Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 14 de agosto de 2011

Francisco Newton nas terras altas de Mossâmedes (Huila): 1880 e 1885

 

Francisco Newton. "Retrato tirado na Ilha do Fogo, em 3 de Novembro de 1889, depois da ascensão ao grande vulcão". In Duarte Silva.



EXPLORAÇÃO NA ÁREA
 DO GOLFO DA GUINÉ
 

Percorremos durante esta jornada toda a distância que vai da Pedra Providência
à fazenda Nascente, na margem do rio Munhino.
É seu proprietário um cavalheiro chamado Nestor, afamado caçador de leões,
que até à presente data tem, ao que diz, livrado a zona que habita
de vinte e seis destes ferozes animais.
Entre várias peripécias sucedidas a este senhor (que têm sido muitas, 
pondo por vezes em risco a vida deste segundo Gerard), 
ouvimos contar uma que pelo ridículo merece apontar-se.

H. Capelo & R. Ivens
De Angola à Contracosta 

A primeira vez que Newton esteve no planalto de Huila, aí por 1880 e tantos, ia êle em companhia de um titular belga, riquíssimo, muito neurasténico, que procurava, em contínuas viagens, lenitivo para os males que o torturavam e tiveram epílogo trágico, no suicídio, a bordo do paquete em que ambos regressavam à Europa, escreve Duarte Silva. O biógrafo militar de Newton não identifica o lorde que, em Ferreira, se chama Elssen, e em aparência se suicida em terra angolana, obrigando Newton a seguir para o Congo, a ver Stanley, e só depois a regressar à Europa.
Aí por 1880 e tantos não é 1882. Admitamos que a primeira vez que Newton esteve na Huíla foi em 1883, apesar de Gossweiler subentender que no périplo angolano ele só explorou Moçâmedes, além de percorrer toda a costa, desde o Zaire a Cabo Frio. Cabo Frio era então limite meridional das nossas possessões na costa ocidental de África, a meio da costa do Sudoeste Africano. 
Segundo Duarte Silva, Francisco ficou hospedado em casa de Nestor[1], famoso caçador de leões, o que é extremamente original. O maior leão africano era Leo, Leopoldo da Bélgica. Nestor, além de sobrevivente do massacre de toda a sua família, nos poemas de Homero, é nome de uma localidade do planalto da Huíla. É também, por feliz acaso, nome de um navio alemão que atracava em Lisboa com carregamentos de carvão proveniente de Cardiff.[2]
Newton logo quis participar numa caçada. Nestor, para o atemorizar, contou então terríveis histórias sobre a ferocidade dos animais, confessando que até ele, que já tinha morto centenas, tremia de medo diante deles. À noite, mandou instalar-lhe debaixo da cama duas crias de uma fêmea que abatera dias antes, cativas sob uma celha. Os leõezinhos dormiram sossegados e F. Newton também. Pela madrugada, o sossego acabou, quando as crias acordaram e se puseram a rosnar debaixo da cama. Nessa altura foi a vez de Newton acordar toda a gente, aos gritos de que tinha feras no quarto.
São inúmeras as anedotas que se contam acerca dele, esclarece o seu biógrafo militar, que além disso considera Newton bom bebedor de cerveja, um boémio, tal como Anchieta, que tocava violino enquanto ia descarnando umas aves e metendo em álcool uns crustáceos, na Caconda. Leu Augusto e António Nobre,[3] como nós. E que mais? Rabelais? Para nossa consternação, Duarte Silva esquece-se das fontes e de relatar as tais anedotas[4].
E entretanto, a acreditar em Bettencourt Ferreira (1895), Newton regressa à pátria com vinte anos:
 Neste momento historico, em que o continente africano, completamente desvendado pelos exploradores de todas as nacionalidades é objecto de todas as ambições, a Inglaterra pelo British Museum manda-lhe um convite para entrar ao seu serviço. Do outro lado a Associação Internacional Africana convida-o para ir do Congo ao Alto Nilo.
 Lorde Mayo também pretende a sua colaboração, segundo Bettencourt Ferreira. 
A respeito do convite da Associação nada sabemos, excepto que já décadas antes o Reverendo Livingstone fizera esse percurso, mas ao contrário, descendo do Alto Nilo a Luanda, e negando que tivessem sido os portugueses a descobrir o Congo. Também nada sabemos do de Lorde Mayo. Já acerca do convite do British Museum vamos prestar alguns esclarecimentos, colhidos em Júlio Brandão.
Antes da partida de Newton para África, um grupo de jovens intelectuais do Porto ofereceu-lhe um jantar no restaurante Floresta das Camélias, no qual o senhor Leitão servia, sem dó nem piedade, um vinho que era uma perfeita zurrapa[5], mas os nossos clientes, tirados de um retrato de A Família Inglesa, preferiam cerveja, e ale. Entre outros amigos, estavam presentes Augusto Nobre e o irmão, o poeta António Nobre, João Novais, Aureliano Cirne, Carlos Ehrardt, Hamilton de Araújo, irmãos Artayet, João Barreira, Morais Rocha, Eduardo Sequeira e o próprio Júlio Brandão. Grupo dito da boémia romântica do Porto, de que se salientaram republicanos como Artayet e João Barreira, além de um dos nossos maiores poetas.
Por alturas da sobremesa, o Jau subiu a escada para também ele confraternizar. O Jau, um jerico, recebeu pomposos discursos de homenagem. Por incrível coincidência, Jau, como Nestor, é uma localidade da Huíla.[6] E se Nestor[7] é um herói da epopeia homérica, Jau era escravo do nosso épico.
Noutra altura, e felizmente Júlio Brandão esquece-se das datas, ou teríamos de inserir este científico episódio em 1892, o cônsul inglês Honorius Grant procurou Augusto Nobre, para obter variedades de moscas, solicitadas pelo British Museum. Augusto Nobre sugeriu Newton, muito capaz do exercício e necessitado de dinheiro. Acordou-se meia libra por dia para a exploração das moscas de Portugal. Se bem que ainda menino e moço, Newton morava então no Hotel Lusitano, e não em casa dos seus pais. Para satisfação da encomenda, apanhou todas as moscas lusitânicas que havia no hotel e enviou-as em tubos para Londres. Augusto Nobre é que recebeu o ultimato britânico, lá desculpou o incansável explorador, que encheu os museus da Europa com valiosas colecções, e não teve outro remédio senão arranjar explorador que fosse realmente para o Quadraçal, Alfeite (Quinta do Infantado, onde apareceram os três únicos exemplares de Certhilauda duponti  var. lusitanica, coligidos em Janeiro, Julho, Setembro, Novembro e Dezembro, como esplendidamente contam pelos dedos os ornitólogos), Cortegaça, Esmoriz, Rio Mattosinhos e profundidades submarinas de Setúbal, caçar moscas selvagens.  
@ 
Posto isto, por onde andou Francisco Newton entre 1880 e 1885?
As únicas considerações que desejo fazer são as seguintes:
- As fontes dão-nos uma imagem de percurso sem princípio nem fim: antes de nascido, já Newton era um naturalista competente; a morte não o detém, uma vez que morre três vezes. Por isso ele nunca está pela primeira vez em dado local: antes de nomeado para o Golfo da Guiné, já tinha andado por S.Tomé, Príncipe e Fernando Pó; antes de nomeado para a Guiné, já tinha andado por Orango e Bolama; antes de nomeado para Timor, já tinha ido várias vezes a Timor; antes de nomeado para Angola, já tinha andado por Angola; antes de nomeado para Cabo Verde e Guiné, já tinha andado em Cabo Verde e na Guiné.
- O seu currículo, subscrito por um colectivo científico internacional, é uma paródia que obedece a um plano e ao conhecimento de técnicas subversivas, como a língua das aves.
- O que conhecemos de Newton - exemplares de plantas classificadas de origem, boa técnica de colheita e preparação, desenhos[8] - permite dizer que a sua educação como naturalista prático era muito boa.
- Newton andou realmente por África, pela Indonésia e por Macau[9], deve ter ido à América e à Índia, mas não saberia dizer quando, porque a principal venda que oculta os seus movimentos é a data em que os realizou. A segunda é a da identidade: o facto de ter anexado Frank, Reesetán, Aguiar, etc., a Francisco Newton, não quer dizer que tenha esgotado a lista dos heterónimos; e também não quer dizer que possa atribuir a Francisco as acções executadas pelos seus duplos. 
- O inverso também pode ter acontecido, embora pareça improvável: Francisco Newton ter sido apenas capa das actuações de outros naturalistas e agentes, nada tendo feito na vida além de gozar Miss Ale. E nessa altura as colecções terão sido reunidas por Bayão, Welwitsch, Frank Newton, Padre Antunes, Anchieta, Craveiro Lopes, Capelo, Ivens, Serpa Pinto, Leyguarde Pimenta, Sisenando Marques, tantos outros. Todos coligiram antes de Newton, excepto no Daomé, em que sem dúvida foi pioneiro, e talvez em Ano Bom. Os exemplares estavam nos museus, bastou à retaguarda atribui-los a Newton - de preferência só em textos publicados. E as colecções de Newton foram subtraídas ao domínio público, como a de Ano Bom, só parcialmente publicada por Sobrinho, já nos nossos tempos. Noutras colecções, como as de vertebrados do Museu de Coimbra (Themido), Newton nem sequer figurava como colector. Ele é um dos últimos exploradores do século XIX, já transita para o nosso. Não só todos lhe tomaram a dianteira como ele se toma a dianteira a si mesmo, ao explorar por nomeação o que já tinha visitado sem ela. Ora é muito simples introduzir animais, plantar e semear o que não havia antes em dada região, e depois colher os frutos. Estes frutos, se não forem espécies novas para a ciência, são pelo menos espécies novas para essa área geográfica.
 E é altura de não ajudar o leitor a responder a esta pergunta, que só abarca uma parcela do enigma: que tipo de pessoa é aquela que viaja muito, mas nunca se sabe onde está em dada altura, cujo paradeiro amigos influentes ocultam sob falsa e contraditória informação, que não se sabe exactamente o que faz, para quem trabalha, nem que instrução tem além da aparente?
Antes de desencadeada a quixotesca Operação Dulcineia, Henrique Galvão[10] fez constar que estava hospitalizado em Lisboa. O seu amigo Humberto Delgado deu aos jornais a notícia de que se encontrava em Paris. Henrique Galvão, quando uns o julgavam em Paris e outros em Portugal, estava escondido num hotel de Caracas, na Venezuela, América do Sul, à espera de embarcar no Santa Maria. Terá embarcado sob a sua própria identidade? 

