de 1000 anzóis para Moçâmedes, por constatar que era terra de muito peixe.

A colonização propriamente dita das costas de Angola, ao sul de Benguela, teve início apenas em meados do Século XIX, com a fixação de famílias portuguesas, após ter desembarcado em Moçâmedes, em 1849, a primeira "leva" de colonos vindos de Pernambuco (Brasil), que embora dedicados essencialmente à agricultura  (foram eles que lançaram as raízes da agricultura nos vales férteis dos Rios Bero e Giraul), chegaram a possuir de início pequenas pescarias nas praias a norte de Moçâmedes, que estavam entregues a serviçais indígenas.

Segundo relatórios oficiais,  a pesca no Mucuio e na Baia das Pipas foi licenciada em 1854, e em 1857 havia em  Moçâmedes e em mais 4 praias a norte, até à Lucira, 16 pescarias com 40 escaleres, onde trabalhavam 280 escravos. Estranha-se estes dados pouco considerados uma vez que quase todos os escritos históricos apontam o arranque da industria de pesca, em 1861, com a chegada dos primeiros algarvios de Olhão que  às costas de Moçâmedes, viajando em seus próprios barcos à vela. O ponto de chegada era Moçâmedes, imediatamente a seguir, passou a ser também Porto Alexandre, e só alguns anos após, em 1865, a Baía dos Tigres. Segundo referências históricas os colonos de Pernambuco montaram algumas pescarias. porém mas praia a norte de Moçâmedes, ainda antes dos olhanenses se fixaram em tudo quanto eram praias e enseadas desérticas, a norte e a sul de Moçâmedes.  Continuando a residir em Moçâmedes, esses pescarias encontravam-se entregues a serviçais indígenas, os quais passaram a ser mais tarde denominados de "quimbares".


Nessa fase de transição entre 1936, data da publicação do decreto de abolição do tráfico de escravos pelo General Sá da Bandeira,  até 1869, quando o tráfico de escravos que entrara na clandestinidade é definitivamente abolido, sob a acção das marinhas portuguesa e inglesa que patrulhavam a costa, as áreas económicas do distrito, essencialmente agricultura e pescas,  viram-se preteridas do acesso à mão de obra indígena, uma vez que os serviçais apercebendo-se do que estava a passar, escapavam para as suas terras de origem à primeira oportunidade, e foram os algarvios de Olhão que vieram colmatar essa falta, ajudando-os nessa hora de crise.

Os algarvios em relação à pesca tiveram uma adaptação mais feliz que os luso-brasileiros que chegaram a Moçâmedes em 1849 e 1850,  cuja maioria dedicava-se essencialmente à agricultura. Importa ainda referir que foi graças a um factor de grande importância, também ele ligado ao mar, que foi viabilizado o comércio naquela costa remota de Angola, quando os baleeiros americanos que operavam entre a Ilha de Santa Helena e o sul de Angola, descobriram poderem ter na costa de Moçâmedes uma rede de abastecimento de frescos.

A vida era difícil, uma vez que em grande parte das praias onde os portugueses se fixaram não existia água doce disponível, sequer se vislumbrava um ponto verde no horizonte, mas era compensada pela abundância de peixe que era capturado, salgado e seco, e que apesar das difíceis condições, era exportado para algumas colónias africanas, ainda que de início muitas toneladas de produto fossem destruídas, ainda em Angola, devido às condições de tratamento, infiltração de areias, etc.

Com o rodar dos tempos, a indústria pesqueira no distrito de Moçâmedes foi-se desenvolvendo e transformou-se numa indústria próspera. Surgiram fábricas de enlatados, conseguiam preparar óleo e farinha de peixe que exportavam sendo valiosa a ajuda dos Serviços Veterinários que se instalaram em Moçâmedes, veio o negócio do peixe refrigerado e congelado, que era transportado para os consumidores  por caminho-de-ferro.  Em meados do século XX, o grosso das exportações era constituído por peixe seco, seguido pelo peixe em conserva, óleo de peixe, peixe em salmoura e outros produtos – ovas, peles e guano de peixes.

