Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Alguma genealogia de pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe), Angola: José Joaquim Pinho


                                                                                          



JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, Terra da Feira, c. de 1820, foi  componente da Primeira Colónia de portugueses que, saídos de Pernambuco, em Maio de 1849, na barca brasileira "Tentativa Feliz", acompanhada do brigue de guerra português "Douro",  chegou a Moçâmedes a 4 de Agosto do mesmo ano, para dar inicio ao povoamento branco do distrito. 

JOSÉ JOAQUIM DE PINHO foi, pois, um dos pioneiros da fundação da cidade de Moçâmedes,  onde foi proprietário de terras na região, de entre elas a fazenda da Várzea da Boa Esperança.  Viria a  falecer em Moçâmedes, em 27.11.1875, encontrando-se os seus restos mortais, junto com os da sua mulher, sepultados sob um mausoléu no cemitério local, mandado erguer pelos seus filhos.




 "Aqui jazem os restos mortaes de JOSÉ JOAQUIM DE PINHO, natural de Aveiro, e sua esposa D. Maria dos Anjos Pinho, natural da ilha de S. Miguel, falecidos, aquelle em 27 de Novembro de 1875, e esta a 1 de Maio de 1873. Seus filhos lhe mandaram erigir este mausoléu com prova de muita estima. Eterna recordação."

                                                                                                             
ALGUMA GENEALOGIA DE JOSÉ JOAQUIM DE PINHO
recolhida de Genea


Era filho de José Joaquim de Pinho e de Maria de Jesus Rodrigues  (in Genea=  filho de José Joaquim de Pinho e de Augusta Gomes). Casou com Maria dos Anjos Rodrigues,  natural da Ilha de São Miguel  (filha de António Rodrigues e Maria de Jesus Rodrigues, naturais dos Açores, São Miguel), falecida em Moçâmedes a 01.05.1873. 

DESCENDENTES:


José Joaquim de Pinho teve uma primeira união da qual nasceu Clara Pinho:
                                                   
1. Clara de Pinho
                                                                                     (nascida em Moçâmedes)

Clara de Pinho casou com Trindade e dessa união nasceram os seguintes filhos:
                               
1. Rita Pinho Trindade de Soares

2.  Alexandrina P. Trindade Faria
3. José de Pinho Trindade (pai de José Moreira de Pinho Trindade,  proprietário do «Jornal o Namibe», pai de Georgina Zulmira Alves Trindade, Clara Bela Alves Trindade, Roberto Alexandre Alves Trindade e Carlos Alberto Alves Trindade

4. Manuel de Pinho Trindade
5. Clara de Pinho Trindade



Do casamento de José Joaquim de Pinho e Maria dos Anjos Rodrigues nasceram :

2. Joaquim José de Pinho, nascido em Moçâmedes a 20.06.1869;

3. Perpétua de Pinho, nascida em Moçâmedes em 21.07.1871;

4. Maria da Conceição de Pinho (foto abaixo), nascida em Moçâmedes a 30.5.1872, casou com Emídio Augusto Pimentel de Figueiredo, que também se assinou Emídio Augusto  Pimentel Teixeira Simões de Sousa, ( da Casa dos Pimentel Teixeira de Maçãs de D. Maria e primo do chefe da 1ª colónia de Pernambuco,  Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro), que vindo de Portugal, era então proprietário de fazendas em Moçâmedes; 

5. Amélia de Pinho n. em Moçâmedes, Santo Adrião, a 20.6.1869 ( irmã gémea de Manuel Joaquim), que casou com Alfredo de Oliveira Luso, ambos falecidos em Lisboa, (onde possuíam uma casa na Rotunda do Marquês de Pombal) e proprietários da Qtª. d`Além, em Torres Vedras. 
Nota: 

A folhas 4 v. e 5 do livro de Casamentos da freguesia de Santo Adrião, conselho de Moçâmedes, relativo ao ano de 1889, com o Nº 6 :

" Aos vinte e tres dias do mês de Junho de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila e freguesia de Santo Adrião de Moçâmedes, diocese de Angola e Congo, e casas do falecido General Honorato José de Nendonça, compareceram perante mim os nubentes que sei serem os próprios, Alfredo de Oliveira Luso e D. Amélia Pinho, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, ele, de idade de vinte e um anos incompletos, natural da freguesia de Santo António do Recife, Província de Pernambuco, Império do Brasil, filho de Joaquim Antero de Oliveira Luso e de D. Filonila da Costa Luso e ela de idade de dezanove anos, solteira, natural desta freguesia de Moçâmedes, filha legítima de Joaquim José de Pinho e de D. Maria dos Anjos de Pinho, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e eu os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto segundo o Rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios:- o comendador Manuel José Alves Bastos, sua esposa D. Amélia do Carmo Torres Bastos, António Florentino Torres , negociante, a sua esposa D.Maria Júlia de Mendonça Torres, todos residentes nesta freguesia de Santo Adrião de Moçamedes. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido, conferido e achado conforme, assino com os nubentes e tetemunhas presentes. Era ut supra. (...) Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, arcipreste".In Geneallnet

6. Manuel Joaquim de Pinho* 20.06.1869

7. Jacinto de Pinho
                            
                                                      
Do ramo Maria da Conceição de Pinho e Emídio Augusto Pimentel de Figueiredo (conf.Genea): 


 Maria da Conceição de Pinho 30.05.1872, 
Moçâmedes. Casou com Emídio Augusto Pimentel
de Figueiredo 
Emídio Augusto Pimentel
de Figueiredo casado com Maria da Conceição de Pinho 


Descendência :  

Silvina de Pinho Pimentel de Figueiredo

                1. Silvina de Pinho Pimentel de Figueiredo
                 (casou com Joaquim Augusto da Costa Simões Canova* 1891)
2. Joaquim José Simões Pinho de Figueiredo
Moçâmedes, Santo Adrião, 23.19.1893+ Cascais, Parede 1976
Casou em Cascais 1918 com Ida de Almeida Ramil

3. Maria da Conceição Simões Pinho Freire de Figueiredo 
* Moçâmedes, Santo Adrião 06.07.1903. Casou com José Braz Simões c.1900

Em 1969, a Agência-Geral do Ultramar editou o n.º 8 da sua colecção «Figuras e Feitos de Além-Mar», intitulado «Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Fundador de Moçâmedes», do autor o Padre José Vicente, que à mesma figura já tinha dedicado alguns artigos no jornal regional «A Comarca de Arganil», de que era redactor em Lisboa. Nesse livrinho, encontra-se um recorte do «Diário de Notícias» com a notícia do óbito da escritora e publicista Maria de Figueiredo (* Mossâmedes 1906 + Lisboa 26-12-1971), cujo nome completo – D. Maria da Conceição Pinho Simões Pimentel Teixeira Freire de Figueiredo. Presume-se seja  a mesma Maria da Conceição Simões Pinho Freire de Figueiredo


 
             4. Maria Maximina de Pinho Pimentel Figueiredo
  * 1889 + 1972
       Casou com Joaquim Salgueiro Rêgo

Maria Rosa de Pinho Pimentel de Figueiredo
5. Maria Rosa de Pinho Pimentel Teixeira
1896-1973
Casou com Tomás de Aquino Vaz Pereira Simeão

*

(1) Cfr pp. 480 da obra «Moçâmedes», da autoria de Manuel Júlio de Mendonça Torres, que inclui também fotografia José Joaquim de Pinho, vem publicado, em extra-texto, entre pp. 358 e 359, os seguintes dizeres: "José Joaquim de Pinho, natural de Aveiro, componente da Primeira Colónia, foi proprietário duma fazenda situada na várzea da Boa Esperança. Faleceu em 27 de Novembro de 1875. Repousa, sob gracioso mausoléu, no cemitério da cidade" (sic).