[1] Nestor é usado como nome iniciático.
[2] Diário de Notícias, 6 de Junho de 1895.
[3] António Nobre - Alicerces, seguido de Livro de Apontamentos. Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, Lisboa, 1983. Leitura, prefácio e notas de Mário Cláudio. O poema Miss Ale, dedicado a Francisco Newton, vem no conjunto Alicerces, datado de 1882-1886.
[4] A literatura de viagens é muito popular, quem faz história da História Natural portuguesa leu os livros de Serpa Pinto, Capelo e Ivens. Esta seria pelo menos uma boa desculpa para a omissão, se as obras fossem atribuídas aos seus verdadeiros autores.
[5] O Correio do Porto, 12 de Julho de 1886.
[6] Jau é aportuguesamento de Injau ou N’jau, nome do sobado.
[7] Capelo e Ivens contam uma divertida história deste famoso caçador de leões, que se passa na cozinha, não debaixo da cama onde não dormiu Francisco Newton.
[8] Não me refiro a esboços feitos nas cartas, inócuos, sim a desenhos de plantas, existentes no Herbário do Jardim Botânico de Lisboa, e ao da Tyrophorella, publicado por Girard. Nos Carbonários, interpretámos como signos de guerra os nomes de espécies críticas formados a partir de tiro, e de facto são. Mas não se trata de tiro, sim de Tiro, a pátria de Hiram, o herói fundador do mito encenado no ritual do terceiro grau da maçonaria. Neste sentido, a função é igual à dos nomes Didus e Ennea. Ninguém sabe nada, actualmente, da Tyrophorella, um caracol com duas conchas, ou um univalve bivalve, tal como a Welwitschia, ao mesmo tempo criptogâmica e fanerogâmica - algo como o filho de um cogumelo e de uma rosa. 
P.S. Recebemos informação de Angus Gascoigne, biólogo residente em S. Tomé, de que a Tyrophorella foi recentemente redescoberta: http://www.ecofac.org/Canopee/N0

Eis o seu e-mail:

Estela

O Thyrophorella existe! Eu redescobri este caracol ha oito anos. Depois eu te mando uma referencia onde podes ver um foto do animal vivo.

Um outro animal de ST muito interessante é o morcego Myonycteris brachycephala que e o unico mammifero com um formula dental asimetrico!

Angus

E tambem Pelusios castaneus existe em ST.

        [9] Declara-se para os devidos effeitos que se apresentou n’esta secretaria geral, em 18 do corrente mez, o explorador zoologico Francisco Newton encarregado de estudar a fauna da ilha de Timor. Secretaria geral do governo em Macau, 21 de Dezembro de 1895. Alfredo Lello (Boletim official do governo da provincia de Macau e Timor, 21.12.1895).
[10] O capitão Henrique Galvão, naturalista e caçador, foi quem convidou A. Ricardo Jorge a representar o Museu Bocage na Exposição do Mundo Português. Ficou célebre o seu rapto do paquete Santa Maria, como acção subversiva ao governo fascizante de Salazar. O mais curioso é que em Lisboa havia autoridades a quem tinha sido denunciado o verdadeiro local onde se encontrava, mas, no meio de tanta informação contraditória, não acreditaram que fosse em Caracas (Capitão Miguel Garcia, comunicação pessoal).


In TRIPOV

sábado, 13 de agosto de 2011

Familias antigas de Moçâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Thomás da Fonseca. A pescaria do Mocuio




João Thomás da Fonseca (pai) , ao centro, com  o seu bigode de ponta retorçida, como era moda na época, e indumentaria em conformidade sua posição de industrial privilegiado e bem sucedido. 1920?

 João Thomás da Fonseca (pai), ao lado de sua esposa, Celeste Sena, filha de Sebastião Sena. Entre ambos, a filha Celeste por volta de 1914


Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  com um grupo de convidados entre os quais alguns oficiais da Marinha, a caminho do Mocuio onde possuia uma pescaria. Foto tirada em 1914/15?   Não sei se terá algo a ver com esta foto onde podemos ver alguns oficiais da Marinha, mas em 1914, o receio de uma ofensiva por destacamentos alemães sobre o planalto vinda do Sudoeste, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre agitou sensibilidades e pôs a região em polvorosa. Em consequência,  Moçâmedes transformou-se num importante factor de defesa no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, tendo o seu porto  desempenhado um importante papel  no decurso da movimentação de forças militares portuguesas e contra alemães e indígenas insubmissos, como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito. 

É interessante notar que as senhoras estão sentadas sobre caixotes, e que naquele tempo cada um  deles acondicionava 2 latas de 20 lts de gasolina, neste caso, da marca Sphinx. Isso acontecia porque naquele tempo não havia estações de serviço e a gasolina vinha em latas, havendo ainda publicidade desta marca de gasolina na Serra da Chela, tempos mais tarde.

Conforme vem descrito por Luiz Chinguar em "Ossos da colonização", "...até meados da década de 50 obtinha-se gasolina comprando latas (20 litros) ou tambores (200 litros), que depois se transportavam nas viagens, uma vez que nos “bicanjos” não havia bombas para abastecimento. Nas povoações do mato havia umas bombas manuais oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma “torre” de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, durante uns tempos, tinha um leve travo a gasolina, isto para não dizer que cheirava e sabia a gasolina" . Africa era assim! ver  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos

 
As instalações da pescaria do Mocuio. Junto das tarimbas de peixe seco: João Tomás da Fonseca (filho), ao centro, e  à dt., Faria, o encarregado da pescaria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. 1942?

Tudo começou quando João Tomás da Fonseca (pai), algarvio de Tavira, conhecido pelo "Bandeirinha",  nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República (1910-1926), resolveu emigrar para Angola, onde foi por algum tempo contramestre de caíque que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas  e  dinheiro amealhado ao leme de veleiro estabelecer-se no Mocuio, onde montou a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e remos, pagou mestres de terra algarvios que mandou vir para a sua pescaria,  montou três armações à valenciana, e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então. Quem o  conheceu não esquece sua postura, sempre vestido de casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso suiço, autêntico retrato de burguês bem de vida!

 Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos aureos (a industria piscatória tinha os seus altos e baixos) possuia salinas, fábrica de  conservas e de farinha e óleos de peixe, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuia também mais de 20 embarcações pequenas, para além de um Chalé do princípio situado num pequena elevação do terreno, o suficiente para qualquer pessoa ali instalada pudesse contemplar o oceano, os barcos que entravam e saiam, a azáfama que percorria  a pescaria.

A pescaria do Mocuio foi evoluindo, e João Tomás da Fonseca (pai) rodeou-se de todo o conforto possível, e mandou construir naquela praia deserta perdida nas escarpas do deserto, o seu bonito Chalet onde nada faltava em termos de conforto, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água,  um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam, para receberem a carga  que transportavam para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra, Gabão e Golfo da Guiné,  levando dali o que havia (ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão), e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.