Em 1929  o Sindicato da Industria da Pesca de Moçâmedes  foi criado com o nome de Sindicato de Pesca e Comércio de Moçâmedes, tendo como 1º Presidente o Dr. Carlos Alberto Torres Garcia. Tentava-se com a sua criação debelar a crise que se instalara no sector, na década anterior, devido à crise de mercados de consumo que fizera paralisar o escoamento do peixe que se acumulava nos armazéns, ao ponto de ter sido deitado de novo ao mar. Chegara-se ao ponto do Sindicato ter que dar senhas de crédito aos pequenos industriais/pescadores possuidores de sacadas para pagamento do peixe que lhes ia sendo entregue. Contudo, julgava que com o Sindicato das Pesca os problemas estaria resolvido, não foi isso que aconteceu. Logo após a sua formação geraram-se dois grupos, de industriais/ /exportadores que se «guerreavam» entre si, criando situações complicadas, com a acumulação de dívidas, acções em tribunais, etc. De acordo com a orientação dada ao Sindicato, este não obrigava à sindicalização, e o Conselho Especial de Consulta e Parecer, que o Diploma previa, transformou-se num tribunal de pequenos delitos, originando-se uma situação absolutamente insustentável com exportações arbitrárias, sem qualquer espécie de controlo. O desacordo entre o governo e o grupo dissidente acentuou-se ao ponto de os Sindicatos serem dissolvidos criando-se a Federação dos Sindicatos de Pesca e os industriais//exportadores tomaram o controlo dos sindicatos e continuaram a exportar para o Congo até que o Governo Geral acabou demitindo.
 
Com o aumento das actividades pesqueiras e da importância económica da sua indústria, o Sindicato da Pesca e Comércio de Moçâmedes, criado no ano da grande crise da indústria pesqueira que a todos afectou e que foi decisiva para construção das primeiras fábricas de transformação de peixe em farinha e óleo, foi extinto, e criado em seu lugar, em 1 de Maio de 1949, o Grémio da Indústria da Pesca e seus derivados do Distrito de Moçâmedes, com o fim de organizar a indústria de peixe seco e farinhas e óleos de peixe, que até àquela data, como referia um Relatório, vegetavam ao sabor dos interesses de aventureiros e oportunistas.

 
O Grémio dos Industriais de Pesca viria a extinguir-se também, por força plano da reestruturação da Indústria de Pesca de Angola e a criação do  Instituto das Industrias de Pesca de Angola, com sede em Luanda (DG, 1960), junto do governo, mas distante das zonas de produção, com o fim de orientar e fiscalizar a produção do pescado, a sua transformação e o comércio dos produtos fabricados, coordenar as indústrias de pesca e de transformação afins.


Por sua vez, o Instituto da Pesca de Angola , que teve o Dr. Andrade como 1º Presidente, em 1970 criou as suas «secretarias» regionais, ou seja, Institutos da Pesca nas capitais de distrito dedicados à pesca, tais como Benguela, Porto Amboim e Luanda. facto que levou os industriais do distrito de Moçâmedes a se organizarem, através da criação da Associação dos Industriais de Pesca, só que agora alguns, poucos, ficaram preferivelmente de fora, isolados, como foi o caso de Gaspar Gonçalo Madeira, que exportava individualmente tendo para tal aberto uma empresa independente em Lourenço Marques (finais de 50). peixe seco meia cura e ultimamente congelado.

Em Moçâmedes, a criação do Instituto da Pesca levou consigo parte dos antigos funcionários do Grémio dos Industriais de Pesca, enquanto outros, saíram para trabalhar em Bancos, etc. Na altura da transição foi nomeado pelo Instituto da Pesca de Angola para director do Instituto da Pesca de Moçâmedes, o moçamedense Carlos Manuel Guedes Lisboa, industrial de pesca e funcionário do extinto Grémio da Pesca. Finalmente, Moçâmedes exibia já em vésperas da Independência de Angola (1974), 86 sócios inscritos dedicados à industria da pesca, sendo a seguinte a relação em 31/12/74, conforme vem descrito no livro de Carlos Cristão «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva, Lx 2005:

No seu livro «Memórias da Angra do Negro - Moçâmedes - Namibe (Angola), desde a ocupação efectiva», Lx 2005, Carlos Cristão refere que em vésperas da independência de Angola, em 31/12/74, era a seguinte a relação das empresas industriais dedicadas à pesca em todo o distrito de Moçâmedes, entre as quais figura a de João Thomás da Fonseca & Cª:


A Industrial, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial do Canjeque, Lda. (Moçâmedes/Canjeque)