Também em extra-texto, entre pp. 326 e 327, vem publicada a fotografia de seu primo Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, chefe da Primeira Colónia, referindo-se que se trata da reprodução de uma fotografia, no verso da qual se lêem algumas notas biográficas, de entre as quais cito as seguintes palavras: "Homem (...) pugnador incansável dos benefícios dos pobres e dos órfãos... e mais útil aos estranhos que a si próprio" (sic).


Encontrei em GeneallNet a seguinte informação que passo a transcrever:

 "...A mãe da minha avó Maria da Conceição de Pinho, chama-se Maria dos Anjos e morreu muito cedo, de parto. O pai, José Joaquim de Pinho, era natural de Ovar , ou Ilhavo ( Nota minha:- segundo a certidão de nascimento de Maria da Conceição, n. em Moçamedes em 1872, da qual possuo uma cópia, o pai nasceu nas Terras da Feira), e também morreu novo, mas morto por um criado negro, bêbado, que lhe espetou uma faca durante um banquete (...) Tinha vindo para Moçamedes , com cerca de 20 anos, acompanhado por um seu conterrâneo, Manuel Torres. Quando morreu, os filhos e filhas ( minha avó , Maria Amélia , Perpétua e Jacinto ), ficaram a viver em casa de Manuel Torres e sua mulher , Maria Torres. Este tinha um filho António Torres (...) fim de citação. (ass. Luis Piçarra)
"...Para já, chamou-me a atenção a certidão de casamento entre os nossos tios já remotos, Alfredo de Oliveira Luso e Maria Amélia de Pinho, pois julgo que as informações que possuis, apontam para ele ter nascido em Moçâmedes. No entanto não é o que consta do assento de casamanto de que tenho uma fotcópia que passo a transcrever. A folhas 4 v. e 5 do livro de Casamentos da freguesia de Santo Adrião, conselho de Moçâmedes, relativo ao ano de 1889, com o Nº 6 :

" Aos vinte e tres dias do mês de Junho de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila e freguesia de Santo Adrião de Moçâmedes, diocese de Angola e Congo, e casas do falecido General Honorato José de Nendonça, compareceram perante mim os nubentes que sei serem os próprios, Alfredo de Oliveira Luso e D. Amélia Pinho, com todos os papéis do estilo correntes e sem impedimento algum canónico ou civil para o casamento, ele, de idade de vinte e um anos incompletos, natural da freguesia de Santo António do Recife, Província de Pernambuco, Império do Brasil, filho de Joaquim Antero de Oliveira Luso e de D. Filonila da Costa Luso e ela de idade de dezanove anos, solteira, natural desta freguesia de Moçâmedes, filha legítima de Joaquim José de Pinho e de D. Maria dos Anjos de Pinho, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e eu os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto segundo o Rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios:- o comendador Manuel José Alves Bastos, sua esposa D. Amélia do Carmo Torres Bastos, António Florentino Torres , negociante, a sua esposa D.Maria Júlia de Mendonça Torres, todos residentes nesta freguesia de Santo Adrião de Moçamedes. E para constar, lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido, conferido e achado conforme, assino com os nubentes e tetemunhas presentes. Era ut supra. (...) Cónego Diogo Damião Rodolfo de Santa Brígida e Sousa, arcipreste" (ass Luis)

Ainda sobre esta familia e colaterais muitos elementos poderão ser colhidos  AQUI   Aqui  AQUI



Moçâmedes/Genealogias
Pesquisa e composição do texto de MariaNJardim

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os Portuguezes em Africa, Asia, America e Oceania, ou Historia chronologica dos descobrimentos, navegações, viagens e conquistas dos Portuguezes nos paizes ultramarinos desde o principio da monarchia até ao seculo actual

Deste livro segue este texto, na parte que toca à "colónia de Mossãmedes". Para os interessados no livro, bastará clicar acima.
"...185o — Em Angola entretanto concentrava-se com sobeja razão a attenção do governo nos territorios ao sul da província. Um dos exploradores que mais se empenharam em percorrer e em descrever essa região foi Bernardino José Brochado que desde 1847 andava visitando os povos do Humbe, Camba, Mulondo, Quanhama, Aymbire, Terra de Bale, Uanda, Cuffima, Dongo, Mucuancallas, Quamba, Ganjella, Quamattui, etc. A descripção das suas viagens, datada de Gambos de i85o, figura nos Annaes do Conselho Ultramarino.


Em 1845, como dissemos já fundara-se uma colonia na Huila, em 1849 lançaram-se os fundamentos da colonia de Mossamedes; a portaria de 3o de abril de 1849 assignada pelo visconde depois conde de Castro dava instrucções desenvolvidas ao official da marinha Sergio de Sousa, depois visconde de Sergio de Sousa, que foi o encarregado de transportar para Mossamedes uma colonia que se devia ir buscar ao Brazil; a lei de 3 de julho de 1849, referendada pelo visconde de Castellões, auctorisava o governo a gastar 18 contos de réis com o estabelecimento da colonia agricola de Mossamedes, a portaria de 25 de julho creava o logar de facultativo effectivo da colonia. Comtudo só n'este anno de 1850 se fundou definitivamente essa colonia a que está reservado tão prospero futuro.