O Mocuio não possuia água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões.

 
Na continuidade do Mucuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os algarvios foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, ali  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI. 


Fotos: Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.
 
 
Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos  publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).

Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): as primeiras tenttivas de colonização

  
"...Foi a colonização de Mossâmedes a grande preocupaçao do ministro, e os seus esforços foram coroados de exito. Já no districto de Mossâmedes uns emigrantes boers se tinham espontaneamente estabelecido fundando a colonia de Humpata, a que se deu o nome de S. Januario por ser durante o ministerio do actual conde de S. Januario que essa colonia se estabeleceu; mas agora tratava-se de fundar colonias, por iniciativa do Estado, com emigrantes portuguezes, e todas as tentativas que se tinham feito n'esse sentido nos ultimos trinta annos tinham ficado completamente mallogradas.
Logo no principio de 1884 se enviaram colonos para Mossâmedes, mas foram colonos que se mandaram vir de todos os districtos do reino, e que não podiam formar um nucleo serio. Entendeu o ministro que eram os Madeirenses os colonos mais aproveitaveis, e em outubro de 1884 mandou sair o transporte do Estado India com ordem de levar para Angola uma colonia madeirense, que partiu effectivamente, e que, graças ao zelo intelligente do governador de Angola o sr. Ferreira do Amaral, e á boa vontade e conhecimento das coisas africanas do governador do districto de Mossamedes, Sebastião Nunes da Matta, hoje fallecido, se estabeleceu na região do Lubango, com a denominação Sá da Bandeira, sendo dirigida pelo habil conductor de obras publicas da província Camara Leme.
A colonia, sensatamente auxiliada, prosperou rapidamente. No anno immediato de 1885 o transporte de guerra Africa levou para Angola mais famílias da Madeira, mais de quinhentos colonos madeirenses alli se acharam estabelecidos fundando a colonia Sá da Bandeira e a alguma distancia a colonia de S. Pedro de Chibia. Os colonos deram-se admiravelmente, nasceram já alli numerosas creanças. A Chibia tambem progrediu com rapidez, a ponto que ultimamente se resolveu passar para lá a sede do concelho de Huilla. O que falta, porém, a essas colonias é a communicação com o mar. Se fôr por diante o projectado caminho de ferro de Mossamedes, essas duas colonias poderão considerar-se em via de ampla prosperidade.
Outra tentativa foi feita pelo ministro, que n'ella tinha grandes esperanças, mas que se mallogrou por culpa dos capitaes portuguezes sempre timidos e receiosos. O decreto de 5 de junho de 1884 concedia a um grupo de ofíiciaes distinctissimos, entre os quaes se contava o brilhante official de marinha sr. Neves Ferreira, 5oo hectares de terrenos no Benthiaba, para fundarem uma colonia agricola auxiliada pelo governo, o decreto de 2o de agosto do mesmo anno tornava por tal . forma effectiva a garantia dada pelo governo ás obrigações que os fundadores d'essa colonia emittissem que se não podiam receiar os capitaes de correrem perigos; ainda assim não ousaram, e nunca estes intrepidos iniciadores poderam encontrar o capital desejado.
Daremos conta quando nos referir-mos ao anno de 1885 de outra tentativa de colonisação, tambem mallograda. Sempre que era necessario appellar para os capitaes portuguezes, esses capitaes retrahiam-se.
Tendo o ministro o intuito de tornar o districto de Mossâmedes um centro importante de colonisação, prohibiu pola portaria de 12 de maio de 1884 que fossem enviados degredados para esse districto.
E tambem notando a facilidade com que os governos podiam nomear para o ultramar conductores de obras publicas sem as mínimas habilitações, o que dava resultados deploraveis que bem se faziam sentir no modo
Ainda no principio de 1886 o ministro fez um ajuste com a Castle-Mail, pelo qual esta companhia estabelecia uma carreira gratuita de vapores entre Mossâmedes, o Cabo da Boa Esperança e Lourenço Marques. No caso d'essa carreira lhe dar perda a companhia reservava-se o direito dè a não continuar, mas n'esse caso o governo diminuiria tres mil libras annuaes no preço do serviço directo de Moçambique. Esse serviço passaria a fazer-se não por 72 contos, mas por 58:5oo36ooo réis.
O projecto de lei estava assignado pelo ministro para ser apresentado ás camaras quando o ministerio caiu. O seu successor não acceitou a idéa, e foi esse mais um projecto mallogrado.
Não deixaremos tambem de mencionar outra tentativa mallograda, a do estabelecimento de uma nova colonia madeirense na costa de Mossâmedes. O decreto de 14 de agosto de 1885 concedia ao sr. João Antonio Moura 5.ooo hectares de terrenos baldios entre a bahia das Pipas e o Cabo Frio e garantia-lhe outros auxílios do governo para elle fundar alli uma colonia madeirense. Essa tentativa mallogrou-se, até porque o territorio entre a foz do Cunene e o Cabo Frio deixou de ser portuguez, pelo tratado de 1886 com a Allemanha.
Tambem deixou de se levar por diante o plano de reforma das nossas forças ultramarinas, plano cuja elaboração fôra confiada pelo ministro ao sr. Ferreira do Amaral, quando este voltou de Angola. Quando o sr. Amaral o pôde apresentar, já o ministerio caíra.
As reformas do serviço telegrapho-postal de Cabo Verde, S. Thomé c Principe, Angola e índia, essas é que ficaram decretadas, a primeira por decreto de 26 de dezembro, a segunda por decreto de 3o de dezembro, a terceira por decreto de 3 de dezembro e a ultima por decreto de 2X de dezembro de 1885.

Os Portuguezes em Africa, Asia, America, e Occeania: Obra classica, Volumes 7-8

Angola, mito e realidade de sua colonizacao by Gerald J. Bender

Eis aqui mais um livro, atraves do qual Gerard J. Bender oferece uma detalhada analise que consideramos vital para a compreensao do colonialismo portugues na complexidade das suas vertentes politicas, historicas e sociologicas.


Clicar aqui: 
Escrito por Gerald J. Bender

Francisco Maria Bordalo passou por Mossâmedes em 1840 na sua viagem a Angola...


 «...No principio de 1840 Francisco Maria Bordalo  partiu para Angola,  e durante esta estação visitou repetidas vezes a cidade de Benguela, onde adoeceu, o presidio de Novo Redondo e diversas povoações. Em Moçamedes esteve sete meses. Neste ano foi promovido a segundo tenente, por despacho de 26 de Novembro. In Wikipedia


«...No principio de 1840 partimos para Angola. Vi então pela «primeira vez esse soberbo continente africano, que os esforços «de nossos avós fizeram conhecido do mundo. Não foi sem terror que descobri os areaes da Libia., aonde cresce em liberdade «a palmeira; mas houve para mim uma grande compensação na «chegada a tão insalubres plagas — abracei o meu amigo Correia.»

Durante a estação de Angola visitou Bordallo repetidas vezes a cidade de Benguella, aonde adoeceu das febres intensas do paiz, o presidio de Novo Redondo, e as povoações, rios, e surgidouros, mais ou menos abrigados, da Catumballa, Sobito, Egipto, Quicombo, Benguella velha, Cuanza, Corimba e Bengo.
Ambriz, Cabinda e Molembo, ainda n'essa época não arvoravam a bandeira portugueza.
Em Mossamedes deteve-se sete mezes. N'esse tempo a povoação começava a erguer-se de algumas humildes barracas de palha. A fortalesa achava-se em principio. Á guarnição do brigue Tejo coube a honra de lançar os alicerces da primeira casa de pedra construida n'aquelle deserto areal. Á sahida do navio já morava n'ella o governador.

Contava desanove annos de idade, e já o anno de 1840 declinava para o seu termo, quando foi promovido ao posto de segundo tenente por despacho de 26 de novembro. Seriam optimos auspicios se a nossa marinha de guerra oflerecesse vantagens e estimulos; mas no fim de dez annos Bordallo ainda não tinha subido mais um só grau .  Parou ali esperando que os incidentes usuaes, e as taboas da mortalidade lhe abrissem caminho. Só em 1850 (a 12 de novembro) alcançou as dragonas de primeiro tenente!