A Industrial Conserveira do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

A Industrial de Moçâmedes, Lda. (Moçâmedes)

A Mariquita, Ind. Lda. (Moçâmedes)

Abano & Coimbra, Lda. (Porto Alexandre)

Adérito Augusto Sanches, Lda. (Porto Alexandre)

Agripesca Ind. Lda. (Moçâmedes)

Alvaro Thomás Serra Fernandes (Moçâmedes)

Amadeu Gonçalnes e Neves, Lda. (Moçâmedes)

António Francisco Antunes (Porto Alexandre)

António Francisco Baraço (Herds) (Moçâmedes)

Antunes da Cunha, Lda. (Porto Alexandre)

Associação Industrial de Peixe Seco de Moçâmedes (Moçâmedes)

Barbosa & Santos, Lda. (Porto Alexandre)

Beira Mar, Lda. (Porto Alexandre)

Bento & Irmão, Lda. (Moçâmedes)

Cabrita, Lda. (Baía dos Tigres)

Carmo & Martins, Lda. (Porto Alexandre)

Carvalho Oliveira & Cª (Moçâmedes)

Compª de Pesca Angola, Lda. (Moçâmedes)

Compª Ind. e Com. de Pesca Angola, SARL. ( Cipesca-Moçâmedes)

Compª Ind. Produtos do Mar, SARL (Porto Alexandre)

Compª Alexandrense de Produtos de Pesca (Porto Alexandre)

Cooperativa de Produtos do Mar (Porto Alexandre)

Costa & Silva, Lda.

Dafisilva - DA. Figueiras & Silva, Lda. (Moçâmedes)

Dídio Alceu Pimentel Pacheco (Porto Alexandre)

Duarte & Lourenço, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. Farinhas e Oleos de Peixe, Lda. (Porto Alexandre)

Empresa Ind. e Mercantil de Pescas, SARL (Moçâmedes)

Empresa Ind. do Pinda. Lda. (Moçâmedes)

Empresa de Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Ferreira & Filhos, Lda. (Moçâmedes)

Francisco Baptista (Porto Alexandre)

Herds Dionísio Costa Tavares (Porto Alexandre)

Humberto Sena Tendinha (Porto Alexandre)

Industrial de Peixe Namibe Lda (Luanda)

J. Patrício Correia, Lda (Moçâmedes)

João Duarte Filhos, Lda. (Moçâmedes)

João Thomás da Fonseca & Cª (Moçâmedes)

Joaquim Conceição Camarinha (Moçâmedes)

José Dias Ferreira (Moçâmedes)

José Domingos da Conceição Martins (Porto Alexandre)

José Evangelista Aldeia (Moçâmedes)

José Joaquim Carreiro Correia (Porto Alexandre)

José Venâncio Delgado (Porto Alexandre)

Juventino Ferreira Graça , Lda. (Porto Alexandre)

Mamedes Sucessores, Lda. (Porto Alexandre)

Manuel Martins Ramos (Porto Alexandre)

Manuel Mendes Mamedes, Herds. (Porto Alexandre)

Mário Lino Caldeira (Porto Alexandre)

Marques & Marques, Lda. (Porto Alexandre)

Mercantil Piscativa, Lda. (Porto Alexandre)

Olímpio Mário Aquino, Lda. (Moçamedes)

Parceria de Pesca, Lda. (Moçâmedes)

Pescaria Algarve, Lda. (Porto Alexandre)

Pescarias Namibe, Lda. (Moçâmedes)

Pestana e Carvalho, Lda. (Moçâmedes)

Rogério Napoleão Gonçalves (Porto Alexandre)

Sampaio (Irmãos), Lda. (Porto Alexandre)

Sancho e Arvela, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ango-Algarve, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Armadores das Pescas de Angola, SARL (ARAN - Moçâmedes)

Sociedade Congeladora do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade de Conservas da Lucira, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade de Conservas Sagres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Frigo Pesca do Sul, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. Alexandrense, Lda. (Porto Alexandre)

Sociedade Ind. da Baía dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. do Cabo Negro, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Ind. da Vissonga, Lda. (Lucira)

Sociedade de Pesca da Lucira, Lda. (Lucira)

Sociedade Piscatória dos Tigres, Lda. (Moçâmedes)

Sociedade Piscatoria do Sul, Lda. (Porto Alexandre)

Sopeixe Ind. SARL. (Porto Alexandre)

Somar, Sociedade de Produtos do Mar, SARL (Moçâmedes)

Sopesca, Sociedade Ang. de Pescarias SARL. (Moçâmedes)

Sul Angolana, Lda (Porto Alexandre)

Tendinha & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Trocado & Irmãos, Lda. (Porto Alexandre)

Venâncio Guimarães e Compª. (Moçâmedes)

Venâncio Guimarães Sobrinho, Lda. (Moçâmedes)

Veríssimo & Irmão, Lda. (Porto Alexandre)


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Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?




Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.


Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”.


É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida naquele local e, por definição e determinação filológica, não desfruta de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano.


Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.


Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio.


Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. 


Vejamos em seguida a posição sobre o mesmo assunto de um outro neto do mesmo fundador, João Thomás da Fonseca:


"...Não quero ser polémico nem contestar ninguém mas pela experiência que tive da minha vivência de Àfrica, embora não sendo filólogo ou especialista em línguas, faz-me mais sentido que se escreva com “Mu”, pela simples razão que é um prefixo usado para definir o nome de uma raça humana no sul de Angola ou o nome de árvores. Dou alguns exemplos.
Àrvores:- Mucuio (figueira brava), Mulemba, Mucua, Muthiati e por aí além.
Raças humanas:-
Mucubal, 
MuMhuíla, Mudimba,
Mucuanhama,
Mukancala, etc.
Possivelmente o meu avô João Thomaz tenha usado a forma aportuguesada, pois realmente toda a louça do nosso chalet está com o nome MOCUIO.
Obrigado pela oportunidade de poder dar a minha opinião. "









VER VIDEO MUCUIO HOJE


Ver também o blog Tropicália: http://afmata-tropicalia.blogspot.pt/2010/01/1-viagem-de-exploracao-maritima-da.html


  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

quinta-feira, 28 de abril de 2011

LIVRO: Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa. A fundação da colónia de Mossamedes.


Capa

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Transcrevo a seguir algumas passagens deste  Livro  intitulado "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa, Volumes 1-2  por Carlos José Caldeira, na parte que toca aos  primordios da fundação de de Mossâmedes, na fase que medeou entre o estabelecimento das primeiras feitorias até aos 2 e 3 primeiros anos após a chegada dos colonos de Pernambuco (Brasil) em 1849 e 1850.


Fundação da Colónia de Mossamedes e seu actual estado
Cap. XVIII

"...Ainda que não visitei este novo estabelecimento, direi d'elle o que pude colher de varias informações que obtive, e que alcançam até ao fim de 1858. A bahia de Mossamedes, a que os inglezes chamam Litte Fish Bay, jaz em 15° 8' de lat. sul, e 21° 11' de long. a leste de Lisboa. Por ordem do governo foi explorada em 1785 por mar e terra, com vistas de se fazer alli um presidio, o que porém caiu em esquecimento, e só em 1839 o vice-almirante A. M. de Noronha, governando Angola, encarregou de uma nova exploração por mar ao capitão tenente Pedro Alexandrino dá Cunha, ao mesmo tempo que o tenente João Francisco Garcia partia por terra ao mesmo destino. No relatório do primeiro feito em 1840, e na memoria do segundo em 1841 dão curiosas noticias sobre a fertilidade e riqueza dos territórios contíguos para o interior, as quaes todavia parece não serem tão grandes, conforme depois se reconheceu.

Logo em 1840 começou a povoação, e depois ali  se estabeleceram feitorias de negociantes de Angola e Benguella, e se levantou um forte, sendo estes trabalhos continuados em 1841 pelo capitão tenente Francisco Antonio Gonçalves Cardoso (commandante do brigue Tejo alli estacionado), e que penetrou até a Huila, a 60 ou 60 legoas no Interior, onde pela primeira vez fez tremolar a bandeira portugueza.

Foi crescendo o estabelecimento e em Agosto de 1849 alli desembarcaram 165 colonos portuguezes, idos de Pernambuco, sendo 115 homens, 27 mulheres, e 23 menores; levando tres máquinas de engenhos para o fabrico do assucar, e os utensílios respectivos; e em 1850 chegaram mais 80 a 90 colonos, idos da Bahia e do Rio de Janeiro.