Como, porém, seguimos o systema de não mutilar a historia dos acontecimentos importantes do Ultramar, subordinando-os á divisão chronologica que nos é imposta pelo plano primitivo d'este livro, narral-os-hemos todos em 185o para darmos um quadro completo destes importantes acontecimentos, cujos preliminares acabamos de referir.
"Em Mossamedes existia já no sitio das Hortas, quando o tenente Garcia veio fundar o presidio, e quando Pedro Alexandrino da Cunha veio com a corveta Isabel Maria estudar a costa, uma feitoria pertencente a Jacome Filippe Torres, em 1840 fundou outra feitoria um Clemente Eleuterio Freire, em i841foi outra fundada por Bernardino José Brochado, em 1843 outra por Fernando José Cardoso Guimarães, e tempo depois outra ainda por João Antonio de Magalhães. Estas feitorias e o presidio, uma força militar e degredados, eram o nucleo da futura villa.
"Foi a agitação politica de Pernambuco, de que estavam sendo victimas os colonos portuguezes, que fez com que se sollicitasse do governo de Lisboa a protecção que era devida aos seus subditos. Essa pretenção foi deferida, como já vimos, e no dia 4 de agosto de 1849 chegavam a Mossamedes, tendo partido de Pernambuco em maio do mesmo anno, o brigue Douro e a barca Tentativa Feli%, transportando familias e homens solteiros, tudo á custa do governo. Quem era o chefe d'essa colonia, o cidadão prestantissimo que tomára a iniciativa d'essa idéa, e que tudo sacrificou ao seu desenvolvimento e prosperidade, era Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, cujo nome deve ser sempre lembrado com profundo reconhecimento por todos os que prezam o desenvolvimento colonial do nosso paiz.
Apezar de todas as precauções do governo, esses primeiros colonos acharam-se n'uma situação verdadeiramente desgraçada. Tinham tido logo uma secca espantosa que esterilisára completamente os terrenos. Os colonos achavam-se quasi nus, o sustento que se lhes dava, e que se compunha de má farinha de mandioca e de feijão podre, desenvolvia as doenças, e concorria para que se considerasse como detestavel o clima de Mossamedes, hoje considerado e justamente por todos como um dos melhores climas africanos, a ponto de ter Mossamedes obtido a denominação de Cintra africana. O desanimo era profundo, a exasperação tamanha que muitos dos colonos acceitavam como um beneficio o sentarem praça ao lado dos degredados. As noticias enviadas de Mossamedes para o Brazil pela escuna Maria eram tendentes a paralysar a emigração. Mandava-se dizer que o clima era pessimo, que elles eram tratados como degredados, que não podiam sair da colonia senão depois de uma permanencia de dez annos, e que aquillo era muito peior que a ilha de Fernando de Noronha, etc., etc. Apezar d'isso, graças á actividade e ao zelo de Bernardino Freire de Figueiredo, a emigração não desanimou, como vamos ver.
No dia 26 de novembro d'este anno chegou a Mosamedes a chamada segunda colonia, composta ainda de portuguezes residentes em Pernambuco, e que vinham auxiliados por uma patriotica subscripção que se abrio n'essa cidade. Traziam-n'a o brigue Douro e a barca Bracharense. Achavam os novos colonos os seus antecessores n'um estado desesperador. Ainda chegou nova remessa de colonos, vindos d'esta vez do Rio de Janeiro e Bahia. Foi a ultima; as noticias enviadas para o Brazil, apezar de se saber que eram exaggeradas, tinham inspirado um profundo desanimo com que não podera luctar a energia de Bernardino Freire de Figueiredo.
Comtudo, trabalhava-se ardentemente para se obviar a esses inconvenientes ; o director da colonia foi a Loanda, levando em sua companhia Francisco da Maia Barreto, que foi ao Bengo buscar as primeiras sementes de canna; o plantador Fernando José Cardoso Guimarães tambem mandou vir sementes. Começou então a estabelecer-se uma tal ou qual agricultura.
Alguns colonos, que, movidos pela exasperação, tinham ido para a colonia de Huilla, lá padeceram tambem tantas privações, que fugiram e voltaram para Mossamedes, onde ficaram. Effectivamente, apenas os colonos de Mossamedes começaram a ter um sustento regular e sadio, as doenças desappareceram e começou a manifestar-se o clima de Mossamedes tal como hoje todos o conhecem.
Devemos apontar tambem n'este anno um facto importante, que foi o principio da ida dos paquetes transatlanticos á ilha de S. Vicente em Cabo Verde. A povoação, que n'essa ilha recebera o nome pomposo de Mindello, era apenas uma aggregação de pobres casas disseminadas nas margens do Porto Grande. Quando, porém, em i85o se estabeleceu a primeira carreira de paquetes entre a Inglaterra e o Brazil, paquetes que deviam tocar nos portos de Lisboa, Madeira, Tenerifíe e S. Vicente de Cabo Verde, o governo comprehendeu logo a importancia que essa ilha tinha de assumir, e assim o manifestou no preambulo da portaria de 7 de dezembro de i85o, que mandava crear uma alfandega na ilha de S. Vicente, e em que o visconde de Castellões dizia:

«Devendo começar no proximo mez de janeiro a carreira dos paquetes de vapor entre Inglaterra e o Brazil, com escala por Lisboa, Ilhas da Madeira, Teneriffe e S. Vicente, demorando-se os vapores maior espaço no porto d'esta ultima ilha afim de ahi se abastecerem de carvão, e sendo natural que alli hajam de tomar refrescos, e assim por este motivo como por commodidade do commercio se desejar praticar alguns actos commerciaes, e especialmente o desembarque de fazendas e encommendas levadas tanto de Londres como de Lisboa e Madeira, etc.»
Assignalava-se, pois, esse anno de 185o por dois factos importantissimos para a prosperidade das nossas colonias; a fundação da colonia de Mossamedes, a que apenas se preludiára, por assim dizer, no anno anterior, e a attenção prestada á ilha de S. Vicente de Cabo Verde, que se ia desenvolver de anno para anno com a passagem dos paquetes transatlanticos.
No anno immediato de i85i Fortunato José Barreiros, novo governador de Cabo Verde, fundava a autonomia administrativa da ilha que até ahi estivera dependente da visinha ilha de Santo Antão.
i85i—Vamos terminar este capitulo porque vamos entrar n'um periodo novo de actividade colonial, ainda bem debil e bem frouxo, mas que é já um symptoma de renascimento. Não tem seguido comtudo esse renascimento uma progressão geometrica; arithmetica quando muito se pôde ella apenas considerar. Tem havido momentos de impetuoso progresso, mas depois cae tudo de novo na apathia e na indolencia.
Como acabamos de ver, já alguma coisa se fizera para conseguir que as colonias africanas resurgissem do abatimento profundo em que as deixára a extincção do trafico da escravatura. Em Angola Pedro Alexandrino da Cunha mostrava uma energica iniciativa; á sua influencia immediata e mediata se deve o começo da colonisação do sul. Elle mesmo fundou a colonia de Huila, e foi do presidio de Mossamedes que elle fez nascer o nucleo da colonia de Mossamedes. Em Cabo Verde, João de Fontes Pereira de Mello occupára-se tanto quanto possivel de melhorar as condições do archipelago, e a escolha pela companhia de paquetes inglezes transatlanticos do porto de S. Vicente para porto de escala ia levar a esta ilha, e por conseguinte á provincia, elementos de prosperidade. A nova importancia que adquirira a ilha de S. Vicente fazia com que o governo regenerador decretasse em i7 de setembro de i85i a divisão judicial do archipelago de Cabo Verde em duas comarcas, a de Barlavento e a de Sota-Vento, sendo a sede de uma d'ellas S. Vicente.
....
Foi n'esse anno de i853 que se promulgou a lei que applicava a um fundo especial de colonisacao os direitos pagos em cada provincia ultramarina pelo vinho e aguardente de Portugal. O preambulo d'essa lei que foi promulgada em i853 mas que tem a data de 3o de dezembro de i85a diz o seguinte: Sendo indispensavel crear um capital com que possa dar-se começo á colonisaçao das provincias africanas com individuos d'este reino e das ilhas adjacentes, distrahindo por este modo a grande emigração, que de uma e outras tem logar para paizes estrangeiros, e promovendo o desenvolvimento da agricultura e industria nas mesmas provincias, etc.
 