Eis o quadro, que nos deixou de Angola e do seu estado. N'elle o observador e o escriplor em traços rapidos, e com as verdadeiras cores, nao só o aspecto das localidades, mas a physionomia da sociedade tão mudavel e ardua de colher na sua expressão natural:

«O viver n'aquellas paragens é monotono. Não se encontra nenhuma das distracções dos povos civilisados, á excepção dos «grandes jantares, que podiam muito bem passar para o dominio dos selvagens! Vêem-se ali homens febricitantes os quaes a sede do oiro «arrastou áquellas regiões, e que morrem abraçados ao dinheiro pensando ainda n'uma especulação de escravos na hora da «agonia! —Enxergam-se bandos de faccinoras, que a justiça para «ali enviou em degredo, e que enriquecidos por novos crimes, e ás vezes mesmo protegidos pela auctoridade, olham com despreso para o pobre que ali aporta, e tratam os negros como o «mais vil animal da creacão!!!
«Quadros risonhos não ha ali — só alguma bellesa de paisagem «como nas vicejantes margens do Bengo e do Cotumbella — tão «pouco sadios apesar da formosura do sitio. Como ha de haver «sociedade se faltam mulheres civilisadas, se a morte se encarrega de juntar a miudo no sepulchro a pobre europêa, que dá «á luz um filho, e o tenro fructo do seu amor! l!

....
Era assim que Francisco Maria Bordalo retratava Angola nesse tempo, 1840, anterior ao da fundação de Mossâmedes! Muita coisa iria mudar em termos de humanização da paisagem , com a chegada dos colonos vindos do Brasil, de Olhão e da Madeira... (acrescento meu)

Revista contemporanea de Portugal e Brazil, Volume 3 

Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e ... By José Joaquim Lopes de Lima, Francisco Maria Bordalo


 

O negócio de gado em Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola).1862

 Gado Cuvale no Deserto do Namibe. 1935-1939. Fotog.de Elmano Cunha Costa. ICCT


Carlos José Caldeira in "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa", dá-nos uma panorâmica dos povoados indígenas existentes no distrito de Mossâmedes nos primórdios da colonização, em meados do século XIX, bem assim como o negócio que alí se ia fazendo de gado, sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão, missangas, fazendas, etc, factor aproximação entre brancos e negros, e de incremento económico da região: 

"...Habituados a ver no gado factor de consideração do individuo de acordo com o numero de cabeças que o mesmo possue", "os povos próximos criam muitos gados, que já se vão costumando a vender, e os mais distantes os vendem até mesmo com preferância á cera e marfim, o que produz muita abundância e barateia de carnes, que se exportam para abastecimento da estação naval, e consumo em Loanda, propondo-se agora alguns especuladores a seccar a carne á maneira do Brasil, o que se pôde tornar um importante ramo de exportação. Um boi grande custa, termo médio, 5:000 rs. no interior, e 9:000 rs. na povoação, onde regularmente se vende a carne de consumo a 1:000 rs. a arroba, ou a pouco mais de 600 rs. fortes. Ultimamente tentava-se fabricar manteiga, o que se pode fazer em ponto grande, principalmente nos Gambos, onde ha prodigiosa abundância de leite.
 
D'antes muitos dos negros dos arredores recusavam-se, e ainda alguns se recusam a vender gados em maior quantidade, porque parece que os tem na mesma conta dos nossos bens vinculados, sendo regulada a importância e consideração do individuo pelo numero de cabeças que possue. Em algumas partes só matam os bois, e lhes comem a carne por occasião dos casamentos e óbitos, fazendo com as caveiras e pontas uma espécie de monumentos fúnebres.

Além dos gados commercia-se com o gentio em sal mineral, marfim, cera, urzella, abada, milho, e feijão."

"...Da Huila ou do Jau seguindo depois para o nascente encontra-se o Hui, terreno fértil em pastos, mas sêcco, porque nenhum rio o atravessa ; abunda porém em gados, e feijão, creado na estação chuvosa: a tribu que o habita é muito antiga, e pouco numerosa.

Caminhando quasi sempre a leste se chega aos Gambos, a umas 100 legoas de Mossamedes, paiz rico em gados, cereaes, e bem povoado", tendo muitos caçadores de elefante e abada.

Todos os povos mencionados, que habitam para além da serra de Xela, parecem da mesma origem , e tem quasi os mesmos costumes, chamando-se geralmente Munhenhecas, porque cortam a carapinha, e ao contrario os Mondombes a deixam crescer, formando na cabeça uma espécie de esfera, variando aliás muito na forma do penteado.

Às referidas terras foram vistas pelo dito colono Bernardino, segundo elle diz, accrescentando que, apesar da difficuldade de obter informações claras de gente tão rue, pôde saber mais o seguinte ácerca d'aquelles desconhecidos sertões. Tomando os Gambos por ponto de partida, ao norte fica Quilata, ao nordeste Quipungo, a leste Molondo, ao sueste Camba, ao sul o Humbe, e a oeste os cubaes dos Gambos, abundantíssimos em gados.

Segundo exactas informações que obtive, o colono Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, que tem ido ao interior do paiz, dá as seguintes noticias:

Seguindo para o nascente a torrente Bero até á sua origem a oeste dos Gambos, encontram-se uns 14 sovados pouco consideráveis, cujos povos se chamam Mondombes, ou filhos do Dombe, nómades que vivem de caça e do gado que pastoream.

Seguindo também para o nascente a torrente Giraul, encontra-se um estéril deserto, cortado de cordilheiras, em cujos valles ha pequenas arvores que criam urzella, e que se julga darão gomma copal. Passam-se umas 20 legoas até chegar ao Bumbo, onde o gentio é pouco, fraco, mal conformado, e muito industrioso no modo de aproveitar as aguas para regas: o terreno é riquíssimo em pomposa vegetação e muito boas madeiras, tendo dois valles fertilisados pela torrente do Bruque, que dimana da serra depois da Umpata. Estes dois valles são susceptíveis de muita cultura, e n'um d'elles ha uma plantação de canna, algodão, e mandioca, pertencente a José Leite de Albuquerque, e já acima mencionada: o clima porém d'estes logares é muito insalubre.

Subindo a serra de Xela pelo Bruque, encontram se duas veredas; a da direita conduz ao Jau, e a





lo poente jaz o Bumbo), e a sua origem nos largos cam
esquerda e Umpata, sovado dependente do Jau, e d'ahi á Huila, cujo sova é hamba ou espécie de imperador , á auctoridade do qual se subtrahiram o Jau , Umpata, Bumbo, e todos os cubaesde origem Mondombe, em consequência d'uma revolução que teve logar no corrente século.

O Jau, Umpata, e Huila ficam entre os 14 e 16° de lat. sul: pela serra de Xela se desce para estes territórios, que são cortados de rios e riachos, tendo fertilifisimos campos abundantes em pastos, e que produzem bem o milho, feijão e batata, não porém a canna, por causa do frio, que em maio alli chega a gelar a agua. Estas terras são salubres, e julga-se que n'ellas poderá prosperar a raça branca. O gentio commercia com Mossamedes em gados, cêra, e algum marfim.
(...)

Na margem direita do rio Cunene, que divide o Humbe e a Gamba do Cuanhama, fica o sovado d'este nome, que é onde até hoje tem chegado os feirantes brancos. Seguindo depois para o sueste já os cafuzes  pretos que negociam com fazendas que vão buscar a Benguela tem chegado ao Mocusso, abundante mercado de marfim, que se julga distar umas legoas de Mossamedos. Além do Mocusso, no sertão dos Ambuellas, caminhando para o nascente ha um rio caudaloso, que corre de nascente a poente, a que chamam Liambege ou Diambege, sendo talvez o Zambeze, que vai a Quilimane. As missangas alli usadas pelo gentio, dizem que não são as que se introduzem pelo commercio na costa occidental, mas sim as que lhe vão da contra-costa.

Para o norte de Quipungo ficam os Monnanos, em cujas terras temos o presidio de Caconda; e ao sueste e sul da Camba os Muximbas e Mocimbos, povos errantes, com muito gado, e muitos caçadores de elefantes, parecendo que chegam a divagar até ao paiz dos Hottentotes.

Por esta rápida e imperfeita idéa de taes paizes, se pode julgar da sua importância, e quanto poderá avultar o commercio com elles, uma vez attrahido ao bom e salubre porto de Mossamedes, cuja situação é excellente a respeito d'estes sertões, dos quaes darei melhor e mais circunstanciada noticia no capitulo seguinte.

In "Apontamentos d'uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa", Volumes 1-2
By Carlos José Caldeira 1862

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico na Baía dos Tigres em Angola: 6 de Dezembro 1904



Esquadra Japonesa em Tsushima






Tsushima: A Batalha Decisiva

Quando a 6 de Dezembro 1904, pelos 8 horas da manhã, os japoneses chegam por fim ao cimo da colina 203 para iniciarem logo no dia seguinte o bombardeamento e destruição final dos restos da esquadra russa do Pacífico, a primeira divisão da nova esquadra russa do Báltico entrava na Baía dos Tigres em Angola onde se encontrava a canhoneira portuguesa Limpopo sob o comando do tenente Silva Pereira, que, de imediato se dirigiu ao couraçado Kniaz Suvarov para interpelar o almirante-comandante da esquadra Rozhestvenski aí embarcado, dizendo-lhe que estava em águas portuguesas.