Mossamedes constitue hoje um districto, mas por agora verdadeiramente não é mais que um presidio , porque o governador reúne todas as atlribuiçôes militares, judiciaes, e administrativas. E a ultima povoação na parte sul da província d'Angola, assente num areal cercado d'outros, onde poucos dias ha de excessivos calores por causa das constantes virações do sul, regulando a temperatura pela do mez de maio era Portugal. Tem uma nascente de boa agua com partículas férreas: o clima é salubre, e no liltoral da província é o ponto onde melhor vive, e vinga na sua pureza a progénie da raça branca. Não ha chuvas, e a humidade das terras provém das inundações, conservada depois pelos cacimbos, ou névoas baixas, que duram de 4 a 5 mezes.

O fundeadouro e o porto são excellentes, havendo sempre desembarque seguro, mesmo nas maiores calemas. Na bahia abunda prodigiosamente peixe de boa qualidade, do qual fazem salgas e séccas que exportam para Benguella, Loanda, e ainda para o interior.

Os povos próximos criam muitos gados, que já se vão costumando a vender, e os mais distantes os vendem alé mesmo com preferencia á cera e marfim, o que produz muita abundância e barateia de carnes, que se exportam para abastecimento da estação naval , e consumo em Loanda, propondo-se agora alguns especuladores a seccar a carne á maneira do Brasil, o que se pôde tornar um importante ramo de exportação. Um boi grande custa, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que sé pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundância de leite.

D'antes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns se recusam, a vender gados em maior quantidade, porque parece que os tem na mesma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do individuo pelo numero de cabeças que possue. Em algumas partes só matam os bois, e lhes comem a carne por occasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres.
Além dos gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão.
Nos limites de Mossamedes desembocam duas notáveis torrentes, ou rios Bero e Giraul, que apresentam nas suas margens várzeas de terreno Vegetal, mais ou menos salgado. Ainda porém não estão bem marcados os tempos próprios de lançar á terra as sementes de differentes productos, nem também conhecida a vantagem que se tirará das differentes culturas, pois que ha tres annot tem faltado as grandes inundações , que ferlilisam as terras. Comtudo ha já algumas plantações da canna sacarina feitas pelos colonos, sendo as principaes no Bumbo, Cavalleiros, e Giraul. A do Bumbo é dirigida pelo colono José Leite d'Albuquerque, homem laborioso e muito intelligente na cultura da canna e fabrico do assucar; acha-se porém a 30 ou 35 legoas de Mossamedes, n'um paiz muito fértil e abundante em maltas, mas doentio, e é protegida por um destacamento da companhia de linha do districto: a dos Cavalleiros que pertence a Bernardino Freire de Figueiredo e Castro; e a do Giraul que foi estabelecida á sua custa por J. J. da Costa, colono que veiu do Brazil com numerosa família, e algum capital. Começam a fazer-se sementeiras d'algodão , de que vi uma amostra de superior qualidade, mas faltam ainda as maquinas para o descaroçar.

Planta-se a mandioca ou pão commum, que por agora não tem chegado para o consumo; attendendo porém ao incremento que vai tomando esta cultura , talvez no fim d'este anno (1853 ), ou no próximo já possa chegar. Abunda em excellentes hortaliças e bananeiras , produzindo também muito boas uvas; e já vai hayendo algum arvoredo, mas ha muita falta de lenha.
 
Contam-se já umas 400 habitações, sendo 48 de pedra e barro cobertas d'argamassa, das quaes uma só é de pavimento alto, e o resto são cubatas. O numero actual de colonos idos do Brazil é d'uns 100, de ambos os sexos e todas as idades, e regulam por £0 os principaes moradores que anterior e posteriormente alli se tem ido estabelecer. Os habitantes negros serão uns 600 entre livres e escravos, comprehendendo talvez 800 almas toda a povoação, incluindo perto de 200 brancos. Existem uns 20 operários de differentes officios, alguns muito perfeitos. Ha 12 vendas ou lojas de fazendas e molhados ou líquidos, 3 padarias, e umas 8 casas de commercio, que por termo médio giram com o capital de 8 a 10 contos cada uma. Modernamente tem ido alli negociar 3 navios portuguezes e 2 brazileiros, que se deram bem, achando pagamento nos retornos das suas permutações, com tanta ou mais promptidão que nos outros portos da província : comtudo o maior movimento é no commercio de cabotagem para Benguella e Loanda.
 