 
Note-se que já em agosto de i852 o Conselho Ultramarino dizia em officio assignado pelo seu presidente, o grande Sá da Bandeira.
«Um dos negocios mais graves que actualmente occupam a attencão do governo ultramarino é a organisação e proposta de providencias que tendam a cortar, ou pelo menos a diminuir, a emigração dos habitantes da Madeira e Açores para a Guyana ingleza e Brazil, emigração que progressivamente tem augmentado, e que dá grandes cuidados pela diminuição que traz á população d'estes reinos, e pelo desgraçado fim que vae ter uma grande parte dos infelizes, que, illudidos, procurando riquezas imaginarias, vão encontrar nova especie de escravidão pelos contractos que são obrigados a fazer, acontecendo tambem que nas margens insalubres dos rios de Guyana, onde são compellidos a trabalhar, um grande numero perece victimas de doença, como se demonstra pelas estatisticas de Demerara, nas quaes se vê que figura em espantosa escala a mortalidade das colonias portuguezas.
«Entre as providencias que lembram a este conselho para diminuir ou obviar a tão grande mal, apresenta-se-lhe como a mais senão unica efficaz, a de dirigir a emigração d'aquelles povos para as colonias portuguezas de Africa, onde elles, sendo uteis ao seu paiz, nem estariam sujeitos a contractos que eifectivamente os tornam escravos por longo periodo de tempo, como succede na Guyana ingleza e no Brazil, nem soffreriam o estrago que aquelle clima produz na sua vida, havendo o cuidado de o escolher saudavel».
 
Mas effectivamente a creação do conselho ultramarino teve uma influencia altamente benefica nas nossas colonias, e esse conselho trabalhou muito, pelo menos nos primeiros tempos da sua existencia, para o nosso desenvolvimento colonial.

Houve n'este período um certo empenho em cuidar das colonias. Esse anno de 1853 é por esse motivo famoso. Foi então que Silva Porto concluiu a sua primeira viagem de exploração, foi n'esse anno que o anstriaco Ladislau Magyar fez uma viagem ao interior de Angola, viagem interessante de que deu conta ao governador da provincia, sendo incumbido de continuar as suas explorações na Africa Austral, foi n'esse anno finalmente que se principiaram em Angola as explorações scientificas do grande botanico allemão, dr. Frederico Welwitsch, explorações que enriqueceram tanto o jardim botanico de Coimbra, e tornaram conhecida do mundo inteiro a nossa flora angolense. Durante sete annos esteve o dr. Frederico Welwitsch em Angola, percorrendo o littoral desde a foz do Quanza até Quizembe, e seguindo pelo interior ao longo do Quanza até Banca de Quizonde, e transpondo na sua observação uma area de 2:5oo milhas quadradas, percorrendo as regiões de Ambaca, Ambriz, Golungo Alto, Ambaca, Pungo Andongo e Cambambe, as margens do rio Loge, Lipure, Dande, Bengo e Quanza, as serras das Pedras de Guengue, as mattas de Quipude e Condi, e ainda Benguella, Mossamedes e Huilla. Os seus trabalhos foram apreciadissimos em Portugal, e talvez muito mais no estrangeiro. Em Inglaterra instavam muito com elle para que publicasse o resultado das suas observações, o que elle não quiz fazer, sem accordo com o governo portuguez, a quem devia todo o fructo do seu trabalho.
Com a sua colheita se enriqueceram os jardins botanicos portuguezes, e o nome d'este estrangeiro illustre está ligado indelevelmente á historia da nossa provincia de Angola, como á historia botanica ficou esse nome ligado, porque justamente se deu o seu nome—Welwitschia—a uma planta que descobriu em Angola, e que é curiosissima. Ao genero que essa planta representa quiz Welwitsch dar o nome de Tamboa, derivado de Tambo que é o nome indígena do sueco da planta, mas o grande botanico inglez Hooker entendeu que devia protestar contra essa modestia, dando ao genero o nome de Welwttschia e á planta em especial o nome de Welwitschiamirabilis e Hooker dizia o seguinte:
«Tenho o prazer de commemorar por esta forma os trabalhos botanicos do infatigavel e bem conhecido explorador da Africa tropical, o dr. Welwitsch, ligando o seu nome á sua propria descoberta, que não hesito em considerar a mais importante, debaixo do ponto de vista botanico, que tem sido feita no presente seculo, pelo abalo que imprime a muitos dos principios reputados fundamentaes e axiomaticos da sciencia, pelas anomalias manifestadas na estructura, exercício funccional e modo de desenvolvimento d'esta especie vegetal.»

1854. — Continuou n'este anno o empenho do governo e do conselho ultramarino, em darem impulso ás nossas provincias ultramarinas e em lhes desenvolverem a exploração.
Em Cabo Verde fizeram-se concessões de terreno a Antonio Cezar Correia, a Antonio José Duarte Nazareth, a Manuel Joaquim Affonso, tratou-se de dar desenvolvimento ás estradas, para Angola mandaram-se sementes de algodão, de sésamo do Egypto, de tabaco, concedeu-se a José Maria Mattoso da Camara privilegio para a feitura de cabos de ife, animou-se o desenvolvimento da colonia de Mossamedes, mandaram-se alguns colonos portuguezes para esse lado, satisfazendo-se assim um pouco as indicações do Conselho Ultramarino, occupou-se o porto de Pinda, auctorisou-se a junta de fazenda de Angola a comprar durante dois annos gomma elastica no sertão da provincia para a vender depois no mercado de Lisboa.
Pouco era isto, mas em todo o caso assim começaram as pequenas industrias agricolas que hoje teem um certo desenvolvimento em Angola. Foi assim que em 1837 Francisco Batalha descobriu a urzella no sertão de Angola, e a fez conhecida dos mercados europeus, o que lhe valeu n'este anno de 1854 um testemunho de reconhecimento do governo pelos serviços que elle assim prestára. O conselho ultramarino, presidido por Sá da Bandeira, não fazia então senão preparar o que o proprio Sá da Bandeira depois faria quando subisse ao ministerio.
N'esse mesmo anno se decretaram as pautas das alfandegas da Guiné e de S. Thomé e Principe como no anno anterior se decretára a de Moçambique. Esta de i8 d'outubro de 1853 estabelecia como principio geral que os generos nacionaes importados na provincia pagariam 4°/o, os generos estrangeiros importados em navio nacional 6°/o, em navio estrangeiro 12°/o. A de S. Thomé e Principe decretada a 2 de setembro de 1854 mantinha a importação de 4 °/o para as mercadorias nacionaes e impunha i2°/o aos generos estrangeiros importados em navio nacional, 2o°/o aos importados em navio estrangeiro, a da Guiné decretada em 27 de dezembro de 1854 ordenava que os generos nacionaes em navios nacionaes pagassem 8°/o, os estrangeiros, quer em navio estrangeiro, quer em navio nacional, 12°/o. Muitos generos pagavam tributos differentes, quando estavam expressamente especificados na pauta.
Estes direitos difterenciaes não foram vantajosos para as provincias. Não favoreceram a exportação nacional, e prejudicaram o bem estar das colonias.
Era impossivel evitar comtudo que o conselho ultramarino, apezar de ser composto de homens de valor e que tinham desempenhado com louvor funcções importantes nas provincias ultramarinas, como eram João de Fontes Pereira de Mello que tão bom governo fizera em Cabo Verde, José Ferreira Pestana que se distinguiu no governo da índia, Domingos Fortunato do Valle que prestára, como vimos, excellentes serviços em Moçambique, cedesse um pouco a theorias. Foi tambem isso o que aconselhou a abolição dos prasos da coroa em Moçambique decretada em i854, e que nunca se levou a effeito, como se não levaram a eifeito eguaes providencias tomadas em i880. É um excellente principio o da extincção dos prasos da coroa, mas não se pôde applicar bruscamente sem ferir muitos interesses poderosos, e sem quebrar uma forte organisação que tem valido muitas vezes á provincia.
Angola estava sendo mal governada pelo visconde de Pinheiro, D. Miguel Ximenes, que praticou uns actos pouco dignos, consentindo que na provincia se abrisse uma subscripção a favor d'elle, subscripção que, segundo dizem, foi por elle mesmo estimulada. D'ahi resultou ser o visconde demittido, e substituído interinamente pelo governador de Benguella, José Rodrigues Coelho do Amaral, que administrava o seu districto com acerto, como tambem prestára largos serviços em Mossamedes o novo governador Fernando da Costa Leal, cujo nome é ainda hoje lembrado com saudade por aquella colonia. Foi Fernando da Costa Leal que mais impulso deu á agricultura e á industria n'aquella colonia, tratando ao mesmo tempo de explorar o rio Cunene, a que deu o nome de rio dos Elephantes, por ter encontrado nas suas margens alguns d'esses animaes. Pode-se dizer que foi o verdadeiro fundador da colonia de Huilla, de que aliás já tinham sido lançadas as bases por colonos de Mossamedes. Não se contentando com a exploração do Cunene, explorou todos aquelles sertões de Quipengo, dos Gambos, e conseguiu affastar os gentios cujas incursões ameaçavam continuadamente a segurança da colonia.