O almirante russo negou tal facto, pois estaria é certo na Baía dos Tigres, mas a mais de três milhas da costa. O oficial português respondeu que as águas nacionais começavam na linha que unia os extremos da baía. Após uma longa pausa, o almirante russo pediu 24 horas de permanência de acordo com as cláusulas do Direito Internacional, o que lhe foi concedido pelo tenente Silva Pereira, como escreveu no seu relatório.

Para o historiador alemão Frank Thiess, a pequena canhoneira Limpopo terá levantado ferro e navegado para Moçamedes onde estaria o cruzador britânico Barroso. Para o comandante J. Bouteille de um navio mercante não russo que integrava a esquadra russa, a Limpopo terá ameaçado disparar contra a poderosa 1ª Divisão russa se permanecesse em águas portuguesas mais de 24 horas. O que é certo é que a esquadra russa levantou os seus ferros dentro do prazo regulamentar, navegando depois para a ilha de St. Marie na costa oriental de Madagáscar primeiro e depois para o porto de Diego Suarez do extremo norte da então maior colónia insular francesa, onde esperava encontrar-se com os navios mais pequenos que nas cercanias de Tanger se separaram para seguirem a rota do Mediterrâneo, canal de Suez e Mar Vermelho até ao Índico. Tratava-se da 2ª Divisão comandada pelo almirante Barão Foelkersam.
 Nessa época a França era aliada da Rússia, enquanto a Grã-Bretanha tinha uma espécie de aliança com o Japão. Por razões diplomáticas impostas pelos ingleses que não gostaram nada de ver tantos navios de guerra em mares que consideravam quase como seus, aquela 2º Divisão foi obrigada a aportar à baía de Nosy Bé, na costa ocidental, a norte de Madagáscar, para onde se dirigiu o almirante Rozhestvenski com o intuito de impor alguma disciplina às respectivas guarnições debilitadas pela longa viagem e com os grupos propulsores dos navios frequentemente avariados e pela doença do respectivo almirante. Só na ilha de St. Marie é que o almirante russo tomou conhecimento pelos jornais que Porto Artur caíra nas mãos dos japoneses e a 1ª Esquadra do Pacífico estava integralmente afundada. O almirantado em São Petersbourg não se dera sequer ao trabalho de informar atempadamente Rozhjestvenski pelo telégrafo. As comunicações com a esquadra eram difíceis, a TSF dos navios tinha então um alcance muito curto. Era necessário telegrafar até ao extremo da linha telegráfica em Diego Suarez que liga Antananarivo, vindo a linha de Majunga na costa ocidental de Madagáscar onde liga o cabo submarino de Lourenço Marques, pela qual passa o cabo de Zanzibar e Paris que está ligada a S. Petersbourg. Enfim, na colónia francesa, a linha telegráfica passava por centena de quilómetros de floresta quase virgem, sempre sujeita a cortes e avarias. Os navios russos permaneceram na baía de Nosy Bé por mais de dois meses, perdida que estava a corrida para se encontrarem com a esquadra russa do Pacífico. Preferiram esperar por uma 3º Divisão de navios diversos e auxiliares armados à pressa em S. Petersbourg, constituída pelos cruzadores ligeiros Oleg e Isumrud e alguns navios auxiliares que não tardaram a surgir.

 O almirante russo teve de negociar longamente com a companhia alemã Hamburg-Amerika-Linie que queria terminar aí o abastecimento da esquadra com o carvão transportado nos seus navios. Os alemães tinham um contrato para fornecerem 340 mil toneladas de carvão à esquadra russa, mas receavam que os japoneses viessem até ao Índico ou ao longo das costas chinesas enfrentar os navios russos. Ao cabo de longas conversações, os alemães acabaram por aceitar carregar carvão pela última vez em Cam Rahn na então Indochina francesa. Antes disso, a esquadra iria meter carvão na baía de Luderitz na colónia alemã do Sudeste Africano, hoje Tanzânia. O combustível metido dava para 2.100 milhas, mas os navios navegaram no início com os convés quase a rasar o nível do mar e aguentaram assim uma borrasca que provocou alguns danos.

A esquadra do almirante Rozhestvenski tinha zarpado de Libau, na então província russa da Curlândia no Báltico, a 15 de Outubro de 1904 quando ainda havia a esperança de manter Porto Artur e os navios da 1ª Esquadra do Pacífico. Rozhestvenski levava consigo 7 couraçados, 2 velhos cruzadores protegidos, 4 cruzadores ligeiros, 7 contratorpedeiros e um certo número de navios auxiliares, nomeadamente paquetes armados em cruzadores de segunda classe e um navio hospital.

A ponta de lança da esquadra era constituída pelos 4 novos e poderosos couraçados, cujo desenho foi inspirado nos planos franceses para a construção do Tsarevitch. Eram o Imperator Alexander III, o Borodino , o Orel e o Kniaz Suvaroz. Desta classe, só um navio não partiu para o Oriente por ainda estar em estaleiro. Deslocavam normalmente 13.500 toneladas, mas chegaram a carregar 2.450 toneladas de carvão, pelo que o deslocamento chegou às 16.800 toneladas. Com estas unidades seguia o couraçado Osliabya muito inferior em todos os aspectos e outros navios. Teoricamente, a esquadra russa não era inferior à japonesa quando a enfrentou no estreito de Tsushima, até tinha um poder de fogo um pouco superior, para onde seguiu em linha recta após o último reabastecimento na Indochina, mas os nipónicos jogavam em casa, a poucas milhas das suas bases e estavam altamente treinados, principalmente os seus artilheiros. As suas máquinas propulsoras estavam em óptimas condições e tinham reforçado a protecção das suas superstruturas com muitos sacos de areia, o que é perfeitamente visível em muitas fotografias e gravuras da época. Os russos, pelo contrário, tinham feito uma viagem esgotante de vinte mil milhas e não puderam treinar eficazmente os seus artilheiros para não gastar munições, além de virem excessivamente carregados de carvão, portanto, com uma altura metacêntrica muito baixa com grande parte das cinturas blindadas dos cascos debaixo de água. Rozhestvenski decidiu-se pela rota mais curta até Vladivostok, ou seja, pelo estreito da Coreia que separa este país do Japão com a meio a pequena ilha de Tsushima que acabou por dar o nome à batalha travada nas suas cercanias. O almirante russo queria reduzir o combate ao mínimo indispensável, o que é sempre o prelúdio das grandes derrotas.

Os japoneses adivinharam o pensamento do almirante russo e esperaram na zona a chegada da esquadra inimiga, nunca tendo admitido que os russos resolvessem antes contornar o seu arquipélago e entrar no Mar Interior pelo norte, apesar de Rozhestvestki ter mandado dois cruzadores auxiliares navegarem para leste, a fim de dar a impressão que toda a esquadra faria o mesmo. Pelas 5 horas da madrugada do dia 27 de Maio de 1905, o navio auxiliar japonês Shinano Maru descobriu a esquadra russa a navegar em duas colunas na rota NE e avisou logo a esquadra de Togo que pairava ao largo da Coreia. Começou por ver o navio hospital Orel que vinha todo iluminado, como mandavam os regulamentos da época, o que foi uma asneira. Teoricamente, a esquadra russa era superior em poder de fogo com os seus sete couraçados contra os quatro japoneses, os Mikasa, Shikishima, Fuji e Asahi. Os russos podiam disparar com 26 peças de 305 mm contra 16 dos nipónicos; 12 de 254 mm contra 5 japonesas; 4 de 228 mm contra 0; 8 de 203 mm contra 26 e 109 de 152 mm contra 190 japonesas. Se em couraçados havia uma apreciável superioridade da parte dos russos, em cruzadores a situação era inversa. Os japoneses tinham mais cruzadores e um pouco mais modernos, já que ao almirante russo foram atribuídas algumas unidades extremamente velhas e de andamento lento que prejudicaram a manobra da esquadra. Foi uma opção resultante da campanha de um publicista naval que tudo fez para que o Almirantado russo enviasse os navios que ficaram no Báltico para reforçarem a esquadra que esperou dois meses cansativos no clima tropical e doentio de Madagáscar. O almirante russo bem telegrafava a dizer que queria menos navios, mas mais manobráveis e rápidos.