Ha uma botica do governo, e um soffrivel hospital, que poderá conter 20 a 85 doentes; mas que de ordinário muito poucos contem, o. que bem prova a salubridade do sitio. Durante o anno de 1852 o maior numero de doentes que alli se reuniu foram 13 , entre brancos e negros, incluindo feridos e os de moléstias chronicas ; e quando em julho de 1849 visitou aquelle estabelecimento o governador d'Angola Adrião Accacio da Silveira Pinto, estava o hospital fechado por falta de doentes. Existe um mestre régio, regendo effectivamente a cadeira de instrucção primaria, com 12 discípulos, tendo uma pequena bibliolheca fornecida pelo governo, e apropriada ao ensino da infância. Ha também uma mestra regia, que tem 4 discípulas. Observa-se em geral mais moralidade nos costumes da população, do que de ordinário se encontra nas colónias d'Africa. Uma parte dos colonos foram casados, e outros se tem casado depois. Em outubro de 1851 foi a Mossamedes o padre D. Antonio da Rocha Leite , secretario do bispo de A ngola, mandado por este em missão especial, e alli celebrou 12 casamentos entre colonos, e 70 e tantos baptismos de brancos e negros. Os nascimentos de brancos orçam por 30 depois do estabelecimento definitivo da colónia. E muito para lastimar que n'esla nascente povoação faltem os soccorros religiosos; não ha alli padre nenhum permanente, e á igreja está ainda por concluir, lendo sido começada no meado de 1849. Também o pequeno forte que protege o povoado está por acabar, mas tem montadas 6 peças de differentes calibres.  
O governo durante dois annos sustentou todos os colonos que permaneceram no Estabelecimento e se entregaram á cultura, e só lhes suspendeu o subsidio em outubro de 1852, vivendo já todos soffrivelmenta pelo producto do seu trabalho. Até ao fim do dito anno não havia qualidade alguma de imposto, nem direitos d'alfandega, o que parece conveniente continuar até que a còlonia se consolide, e se desenvolva de modo que possa contribuir para as suas despesas publicas, que aliás se limitam a 500/ 000 rs. mensaes, fornecidos pelo cofre de Benguella. Com taes elementos parece que esta colónia devia ter prosperado, e adquirido maior importância; mas  diversas causas tem concorrido para assim não acontecer : a principal talvez foi a má escolha dos colonos, tendo sido em boa parte perdida a grande despesa que o governo de Portugal fez com o transporte d'elles, por serem quasi todos impróprios para uma colónia agrícola, taes como caixeiros, escreventes, logistas, vadios, etc., de modo que em breve tempo desampararam o Estabelecimento, ou foram victimas de doenças, restando hoje poucos, e d'esses os principaes se dedicaram com preferencia ao commercio.

O gosto e dedicação á cultura parece que se tem desenvolvido agora, depois das felizes experiências feitas com a canna da colheita de 1852 , que offereceu o morador e proprietário Fernando Cardoso Guimarães, e que  moeu no engenho que fez montar o governador José Herculano Ferreira da Horta, produzindo assucar de tão boa ou melhor qualidade que o do Brazil, e com o accrescimo pelo menos de 25 por cento sobre a producção ordinária da canna n'aquelle paiz. Vi as amostras d'aquelle assucar que vieram para o conselho ultramarino, nos estados bruto, purgado, refinado, e cristallisado; e dizem que os tres engenhos que foram comprados pelo governo são perfeitos no seu género.

Pelas poucas experiências até agora praticadas, a conclusão geral que se pôde tirar a respeito da cultura em grande, é que será vantajosa a da canna e a do algodão; porém não a do café, que- em vão se tem ensaiado. Em summa Mossamedes está ainda no seu começo, e posto que nos últimos tres annos tenha crescido e melhorado, comtudo carece ainda de muitas diligencias, cuidados, capitães, e espirito emprehendedor.

Vivem próximos a Mossamedes duas tribus de gentios, que pouco tem perdido dos seus hábitos naturaes, e que ainda se podem dizer nómades. Os homens pastoream gados e são máos carregadores ; as mulheres cultivam milho, e uns e outros começaram no meado de 1852 a dar-se á apanha da urzella, que trocam a fazendas, e em janeiro de 1853 se carregaram no brigue Lidador as primeiras 5 a 6:000 arrobas, saídas directamente de Mossamedes para Portugal, sendo esta na opinião de alguns a melhor urzella de toda a província. 