Tambem a Inglaterra, que tanto blasonava da guerra que fazia á escravatura, não podia facilmente protestar contra a occupação do Ambriz, porque os factos provaram exuberantemente que o Ambriz estava sendo um centro de commercio de escravos. Coelho do Amaral encontrou depois da occupação em barracões 15o pretos destinados ao trafico. E notou elle que ninguem appareceu a dizer-se proprietario d'esses escravos. Envergonharam-se provavelmente os negociantes inglezes de reclamar semelhante propriedade.

Continuavam entretanto as tentativas para desenvolver o ultramar, devemos dizer porém que muitas vezes ficavam infructiferas, ou se resumiam em decretos que não passavam do papel. Occupou-se o porto de Pinda para baixo de Mossamedes, mas nunca se tornou esta occupação verdadeiramente effectiva, abriu-se em Moçambique o porto de Angoche ao commercio, mas só em 1 86 1 se subjugou o sultão d'essas paragens e se es tabeleceu o districto que bem pouco tem prosperado. continuaram-se a conceder terras em Cabo Verde, em Angola, em Moçambique, mas a maior parte d'essas concessões caducaram, mandou-se abrir uma estrada que de Lourenço Marques ou de Inhambane se dirigisse á fronteira do Transwaal onde ia adquirindo incremento a nova republica dos boers, mas só trinta annos depois essa estrada se chegou a concluir, concederam-se em Angola as minas do Bembe a Francisco Antonio Flores, auctorisou-se o governador de Angola a dar ao concessionario uma força militar que lhe garantisse a occupação. Deu-se-lhe a forca, fez-se A occupação, mas as minas ficaram por explorar.
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A colonia de Pemba não tardou a dispersar-se, não só porque estava mal organisada, porque fora estabelecida em terreno ingrato, mas porque tambem se compunha de elementos detestaveis. Além d'isso não devemos occultar que Sá da Bandeira, que tão perfeitamente comprehendêra as altissimas vantagens da colonisação, que tanto se esforçou em a fazer progredir, não procedeu com um methodo rigoroso á execução do seu plano, dispersou muito os seus esforços, e muitas vezes procurou realisar verdadeiras utopias.
Assim ao mesmo tempo que tratava da colonia de Pemba, mandava 29 colonos allemães para Mossamedes, recommendando ao governador que formasse com elles uma aldeia a que daria o nome de Krus, por ser esse o nome do homem que os contractára; auctorisava por portaria de i5 de julho de i857 a despeza feita pelo governador de Cabo Verde com uma colonia que se devia fundar na Guiné no territorio do Rio-Grande, onde já houvera uma povoação portugueza denominada Santa Cruz. Nada d'isso foi por diante como não foi por diante a concessão feita a uns allemães em i858 de terrenos na Zambezia tambem para fundação de colonias.
Concebeu também a idéa sympathica, mas impraticável nas condições do nosso exercito e principalmente do exercito ultramarino, de fundar colonias militares, uma em Angola em Huilla, outra na Zambezia no districto de Tete, e ainda outra na provincia de Satary na índia.

Na colonia de Huilla especialmente empenhou o marquez de Sá todos os seus esforços absolutamente infructiferos. A portaria de 26 de dezembro de i857 ordenava que se organisasse em Lisboa, com soldados europeus casados, lavradores ou artifices, a i.a companhia do 3.° batalhão de caçadores de Angola que devia formar o nucleo da colonia militar. N'outra portaria da mesma data, e nas de 3 de fevereiro, i0 de julho, 27 e 3o d'agosto de 1858, reconhecendo que parecia
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Ver tb AQUI

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O naufrágio do vapor ‘Mossamedes’




O naufrágio do vapor ‘Mossamedes’
fonte:
Ilustração Portuguesa
(12-05-1923)


 Artigo que refere ter o comandante e a tripulação do navio «Salvador Correia» recebido louvores pelo salvamento dos náufragos do vapor «Mossamedes», acidentado na costa africana em Abril de 1923





Mossamedes
Artigo publicado no jornal ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA  2a. Série no. 904, de 16 de Junho de 1923.



Mossamedes SS era uma embarcação de passageiros / Cargo Português de 4.607 toneladas construída em 1895 por Alexander Stephen & Sons, de Glasgow, Yard Não 359 para o Peninsular & Oriental Vapor Navigation Company em Londres, como o SS SUMATRA. Ela foi alimentada por uma de vapor exansion, triplos, 2200 IHP, dando 11 nós. Em 1914 ela foi comprada pela Steamers árabe, Bombaim e em 1915 pela Empreza Nacional um parágrafo Vap África Portu gueza e rebatizou a SS Mossâmedes

Em 1919 e foi vendida para a Cia. Nacional de Navegação, Portugal. O Mossamedes deixou a Cidade do Cabo para Lisboa em 20 de abril de 1923, com 237 passageiros e tripulantes. Sobre os sinais sem fio e que em 24 foram enviados para fora  o navio tinha corrido em terra na costa de Angola.

O forro da porta Victor imediatamente alterado o curso e feito para o naufrágio. Na chegada, ela encontrou o s Mossamede mentindo alto e seco na praia, mas nenhum traço de passageiros ou tripulantes. Botes salva-vidas não eram visíveis eo Victor Porto depois de procurar por algum tempo passou a Cidade do Cabo.

Os barcos do forro destruído, com exceção de um que virou quando do lançamento, tinha decidido fazer para Porto Alexandre, o local mais próximo. Por quase uma semana que viajou em mar aberto, tornando-se separados e sofrendo muito sofrimento.