A única vantagem proporcionada pelos velhos cruzadores e contratorpedeiros foi ter vindo num deles 44 telémetros Barr & Strout, os primeiros a serem utilizados em combate. Mas, os russos não puderam estudá-los devidamente e fazer treino intenso de tiro com os mesmos, tão ocupados estavam com a navegação. Os visores ópticos e os medidores de distâncias só foram instalados nas torres principais dos couraçados da classe Borodino; os respectivos artilheiros não chegaram a praticar tiro real com os mesmos. Por outro lado, não foi possível instalar um conveniente sistema de comunicações entre os operadores dos telémetros e os artilheiros, pelo menos, à prova do ruído ensurdecedor da batalha. Na maior parte dos navios russos não havia telefones; apenas apitos, tambores e sinais visuais para as comunicações internas nos navios, as quais começaram a falhar logo no início da batalha. As sessões de tiro de treino e de manobra de navios em esquadra não foram suficientes para formar uma força operativa de grande valor; não havia munições de reserva em quantidade suficiente nem carvão e, além disso, não se podia gastar excessivamente as máquinas propulsoras dado não haver bases russas nas proximidades. Nesse aspecto, os japoneses utilizaram com muita eficácia os seus visores e telémetros, principalmente na pontaria contínua das suas peças de tiro rápido.Para o almirante russo, os melhores telémetros eram as peças de 152 mm, avaliando a distância pelo impacto das respectivas granadas. E até foram essas peças que mostraram uma maior eficácia.

Nada disso acontecia com os japoneses que combatiam juntos aos seus arsenais, não necessitando de estarem sobrecarregados de carvão e tinham tudo afinado à perfeição. Togo estudou a táctica para alcançar um vitória decisiva, isto é, que destruísse a força inimiga uma vez por todas. E acrescente-se que batalhas navais decisivas só se registaram três no Século XX: Tsushima em 1905, Midway em 1942 e Filipinas em 1944. A primeira marcou a ascensão do Japão a grande potência naval e as duas outras acabaram definitivamente com o marinha de guerra japonesa e com o Japão militar, dando o controlo dos mares e oceanos aos EUA até hoje. Parecendo que não, os cinco minutos do ataque da esquadrilha do capitão-tenente McClusky, levado a cabo a 4 de Junho de 1942, perto da ilha de Midway, foi o golpe mais decisiva de toda a história naval, pois os nipónicos perderam aí a espinha dorsal de porta-aviões que nunca mais puderam recuperar. Curiosamente, não conheço nenhum grande navio da armada americana com o nome do capitão-tenente McClusky. O valente piloto não deve ter chegado a almirante e provavelmente morreu na guerra, daí não ser recordado. A batalha do mar das Filipinas foi apenas o estertor final de uma marinha já derrotada; foi o funeral do Japão militar.

Raramente a História regista mais que uma a duas batalhas navais decisivas por Século; Lepanto em 1571, a destruição da Invencível Armada em 1588 e Trafalgar em 1805. Todas as outras batalhas navais não foram decisivas, na medida em que não alteraram fundamentalmente o rumo dos acontecimentos, nem sequer Pearl Harbour que não determinou mais que seis meses de supremacia nipónica.

Pelas 13h45, da ponte do Mikasa, o almirante Togo viu as duas colunas russas caírem lentamente para bombordo e iniciou logo uma manobra ousada. Mudou o seu rumo de 12 quartas para se colocar numa posição paralela ao seu adversário. Os russos abriram logo fogo a sete mil metros de distância, causando alguns estragos nos navios japoneses, enquanto Rozhesteveski ordena a reorganização da esquadra numa só linha com os quatro couraçados da classe Borodino à frente, entre os quais o seu navio, o Kniaz Suvarov, que fazia de ponta de lança. Mas, os japoneses aproximaram-se mais mil metros para abrirem um fogo mais rápido, concentrando-o à boa maneira tradicional nos dois navio-chefe das duas divisões, o referido couraçado de Rozhesteveski e o Osliabya no qual seguia o corpo do almirante Fokersam falecido de doença dias antes. Togo aproveitou a sua maior velocidade e ligeireza dos seus navios com as carenas impecavelmente limpas para formar um arco com os seus navios mais próximos uns dos outros para tocar no arco russo com uma certa superioridade de fogo, concentrando-o primeiro no Kniaz Suvarov que rapidamente perdeu uma chaminé, um mastro e a torre da ré, sofrendo, além disso, um incêndio que o deixou desamparado com o almirante Rezhesteveski muito ferido para ser transferido pouco tempo depois para um contratorpedeiro.
O navio-chefe da 2ª Divisão, o couraçado Osliabya, foi atingido pelos cruzadores protegidos de Togo que na ocasião combatiam como se fossem couraçados, dado que os japoneses só dispunham de quatro couraçados. Carregado até mais não de carvão, o Osliabya tinha a cintura blindada muito submersa pelo que ficou muito vulnerável às granadas do Shimoze. Togo pensou como Nelson em Trafalgar, deixou o inimigo disparar a grande distância, convencido que não faria grandes estragos e foi-se aproximando, mesmo com os cruzadores que foram os primeiros a dispararem. A precisão dos primeiros tiros nipónicos desmoralizou os comandos da esquadra russa e feriu mesmo gravemente o almirante-em-chefe que, pelas 14h25, ainda deu ordem para mudar de rumo para evitar a tentativa de cruzamento em T pelos navios japoneses mais rápidos.

Togo tinha feito toda uma volta para apanhar o bombordo da formação russa com a sua vantagem de 2 a 3 nós. Ao contrário da linha russa que era liderada pelos couraçados, a esquadra de Togo começava por quatro cruzadores seguidos pelos seus quatro couraçados. Ambas as linhas navegaram durante algum tempo em dois arcos quase paralelos a uma distância de 5 mil e quinhentos a 6 mil metros.

Sempre que a visibilidade permitia, as esquadras disparavam com tudo o que podiam; o cruzador japonês Asama recebeu um tiro de 305 mm que destruiu a máquina do leme, deixando-o praticamente desgovernado; outro tiro russo de 305 mm atingiu o cruzador Nishin, provocando a destruição de uma torre de peças de 203 mm. Depois de dissipados os fumos dos primeiros tiros, os russos procuraram aumentar a distância em relação à linha nipónica, mas fizeram-no muito tarde; o Osliabya recebeu mais um impacto no costado que provocou entrada de água, fazendo-o virar-se completamente. Ao mesmo tempo, o Kniaz Suvarov saía da linha de batalha desgovernado também com a máquina do leme destruída. O fogo japonês passou então a concentrar-se no couraçado seguinte, o Alexander III que assumira a liderança da formação russa.

Os couraçado Borodino e Orel, além dos Oliabya a afundar-se, passaram a ser os grandes alvos da esquadra nipónica, cujos grandes navios nada tinham sofrido ainda porque deixaram a primeira divisão de cruzadores sofrer os primeiros estragos para manterem intacto todo o potencial de fogo dos seus quatro couraçados.

Pelas 15h00, o comandante Bukvostv do Alexander III guinou para bombordo a fim de cruzar a ré da formação japonesa, enquanto os torpedeiros e os cruzadores ligeiros russos tentavam lançar os seus torpedos contra os navios russos. Togo virou também para bombordo para evitar o cruzamento e lançou os seus cruzadores ao assalto ao Alexander III, obrigando-o a virar para estibordo, enquanto a segunda divisão de cruzadores protegidos nipónicos cercava o Kniaz Suvarov que resistia com denodo. Pelas 15h07, os japoneses conseguem fazer o cruzamento em T de estibordo para bombordo, abrindo fogo sobre o Alexander III que quase submergia sob o dilúvio de fogo, mas as suas blindagens iam aguentando os impactos dos canhões de Togo. Os russos disparavam da pior maneira possível, pelo que os japoneses ousaram aproximar-se até a uma distância de uma milha da formação russa. O Mikasa chegou a tentar um ataque com os seus torpedos, mas sem êxito. Por fim, Togo ordenou o afastamento da sua linha, fazendo duas voltas para sudoeste, enquanto os seus cruzadores continuavam a bater no Kniaz Suvarov com as suas peças de 203 e 153 mm, já tendo destruído todas as superstruturas frágeis como mastros, chaminés e ventiladores. O cruzador Chihaya ainda tentou lançar dois torpedos, mas sem acertar no alvo.