Os sertões de Mossamedes são ainda muito pouco conhecidos, e por isso julgo util transcrever aqui as noticias mais modernas que ha d'elles, as quaes juntas ás que publicou o tenente Garcia e a outras mais antigas, podem conjunctamente fornecer elementos para o conhecimento d'aquelles paizes, no que tanto interessam a geografia e outras sciencias, e os nossos interesses ligados com o futuro d'esta nova colónia. Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes noticias:

Seguindo para o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontram-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vivem de caça e do gado que pastoream. Seguindo também para o nascente a torrente Giraul, encontra-se um estéril deserto, cortado de cordilheiras, em cujos valles ha pequenas  arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, onde o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e muito industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra depos da Umpata. Estes dois valles são susceptíveis de muita -cultura, en'um d'elles ha uma plantação de canna, algodão, e mandioca, pertencente a José Leite. d1 Albuquerque, e já acima mencionada: o clima porém d'estes logares é muito insalubre.
Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a d*
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lo poente jaz o Bumbo), e a sua origem nos largos cam
esquerda & Umpata, Bovado dependente do Jau, c d'ahi á Huila, cujo sova é hamba ou espécie de imperador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Umpata, Bumbo, e todos os cubaesde origem Mondombe, em consequência d'uma revolução que teve logar no corrente século.
O Jau, Umpata, e Huila ficam entre os 14 <e 16° de lat. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilifisimos campos abundantes em pastos, e que produzem bem o "milho, feijão e batata, não porém a canna, por causa do frio, que em maio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, e jul•ga-se que n'ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio commercia com Mossamedes em gados, cêra, e algum marfim.
Da Huila ou do Jau seguindo depois para o nascente encontra-se o Hui, terreno fértil em pastos, mas çêcco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa: a tribu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa.
Caminhando quasi sempre a leste se chega aos Gambos, a umas 00 legoas de Mossamedes, paiz rico em gados, cereaes, e bem povoado", tendo muitos caçadores de elefante e abada.
Todos os povos mencionados, que habilom para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geralmente Munhenhecas, porque cortam a carapinha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, formando ira cabeça uma espécie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado.
Às referidas terras foram vistas pelo dito colono Bernardino, segundo elle diz,-accrescentando que, apesar da diffteuidade de obter informações claras de •gente tão THde, pôde saber mais o seguinte ácevca d'aquelles desconhecidos sertões. ' •
Tomando os Gambos por ponto de partida, ao norte fica Quilata, ao nordeste Quipungo, a leste Molondo, ao sueste Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cnbaesdos Gambos, abundantíssimos em gados.
Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Gamba do Cuanhama, fica o sovado d'este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o sueste já os cafuzes { pretos que negociam com fazendas que vão buscaT a BenguelJa) tem chegado ao Mocusso, abundante mercado de marfim, que se julga distar umas legoas de Mossamedos. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente, a que chamam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambeze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commercio na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa.
Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes.
Por esta rápida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d'estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo seguinte.

Seria muito conveniente dirigir para Mossamedes parte dos emigrados que da Madeira, dos Açores, e de Portugal vão para o Brazil; porém seria talvez ainda de maior conveniência, e mais extensos resultados a colonisação chineza, applicando a este districto e em geral a toda a província d'Angola, o que já disse no capitulo VIII sobre as vantagens que os colonos chins trariam a Moçambique. 

Com o elemento da população chineza, que formoso império portuguez se poderia formar n'esta terra de Africa! Situado no meio d'este vasto continente, teria por limites orientaes e occidentaes os oceanos Indico é Atlântico, separados pela distancia de 600 legoas, e pelo norte e sal (Testa extensa zona iriamos estendendo successivamente a nossa influencia e poder , até dar as mãos á influencia e poder das nações franceza e ingleza, que da Argélia e do Cabo caminham de pontos oppostos para se avizinharem comnosco. Então a civilisaçao europea dominaria em toda a Africa; as montanhas do Atlas, as serras da Lua, os desertos de Sahara, da Núbia, da Lybia, as correntes desconhecidas e mysteriosas do Nilo, do Zaire, do Zambeze, tudo seria transposto pelos prodígios do génio e da industria moderna; e as raças negras arrancadas á bruteza e á superstição, tomariam talvez o logar que lhes compete na escala da humanidade, participando dos seus progressos. "