Um barco contendo 24 pessoas nunca se ouviu falar novamente. Os outros foram apanhados pelos franceses canhoneira Cassiopee, o Português canhoneira Salvador Correia e pelos navios de pesca de Porto Alexandre.

Em todas as 31 pessoas foram perdidos, sete por afogamento quando o barco do navio naufragou e 24 no bote salva-vidas. Duzentos e seis pessoas chegaram Porto Alexandre. Sr. Paulino, o primeiro oficial, exibiu gallantry grande repetidamente mergulhar no mar e resgatar as pessoas que tinham sido arremessados ​​para fora do bote salva-vidas virou

ORIGEM

domingo, 14 de agosto de 2011

Francisco Newton nas terras altas de Mossâmedes (Huila): 1880 e 1885

 

Francisco Newton. "Retrato tirado na Ilha do Fogo, em 3 de Novembro de 1889, depois da ascensão ao grande vulcão". In Duarte Silva.



EXPLORAÇÃO NA ÁREA
 DO GOLFO DA GUINÉ
 

Percorremos durante esta jornada toda a distância que vai da Pedra Providência
à fazenda Nascente, na margem do rio Munhino.
É seu proprietário um cavalheiro chamado Nestor, afamado caçador de leões,
que até à presente data tem, ao que diz, livrado a zona que habita
de vinte e seis destes ferozes animais.
Entre várias peripécias sucedidas a este senhor (que têm sido muitas, 
pondo por vezes em risco a vida deste segundo Gerard), 
ouvimos contar uma que pelo ridículo merece apontar-se.

H. Capelo & R. Ivens
De Angola à Contracosta 

A primeira vez que Newton esteve no planalto de Huila, aí por 1880 e tantos, ia êle em companhia de um titular belga, riquíssimo, muito neurasténico, que procurava, em contínuas viagens, lenitivo para os males que o torturavam e tiveram epílogo trágico, no suicídio, a bordo do paquete em que ambos regressavam à Europa, escreve Duarte Silva. O biógrafo militar de Newton não identifica o lorde que, em Ferreira, se chama Elssen, e em aparência se suicida em terra angolana, obrigando Newton a seguir para o Congo, a ver Stanley, e só depois a regressar à Europa.
Aí por 1880 e tantos não é 1882. Admitamos que a primeira vez que Newton esteve na Huíla foi em 1883, apesar de Gossweiler subentender que no périplo angolano ele só explorou Moçâmedes, além de percorrer toda a costa, desde o Zaire a Cabo Frio. Cabo Frio era então limite meridional das nossas possessões na costa ocidental de África, a meio da costa do Sudoeste Africano. 
Segundo Duarte Silva, Francisco ficou hospedado em casa de Nestor[1], famoso caçador de leões, o que é extremamente original. O maior leão africano era Leo, Leopoldo da Bélgica. Nestor, além de sobrevivente do massacre de toda a sua família, nos poemas de Homero, é nome de uma localidade do planalto da Huíla. É também, por feliz acaso, nome de um navio alemão que atracava em Lisboa com carregamentos de carvão proveniente de Cardiff.[2]
Newton logo quis participar numa caçada. Nestor, para o atemorizar, contou então terríveis histórias sobre a ferocidade dos animais, confessando que até ele, que já tinha morto centenas, tremia de medo diante deles. À noite, mandou instalar-lhe debaixo da cama duas crias de uma fêmea que abatera dias antes, cativas sob uma celha. Os leõezinhos dormiram sossegados e F. Newton também. Pela madrugada, o sossego acabou, quando as crias acordaram e se puseram a rosnar debaixo da cama. Nessa altura foi a vez de Newton acordar toda a gente, aos gritos de que tinha feras no quarto.
São inúmeras as anedotas que se contam acerca dele, esclarece o seu biógrafo militar, que além disso considera Newton bom bebedor de cerveja, um boémio, tal como Anchieta, que tocava violino enquanto ia descarnando umas aves e metendo em álcool uns crustáceos, na Caconda. Leu Augusto e António Nobre,[3] como nós. E que mais? Rabelais? Para nossa consternação, Duarte Silva esquece-se das fontes e de relatar as tais anedotas[4].
E entretanto, a acreditar em Bettencourt Ferreira (1895), Newton regressa à pátria com vinte anos:
 Neste momento historico, em que o continente africano, completamente desvendado pelos exploradores de todas as nacionalidades é objecto de todas as ambições, a Inglaterra pelo British Museum manda-lhe um convite para entrar ao seu serviço. Do outro lado a Associação Internacional Africana convida-o para ir do Congo ao Alto Nilo.
 Lorde Mayo também pretende a sua colaboração, segundo Bettencourt Ferreira. 
A respeito do convite da Associação nada sabemos, excepto que já décadas antes o Reverendo Livingstone fizera esse percurso, mas ao contrário, descendo do Alto Nilo a Luanda, e negando que tivessem sido os portugueses a descobrir o Congo. Também nada sabemos do de Lorde Mayo. Já acerca do convite do British Museum vamos prestar alguns esclarecimentos, colhidos em Júlio Brandão.
Antes da partida de Newton para África, um grupo de jovens intelectuais do Porto ofereceu-lhe um jantar no restaurante Floresta das Camélias, no qual o senhor Leitão servia, sem dó nem piedade, um vinho que era uma perfeita zurrapa[5], mas os nossos clientes, tirados de um retrato de A Família Inglesa, preferiam cerveja, e ale. Entre outros amigos, estavam presentes Augusto Nobre e o irmão, o poeta António Nobre, João Novais, Aureliano Cirne, Carlos Ehrardt, Hamilton de Araújo, irmãos Artayet, João Barreira, Morais Rocha, Eduardo Sequeira e o próprio Júlio Brandão. Grupo dito da boémia romântica do Porto, de que se salientaram republicanos como Artayet e João Barreira, além de um dos nossos maiores poetas.
Por alturas da sobremesa, o Jau subiu a escada para também ele confraternizar. O Jau, um jerico, recebeu pomposos discursos de homenagem. Por incrível coincidência, Jau, como Nestor, é uma localidade da Huíla.[6] E se Nestor[7] é um herói da epopeia homérica, Jau era escravo do nosso épico.
Noutra altura, e felizmente Júlio Brandão esquece-se das datas, ou teríamos de inserir este científico episódio em 1892, o cônsul inglês Honorius Grant procurou Augusto Nobre, para obter variedades de moscas, solicitadas pelo British Museum. Augusto Nobre sugeriu Newton, muito capaz do exercício e necessitado de dinheiro. Acordou-se meia libra por dia para a exploração das moscas de Portugal. Se bem que ainda menino e moço, Newton morava então no Hotel Lusitano, e não em casa dos seus pais. Para satisfação da encomenda, apanhou todas as moscas lusitânicas que havia no hotel e enviou-as em tubos para Londres. Augusto Nobre é que recebeu o ultimato britânico, lá desculpou o incansável explorador, que encheu os museus da Europa com valiosas colecções, e não teve outro remédio senão arranjar explorador que fosse realmente para o Quadraçal, Alfeite (Quinta do Infantado, onde apareceram os três únicos exemplares de Certhilauda duponti  var. lusitanica, coligidos em Janeiro, Julho, Setembro, Novembro e Dezembro, como esplendidamente contam pelos dedos os ornitólogos), Cortegaça, Esmoriz, Rio Mattosinhos e profundidades submarinas de Setúbal, caçar moscas selvagens.  
@ 
Posto isto, por onde andou Francisco Newton entre 1880 e 1885?
As únicas considerações que desejo fazer são as seguintes:
- As fontes dão-nos uma imagem de percurso sem princípio nem fim: antes de nascido, já Newton era um naturalista competente; a morte não o detém, uma vez que morre três vezes. Por isso ele nunca está pela primeira vez em dado local: antes de nomeado para o Golfo da Guiné, já tinha andado por S.Tomé, Príncipe e Fernando Pó; antes de nomeado para a Guiné, já tinha andado por Orango e Bolama; antes de nomeado para Timor, já tinha ido várias vezes a Timor; antes de nomeado para Angola, já tinha andado por Angola; antes de nomeado para Cabo Verde e Guiné, já tinha andado em Cabo Verde e na Guiné.
- O seu currículo, subscrito por um colectivo científico internacional, é uma paródia que obedece a um plano e ao conhecimento de técnicas subversivas, como a língua das aves.
- O que conhecemos de Newton - exemplares de plantas classificadas de origem, boa técnica de colheita e preparação, desenhos[8] - permite dizer que a sua educação como naturalista prático era muito boa.
- Newton andou realmente por África, pela Indonésia e por Macau[9], deve ter ido à América e à Índia, mas não saberia dizer quando, porque a principal venda que oculta os seus movimentos é a data em que os realizou. A segunda é a da identidade: o facto de ter anexado Frank, Reesetán, Aguiar, etc., a Francisco Newton, não quer dizer que tenha esgotado a lista dos heterónimos; e também não quer dizer que possa atribuir a Francisco as acções executadas pelos seus duplos. 
- O inverso também pode ter acontecido, embora pareça improvável: Francisco Newton ter sido apenas capa das actuações de outros naturalistas e agentes, nada tendo feito na vida além de gozar Miss Ale. E nessa altura as colecções terão sido reunidas por Bayão, Welwitsch, Frank Newton, Padre Antunes, Anchieta, Craveiro Lopes, Capelo, Ivens, Serpa Pinto, Leyguarde Pimenta, Sisenando Marques, tantos outros. Todos coligiram antes de Newton, excepto no Daomé, em que sem dúvida foi pioneiro, e talvez em Ano Bom. Os exemplares estavam nos museus, bastou à retaguarda atribui-los a Newton - de preferência só em textos publicados. E as colecções de Newton foram subtraídas ao domínio público, como a de Ano Bom, só parcialmente publicada por Sobrinho, já nos nossos tempos. Noutras colecções, como as de vertebrados do Museu de Coimbra (Themido), Newton nem sequer figurava como colector. Ele é um dos últimos exploradores do século XIX, já transita para o nosso. Não só todos lhe tomaram a dianteira como ele se toma a dianteira a si mesmo, ao explorar por nomeação o que já tinha visitado sem ela. Ora é muito simples introduzir animais, plantar e semear o que não havia antes em dada região, e depois colher os frutos. Estes frutos, se não forem espécies novas para a ciência, são pelo menos espécies novas para essa área geográfica.
 E é altura de não ajudar o leitor a responder a esta pergunta, que só abarca uma parcela do enigma: que tipo de pessoa é aquela que viaja muito, mas nunca se sabe onde está em dada altura, cujo paradeiro amigos influentes ocultam sob falsa e contraditória informação, que não se sabe exactamente o que faz, para quem trabalha, nem que instrução tem além da aparente?
Antes de desencadeada a quixotesca Operação Dulcineia, Henrique Galvão[10] fez constar que estava hospitalizado em Lisboa. O seu amigo Humberto Delgado deu aos jornais a notícia de que se encontrava em Paris. Henrique Galvão, quando uns o julgavam em Paris e outros em Portugal, estava escondido num hotel de Caracas, na Venezuela, América do Sul, à espera de embarcar no Santa Maria. Terá embarcado sob a sua própria identidade? 