Depois, a segunda divisão de contratorpedeiros nipónicos tentou mais um ataque a torpedo, mas foi sempre repelida pelas peças de pequeno calibre do Kniaz Suvarov. Pelas 14h00, os russos ainda tinham intactos três couraçados da classe Borodino que tentaram, por sua vez, cruzar a linha japonesa em T, aproveitando o facto de os nipónicos se aproximarem do navio-chefe a dispararem, apesar do navio estar meio destruído e já não ter intactos telémetros e visores ópticos. O couraçado teimava em manter-se a flutuar e a disparar apesar dos incêndios a bordo. As granadas de alta deflagração japonesas causaram grande número de mortos e feridos, os quais já não cabiam na enfermaria, sendo tratados no camarote do comandante e do almirante. Os muitos estilhaços obrigavam os médicos de bordo a operarem rapidamente sem anestesia com clorofórmio por manifesta falta de tempo. Pela primeira vez foi utilizado a bordo de um navio em combate um aparelho de Raios X para observar a posição dos estilhaços nos corpos dos feridos. Um homem ferido no cérebro teve uma grave perturbação psicótica, pelo que teve de ser metido num colete-de-forças. Nas zonas protegidas do couraçado, o ar tornava-se irrespirável por estarem avariados os ventiladores e todas as escotilhas terem de estar fechadas. Enfim, um inferno de sangue, dor, gritos e calor. Só nos curtos intervalos da batalha é que se podia operar convenientemente. Muitos marinheiros tinham sido treinados para se tornarem enfermeiros auxiliares, mas não tiveram a possibilidade de utilizarem os seus conhecimentos por estarem igualmente feridos.

Contra tudo e todos, o couraçado russo Kniaz Suvarov continuava a flutuar e a navegar a 10 nós. Os japoneses flagelavam o navio com as suas peças de 152 mm e pouco conseguiam com os grandes canhões de 305 mm. Num calor infernal, o pessoal das caixas de fogo continuavam a alimentar as caldeiras com quanta força tinham os seus braços. Togo reconheceu então que errava ao tentar com os seus couraçados destruir o navio-chefe russo, deixando a formação inimiga passar, pelo que alterou o rumo para Norte, a fim de apanhar os três outros couraçados russos e enfrentá-los decisivamente, mas mandou as suas flotilhas de torpedeiros tentarem acabar com o Kniaz Suvarov Um deles conseguiu acertar um torpedo no navio russo, fazendo-o adornar uns 10º. O combate do Kniaz Suvaroz permitiu afastar os cruzadores e torpedeiros japoneses dos navios auxiliares e transportes da esquadra russa que assim puderam retroceder e salvar-se de uma destruição certa. Apenas o rebocador Rus foi afundado por engano pelos tiros dos próprios russos, enquanto o transporte armado Ural abalroa outro navio russo, acabando por ser destruído pelo fogo dos couraçados japoneses, impossibilitado como estava de navegar.

O comando da esquadra russa passa para o almirante Nebokatov embarcado no Borodino que dirige uma linha formada pelo Orel, Imperator Nikolai I, Apraksin, Seniavin, e Ushakov. O couraçado Imperator Alexander III ficava para trás debatendo-se com as avarias e meio desgovernado. Atrás ainda vinham os pequenos couraçados Sissoi Veliki, Navarin e Admiral Nakhimov. Os transportes armados Anadir, Irtish e Korea seguiam a estibordo com os cruzadores Almaz e Svetlana. A bombordo, Nebokatov organizou uma linha de cruzadores com o Aurora, o Donskoi¸o Monomask, o Yemtchung e o Izumrud. Os contratorpedeiros russos navegavam entre as duas linhas. O Imperator Alexander III era agora o grande castigado, enquanto algum fogo japonês começou a concentrar-se no Borodino. Togo deixou o Orel disparar à vontade a seis mil metros de distância, sem qualquer resultado aparente. Mesmo assim, o couraçado japonês Shikishima foi atingido num dos mastros com uma granada de 75 mm. O Mikasa levou um tiro de 152 mm. O Nishin também teve de encaixar um impacto de 203 mm. Os japoneses pouco preocupados com os tiros recebidos continuavam a desmantelar o Imperator Alexander IIII, a táctica era um por um; concentrar sempre o fogo de todos os navios japoneses numa só unidade inimiga, de preferência um navio-chefe. Pelas 18h50, o Imperator Alexander III decai para bombordo e inclina-se rapidamente até voltar-se e ir para o fundo com 30 oficiais e 806 marinheiros. Apenas quatro homens sobreviveram.ORIGEM



Linha de Ataque Japonesa.jpg

 

1904: O Começo das Guerras Imperialistas

A paz reinante em 1900 durou apenas até 1904, quando os japoneses atacaram de surpresa a frota russa em Porto Artur, desencadeando a primeira das guerras das novas potências contra aquilo que poderíamos chamar de antigas potências como os impérios russo, britânico, francês, holandês, português e belga. Entre as novas potências cheias de apetite territorial contava-se o Japão, a Alemanha e a Itália e os EUA que já tinham conquistado uma boa parte do México.

No fundo, as guerras do Século XX tiveram como motivação principal a ascensão da Alemanha e do Japão à condição de potências imperialistas com um atraso de séculos relativamente a outras como a Grã-Bretanha e todas as nações europeias detentoras de impérios. As primeiras queriam o seu “império” e as segundas nada queriam ceder e viam nas potências em ascensão um perigo para o seu poderio.

Com a técnica e os seus conhecimentos de física, os homens organizados em estados mais ou menos populosos transformaram-se em dinossauros pelas suas armas e em células “cancerosas” pela sua multiplicação por todo o planeta com efeitos tão nefastos para o ambiente que se admite como possível morte do doente, o nosso pequeno planeta Terra.

O Japão teve um percurso notável desde que em 1853 a esquadra do almirante norte-americano Perry obrigou os nipónicos a abrirem os seus portos ao comércio internacional e abandonarem assim mais de dois séculos de total isolamento relativamente ao mundo exterior. O país estava então técnica e politicamente ao nível da Idade Média. Não conhecia mais que a velha espingarda que os portugueses trouxeram no Século XVI e, em termos navais, apenas dispunham de alguns juncos. Viviam sob uma espécie de ditadura militar, feudal e hereditária dos Shoguns, enquanto o imperador era mantido, como um deus vivo afastado, dos negócios políticos.

Com a chegada dos navios fumegantes e cheios de canhões do almirante Perry, os japoneses perceberam que a velha espingarda portuguesa de 1543 não permitia a sua defesa e, para tal, tinham de dotar-se dos mesmos navios e possuírem a técnica moderna, principalmente de natureza militar.

Essa tomada de consciência do seu atraso provocou uma autêntica revolução.
Em 1869, o novo imperador Mutsu-Hito inicia a época denominada “Meiji” de abertura ao Mundo, depois de ter um ano antes jurado fidelidade a uma constituição liberal e moderna do tipo europeu e derrotado numa sangrenta guerra civil as forças do restabelecimento feudal.

Não deixa de ser interessante a razão de tão prolongado isolamento do Japão. Tudo leva a crer que isso se deve aos portugueses, mais concretamente aos padres franciscanos que pregaram os ensinamentos de Cristo como vem na Bíblia, portanto uma doutrina revolucionária de igualdade de todos os homens perante Deus, esquecendo-se de explicar que isso não era para ser levado totalmente à letra e que haveria sempre uns filhos e uns enteados do Nosso Senhor e que a Cristandade conviveu durante quase dois milénios com as mais diversas formas de escravatura e servidão, apesar de as condenar como matéria de princípio.

O cristianismo perturbou muito os velhos senhores feudais, habituados como estavam a viver numa sociedade altamente hierarquizada em que uns eram gente e outros quase nada.

O shogunato, ou seja, o poder do primeiro-ministro, aproveitou-se bem da espingarda portuguesa para unir o Japão, mas de seguida proíbe o cristianismo em 1614 com medo que a ideia da igualdade pudesse afectar a estrutura social extremamente hierarquizada da sua sociedade.

Com a era “Meiji” aparece pela primeira vez uma burguesia que ascende ao poder por via do estudo das técnicas europeias. Os japoneses correram quase em massa para a Europa para estudarem tudo; foram aprendizes nas mais lúgubres fundições, operários nos estaleiros, alunos das escolas militares e das universidades, etc.

Na Europa como então no Japão, e tal como sucedia em parte no Portugal dos descobrimentos, a classe dita burguesa caracterizava-se pela ideia de projecto de vida pessoal e nacional sem a servidão feudal nos campos e daí a ideia de expansão, comércio e indústria, ao contrário do nobre que se julga alguém simplesmente por ter nascido.
Em princípio, o burguês, principalmente o oriundo das classes trabalhadoras da cidade (burgo), é educado no trabalho e até no estudo, fazendo passar essa ideia para o todo nacional e concebendo o Estado-nação como um projecto político de progresso e daí o enorme desenvolvimento industrial dos Séculos XIX e XX.