[1] Nestor é usado como nome iniciático.
[2] Diário de Notícias, 6 de Junho de 1895.
[3] António Nobre - Alicerces, seguido de Livro de Apontamentos. Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, Lisboa, 1983. Leitura, prefácio e notas de Mário Cláudio. O poema Miss Ale, dedicado a Francisco Newton, vem no conjunto Alicerces, datado de 1882-1886.
[4] A literatura de viagens é muito popular, quem faz história da História Natural portuguesa leu os livros de Serpa Pinto, Capelo e Ivens. Esta seria pelo menos uma boa desculpa para a omissão, se as obras fossem atribuídas aos seus verdadeiros autores.
[5] O Correio do Porto, 12 de Julho de 1886.
[6] Jau é aportuguesamento de Injau ou N’jau, nome do sobado.
[7] Capelo e Ivens contam uma divertida história deste famoso caçador de leões, que se passa na cozinha, não debaixo da cama onde não dormiu Francisco Newton.
[8] Não me refiro a esboços feitos nas cartas, inócuos, sim a desenhos de plantas, existentes no Herbário do Jardim Botânico de Lisboa, e ao da Tyrophorella, publicado por Girard. Nos Carbonários, interpretámos como signos de guerra os nomes de espécies críticas formados a partir de tiro, e de facto são. Mas não se trata de tiro, sim de Tiro, a pátria de Hiram, o herói fundador do mito encenado no ritual do terceiro grau da maçonaria. Neste sentido, a função é igual à dos nomes Didus e Ennea. Ninguém sabe nada, actualmente, da Tyrophorella, um caracol com duas conchas, ou um univalve bivalve, tal como a Welwitschia, ao mesmo tempo criptogâmica e fanerogâmica - algo como o filho de um cogumelo e de uma rosa. 
P.S. Recebemos informação de Angus Gascoigne, biólogo residente em S. Tomé, de que a Tyrophorella foi recentemente redescoberta: http://www.ecofac.org/Canopee/N0

Eis o seu e-mail:

Estela

O Thyrophorella existe! Eu redescobri este caracol ha oito anos. Depois eu te mando uma referencia onde podes ver um foto do animal vivo.

Um outro animal de ST muito interessante é o morcego Myonycteris brachycephala que e o unico mammifero com um formula dental asimetrico!

Angus

E tambem Pelusios castaneus existe em ST.

        [9] Declara-se para os devidos effeitos que se apresentou n’esta secretaria geral, em 18 do corrente mez, o explorador zoologico Francisco Newton encarregado de estudar a fauna da ilha de Timor. Secretaria geral do governo em Macau, 21 de Dezembro de 1895. Alfredo Lello (Boletim official do governo da provincia de Macau e Timor, 21.12.1895).
[10] O capitão Henrique Galvão, naturalista e caçador, foi quem convidou A. Ricardo Jorge a representar o Museu Bocage na Exposição do Mundo Português. Ficou célebre o seu rapto do paquete Santa Maria, como acção subversiva ao governo fascizante de Salazar. O mais curioso é que em Lisboa havia autoridades a quem tinha sido denunciado o verdadeiro local onde se encontrava, mas, no meio de tanta informação contraditória, não acreditaram que fosse em Caracas (Capitão Miguel Garcia, comunicação pessoal).


In TRIPOV

sábado, 13 de agosto de 2011

Familias antigas de Moçâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Thomás da Fonseca. A pescaria do Mocuio




João Thomás da Fonseca (pai) , ao centro, com  o seu bigode de ponta retorçida, como era moda na época, e indumentaria em conformidade sua posição de industrial privilegiado e bem sucedido. 1920?

 João Thomás da Fonseca (pai), ao lado de sua esposa, Celeste Sena, filha de Sebastião Sena. Entre ambos, a filha Celeste por volta de 1914


Foto: João Thomás da Fonseca (pai)  com um grupo de convidados entre os quais alguns oficiais da Marinha, a caminho do Mocuio onde possuia uma pescaria. Foto tirada em 1914/15?   Não sei se terá algo a ver com esta foto onde podemos ver alguns oficiais da Marinha, mas em 1914, o receio de uma ofensiva por destacamentos alemães sobre o planalto vinda do Sudoeste, e sobre Moçâmedes e de Porto Alexandre agitou sensibilidades e pôs a região em polvorosa. Em consequência,  Moçâmedes transformou-se num importante factor de defesa no quadro das operações terrestres realizadas no Sul de Angola, tendo o seu porto  desempenhado um importante papel  no decurso da movimentação de forças militares portuguesas e contra alemães e indígenas insubmissos, como porto de desembarque e de evacuação, e estação depósito. 

É interessante notar que as senhoras estão sentadas sobre caixotes, e que naquele tempo cada um  deles acondicionava 2 latas de 20 lts de gasolina, neste caso, da marca Sphinx. Isso acontecia porque naquele tempo não havia estações de serviço e a gasolina vinha em latas, havendo ainda publicidade desta marca de gasolina na Serra da Chela, tempos mais tarde.

Conforme vem descrito por Luiz Chinguar em "Ossos da colonização", "...até meados da década de 50 obtinha-se gasolina comprando latas (20 litros) ou tambores (200 litros), que depois se transportavam nas viagens, uma vez que nos “bicanjos” não havia bombas para abastecimento. Nas povoações do mato havia umas bombas manuais oferecidas pelos produtores de petróleo do Texas. Estas bombas eram constituídas por um carrinho, de duas rodas, que fazia lembrar as quadrigas romanas, só que em vez do Ben Hur (condutor) estava um tambor de 200 litros. A quadriga tinha uma “torre” de 2,5 m de altura que terminava em dois reservatórios de 5 litros, para onde era elevada a gasolina através de uma bomba manual de êmbolo, num sistema de vai-vem. Enquanto se esvaziava um reservatório para o carro, por gravidade, bombeava-se a gasolina para o outro reservatório, e assim sucessivamente, em golfadas de 5 litros. As latas e os tambores vazios eram depois aproveitadas para transporte de água. Uma água que, durante uns tempos, tinha um leve travo a gasolina, isto para não dizer que cheirava e sabia a gasolina" . Africa era assim! ver  OS ESQUELETOS NOS ARMÁRIOS

A pescaria do Mocuio nos seus tempos áureos

 
As instalações da pescaria do Mocuio. Junto das tarimbas de peixe seco: João Tomás da Fonseca (filho), ao centro, e  à dt., Faria, o encarregado da pescaria, pessoa muito estimada que ali trabalhou durante 50 anos. 1942?

Tudo começou quando João Tomás da Fonseca (pai), algarvio de Tavira, conhecido pelo "Bandeirinha",  nos tempos críticos  que antecederam a implantação da lª República (1910-1926), resolveu emigrar para Angola, onde foi por algum tempo contramestre de caíque que operava por toda a costa, até que um dia resolveu, com as facilidades governamentais obtidas  e  dinheiro amealhado ao leme de veleiro estabelecer-se no Mocuio, onde montou a sua pescaria, requisitou pessoal indígena, comprou os primeiros barcos à vela e remos, pagou mestres de terra algarvios que mandou vir para a sua pescaria,  montou três armações à valenciana, e depressa prosperou e fez-se ganhar respeito e influência no meio industrial limitado da Moçâmedes de então. Quem o  conheceu não esquece sua postura, sempre vestido de casaco de bom talhe, paletó, corrente de relógio suiço no bolso suiço, autêntico retrato de burguês bem de vida!

 Segundo informações colhidas do livro "Baía dos Tigres", o Mocuio era uma importante pescaria que nos seus tempos aureos (a industria piscatória tinha os seus altos e baixos) possuia salinas, fábrica de  conservas e de farinha e óleos de peixe, salga e seca, uma pequena congelação e estaleiro, para além de uma traineira de 80 toneladas, 2 sacadas só para a pesca do cachucho e da garoupa e 2 armações, que, para funcionarem precisavam no mínino de 4 barcos para efectuar a pesca à valenciana, e possuia também mais de 20 embarcações pequenas, para além de um Chalé do princípio situado num pequena elevação do terreno, o suficiente para qualquer pessoa ali instalada pudesse contemplar o oceano, os barcos que entravam e saiam, a azáfama que percorria  a pescaria.

A pescaria do Mocuio foi evoluindo, e João Tomás da Fonseca (pai) rodeou-se de todo o conforto possível, e mandou construir naquela praia deserta perdida nas escarpas do deserto, o seu bonito Chalet onde nada faltava em termos de conforto, inclusivamente um sistema de aquecimento e de canalização de água,  um mirante a partir do qual podia, sentado de fronte para o oceano, observar os galeões que entravam e saiam, para receberem a carga  que transportavam para o norte de Angola (Cabinda), Ponta Negra, Gabão e Golfo da Guiné,  levando dali o que havia (ovas, peixe seco, barbatanas de tubarão), e recebendo a troco de bordão, madeiras, etc, enquanto ao mesmo tempo ia observando, lá de longe, a azáfama da laboração pesqueira.


O Mocuio não possuia água potável, era a partir de Moçâmedes que a água era de início transportada  em enormes pipas, em barcos e em carroças puxadas por  bois, e mais tarde em camiões.

 
Na continuidade do Mucuio, navegando para norte de Moçâmedes (Namibe) ficam a Mariquita, o Chapéu Armado, S. Nicolau, Bába, Lucira, Vissonga, e a sul, a Baía das Pipas. Chegados  Moçâmedes e navegando para sul, encontram-se Porto Alexandre e  Baía dos Tigres. Em todas estas baías e enseadas isoladas de uma uniformidade que fadiga e desola, os algarvios foram se estabelecendo desde a segunda metade do século XIX. Para ali levaram as primeiras armações, ali  montaram as primeiras pescarias e lançaram ao mar as primeiras redes. Para saber mais, clicar AQUI. 


Fotos: Estas as mais recentes fotos do Mocuio, onde se pode ver ainda, 35 anos depois, sobressaindo entre as areias douradas do deserto e as tonalidades várias de azul do mar e do céu, aquela que foi até 1975, a pescaria de João Thomás da Fonseca (Herds), e o seu chalet cor-de-rosa, que mais de perto podemos ver na última foto, já em estado de degradação.
 
 
Mocuio, outrora uma progressiva pescaria, hoje um destino para turistas?
Fotos  publicadas no Facebook por João Thomás da Fonseca (neto).