Infelizmente, a ideia de tirar o que é dos outros passou das aristocracias para as burguesias e tornou-se parte dessa noção de projecto nacional, o que produziu as terríveis guerras do Século XX. Até os partidos que pretendiam ser do proletariado puro também foram infectados pelo mesmo vírus mental da tal apropriação do que a outros pertence, principalmente territorialmente.

Em 1903, o Japão tinha acrescentado à sua marinha de guerra quatro novos couraçados, 16 cruzadores, 23 contra-torpedeiros, além de numerosas unidades mais pequenas. Sentia-se tão forte que seria o primeiro país asiático a atacar uma potência europeia, o Império Russo do Czar Nicolau II. Fundamentalmente queria obter o domínio da Coreia e conquistar a península de Kwuantung com a cidade fortaleza de Porto Artur que lhe tinha sido retirada por via do Tratado de Shimonoseki que deu por finda a guerra sino-japonesa de 1895.

Os russos conseguiram instalar-se aí em força e decididos a nunca mais de lá saírem. Loshun crismada de Porto Artur pelos russos, ao contrário de Vladivostok, mais a norte e a oriente da península coreana, era um porto aberto todo o ano; o único de águas quentes com saída oceânica do imenso império continental que era a Rússia de então. Tinha, todavia, o defeito de estar muito assoreado na maré baixa, o que fazia com que os navios ficassem bloqueados no porto interior ou então tivessem que ancorar ao largo, frente à península dos Tigres.

Quando começou o conflito, os russos tinham em Porto Artur e Vladivostok sete couraçados, quatro cruzadores couraçados, catorze cruzadores pesados e ligeiros, duas canhoneiras couraçadas e 27 contra-torpedeiros e torpedeiros de alto mar. Uma esquadra valiosa se tivesse em boas condições técnicas de manutenção e dotada de guarnições bem treinadas, o que não acontecia, dada a ineficácia do supremo comandante e governador da Sibéria Oriental, o príncipe general-almirante Eugénio Alexeiev, filho do anterior Czar Alexandre II, enfim, um homem de carácter excessivamente burocrático e despótico. Nada se fazia sem autorizações por escrito e requerimentos prévios e qualquer decisão levava semanas a ser tomada.

A guarnição de Porto Artur era já de 38 mil homens e mais de 90 mil militares russos estavam acantonados na fronteira com a Manchúria. Mas, para além dos números, faltava quase tudo; até espingardas, para não falar em munições e, mesmo, comida. O transiberiano tinha ainda uma só via e um intervalo de 100 milhas no lago Baical que tinha de ser atravessado de barco. Um batalhão completo levava mais de um mês para chegar ao Extremo-Oriente russo.

O Japão aproveitou o facto de uma companhia russa ter iniciado a exploração e corte de árvores a sul do rio Yalu, portanto, dentro da zona que os nipónicos consideravam de sua influência, apesar de a Coreia ser um estado independente, ou quase. Um empresário russo tinha obtido do governo coreano uma concessão para esse tipo de exploração em 1896, conseguindo emitir um grande número de acções colocadas na bolsa de S. Petersbourg com tanto êxito que até o Czar Nicolau II se tornou um importante accionista da empresa Bjesobarow.

Pouco antes do início da guerra russo-japonesa, o marquês nipónico de Ito visitou S. Petersbourg e tentou negociar então com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Conde Lamsdorff, uma delimitação de zonas de influência no Extremo-Oriente entre as duas potências e, com isso, manter relações pacíficas. A Manchúria com a Península de Kwuantung e Porto Artur ficariam sob a influência russa, enquanto a Coreia, a sul do rio Yalu, passaria para a esfera nipónica.

O então ministro das Finanças do Império Russo, Conde Witte, estava de acordo, mas como o autocrata Nicolau II possuía acções da empresa do especulador Bjesobarow, pessoa muito influente na corte, a proposta não foi aceite e ninguém explicou ao Czar a imensa vantagem de uma expansão pacífica pela Manchúria, bem como a posse definitiva de Porto Artur, e a falta de preparação das suas forças, além de que a Coreia não tinha interesse para o Império Russo e, menos ainda, uma simples exploração madeireira.

Nicolau II tinha imensos poderes; não havia sequer primeiro-ministro e, menos ainda, um parlamento ou um conselho alargado. O autocrata ocupava simultaneamente os cargos de chefe de Governo e do Estado, além da chefia das Forças Armadas, mas não era particularmente inteligente, nem sequer gostava de política. Era um bom pai de família, um homem cortês e até modesto e bem intencionado, mas não tinha a mais pequena sensibilidade para os problemas materiais, nomeadamente dos militares ou da população e daí ter conduzido o Império de desastre em desastre até ao triste fim que ele e a sua família sofreram.

Nicolau II limitava os seus contactos pessoais aos ministros, a familiares e a uns tantos aristocratas. Gostava de viver num pequeno palacete nos arredores de S. Petersbourg e adorava o seu estúdio instalado numa cabana de caça. Quando estalou a Revolução de 1905, só o seu dentista é que lhe pôde dar algumas informações práticas sobre a vida do povo e sobre os intelectuais de esquerda que proliferavam por toda a parte.

Como acontecia com toda a nobreza herdeira de muitas gerações do Poder, desconhecia o sentido logístico da vida pelo que tinha a ideia que tudo se arranjava por si próprio; os servos e os súbditos tinham a obrigação de prover todos os bens materiais, o que não era muito difícil quando se tratava de abastecer um corte e umas tantas famílias nobres com um pequeno grupo de burocratas.

Outra coisa era, sem dúvida, encontrar os meios para satisfazer grandes exércitos e esquadras. Para isso, a nobreza não servia, era necessária a capacidade de organização dos melhores das classes médias, o que passava naquela época pela instituição de um regime liberal e parlamentar como o japonês e instrução pública para quase toda a população.

Saliente-se aqui que no Japão como na Alemanha e noutros países, os ditos regimes parlamentares das burguesias industriosas serviram para equipar grandes exércitos e marinhas e, uma vez resolvido o problema logístico, foram quase todos postos de parte. Os generais e almirantes aristocratas ou snobes deitaram-nos fora como trapos inúteis e meteram-se em guerras sem conta de vitória em vitória até às derrotas totais.

Recusadas as propostas do marquês de Ito, este firmou em 1902 uma aliança de cinco anos com a Grã-Bretanha. Na Rússia, o Czar entrega a política do Extremo-Oriente a um comité chefiado pelo corrupto Bjesobrawov com alguns amigos do Czar que não pararam de tentar avançar o mais possível para a outra margem do Yalu e, assim, acicatar ainda mais os ânimos dos nipónicos. Logo após a nomeação de Alexeiev para governador, tomou-se mesmo a decisão de ir para a guerra com o Japão, se necessário fosse.

Claro, o imenso Império Russo não temia o Japão, dada a correlação global de forças, mas em S. Petersbourg ninguém entendia a questão do poder regional e o facto de o Japão querer ser uma barreira à expansão da Rússia ainda mais para Oriente.

Na verdade, a Rússia de 1904 tinha mais de 145 milhões de habitantes e estendia-se desde a Polónia ao Estreito de Behring, incluindo a Finlândia, os actuais países bálticos, a Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia e todos aqueles países orientais que agora se tornaram quase independentes. Enfim, uma área terrestre superior 14 milhões de quilómetros quadrados, tanto como 152 vezes a superfície de Portugal.
Os japoneses, por sua vez, ainda não eram mais que uns trinta milhões e o seu território era uma ínfima parte do russo.

A guerra surge de facto sem que os russos estivessem preparados para o combate, até porque a dada altura deixaram de acreditar que os japoneses quisessem mesmo ir para uma guerra. O próprio Czar chegou a mandar um telegrama a Alexeiev para nada fazer no caso de os japoneses desembarcarem tropas a sul de Seul e que seria aconselhável que não fossemos nós a iniciar as hostilidades.

 Um Século de Guerra no Mar de Dieter Dellinger
  * À margem: onde se refere tenente Silva Pereira deve ler-se "João Carlos da Silva Nogueira". Especialista em hidrografia fez várias campanhas de levantamento costeiro nas possessões ultramarinas portuguesas, com destaque para a produção das cartas dos portos, barras e enseadas de Moçambique. Notabilizou-se pelo denodo como ao comando da canhoneira Limpopo, um pequeno vaso de guerra, em 6 de Dezembro 1904 se opôs à entrada primeira divisão da esquadra russa do Báltico na Baía dos Tigres em Angola na Baía dos Tigres, em Angola. A entrada apenas foi autorizada depois de formalmente pedida, implicando um reconhecimento explícito da soberania portuguesa sobre a área[2]. Wikipédia